Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 20 de novembro de 2011

A Companhia de Mossâmedes



Expedições feitas pela empresa para examinar seu território para o seu valor agrícola. A área da empresa estendeu para o sul de Angola, na fronteira com a colónia alemã do Sudoeste, agora Namíbia entre Porto Alexandre e Cunene, em seguida, o Cubango seguintes mais directo para o Zambeze. 

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A "Mossamedes Society", ou Companhia de Mossâmedes era uma empresa de responsabilidade limitada criada em 1894, pela Royal Society, contudo a maioria do capital era francês, com sede em Paris, equipada com direitos soberanos, cuja principal tarefa era a de promover o desenvolvimento de infra-estruturas, particularmente a construção da ferrovia, a implantação e melhoria da produção agrícola, bem como a exploração de recursos minerais. Instalada na Angola, os seus funcionários eram na maioria franceses.

Esta empresa terá nascido do tratado assinado entre França e Portugal, em Maio de 1886, por altura da assinatura do Mapa Cor-de-Rosa, pelo qual era assegurado o exercício da influência e soberania do Estado Português no território descoberto pelos oficiais da Marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens entre 1884 e 1885, no seguimento das iniciativas de exploração destinadas a conhecer a zona que separava as colónias de Angola e Moçambique. Contudo, o interesse pela zona de Moçâmedes, hoje Namibe, estava já fundamentado pelas explorações realizadas nos anos 1870 e pela colonização iniciada nos anos 1840, quer com colonos idos do Brasil quer com colonos madeirenses e do Algarve, nomeademente de Olhão.  H. Guilmin era o diretor da companhia, Bryant, um engenheiro e Emile Van der Kellen eram seus funcionários.

A instalação da companhia no terreno proporcionou a Portugal grandes serviços pois com as expedições feitas pela empresa para examinar o seu território foram chamados vários especialistas, de prospetores a engenheiros, biológos e agronomos.

Sobre esta Companhia, encontrámos algumas referências no Boletim Geral das Colónias nr. 88 de 1932,  dedicado à visita do Ministro das Colónias de Salazar, Dr. Armindo Monteiro, nesse ano, a Mossâmedes.  Trata-se de um discurso proferido no decurso de um jantar oferecido ao Ministro por Torres Garcia. e esposa, na histórica fazenda de Santo Antonio do Munhino, propriedade daquela  Companhia,de que era administrador.

Torres Garcia fez o historial daquele local que considerou histórico, situado na zona conhecida por Serra abaixo, no Concelho do Bumbo, que abrangia o Munhino, Santa Tereza, Gimba, Capangombe, Tampa, Bruco e Bumbo, então  reduzido a ruinas e a escombros, mas que durante muitos anos fora o centro produtor de algodão de Angola, chegando a exportar mais do que o trigo da actual exportação, onde "trabalharam 62 agricultores brancos com mais de 12.000 trabalhadores indígenas", sendo a  produção escoada para o litoral em carros de bois, que tinham de transpôr mais de 100 quilómetros de deserto. Torres Garcia, o Administrador da empresa,  com todo o respeito e simpatia com que recebeu o governante,  foi claro e acutilante nas críticas que então teceu à administração da portuguesa colónia, fazendo sentir ao Ministro o descontentamento das gentes do sul de Angola.

Eis algumas passagens do seu discurso:

"Nesta Fazenda desenvolvida pelo esforço do colono José Luiz, da colónia de 1851,  passaram todos os militares que subiam e desciam do planalto recebendo do proprietário pousada e auxilio desinteressado. Além das instalações que a Companhia de Mossâmedes explora nesta região,  possui outras e mais importantes nas regiões do Otchinjau, Palanca, Ediva,  Dongoena, Dongue e Caculovar, guarnecidas com mais de dez mil cabeças."

"Esta Companhia, criada em 1894,  sob a influência do princípio das grandes empresas magestáticas , não chegou a sê-lo, mas nos actos preparatórios da sua instalação prestou altos serviços ao País, pois foram os seus prospectores, engenheiros, agronomos, e veterinários, que puseram ao serviço do País os seus trabalhos na questão da Barotze, fornecendo os elementos que nos deram a vitória"  "vitimas de ausência de planos governamentais e da descontinuidade de execução, desejamos viver em regime claro e imperativo no campo da conduta social e económica. Não falo de conduta politica, porque seria sacrilégio falar em tal nas colónias. Aqui somos servidores da Nação e as ideologias politicas guardamo-la no fôro íntimo da nossa consciência, como elemento disciplivador de uma conduta apenas filosófica."


"...O Governo ficou de início participante no capital e na administração da Companhia. Pois apesar dessa razão moral e dos trabalhos que tem feito no melhoramento do meio físico, com  a abertura de cacimbas, construção de barragens, estábulos e edificações, coma exportação de reprodutores charoleses e herefordes, que, só nos anos 1930-33 custaram mais de 600 contos, tem sido desacreditada, perseguida pelo representante do Governo da Huila, o seu Governador, que orientado e guiado por mesquinho ódio pessoal,  tem esquecido o que deve às suas altas funções, tornando-se um elemento perturbador do trabalho dos particulares e da economia do Distrito que administra."
 

"Nasci, Exa, nos contrafortes de penhascos da Serra da Estrela, inde a água corre em torrentes, caudalosa e impetuosa, límida mas tumultuária. Pedra lascada, bruta e informe, desprendi-me das serras altaneiras, irreverente, insultante mesmo, perante as nulidades a dobrez de carácter, a insignificância arvorada em mérito, a morbidez acanalhante do carácter humano. Se critico, se ataco, é porque tenho razão, e escondo as razões morais do meu ataque, para que não caia nesta festa, tão formosa e animadora, uma nódoa aviltante escorrida da falsa compreensão dos seus deveres por parte de um alto funcionário do Estado."

"Não poderá V. Exa., mesmo que ponha toda a energia moça que o anima na execução das suas ideias e dos seus planos, realizar obra duradoira se não guarnecer a colónia de um funcionalismo cheio de fervor patriótico e de dedicação profissional. Estes são os executantes e nunca se viu produzir obra sólida apenas sobre bons planos; é necessário que os obreiros não comprometam a formosura dos projectos com a falta de solidez e de estabilidade de construção. A Colónia tem de ser guarnecida por um funcionalismo sempre dominado pela insatisfação do dever sumprido, que se julgue sempre em dívida com a Nação,  e não possa dormir tranquilo quando deixa atrás de sí um protesto, uma queixa, uma negligencia.. Soldados ou funcionários, com os colonos, no momento do renascimento do labor colonial, sob a égide de um governo enérgico e inexorável,  para os patifes, para os ladrões e para os especuladores, far-se-ão milagres."


Estamos certos de que a estada de V. Exª em Angola obrigará a esse milagre, e que a administração deixará de ser feita cegamente do antro negro e mefítico do Terreiro do Paço, onde já me queimei numa hora obscura de reacção e combate.  Os sucessores de V. Exª. terão de vir às  colónias também. Já não será possível arredarem-se dessa obrigação."

O Ministro das Colónias ouviu com atenção todas as passagens do discurso e quando o Administrador Torres Garcia terminou, tomou a palavra para referir laconicamente, que "o Ministro não estava em condições para se comprometer com ninguém"...  (1)
                                                                                        
Ficara claro para o Ministro das Colóniaa,  Dr. Armindo Monteiro, que em Angola sequer existiam pontes e  estradas e que as infra-estruturas eram ali uma ficção. Pouco adiantaram as lamúrias do Administador porque o Governo-Geral de Angola tinha os cofres vazios...

Foi então que o Ministro das Colónias de Salazar, Dr. Armindo Monteiro, de figura de proa da União Nacional, ao aperceber-se da situação, tornou-se num opositor do Estado Novo e em 1936 foi para o exílio dourado em Londres, como embaixador de Portugal no Reino Unido. Era assim que se revolviam os problemas. Antes de ir para o governo de Salazar, O Ministro era professor universitário. Integrou um dos primeiros governos do Estado Novo, em 1929, como subsecretário de Estado das Finanças. Depois foi ministro das Colónias, ministro dos Negócios Estrangeiros .

(1) Para consultar este Memorial, clicar AQUI

 Ainda sobre esta Companhia fomos encontrar o seguinte numa busca pela net:

 PDF] 

N." 124- 29 DE MAIO DE 1911 POI' ÔBGNWI 11° 26 11° 00i'i'0iit0 ...

www.dre.pt/pdf1s%5C1911%5C05%5C12400%5C22832283.pdf
 http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k57228560/f315.image.r=MOSSAMEDES.langEN
 http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k58045746/f176.image.r=mossamedes.langEN


                                                                  *********




Outras pesquisas:

Como uma companhia emitiram seus próprios títulos. Foi nomeado após o angolano sul porto Mossamedes, (agora Namibe). Às vezes era nos anos vinte do Reichsbank alemão e também no Deutsche Bank planos de participar na sociedade, a fim de passar por eles ao câmbio.
alemão: Mossâmedes Society, era uma colônia Português de Angola, sob a forma de
Sociedade colonial portuguesa f fundada Karte des Gebietes der Compagnie de Mossamédes (Angola) . Origem PDF] 


Agora da
………………REVISTA COLONIAL.
1º anno  nr 11 LISBOA, 25 DE NOVEMBRO DE 1913
….Director : Dom. SOUSA RIBEIR©
Antigo Secretario Geral
do Governo da província de S. Thomé e Príncipe
e do Governo Geral de Moçambique


úteis que conviria fazer, avulta a do estudo attento da
questão indígena ; pois talvez por isso mesmo é aquella

LISBOA, 25 DE NOVEMBRO DE 1913 N.° I
Editor : ANTONIO NUNES SEQUEIRA
REDACÇÃO E ADMINISTRAÇÃO-2, Rua Paiva d'Andrada (ao (hlaih)
Telegr. : «Agex,ial» LYSBOA
Teleph. 2079
Composto e impresso na Typograplria do Annuario Commercial - Prata dos Restauradores, 21

                                                                     

O texto que segue (tal como o original), ajuda-nos a compreender um pouco melhor a importância de teve a Companhia de Mossâmedes



II cultura do algodão em Mossamedes



A Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da primeira colónia que, vinda de Pernambuco, às praias de Mossâmedes aportou ali em 4 de Agosto de 1849, se deve a introdução d'esta preciosa planta no districto. Distribuiu elle a semente de que se munira no Brazil pelos seus companheiros e, ainda hoje, decorridos cerca de 64 annos, a maioria das plantações de algodão proveem da semente brazileira.


