Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 8 de dezembro de 2013

Poveiros na colonização de Porto Alexandre (actual Tombwa)

                                                                                          


Colonos da Póvoa de Varzim (poveiros). Anos 1920.


 “No cais, lá estavam os escaleres dos poveiros, com um pouco de água a estremecer no fundo e encharcadinhos de sol.” - in CASTRO, Ferreira de. A Selva, Livraria Editora Guimarães & Cª , Lisboa, 1957 (18ª edição), p. 75

  


Uma dessas primeiras catraias poveiras que chegaram a Angola a partir de 1921 era assim.



«Catraia» foi a embarcaçäo introduzida em Porto Alexandre pelos poveiros, tendo em média trinta palmos de comprimento, proa  muito inclinada para ré e a popa fechada, tendo, junto desta, uma pequena tolda para arrumações. Aparece com uma única vela, um grande pendäo içado em mastro com grande caimento para ré, ao contrário de todas as outras, tendo ainda disposiçäo para aumentar esse caimento



E eles, inconformados  partiram um dia, em busca de uma vida melhor que
 a pátria-mãe lhes negava... Não tiveram vida fácil,
 "comeram o pão que o diabo amassou" e mesmo assim ficaram...



Colonos da Póvoa de Varzim (poveiros) em Porto Alexandre (Angola)




Como tantos outros emigrantes que por esse mundo fora atravessaram o mar em busca de uma vida melhor, também os POVEIROS partiram um dia, rumo a Moçâmedes, nas primeiras décadas do século XX, fixando-se em seguida em Porto-Alexandre (Tombwa), onde encontraram enraizada uma comunidade de algarvios que ali tinham começado a chegar desde 1861, em caíques, palhabotes e lanchas à vela, e várias famílias descendentes dos pioneiros da fundação, vindos de Pernambuco, Brasil, nos anos 1849 e 1850. Encontraram também descendentes de algumas familias de madeirenes, de início destinadas à colonização das terras altas da Huíla, que preferiram ali ficar, para além de gente vinda de outros pontos da Metrópole, mas em número pouco expressivo.



 Foi em 1921 que os poveiros de Ferreira de Castro arribaram a Porto Alexandre , actual Tombwa:

“A ida dos pescadores da Póvoa de Varzim para Angola e Moçambique está relacionada com a emigração dos poveiros para o Brasil. Em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a actuar nas águas do Brasil desde que: se naturalizassem brasileiros até 12 de Outubro do referido ano; nacionalizassem as suas embarcações; organizassem “companhas” de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira.
Os pescadores da Póvoa de Varzim obedeceram às duas últimas condições arvorando nos seus barcos a bandeira do Brasil e pedindo, através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros. Mas como, na sua quase totalidade, se escusaram à naturalização, tiveram de regressar à Póvoa, em número de cerca de mil. Em 30 de Outubro de 1920 chegou a Lisboa o primeiro contingente de 250 pescadores, seguindo-se-lhes outro grupo, de 302, desembarcados em Leixões em 5 de Novembro…
Embora com os marítimos da Póvoa de Varzim tivessem regressado do Brasil - e pelos mesmos motivos - pescadores de outros lugares da nossa costa, o conjunto poveiro sobrelevou, em amplíssima escala, os pequenos contingentes dos restantes centros. Daí o facto de na Póvoa de Varzim se virem a sentir de um modo mais dramático os problemas sociais e económicos derivados do retorno de tão grande massa de indivíduos, para cuja utilização nada estava preparado. Extintos os ecos da recepção calorosa e romântica, cedo se verificou que uma crua miséria enlaçara bastantes dos que haviam voltado, e ameaçava muitos mais, tornando-se urgente a tomada de medidas que evitassem tamanha e injusta desgraça…

 



Recebidos na Póvoa de Varzim com uma clamorosa e romântica recepção, fruto da onda patriótica que então se levantou alimentada pela imprensa periódica, cedo se verificou, de um modo dramático, os problemas sociais e económicos derivados do retorno de tão grande massa de indivíduos, para cuja integração ninguém estava preparado. Uma crua miséria enlaçara muitos dos que haviam voltado, e ameaçava muitos mais. Tornara-se urgente uma tomada de medidas que evitassem  tamanha e injusta desgraça. Foi então que surgiu o projecto de Norton de Matos, ou seja, a ideia de assentar no litoral do sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro, e instalar uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, onde, segundo o Alto Comissário, o clima era mais favorável e a fixação mais fácil aos europeus que no norte do território, facilitando a solução de todos os pormenores decorrentes da sua proposta.

