Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 18 de agosto de 2012

Usos e costumes olhanenses transferidos para Mossâmedes (Moçâmedes ), no século XIX, inícios do século XX, ao nível da indumentária feminina: o uso do biôco





MULHERES EMBIOCADAS NAS RUAS DE MOÇÂMEDES...


Interessante foto, tirada entre finais do século XIX, inícios do século XX, numa rua de Moçâmedes  (actual cidade do Namibe). Trata-se de três senhoras vestidas com o tradicional "bioco", como era na época tradição em Olhão (Algarve), uma peça de vestuário em forma de capa destinada a cobrir inteiramente a mulher que a usava, sendo a cabeça ocultada pelo próprio cabeção,  ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas, dizia-se, pareciam "ursos com cabeça de elefante".

Como sabemos,  a Moçâmedes a partir de 1861 começaram a chegar,  em caíques, palhabotes e barcos à vela,  navegando por sua conta e risco, grupos de famílias algarvias que ali se fixaram, ou em praias próximas (Porto Alexandre, Baía dos Tigres, Baía das Pipas, Catára, etc), entregando se à faina da pesca. Olhão teria sido, naturalmente, a terra da proveniência destas três senhoras (anónimas), que levaram para os confins de África,  este costume algarvio que sugere e influencia arabe. Alias, no Algarve ninguém tem dúvidas, o "biôco" ficou a dever a origem à influência dos mouros e ao legado de cinco séculos de ocupação árabe, presente incluso na arquitectura, para além de usos e costumes como este. Autores defendem  a origem árabe do bioco e que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional,  essencialmente o Alto Algarve, o Alentejo e Ilha Terceira, nos Açores. Não eram precisamente iguais, no entanto, apesar da distância geográfica, existem muitas semelhanças.

Recorde se que o Gharb al-Ândalus era a parte mais ocidental do al-Ândalus, que corresponde a parte do actual território português. Em 711, os muçulmanas atravessaram o estreito de Gibraltar e deram início à conquista da Península Ibérica, o al-Ândalus. O ocidente peninsular de influência mediterrânica, o Gharb al-Ândalus — corresponde aproximadamente aos limites da antiga Lusitânia — embora intensamente islamizado, não assumiu o protagonismo de outras regiões do al-Ândalus, resistindo sempre aos processos de centralização do califado de Córdova (Cordoba), ou posteriormente de Sevilha. O Gharb incluía cinco territórios principais correspondentes ao termo de Coimbra, ao estuário do Tejo, ao Alto Alentejo, ao Baixo Alentejo e ao Algarve. Estes territórios estendiam-se ainda para as actuais Estremadura espanhola e Andaluzia Ocidental. Destacavam-se as cidades de Coimbra, Lisboa, Santarém, Silves, Mértola, Faro, Mérida e Badajoz. O Gharb começou a perder terreno aquando da Reconquista, na qual os reis cristãos do norte da península, nomeadamente D. Afonso Henriques, começaram a conquistar o território para Sul. O fim do Gharb foi assinalado com a conquista do Algarve pelo rei D. Afonso III.

 Em 1822, Raul Brandão escreveu a propósito desta indumentária, no seu livro "Os Pescadores":

" Ainda há pouco tempo todas as mulheres de Olhão usavam cloques e biôco ou biuco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis. É um trajo misterioso e atraente . Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."


No Alto Alentejo este tipo de indumentária era conhecida por "côca", e teria começado por ser um traje de noiva na segunda metade do século XIX, tendo a dimensão e colocação do véu a ver com três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente. A "côca" como traje de noiva acabou por rapidamente cair em desuso, e passou a ser moda apenas no seio das mulheres aristocratas ou da alta burguesia quando assistiam a actos religiosos, obras de caridade, ou nas visitas a amigas,  entre finais do século XIX e princípios do XX.  Elas usavam essa espécie de "biôcos" cobertos no cimo por uma renda larga que caía sobre as costas, agregados a uma capa curta . À frente era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns casos a renda era colocada caindo do alto da cabeça sobre as costas, em outros era posta em sentido contrário, isto é, cobrindo o rosto. Completava o trajo uma saia de merino. José Leite de Vasconcellos observa que este seria o "trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte". O investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866 terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de "um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas".


Em 1920, a revista Ilustração Portugueza publicou uma reportagem intitulada “Algarve: Jardim da Europa”, onde o autor, por entre relatos idílicos de uma vida campestre hoje estranha àquela região, fala do biôco como uma realidade a desaparecer, mas ainda presente. ...A camponesa algarvia (…) não conhece o garridismo das cores hilariantes, e na cabeça, sobre o lenço escuro, estendido em ponta, põe a tampa androgina de um chapeu de homem. E em alguns pontos, como em Olhão, usa ainda o seu trajo antigo, a capa e o biôco que lhe imprimem agourentas aparencias de esfinge”, lê-se.




 


 Nos Açores a mulher usava como agasalho, a sua espécie de capa idêntica ao "bioco" algarvio. Era um capote preto com capelo armado, diferindo o seu feitio de ilha para ilha. Leite de Vasconcelos visitou o arquipélago em 1924 e pôde ver como elas na Ilha Terceira e no Faial usavam mantos e capotes, um costume que chegou até meados do século XX nos meios citadino. O manto era uma saia comprida e rodada de cor preta, o capote era uma espécie de capa ampla, mais farta lateralmente que nas costas. Quando utilizavam o manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, e a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso traduzia-se num amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo. Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de cair no esquecimento já não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Na realidade não se sabe quando este tipo de indumentária feminina foi introduzido em Portugal, sabe se que há registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e que ha quem defenda que teria entrado em uso em 1649, no reinado de D. João IV.

Não serão  o "bioco" algarvio,  a "côca" alentejana, e o "capelo" da Ilha Terceira (Açores), algo parecido com a tão criticada "burca" que ainda hoje é imposta às mulheres no mundo muçulmano fundamentalista, destinando-se a sua utilização a impedir o seu contacto com os transeuntes que com ela se cruzassem na rua, ocultando a sua identidade?




 
Talvez. Não esqueçamos  que,  como ficou escrito atrás o Algarve  sofreu a ocupação árabe durante mais de 500 anos, e que o estatuto de subalternidade da mulher em relação ao homem recaiu sobre ela  até quase ao limiar do século XX. Estamos perante um tipo de indumentária feminina que, para além da sua função de abafo, promove um certo apagamento da mulher na esfera pública, e aponta mesmo para a total exclusão do elemento feminino da sociedade, uma vez que, completamente coberta, dificilmente se descobriria a sua identidade. Por outro lado permitir-lhe-ia alguma liberdade,  já que não sendo identificável ela podia movimentar-se livremente ocultada dos olhos castradores da moralidade alheia.

Oficialmente a extinção do uso desta peça de vestuário feminina ocorreu em 1892, por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve.

"Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto."

O bioco foi proibido nas ruas e templos, mas atenção, ela continuou a ser usada em Olhão até aos anos 30 do século XX, quando foram vistos os últimos biocos.  Dois anos volvidos, o mesmo governador assinava as palavras que abrem este artigo e parecia lamentar a regulação. ...E o biôco, indestructivel como as pyramides do Egypto que medem a sua existencia pela dos seculos, foi sacrilegamente banido dos costumes algarvios”, dizia, atirando a responsabilidade da proibição para a “influencia da opinião publica”. 