Chegou a cultura ao seu auge no anno de 1872 em que se exportaram pelo porto de Mossamedes 355 toneladas; mas, tendo-se seguido uns annos de seroas e havendo o preço do algodão declinado quasi repentinamente de dois mil duzentos e cincoenta réis o kilo a 260 e 169 réis, a maioria das plantações, quasi na totalidade, foram abandonadas, o que originou o encerramento de duas fabricas de tecidos que existiam nesta cidade, uma a vapor, pertencente a Eugenio Wherlin, francez, e outra, com teares manuaes, de Luiz José de Oliveira, teares que ainda hoje existem, uns numa arruinada casa pertencente à Missão Catholica de Huilla e outros na casa da viúva do citado
Oliveira.

Devido às causas que apontámos, dedicaram-se os agricultores quasi exclusivamente à cultura da canna saccharina para fabrico de aguardente que se produzia em 35 destillações mais ou menos bem montadas . O maximo da producção, dizem-nos, jámais excedeu a totalidade de 1500 pipas cujo valor
pode computar-se em i 20 .000000.

Desde a conferencia de Bruxellas, começaram a acastellar-se perigos ameaçando a já então prospera cultura à qual Mossamedes deveu muito do seu desenvolvimento . O decreto de 27 de Maio de 191 t, como é de todos sabido, veiu de vez pôr cobro à cultura da canna, porque, havendo uma unira fabrica

de assacar em todo o districto, actualmente encerrada, e sendo as principaes plantações bastantes kilometros distantes d'ella (pois é sabido, quanto mais distantes as destillações se encontravam do littoral mais proximas estavam dos centros da consumo) não podia aproveitar-se senão uma pequena parte.

Felizmente os agricultores e legisladores, mal viram despontar o perigo que ameaçava o fabrico do álcool, de novo estimularam a cultura do algodão, conseguindo-se que ella reapparecesse em alguns valles do districto e se desenvolvesse um pouco mais em propriedades onde não chegára a desapparecer
por completo. Todas ellas embora muito lentamente e com sorte varia se vão desenvolvendo, não obstante a falta de mão d'obra que de ha muito assoberbava a agricultura e industria do Districto e, ultimamente, por motivos de todos conhecidos, se tem aggravado um pouco. Esta falta, se não se conseguir uma forte e voluntaria corrente de emigração de trabalhadores de Huilla, por bastante tempo se fará ainda sentir. Mas, se se fizer a occupação militar do districto que vimos preconizando desde a primeira vez que na qualidade de Inspector do 6.0 grupo de Circumscripções Civis de Angola, visitámos a de Capangombe cuja substituição por postos Militares alvitrámos, por ser a unira occupação com razão de ser nas terras d'aquella região, hoje englobadas na circumscripção civil de Mossamedes, a qual, em consequencia da séde escolhida, ainda tem menos razão de existir que tinha a de Capangombe, que algo de aproveitavel ia já produzindo, dispensavel se tornará essa corrente de emigração, pois é positivo que Chella abaixo ha mais do que os trabalhadores necessarios para a manutenção e desenvolvimento da agricultura e industrias de Mossamedes .

Mas, deixemo-nos de considerações sobre o problema da mão de obra, que longe nos levariam, tanto mais que, apesar da sua capital importancia para a economia do districto elle é de facil solução, bastando, como já dissemos na columnas d'esta «Revista» uma simples companhia indigena de infantaria para o conseguir e, passemos a tratar do algodão que produz a agricultura do districto, do que pode produzir e do papel que este districto, em que muitos persistem em ver apenas uma colonia de povoamento quando pode e deve voltar a ser uma colonia de plantação, poderia representar na economia metropolitana .


O algodão exportado produzido no districto nos ultimes tres annos, incluindo o actual, em que novos embarques se farão ainda, foi o seguinte : ,


1911 - Viuva Bastos & Filhos . . .6478 kilos


» -- Duarte de Almeida & C .a 4440 »

» -- Souza & Reis 1096 »

1912 -- Figueiredo & Almeida . , . 9 i 9 »

1913 -- Viuva Bastos & Filhos . , . 3760 »

» --Duarte de Almeida & C : .a 22312 »

- Figueiredo & Almeida . . . 201,0 »


Em 1912 e 1913 foram exportados 2:420 kilos de algodão produzidos neste districto, por individuos não agricultores, que englobámos nos numeros acima indicados .


A Companhia de Mossamedes exportou em 191 I, 35799 kilos e, em 1912, 4.221 para mercados nacionaes . Em 1913 exportou 5 :000 kilos para estes mercados e 28:800 kilos para Hamburgo . Não mencionámos estes numeros na producção do districto porque a Companhia de Mossamedes não tem aqui propriedades agricolas. Como atras dissemos, muito brevemente seguirão para Hamburgo mais umas dezenas de toneladas de algodão produzidas por esta Companhia e pela firma Duarte d'Almeida & C .a


Vê-se, pois, que para quinze milhões de kilos de que o nosso paiz carece annualmente, poderia Mossamedes ter concorrido com 27 :587, o que ainda assim não fez por a producção se ter destinado quasi integralmente á Allemanha por
causas absolutamente extranhas á vontade dos agricultores, causas de que adiante trataremos e que só revelam o desconhecimento, do que por aqui se passa e tanto deve interessar aos industriaes de fiação do nosso paiz e ás Associações Commerciaes.

A media da producção do algodão «caravonia», tem sido de 200. kilos por hectare, sendo, portanto necessarios 75:000 hectares de cultura, admittindo que se não consigam sementes mais productivas que forneçam o algodão necessario para o consumo portuguez . Poderá Mossamedes produzil-o ? Affigura-senos que sim, pois só no extincto concelho de Capangombe, com terrenos e clima eminentemente proprios para todas as culturas, especialmente a de algodão, existiram em tempos idos 57 propriedades algodoeiras ; e, revendo os diplomas de concessões de terrenos para algodão, vê-se que de 1863 a 1892 foram ali concedidos cento e quarenta e sete mil quatrocentos e dezoito hectares, á margem de varios rios . De tamanha area, havendo ainda muitos terrenos proprios que jamais foram requeridos, estão hoje sendo aproveitados, e bem mal, apenas umas centenas de hectares com varias culturas, quasi exclusivamente mantimentos . Afóra a area citada existem no districto terrenós na posse das principaes firmas que podem avaliar-se em 16:000 hectares proprios para algodão, de que só uma pequena parte contém esta planta .


São do conhecimento de todos os que um pouco se dedicam a questões coloniaes, os exforços empregados pelas varias nacionalidades para se emanciparem da esmagadora tutela da America do Norte que, só á sua parte, produz dois terços do algodão consumido nos mercados mundiaes . Desses exforços resultaram, como se sabe, entre outras, associações como a British Cotton Crowing Association, Associação Algodoeira Franceia e Associação Germano-Levantina . Nós, infelizmente, apesar de ainda hoje ocuparmos o quarto legar entre as nações
coloniais, nada mais temos produzido, alem de muitos decretos e portarias, é crivei que muito patrioticas e bem intencionadas, mas, positivamente, de resultados quasi miles, entre os quass é justo destacar o decreto de 2 de Setembro de 1901, cujo prazo convem prolongar, no tocante a impostos e premios .E, o que é mais : anullamos a propria iniciativa particular incitando  os agricultores a venderem o algodão, de que carecemos  em absoluto, á Allemanha, porque, não obstante os exforços empregados pelos Governos do districto e da provincia, e, ainda, os do Agente da Empreza Nacional de Navegação para que esta Empreza faça a redacção de tarifas para o seu transporte, ella continha, certamente esquecida de que o Estado no intuito unico de a beneficiar sobrecarrega com maiores direitos de exportação as mercadorias transportadas pelas marinhas estrangeiras, continua cobrando 25 000 réis por tonelada de algodão emquanto a «Woerman Linie» leva só iz ooo réis . E, como se fóra pequeno o incentivo á exportação para o Estrangeiro, emquanto o algodão de Mossamedes é cotado nos mercados nacionaes a 350 réis o kilo, na praça de Hamburgo logra a cotação de 450 réis!

O facto de até agora nada termos produzido, comparativamente com o muito que poderia estar feito, obriga-nos a recuperar o tempo perdido, pois podemos e devemos, repetimos, só neste dristricto ultramarino, produzir todo o algodão de que carecemos para a nossa industria . Evidentemente, sem a realização de tão dispendiosas como remuneradoras obras de arte, como barragens, canalizações, poços nos leitos dos rios, etc ., sem a acquisição de charruas,
desgranadeiras, arranca-cepas, machinas de apanhar algodão e enfardadeiras a vapor, que substituam quanto possível o braço indigena, obras e acquisições estas que poderão custar, talvez, para cima de um milhar de contos, não é fácil conseguir agricultar toda: a area que se torna indispensavel para conseguir esse desideratum . Não ha no districto capitaes para empreza de tal magnitude, embora sobeje, por honra nossa, iniciativa para obras de maior vulto. Mas, o que os agricultores daqui não podem fazer, tem a Companhia de Mossamedes (que pelas clausulas do seu contracto se obrigou a plantar cem mil hectares de algodão, tendo até á data, ao que nos dizem, bem mal tratados por signal, apenas mil hectares) obrigação de o fazer ou, pelo menos, tentar, organizando uma Companhia Algodoeira que tal nome mereça, com poucos ou nenhuns directores na metropole, tendo em Africa os technicos escolhidos de que careça, para muito trabalharem, como se tornaria necessario e, até uma fabrica para produzir o algodão tecido de que carecesse  a Provincia de Angola .

