Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 30 de julho de 2012

Edital do Governo Civil de Braga, de 1884, convidando colonos a estabelecerem-se nas terras altas da Huila, no distrito de Moçâmedes










ver AQUI


O que este Edital de 11 de Fevereiro de 1884, nos diz é que o Ministério da Marinha e do Ultramar  o mandou publicar, interessado que estava em fazer embarcar no Vapor India  ate 50 colonos que desejassem estabelecer-se em Moçâmedes segundo o Regulamento 18 de Agosto 1884,   homens validos trabalhadores com idade não superior a 35 anos  agricultores ou operários de oficios inerentes aos trabalho agrícola  (carpinteiros, pedreiros ferreiros, etc ) preferindo-se casados.

 Um subsidio de 39 mil réis em dinheiro, alem de passagem, e mais uma arma de fogo e respectivos apetrechos, 1 machado , duas enxadas e uma pá de ferro um colchão de palha , um travesseiro e 4 lençóis de algodão, 1 cobertor e duas toalhas. 2 pentes 2 bacias de zinco, duas escovas,  1 panela de folha , 1 caçarola, 6 pratos, , 2 tigelas, 2 canecas, 1 colher, 1 garfo e 1 faca.  à chegada a Angola ficarão ao cuidado da Junta de Protecção de Emigrantes que tratará de lhes dar destino mais conveniente  no distrito de Moçâmedes que é como todos sabem, muito saudável, rico,  e com todas as condições dos melhores  países da Europa onde terão a protecção da autoridade e a convivência dos que falam a mesma língua e têm a mesma pátria.



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O que estava acontecendo é que o ano de 1884 foi o da realização da Conferência de Berlim, a célebre Conferência que levou à partilha da Africa pelas potencias europeias industrializadas, e Portugal, que pensava deter direitos históricos, sem ter que proceder à ocupação efectiva dos territórios que em Africa ocupava, teve que, no respeito pelas determinações dali saídas ,que proceder à sua ocupação com familias portugueses, sob pena de os ter que ceder a outra potência em condições de o fazer.

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Transcrevo parte de um trabalho subordinado ao teme "A Política Colonial Portuguesa em Angola" Autor(es): Ferreira, Vicente Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL persistente: http://hdl.handle.net/10316.2/36493 Accessed : 14-Dec-2018 03:02:13