A proibição, contudo, parecia desnecessária, pois já havia uma regulação que proibia as mulheres de andarem com a cara tapada. E essa lei tinha sido produzida mais de 200 anos antes, como explica Joaquim José Caetano Pereira e Sousa em 1827 na obra “Esboço de hum diccionario juridico, theoretico, e practico remissivo às leis compiladas, e extravagantes”: Pelo Decreto de 11 de Agosto de 1649, e Alvará de 20 do mesmo mes, e anno se prohibirão os rebuços das mulheres; e pelo outro Alvará de 6 de Outubro do mesmo anno se declarou que as mulheres devião andar com a cara descoberta, ou, havendo de trazer biôco, devião trazer o manto cahido até aos peitos”.  A verdade é que o decreto parece ter sido letra morta.
Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca.  Sabemos também que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes, daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de humildade perante Deus. E que  por toda a Europa (França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.
 E claro a foto das mulheres embiocadas nas ruas de Mocãmedes retrata já uma outra época em que o processo de laicizacao da sociedade estava em marcha sob o impeto do liberalismo, quando não da 1 Republica que veio promover a separação de poderes Igreja e Estado. Sem duvida usos e costumes sao dificeis de mudar e por vezes a lei tem que actuar. Nao era apenas na Idade Média europeia que o facto da mulher enfeitar-se, maquilhar-se, exibir-se, era visto como subversão das regras sociais. Em pleno seculo XIX, com o avanco da burguesia europeia o papel da mulher na sociedade mais que nunca se reduzira ao papel tradicional de dona de casa, esposa e mae. A laicização da sociedade iniciada no sec XIX, em Portugal, após a queda do absolutismo e o triunfo do liberalismo e dos ideais iluministas veiculados pela Revolução Francesa, e a entrada na modernidade proporcionada pela Revolução Industrial, vieram imprimir um rude golpe na subjugação secular a que a mulher estivera sujeita.




Pesquisa e texto de MariaNJardim

 (Coberto pelas Leis Copyright (Direitos de Autor)


http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012_08_18...


 

\













Bibliografia consultada:


Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999


Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca.  Sabemos também que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes, daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de humildade perante Deus. E que  por toda a Europa (França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.



segunda-feira, 30 de julho de 2012

Edital do Governo Civil de Braga, de 1884, convidando colonos a estabelecerem-se nas terras altas da Huila, no distrito de Moçâmedes










ver AQUI


O que este Edital de 11 de Fevereiro de 1884, nos diz é que o Ministério da Marinha e do Ultramar  o mandou publicar, interessado que estava em fazer embarcar no Vapor India  ate 50 colonos que desejassem estabelecer-se em Moçâmedes segundo o Regulamento 18 de Agosto 1884,   homens validos trabalhadores com idade não superior a 35 anos  agricultores ou operários de oficios inerentes aos trabalho agrícola  (carpinteiros, pedreiros ferreiros, etc ) preferindo-se casados.

 Um subsidio de 39 mil réis em dinheiro, alem de passagem, e mais uma arma de fogo e respectivos apetrechos, 1 machado , duas enxadas e uma pá de ferro um colchão de palha , um travesseiro e 4 lençóis de algodão, 1 cobertor e duas toalhas. 2 pentes 2 bacias de zinco, duas escovas,  1 panela de folha , 1 caçarola, 6 pratos, , 2 tigelas, 2 canecas, 1 colher, 1 garfo e 1 faca.  à chegada a Angola ficarão ao cuidado da Junta de Protecção de Emigrantes que tratará de lhes dar destino mais conveniente  no distrito de Moçâmedes que é como todos sabem, muito saudável, rico,  e com todas as condições dos melhores  países da Europa onde terão a protecção da autoridade e a convivência dos que falam a mesma língua e têm a mesma pátria.



.................................................................................................................................................................


O que estava acontecendo é que o ano de 1884 foi o da realização da Conferência de Berlim, a célebre Conferência que levou à partilha da Africa pelas potencias europeias industrializadas, e Portugal, que pensava deter direitos históricos, sem ter que proceder à ocupação efectiva dos territórios que em Africa ocupava, teve que, no respeito pelas determinações dali saídas ,que proceder à sua ocupação com familias portugueses, sob pena de os ter que ceder a outra potência em condições de o fazer.

..................................................................................................................................................................
Transcrevo parte de um trabalho subordinado ao teme "A Política Colonial Portuguesa em Angola" Autor(es): Ferreira, Vicente Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL persistente: http://hdl.handle.net/10316.2/36493 Accessed : 14-Dec-2018 03:02:13