Dissémos e não nos cançaremos de o repetir, que aquella Companhia incumbe essa iniciativa . Restando-lhe, segundo consta de dados ophiciaes que temos presentes, 1 :141 .9218883 réis do seu capital, tem fundos de sobejo para o fazer, absolutamente dentro das clausulas do seu contracto. Gastou ella em
Africa, vê-se de documentos ofliciaes que o affirma, a fabulosa somma de 1 :979 .953$117 reis ... Em qué será facil provai-o, pois tudo, absolutamente tudo o que possue nos dois districtos do Sul de Angola, bem vendido, não produzirá cousa que se pareça com cem contos de reis.
A Companhia da Zambezia, que oflìcialmente tem sido accusada de não cumprir o seu contracto, com um dispêndio em África _de 1 .182 :ó86 8oz réis, gastou cerca de cem contos, na occupação de alguns prazos -- regimen que muito  desejaríamos vér . applicado a Mossamedes .e Huilla --; construiu um caminho de ferro de 28 kilometros de extensão ; adquiriu uma pequena esquadrilha de vapores para o rio Zambeze ; levantou explendidos edifcios, fabricas a vapor para tratamento do cairo e limpeza do arroz, oficinas, igualmente a vapor, que não se envergonham das que o Estado possue, fez uma estrada na qual, pelas grandes dificuldades do traçado gastou cerca de 17 contos, de Villa Bocage á Serra da Morrumballa, onde tem uma plantação de 73 :000 pés de café  das mais afamadas procedencias ; fez salinas, dedicou-se ao apuramento do gado bovino, de que possue cerca de cinco mil cabeças, e ainda lhe sobrou capital e iniciativa, apesar de pagar generosamente aos seus empregados talvez por isso mesmo, para ter em plena producção cerca de 400 :000 coqueiros,  330:000 plantas de agave e 4 :000 palmeiras de coconote, além de muito importantes culturas intercalares e viveiros de cacau, ficus elastica, castiloas, sansiviera cylindrica, sapium, kapok, etc ., que occupam, destinados a experiencias, algumas dezenas de hectares . Afóra isto, no dizer duma auctoridade insuspeita, o consul de Inglaterra, ha longos annos residente em Moçambique, conseguiu o melhor typo de administrador e o melhor typo de subordinado . . .

Assim tem procedido uma Companhia, com bons fundamentos, accusada de não ter cumprido o seu contracto . Que a Companhia de Mossamedes ponha os olhos nella ou nas suas congeneres d'aqueila fertilíssima e formosa região, e emprehenda a creação :d'uma Companhia Algodoeira de Mossamedes, adquirindo todos os terrenos proprios para algodão existentes no districto, o que julgamos poderá fazer com o dispêndio maximo de duas centenas de contos, parte dos qúaes


poderia, talvez, pagar em acções .. E abandone as pouco importantes plantações do planalto, a cerca de 500 kilometros do littoral, dos quaes 300. feitos por carros boers, estabelecendo-se em Mossamedes onde as plantações podem ser servidas pelos 176 kilometros de Caminho de Ferro já construidos e pelos portos e bahias com que a Natureza tão prodigamente dotou este districto . Todas as dificuldades com que lactam os agricultores do disiricto as tem ella no planalto, accrescidas ainda com as dos transportes aqui desconhecidas, e é positivo que as terras onde se estabeleceu são de inferior qualidade, comparadas com as do Munhino, Bibala, Bentiaba, Bambe, Coroca ou S . Nicolau
.

Ao que nos consta, o Senhor Visconde do Giraul está envidando exforços para a creação d'uma companhia algodoeira . Oxalá elle, a Companhia de Mossamedes, os agricultores da colonia ou os industriaes da metropole portugueza, tão interessados no caso, o conseguissem! mas, emquanto tal se não fizer, que ao menos coadjuvem os exforços dos srs . Governadores deste districto e da Provincia para que as tarifas da Empreza Nacional acompanhem as da «Woerman Linie» e as cotações do algodão em Portugal não sejam inferiores ás de Hamburgo, pois é anti-patriotice além de irracional que as colonias portuguezas exportem para o Extrangeiro productos que a nossa industria se vé forçada a adquirir por qualquerpreço, onde os encontre .Taes são os nossos votos .


(ass) VIEIRA BRANCO .



Ver o texto  original e completo AQUI 

 .....

Capa

Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5, 1898

Em anexo: Exploração geográfica e mineralógica no Distrito de Mossâmedes em 1894-1895, J. Pereira do Nascimento, médico da Armada Real, encarregado da Companhia de Mossâmedes de um estudo do território do ponto de vista das suas riquezas, agricola, industrial e mineralógicas, vias de comunicação com o interior, portos do litoral, fauna, flora, climas, recursos e riquezas mineralógicas da parte meridional da Provincia de Angola, etc. Especialmente mineralógicas.  Inclui Diário da expedição Mossâmedes a Porto Alexandre em 23 de Agosto de 1894.  E também à Baia dos Tigres. Ver aqui:

https://books.google.pt/books?id=y-czAQAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT#v=onepage&q&f=false

Ver na pg 14:

https://espace.cdu.edu.au/eserv/cdu:6621/AraDA_6621.pdf


Existe um  álbum que terá sido realizado no âmbito dos trabalhos desenvolvidos pela "Companhia de Moçâmedes", em Angola, onde as fotografias estão coladas sobre cartões com as legendas manuscritas em língua francesa, e são representativas de diversas fábricas existentes em Moçâmedes, das paisagens, desde o rio Cunene, a Ediva, ao Humbe, a Otjitanda, a Porto Alexandre, a Cubango, Cassinga e Mussaca, de diferentes expedições e seus intervenientes, como é o caso da expedição do médico da Armada Real, José Pereira do Nascimento, em 1894, ou da "Cassinga Concession", em 1897, ou ainda da expedição ao Zambeze, em 1899. O álbum apresenta ainda as gentes nativas, como as tribos Ganguela, Amboelas e Cafima e os colonos portugueses e böer, os animais, como os hopopótamos e antílopes e a sua excêntrica fauna, a welwitchia mirabilis, sendo que em muitos casos dão a conhecer os funcionários da referida empresa. O acesso a este álbum deve ser feito através do Centro Português de Fotografia.





quarta-feira, 16 de novembro de 2011

EM TÔRNO DE ALGUNS TÚMULOS AFRO-CRISTÃOS [1]







Creditos de imagem AQUI

(imagens colocadas à margem do texto que segue e que pode ser visto AQUI)



EM TÔRNO DE ALGUNS TÚMULOS AFRO-CRISTÃOS DE UMA ÁREA AFRICANA



Um dos elementos que concorreram para a transculturação, de valores brasileiros em áreas ou entre populações africanas, através de agentes que do Brasil regressaram à África ou ainda aí se transferiam foi o colono português ou o brasileiro branco, proprietário de escravos no Brasil, ao deslocar-se do Basmera a África juntamente com êsses escravos - além de móveis de jacarandá, vasilhas de barro, rêdes do Ceará, balaios e cestas de feitio ameríndio, mudas de plantas, papagaios; ou apenas com idéias ou noções ou métodos, adquiridos na América Portuguêsa, de lidar com escravos, alojá-los em senzalas complementares de casas-grandes, alimentá-los, vesti-los, iniciá-los em capelas particulares ou em oratórios das mesmas casas, mas práticas, e ritos luso-Católicos, fazê-los trabalhar em lavouras tropicais, com objetivos europeus.
Houve vários casos dessa espécie - de transferência às vêzes como que global de colonos estabelecidos no Brasil para a África - entre os quais casos de brasileiros, filhos de portuguêses, e portuguêses casados com brasileiras de famílias antigas e de velhos habitos patriarcais-rurais ou patriarcais-agrários. Alguns dêsses portuguêses e brasileiros transferiram-se na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Moçamedes. Aí se encontram em cemitério aristocrático, túmulos de estilo convencionalmente luso-Católico, de vários brasileiros, alguns de famílias fidalgamente rurais; e são vários os descendentes dêles, na população atual de Moçamedes.

Ainda hoje se encontram, também, nas "hortas" ou fazendas pequenas ou médias de descendentes de "brasileiros" naquela parte da Angola fortes traços de influência brasileira, não só sôbre a paisagem ou a vegetação africana - abrasileirada pela presença da mandioca, do tabaco, do cajueiro - como sôbre os estilos luso-africanos de vida, de economia e de comportamento. Inclusive o comportamento de serviçais africanos, alguns dêles continuadores de escravos africanos ou de descendentes de africanos que, ou acompanharam seus senhores na aventura de deixar o Brasil pela África, em face de surtos brasileiros de anti-lusismo; ou foram influenciados pelos métodos brasileiros de assimilação dos escravos a uma terceira cultura, nem européia nem ameríndia, porém luso-brasileira, com possibilidades de generalizar-se fàcilmente naquela cultura geral que venho denominando luso-tropical.

A generalização de cultura luso-brasileira em cultura luso-tropical ocorreu, com alguma freqüência, através de regressos quer involuntários - de escravos que acompanharam senhores do feitio dos que se estabeleceram em Moçamedes, em suas transferências do Brasil para outras áreas de colonização portuguêsa ou européia - quer voluntários: de ex-escravos ou de descendentes de escravos que se deslocaram do Brasil para essas outras áreas, maternalmente africanas, conservando-se, porém, com certo brio étnico-cultural, "brasileiros"; e não se deixando reintegrar de todo nas culturas ou sociedades maternas da África.

A situação dos descendentes dêsses "brasileiros" é assunto não apenas para pequeno ensaio, mas para obra extensa, longa e sistemática, em que se considere e estude o assunto nos seus vários aspectos socioculturais e psicossociais ou psicoculturais. Assunto complexo.