 
“Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete “África”, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa. Entretanto o General Norton de Matos mandara construir em Porto Alexandre um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, a fim de as atrair e fixar ao solo de Angola.” 

 in GONÇALVES, Flávio. Os pescadores poveiros em Angola e Moçambique , Póvoa de Varzim Boletim Cultural, volume VI nº 2, C.M. da Póvoa de Varzim, 1967. pp. 286/288

Importa contudo salientar o papel do deputado Santos Graça, que, pesaroso ante a situação, e defensor entusiástico deste projecto, várias vezes se deslocou a Lisboa para conferenciar com Norton de Matos, tendo contribuído para atenuar as dificuldades, ao afiançar junto do Alto Comissário, preocupado com a inexistência de redes, barcos e aprestos necessários, que os poveiros tinham de tudo, fazendo desse modo acelerar o processo. Foi então que por ordem telegráfica de Norton de Matos foram construídos em Porto Alexandre um barracão para salga de peixe, colocação de redes, velas e aprestos, destinados ao início da indústria pesqueira, e ainda três barracões-caserna para os pescadores poveiros e suas famílias dormirem e descansarem, provisoriamente, até que fosse construído o conjunto de habitações prometidas pelo General, um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, a fim de as atrair e fixar ao solo de Angola . 

O Estado forneceu-lhes passagens gratuitas e o transporte dos 3 barcos de pesca devidamente apetrechados, além de redes, linhas e ainda camas, mobiliário indispensável, utensilios de cozinha, bagagem , etc,  enquanto aos pescadores caberia pagar uma renda mensal, entre 3 e 15% sobre o valor do pescado, para amortização do custo das barracas e casas que ficariam propriedade sua. A cada família de pescadores, Norton de Matos fazia questão que fosse fornecida uma quantia no valor de 30 contos para que não desembarcassem como pedintes, e que esta quantia lhes fosse apresentada à chegada. Os pescadores receberiam também, à chegada, lenha e sal para as primeiras impressões, e o Governo compraria todo o pescado preparado para exportação.

E assim, em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete África, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março do mesmo ano. À frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e enseada da Póvoa de Varzim. (1). Ficaram alojados nas instalações da Companhia do Sul de Angola, fundada em 31 de Dezembro de 1919.


À sua chegada a Porto Alexandre, a comunidade foi bem recebida, a pesca teve início, como teve inicio a construção das prometidas habitações, não faltando porém criticas à boa qualidade das mesmas. São estas habitações, simples mas bem construídas que recordam hoje uma página da História escrita há quase 90 anos.



Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado , dizia em carta dos finais de 1921:  

“Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. – in “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 11/10/1921


Regressados do Brasil para a sua Póvoa, estavam agora entre dunas douradas pelo sol escaldante do Namibe, no local onde Diogo Cão encontrou, na sua 2ª viagem à costa africana, uma interessante baía à qual deu o nome de Angra das Areias. Muito próximo ficava outro histórico local, ao qual chamou Cabo Negro, onde o navegador português ergueu o seu 3º  padrão, na ponta mais alta de um rochedo escuro envelhecido e calcinado pelo tempo, que ficou a marcar aquelas terras para a Corôa de Portugal, em 18 de Janeiro de 1485, abrindo assim o caminho marítimo até à parte meridional do Continente Africano. Dois anos após também Bartolomeu Dias esteve na Angra das Aldeias e dali partiu para a viagem gloriosa que o levou a dobrar o Cabo da Boa Esperança, em 1488.

No ano de 1922, a 22 de Novembro chegou uma 2ª colónia de poveiros composta 35 pessoas, homens , mulheres e crianças, que encontrou já em construção o chamado Bairro Poveiro onde lhes foram distribuídas, mais tarde, habitações. A 1ª colónia de pescadores poveiros não teve sucesso por terem vindo apenas homens. Em 1923 restavam na vila apenas cinco, que passaram a industriais de pesca.