II AS IDEIAS MODERNAS SOBRE COLÓNIAS E COLONIZAÇÃO Meus Senhores: 1. —Pois que pretendo ocupar-me das «Ideias Modernas sobre Colónias e Colonização», é lógico concluir que houve ccideias antigas», Quais eram essas ideias e como se evolucionou das antigas para as modernas? Tanto quanto nos é lícito concluir da leitura dos velhos cronistas e dos historiadores dignos de fé, o objectivo das primeiras expedições marítimas portuguesas, no século xv, — a fora a satisfação de uma natural curiosidade —, era alcançar riquezas e ocupar terras. Objectivo materialista e interesseiro, por essência. As ideias de tutela e de educação das raças, chamadas inferiores, eram estranhas aos objectivos e à moral política da época, em grande parte baseada no direito do mais forte. O apostolado da fé católica entre as populações selvagens da África e da Ásia apenas surgiu, e como propósito secundário, por influência do clero secular e das ordens religiosas. Ninguém ainda pensou, — creio eu —, em comparar as expedições organizadas pelo infante D. Henrique, com a dos cinco Mártires de Marrocos em 1220, organizada por S. Francisco de Assis. «Senhores da conquista, navegação e comércio» eram os títulos de que se revestia a vã glória dos nossos reis, e correspondiam aos objectivos visados. 2. — Não havia também nos séculos xv e xvi, em Portugal ou em Espanha, um excesso da população em desharmonia com os recursos do território continental, a colocar em terras vagas ou conquistadas. A expansão ultramarina dos povosda Península não se assemelhou, portanto, ao enxamear das Colónias gregas da antiguidade, à cleroquia, ou emigração de grupos para fundarem novas cidades e cultivarem novas terras. Se algumas foram povoadas, como as ilhas da Madeira e dos Açores, é porque nessas ilhas desertas, a exploração só era possível fixando nelas a «mão de obra» importada do Reino. E certo que depois da conquista de Goa, o grande Afonso de Albuquerque pretendeu criar uma população mixta de luso indianos, para assegurar a perenidade do domínio português na índia; mas o objectivo do grande capitão era sobretudo político, não se podendo classificar a medida como tentativa de fundação de uma colónia de povoamento. Seria um contrasenso. Portugal tinha pouca gente e a índia tinha^a de mais. 3. — O descobrimento das ilhas de Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, nas últimas décadas do século xv, e o descobrimento do Brasil em 15oo trouxeram uma nova modalidade de colonização: a «fazenda» ou «roça», isto é, a exploração agrícola do solo, e mais tarde a exploração mineira. Sabe-se como, pouco a pouco, o Brasil se transformou em colónia de povoamento, sem deixar de ser uma colónia de plantações. O clima impediu idêntica transformação em S. Tomé e Príncipe, que ainda hoje se cultivam com mão de obra importada do continente africano. 4. — A ideia da posse ou usufruto exclusivo do comércio e da exploração das terras descobertas e conquistadas foi, como se sabe, a característica dominante da política colonial primitiva dos portugueses e espanhóis. Os outros países, Holanda, Inglaterra e França, que mais tarde disputaram o passo aos dois povos da Península, adoptaram a mesma política, única que, aliás, correspondia às ideias da época sobre a riqueza das nações.Os direitos de navegação e comércio ultramarinos ficavam reservados, exclusivamente, para as respectivas metrópoles. Os navios das outras nacionalidades apenas eram admitidos nos portos das colónias para fazerem aguada ou repararem avarias. Era considerado delito grave embarcar nesses navios os produtos de cujo trato a metrópole se reservara o monopólio, o que deu lugar ao desenvolvimento do comércio de contrabando, — o célebre commerce interloppe dos franceses —, e à pirataria oficial, podemos dizê-lo, porque era favorecida, mais ou menos abertamente pelos estados rivais. Se a metrópole se arrogava o monopólio das produções coloniais, não era menos ciosa quanto à venda às colónias dos produtos da indústria europeia, nacional e nacionalizada. Este sistema de sujeição absoluta e de exploração exaustiva das colónias, constituía — como se sabe —, o famoso pacto colonial, de que ainda há vestígios na legislação e, sobretudo, nas tendências da nossa política ultramarina contemporânea, e nas ideias expendidas por homens de estado, funcionários, produtores e escritores portugueses, quando apreciam as relações da metrópole com os domínios ultramarinos. 5. — No decorrer dos tempos, porém, o próprio desenvolvimento económico das colónias, a difusão dos princípios liberais, e a melhor compreensão dos interesses económicos, criaram nas colónias o espírito de resistência às exigências das metrópoles, e nestas uma concepção diferente dos direitos e deveres das nações colonizadoras. Mas a causa imediata e mais activa da abolição do pacto colonial, pelo menos no seu rigorismo primitivo, foi a pressão exercida pelos países concorrentes, sobretudo pelos que, tendo alcançado um grande desenvolvimento industrial e comercial, cubiçavam os mercados coloniais de todo o mundo, para venda dos seus arte­factos, e para a aquisição de mate'rias primas, dos metais preciosos e das rendosas especiarias. ó. — As tradições seculares da colonização portuguesa, foram assim profundamente abaladas. Desde o final do século xvn que se pronunciara mais activamente o ataque,— nem sempre por meios brandos e leais —, às barreiras que defendiam o monopólio ultramarino. Foi, porém, no decurso do século xix,— sobretudo na segunda metade —, que toda a política colonial portuguesa teve de sofrer uma transformação completa, sob a pressão, por vezes brutal, de interferências estranhas. Se a soberania da coroa portuguesa nos vastos territórios africanos, cuja posse reivindicávamos, tinha sido até então muitas vezes atacada e subvertida pelo irrespondível argumento da força, os chamados direitos tradicionais à posse dêsses territórios eram, em princípio, reconhecidos por todos os estados civilizados. 7. — Vem aqui a propósito recordar, que até ao meado do século xix, os europeus, portugueses ou estrangeiros, pouco conheciam do interior da África Tropical. Os estabelecimentos portugueses em Angola e Moçambique quási se limitavam a alguns pontos da orla marítima, onde existiam feitorias, portos de aguada e fortalezas ou presídios, que os seguravam contra os ataques dos indígenas e, sobretudo, contra as empresas dos corsários franceses e holandeses. A actividade económica destas colónias, depois que afrouxara, apagada pelos revezes, a ilusão das minas de prata e de ouro, quási se reduzia ao comércio de escravos, as «pessas», como lhes chamavam, e de alguns produtos naturais do solo. E certo que desde o século xvi, comerciantes, aventureiros e missionários portugueses tinham avançado pelo sertão, percorrendo-o de costa a costa, ou estabelecendo-se entre as tríbus negras; mas o que hoje chamaríamos «ocupação efectiva», poucas léguas se estendia para o interior das terras, e só em torno dos presídios do litoral. Nas relações com os indígenas, a nossa política assemelhava-se ao que hoje se chama, na linguagem pomposa das chancelarias, o sistema de protectorados. Fazíamos tratados de amizade e vassalagem com os régulos e deixávamo-los governar as suas tríbus conforme o seu direito consuetudinário; apenas exigíamos que nos dessem liberdade de comércio e de trânsito e, a título de reciprocidade, que nos auxiliassem nas guerras com as tríbus insubmissas. Os nossos cuidados pelo seu bem-estar e educação moral, limitavam-se ao envio de alguns missionários, franciscanos ou jesuítas, que mais de uma vez pagaram com a vida o zêlo apostólico. A este tipo de actividade colonial se refere Oliveira Martins no seu livro O Brasil e as Colónias Portuguesas que eu considero uma espécie de elegia da decadência das velhas ideias sobre colónias e colonização. 8. — A primeira lição dos modernos conceitos da política colonial foi-nos dada pela conferência de Berlim (1884-1885). Como é sabido, saiu dessa célebre conferência o princípio de que as nações soberanas tinham «a obrigação de assegurar nos territórios ocupados por elas nas costas do continente africano, a existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e, em caso de necessidade, a liberdade de comércio e de trânsito, nas condições em que esta fôr estipulada» (Art.° 35.° da Acta geral da Conferência de Berlim). E para que não restassem dúvidas no espírito do govêrno português quanto ao valor atribuído aos nossos alegados «direitos históricos», fomos informados, em 1887, pelo govêrnobritânico, de que a ocupação tinha não só de ser efectiva,mas de ser «em força suficiente para manter a ordem, proteger os estrangeiros e dominar os indígenas» (1). Passou a não bastar, portanto, que possuíssemos fortalezas e feitorias no litoral, e celebrássemos tratados de amizade e vassalagem com os sobas e outros potentados africanos, como era da tradicional política, para que nos deixassem explorar tranquilamente o monopólio do comércio de Angola e Moçambique. Impunham-nos de fora, uma nova forma de acção, que se traduzia pela necessidade de avançarmos pelo sertão e de ocuparmos «em força» os territórios cujo domínio supunhamos assegurado por solenes tratados. A nova política ia-nos custar novos dispêndios de fazenda e vidas, a juntar às que já tínhamos sacrificado para manter o domínio português e propagar a fé católica no interior do Continente Negro. Contava-se, por-ventura, com a nossa tibieza perante a enormidade do sacrifício exigido, para nos levarem, definitivamente, a desistir de empresas coloniais; como se estas não fossem,:— como demonstraremos — , uma condição vital da existência da nacionalidade portuguesa.— A-pesar-de tudo, continuou Portugal a esperar, con-fiado na justiça e no seu bom direito, que a soberania portuguesa se poderia manter em todo o território, de costa a costa, de Angola a Moçambique. Mas da conferência de Berlim derivara, como se sabe, um conceito novo na política colonial: o das esferas de influência, estabelecido por tácito acordo das potências interessadas. Para assegurar os seus direitos, reconhecidos na conferência de Berlim, e obter o tempo necessário para desenvolver a ocupação «efectiva e em força», celebrou Portugal os tratados de 1886 com a França, de 1887 com a Alemanha e de 1891 com o Estado Independente do Congo, todos com o fim de fazer reconhecer, como esfera de influência portuguesa, os territórios que hoje separam as colónias de Angola e Moçambique. É a famosa história do «mapa cor de rosa». Mas esta nova ilusão também durou pouco. Como um sonho cor de rosa, esvaneceu-se! O ultimatum, e depois o tratado de n de Junho de 1891, aboliram de vez, pelo direito do mais forte, os apregoados «direitos históricos de Portugal». Foi a segunda lição! Ficámos sabendo, definitivamente, que, para conservarmos o pouco que nos deixavam, tínhamos de nos precaver contra as ambições e cobiças dos vizinhos, nem sempre escrupulosos nos meios que empregam para as satisfazer. Por uma natural reacção, veio substituir-se à doce indolência e à cega confiança nos «tratados» e nos «direitos históricos», a inquietação e a desconfiança contra os vizinhos, talvez tão exagerada como o sentimento oposto; mas inteiramente legítima e justificada pelos factos antecedentes, e que outros, dos nossos dias parecem reforçar. 10. — Uma terceira lição pode dizer-se que nos foi dado pelos acordos secretos de 1908 e 1913, celebrados entre a Inglaterra e a Alemanha: — a de que as grandes potências nãohesitam em ajustar as suas contendas nos lombos dos mais fracos, e que a nossa Fiel Aliada, é tão pronta em ajudar-nos com os seus bons ofícios, nas nossas dificuldades internacionais, como a vender-nos, quando por essa forma satisfaz o seu particular interesse. O que é bom relembrar de quando emquando. Mas algum proveito espero que saberemos tirar desta lição e da que resultou do tratado de Versailles: a certeza de que, doravante, nos será permitido justificar o nosso direito à posse das colónias, pela acção civilizadora que nelas exercermos, e que por «civilizar» no sentido que a moderna giria internacional, atribui à palavra, se deve entender: —ocupar, apetrechar e explorar economicamente. A protecção aos indígenas e o aperfeiçoamento moral e social destes, embora figurem sempre no primeiro lugar, nos escritos e discursos dos homens públicos, são apenas, —quando o contrário não convém—, uma simples consequência daquelas obrigações, ou um meio de as satisfazer. Quando o contrário convém, pratica-se a «política de segregação», como na África do Sul; ou aplicam-se aqueles processos mais radicais, que ganharam para os anglo-saxões o merecido epíteto de raça exterminadora. 11. — As ideias modernas sobre colonização, ideias que temos de aceitar, porque elas resultam de circunstâncias políticas, sociais e económicas, superiores à vontade dos indivíduos e das nações, baseiam-se, portanto, no que convencionaremos chamar o princípio do maior benefício, isto é, do maior proveito para a civilização em geral. Êste princípio tende a restringir o direito de soberania, como a noção de utilidade pública, interpretada como de «utilidade do maior número», restringe, em proporções até há pouco inconcebíveis, o direito de propriedade. Entende-se que as nações colonizadoras, só porque o são,assumem perante o mundo civilizado, um certo número de obrigações, cujo cumprimento é «condição necessária» para que o seu domínio sobre os territórios coloniais seja justificado. Esta condição devia ser também «condição suficiente» se, por detrás de todas as discussões dos juristas e dos ideólogos, não despontasse sempre o único direito incontestado, definitivo e que parece arreigado no inconsciente humano, — porque vem inalterável do homem das cavernas —o direito do mais forte. 12. — Em que consiste o «maior benefício»? — De um território dotado de valor económico, resultará o maior benefício para a civilização em geral, quando esse valor deixar de permanecer no estado de possibilidade ou de potencial, para se converter em valor efectivo ou actual, utilizável pelo maior número de homens. Se o território é capaz de povoamento, quando é povoado; se é susceptível de cultura, quando é cultivado pela forma mais perfeita e para dar o produto mais rico, por ser o mais necessário e o mais adequado à natureza do solo e do clima; se contém mine'rios úteis, quando estes são extraídos; se pode facilitar a circulação de pessoas e bens, quando está sulcado de vias de comunicaçãos as mais rápidas, mais seguras e mais económicas, segundo a sua natureza especial. Finalmente, se no território existe uma população indígena, o maior benefício resultará, — dizem —, da capacidade de produção e, portanto, de consumo que ela adquirir, — ou, por outras palavras, do grau de civilização a que fôr elevada. Todavia, a moral política moderna ainda permite que as metrópoles para si reservem certas vantagens e preferências de ordem económica; mas certos princípios, como o de livre trânsito (sem pagamentos de portagem); o de saída para o mar; de igualdade de tratamento fiscal para nacionais e estrangeiros, e outros, embora não constituam, por enquanto, um capítulo do direito internacional, são mais ou menos aceites pelo consentimento tácito de quasi todas as nações, e encontram-se exarados em muitos instrumentos diplomáticos. 13. — Em resumo, o que temos chamado o «princípio do maior benefício» impõe à nação colonizadora certas obrigações: — a de ocupar, administrar e fazer justiça; — a de proteger os europeus e manter a paz entre os indígenas; — a de civilizar estes pela educação e pelo trabalho, aumentando o seu bem-estar material e moral; — a de facilitar as comunicações pelo território colonial e o acesso dos seus portos, rios e lagos navegáveis; — a de explorar os recursos naturais, quer agrícolas, quer mineiros do solo; — a de facilitar o comércio e desenvolver as indústrias; — o que, tudo, se pode resumir numa expressão de conteúdo, indefinidamente extensível: — «obrigação de civilizar». 14. — Meus Senhores! — E à luz destes princípios, a cuja rápida e tormentosa elaboração as gerações actuais têm assistido, e ensinados pelos factos da história contemporânea, que temos de considerar o Problema da Política Colonial Portuguesa, especialmente na sua aplicação à colónia de Angola. Há ainda, no espírito de muitos homens públicos de Portugal e de certos dirigentes da opinião, grande número de conceitos erróneos sobre a importância da colonização portuguesa e sobre as obrigações que incumbem e os direitos que assistem a Portugal, como grande nação colonizadora. Não podemos abdicar dos nossos direitos e temos obrigação de os defender até à última extremidade; mas não podemos esquivar-nos ao cumprimento dos deveres correlativos, que assumimos perante o mundo civilizado. Se a tarefa, que a fatalidade histórica nos impôs, se nos afigura às vezes demasiado pesada para as nossas forças, devemos lembrar que ela é também uma tarefa gloriosa e a melhor justificação da nossa existência, como nacionalidade distinta.Aos homens de estado, ao pensadores, aos publicistas, e, em especial aos homens de ciência e aos institutos universitários, cumpre extrair da massa confusa das teorias, dos factos e das tendências particularistas de indivíduos e de grupos, os princípios orientadores da política colonial portuguesa. A êles compete também, por uma intervenção constante, fazer aceitar êsses princípios pela nação e impedir que se obliterem ou abastardem. E um dever nacional.  (CONTINUA....)



https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/36493/1/A%20Politica%20Colonial%20Portuguesa%20em%20Angola.pdf

domingo, 29 de julho de 2012

Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana

 
Moçâmedes e a sua retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐

 

1. Transcreve-se  do Portal "Hpip, Património de Influância Portuguesa", parte de um texto sobre  Namibe, Moçâmedes, Angola, Enquadramento histórico urbanistico:

"...Antes do plano elaborado no Gabinete de Urbanização Colonial pelo arquiteto João António Aguiar em 1952, a cidade estruturava‐se segundo uma retícula, em quarteirões, com edifícios implantados no seu perímetro, numa estrutura hierarquizada de ruas e praças, rematada por uma avenida marginal. A relação com o mar fazia‐se fundamentalmente pelas atividades económicas que ali se processavam, desde os armazéns ligados à pesca ao terminal do caminho‐de‐ferro e ao pontão ferroviário para cargas e descargas no porto.
 

O caso de Moçâmedes é bastante interessante, pelo facto de integrar em si duas características: a de cidade costeira, e por isso aberta ao mar, e a de urbe sob influência do caminho‐de‐ferro. Este último não interfere no desenho geral da cidade, pelo facto de se localizar paralelamente à linha da costa e junto dela. Este perfil e esta vocação viriam a ser alterados (ganhando uma componente lúdica também ligada ao mar e ao turismo), com a proposta do plano, através de uma expansão de desenho bastante formal, constituída por quarteirões fechados e abertos, compostos por tipologias de habitação coletiva e unifamiliar, com o verde como tecido agregador, esboçando uma simbiose entre o modelo da cidade‐jardim e a cidade tradicional. Esta proposta prolongava‐se por toda a extensão da Baía de Moçâmedes, criando uma grande avenida marginal, com novecentos metros de comprimento e trinta e dois de largura. Só em 1954 se voltou a elaborar um plano para a expansão da cidade, o Plano Geral de Urbanização de Moçâmedes, destacando‐se neste a construção do Porto Comercial e dos principais equipamentos públicos da cidade. Nos finais dos anos 1960, revelou‐se o potencial turístico de Moçâmedes. O seu desenvolvimento estratégico presidiu, em 1968, ao Plano Regulador de Moçâmedes e, em 1969, ao Plano Parcelar da Zona Marginal. Com a independência de Angola, grande parte dos objetivos destes planos ficaram sem efeito, verificando‐se apenas a construção parcial de dois pequenos bairros residenciais.