O que se poderá fazer, sob o critério de existir hoje uma cultura luso-tropical, particularmente favorável a subgrupos como os formados por tais "brasileiros" e por luso-indianos na África. São subgrupos que, fora dessa cultura - a luso-tropical - tendem a sentir-se mais ou menos desajustados ou "marginais", embora alguns individuos, membros dêsses subgrupos, tenham se tornado notáveis - mesmo como marginais - em subsistemas anglo-africanos e franco-africanos de cultura, depois de terem estudado - vários dêsses individuos - na própria Europa francesa ou inglêsa. A verdade, porém, é que raramente parecem desprender-se de todo de sua condição de luso-tropicais.

Em viagens de observação pela África, em 1951 e em 1952, procurei surpreender, com particular atenção, nas várias regiões que tive o gôsto de visitar, traços da presença dêsses "brasileiros". Os sinais de influência brasileira na paisagem, na economia, na cultura - cultura no sentido antropológico ou sociológico - de sociedades ou de áreas africanas, nem tôdas elas atualmente sob bandeira portuguêsa são por vezes evidentes.

Surpreendi vários dêsses traços, alargando assim o conhecimento de assunto há tempo entrevisto ou contemplado como tema ideal para uma pesquisa intensa e extensa. Na mesma época - 1951 - versei-o em nota prévia destinada ao grande público e publicada com excelentes fotografias de um companheiro francês de estudos afro-brasileiros, M. Pierre Verger, na revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro: notas que, ampliadas, constam da segunda edição de Problemas Brasileiros de Antropologia. E ainda agora lamento que não me tivesse acompanhado naquela viagem um Pierre Verger ou um Benício Whatley Dias ou um L, Cardoso Ayres, capazes de fixar em fotografias de valor científico para estudos antropológicos ou sociológicos, aspectos dessa transculturação interessantíssima. Ou - sob criterio mais lato - aspectos do à-vontade com que africanos ou descendentes de africanos, tocados no Brasil de influência luso-brasileira ou brasileira - que foi uma influência predominantemente européia e cristã em espaço tropical americano - mas não desafricanizados em motivos essenciais de vida, vêm dando expansão, na África, diretamente ou através de filhos, netos, bisnetos, tetranetos, ao seu estado cultural quase sempre intermediário, mas raras vêzes "marginal" no sentido cru de angustiado ou desprezado pelos grupos dominantes ou pelas culturas puras.

As fotografias que ilustram estas notas, sem serem - a não ser as que me foram gentilmente cedidas pela Agência Geral do Ultramar, de Lisboa, cujo arquivo é opulento - das que poderia nos ter dado, sôbre tema tão sugestivo, a arte-ciência de um Pierre Verger ou de Benício Whatley ou de um L. Cardoso Ayres, valem, entretanto, como primeira documentação fotográfica em tôrno de assunto que suponho estar ainda virgem de pesquisa verdadeiramente antropológica ou sociológica: os túmulos afro-cristãos de Moçamedes e as esculturas e pinturas afro-cristãs afins das que se encontram nesses túmulos, em contraste com as convencionalmente européias dos cemitérios ortodoxamente Católicos. Devo a maioria delas - para documentação desta simples nota prévia - à gentileza do Serviço de Publicidade da Província de Angola, cujo diretor me proporcionou a colaboração de um dos seus mais hábeis fotógrafos. Meus agradecimentos ao mesmo Serviço e ao fotógrafo que pacientemente me acompanhou em dias de sol intenso, em excursões que lhe devem ter parecido estranhas, não só pelas fazendas ou "hortas" como pelos cemitérios de Moçamedes; quer o Católico pròpriamente dito cheio de túmulos de brasileiros do Norte do Império que morreram luso-angolanos e cuja descendência é hoje luso-angolana ou lusitana, e aos quais se deve atribuir considerável importância como transmissores de brasileirismos à paisagem e à população, quer branca, quer de côr, do litoral da Angola - quer o que prefiro denominar "afro-cristão", a chamá-lo simplistamente "indígena", como é costume em certos meios mais requintadamente europeus da Angola. Às fotografias de túmulos dos dois cemitérios, um convencionalmente cristão e convencionalmente europeu em sua arte fúnebre e em sua simbologia do interêsse antropológico e de significado sociológico, outro, misto nessa arte e nessa simbologia, pareceu-me conveniente acrescentar fotografias de esculturas angolanas, quer apologética do Cristianismo, quer, a seu modo um tanto críticas do Cristianismo quando encarnado por puros europeus. São fotografias de esculturas que pude examinar de perto, na Exposição de Arte Sacra Missionária que, em 1951, se realizou em Lisboa, organizada, de modo admirável, pelo Diretor da Agência Geral do Ultramar, Dr. Banha da Silva, às quais estimaria juntar as de esculturas fúnebres, de remota influência cristã, que o diretor do Museu Etnográfico de Dundo, o Sr. José Redinha, vem reunindo nas suas coleções: excelentes coleções que marcam valioso serviço da Companhia dos Diamantes à ciência etnográfica ou antropológica. Aliás duas peças da pequena coleção particular de esculturas africanas que em Apipucos se junta aos meus também poucos objetos de arte ameríndia - poucos porém não de todo vulgares - devo-os à gentileza do etnólogo José Redinha. O Professor Melville J. Herskovits surpreendeu-se tanto de ver no Brasil tais esculturas africanas que as supôs cópias de originais, feitas para turistas ou diletantes.

Sem pretender fixar-me no aspecto pròpriamente histórico da migração interluso-tropical que representou, em 1849 e 1850, a transferência de dois grupos consideráveis de portuguêses e brasileiros, de Pernambuco para a Angola - acêrca do que se encontram, além da documentação esclarecedora incluída no livro de Manuel Júlio de Mendonça Tôrres, O Distrito de Moçamedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização (1485-1859), documentos MSS no Arquivo da Câmara Municipal de Moçamedes, por mim examinados [2] - recordarei apenas, apoiado nessa documentação e na que vem sendo recolhida no Brasil pelo Professor J. A. Gonsalves de Melo, ter sido a mesma migração de elementos capazes e saudáveis e animados tão sòmente de sentimentos de repulsa aos exageros do nativismo então dominante entre alguns pernambucanos. Mendonça Tôrres, porém, deixa de ser inteiramente exato a respeito dêles quando afirma [3], terem os "colonos" que no meado do século XIX se transferiram do Norte do então Império brasileiro para a África, tornando em alguns anos Moçamedes "uma imagem viva e doce da Pátria", isto é, de Portugal, "pela introdução de usos e hábitos nacionais". A verdade é que êsses "colonos" introduziram em Moçamedes não apenas usos e costumes do Portugal europeu como do Brasil; e nessa obra de transculturação parecem ter sido auxiliados de modo nada desprezível pelos brasileiros, quer brancos - espôsas, filhos, parentes, etc. - que os acompanharam, quer pelos criados e serviçais. De alguns daqueles colonos sabe-se que se especializaram, como Bernardino de Figueiredo, em cultivar muito brasileiramente, em Moçamedes, algodão e cana de açúcar; e com tal sucesso que amostras de algodão da fazenda e do açúcar do engenho do mesmo Figueiredo figuraram em 1865 na Exposição Internacional do Pôrto. De modo igualmente brasileiro parecem ter se requintado êsse e outros "colonos", idos do Norte do Brasil, em receber com mesa lauta amigos e estranhos em suas casas-grandes de feitio patriarcalmente pernambucano: casas-grandes completadas por senzalas. Daí terem se tornado famosos os banquetes na casa-grande da Fazenda dos Cavaleiros, de propriedade de Figueiredo; e em visita há poucos anos a Moçamedes tive notícia de terem sido essas fazendas centros de irradiação não só da lavoura de algodão e da de açúcar, como de outras lavouras brasileiras, de alimentação e de gôzo; e de costumes e ritos luso-brasileiros de agricultura e de vida rural.

Êste o ambiente que parece ter concorrido para animar em africanos cristãos de Moçamedes o desejo, que realizaram, de ter cemitério próprio. E de edificarem aí túmulos em que se projeta sua situação de subgrupo de cultura intermediária, isto é, já cristã e européia, mas ainda africana e animista. É para essa cultura - para a sua complexidade - que parece ter concorrido o contacto particularmente intenso do mesmo subgrupo de população luso-africana com o Brasil, do qual se transferiram para Moçamedes valores e estilos de convivência ainda hoje visíveis nessa subárea luso-angolana.

Uma das expressões mais dignas de estudo da situação intermediária de cultura - cultura afro-cristã - característica de considerável subgrupo da população de Moçamedes, repita-se que é a que se nota naquele cemitério a um tempo cristão e africano, em cujos túmulos, aos símbolos cristãos se juntam, com valor simbólico ora menos, ora mais evidente, não só desenhos de traço africano como urnas e receptáculos destinados menos a flôres, dentro do ritual cristão de culto aos mortos, que a ofertas de outro gênero - alimento, inclusive - como em rituais fúnebres africanos. Talvez o referido cemitério seja, neste particular, uma das expressões biculturais mais interessantes que hoje se encontram em qualquer parte.
Do ponto de vista artístico, os túmulos afro-cristãos de Moçamedes lembram, de modo nítido, com suas pinturas e esculturas coloridas, seus azues e seus vermelhos vivos, desenhos e pinturas do artista brasileiro Cícero Dias, parecendo essa semelhança favorecer a opinião dos que enxergam influência africana na arte dêsse pintor nascido em casa-grande de Pernambuco e criado sob sugestões e influências de serviçais de côr, continuadores, sob vários aspectos do seu comportamento e da sua cultura, de escravos africanos ou de origem africana, outrora parte essencial das casas-grandes patriarcais de engenho, fazenda e sítio do Brasil. Lembram também pinturas de Lula Cardoso Ayres, da fase em que êsse pintor estêve mais próximo das formas e côres da cerâmica popular do interior agrário de Pernambuco e da representação da figura humana nessa cerâmica por vêzes pintada. A presença de vermelhos e azues, de amarelos e verdes nos túmulos afro-cristãos de Moçamedes, contrasta com a brancura caracteristica dos jazigos do Cemitério europeu e Catolico da mesma cidade, fazendo-nos pensar na revolta do sociologo brasileiro Professor Guerreiro Ramos, numa das paginas do seu "O Negro desde dentro", capitulo de Introdução critica á sociologia brasileira, contra "a brancura como simbolo do excelso" e até do santo ou do sagrado. Concepção que, incluindo a própria ideia ou imagem de Deus - um Deus em branco - é pelo mesmo sociologo associado à concepção do sagrado de povos brancos impostas a gentes de côr. O Cemitério afro-cristão de Moçamedes não prima pela brancura dos seus túmulos mas afasta-se dessa convenção europeia juntando a símbolos de fé cristã côres vivas, nas quais se exprime uma concepção do sagrado diferente da europeia. Diferente da europeia mas não propriamente anti-cristã ou anti-Católica.