II AS IDEIAS MODERNAS SOBRE COLÓNIAS E COLONIZAÇÃO Meus Senhores: 1. —Pois que pretendo ocupar-me das «Ideias Modernas sobre Colónias e Colonização», é lógico concluir que houve ccideias antigas», Quais eram essas ideias e como se evolucionou das antigas para as modernas? Tanto quanto nos é lícito concluir da leitura dos velhos cronistas e dos historiadores dignos de fé, o objectivo das primeiras expedições marítimas portuguesas, no século xv, — a fora a satisfação de uma natural curiosidade —, era alcançar riquezas e ocupar terras. Objectivo materialista e interesseiro, por essência. As ideias de tutela e de educação das raças, chamadas inferiores, eram estranhas aos objectivos e à moral política da época, em grande parte baseada no direito do mais forte. O apostolado da fé católica entre as populações selvagens da África e da Ásia apenas surgiu, e como propósito secundário, por influência do clero secular e das ordens religiosas. Ninguém ainda pensou, — creio eu —, em comparar as expedições organizadas pelo infante D. Henrique, com a dos cinco Mártires de Marrocos em 1220, organizada por S. Francisco de Assis. «Senhores da conquista, navegação e comércio» eram os títulos de que se revestia a vã glória dos nossos reis, e correspondiam aos objectivos visados. 2. — Não havia também nos séculos xv e xvi, em Portugal ou em Espanha, um excesso da população em desharmonia com os recursos do território continental, a colocar em terras vagas ou conquistadas. A expansão ultramarina dos povosda Península não se assemelhou, portanto, ao enxamear das Colónias gregas da antiguidade, à cleroquia, ou emigração de grupos para fundarem novas cidades e cultivarem novas terras. Se algumas foram povoadas, como as ilhas da Madeira e dos Açores, é porque nessas ilhas desertas, a exploração só era possível fixando nelas a «mão de obra» importada do Reino. E certo que depois da conquista de Goa, o grande Afonso de Albuquerque pretendeu criar uma população mixta de luso indianos, para assegurar a perenidade do domínio português na índia; mas o objectivo do grande capitão era sobretudo político, não se podendo classificar a medida como tentativa de fundação de uma colónia de povoamento. Seria um contrasenso. Portugal tinha pouca gente e a índia tinha^a de mais. 3. — O descobrimento das ilhas de Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, nas últimas décadas do século xv, e o descobrimento do Brasil em 15oo trouxeram uma nova modalidade de colonização: a «fazenda» ou «roça», isto é, a exploração agrícola do solo, e mais tarde a exploração mineira. Sabe-se como, pouco a pouco, o Brasil se transformou em colónia de povoamento, sem deixar de ser uma colónia de plantações. O clima impediu idêntica transformação em S. Tomé e Príncipe, que ainda hoje se cultivam com mão de obra importada do continente africano. 4. — A ideia da posse ou usufruto exclusivo do comércio e da exploração das terras descobertas e conquistadas foi, como se sabe, a característica dominante da política colonial primitiva dos portugueses e espanhóis. Os outros países, Holanda, Inglaterra e França, que mais tarde disputaram o passo aos dois povos da Península, adoptaram a mesma política, única que, aliás, correspondia às ideias da época sobre a riqueza das nações.Os direitos de navegação e comércio ultramarinos ficavam reservados, exclusivamente, para as respectivas metrópoles. Os navios das outras nacionalidades apenas eram admitidos nos portos das colónias para fazerem aguada ou repararem avarias. Era considerado delito grave embarcar nesses navios os produtos de cujo trato a metrópole se reservara o monopólio, o que deu lugar ao desenvolvimento do comércio de contrabando, — o célebre commerce interloppe dos franceses —, e à pirataria oficial, podemos dizê-lo, porque era favorecida, mais ou menos abertamente pelos estados rivais. Se a metrópole se arrogava o monopólio das produções coloniais, não era menos ciosa quanto à venda às colónias dos produtos da indústria europeia, nacional e nacionalizada. Este sistema de sujeição absoluta e de exploração exaustiva das colónias, constituía — como se sabe —, o famoso pacto colonial, de que ainda há vestígios na legislação e, sobretudo, nas tendências da nossa política ultramarina contemporânea, e nas ideias expendidas por homens de estado, funcionários, produtores e escritores portugueses, quando apreciam as relações da metrópole com os domínios ultramarinos. 5. — No decorrer dos tempos, porém, o próprio desenvolvimento económico das colónias, a difusão dos princípios liberais, e a melhor compreensão dos interesses económicos, criaram nas colónias o espírito de resistência às exigências das metrópoles, e nestas uma concepção diferente dos direitos e deveres das nações colonizadoras. Mas a causa imediata e mais activa da abolição do pacto colonial, pelo menos no seu rigorismo primitivo, foi a pressão exercida pelos países concorrentes, sobretudo pelos que, tendo alcançado um grande desenvolvimento industrial e comercial, cubiçavam os mercados coloniais de todo o mundo, para venda dos seus arte­factos, e para a aquisição de mate'rias primas, dos metais preciosos e das rendosas especiarias. ó. — As tradições seculares da colonização portuguesa, foram assim profundamente abaladas. Desde o final do século xvn que se pronunciara mais activamente o ataque,— nem sempre por meios brandos e leais —, às barreiras que defendiam o monopólio ultramarino. Foi, porém, no decurso do século xix,— sobretudo na segunda metade —, que toda a política colonial portuguesa teve de sofrer uma transformação completa, sob a pressão, por vezes brutal, de interferências estranhas. Se a soberania da coroa portuguesa nos vastos territórios africanos, cuja posse reivindicávamos, tinha sido até então muitas vezes atacada e subvertida pelo irrespondível argumento da força, os chamados direitos tradicionais à posse dêsses territórios eram, em princípio, reconhecidos por todos os estados civilizados. 7. — Vem aqui a propósito recordar, que até ao meado do século xix, os europeus, portugueses ou estrangeiros, pouco conheciam do interior da África Tropical. Os estabelecimentos portugueses em Angola e Moçambique quási se limitavam a alguns pontos da orla marítima, onde existiam feitorias, portos de aguada e fortalezas ou presídios, que os seguravam contra os ataques dos indígenas e, sobretudo, contra as empresas dos corsários franceses e holandeses. A actividade económica destas colónias, depois que afrouxara, apagada pelos revezes, a ilusão das minas de prata e de ouro, quási se reduzia ao comércio de escravos, as «pessas», como lhes chamavam, e de alguns produtos naturais do solo. E certo que desde o século xvi, comerciantes, aventureiros e missionários portugueses tinham avançado pelo sertão, percorrendo-o de costa a costa, ou estabelecendo-se entre as tríbus negras; mas o que hoje chamaríamos «ocupação efectiva», poucas léguas se estendia para o interior das terras, e só em torno dos presídios do litoral. Nas relações com os indígenas, a nossa política assemelhava-se ao que hoje se chama, na linguagem pomposa das chancelarias, o sistema de protectorados. Fazíamos tratados de amizade e vassalagem com os régulos e deixávamo-los governar as suas tríbus conforme o seu direito consuetudinário; apenas exigíamos que nos dessem liberdade de comércio e de trânsito e, a título de reciprocidade, que nos auxiliassem nas guerras com as tríbus insubmissas. Os nossos cuidados pelo seu bem-estar e educação moral, limitavam-se ao envio de alguns missionários, franciscanos ou jesuítas, que mais de uma vez pagaram com a vida o zêlo apostólico. A este tipo de actividade colonial se refere Oliveira Martins no seu livro O Brasil e as Colónias Portuguesas que eu considero uma espécie de elegia da decadência das velhas ideias sobre colónias e colonização. 8. — A primeira lição dos modernos conceitos da política colonial foi-nos dada pela conferência de Berlim (1884-1885). Como é sabido, saiu dessa célebre conferência o princípio de que as nações soberanas tinham «a obrigação de assegurar nos territórios ocupados por elas nas costas do continente africano, a existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e, em caso de necessidade, a liberdade de comércio e de trânsito, nas condições em que esta fôr estipulada» (Art.° 35.