Fim de transcrição


2. Transcreve-se parte de um trabalho deveras esclarecedor, assinado por José Manuel Fernandes, sobre "Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana",  na parte que diz respeito a Moçâmedes, a actual cidade do Namibe

"...O período oitocentista em estudo caracterizou‐se, em termos urbanísticos, no quadro da cultura euro‐americana, pela divulgação e intensa aplicação dos planos com malha em retícula geométrica rigorosa – quer em extensões de cidades existentes, quer na implantação de novas urbes. Correspondeu à chamada fase reformista da Revolução Industrial, sobretudo na segunda metade do século XIX, quando as grandes cidades euro‐americanas, como Paris, Londres, Barcelona, Viena ou Chicago sofreram vastas intervenções planeadas e dirigidas de reorganização espacial, funcional, equipamental – adaptando‐as ao novo estatuto de cidades industriais. Estas retículas, que correspondiam à concretização racionalista, no espaço das cidades, dos novos sistemas de comunicação e transporte (caminhos de ferro, metropolitano) e de infraestruturação básica (esgotos, água, gás, depois a eletricidade), exprimiam na sua linearidade retilínea e cruzada (avenidas largas, paralelas e perpendiculares, gerando sistemas de quarteirões de planta retangular), o primado das novas técnicas e sistemas de produção fabris, a ideia de aplicação à cidade do mecanicismo como forma privilegiada de ação de modernização – ainda num quadro pré‐rodoviário, mas que com a viragem de 1900 rapidamente incluirá a adaptação urbana a esta nova modalidade.
Em Portugal, se houve extensões urbanas contemporâneas deste tipo, à escala modesta das suas cidades (em Lisboa, com a Avenida da Liberdade, em 1879, e no Porto, com a Avenida da Boavista), e mesmo a criação de algumas novas cidades (a malha reticulada de Espinho, no final de Oitocentos), a grande ou mais significativa aplicação deste nova tipologia urbana (em formato relativamente modesto, que decorria da pobreza e dos recursos financeiros escassos) verificou‐se na África Subsaariana.
Os primeiros modelos geométricos afro‐coloniais surgiram ainda na primeira metade do século XIX, com o plano de 1838 de Sá da Bandeira para o Mindelo, embora a sua aplicação concreta não tenha ocorrido. Verificou‐se, sim, um crescimento mais pragmático da cidade, com origens marianas e de início de Oitocentos, nos anos de 1850‐1870, com base numa retícula mais irregular e orgânica, num compromisso com a tradição urbana lusa da época anterior, que a implantação na baía abrigada confirmava. O desenvolvimento acentuou‐se depois com a fixação de companhias comerciais inglesas, e a elevação a cidade deu‐se em 1879.
O desenho do plano de 1838 incluía uma retícula rigorosa de ruas e quarteirões, inscrita numa área retangular, à maneira pragmática do século XIX. No interior do tecido urbano, dois eixos perpendiculares cruzar‐se‐iam numa rotunda. No extremo poente, uma praça cívica abrir‐se‐ia para o mar, contendo igreja, paço episcopal, palácio do governo e câmara; e no topo oriental, três eixos arborizados irradiariam para um parque. Nas extremidades litorais, a alfândega e o mercado completariam o conjunto. Embora não aplicado, este plano marcou claramente a mudança de paradigma urbanístico para as colónias africanas, pois nas décadas seguintes verificou‐se a aplicação de malhas geométricas, como sistema normativo de implantação de novas urbes.
Duas das retículas mais impressivas e eficazes foram propostas – e desta vez rapidamente aplicadas – às novas cidades de Moçâmedes, atual Namibe, e Sá da Bandeira, atual  Lubango, ambas no sul de Angola; portuária a primeira, de planalto interior a segunda, ambas as cidades se ligaram mais tarde por um eixo ferroviário, que as constituiu nos dois marcos fundamentais do principal eixo urbano de ocupação urbana e de penetração para o interior sul‐leste do território angolano. Ambas as cidades eram estruturadas, bem na linha do urbanismo oitocentista de essência geométrico‐mecanicista, a partir das suas respectivas retículas genéticas, moduladas e seriadas, com um núcleo institucional central, congregando as funções representativas essenciais, servindo a retícula, para além de suporte ao espaço residencial primevo, para articular a atividade urbana com a área portuária e/ou alfandegária, por um lado, e com a estação e parque ferroviários, por outro. Vejamos agora mais em pormenor a caracterização destas duas intervenções do sul de Angola.
A área de Moçâmedes teve um primeiro reconhecimento em 1839, a que se seguiu, no mesmo ano, a criação de uma feitoria e a instalação de uma pescaria algarvia em 1843. Com cerca de cento e sessenta habitantes em 1849, recebeu então colonos provindos de Pernambuco. A povoação de Moçâmedes foi elevada a vila em 1851, e a cidade em 1907, em relação com a ferrovia nascente. Cidade de areais, implantada entre o deserto, o mar e as hortas, Moçâmedes possuiu desde o início um carácter próprio e uma personalidade urbana que, excetuando a implantação inicial dos equipamentos institucionais ao longo da baía (forte, palácio, igreja, hospital), esteve sempre assente na retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐nordeste. A malha da retícula inicial, tanto quanto foi possível averiguar, ia desde o Forte de São Fernando, desenvolvida em sete quarteirões no sentido nordeste, e em três, para o interior. (...)   Na comparação entre as duas urbes (com Sá da Bandeira),  ressaltam os seus traços comuns, na forma e no tecido urbano, e nos processos de implantação e de desenvolvimento respectivos, dentro de uma mesma época e civilização material. A malha urbana de Sá da Bandeira, atrás referida, assemelha‐se, na sua escala, modulação e dimensão global, à de Moçâmedes, remetendo‐nos para uma mesma tipologia de novas cidades, certamente concebidas pelos organismos estatais no quadro ministerial ultramarino do governo português – e com planos de autorias prováveis pelas equipas de engenheiros que, trabalhando nos serviços públicos, introduziam os novos saberes técnicos, por via da influência do ensino francês, com as suas escolas de “pontes e calçadas”.

( Texto integral  ass por José Manuel Fernandes.  Património de influencia portuguesa. Fundação  Calouste Gulbenkian)

TEXTO INTEGRAL AQUI

terça-feira, 3 de julho de 2012

A respeito de caçadas, e leões do Deserto do Namibe rondando os arredores de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe)


Uma história e algumas curiosidades: O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja extremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desespero estilhaçara a espingarda e arremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dali continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crâneo com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossâmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.
                                                                               
MariaNJardim

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola (1914) : Mossâmedes e Lubango

Abraço de Despedida: partida de um Fuzileiro Naval do Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola  (1914). Foto Benoliel,Ilustração Portuguesa n.º 456, de 16 de Novembro de 1914.
Capa da Ilustração Portuguesa n.º 456, de 16 de Novembro de 1914


Moçâmedes em 1914
MARCHA NO SUL JUNTO AO LITORAL
DEZEMBRO DE 1914
(um testemunho)

(...) O caminho era unicamente um areal movediço, em que os pés se enterravam, e em que se dava uma passada para a frente e meia para trás de cada vez (...)

(...) De longe a longe alguma raquítica vegetação de plantas gordas rasteiras e salgadas, de um verde-escuro sujo, e com laivos terrosos (...)



As Welwitschia - Mirabilis





(...) Se parávamos, as areias cobriam-nas aos pés até aos tornozelos em menos de um minuto, vinham-nos açoitar a cara e as orelhas como pequenas balas; entrava-nos pelos ouvidos e pelo nariz. Que penosa marcha, encetada às 4 da manhã! Que terrível situação! (...)




(...) A fila indiana, aproximando-se o mais possível da água, era ainda assim chicoteada pela areia seca e pelas respingas da água salgada das ondas, que cada vez vinham maiores quebrar-se no areal. Com o corpo deitado para trás, para resistir ao vento sem cair, a areia mesmo molhada vinha chicotear-nos a cara, as mãos, o pescoço, de tal forma que estavam quase em sangue; e assim continuamos andando sem poder parar, pois a paragem seria a morte por asfixia enterrados no areal, que seguia sempre....sempre...., levantando-se nuvens de areia que iam formar mais a norte novas dunas, que se iam sempre movendo. A andar comemos bolacha e bebemos vinho, engolindo tudo misturado com areia (...).

Texto de: Roma Machado, In: "Recordações de África".








Texto de: Roma Machado, In: "Recordações de África".  AQUI 
 Continua....

Ver tb texto AQUI 


O Batalhão Expedicionário de Marinha  em Mossâmedes
ver aqui: http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm


O primeiro acto oficial do Batalhão de Marinha, após a chegada à cidade de Mossâmedes, em 30 de Novembro de 1914, foi um desfile pelas ruas da cidade, ao som de música, no qual mostrou o seu aprumo de corpo de elite. (4)

Tiveram de preparar, e em parte improvisar, as instalações para o seu depósito de material, munições e viveres, uma vez que nada estava preparado para os receber. Foi durante este período que os marinheiros tiveram de aprender a tratar dos solípedes e aprender a arte de cavalgar.

A 1 de Dezembro o Batalhão voltou a desfilar integrado nas comemorações do "Dia da Independência", com a particularidade de os oficiais já desfilarem montados a cavalo.

A 11 de Dezembro o Batalhão de Marinha partiu de Mossâmedes em direcção ao Cuamato, onde se encontrava o Tenente-coronel Alves Roçadas. A primeira etapa foi feita pela via férrea, que ligava Mossâmedes a Bela Vista. Foram precisos cinco comboios para transportar o Batalhão.

Após reunidos em Bela Vista seguiram a pé até Lubango, onde chegaram no dia seguinte.