É possível que, se aos descendentes cristianizados de escravos africanos tivesse sido dada, no Brasil, a oportunidade de levantar seus próprios túmulos, as formas e côres decorativas e algumas simbólicas e talvez rituais dêsses túmulos rústicos, espontâneos e, a seu modo, barrocos, houvessem se desenvolvido de modo semelhante às dos túmulos do cemitério afro-cristão de Moçamedes. Como é possível que alguns dos túmulos afro-cristãos de Moçamedes acusem influências brasileiras sôbre a população africana daquela área. Influência que houve noutros planos - como, por exemplo, sôbre a arquitetura e a alimentação, quer de brancos, quer de pretos e pardos ou mestiços - e chegou a ser considerável, exercida como foi, não só por portuguêses da Europa e negros da África, que se transfeririam do Brasil para a África, ou a ela regressaram, como por brasileiros nates, alguns de famílias já rural e telúricamente brasileiras, que acompanharam pais, esposos, sogros e outros parentes portuguêses, em sua aventura de transferência total do Brasil para Moçamedes.

Lembram também os túmulos afro-cristãos de Moçamedes pinturas e esculturas populares brasileiras: de zonas do Brasil mais marcadas pela influência africana. Pinturas de baús, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estandartes de clubes de carnaval. Lembram esculturas pintadas, santos e madonas rústicas, esculpidas por santeiros brasileiros. Isto tanto no traço como nas predominâncias de côres.
Note-se, ainda, que as esculturas nos túmulos afro-cristãos de Moçamedes parecem confirmar, sob alguns aspectos, a sugestão de Ladislas Zzecsi, nas suas notas "The Term "Negro Art" is essentially a non-African concept", de que as figuras de escultura negra tidas por arte intencional ou deliberada por alguns intérpretes europeus, não são criadas pelos supostos artistas com outra intenção senão a religiosa. O que o suposto artista deseja é dar abrigo nessas esculturas ao espírito do seu antepassado. Êle esculpe "for the purpose of housing the spirit of his ancestor, who might thus return do guard the members of his family" [4]. (4)
Observa o mesmo autor a constância de formas tribais nos diferentes estilos de arte de escultura entre os negros africanos. Essa constância sobreviveria a outras assimilações: de língua e de costumes.
No caso das esculturas afro-cristãs dos túmulos do cemitério de Moçamedes, motivo principal destas notas à margem dessa e de outras influências brasileira na paisagem, na economia e na cultura de subáreas luso-africanas de Angola, parece exprimir-se aquela constância de formas africanas tribais. Parecem algumas das esculturas naqueles túmulos, simbolizar estilizadamente, espíritos de antepassados, evocados menos em suas semelhanças de fisionomia individual ou mesmo familial que étnica; e menos em traços étnicos que através de insígnias dos seus ofícios e sobretudo - elemento novo, europeu, tanto quanto possível harmonizado com os antigos de sua nova fé ou religião - a de insígnias cristãs, na sua expressão Católica, Apostólica, Romana. Por conseguinte, através de símbolos como a Cruz, o Cristo na cruz, a Madona com o Menino Jesus. Isto, talvez, dentro de já antiga tradição vinda de dias remotos da colonização portuguêsa da África.

Observe-se de algumas das populações da área luso-angolana que, como as populações do Congo, vêm sofrendo em sua cultura - inclusive em sua arte - influência portuguêsa desde o século XVI: antes mesmo dessa influência ter-se tornado luso-brasileira, através dos muitos contactos que se desenvolveram entre a Angola e o Brasil. Em seu "Essay on Styles in the Statuary or the Congo", publicado na Negro Anthology, organizada por Nancy Cunard e publicada em Londres em 1934, é o que destaca o belga Henri Lavachery, dos Reais Museus de Arte e História da Bélgica: que no litoral do Congo Belga e da Angola "a realism of ancient importation continues to be manifest in the heads of sculptured figures" em contraste com "the bodies of the big village charms and famous studded fetiches" que "are all too frequently characterized by the grossest formalism". Êste contraste se encontra de modo menos agudo nas esculturas dos túmulos luso-cristãos de Moçamedes, num dos quais parece confirmar-se outra generalização do observador belga relativa ao enclave português de Cabinda: "certain articles of the 16th century Portuguese attire were still the fashion" até data relativamente recente. Aí, "it was the habit of certain artists, in the absence of the living model, to surround the heads of their figures with coiffures of a most phantastic and decorative art" [5]. Na Angola notam-se arcaísmos de trajo de gala, que acusam influência portuguêsa remota, quer entre viúvas, quer entre pescadores de Luanda, por exemplo; e dêsses arcaísmos de trajo pareceu-me haver traços em certas figuras esculpidas em túmulos afro-cristãos de Moçamedes. É aspecto que pede estudo mais demorado e minucioso.

Os símbolos de trabalho das pessoas falecidas, nos túmulos afro-cristãos de Moçamedes, talvez correspondam ao rito, dominante entre sociedades africanas da África Ocidental, de deverem ser tais pessoas acompanhadas no seu sepultamento de sinais ou insígnias de sua posição. Como observou o Professor K. L. Little da Universidade de Edimburgo, no seu excelente The Mende of Sierra Leone, a west African People in Transition [6], na sociedade por êle estudada em fase de transição, não só "the deseased should be sent on his way with ceremonies appropriate to his earthly rank" mas "he should also cay with him some token of his position". E o Professor Meyer Fortes, em The Web of Kinship among the Tallensi [7], já destacara que entre os Tallensi - "typical of the great congeries of Mole-Dagbanespeaking peoples that occupy the Northern Territories of the Gold Coast" e que constituem "a completly homogenous community of sedentary farmers" - "a person's status is most conspicuously proclaimed at his or her death. . ."

Aqui é que parece ter se integrado de modo sociològicamente interessante a projeção de um rito africano numa arte ritual cristã como é a do túmulo de pedra que, por sua vez, se presta à expressão de uma arte africana a serviço, quase sempre, entre negros africanos, de motivos ou objetivos religiosos e rituais, social ou tribalmente simbólicos: a escultura. A escultura fúnebre às vêzes completada pela pintura que pelas côres avive intenções simbólicas, em vez de serem côres simplesmente decorativas.

Quanto ao fato das urnas junto aos túmulos afro-cristãos de Moçamedes poderem ser utilizadas para outras homenagens ou ofertas à memória ou ao espírito dos mortos, além das flôres - segundo o rito cristão - tal possibilidade se conciliaria com a crença, comum a várias sociedades africanas da África Ocidental, de que tais espíritos retêm, como lembra o já referido sociólogo e antropólogo inglês, Professor Little, "their anthropomorfic character". Mais: "an ancestor's status lasts as long as the dead are remembered. . .". E os túmulos são por algumas dessas sociedades identificados com as casas ou as habitações humanas, de modo semelhante ao que sucede entre cristãos, podendo-se assim verificar, em tôrno dessa crença comum a sociedades predominantemente agrárias e sedentárias nos seus sistemas de economia e nos seus principais motivos de vida, manifestações de zêlo por êsses mesmos túmulos, e em tôrno do que elas simbolizam, também aparentemente comuns; e nas quais se confunda o sentido da homenagem africana - a palavra "homenagem" vai aqui empregada com o sentido antes sugestivo que exatamente descritivo - de caráter ainda animista com a da homenagem cristã de caráter espiritualista. A mesma confusão pode ocorrer entre o culto à Virgem Maria - Mãe de Deus, de Jesus, dos Homens - culto que me pareceu um dos característicos mais cristãos das esculturas do Cemitério Afro-cristão de Moçamedes - e reminiscências, porventura persistentes entre os afro-cristãos dessa subárea, da identificação matrilineal de vivos e mortos com a Mãe: identificação de que fala o Professor Meyer Fortes, noutro dos seus trabalhos de Antropologia social, baseado em pesquisa de campo na África: The Dynamics of Clanship among the Tallonsi [8].

Em indagações realizadas para trabalho de colaboração com o autor destas notas sôbre descendentes de africanos e africanos que regressaram do Brasil à África no tempo da escravidão no Brasil patriarcal, o pesquisador francês Pierre Verger constatou a transformação, entre grupos de "brasileiros" por êle estudados mais de perto, do culto baiano de Nosso Senhor do Bonfim no de Nossa Senhora do Bonfim. No Cemitério afro-cristão de Moçamedes o culto cristão à Mãe de Deus parece ser associado ao culto aos mortos, nas esculturas sôbre seus túmulos, como um pendor para êsse culto que se assemelha, talvez, ao que resultou naquela transformação do culto baiano do Senhor - isto é, do Pai - num culto afro-brasileiro, de origem baiana, da Mãe, sob a figura de Nossa Senhora do Bonfim.

Parece-me que é pela sua confusão de símbolos que o Cemitério afro-cristão de Moçamedes - subárea angolana particularmente tocada (repita-se) por influência brasileira - melhor se apresenta como tema antropológico rico de sugestões. Diante dêsses símbolos assim biculturais, em conciliações ou confusões significativas em mais de um sentido - o estético e o político-social - em tôrno do culto dos mortos, parecem adquirir particular significação as palavras com que, em seu inteligente artigo sôbre "Symbolism", para a Encyclopaedia of Social Sciences [9], Edward Sapir escreveu com a penetração característica da sua inteligência: "It is important to observe that symbolic meanings can often be recognized clearly for the first time when symbolic value, generally inconscious or conscious only in a marginal sense, drops out of a socialized pattern of behavior and of the supposed function. . .".