° da Acta geral da Conferência de Berlim). E para que não restassem dúvidas no espírito do govêrno português quanto ao valor atribuído aos nossos alegados «direitos históricos», fomos informados, em 1887, pelo govêrnobritânico, de que a ocupação tinha não só de ser efectiva,mas de ser «em força suficiente para manter a ordem, proteger os estrangeiros e dominar os indígenas» (1). Passou a não bastar, portanto, que possuíssemos fortalezas e feitorias no litoral, e celebrássemos tratados de amizade e vassalagem com os sobas e outros potentados africanos, como era da tradicional política, para que nos deixassem explorar tranquilamente o monopólio do comércio de Angola e Moçambique. Impunham-nos de fora, uma nova forma de acção, que se traduzia pela necessidade de avançarmos pelo sertão e de ocuparmos «em força» os territórios cujo domínio supunhamos assegurado por solenes tratados. A nova política ia-nos custar novos dispêndios de fazenda e vidas, a juntar às que já tínhamos sacrificado para manter o domínio português e propagar a fé católica no interior do Continente Negro. Contava-se, por-ventura, com a nossa tibieza perante a enormidade do sacrifício exigido, para nos levarem, definitivamente, a desistir de empresas coloniais; como se estas não fossem,:— como demonstraremos — , uma condição vital da existência da nacionalidade portuguesa.— A-pesar-de tudo, continuou Portugal a esperar, con-fiado na justiça e no seu bom direito, que a soberania portuguesa se poderia manter em todo o território, de costa a costa, de Angola a Moçambique. Mas da conferência de Berlim derivara, como se sabe, um conceito novo na política colonial: o das esferas de influência, estabelecido por tácito acordo das potências interessadas. Para assegurar os seus direitos, reconhecidos na conferência de Berlim, e obter o tempo necessário para desenvolver a ocupação «efectiva e em força», celebrou Portugal os tratados de 1886 com a França, de 1887 com a Alemanha e de 1891 com o Estado Independente do Congo, todos com o fim de fazer reconhecer, como esfera de influência portuguesa, os territórios que hoje separam as colónias de Angola e Moçambique. É a famosa história do «mapa cor de rosa». Mas esta nova ilusão também durou pouco. Como um sonho cor de rosa, esvaneceu-se! O ultimatum, e depois o tratado de n de Junho de 1891, aboliram de vez, pelo direito do mais forte, os apregoados «direitos históricos de Portugal». Foi a segunda lição! Ficámos sabendo, definitivamente, que, para conservarmos o pouco que nos deixavam, tínhamos de nos precaver contra as ambições e cobiças dos vizinhos, nem sempre escrupulosos nos meios que empregam para as satisfazer. Por uma natural reacção, veio substituir-se à doce indolência e à cega confiança nos «tratados» e nos «direitos históricos», a inquietação e a desconfiança contra os vizinhos, talvez tão exagerada como o sentimento oposto; mas inteiramente legítima e justificada pelos factos antecedentes, e que outros, dos nossos dias parecem reforçar. 10. — Uma terceira lição pode dizer-se que nos foi dado pelos acordos secretos de 1908 e 1913, celebrados entre a Inglaterra e a Alemanha: — a de que as grandes potências nãohesitam em ajustar as suas contendas nos lombos dos mais fracos, e que a nossa Fiel Aliada, é tão pronta em ajudar-nos com os seus bons ofícios, nas nossas dificuldades internacionais, como a vender-nos, quando por essa forma satisfaz o seu particular interesse. O que é bom relembrar de quando emquando. Mas algum proveito espero que saberemos tirar desta lição e da que resultou do tratado de Versailles: a certeza de que, doravante, nos será permitido justificar o nosso direito à posse das colónias, pela acção civilizadora que nelas exercermos, e que por «civilizar» no sentido que a moderna giria internacional, atribui à palavra, se deve entender: —ocupar, apetrechar e explorar economicamente. A protecção aos indígenas e o aperfeiçoamento moral e social destes, embora figurem sempre no primeiro lugar, nos escritos e discursos dos homens públicos, são apenas, —quando o contrário não convém—, uma simples consequência daquelas obrigações, ou um meio de as satisfazer. Quando o contrário convém, pratica-se a «política de segregação», como na África do Sul; ou aplicam-se aqueles processos mais radicais, que ganharam para os anglo-saxões o merecido epíteto de raça exterminadora. 11. — As ideias modernas sobre colonização, ideias que temos de aceitar, porque elas resultam de circunstâncias políticas, sociais e económicas, superiores à vontade dos indivíduos e das nações, baseiam-se, portanto, no que convencionaremos chamar o princípio do maior benefício, isto é, do maior proveito para a civilização em geral. Êste princípio tende a restringir o direito de soberania, como a noção de utilidade pública, interpretada como de «utilidade do maior número», restringe, em proporções até há pouco inconcebíveis, o direito de propriedade. Entende-se que as nações colonizadoras, só porque o são,assumem perante o mundo civilizado, um certo número de obrigações, cujo cumprimento é «condição necessária» para que o seu domínio sobre os territórios coloniais seja justificado. Esta condição devia ser também «condição suficiente» se, por detrás de todas as discussões dos juristas e dos ideólogos, não despontasse sempre o único direito incontestado, definitivo e que parece arreigado no inconsciente humano, — porque vem inalterável do homem das cavernas —o direito do mais forte. 12. — Em que consiste o «maior benefício»? — De um território dotado de valor económico, resultará o maior benefício para a civilização em geral, quando esse valor deixar de permanecer no estado de possibilidade ou de potencial, para se converter em valor efectivo ou actual, utilizável pelo maior número de homens. Se o território é capaz de povoamento, quando é povoado; se é susceptível de cultura, quando é cultivado pela forma mais perfeita e para dar o produto mais rico, por ser o mais necessário e o mais adequado à natureza do solo e do clima; se contém mine'rios úteis, quando estes são extraídos; se pode facilitar a circulação de pessoas e bens, quando está sulcado de vias de comunicaçãos as mais rápidas, mais seguras e mais económicas, segundo a sua natureza especial. Finalmente, se no território existe uma população indígena, o maior benefício resultará, — dizem —, da capacidade de produção e, portanto, de consumo que ela adquirir, — ou, por outras palavras, do grau de civilização a que fôr elevada. Todavia, a moral política moderna ainda permite que as metrópoles para si reservem certas vantagens e preferências de ordem económica; mas certos princípios, como o de livre trânsito (sem pagamentos de portagem); o de saída para o mar; de igualdade de tratamento fiscal para nacionais e estrangeiros, e outros, embora não constituam, por enquanto, um capítulo do direito internacional, são mais ou menos aceites pelo consentimento tácito de quasi todas as nações, e encontram-se exarados em muitos instrumentos diplomáticos. 13. — Em resumo, o que temos chamado o «princípio do maior benefício» impõe à nação colonizadora certas obrigações: — a de ocupar, administrar e fazer justiça; — a de proteger os europeus e manter a paz entre os indígenas; — a de civilizar estes pela educação e pelo trabalho, aumentando o seu bem-estar material e moral; — a de facilitar as comunicações pelo território colonial e o acesso dos seus portos, rios e lagos navegáveis; — a de explorar os recursos naturais, quer agrícolas, quer mineiros do solo; — a de facilitar o comércio e desenvolver as indústrias; — o que, tudo, se pode resumir numa expressão de conteúdo, indefinidamente extensível: — «obrigação de civilizar». 14. — Meus Senhores! — E à luz destes princípios, a cuja rápida e tormentosa elaboração as gerações actuais têm assistido, e ensinados pelos factos da história contemporânea, que temos de considerar o Problema da Política Colonial Portuguesa, especialmente na sua aplicação à colónia de Angola. Há ainda, no espírito de muitos homens públicos de Portugal e de certos dirigentes da opinião, grande número de conceitos erróneos sobre a importância da colonização portuguesa e sobre as obrigações que incumbem e os direitos que assistem a Portugal, como grande nação colonizadora. Não podemos abdicar dos nossos direitos e temos obrigação de os defender até à última extremidade; mas não podemos esquivar-nos ao cumprimento dos deveres correlativos, que assumimos perante o mundo civilizado. Se a tarefa, que a fatalidade histórica nos impôs, se nos afigura às vezes demasiado pesada para as nossas forças, devemos lembrar que ela é também uma tarefa gloriosa e a melhor justificação da nossa existência, como nacionalidade distinta.Aos homens de estado, ao pensadores, aos publicistas, e, em especial aos homens de ciência e aos institutos universitários, cumpre extrair da massa confusa das teorias, dos factos e das tendências particularistas de indivíduos e de grupos, os princípios orientadores da política colonial portuguesa. A êles compete também, por uma intervenção constante, fazer aceitar êsses princípios pela nação e impedir que se obliterem ou abastardem. E um dever nacional.  (CONTINUA....)



