
MULHERES EMBIOCADAS NAS RUAS DE MOÇÂMEDES...
Interessante foto, tirada entre finais do século XIX, inícios do século XX, numa rua de Moçâmedes (actual cidade do Namibe). Trata-se de três senhoras vestidas com o tradicional "bioco", como era na época tradição em Olhão (Algarve), uma peça de vestuário em forma de capa
destinada a cobrir inteiramente a mulher que a usava, sendo a cabeça
ocultada pelo próprio cabeção, ou por um rebuço feito por qualquer
xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas, dizia-se, pareciam
"ursos com cabeça de elefante".
Como sabemos, a Moçâmedes a partir de 1861 começaram a chegar, em caíques, palhabotes e barcos à vela, navegando por sua
conta e risco, grupos de famílias algarvias que ali
se fixaram, ou em praias próximas (Porto Alexandre, Baía dos Tigres,
Baía das Pipas, Catára, etc), entregando se à faina da pesca. Olhão
teria sido, naturalmente, a terra da proveniência destas três senhoras
(anónimas), que levaram para os confins de África, este
costume algarvio que sugere e
influencia arabe. Alias, no Algarve ninguém tem dúvidas, o "biôco" ficou a dever a origem à
influência dos mouros e ao legado de cinco séculos de ocupação árabe,
presente incluso na arquitectura, para além de usos e costumes como
este. Autores defendem a origem árabe do bioco e que a
sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional,
essencialmente o Alto Algarve, o Alentejo e Ilha Terceira, nos Açores. Não eram precisamente iguais, no entanto, apesar da distância
geográfica,
existem muitas semelhanças.
Recorde se
que o Gharb al-Ândalus era a parte mais ocidental do al-Ândalus, que
corresponde a parte do actual território português. Em 711, os
muçulmanas atravessaram o estreito de Gibraltar e deram início à
conquista da Península Ibérica, o al-Ândalus. O ocidente peninsular de
influência mediterrânica, o Gharb al-Ândalus — corresponde
aproximadamente aos limites da antiga Lusitânia — embora intensamente
islamizado, não assumiu o protagonismo de outras regiões do al-Ândalus,
resistindo sempre aos processos de centralização do califado de Córdova
(Cordoba), ou posteriormente de Sevilha. O Gharb incluía cinco
territórios principais correspondentes ao termo de Coimbra, ao estuário
do Tejo, ao Alto Alentejo, ao Baixo Alentejo e ao Algarve. Estes
territórios estendiam-se ainda para as actuais Estremadura espanhola e
Andaluzia Ocidental. Destacavam-se as cidades de Coimbra, Lisboa,
Santarém, Silves, Mértola, Faro, Mérida e Badajoz. O Gharb começou a
perder terreno aquando da Reconquista, na qual os reis cristãos do norte
da península, nomeadamente D. Afonso Henriques, começaram a conquistar o
território para Sul. O fim do Gharb foi assinalado com a conquista do
Algarve pelo rei D. Afonso III.
Em 1822, Raul Brandão escreveu a propósito desta indumentária, no seu livro "Os Pescadores":
"
Ainda há pouco tempo todas as mulheres de Olhão usavam cloques e biôco
ou biuco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça,
tornava-as impenetráveis. É um trajo misterioso e atraente . Quando
saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos
e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro
realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da
rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se
esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher
esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos
que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a
figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
No Alto Alentejo este tipo de indumentária
era conhecida por "côca", e teria começado por ser um traje de noiva na segunda metade do século XIX, tendo a dimensão e
colocação do véu a ver com três posições distintas, consoante a classe a
que pertencia a nubente. A "côca" como traje de noiva acabou por
rapidamente cair em desuso, e passou a ser moda apenas no seio das
mulheres aristocratas ou da alta burguesia quando
assistiam a actos religiosos, obras de caridade, ou nas visitas a amigas, entre finais do século XIX e princípios do XX. Elas usavam
essa espécie de "biôcos" cobertos no cimo por uma renda larga que caía
sobre as
costas, agregados a uma capa curta . À frente era armado em papelão, ou
tarlatana, para se
manter aberto. Em alguns casos a renda era colocada caindo do alto da
cabeça sobre as costas, em outros era posta em sentido contrário, isto
é, cobrindo o rosto. Completava o trajo uma saia de merino. José Leite
de Vasconcellos observa que este seria o "trajo clássico de se ir à
festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à
segunda-feira seguinte". O investigador apresenta uma testemunha ocular
que, entre os anos de 1862 e 1866 terá visto as mulheres assim
embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a
utilização de "um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas
de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas".