O Batalhão de Marinha esteve estacionado no Lubango antes de partir para o Cuamato. (Foto de Teles Grilo)


O Batalhão Expedicionário de Marinha no Lubango


A 12 de Dezembro de 1914 o Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola encontrava-se em Lubango.As notícias da frente de combate eram alarmantes e os itinerários marcados para atingir o rio Cunene, em Forte Humbe, pelos Gambos tinha dois difíceis obstáculos, carência de água e de capim para o gado.

Lubango. Ilustração portuguesa n. 488, de 28 de Junho de 1915
Grupo de marinheiros, no Lubango, pertencentes à Lancha "NRP Rio Minho" que foram desembarcados para integrar o Batalhão de Marinha, (Foto de Teles Grilo)

A 21 de Dezembro recebem notícia que uma unidade alemã de cerca de 200 homens, teria bivacado nas redondezas de Lubango, o que fez com que tomassem posições defensivas à volta da localidade. Não chegou a haver qualquer confronto com a força alemã.
Pormenor do acampamento, onde se localizava o posto de TSF. (Foto de Teles Grilo)

1ª e 2ª Secções de Metralhadoras do Batalhão de Marinha no Lubango. (Foto de Teles Grilo)

Nesta mesma data o Tenente-coronel Alves Roçadas informa os marinheiros do sucedido em Naulila e ordena que estes avencem sobre Chibia. O Batalhão levou apenas 10 horas para se aprontar e partiram em direcção de Humbe, onde se encontravam as tropas do Tenente-coronel Alves Roçadas em retirada.

Carregamento dos carros Boers com o material de guerra. (Foto de Teles Grilo)

Em Lubango, a descarga dos camelos que transportaram o material militar e viveres para as forças que avançam sobre o Sul de Angola. (Foto de Alberto de Castro)


A velocidade a que se deslocavam os carros boer, puxados a bois, não conseguiam acompanhar o passo da marcha do Batalhão de Marinha, o que fez com que no final da primeira etapa, em Pituaco, não houvesse barracas e mantas para a pernoita. No dia seguinte 24 de Dezembro de 1914 alcançaram Chibia. Durante as etapas o maior problema foi a falta de água, por escassez de "cacimbas" (pequenas chuvas) e de quase inexistência de "mololas" (poços). (8)

Começaram no Natal a aparecer as primeiros febres entre os oficiais e praças, mas continuam a caminhar em direcção ao Quartel General do Tenente-coronel Alves Roçadas, que se encontrava à data em Gambos. Chegam a Gambos a 3 de Janeiro de 1915.

O Batalhão Expedicionário de Marinha  em Forte Gambos (Forno da Cal)

Chegados a 3 de Janeiro de 1915 a Gambos, o Tenente-coronel Alves Roçadas coloca o Batalhão de Marinha num posto avançado, lugar do Forno da Cal, que viria a ser a base de operações do Batalhão durante algum tempo.

O estrado de saúde do Batalhão foi piorando, muito também por causa das condições do local onde estavam estacionados. No entanto, construíram a base com as melhores condições possíveis, tendo em consideração o principal inimigo, a febre tifóide e o paludismo. (9)

O clima encontrado neste lugar variava entre 4ºC à noite e 39ºC de dia, com chuvas. Ao clima acrescia os problemas de escassez de alimentação por causa da falta de transportes.

Durante o tempo em que estiveram nesta posto, aproximadamente 3 meses, sofreram duas mortes por doença e tiveram de repatriar 21 praças para a Metrópole por doença.

Em 21 de Março chegou a Luanda o novo comandante militar de Angola, o General Pereira de Eça, e com ele iria recomeçar a ofensiva sobre os alemães. Em Abril o General visitou o posto de Forno de Cal, tendo comentado com o Capitão-tenente Alberto Coriolano Ferreira da Costa ter apreciado as boas condições em que o posto se encontrava.(10)

No dia 5 de Maio de 1915 o Batalhão, integrado nas manobras sobre o Sul de Angola, fez avançar sobre Cahama, lugar também conhecido como "cemitério dos brancos", uma coluna comandada pelo 1º Tenente Afonso Júlio Cerqueira, composta pela 1ª Companhia do Batalhão de Marinha e a 15º Indígena Expedicionária de Moçambique.

O avanço deu-se entre a hostilidade do população local, mas chegou-se a Cahama e ainda se avanõu mais um pouco até Tchicusse, onde se construiu um posto militar e se efectuaram vários trabalhos defensivos. A coluna de Cahama mantinha-se na posição até que em 26 de Maio recebeu um pedido de auxílio do Padre Bellet (francês), superior da missão do Espírito Santo, com sede no Tchipelongo, que estava a ser ameaçada pelos locais.

O 1º Tenente Afonso Júlio Cerqueira, após solicitar autorização ao comandante do Batalhão de Marinha, organizou um grupo de socorro à missão de Espírito Santo, composto por 51 marinheiros e uns outros tantos Landins, chefiados pelo 1º Tenente Cerqueira, o 2º Tenente Botelheiro, o Tenente de Infantaria Humberto de Ataíde e o Alferes de Infantaria Loza, ambos pertencentes à 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique.

Assim que chegaram à missão do Espírito Santo, dia 28 de Maio, começaram a ser atacados pelos locais, que se encontravam bem organizados e equipados com Mausers. O combate durou algumas horas até que os rebeldes desmoralizaram e fugiram deixando para trás no terreno mortos e feridos. Foi o baptismo de fogo do Batalhão de Marinha e o seu primeiro sucesso militar.

O grupo de socorro regressou ao posto de Tchicusse com vários feridos, entre os quais o Tenente de Infantaria Ataíde e o 1º Tenente Cerqueira.

Entretanto, as restantes forças do Batalhão de Marinha foram-se juntar à coluna em Tchicusse, onde permaneceram até Junho, data em que o Batalhão recebeu ordem para avançar para Humbe.

O estado de saúde do Batalhão de Marinha foi piorando, o que levou inclusive a que o comandante Coriolano da Costa e o Tenente Carvalho Araújo, colhidos pela enfermidade tivessem de ser repatriados. Isto levou a que o 1º Tenente Afonso de Cerqueira fosse promovido a Capitão-tenente e assumisse o comando do Batalhão de Marinha. No relatório do do 2º Tenente-médico Júlio Gonçalves, de 2 de Junho, há a indicação que 25% dos praças estão doentes e incapacitados para o serviço.

A 4 de Junho de 1915, deu-se início à marcha em direcção ao Forte Humbe. Junto com o Batalhão de Marinha seguiam o Batalhão de Infantaria n.º 17, comandado pelo Major Pires Viegas, a 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique, um grupo de auxiliares damaras, duas baterias de artilharia divididas em quatro secções, quatro baterias de metralhadoras, uma pertencente ao Batalhão de Marinha, e dois Esquadrões de Cavalaria, um do Regimento de Cavalaria n.º 4 e outro do Regimento de Cavalaria n.º 11, ambos comandados pelo Major de Cavalaria Vieira da Rocha.(12)

O Batalhão Expedicionário de Marinha em Forte Humbe  

O Batalhão de Marinha chegou a Humbe a 7 de Junho de 1915. O local estava reduzida a destroços. Tiveram de montar o bivaque em quadrado e improvisar defesas. Nesta data o Batalhão estava reduzido a 12 oficiais e 303 praças. Entretanto foram chegando as restantes forças militares da coluna.

Entretanto, receberam ordens para ocupar Ngiva, centro administrativo dos rebeldes do Cuamhama e sede do soba. A partida para o Cuanhama deu-se 10 de Agosto. Com o Batalhão de Marinha na frente da coluna, seguiu-se a 15ª Companhia Indígena e o Batalhão de Infantaria n.º 17.

Humbe. Ilustração Portuguesa n. 498, 6 de Setembro de 1915
Metralhadoras do Batalhão de Marinha, numa dos flancos do quadrado do bivaque



O Batalhão Expedicionário de Marinha no Cuanhama (O Quadrado de Mongua)


A chegada à região Cuanhama, a 15 de Agosto de 1915, foi comemorada com uma salva de artilharia, que serviu para também indicar propositadamente aos rebeldes a nossa presença e a intenção de restabelecer a administração portuguesa da região. (12)

As forças continuaram a avançar dentro do território hostil e foi em Mongua, a 18 de Agosto de 1915, que os rebeldes iniciam os ataques às forças portuguesas, os quais duram durante 3 dias.

A coluna formou o seu dispositivo defensivo em quadrado e coube ao Batalhão de Marinha a ocupação da face da frente (Leste) do quadrado, sob o comando do Capitão-tenente Afonso de Cerqueira. A face da direita (Sul) do quadrado foi ocupada por duas companhias do Batalhão de Infantaria n.º 17, sob o comando do Major Pires Viegas. A face esquerda (Norte) do quadrado foi ocupada por uma companhia do regimento de Infantaria n.º 17, a 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique e o grupo de auxiliares damaras, sob o comando do Capitão de metralhadoras Henrique Cameira. A face da retaguarda (Oeste) era ocupada pela última companhia do Batalhão de Infantaria n.º 17, sob o comando do Capitão de metralhadoras Teles de Azevedo. (13)

No dia 18 e 19 de Agosto o fogo inimigo foi esporádico e por vezes intenso, mas as patrulhas que saíam do quadrado não encontravam muita resistência. Entretanto, no dia 19 ficaram completos os trabalhos de entrincheiramento, que se tornaram necessários devido à capacidade de fogo do inimigo.(15)

No dia 20 de Agosto, os rebeldes comandados pelo soba Mandume, do Cuanhama, que concentraram entre 50.000 a 60.000 homens (cuanhamas. cuamatos. evales, alguns cuambis e muitos foragidos do Humbe) e com cinco carros boers de munições, todos armados com "Martini Henry" e algumas centenas de "Mauser" iniciaram o ataque contra os 3.000 homens portugueses. (14)

O fogo dos rebeldes era intenso e certeiro o que levou a que se desse ordem para os praças se deitassem e se protegessem com sacos de terra. O quadrado estava muito denso uma vez que englobava dentro de si perto de duas centenas de carros de transporte e atrelados e ainda dos dois esquadrões de cavalaria.

As secções de artilharia, colocadas nos cantos do quadrado, fizeram mais de 2.000 disparos durante o combate, se bem que não por igual, já que a maior intensidade do ataque inimigo se deu na face frontal (Batalhão de Marinha) e face esquerda (Infantaria n.º 17, landins e damaras). Nas outras faces do quadrado os feridos derivavam do fogo cruzado com a face frontal e esquerda, que os atingia de costas.