https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/36493/1/A%20Politica%20Colonial%20Portuguesa%20em%20Angola.pdf

domingo, 29 de julho de 2012

Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana

 
Moçâmedes e a sua retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐

 

1. Transcreve-se  do Portal "Hpip, Património de Influância Portuguesa", parte de um texto sobre  Namibe, Moçâmedes, Angola, Enquadramento histórico urbanistico:

"...Antes do plano elaborado no Gabinete de Urbanização Colonial pelo arquiteto João António Aguiar em 1952, a cidade estruturava‐se segundo uma retícula, em quarteirões, com edifícios implantados no seu perímetro, numa estrutura hierarquizada de ruas e praças, rematada por uma avenida marginal. A relação com o mar fazia‐se fundamentalmente pelas atividades económicas que ali se processavam, desde os armazéns ligados à pesca ao terminal do caminho‐de‐ferro e ao pontão ferroviário para cargas e descargas no porto.
 

O caso de Moçâmedes é bastante interessante, pelo facto de integrar em si duas características: a de cidade costeira, e por isso aberta ao mar, e a de urbe sob influência do caminho‐de‐ferro. Este último não interfere no desenho geral da cidade, pelo facto de se localizar paralelamente à linha da costa e junto dela. Este perfil e esta vocação viriam a ser alterados (ganhando uma componente lúdica também ligada ao mar e ao turismo), com a proposta do plano, através de uma expansão de desenho bastante formal, constituída por quarteirões fechados e abertos, compostos por tipologias de habitação coletiva e unifamiliar, com o verde como tecido agregador, esboçando uma simbiose entre o modelo da cidade‐jardim e a cidade tradicional. Esta proposta prolongava‐se por toda a extensão da Baía de Moçâmedes, criando uma grande avenida marginal, com novecentos metros de comprimento e trinta e dois de largura. Só em 1954 se voltou a elaborar um plano para a expansão da cidade, o Plano Geral de Urbanização de Moçâmedes, destacando‐se neste a construção do Porto Comercial e dos principais equipamentos públicos da cidade. Nos finais dos anos 1960, revelou‐se o potencial turístico de Moçâmedes. O seu desenvolvimento estratégico presidiu, em 1968, ao Plano Regulador de Moçâmedes e, em 1969, ao Plano Parcelar da Zona Marginal. Com a independência de Angola, grande parte dos objetivos destes planos ficaram sem efeito, verificando‐se apenas a construção parcial de dois pequenos bairros residenciais.

Fim de transcrição


2. Transcreve-se parte de um trabalho deveras esclarecedor, assinado por José Manuel Fernandes, sobre "Traços comuns do património de origem portuguesa na África Subsaariana",  na parte que diz respeito a Moçâmedes, a actual cidade do Namibe

"...O período oitocentista em estudo caracterizou‐se, em termos urbanísticos, no quadro da cultura euro‐americana, pela divulgação e intensa aplicação dos planos com malha em retícula geométrica rigorosa – quer em extensões de cidades existentes, quer na implantação de novas urbes. Correspondeu à chamada fase reformista da Revolução Industrial, sobretudo na segunda metade do século XIX, quando as grandes cidades euro‐americanas, como Paris, Londres, Barcelona, Viena ou Chicago sofreram vastas intervenções planeadas e dirigidas de reorganização espacial, funcional, equipamental – adaptando‐as ao novo estatuto de cidades industriais. Estas retículas, que correspondiam à concretização racionalista, no espaço das cidades, dos novos sistemas de comunicação e transporte (caminhos de ferro, metropolitano) e de infraestruturação básica (esgotos, água, gás, depois a eletricidade), exprimiam na sua linearidade retilínea e cruzada (avenidas largas, paralelas e perpendiculares, gerando sistemas de quarteirões de planta retangular), o primado das novas técnicas e sistemas de produção fabris, a ideia de aplicação à cidade do mecanicismo como forma privilegiada de ação de modernização – ainda num quadro pré‐rodoviário, mas que com a viragem de 1900 rapidamente incluirá a adaptação urbana a esta nova modalidade.
Em Portugal, se houve extensões urbanas contemporâneas deste tipo, à escala modesta das suas cidades (em Lisboa, com a Avenida da Liberdade, em 1879, e no Porto, com a Avenida da Boavista), e mesmo a criação de algumas novas cidades (a malha reticulada de Espinho, no final de Oitocentos), a grande ou mais significativa aplicação deste nova tipologia urbana (em formato relativamente modesto, que decorria da pobreza e dos recursos financeiros escassos) verificou‐se na África Subsaariana.
Os primeiros modelos geométricos afro‐coloniais surgiram ainda na primeira metade do século XIX, com o plano de 1838 de Sá da Bandeira para o Mindelo, embora a sua aplicação concreta não tenha ocorrido. Verificou‐se, sim, um crescimento mais pragmático da cidade, com origens marianas e de início de Oitocentos, nos anos de 1850‐1870, com base numa retícula mais irregular e orgânica, num compromisso com a tradição urbana lusa da época anterior, que a implantação na baía abrigada confirmava. O desenvolvimento acentuou‐se depois com a fixação de companhias comerciais inglesas, e a elevação a cidade deu‐se em 1879.
O desenho do plano de 1838 incluía uma retícula rigorosa de ruas e quarteirões, inscrita numa área retangular, à maneira pragmática do século XIX. No interior do tecido urbano, dois eixos perpendiculares cruzar‐se‐iam numa rotunda. No extremo poente, uma praça cívica abrir‐se‐ia para o mar, contendo igreja, paço episcopal, palácio do governo e câmara; e no topo oriental, três eixos arborizados irradiariam para um parque. Nas extremidades litorais, a alfândega e o mercado completariam o conjunto. Embora não aplicado, este plano marcou claramente a mudança de paradigma urbanístico para as colónias africanas, pois nas décadas seguintes verificou‐se a aplicação de malhas geométricas, como sistema normativo de implantação de novas urbes.
Duas das retículas mais impressivas e eficazes foram propostas – e desta vez rapidamente aplicadas – às novas cidades de Moçâmedes, atual Namibe, e Sá da Bandeira, atual  Lubango, ambas no sul de Angola; portuária a primeira, de planalto interior a segunda, ambas as cidades se ligaram mais tarde por um eixo ferroviário, que as constituiu nos dois marcos fundamentais do principal eixo urbano de ocupação urbana e de penetração para o interior sul‐leste do território angolano. Ambas as cidades eram estruturadas, bem na linha do urbanismo oitocentista de essência geométrico‐mecanicista, a partir das suas respectivas retículas genéticas, moduladas e seriadas, com um núcleo institucional central, congregando as funções representativas essenciais, servindo a retícula, para além de suporte ao espaço residencial primevo, para articular a atividade urbana com a área portuária e/ou alfandegária, por um lado, e com a estação e parque ferroviários, por outro. Vejamos agora mais em pormenor a caracterização destas duas intervenções do sul de Angola.
A área de Moçâmedes teve um primeiro reconhecimento em 1839, a que se seguiu, no mesmo ano, a criação de uma feitoria e a instalação de uma pescaria algarvia em 1843. Com cerca de cento e sessenta habitantes em 1849, recebeu então colonos provindos de Pernambuco. A povoação de Moçâmedes foi elevada a vila em 1851, e a cidade em 1907, em relação com a ferrovia nascente. Cidade de areais, implantada entre o deserto, o mar e as hortas, Moçâmedes possuiu desde o início um carácter próprio e uma personalidade urbana que, excetuando a implantação inicial dos equipamentos institucionais ao longo da baía (forte, palácio, igreja, hospital), esteve sempre assente na retícula rigorosa (e pioneira, na lusáfrica) que se implantou, alongadamente, no sentido sudoeste‐nordeste. A malha da retícula inicial, tanto quanto foi possível averiguar, ia desde o Forte de São Fernando, desenvolvida em sete quarteirões no sentido nordeste, e em três, para o interior. (...)   Na comparação entre as duas urbes (com Sá da Bandeira),  ressaltam os seus traços comuns, na forma e no tecido urbano, e nos processos de implantação e de desenvolvimento respectivos, dentro de uma mesma época e civilização material. A malha urbana de Sá da Bandeira, atrás referida, assemelha‐se, na sua escala, modulação e dimensão global, à de Moçâmedes, remetendo‐nos para uma mesma tipologia de novas cidades, certamente concebidas pelos organismos estatais no quadro ministerial ultramarino do governo português – e com planos de autorias prováveis pelas equipas de engenheiros que, trabalhando nos serviços públicos, introduziam os novos saberes técnicos, por via da influência do ensino francês, com as suas escolas de “pontes e calçadas”.