Sobre os Poveiros, acrescento ainda parte de um apontamento histórico, retirado da Revista Ciências, Universidade Técnica de Lisboa, "Pescas em Portugal: Ultramar" de António Martins Mendes:

Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, quando no Brasil uma lei idêntica à que dera origem à primeira colonização de Moçâmedes voltou a ser publicada. exigindo que os pescadores portugueses, que exerciam a sua actividade nas águas do Brasil adoptassem a  nacionalidade brasileira. Carlos Carneiro escreve que:  “Em massa repudiam tal violência e regressam ao seu país”. Essa lei acabou por ser revogada e o Brasil voltou a permitir a entrada de todos os pescadores poveiros que em águas brasileiras quisessem pescar. Era então Alto-Comissário em Angola o General Norton de Matos que logo determinou que todos os repatriados que quisessem poderiam organizar-se em colónia piscatória na baía de “Porto Alexandre”. Imediatamente começaram as construções de habitações e de instalações modelares para a preparação do peixe. Os poveiros encontraram bom acolhimento mas a demissão de Norton levou ao abandono da colónia, ainda em implantação e acolhimento. Alguns desses poveiros voltaram para as suas terras de origem ou deslocaram-se para outros pontos de Angola e Carlos Carneiro conclui: “Não fracassou esta tentativa de colonização porque muitos desses poveiros estão trabalhando em Angola, por sua  conta ou ao serviço das indústrias de pesca e são, sem receio de confronto, os melhores que no sul se encontram. Ficou também de pé o elegante bairro poveiro que embeleza a mansa baía de Porto Alexandre e que constitui um dos muitos padrões de glórias do governo, formidavelmente grandioso do Excelentíssimo General Norton de Matos”










Vista aérea de Porto Alexandre, actual Tombwa. Ao fundo, a barreira ao ventos formada por filas as casuarinas; à esq. a
lgumas casas de habitação; à dt. as pescarias a perder de vista

 
 Foto de Marian Jardim.

O SISTEMA DE CONSTRUÇÃO DE CASAS EM PORTO ALEXANDRE 
In "Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5". 1898

"...Durante o pouco tempo que demorei em Porto Alexandre, estudei o systema de construcção das casas, assumpto importante, que me escapára, quando fiz o estudo d'esta localidade.

Não ha casas mais simples e baratas do que as de Porto Alexandre, conforme o processo adoptado pelos pescadores e estas casas são regulares, leves, commodas e resistentes, tanto quanto o exigem as condições meteorologicas da costa. Os materiaes empregados nas construcções são os seguintes: barrotes de õ a 6 metros de comprimento e grossura de um decimetro, a que dão o nome de tungas. São trazidas das margens do rio Zaire pelos cahiques que conduzem o peixe para os portos do norte até S. Thomé. No regresso estas embarcações tocam no Zaire, onde mettem um carregamento destes paus, tendo apenas o trabalho de os cortar e limpar. Cada barrote custa 500 a 600 réis. Outro material é o bordão, nervura media da folha de uma palmeira do Zaire; é uma vara com o comprimento de 8 a 10 metros e de grossura de 4 a 6 centimetros.