Os combates duraram desde as 7 horas da manhã até às 17 horas da tarde. O General Pereira Eça às 17 horas ordenou uma carga por forças do Batalhão de Infantaria 17, 15ª Companhia de Indígenas e do Batalhão de Marinha, e os Esquadrões de Cavalaria, para aliviar a pressão sobre o quadrado.

Ao lado direito do quadrado formou o Esquadrão de Cavalaria n.º4, comandado pelo Capitão Luiseno Godinho e do lado esquerdo do quadrado formou o Esquadrão de Cavalaria n.º 11, comandado pelo Capitão Cunha e Costa. A atitude impassível da cavalaria sob o fogo inimigo, arrancou dos praças um sonoro "viva a cavalaria portuguesa", que foi respondido com um "viva a nossa infantaria". Sem cuidar do fogo inimigo todos pararam de disparar e começaram a cantar a "Portuguesa", e os landins como não o sabiam o nosso hino começaram a cantar a sua canção guerreira "Baiete Incoce".

A carga da cavalaria, apesar das pesadas baixas e de praticamente ficaram sem montadas, conseguiram por em fuga soba Mandume e com ele fugiram todas as suas tropas. Mais tarde, a 6 de Fevereiro de 1917, já em território da Namíbia o soba Mandume foi encontrado morto, terminando com ele o último reino Ovambo independente.

O Batalhão de Marinha no final do dia tinha sofrido inúmeros feridos e dois praças mortos.

Em resultado dos três dias de combate as tropas portuguesas tiveram: 4 oficias e 32 praças (2 da marinha) mortos e 11 oficiais (4 da Marinha) e 44 praças (parte marinheiros).

Cuanhama. Ilustração Portuguesa n. 507, de 8 de Novembro de 1915
Acampamento do combate de 20 de Agosto de 1915, Posto de Socorro na face direita do quadrado (posição da Infantaria 17).


Posto de Socorro na face da frente do quadrado (posição do Batalhão de Marinha)


  

Capitão-de-fragata médico Vasconcelos e Sá, Chefe dos serviços de saúde do Batalhão de Marinha, e a Barraca da ambulância central da coluna militar.


Os reforços de munições e mantimentos só chegaram a 24 de Agosto, após uma longa marcha forçada da coluna que partiu do Cuamato.

A 2 de Setembro a coluna, comandada pelo Coronel António Veríssimo de Sousa, partiu com destino a Ngiva, composta pelo Batalhão de Infantaria n.º 17, o Batalhão de Marinha, duas Baterias de Artilharia, duas Baterias de metralhadoras e dois Esquadrões de Cavalaria. Depois de um árduo percurso chegaram e tomaram Ngiva.

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola regressou à Metrópole a 30 de Setembro de 1915,embarcados em Mossâmedes no vapor "Zaire". Neste navio regressaram 13 oficiais e 346 praças, tendo ficado eternamente em Angola 15 marinheiros, 2 mortos em combate, 12 por doença e um assassinado por indígenas em Lubango. Chegaram a Lisboa a 15 de Outubro de 1915.


CONTINUA....


Angola 1914-15 Forças Expedicionária Sul de Angola


 
Sul de Angola - Campamha de 1914. Augusto Casimiro "Naulila"
Foi logo após a implementação da República, a18 de Agosto de 1914, que o General Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convidou o Tenente-coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas a aceitar o comando da primeira força expedicionária para Angola.
O Tenente-coronel Alves Roçadas, era conhecedor da região de destino da expedição, por ter sido anteriormente governador do distrito de Huíla, no Sul de Angola. Em 20 Agosto, por intermédio do Ministério das Colónias, solicitou informações sobre os recursos existentes na província e mandou proceder a vários trabalhos de preparação de infra-estruturas militares e à mobilização de unidades indígenas e europeias locais.
A missão que lhe foi confiada tinha o objectivo de assegurar a obediência do gentio local e vigiar a fronteira Sul nos pontos estratégicos mais importantes. Para tal, atribuíram-lhe uma força expedicionária composta por: 61 oficiais, 1.464 praças e 335 solípedes.
Esta força expedicionária partiu de Lisboa nos dias 10 e 11 de Setembro 1914, a bordo dos vapores "Cabo Verde" e "Moçambique" respectivamente, as quais desembarcaram a 1de Outubro 1914 em Mossâmedes no Sul de Angola. 
A 22 de Outubro as forças expedicionárias encontravam-se implantadas no terreno, em Lubango no planalto de Mossâmedes, em posição para defender o Sul de Angola de uma ofensiva investida alemã que viesse da "África Alemã do Sudoeste" (Damaralândia), em direcção a Mossâmedes.
Entretanto, aconteceu um incidente de fronteira, em Naulila, a 19 de Outubro, onde foram mortos três alemães, parte de uma missão, que tinha entrado na província sem autorização, e acampado na margem esquerda do Cunene, em território português. 
 
A 30 de Outubro dá-se um ataque alemão ao posto militar de Cuangar, na margem esquerda do rio Cubango, no Sul de Angola. Foi um ataque de surpresa comandado pelo Capital de Cavalaria Lehmann com  20 praças de cavalaria com apoio de fogo de  metralhadoras, 10 guardas fronteiriços europeus, um grupo de polícia indígena e um numeroso contigente de indígenas autóctones. 
Ilustração Portuguesa, n.º 462, Ano 1914

 O Forte localizava-se a 900 Km de Mossâmedes  e 400 Km de Naulila, sem comunicações telegráficas. 





Nota da autora do blog: 
Durante este período, com o começo da 1ª Guerra Mundial ( 1914 - 1918 ) , Portugal proclamou a sua adesão à aliança com a Inglaterra (7 de Agosto de 1914) e pediu para entrar nas operações militares contra a Alemanha. Em 17 de Setembro partiu uma primeira expedição para reforçar as colónias em África, que lutaram no noroeste de Moçambique, na fronteira com o Tanganica, e no sudoeste de África, na fronteira com a África Sul-ocidental alemã. Recordemos que  «no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs», e ainda que «Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.»
Ver
AQUI
 AQUI
AQUI
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Coloco algumas fotos encontradas na Net e relacionadas com as campanhas do Sul de Angola:



 Ex-soba do Humbe aprisionado na Fortaleza de Moçâmedes

 Eduardo Costa, o Governador aficcionado de touradas, no decurso da sua passagem por Moçâmedes, relacionada com as Campanhas do Cuamato, assiste a uma tourada em sua honra
 
 O "Salvador Correia" atracado à ponte de Moçâmedes a descarregar material de guerra
Militares na Avenida de Moçâmedes
  Um contingente militar desfila em Moçâmedes, ao fundo da Avenida





HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO, dois anos de Governo (Junho 1907, Junho 1909)
     http://www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/1741.pdf

Full text of "Sul d'Angola; relatório de um govêrno de distrito (1908-1910)"

http://www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/1741.pdf

terça-feira, 20 de março de 2012

MOÇÂMEDES, MOSSAMEDES (Actual Namibe) : texto de JOAO CABRAL PEREIRA LOPES E FARO. 18.02.1858


ANNAES DO CONSELHO ULTRAMARINO
PARTE NÃO OFFICIAL.

BREVE NOTICIA
SOBRE O CLIMA DE MOSSAMEDES,
PELO SR. JOAO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO 


I. INTRODOCÇAO.

E Mossamedes uma possessão portugueza, que já pelo seu bom clima, já pelos seus productos, merece toda a attenção e estudo. Cumpria-me apresentar um trabalho satisfáctorio no tocante a topographia, geologia, hydrologia, zoologia, botânica e climatologia d'este logar; mas emprehender e desempenhar tarefa tão árdua não é para os meus limitados conhecimentos e falta de aptidão; alem d isto outras circumstancias concorrem a desfavorecer-me; por um lado, uma rebelde nevralgia me tem alterado a saúde; por outro, não havendo pharmaceutico n'esta villa, e tendo de preparar os remédios, tanto para o hospital como para a povoação, acho-me privado do tempo necessário para poder mostrar pelo menos os bons desejos de me dedicar aos estudos referidos.
A falta de meios também não é pequeno embaraço: como fazer observações meteorológicas sem instrumentos, analyses sem apparelhos e reagentes, estudos sobre os ires reinos da natureza sem os livros convenientes? Não tenho acanhamento de declarar taes misérias, porque entre nós é mal quasi geral. Entretanto, para não ficar de todo em falta, escrevi algumas linhas, rogando desculpa de sua insufficiencia.
TOPOGRAPHIA DO PORTO, VILLA E LIMITE
DE MOSSAMEDES. 

A villa de Mossamedes esta situada na costa Occidental de Africa, em 13° 12' latitude do sul, dista 177 milhas da cidade de Benguella, 390 de Loanda. Diante d'ella está o seu porto de mar, formado pela denominada “Pequena Bahia dos Peixes” ou “Angra do Negro”, o qual offerece bom abrigo e ancoradouro para poderem estar fundeados muitos navios de qualquer lotação.

A terra que fica ao sul c ao norte da entrada d'este porto é alta, cortada a pique, e assim continua até ao meio da bahia; apresenta-se depois uma extensa praia semicircular, onde principia um grande areial, que sóbe de pouco a pouco até se confundir com terreno alto e mais duro. No sul da dita praia se offerece bom desembarque, bem como ao norte, n'um sitio encostado á montanha, ao qual dão o nome de “Sacco do Giraul”; no meio d'esta mesma desagua o rio denominado “ Bero”que traz do interior um longo curso; chegando este a 10 milhas antes da sua foz, sae de uma embocadura estreta, e vae derramar-se n'um largo valle, que se estende até ao mar e que offerece grandes e bulias varzeas, constituindo quasi os únicos terrenos aráveis do limite da villa de Mossamedes, digo quasi, porque junto á embocadura de um outro rio chamado “GirauI”, que fica d aqui distante 8 milhas ao norte, existem também alguns terrenos aproveitáveis.

Os terrenos do dito valle devem a sua formação ás alluviões do Bero, as quaes, com as areias e lodo que comsigo arrastam, obstruíram o braço de mar que aqui existiu em épocas remotas. Estas alluviões dão-se na estação chuvosa, único tempo em que o rio. corre, depositando nas areias agua em abundância, a qual na estação secca se acha a pouca profundidade.