( Texto integral  ass por José Manuel Fernandes.  Património de influencia portuguesa. Fundação  Calouste Gulbenkian)

TEXTO INTEGRAL AQUI

terça-feira, 3 de julho de 2012

A respeito de caçadas, e leões do Deserto do Namibe rondando os arredores de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe)


Uma história e algumas curiosidades: O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja extremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desespero estilhaçara a espingarda e arremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dali continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crâneo com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossâmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.
                                                                               
MariaNJardim

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola (1914) : Mossâmedes e Lubango

Abraço de Despedida: partida de um Fuzileiro Naval do Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola  (1914). Foto Benoliel,Ilustração Portuguesa n.º 456, de 16 de Novembro de 1914.
Capa da Ilustração Portuguesa n.º 456, de 16 de Novembro de 1914


Moçâmedes em 1914
MARCHA NO SUL JUNTO AO LITORAL
DEZEMBRO DE 1914
(um testemunho)

(...) O caminho era unicamente um areal movediço, em que os pés se enterravam, e em que se dava uma passada para a frente e meia para trás de cada vez (...)

(...) De longe a longe alguma raquítica vegetação de plantas gordas rasteiras e salgadas, de um verde-escuro sujo, e com laivos terrosos (...)



As Welwitschia - Mirabilis





(...) Se parávamos, as areias cobriam-nas aos pés até aos tornozelos em menos de um minuto, vinham-nos açoitar a cara e as orelhas como pequenas balas; entrava-nos pelos ouvidos e pelo nariz. Que penosa marcha, encetada às 4 da manhã! Que terrível situação! (...)




(...) A fila indiana, aproximando-se o mais possível da água, era ainda assim chicoteada pela areia seca e pelas respingas da água salgada das ondas, que cada vez vinham maiores quebrar-se no areal. Com o corpo deitado para trás, para resistir ao vento sem cair, a areia mesmo molhada vinha chicotear-nos a cara, as mãos, o pescoço, de tal forma que estavam quase em sangue; e assim continuamos andando sem poder parar, pois a paragem seria a morte por asfixia enterrados no areal, que seguia sempre....sempre...., levantando-se nuvens de areia que iam formar mais a norte novas dunas, que se iam sempre movendo. A andar comemos bolacha e bebemos vinho, engolindo tudo misturado com areia (...).

Texto de: Roma Machado, In: "Recordações de África".








Texto de: Roma Machado, In: "Recordações de África".  AQUI 
 Continua....

Ver tb texto AQUI 


O Batalhão Expedicionário de Marinha  em Mossâmedes
ver aqui: http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm


O primeiro acto oficial do Batalhão de Marinha, após a chegada à cidade de Mossâmedes, em 30 de Novembro de 1914, foi um desfile pelas ruas da cidade, ao som de música, no qual mostrou o seu aprumo de corpo de elite. (4)

Tiveram de preparar, e em parte improvisar, as instalações para o seu depósito de material, munições e viveres, uma vez que nada estava preparado para os receber. Foi durante este período que os marinheiros tiveram de aprender a tratar dos solípedes e aprender a arte de cavalgar.

A 1 de Dezembro o Batalhão voltou a desfilar integrado nas comemorações do "Dia da Independência", com a particularidade de os oficiais já desfilarem montados a cavalo.

A 11 de Dezembro o Batalhão de Marinha partiu de Mossâmedes em direcção ao Cuamato, onde se encontrava o Tenente-coronel Alves Roçadas. A primeira etapa foi feita pela via férrea, que ligava Mossâmedes a Bela Vista. Foram precisos cinco comboios para transportar o Batalhão.

Após reunidos em Bela Vista seguiram a pé até Lubango, onde chegaram no dia seguinte.



O Batalhão de Marinha esteve estacionado no Lubango antes de partir para o Cuamato. (Foto de Teles Grilo)


O Batalhão Expedicionário de Marinha no Lubango


A 12 de Dezembro de 1914 o Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola encontrava-se em Lubango.As notícias da frente de combate eram alarmantes e os itinerários marcados para atingir o rio Cunene, em Forte Humbe, pelos Gambos tinha dois difíceis obstáculos, carência de água e de capim para o gado.

Lubango. Ilustração portuguesa n. 488, de 28 de Junho de 1915
Grupo de marinheiros, no Lubango, pertencentes à Lancha "NRP Rio Minho" que foram desembarcados para integrar o Batalhão de Marinha, (Foto de Teles Grilo)

A 21 de Dezembro recebem notícia que uma unidade alemã de cerca de 200 homens, teria bivacado nas redondezas de Lubango, o que fez com que tomassem posições defensivas à volta da localidade. Não chegou a haver qualquer confronto com a força alemã.
Pormenor do acampamento, onde se localizava o posto de TSF. (Foto de Teles Grilo)

1ª e 2ª Secções de Metralhadoras do Batalhão de Marinha no Lubango. (Foto de Teles Grilo)

Nesta mesma data o Tenente-coronel Alves Roçadas informa os marinheiros do sucedido em Naulila e ordena que estes avencem sobre Chibia. O Batalhão levou apenas 10 horas para se aprontar e partiram em direcção de Humbe, onde se encontravam as tropas do Tenente-coronel Alves Roçadas em retirada.

Carregamento dos carros Boers com o material de guerra. (Foto de Teles Grilo)

Em Lubango, a descarga dos camelos que transportaram o material militar e viveres para as forças que avançam sobre o Sul de Angola. (Foto de Alberto de Castro)


A velocidade a que se deslocavam os carros boer, puxados a bois, não conseguiam acompanhar o passo da marcha do Batalhão de Marinha, o que fez com que no final da primeira etapa, em Pituaco, não houvesse barracas e mantas para a pernoita. No dia seguinte 24 de Dezembro de 1914 alcançaram Chibia. Durante as etapas o maior problema foi a falta de água, por escassez de "cacimbas" (pequenas chuvas) e de quase inexistência de "mololas" (poços). (8)

Começaram no Natal a aparecer as primeiros febres entre os oficiais e praças, mas continuam a caminhar em direcção ao Quartel General do Tenente-coronel Alves Roçadas, que se encontrava à data em Gambos. Chegam a Gambos a 3 de Janeiro de 1915.

O Batalhão Expedicionário de Marinha  em Forte Gambos (Forno da Cal)

Chegados a 3 de Janeiro de 1915 a Gambos, o Tenente-coronel Alves Roçadas coloca o Batalhão de Marinha num posto avançado, lugar do Forno da Cal, que viria a ser a base de operações do Batalhão durante algum tempo.