Nessa situação de símbolos em processo de serem desencarnados dos objetos de suas funções, mas ainda não de todo mortos como formas de etiquêta, é que talvez se encontrem os símbolos africanos de caráter tribal que persistem em associar-se, em túmulos afro-cristãos de Moçamedes, aos puros símbolos cristãos ou Católicos. Neste caso êles se apresentariam como "conscious only in a marginal sense", para usarmos a expressão de Sapir. Sua validade deixaria de corresponder aos motivos religiosos básicos de sua primitiva forma tribal e complexa para apenas anunciarem o status pessoal de maneira inteligível a olhos de africanos ainda impregnados de cultura tribal; ou de suas sobrevivências que, em situações socioculturais como as luso-tropicais, são muitas vêzes sobrevivências permitidas ou toleradas de fato, embora oficial ou teòricamente repudiadas, por autoridades eclesiásticas ou civís mais zelosas da ortodoxia cristã e da uniformidade européia de comportamento: inclusive de etiquêta.

Não é absurdo admitir-se que o estudo minucioso, seja dos ritos fúnebres - inclusive da arte dos túmulos e do culto aos mortos ligado a essa arte - seja de outras formas de etiquêta e de simbologia social entre os afro-cristãos de Moçamedes, venha a revelar a presença, nesses ritos ou forma e na arte daqueles túmulos, de traços de cultura brasileira, adquiridos quer impessoalmente, quer através de pessoas ou de personalidades marcantes de origem ou formação brasileira ou mestiça: afro-brasileira.
O antropólogo Paul Radin, ao estudar ritos fúnebres entre os Winnebago - material que anos depois de recolhido viria a apresentar num livro que ao interêsse científico junta o literário ou poético: The Road to Life and Death. A Ritual Drama of the American Indians [10] - verificou a presença, nos mesmos ritos, de traços de influência cristã indireta. Para o que encontrou evidência semi-histórica em narrativa referente à participação de certo mestiço franco-ameríndio no desenvolvimento do drama ritual dos mesmos Winnebago no sentido do encontro ou da síntese das duas culturas: a Winnebago e a européia cristã. Dessa participação. Radin diz ter correspondido à "need of a new religious and philosophical synthesis" [11], experimentada pelos Winnebago.

Necessidade semelhante parece ter sido experimentada pelos afro-cristãos de Moçamedes: sobretudo os que se encontraram no século XIX em maior contacto com a cultura afro-brasileira mais penetrada pelo Cristianismo ou pelo Catolicísmo. Os túmulos do Cemitério afro-cristão talvez devam ser considerados principalmente isto: resposta, ou tentativa de resposta, sob forma artística, ao que deve ter se extremado entre alguns daqueles elementos afro-cristãos da população de Moçamedes no que Radin chamaria "the poignant needs of a people facing a soul-trying ordeal".
(...)



Fonte: FREYRE. Gilberto. Em tôrno de alguns túmulos afro-cristãos. Salvador: Livraria Progresso; Editora e Universidade da Bahia, [1959]. 88p. il. (Coleção de estudos brasileiros. Série Marajoara, n.26).

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Moçâmedes, Namibe, Angola, annos 1839 a 1849, in "Annaes do Município de Mossamedes"








"....Segundo cópia extraída do livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849, especialmente para servir de informação ao autor deste ensaio - gentileza que devo ao chefe da Secretaria de Câmara Municipal de Moçamedes, Sr. Artur Trindade - "Mossamedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadôres, foi mandada vezitar pelo Capital General d'Angola Barão de Mossamedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação.

Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939. Neste anno veio de Banguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria. Jacomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação.

Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio pois veio João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura. Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada. Os partidos politicos do Brazil, principalmente em Pernambuco, tendo sempre por fim a maior ou menor perseguição aos Portuguezes alli residentes desgostarão estes, e muito concorreo tal perseguição para fornecer a idea de colonizar Mossamedes; as expozições que de Pernambuco se fizerão para o Governo Portuguez sendo acolhidas, este deu providencias para se transportarem colonos Portuguezes do Brazil para Mossamedes.

Em Maio de 1849 sahirão o Brigue Douro e a Barca Tentativa Feliz da barra de Pernambuco; e em 4 de Agosto do mesmo ano chegarão a Mossamedes transportando famillias e homens solteiros de todas as classes e idades; sendo todas as despezas feitas à custa do Governo ( Ate aqui seguimos huma memoria fornecida a esta Câmara pelo cidadão Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, a qual por sêr bastante extensa deixamos de transcrever; e continuaremos a approveitar d'ella o que julgar-mos necessário e util. A ditta memoria acha-se archivada n'esta Camara, onde pode ser consultada).

Em 13 de Outubro de 1850 huma outra expedição deixava as agoas de Pernambuco a bordo do Brigue Douro, e da Barca Bracharense que se denominou segunda colónia; cujo transporte e despezas forão feitas à custa de huma subscripção Portugueza, e que apezar das notícias a drede espalhadas por meio de carta hidas de Massamedes na "Escuna Maria" que fazião huma descripção miseravel, e infelizmente verdadeira naquella epoca, deste estabelecimento, não deixou de ser numeroza; aportando a Mossamedes a 26 de Novembro do ditto anno. Estes segundos colonos que deixando Pernambuco em hum estado mais calmo do que aquelle em que deixarão os primeiros de seus compatriotas, e que por conseguinte vivião já em melhor tranquilidade vierão achar aquelles em hum estado deploravel, e faltos de animo. Huma esterilidade espantoza motivada pela secca; pessimo sustento composto de má farinha de mandioca, feijão pôdre, etc. Huma nudez quazi completa, e finalmente hum completo exaspêro, a ponto de muitos se julgarem felizes com a praça que se lhe assentava em recompensa de tantas privações!

Quinze mezes erão passados, e nesta epoca de esterilidade que poderia fazer-se? Alem da secca, faltavão sementes; o directôr da colonia foi a Loanda levando em sua companhia hum colono (Francisco da Maia Barreto); este foi ao Bengo, e de alli trouxe as primeiras sementes de cana, maniva etc., e pouco antes da chegada destas chegárão algumas sementes ao cidadão Fernando Joze Cardozo Guimarães que forão plantadas (a canna) sob a direcção do colono Joze de Albuquerque na horta daquelle senhôr, e foi d'estas sementes que se crearão viveiros para os annos fucturos. Foi ainda nesta epoca de verdadeira calamidade que chegárão mais colonos do Rio de Janeiro, e Bahia, dos quais ficárão mui poucos por falta de recursos; entre os desta ultima cidade alguns vinhão que trazião capitaes e querião ficar para negociar, o que não seria pequena vantagem; infelizmente fôrão disso despersuadidos. A este facto, e ao de terem-se escripto d'aqui pessimas noticias para o Brazil se deve o não terem continuado a aportar aqui colonos vindos à sua custa; - mas como virião elles se para alli se escrevia dizendo-o clima é pessimo - he um lugar de degredados onde sômos tractados como taes ( e em parte havia razão para o dizer) - he peor que na Ilha de Fernando de Noronha - não nos deixão de aqui sahir sem completar 10 annos - e outras muitas couzas? Dizemos que em parte tinhão razão por que a mortandade foi espantoza nos primeiros dois annos: Colono houve que foi 10 e 15 vezes ao Hospital em hum anno, donde sahia como entrava por falta de tratamento! Como não seria grande a mortandade se pessoas que habituadas a hum tratamento regular vivião agora a meia ração, e esta muitas vezes damnificada? Se hum lugar pouco salubre como o Bumbo em quanto que a chuva cahia a jorros se achavão miseros infelizes debaixo de alguns ramos aquentando-se a huma fogueira sem roupa para cobrir-se, por que muitos a deixarão no Estabelecimento por falta de conductôres quando para alli fôrão; tendo tido huma penosa viagem a pé por caminhos quazi intranzitaveis sem poder suportar o calôr de huma areia quazi ardente? Examine-se um pequeno numero de artistas e outras pessoas, que puderão sustentar-se com hum alimento mais saudável, e que não passarão essas privações, e vêr-se la que não tiverão até hoje huma baixa ao Hospital, e alguns dos quaes no decurso de seis annos não sofrêrão ainda huma intermittente; e examine-se tambem essas pessoas que aqui chegão do Reino ou do Brazil, e que não soffrem essas privações; veja-se a sua robustez, e conhecer-se ha esta verdade.

Foi em consequência dessas privações que alguns colonos fugirão da Huilla, e que hum melhor futuro fez volver ou trazer a Mossamedes, porque desde o momento que os colonos podérão sustentar-se à sua custa, desaparecêrão essas molestias, e Mossamedes de hoje (1870?) he hum Paraizo comparada ao de 1850. Se nos demorarmos em mencionar este facto he porque julgamos de interesse e seu conhecimento no fucturo; he porque sômos Portuguezes, e desejamos que se saiba no Brasil, em Portugal, e se possivel fôr em todo o mundo, que o clima de Mossamedes he melhór do que o de toda a Africa; superior ao de todo o Brazil; superiôr ao de muitos lugares de Portugal, e quazi igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz; e desejamos emfim que se desvaneção esses restos de receio de vir aqui habitar; porque só assim e com hum governo poderemos prosperar; e para prova do que acabamos de dizer deste clima salutar examine-se ainda essas crianças nascidas e creadas aqui; a sua robustez, e sobre tudo essa côr purpurina de suas faces, huma grande parte das quaes vive continuamente exposta aos raios abrazadôres do sol!".