A terra dos lados do referido valle é alta e alcantilada; a que fica para o norte, algum tanto montanhosa e coroada de basaltos rolados, estende-se até ao rio.Giraul; a que se acha ao sul é mais plana, arenosa, offerece algumas humildes plantas, que parecem pertencer á família dos cactos, e se dirige até ao rio Croque, que d'aqui dista 80 milhas. Em diflerentes pontos d'eslas duas terras se apresentam algumas elevações notáveis pela singularidade de terminarem n'um plano horisontal, circumstancia que lhes fez dar o nome de =Mesas de Mossamedes=.
O litoral d'este logar é formado de terrenos stratificados, conservando horisontalmente e em ordem as camadas de sua formação. As referidas Mesas, resultantes da elevação destes mesmos terrenos, em consequência das revoluções por que tem passado a crosta do nosso globo, offerecem igual stratificaçào aos que lhes ficam inferiores; as camadas que os constituem são compostas de seixos ou basaltos rolados, de matérias arenaceas, de argila, de calcareos, em que se encontra uma infinidade de conchas fosseis, etc. Alem d'isto todas estas substancias se acham mais ou menos impregnadas de chlorureto de sódio; e deve notar-se que as chuvas, dissolvendo algum d'este sal, o vão depositar nos terrenos das várzeas, e os tornam um pouco salgados. A IO milhas de distancia da costa começam a desapparecer estes terrenos stratificados para se apresentarem outros atravessados por serras de granito e cheios de montes cónicos.
No areal já descripto junto á praia, ea duas milhas de distancia da foz do rio Bero para o lado do sul, se acha situada a villa de Mossamedes, a qual é formada de casas quasi todas abarracadas e edificadas sobre uma baixa planície de areia solta, onde se não vê uma arvore, ou outra qualquer vegetação a não serem dois pequenos coqueiros, que existem defronte da casa que representou de palácio do Governo. Caminhando d'aqui alguns passos para o sul, o solo sóbe, e toma altura que predomina a povoação; n'este logar elevado está collocada a fortaleza de S. Fernando, o palácio do Governo em começo, a igreja, o hospital e algumas casas em ruínas e abandonadas.

No valle já mencionado existe também um numero considerável de casas agrícolas, que se devem considerar como subúrbios da villa. Convém dividir o valle para mais clareza do que se seguir; a parte d'este que fica mais interior, e que mais se estreita entre as montanhas, tem o nome de Valle dos Cavalleiros; a parte que fica para o lado do mar offerece á direita do rio as várzeas da Boa Esperança, assim denominadas, e á esquerda as Várzeas dos Casados, e das hortas; entre o Valle dos Cavalleiros e estas várzeas existe ainda um areal innominado.
A villa de Mossamedes apresenta um aspecto desfavorecido tanto pela natureza como pela arte; entrclanto, em altenção ao seu clima, é de não pouco interesse. Ella quasi se pódc considerar para as doenças próprias da maior parte da nossa Africa Occidental omesmo que a cidade do Funchal para as affecções pulmonares dos paizes do norte. Muitos doentes, vindos tanto- de Loanda como de Benguella ou de outros pontos, cansados de padecerem com as febres e suas consequências, n'ella teem achado prompto allivio e restabelecimento.
Aqui a raça branca, mesmo exposta a trabalhos rudesj apresenla-se corada e robusta, e a sua prole não desmente a acção benéfica do paiz.
Finalmente é um clima, onde ha uma temperatura que não é excessivamente quente, frio nunca demasiado, manhãs com uma fresquidão agradável, uma atmosphera pura e livre de emanações miasmaticas, e em que poucas vezes se faz sentir humidade.


TEMPERATURA, HUMIDADE, NUVENS, CHUVAS, 
VENTOS, ALLUVIOES, TROVOADAS. 



Pouco ou nada poderei dizer sobre as circumstancias meteorológicas da localidade de Mossamedes, pelos obstáculos já expostos: se estes cessarem, e eu aqui permanecer, farei as minhas observações, as quacs, aindaque imperfeitas, como é de esperar, poderão talvez servir de ponto de partida para alguém organisar melhor obra. Entretanto direi alguma cousa sobre o que tenho podido conhecer com o simples auxilio dos sentidos.
A condição physica mais característica e influente num clima é a sua temperatura; segue-se depois o seu estado hygrometrico. Esta localidade, attendendo á latitude em que se acha, deveria offerecer uma temperatura mais própria das regiões intertropicaes; porém algumas circumstancias a modificam consideravelmente, a principal d'estas consiste nas virações reinantes de O. S. E. e S. O., e lambem do S.; o ar assim trazido de logares mais frios apresenta uma temperatura pouco elevada. A radiação solar, sendo ordinariamente forte das dez para as onze horas da manhã, é logo diminuída pelas ditas virações, que começam a estas mesmas horas, constituindo para o fim da tarde, e durante a noite, uma temperatura suave.
A acção benéfica d'estas virações não se limita só á diminuição da escala thermometrica. Partindo ellas do mar, c do lado do sul, onde já a evaporação é mais fraca, transportando um ar menos saturado de vapores de agua, é totalmente livre de emanações miasmaticas. Comtudo as referidas virações algumas vezes faltam para se apresentar calmaria ou vento norte, em occasião que as aguas db mar correm ao sul. É também frequente, durante a noite, soprar algum terral ordinariamente fraco. No mez de Maio costuma vir aqui um vento leste, cora tres dias de duração pouco mais ou menos, o quaj é muito notável pela sua grande elevação de temperatura, pela grande quantidade de poeira de que vem sobrecarregado, dando á atmosphera umaapparencia nebulosa, e pelo numero de insectos que comsigo arrasta; elle produz geralmente ura sentimento de oppressão e mal estar, mas nunca incommodos sérios, talvez pela sua pouca duração. Nas regiões que ficara debaixo do equador era cada anno duas estações húmidas, e duas seccas; aquellas dão-se na occasião dos equinoxios, e estas na dos solsticios; porém, nas localidades que ficam debaixo dos trópicos, ha uma só estação humida-e outra secca; d aqui resulta que nos logares situados entre o equador e qualquer dos trópicos, as duas estações húmidas se vão aproximando uma da outra á proporção que os mesmos logares se afastam do equador, e finalmente se convertem n'uma só; emquanto que ás duas estações seccas acontece o ir diminuindo uma até desapparecer, e augmentando a outra. Achando-se Mossamedes na latitude referida, o sol lhe fica perpendicular nos dias 3 de Novembro e 8 de Fevereiro; é n'esta occasião que tèem logar as duas estações húmidas, e costumando a primeira dar menos chuva que a segunda, as teem differençado em pequena e grande estação chuvosa.
Convém notar que uma grande parte das estações seccas é distincta pelas alternativas de temperatura, como: frio de noite, e calor intenso pelo meio do dia, circumstancia que, em taes climas, é das mais prejudiciaes á saúde. A este período se costuma dar o nome de estação fresca ou do cacimbo.
 
No heraispherio austral se offerece este período nos mezes de Junho, Julho e Agosto; sente-sc então em Mossamedes algum frio de manhã e de tarde, porém nunca calor intenso durante o dia.

Muitas pessoas em Angola estão persuadidas de que o período do cacimbo, offerecendo v mais humidade atmospherica, conslitue uma estação húmida, porque não consideram que então a humidade absoluta, isto é, aquella de que o ar está saturado, é minima; e, comquanto se sinta mais humidade, e o hygrometro a manifesta, o barómetro não desce, e mostrará que n'este mesmo período a atmosphera contém menos vapor de agua.

As chuvas nas estações próprias, sendo abundantes no interior d'este paiz, são comtudo raras no litoral, e quando aqui se dão vem impellidas de leste por trovoadas, e offerecem ordinariamente pouca duração. Por este tempo teem logar no rio Bero algumas alluviões, chegando muitas vezes de surpreza, era consequência de provirem de chuvas que longe caíram. Estas alluviões costumam inundar quasi todas as várzeas do valle descripto, depositam na superfície do solo uma grande quantidade de lodo que o fertilisa, e estabelecem no meio uma corrente talvez de 7 milhas de velocidade; porém esta força e abundância de aguas dura poucas horas. Alguns annos ha cm que estas cheias são pequenas ou faltam de todo, causando nos campos alguma esterilidade. Qual a causa das chuvas serem abundantes no interior, e escassas no litoral? Entendo que as virações téem poderosa influencia sobre este phenomeno; estas, segundo me consta, entram 7 léguas somente pela terra dentro, e tendo ellas uma temperatura pouco elevada, como já notei, tornam em todo este espaço a evaporação mais lenta. Alem d'isto, o ar das mesmas virações, adquirindo aqui maior caior, ganha também maior capacidade para receber os vapores da agua, os quaes, sendo ao mesmo tempo em pequena quantidade, não chegam a satura-lo.
Em Mossamedes raros são os dias em que durante as vinte e quatro horas a atmosphera não esteja mais ou menos nebulada, principalmente de manhã e de tarde, e alguns ha em que o sol não chega a descobrir-se. Observam-se estes últimos principalmente na estação fresca, apresentando-se algumas vezes com nevoeiros.


OUTRAS CONDIÇÕES HYGIENICAS DA VILLA E LIMITES DE MOSSAMEDES


A villa de Mossamedes consta actualmente de tres ruas direitas e de mediana largura; a primeira se chama rua da praia, e tem uma só fileira de casas, com a frente para o mar; a segunda tem o nome de rua dos Pescadores; e a terceira de rua do Alferes; estas ruas são parallelas com a praia do mar, cruzadas por outras tantas travessas, e offerecem um piso de areia solta algum tanto incommodo. Existem aqui sessenta e duas casas, das quaes uma grande parte são construídas de adobe, e outras de pedra ou de taipa; os seus telhados são arranjados de cal e areia ou de argamaça; alguns ha de palha, e raros de telha. Cada uma d'estas casas tem um quintal espaçoso com o seu competente poço de agua doce. Metade d'estas habitações pertencem a pescadores, e dentro d'ellas e dos quintaes se seccam e arrecadam grandes quantidades de peixe, bem como no mesmo logar se extrahe bastante azeite dos ligados do cação; d'aqui resulta que os resíduos e os líquidos que escorrem d'esles preparados, se constituem em focos de infecção.