O estrado de saúde do Batalhão foi piorando, muito também por causa das condições do local onde estavam estacionados. No entanto, construíram a base com as melhores condições possíveis, tendo em consideração o principal inimigo, a febre tifóide e o paludismo. (9)

O clima encontrado neste lugar variava entre 4ºC à noite e 39ºC de dia, com chuvas. Ao clima acrescia os problemas de escassez de alimentação por causa da falta de transportes.

Durante o tempo em que estiveram nesta posto, aproximadamente 3 meses, sofreram duas mortes por doença e tiveram de repatriar 21 praças para a Metrópole por doença.

Em 21 de Março chegou a Luanda o novo comandante militar de Angola, o General Pereira de Eça, e com ele iria recomeçar a ofensiva sobre os alemães. Em Abril o General visitou o posto de Forno de Cal, tendo comentado com o Capitão-tenente Alberto Coriolano Ferreira da Costa ter apreciado as boas condições em que o posto se encontrava.(10)

No dia 5 de Maio de 1915 o Batalhão, integrado nas manobras sobre o Sul de Angola, fez avançar sobre Cahama, lugar também conhecido como "cemitério dos brancos", uma coluna comandada pelo 1º Tenente Afonso Júlio Cerqueira, composta pela 1ª Companhia do Batalhão de Marinha e a 15º Indígena Expedicionária de Moçambique.

O avanço deu-se entre a hostilidade do população local, mas chegou-se a Cahama e ainda se avanõu mais um pouco até Tchicusse, onde se construiu um posto militar e se efectuaram vários trabalhos defensivos. A coluna de Cahama mantinha-se na posição até que em 26 de Maio recebeu um pedido de auxílio do Padre Bellet (francês), superior da missão do Espírito Santo, com sede no Tchipelongo, que estava a ser ameaçada pelos locais.

O 1º Tenente Afonso Júlio Cerqueira, após solicitar autorização ao comandante do Batalhão de Marinha, organizou um grupo de socorro à missão de Espírito Santo, composto por 51 marinheiros e uns outros tantos Landins, chefiados pelo 1º Tenente Cerqueira, o 2º Tenente Botelheiro, o Tenente de Infantaria Humberto de Ataíde e o Alferes de Infantaria Loza, ambos pertencentes à 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique.

Assim que chegaram à missão do Espírito Santo, dia 28 de Maio, começaram a ser atacados pelos locais, que se encontravam bem organizados e equipados com Mausers. O combate durou algumas horas até que os rebeldes desmoralizaram e fugiram deixando para trás no terreno mortos e feridos. Foi o baptismo de fogo do Batalhão de Marinha e o seu primeiro sucesso militar.

O grupo de socorro regressou ao posto de Tchicusse com vários feridos, entre os quais o Tenente de Infantaria Ataíde e o 1º Tenente Cerqueira.

Entretanto, as restantes forças do Batalhão de Marinha foram-se juntar à coluna em Tchicusse, onde permaneceram até Junho, data em que o Batalhão recebeu ordem para avançar para Humbe.

O estado de saúde do Batalhão de Marinha foi piorando, o que levou inclusive a que o comandante Coriolano da Costa e o Tenente Carvalho Araújo, colhidos pela enfermidade tivessem de ser repatriados. Isto levou a que o 1º Tenente Afonso de Cerqueira fosse promovido a Capitão-tenente e assumisse o comando do Batalhão de Marinha. No relatório do do 2º Tenente-médico Júlio Gonçalves, de 2 de Junho, há a indicação que 25% dos praças estão doentes e incapacitados para o serviço.

A 4 de Junho de 1915, deu-se início à marcha em direcção ao Forte Humbe. Junto com o Batalhão de Marinha seguiam o Batalhão de Infantaria n.º 17, comandado pelo Major Pires Viegas, a 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique, um grupo de auxiliares damaras, duas baterias de artilharia divididas em quatro secções, quatro baterias de metralhadoras, uma pertencente ao Batalhão de Marinha, e dois Esquadrões de Cavalaria, um do Regimento de Cavalaria n.º 4 e outro do Regimento de Cavalaria n.º 11, ambos comandados pelo Major de Cavalaria Vieira da Rocha.(12)

O Batalhão Expedicionário de Marinha em Forte Humbe  

O Batalhão de Marinha chegou a Humbe a 7 de Junho de 1915. O local estava reduzida a destroços. Tiveram de montar o bivaque em quadrado e improvisar defesas. Nesta data o Batalhão estava reduzido a 12 oficiais e 303 praças. Entretanto foram chegando as restantes forças militares da coluna.

Entretanto, receberam ordens para ocupar Ngiva, centro administrativo dos rebeldes do Cuamhama e sede do soba. A partida para o Cuanhama deu-se 10 de Agosto. Com o Batalhão de Marinha na frente da coluna, seguiu-se a 15ª Companhia Indígena e o Batalhão de Infantaria n.º 17.

Humbe. Ilustração Portuguesa n. 498, 6 de Setembro de 1915
Metralhadoras do Batalhão de Marinha, numa dos flancos do quadrado do bivaque



O Batalhão Expedicionário de Marinha no Cuanhama (O Quadrado de Mongua)


A chegada à região Cuanhama, a 15 de Agosto de 1915, foi comemorada com uma salva de artilharia, que serviu para também indicar propositadamente aos rebeldes a nossa presença e a intenção de restabelecer a administração portuguesa da região. (12)

As forças continuaram a avançar dentro do território hostil e foi em Mongua, a 18 de Agosto de 1915, que os rebeldes iniciam os ataques às forças portuguesas, os quais duram durante 3 dias.

A coluna formou o seu dispositivo defensivo em quadrado e coube ao Batalhão de Marinha a ocupação da face da frente (Leste) do quadrado, sob o comando do Capitão-tenente Afonso de Cerqueira. A face da direita (Sul) do quadrado foi ocupada por duas companhias do Batalhão de Infantaria n.º 17, sob o comando do Major Pires Viegas. A face esquerda (Norte) do quadrado foi ocupada por uma companhia do regimento de Infantaria n.º 17, a 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique e o grupo de auxiliares damaras, sob o comando do Capitão de metralhadoras Henrique Cameira. A face da retaguarda (Oeste) era ocupada pela última companhia do Batalhão de Infantaria n.º 17, sob o comando do Capitão de metralhadoras Teles de Azevedo. (13)

No dia 18 e 19 de Agosto o fogo inimigo foi esporádico e por vezes intenso, mas as patrulhas que saíam do quadrado não encontravam muita resistência. Entretanto, no dia 19 ficaram completos os trabalhos de entrincheiramento, que se tornaram necessários devido à capacidade de fogo do inimigo.(15)

No dia 20 de Agosto, os rebeldes comandados pelo soba Mandume, do Cuanhama, que concentraram entre 50.000 a 60.000 homens (cuanhamas. cuamatos. evales, alguns cuambis e muitos foragidos do Humbe) e com cinco carros boers de munições, todos armados com "Martini Henry" e algumas centenas de "Mauser" iniciaram o ataque contra os 3.000 homens portugueses. (14)

O fogo dos rebeldes era intenso e certeiro o que levou a que se desse ordem para os praças se deitassem e se protegessem com sacos de terra. O quadrado estava muito denso uma vez que englobava dentro de si perto de duas centenas de carros de transporte e atrelados e ainda dos dois esquadrões de cavalaria.