Segundo cópia extraída do livro "ANNAES DO MUNICIPIO DE MOSSAMEDES", DE FLS. 41 E 41-V, ANNOS de 1839 A 1856, é o seguinte o "REZUMO DOS FOGOS, POPULAÇÃO, E PREDIOS URBANOS, CONCLUIDOS E EM CONSTRUCÇÃO NA VILLA, E ARREBALDES, ATE AO FIM DO ANNO DE 1856", isto é, sete anos depois da chegada à África dos primeiros "brasileiros";
FOGOS
Na Villa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
No local das Hortas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Na Bôa Esperança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Na Bôa Vista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Nos Cavalleiros e Macalla. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
Total 85
POPULAÇÃO LIVRE
Sexo masculino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164
Ditto femenino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .108
Total 272
POPULAÇÃO ESCRAVA
Sexo masculino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .475
Ditto femenino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .157
Total 632
54 Libertos do dois sexos.
PRÉDIOS CONCLUIDOS
Na Villa
De pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .36
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . 8
De pau a pique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
Cubatas de palha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 76
Nas Hortas e Aguada
De adobe.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
Cubatas de palha e pau a pique.. . . . . . . . . . . . . . . . . .. 4 10
Na Boa Esperança
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 20
De pau a pique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 27
Boa Vista
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - 2
Nos Cavalleiros e Macalla
De pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
De adobe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . 2 3
PRÉDIOS EM CONSTRUÇÃO
Na Villa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12
Nas Hortas... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Na Boa Esperança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 19
Engenhos
Nos Cavalleiros (montado). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1

Ao que se deve acrescentar o seguinte "REZUMO DOS PRODUCTOS AGRICOLAS DURANTE O ANNO DE 1856":
Assucar 178 As Vendeu-se de 7.200 a 9.000 Rs. a. a.
Algodão 1.672 As. Regulou 600 reis por a. em carôço
Aguardente 41 ½ pipas Em todo o Districto

Aboboras 400 Somente de hum arimo
Batatas 5.405 As. Pode avaliar-se em mais um têrço
Bananas 400 cachos Somente de um arimo
Cará 4.247 As. Pode avaliar-se em mais um têrço
;Canna sacha 14 milheiros Regulou 20$ reis o milheiro
Farª de mandioca 8:170 Cazungueis. Pode avaliar-se em mais um têrço
Feijão 128 Dittos
Milho 813 Dittos
Azeite de carrapata Peqª quantidade
Hortaliças - grande quantidade"
E, ainda, êste, de "PRODUCTOS DE INDUSTRIA":
"Carne secca 612 as. Só em um estabelecimento e até agosto
Couros de boi 112 Só em um estabelecimento e até agosto
Peixe secco 12.600 Mattetes - Maior quantidade
Azeite de cação 206 pipas Ditto. . .ditto
Tijollo. . . . . . . . . 21 milheiros
Cal. . . . . . . . . . . . . 56 moiosAdobe. . . . . . . . . . 60 milheiros"
"Também êstes informes, que foram extraídos de livros MSS, hoje do arquivo da Câmara Municipal, devemo-los à gentileza do chefe da Secretaria da mesma Câmara, Sr. Artur Trindade".
São vários os amigos portuguêses do Oriente e da África a quem devo agradecimentos pelo modo por que me facilitaram a colheita de documentos e fotografias sôbre êste e outros assuntos luso-tropicais, afins do versado neste pequeno ensaio.
[voltar] 3 Manuel Júlio Mendonça Torres - O Distrito de Moçamedes nas fases da Origem e da Primeira Organização, (1485 - 1859), Lisboa 1950, pag. 511 [voltar]
4 Negro Anthology, organizada por Nancy Cunard, Londres 1934, pag. 679. [voltar]
5 Negro Anthology, cit., pag. 688. [voltar]
6Londres, 1951, Pag. 137. [voltar]
7 Londres, Nova Iorque e Toronto, 1949, pag. 55. [voltar]


Fonte: FREYRE. Gilberto. Em tôrno de alguns túmulos afro-cristãos. Salvador: Livraria Progresso; Editora e Universidade da Bahia, [1959]. 88p. il. (Coleção de estudos brasileiros. Série Marajoara, n.26).




(EM TÔRNO DE ALGUNS TÚMULOS AFRO-CRISTÃOS By Gilberto Freire)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vida Humana no deserto do Namibe: ONGUAIA: Expedição à Manga das Areias, (CUROCA, Porto-Alexandre, Tombwa) em 22 de Setembro de 1839

Cuissis
Mondombes
Himbas, Hereros

Vida Humana no deserto do Namibe: ONGUAIA


"...Sessenta e nove anos depois, em 22 de Setembro de 1839, aportava à manga das Areias a corveta D. Isabel Maria, comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que trazia consigo o civil António Joaquim Guimarães Júnior, ambos membros de uma expedição destinada a explorar a costa ao sul de Benguela, o primeiro como geógrafo e roteirista, o segundo como comerciante que haveria de ajuizar da probabilidade de se instalarem aí feitorias comerciais. Do mesmo empreendimento fazia parte o tenente Gregório José Garcia, que, por terra, se dirigiu a Moçâmedes, aprazado lugar de encontro. Há-de dizer-se que a iniciativa parece ter sido do GUIMARÃES JÚNIOR -ele o afirma, pelo menos- moço audacioso, que, com 20 anos apenas, obteve do governo da metrópole os meios necessários para realizar uma tal empresa. Toda a informação que se segue nos vem da notabilíssima e pouco aproveitada Memória sobre a Exploração da Costa ao Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Moçâmedes, que ele próprio escreveu e publicou em Lisboa no ano de 1842.

Os primeiros vestígios humanos que encontraram foram "ossos de baleia queimados e uma espécie de embarcações, feitas de um pau muito leve chamado bimba", o que evoca a antiga notícia de DUARTE PACHECO PEREIRA (0). Dias depois apareceram negros e em dias seguintes trouxeram para trocar milho, feijão e abóboras, algum marfim, pouco gado, e pontas de cabra de mato curiosas pelo seu comprimento". Viviam os Negros perto e GUIMARÃES decidiu ir ter com eles à sua povoação, o que não faria sem grande perigo, dado que não consentiam que homem branco entrasse nela (T). Mas tudo correu bem e o explorador dá noticia de "um exten-síssimo vale, todo cultivado de milho maiz, feijão, abóboras e uma espécie de milho miúdo", com margens «guarnecidas além d'imensa quantidade d'arbustos e de plantas parasitas,por duas ordens de palmeiras, que se estendem até onde se pode alcançar a vista e que parecem continuar muito para o centro". E diz mais que "Do lado direito destes arimos ficava uma espécie de seio formado por algum rio, que no tempo das chuvas naturalmente ali desagua, conservando-se agora subterrâneo, pois cavando até dois palmos de profundidade encontra-se agua magnífica, de que os indígenas se servem para beber e à qual é devida a imensa e linda vegetação de que se acha coberta toda aquela planície". Com a singela mas exacta descrição do lugar, note-se que especificadamente se mencionam o milho maiz e o milho miúdo, o segundo dos quais será talvez a actual massambala. E aí estavam os renques de palmeiras que os nossos olhos ainda hoje podem ver por toda a Camilunga, nome por que agora se apelida a antiga fazenda de S. Bento do Sul. Eram os Negros governados por um soba e GUIMARÃES tinha-os por povos «de nação mucubal» e de «vida pastoral», designando-os de Mocorocas, «por habitarem um lugar a que chamam Coroca». E prosseguindo na sua informação escreve: «Sua vida muito pacífica não deixa de ser singular pela sua predilecção pelas mulheres, que escondem com a maior cautela, especialmente dos Brancos, sendo igualmente muito ciosos do seu gado, cuja carne é magnífica e de que possuem grande quantidade de duas espécies, vacum e ovelhum São os Mocorocas muito dados ao exercício da caça e alguns dentre eles ao da pesca crêm muito em feitiços e almas dos seus defuntos; não gostam d'aguardente e preferem o tabaco que eles lã fabricam duma forma singular [similar?] ao de rolo do Brasil; são muito amigos de missanga branca, azul, preta e igualmente estimam muito facas e arcos de ferro para fabricarem flechas e azagaias, enxadas de ferro dumas que fabrica uma nação do interior do sertão, contígua a Benguela, por nome Nanos (o que na cidade de S. Filipe constitui um ramo de negócio); de fazendas preferem zuarte azul, baeta da mesma cor e cobertores, não fazendo apreço de chitas e outras fazendas de cores claras.»

Repare-se que GUIMARÃES os julga «de nação mucubal» e esta filiação fã-lo-à dizer que têm «vida pastoral», por ser esta a ocupação tradicional dos Mucubais. Mas a verdade é que estamos em presença de uma população sedentária, ciosa de arcos de ferro para enxadas, praticando uma agricultura variada; em suma, uma população agrícolo-pastoril. E se estes Mocurocas são aqueles que PILARTE DA SILVA
encontrou -GUIMARÃES não se refere aos estalos identificadores -, é de estranhar que o sertanejo não tivesse achado entre eles, 70 anos antes, vestígios de agricultura.

O relatório elaborado por PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA coincide, no geral, com o de GUIMARÃES, o que não admira. Nem por dizer que os Curocas serão «colónias de Mondombos, dos quais têm a linguagem e os costumes» (8) se afasta da filiação referida por GUIMARÃES: os Mucubais não terão outra origem-também Hereros saídos dos Mondombos das terras do sul de Benguela (9).

Ocupação portuguesa desta área só se iniciou de Dezembro de 1854 por diante, com a instalação de uma fortaleza num ponto alto, iminente à baía de Alexandre. O capitão de fragata JOÃO MÁXIMO DA SILVA RODOVALHO, que tomou parte no empreendimento, também se deslocou a uma das aldeias dos Curocas, a oito milhas da foz, em 10 de Dezembro do mesmo ano de 1854. Confirma que têm soba, são tratáveis, possuem gado vacum e arimos de milho e abóboras «de que se sustentam» (1°). Logo no mês seguinte esteve entre os Curocas o navegador e viajante inglês WILLIAM MESSUM. Sentando-se à sombra de uma palmeira e podendo repousar os olhos no verde das hortas, sentia-se recompensado dos vários meses de aridez ao longo da costa: «Aqui me deleitei pela primeira vez, depois de muitos meses que tinha deixado o Cabo, de achar alguma coisa como vegetação, porque os naturais têm em considerável extensão hortas cultivadas de milho, grãos e abóboras Era um regalo, depois de tanta areia, sentar-se à sombra de uma palmeira». E noticia ainda: «As choupanas desta gente pareciam construídas para aturar e eram habitações cómodas. Os naturais possuem numerosos rebanhos de gado grosso e miúdo. Tinham também marfim de elefante e de cavalo marinho Vi maças feitas de corno de rinoceronte e grande abundância de mel e cera de abelha Festejamos muito algum leite, milho e bolos feitos não sei de quê, com mel Perguntaram por aquadenti mas quando lhe dei alguma, depois de a provarem, não quiseram beber» (“).