A praia mais visinha d'esta povoação também não é limpa; aqui se escala todo o peixe destinado para seccar, ficando muitas vezes em abandono sobre a areia não só as cabeças, pedaços e intestinos, mas também algum peixe inteiro. Entretanto, como este local está bem exposto aos ventos reinantes, e sendo ao mesmo tempo baixas as casas, segue-se que a renovação do ar se faz com facilidade, afastando as emanações, que n'outras circumstancias seriam muito mais prejudiciaes á saúde.

Esta mesma localidade se acha a barlavento do rio, e a barlavento d'ella licam os areiaes que se estendem até ao rio Croque; os terrenos de todo este espaço são seccos, e só n'este mesmo rio existem algumas pequenas alagoas, que eu já tive occasião de observar; porém estas nenhuma influencia podem ter sobre o clima de Mossamedes-, por se acharem distantes mais de 30 milhas. Já o valle dos Cavalleiros e várzeas da Boa-Esperança, e das hortas, se acham em condições sanitárias menos favoráveis; estas localidades são inundadas pelas cheias do rio, constituindo-se em diflerentes pontos pequenos pântanos temporários, onde se decompõem os detrilus orgânicos, vindos nas aguas ou já aqui encontrados. Junto ao mar existem outros pântanos permanentes, que parecem não ser tão funestos como os primeiros.  Aqui se acham cincoenta e tres casas pertencentes aos agricultores; são também construídas de adobe, e geralmente situadas em logares baixos e húmidos; porém os próprios habitantes já têem conhecido os inconvenientes de laes localidades, e as vão abandonando escolhendo sitios com melhores condições; alem d'isto, como se deu uma grande cheia no dia 9 de Fevereiro d'este anno, a qual lhes inundou algumas casas, deitando-as para terra, se decidiram mais depressa a tomar a dita resolução.
 
Agua potável. — Esta agua, não sendo em Mossamedes de superior qualidade, é comtudo das melhores que se encontram na Província. Todos sabem que por estes litoraes não se offerecem outras aguas para empregar nos
usos da vida senão as que provém de rios ou poços. Este logar, como não é exceptuado, tem por fonte o rio Bero. Achando-se este secco na maior parte do anno, obtem-se a agua fazendo covas na areia do seu leito; esta sahe um pouco turva, e a maior parte das vezes com um ligeiro sabor a limos ou raizes, o qual perde depois de filtrada, como se usa geralmente; ella não tem gosto que denuncie predominância de saes, cose bem os legumes e dissolve o sabão; alem d'isto deve-se notar que não produz nos habitantes a tumefacção do ventre, que é ordinária onde as aguas não são de boa qualidade. A agua dos poços, que existem nos quintaes, apesar de ser ligeiramente salobra, dissolve menos mal o sabão e serve para os usos culinários, bem como para lavagem de roupa. Muitas pessoas também a bebem sem que d'isso lhes resultem inconvenientes. Estes poços, não obstante estarem a duas milhas de distancia do rio, são ali-, menlados pelas suas aguas, as quaes chegam a esta distancia por infiltração que se faz nas areias.

Hospital.—lia em Mossamedes um hospital militar, denominado de S. Fernando, situado ao sul, e a meia milha ou mais de distancia da villa, cm local que oflerece boas condições hygienicas. Elie não foi construído para este fim, mas para uma habitação particular. Consta de duas casas com um quintal intermédio; na anterior que tem a frente virada para o mar ha uma enfermaria que tem oito camas e mais quatro quartos, cada um com uma; a outra casa posterior é repartida em tres quartos desiguaes, o maior serve de enfermaria para negros, e accommoda oito ou dez doentes; o mais pequeno para arrecadação de roupas, louças, ele.; e o médio para a botica do mesmo hospital. A um dos lados do quintal se oflerecciu duas cozinhas, uma para usos ordinários, c a outra para os da botica. No mesmo quintal existe uma pequena casa bem arejada, própria para deposito de cadáveres e para dissecções ou autopsias. Este hospital é pobre de roupas, de camas, e de outros objectos.
O serviço é feito por dois enfermeiros, que são praças destacadas da companhia, por uma liberta empregada no trabalho culinário, por um negro também liberto que faz o serviço externo, e pelo facultativo. A botica não tem pharmaceutico, nem homem com alguma pratica, que possa dispensa-lo; por isso o mesmo facultativo tem lambem de fazer pillulas, decocções, misturas, xaropes, etc, e satisfazer ao mesmo tempo ás necessidades clinicas da villa e dos seus subúrbios. São admitidos n'este hospital os doentes particulares, e pagara á Fazenda 1000 réis diários; pelos escravos aqui tratados, se contara 400 réis também diários; os pobres são curados de graça.

A capacidade do hospital de Mossamedes satisfaz na actualidade ao movimento dos doentes; porém vindo o batalhão de caçadores 3, e crescendo por outro lado a população como é de esperar, elle será insufliciente. Á vista d'isto sou de opinião que, quando se edificar o hospital para os convalescentes, como está determinado, se faça um edilicio cm duas secções separadas, offerecendo um quintal entre ambas, de modo que uma d'estas divisões seja accomraodada ao tratamento dos convalescentes, e a outra ao das doenças ordinárias.
(...)





PARTE NAO OFFIGIAL.
1867


Emquanto ao local que acho mais próprio para esta obra, é o seguinte. Já disse que a igreja se acha situada n'um logar elevado, que domina a villa; ao norte e próximo d esta, em alinhamento com a sua frente que olha para o mar, está em começo o palácio do governo, ficando entre estes dois edifícios uma pequena praça. Do lado opposto da mesma, igreja, no dito alinhamento, deverá para o futuro, como o 111."0 Sr. Governador d'este districto já tem em vista, construir-se em symetria com o palácio um quartel para tropa. Ora, o mesmo alinhamento, a uma distancia conveniente, e ao sul d'este quartel projectado, ficará muito bem collocado o novo hospital. Este ponto é alto, bem arejado, e d'aqui se contempla toda a bahia; é verdade que oferece um terreno árido, que se não presta á formação de um jardim, como se pretende para o hospital dos convalescentes, mas também nenhum outro logar se apresenta capaz para este fim a não ser nas hortas ou Boa-Esperança; porém estas localidades tem inconvenientes, por serem desfavorecidas de boas condições hygienicas; são baixas, húmidas e expostas a efiluvios prejudiciaes.

Cadeia.—Concluiu-se ha pouco na villa uma casa térrea, e construída de adobe com destino a servir de cadeia e também de açougue. Não é da minha competência o demonstrar se ella poderá offerecer a segurança necessária sendo feita do dito material.

Matadouro.—É cousa que não existe. Sangram-se, esfolam-se e acabam de preparar-se as rezes quasi dentro da povoação, porém isto entre nós não admira ; onde tem sido até agora, ou até ha pouco, o matadouro em Lisboa? 

Cemitério.— Os cadáveres enterram-se em certo logar do areial sufíicientemente afastado da villa, e apenas se conhece que serve de cemitério por se verem ali algumas cruzes e inscripções; porém a camará, com os seus poucos meios, e ajudada de alguns donativos, vae brevemente mandar construir um cemitério regular, para o que já se procedeu á escolha do logar mais apropriado.

Industria.—Existem nos subúrbios da villa dois engenhos de assucar e aguardente, que se extrahem do sacharum o/Jicinarum (ponho de parte o engenho do Bumbo, porque me limito a descrever só o que tenho observado); um d'esles fica situado n'uma pequena elevação denominada Boá-Vista, junto das várzeas da Boa Esperança; pertence ao Sr. José Joaquim da Costa, está a concluir-se, e deve agora começar a trabalhar; o outro acha-se no valle dos Cavalleiros, e pertence ao Sr. Bernardino Freire de Figueiredo; tem produzido este engenho algum assucar de boa qualidade, mas em pouca porção por causa de transtornos que tem occorrido;.a producção de aguardente tem sido mais avultada. Fabrica-se em Mossamedes bastante farinha de mandioca, porém ainda não chega para o consumo. Temos as pescarias, que, como já disse, preparam em grande o peixe secco, e o azeite do fígado do cação. Existem dois estabelecimentos de salgar em barris carne de vacca, bem como de a seccar pelo processo usado no Rio Grande do sul. Ha no Giraul uma fabrica de fazer tijolo, e de calcinar pedras calcareas. Exportam-se d'esta villa muitas pedras para filtrar agua, as quaes saem já cavadas e preparadas. Emfim montou-se aqui ha pouco um tear para fabricar tecidos de algodão; e eis tudo o que ha digno de notar-se em Mossamedes, relativamente a manufacturas.

Combustível.—A lenha e o mato é o combustível de que esta povoação se serve; provém de duas partes, do valle dos Cavalleiros, e das margens do rio Giraul; ali vae escasseando consideravelmente, e aqui ha uma riqueza de matas, que Mossamedes não é capaz de esgotar em cem annos. Os meios de transportar as lenhas deste logar para a villa são trabalhosos: empregam-se carros de má construcção n'este serviço, os quaes têem de andar 12 milhas de caminho arenoso; esta difficuldade podia reduzir-se á metade, conduzindo as ditas lenhas para uma estancia collocada junto ao sacco do Giraul, que fica a meio caminho, e d'aqui a conducção se acabaria de fazer com facilidade por meio de embarcações. As alluviões do Bero também costumam trazer algumas lenhas e madeiras; a de 9 de Fevereiro d'este anno conduziu uma quantidade de 2:000 000 réis de valor. 

Cultura.—Dos terrenos que não são cultivados  os mais nocivos á saúde são aquelles que, possuindo condições de fertilidade, não são devidamente aproveitados; estavam n'este caso os terrenos de Mossamedes quando os colonos tomaram posse d'elles, e por isso foram então estes indivíduos bastante atacados das febres, succumbindo muitos; porém estas doenças tem diminuído gradualmente na rasão directa do augmento da agricultura; mas não se julgue por estes termos que a agricultura se acha muito adiantada, pois apenas um oitavo, se tanto, dos ditos terrenos está cultivado. Provém este atrazo da falta de braços, causada em grande parte pelas difficuldades que o Governo põe á transportação de libertos de qualquer parte da Província para esta colónia. Ora, se a prosperidade d'esta mesma colónia depende principalmente do progresso da agricultura, e se a agricultura em terras de Africa não se pôde fazer sem os braços dos negros, não sei com que fundamento se obsta á mudança d'esta gente de qualquer ponto da Província para um paiz com taes necessidades, c tanto mais para onde não ha o receio de que se façam para o Ultramar embarques de escravos ou libertos.