As secções de artilharia, colocadas nos cantos do quadrado, fizeram mais de 2.000 disparos durante o combate, se bem que não por igual, já que a maior intensidade do ataque inimigo se deu na face frontal (Batalhão de Marinha) e face esquerda (Infantaria n.º 17, landins e damaras). Nas outras faces do quadrado os feridos derivavam do fogo cruzado com a face frontal e esquerda, que os atingia de costas.

Os combates duraram desde as 7 horas da manhã até às 17 horas da tarde. O General Pereira Eça às 17 horas ordenou uma carga por forças do Batalhão de Infantaria 17, 15ª Companhia de Indígenas e do Batalhão de Marinha, e os Esquadrões de Cavalaria, para aliviar a pressão sobre o quadrado.

Ao lado direito do quadrado formou o Esquadrão de Cavalaria n.º4, comandado pelo Capitão Luiseno Godinho e do lado esquerdo do quadrado formou o Esquadrão de Cavalaria n.º 11, comandado pelo Capitão Cunha e Costa. A atitude impassível da cavalaria sob o fogo inimigo, arrancou dos praças um sonoro "viva a cavalaria portuguesa", que foi respondido com um "viva a nossa infantaria". Sem cuidar do fogo inimigo todos pararam de disparar e começaram a cantar a "Portuguesa", e os landins como não o sabiam o nosso hino começaram a cantar a sua canção guerreira "Baiete Incoce".

A carga da cavalaria, apesar das pesadas baixas e de praticamente ficaram sem montadas, conseguiram por em fuga soba Mandume e com ele fugiram todas as suas tropas. Mais tarde, a 6 de Fevereiro de 1917, já em território da Namíbia o soba Mandume foi encontrado morto, terminando com ele o último reino Ovambo independente.

O Batalhão de Marinha no final do dia tinha sofrido inúmeros feridos e dois praças mortos.

Em resultado dos três dias de combate as tropas portuguesas tiveram: 4 oficias e 32 praças (2 da marinha) mortos e 11 oficiais (4 da Marinha) e 44 praças (parte marinheiros).

Cuanhama. Ilustração Portuguesa n. 507, de 8 de Novembro de 1915
Acampamento do combate de 20 de Agosto de 1915, Posto de Socorro na face direita do quadrado (posição da Infantaria 17).


Posto de Socorro na face da frente do quadrado (posição do Batalhão de Marinha)


  

Capitão-de-fragata médico Vasconcelos e Sá, Chefe dos serviços de saúde do Batalhão de Marinha, e a Barraca da ambulância central da coluna militar.


Os reforços de munições e mantimentos só chegaram a 24 de Agosto, após uma longa marcha forçada da coluna que partiu do Cuamato.

A 2 de Setembro a coluna, comandada pelo Coronel António Veríssimo de Sousa, partiu com destino a Ngiva, composta pelo Batalhão de Infantaria n.º 17, o Batalhão de Marinha, duas Baterias de Artilharia, duas Baterias de metralhadoras e dois Esquadrões de Cavalaria. Depois de um árduo percurso chegaram e tomaram Ngiva.

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola regressou à Metrópole a 30 de Setembro de 1915,embarcados em Mossâmedes no vapor "Zaire". Neste navio regressaram 13 oficiais e 346 praças, tendo ficado eternamente em Angola 15 marinheiros, 2 mortos em combate, 12 por doença e um assassinado por indígenas em Lubango. Chegaram a Lisboa a 15 de Outubro de 1915.


CONTINUA....


Angola 1914-15 Forças Expedicionária Sul de Angola


 
Sul de Angola - Campamha de 1914. Augusto Casimiro "Naulila"
Foi logo após a implementação da República, a18 de Agosto de 1914, que o General Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convidou o Tenente-coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas a aceitar o comando da primeira força expedicionária para Angola.
O Tenente-coronel Alves Roçadas, era conhecedor da região de destino da expedição, por ter sido anteriormente governador do distrito de Huíla, no Sul de Angola. Em 20 Agosto, por intermédio do Ministério das Colónias, solicitou informações sobre os recursos existentes na província e mandou proceder a vários trabalhos de preparação de infra-estruturas militares e à mobilização de unidades indígenas e europeias locais.
A missão que lhe foi confiada tinha o objectivo de assegurar a obediência do gentio local e vigiar a fronteira Sul nos pontos estratégicos mais importantes. Para tal, atribuíram-lhe uma força expedicionária composta por: 61 oficiais, 1.464 praças e 335 solípedes.
Esta força expedicionária partiu de Lisboa nos dias 10 e 11 de Setembro 1914, a bordo dos vapores "Cabo Verde" e "Moçambique" respectivamente, as quais desembarcaram a 1de Outubro 1914 em Mossâmedes no Sul de Angola. 
A 22 de Outubro as forças expedicionárias encontravam-se implantadas no terreno, em Lubango no planalto de Mossâmedes, em posição para defender o Sul de Angola de uma ofensiva investida alemã que viesse da "África Alemã do Sudoeste" (Damaralândia), em direcção a Mossâmedes.
Entretanto, aconteceu um incidente de fronteira, em Naulila, a 19 de Outubro, onde foram mortos três alemães, parte de uma missão, que tinha entrado na província sem autorização, e acampado na margem esquerda do Cunene, em território português. 
 
A 30 de Outubro dá-se um ataque alemão ao posto militar de Cuangar, na margem esquerda do rio Cubango, no Sul de Angola. Foi um ataque de surpresa comandado pelo Capital de Cavalaria Lehmann com  20 praças de cavalaria com apoio de fogo de  metralhadoras, 10 guardas fronteiriços europeus, um grupo de polícia indígena e um numeroso contigente de indígenas autóctones. 
Ilustração Portuguesa, n.º 462, Ano 1914

 O Forte localizava-se a 900 Km de Mossâmedes  e 400 Km de Naulila, sem comunicações telegráficas. 





Nota da autora do blog: 
Durante este período, com o começo da 1ª Guerra Mundial ( 1914 - 1918 ) , Portugal proclamou a sua adesão à aliança com a Inglaterra (7 de Agosto de 1914) e pediu para entrar nas operações militares contra a Alemanha. Em 17 de Setembro partiu uma primeira expedição para reforçar as colónias em África, que lutaram no noroeste de Moçambique, na fronteira com o Tanganica, e no sudoeste de África, na fronteira com a África Sul-ocidental alemã. Recordemos que  «no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs», e ainda que «Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.»
Ver
AQUI
 AQUI
AQUI
AQUI


Coloco algumas fotos encontradas na Net e relacionadas com as campanhas do Sul de Angola:



 Ex-soba do Humbe aprisionado na Fortaleza de Moçâmedes

 Eduardo Costa, o Governador aficcionado de touradas, no decurso da sua passagem por Moçâmedes, relacionada com as Campanhas do Cuamato, assiste a uma tourada em sua honra
 
 O "Salvador Correia" atracado à ponte de Moçâmedes a descarregar material de guerra
Militares na Avenida de Moçâmedes
  Um contingente militar desfila em Moçâmedes, ao fundo da Avenida





HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO, dois anos de Governo (Junho 1907, Junho 1909)
     http://www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/1741.pdf

Full text of "Sul d'Angola; relatório de um govêrno de distrito (1908-1910)"

http://www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/1741.pdf