Em 1920, a revista Ilustração
Portugueza publicou uma reportagem intitulada “Algarve: Jardim da
Europa”, onde o autor, por entre relatos idílicos de uma vida campestre
hoje estranha àquela região, fala do biôco como uma realidade a
desaparecer, mas ainda presente. ...A camponesa algarvia (…) não conhece
o garridismo das cores hilariantes, e na cabeça, sobre o lenço escuro,
estendido em ponta, põe a tampa androgina de um chapeu de homem. E em
alguns pontos, como em Olhão, usa ainda o seu trajo antigo, a capa e o
biôco que lhe imprimem agourentas aparencias de esfinge”, lê-se.

Nos Açores a mulher usava como agasalho, a sua espécie de capa idêntica
ao "bioco" algarvio. Era um capote preto com capelo armado, diferindo o
seu feitio de ilha para ilha. Leite de Vasconcelos visitou o
arquipélago em 1924 e pôde ver como elas na Ilha Terceira e no Faial
usavam mantos e capotes, um costume que chegou até meados do século XX
nos meios citadino. O manto era uma saia comprida e rodada de cor preta,
o capote era uma espécie de capa ampla, mais farta lateralmente que nas
costas. Quando utilizavam o manto, o capelo era armado com cartão e
atado pela cintura, e a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir
o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste
caso traduzia-se num amplo capuz suportado por um arco de osso de
baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo. Dos três
trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo
público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é
amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes,
correm o risco de cair no esquecimento já não são mostrados pelos grupos
das suas regiões de origem.
Na realidade não
se sabe quando este tipo de indumentária feminina foi introduzido em Portugal,
sabe se que há registos da sua utilização desde 1609, no reinado de
Filipe II, e que ha quem defenda que teria entrado em uso em 1649, no reinado
de D. João IV.
Não
serão o "bioco" algarvio, a "côca" alentejana, e o "capelo" da Ilha
Terceira (Açores), algo parecido com a tão criticada "burca" que ainda
hoje é imposta às mulheres no mundo muçulmano fundamentalista,
destinando-se a sua utilização a impedir o seu contacto com os
transeuntes que com ela se cruzassem na rua, ocultando a sua
identidade?

Talvez. Não esqueçamos que, como ficou escrito atrás o Algarve sofreu a ocupação árabe durante mais de 500 anos, e que o estatuto de subalternidade da mulher em relação ao homem recaiu sobre ela até quase ao limiar do século XX. Estamos perante um tipo de indumentária feminina que, para além da sua
função de abafo,
promove um certo
apagamento da mulher na esfera pública, e aponta mesmo para a total
exclusão do elemento feminino da sociedade, uma vez
que, completamente coberta, dificilmente se descobriria a sua identidade. Por outro lado permitir-lhe-ia alguma liberdade, já que não
sendo identificável ela podia movimentar-se livremente ocultada dos olhos
castradores da moralidade alheia.
Oficialmente a extinção do uso desta peça de vestuário feminina ocorreu
em 1892, por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do
Algarve.
"Faço saber que pelo regulamento policial
d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente,
aprovado pelo governo, determino o seguinte:
Artigo
32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito
o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem
escondendo o rosto.
Artigo 33º – As mulheres que,
nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente
artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário
de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à
presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas
designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas
ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão
detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.
Parágrafo
único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer
indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com
vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.
Artigo
34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para
com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se
de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições
durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem
máscara usando biôco ou rebuço.
Artigo 41º – O
presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo
403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por
editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio
Lourenço Pinto."
O bioco f
oi proibido nas ruas e templos, mas atenção, ela continuou a ser usada
em Olhão até aos anos 30 do século XX, quando foram vistos os últimos
biocos. Dois anos volvidos, o mesmo governador
assinava as palavras que abrem este artigo e parecia lamentar a
regulação. ...E o biôco, indestructivel como as pyramides do Egypto que
medem a sua existencia pela dos seculos, foi sacrilegamente banido dos
costumes algarvios”, dizia, atirando a responsabilidade da proibição
para a “influencia da opinião publica”.
A proibição, contudo, parecia
desnecessária, pois já havia uma regulação que proibia as mulheres de
andarem com a cara tapada. E essa lei tinha sido produzida mais de 200
anos antes, como explica Joaquim José Caetano Pereira e Sousa em 1827 na
obra “Esboço de hum diccionario juridico, theoretico, e practico
remissivo às leis compiladas, e extravagantes”: Pelo Decreto de 11 de
Agosto de 1649, e Alvará de 20 do mesmo mes, e anno se prohibirão os
rebuços das mulheres; e pelo outro Alvará de 6 de Outubro do mesmo anno
se declarou que as mulheres devião andar com a cara descoberta, ou,
havendo de trazer biôco, devião trazer o manto cahido até aos peitos”. A
verdade é que o decreto parece ter sido letra morta.
Sabemos
hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um
manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem
um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da
Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca. Sabemos também
que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a
cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes,
daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há
bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de
humildade perante Deus. E que por toda a Europa (França, Alemanha,
Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de
vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.