Viveres.—A melhor carne de vacca que ha na Província é a que se consome em Mossamedes; de outras carnes ha falta; o gado provém da Huilla, Gambos, etc. O peixe também é bom e abundante. Ha fartura de batatas e cará, tão considerável, que se exportam em grande quantidade. De mandioca, milho, feijão, abóboras e hortalicas não ha escassez. A canna do assucar, bananas, melões, melancias, apparecem de boa qualidade. Ha já uvas, e alguns productos mais que não menciono, por se acharem ainda em pouco desenvolvimento.

Os escravos e libertos são alimentados com peixe, farinha de mandioca, cará e batatas. Apesar de muitas pessoas, brancas terem só este sustento, ninguém ha que passe fome.

ANIMAES, VEGETAIS  E MINERAIS


Dos animaes que ha no sertão de Mossamedes poucos se encontram no litoral, pela rasão d este lhes não oflerecer a alimentação necessária; mesmo assim parece que já foram aqui mais frequentes, porque no valle dos Cavalleiros e no rio Giraul tenho achado alguns craneos e mais ossos de elephantes, búfalos, etc, e ninguém modernamente tem visto nestes logares taes animaes. E verdade que poderiam ter sido arrastados pelas enchentes dos rios; no anno passado vieram na corrente do Bero tres zebras, duas já mortas c uma com signaes de vida; suppõe-se também que a mesma corrente conduzira então uma serpente gigantesca, que se viu no valle dos Cavalleiros investindo com os bois. Os leões vinham d'antes mais vezes do que actualmente; ha dois annos que não apparecem. Tres ou quatro onças visitaram ha poucos mezes o mesmo valle dos Cavalleiros, ahi se demoraram alguns dias, e, depois de destruírem um bom numero de cabras e aves domesticas, retiraram-se. Os animaes silvestres que mais povoam este legar são lobos, mas que não atacam, raposas, macacos e antílopes de differentes espécies; estes últimos convidam ao exercício da caça, sem que a este se opponha o clima. Encontram-se também lebres, perdizes, gallinhas do mato e de agua, cordonizes, patos, rolas, etc. De corvos ha uma infinidade, e comquanlo elles sejam u te is limpando as praias, fazem grandes estragos em certas plantações. Também apparecem algumas espécies de víboras, porém são raras e pouco perigosas; muitos outros animaes pequenos ha, que n'esla occasião deixo de mencionar.
As espécies de animaes domésticos não são muitas, e as que existem não estão muito propagadas; apenas ha abundância de gado vaccum, este não apresenta robustez como o da Europa, empregam-se duas, tres e quatro juntas de bois para puxarem um carro, comtudo deve dar-se o desconto ao obstáculo que offerecem terrenos arenosos. Também se adestram estes animaes para se montarem, e assim substituem muito bem os cavallos ou bestas muares, de que ha grande falta.
VEGETAES — As várzeas do rio Bero, sendo aliás dotadas de condições de fertilidade, estão despovoadas de arvoredos, já pela incúria que tem havido em os plantar, já péla destruição que se tem feito nos que existiam espontâneos, tendo-os reduzido a lenha. Tal incúria é sempre de esperar em indivíduos que não foram ercados na agricultura, como tem acontecido a quasi todos os colonos que tem vindo para Mossamedes. Os primeiros que aqui chegaram, tomando posse dos terrenos ainda virgens, estiveram muito tempo sem se darem ao trabalho que este sólo exigia, principalmente emquanto perceberam a ração que o Governo lhes dava. Emfim, como a necessidade é industria, e como para muitos outro modo de vida se não proporcionava, começaram a revolver a terra com mais alguma actividade, foram tratando apenas de algumas culturas de que podessem colher prompto resultado, e esquecendo ou desprezando a plantação das arvores. Não se concluirá d'isto, que todos tíem estado possuídos d esta inércia, se se levarem em conta as difliculdades que se apresentam para obter de outros logares umas sementes, uns pés ou enxertos.
Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira.  limonum L.—Limoeiro.  medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies tôem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)

MINERAES  --Pouco ou nada ha explorado em  Mossamedes, relativamente a mineraes. Grande influencia, que já amorteceu, se desenvolveu aqui pelas minas; algumas partículas de carbonato ou de sulphato de cobre disseminadas nas pedras ou no gesso que coravam de verde, attrahiam a altenção de muita gente, que julgava ver em qualquer parte uma mina de cobre: d'aqui resultou o manifestarem-se na Secretaria do Governo vinte ou trinta minas: não pretendo com isto negar a possibilidade da existência d'este minério em Mossamedes, pelo contrario entendo que elle se deve suspeitar á vista de taes indícios, e conviria que se fizessem as necessárias explorações por pessoas competentes. Vi differentes amostras d'estas minas, e de todas a que mais me agradou pertencia á do Sr. Bernardino José Brochado; esta amostra consistia n'um bocado de malachite, identificado com outros de silicato branco, parecia ter sido extrahida da veia metallica.
Em certas fendas dos terrenos alcantilados apparece nitrato de potassa em estado efflorescente. O gesso é tão abundante que fórma montanhas inteiras. Existe muita pedra calcarea, resultante da agglomeração de conchas, e encontra-se algum sal gemma entre as camadas dos terrenos stratificados.
Finalmente, apresentaram-me um bocado de asphalto achado nas proximidades do limite d'esta villa: e nada mais ha aqui conhecido que seja de importância ácerca de mineraes.


INDÍGENAS DO LIMITE DE MOSSAMEDES. 

Existem aqui tres tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vive no rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondombes os que pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de mais algumas tribus do interior.
Pouca alteração tem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos. 1 Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje mais mantimentos, e têem mais gado do que d'antes; a rasão d'este augmento é obvia em relação aos mantimentos; quanto aos gados, provém o augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes receiam os brancos aqui estabelecidos.
Um terço dos ditos Mondombes anda errante com os gados em busca de pastos. As suas habitações são miseráveis, tôera toda a simi
1 E costume ttar-se o n.ime de prumos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.  Ihança com um forno, e são por fóra barradas com excremento do gado. Como todos os indígenas de África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo pouco differe do de todos os negros; teem um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).
Esta gente tem idéa de um Ente Supremo, a que chama Huco, mas pouca adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que ella celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e muito os poupa por não matar. Acredita numa outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.
Em esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, e lhes presta alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.

INFLUENCIA DO CLIMA SOBRE A SAUDE E VIDA
DOS HABITANTES DE MOSSAMEDES. 


Não é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca, porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da vida á influencia do clima em que nasceram. Apenas ha para notar que os velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa saúde. Entretanto ve-se que entre os negros indígenas se apresentam alguns velhos centenários. Estes indígenas são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são mais sujeitos a constipações, pela circunistancia de andarem quasi nús, e de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.

Convém aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os individuos, que naao tenham a robustez bastante para reagir contra os agentes que lhes são damninhos.
Todos os habitantes brancos de Mossamedes apresentam boas cores e actividade nos movimentos; muitos entregam-se a trabalhos violentos sem que se afadiguem demasiado, as crianças são fortes, nutridas, bellas e alegres.
N'este limite não ha moléstias endémicas graves. Depois das inundações do rio Bero apparecem nas hortas, Boa Esperança, e Cavalleiros, bastantes casos de febres intermittentes, porém benignos; no anno findo observei unicamente uma perniciosa, que, atacou certa pessoa que vivia em péssima habitação e local. Na villa são raríssimas as febres reusmaticas e algumas que apparecem são adquiridas fóra della. Também na occasião referida se desenvolvem muitas conjunctivites, mas cedem a um tratamento simples. As cephalalgias parecem ser aqui endémicas e costumam affectar mais os individuos recem chegados. Durante a estação humida do anno anterior a coqueluche não poupou uma só creança, comtudo nenhuma sucumbiu.
Febres eruptivas ainda aqui não observei (estou em Mossamedes desde Janeiro do anno lindo). Falando em febres eruptivas, convém notar que o III."10 Sr. Physico-Mór d'esta Província já por duas vezes me remeteu o virus vaccinico, recolhido entre laminas de vidro, e passei logo a inocula-lo em creanças de todas as cores, porém não produziu o pretendido resultado. Não uso por ora decidir-me a concluir se ha algum estado particular dos individuos, pelo qual se tornem refractários á acção da vaccina, ou se a causa depende da alteração da mesma vaccina, pois que, sendo esta conservada em laminas de vidro, onde não fica hermeticamente fechada, não pôde ter toda a confiança depois de passar por uma longa viagem e por temperaturas elevadas. Conviria ainda ensaiar a recolhida nos tubos inventados por Brelonuean.

As doenças do apparelho respiratório são raras entre os brancos, e mais communs entre os escravos e libertos; estes, andando ordinariamente mal vestidos e mais expostos ao trabalho, já no mar, já na terra, são muito sujeitos a corysas, anginas, bronchites e pleurisias, as pneumonias e os tubérculos pulmonares não deixam algumas vezes de os atacar.
Os rheumatismos, hepatites, gastrites, enterites e desentherias, tambem se offerecera tanto nos brancos como nos negros; porém sem frequência ou gravidade, e são desenvolvidas mais por circumstancias particulares ou individuaes, do que pela acção do clima.



MEIOS DE MELHORES AS CONDIÇÕES  HYGIENICAS
DA VILLA E SUBURBIOS DE MOSSAMEDES. 



A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui  um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um  sólo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.

Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.

Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas.
A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc.
É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade.
Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas.
Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos.
Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão,

ANN. DO C. ULT.—PARTE NÃO OFF.—SERIE I—SETEMBRO DE 1858.
MAPPA  ESTATÍSTICO  DOS  ACTUAES  HABITANTES  DA  VILLA  E  SUBÚRBIOS  DE  MOSSAMEDES,  BEM  COMO  DOS  ÓBITOS
 QUE  SE  DERAM  NESTE  MESMO  LOGAR  DURANTE  O  ANO  DE  1857.
(...)


N. B. Entraram também n'este mappa os militares. Os indígenas saao excluídos. As doenças indeterminadas naao foram classificadas por não terem sido tratadas e observada pelo Facultativo. A maior parte das dysenterias deram-se em negros recem-chegados de Loanda, assim como aligumas phtysicas. O preto livre, que falleceu com as fracturas de ambos os ante-braços, tinha também todo o corpo contundido. Por falta de esclarecimentos não foi possível juntar aqui os nascimentos, que tiveram logar durante o referido anno. - João Cabral Pereira Lapa, Cirurgião de segunda classe da Armada em commissão.


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