E acaba aqui o que podemos chamar a história antiga do povoamento do Baixo Curoca, uma história cheia de hiatos, de dúvidas, de perplexidades. Pelo que os textos nos dizem-e não esqueçamos sua imprecisão e mutismo -, uma população mal definida de pescadores, no'início do século XVI; de pescadores, caçadores ou pastores e provavelmente agricultores no último quartel do século XVII; de pastores e recolectores (caça e apanha de vegetais) nos fins do século XVIII; de pastores, agricultores, pescadores e caçadores na primeira metade do século XIX. E a que etnias pertenciam e que etnias hoje lhes correspondem? São todos negros; os de Duarte Pacheco (século XVI) porventura Cuissis, antepassados dos actuais recolectores Cuissis, na opinião de ESTERMANN; os de Joseph Rosa (1681) falam por cliques e ESTERMANN quere-os da raça Khoisan, misturados com Cuissis, hipótese arriscada a que já aludimos, e serão ascendentes dos poucos Cuepes que sobrevivem; os de PILARTE DA SILVA (1770) parecem ser a mesma gente de Joseph Rosa e aquele sertanejo designa-os de Macorocas; GUIMARÃES, ALEXANDRINO DA CUNHA (1839), RODOVALH0 (1854) e MESSUM (1855) chamam também aos seus visitados Mocorocas; o primeiro diz que são de nação mucubal e o segundo de origem mondombe, todos, portanto, Hereros. Cabe perguntar se os Macorocas de PILARTE DA SILVA são os Mocorocas de GUIMARÃES, CUNHA, RioDovALHo e MESSUM. E se sim, temos então de admitir que estes associavam já à pastorícia a prática da agricultura, a menos que na mesma região houvesse pastores-agricultores concorrendo com pastores, todos apelidados de Mocurocas, por viverem junto do rio; os primeiros naturalmente Hereros (12) e os segundos, os tais antepassados dos Cuepes. Mas se é cómodo libertar assim os Cuepes da agricultura, 0 que seria conforme ao depoimento de PILARTE DA SILVA e conclusões de ESTERMANN e estaria de acordo com a actual tradição dos poucos Cuepes existentes que afirmam terminantemente que aprenderam a arte de cultivar a terra com os Brancos, não se fica em menor constrangimento em relação com Hereros: também estes são tidos por puros pastores e só recentemente lavradores.

Mas conceber no Baixo Curoca ainda outra etnia, agora de bantos agricultores, é que ultrapassará a legitimidade das conjecturas. De tudo isto, e com as reservas que já pus, me parece poder concluir-se o seguinte: desde épocas recuadas povoaram o vale inferior do Curoca populações de diferentes origens,
provavelmente Cuissis, Hereros e Cuepes. Se em perí0d0S recuados da sua História foram recolectores e pastores, vieratodos a cultivar a terra, sob a influência de povos agricultores, o que ja aconteceria no referido século XVII. E não é mista a civilização dos Hereros, na qual se caldeiam pastores camitas com plantadores bantos (““) '? Se língua, crenças e instituições sociais bantas invadiram os domínios dos pas-
tores camitas, porque não aceitar que cedo tenham recebido dos plantadores negros as técnicas da agricultura? E em uma vale de terras aluviais e água abundante, como é o do Curoca, como não responder adequadamente às solicitações do ambiente? E os Cuepes, vizinhos dos Hereros, imita-los-iam, se por outras vias lhes não chegou este modo de vida. E o viverem em aldeamentos mais ou menos fixos parece também conferir à cultura dos Mocurocas uma forte e antiga base rural. Tipos puros de civilização existem mais na imaginação dos estudiosos do que implantados na terra. Mas passemos a moderna história da ocupação do vale.
Continua...
In Vida Humana no deserto do Namibe: ONGUAIA
M. Viegas Guerreiro- vol 8 n 11 (1971)
Imagens de  postais e de IICT




Ver também VIDEOS: 

Missão Antropológica de Angola: Conjunto de imagens recolhidas em Angola pela Missão Antropológica de Angola, retratando nativos nos seus modos de vida, características físicas, hábitos e costumes.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O vazio monetário em Angola no quadro do Estado Novo: a ausência de instituições bancárias, as limitações ao acesso ao crédito, o caso "Alves dos Reis",



Fig Nota de cinco angolares. Angola esteve sempre com deflação monetária (falta de capitais e de dinheiro em espécie), talvez porque Salazar tinha pavor de “muito dinheiro” um trauma originado pelo célebre caso Alves dos Reis(ver mais adiante). Isto notava-se no dia a dia dos africanos trajando miseravelmente e com pouco poder de compra. Refira-se, no entanto, que a comida era abundante e barata, uma das “medalhas de ouro” da colonização portuguesa. Além de pouco, o dinheiro chegava a desfazer-se. Mau papel, ausência de moedas (só existiam até 5 tostões -meio angolar-). Uma das grandes âncoras dos colonos e dos africanos eram os vales e os livros dos débitos. “Debitar ou apontar” ou “passar um vale” eram as unicas saídas para os “encalacrados”. Apesar de tudo os comerciantes acabavam por reaver grande parte dos débitos, havia etica no dia a dia. Ter uma letra protestada era uma vergonha! Só por manifesta falta de dinheiro é que se não resgatavam os vales.
Fig Frente e verso de uma das célebres”ritas” emitidas por Norton de Matos durante o seu segundo consulado de 1921 a 1923. Norton de Matos queria desenvolver, rapidamente,a colónia de Angola. Mas a resistência em Lisboa era tenaz. Os bancos metropolitanos não queriam( ou não podiam?) abrir agências em Angola; o recurso a bancos estrangeiros, especialmente da União Sul-Africano (actual África do Sul) estava liminarmente vedado,e esteve sempre, durante o período colonial.Desesperado, com a faculdade de ser Alto-Comissário, resolveu emitir moeda mandando imprimir notas de valor baixo, pensando no consumo dos “indígenas”: nasciam as célebres “ritas”, uma alusão popular e depreciativa ao nome da filha de Norton de Matos. Um empregado do meu pai, no Chinguar, foi à estação do caminho de ferro buscar dois caixotes pesadíssimos. Ele julgava que eram alfaias agrícolas. Depois de abertos ficou estupefacto: traziam milhares de “ritas”. Este “ersatz”(simulacro de dinheiro) deflagrou uma inflação que se prolongou até 1933, ano em que Salazar impôs medidas austeras sobre a moeda. Os governos posteriores a Norton de Matos agravaram a situação de tal maneira que em 1930 Angola caminhava para a bancarrota. A voz comum, em jeito de piada, dizia que em Angola não haveria bancarrota porque já estava instalada uma bancarrita, uma alusão às célebres cédulas de Norton de Matos.



Fig Nota de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama, mais conhecidas por “camarão”. Esta nota foi o produto da maior burla de dinheiro, mesmo à escala mundial, devida ao seu ineditismo.
Alves dos Reis, segundo as teorias modernas, seria possuidor de um elevado QI (quociente de inteligência). Ele nasceu em Lisboa em 1896. Com 20 anos foi para Angola, como engenheiro, com um diploma falsificado passado por um hipotético Instituto Politécnico de Oxford.Duas falsificações! Este nome mágico (Oxford) abriu todas as portas e eliminou todas as dúvidas. Uma actuação fulgurante e teatral alcandorou-o a um alto escalão em Angola:dirigiu uma locomotiva, (sem nunca ter”pilotado”uma máquina a vapor) sobre uma ponte metálica, que ele comprou na Inglaterra, que suscitava dúvidas sobre a sua segurança. Com este feito foi ungido como director das Obras Públicas em Angola. Em 1921 regressou a Portugal. A seguir falsificou cartas do Banco de Portugal em que este pedia aos fabricantes de notas na Inglaterra para fazerem uma emissão repetida das notas de 500 escudos. Motivo: destinavam-se a Angola, em Lisboa iriam receber um carimbo com a palavra Angola.Os “ingénuos” ingleses acreditaram. Alves dos Reis, logo que recebeu parte desta emissão, começou a branquear o dinheiro, rapidamente, de modo a assenhorear-se do Banco de Portugal para poder apagar todas as pistas.Para isso fundou um banco-Banco Angola e Metrópole-, que o povo,ironicamente, apelidava de “Banco Engole a Metrópole”. Um tesoureiro de um banco no norte de Portugal, com aquela argúcia conseguida com muitos anos de prática, descobriu duas notas com o mesmo número. Rebentava o escândalo. O julgamento demorou 6 anos; foi condenado a uns anos de prisão. Nesta burla não houve falsificação mas apenas clonagem. Foi a primeira clonagem monetária no mundo, uma proeza digna do Guiness.Diga-se,a título de comparação, que esta burla não lesou ninguém, a não ser o próprio Banco de Portugal.
O episódio das “ritas” e esta clonagem devem ter provocado em Salazar a aversão que ele tinha por grandes circulações fiduciárias, origem de quase todas as inflações. O vazio monetário em Angola pode filiar-se nesta aversão, tanto mais que os governantes em Lisboa perfilhavam a ideia de que em terras africanas “se fica pirado ao fim de 10 anos de trópicos” Não convinha que houvesse muito dinheiro na mão dos colonos e, muito menos, na mão dos africanos. Marcelo Caetano deixou expresso em uma conferência, realizada no Porto em 1953:« A experiência demonstra que os salários muito altos dos produtos da lavra indígena podem ter consequências desastrosas para a população nativa».

retirado DAQUI