Cada bordão divide-se em duas metades facilmente separaveis com uma faca no sentido longitudinal dando duas ripas. 1000 bordões custam 255000 réis, ou seja um bordão por 25 réis. Vem em seguida os barrotes de pinho americano aparelhados, que se compram em Mossamedes a 40$000 réis o metro cubico; telha de ferro zincado, portas ejanellas, pregaria etc. Eis o processo rapido de construcção: espetam na areia as tungas segundo as linhas geraes do plano da casa, separadas de um metro umas das outras. Sobre elias pregam os bordões transversalmente e separados de 2 a 3 decimetros, dispostos parallelamente de um lado e outro das tungas e assim ficam formadas em esqueleto as paredes separando as diversas divisões da casa. No extremo superior das tangas pregam alguns barrotes americanos para formar o plano nivelado em que ha de assentar o tecto. Com um barro pardo que trazem da pequena l›ahia do Pinda, amassado com agua e areia, fazem uma especie de argamaça que rapidamente endurece exposta ao sol e ao vento e com ella enchem os espaços situados entre as tangas e os bordões e assim ficam feitas as paredes. As portas e janellas são feitas em Mossamedes. Como n'esta zona não chove, a armação do tecto é muito ligeira, de 2 aguas e coberta ou de folhas de ferro zincado ou de uma camada de bordões delgados, cimentada superiormente. Sobre a areia do pavimento lançam uma camada de barro com 3 a 5 decimetros d'altura e sobre o barro assentam tijollos. No espaço de 1 a 2 mezes fica concluída uma casa de apparencia regular e bons commodos. Por esta occasião estavam construindo uma casa com 12 metros de frente sobreIi de fundo e 6 de altura com tecto de zinco; asseveraram-me que devia ficar prompta em 2 mezes e importava em 115003000, trabalhando na sua construcção apenas l pedreiro, 1 carpinteiro e 2 serventes.

E' evidente que com este svstema de construcção todas as casas são terreas e quasi todas dispostas ao comprido e com pequena largura, tanto quanto pódem dar os imperfeitos materiaes de que são feitas; d'a.hi a necessidade de construir 2 e mais corpos afim de se obter mais amplas acommodações. D'este breve estudo resultou-me a certeza. de que as construcções em Porto Alexandre são baratas. Outro tanto não succede em Mossamedes, onde é de uso fazer as paredes com pedra ou adobe (especie de tijollo grande secco ao sol), sendo os alicerces sempre de pedra. " (....)














 

Bairro dos funcionários em Porto Alexandre (hoje Tombwa, em Angola)


 Porto Alexandre foi crescendo e vencendo as areias do Deserto...


Instalações pesqueiras em Porto Alexandre




Regata de traineiras em Porto Alexandre (actual Tombwa) por ocasião da visita do Governador de Angola, Santos e Castro ao distrito de Moçâmedes, em 1972. Foto da Revista   «Notícias»/Angola/1972 Ver aqui:
http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2007/04/corrida-de-traineiras-em-porto.html
Crianças de Porto Alexandre. Foto cedida por amigos do Facebook



Um conceituado alexandrense, descendente dos pioneiros de 1861
Gente de Porto Alexandre, onde antes da chegada dos poveiros, se estabeleceram, desde 1861, sucessivas colónias de algarvios... Foto cedida por Fernanda Barata
Gente de Porto Alexandre. Foto cedida por amigos do Facebook
Escola em Porto Alexandre. Foto cedida por amigos do Facebook

 
Porto Alexandre. Estátua de Maria da Cruz Rolão 
 

Em 1975 Porto Alexandre já era assim... Um verdadeiro Oásis, construído com muito amor e bom gosto, ingredientes que juntamente com muito trabalho e abnegação, foram capazes de verdadeiros milagres


Parque Infantil




Longe ia o tempo em que se chegara a duvidar da possibilidade da existência de Porto Alexandre , a «Angra das Aldeias» como fora primeiramente baptizada por Diogo Cão,  por onde passaram as naus portugueses, no ano de 1485, pois não fazia sentido construir algo que fosse, numa terra fustigada constantemente por ventos fortes que sopravam do deserto para o mar, e sobre uma areia que o deserto constantemente revolvia e ameaçava cobrir as habitações.   Foi a  partir da plantação em série de casuarinas (tipo de pinheiro bravo ligeiramente diferente do existente em Portugal), destinada a travar o movimento das dunas, que Porto Alexandre que a fixação passou a ser possível. Uma odisseia que ficou a dever-se à teimosia heróica desse punhado de olhanenses que ali se fixaram com carácter permanente e ali desenvolveram a indústria de pesca e derivados de peixe. Em seguida criaram  as hortas nas margens do rio Curoca, (zona do Pinda), e os alexandrenses passaram a colher saborosos melões, figos e até uvas, que passaram a constituir a boa mesa, para além do bom peixe e das saborosas ameijoas. Porto Alexandre no início da década de 70 era já uma uma cidadezinha próspera exibindo algumas rasgadas ruas, com elegantes vivendas e jardins, e chegou a ser nos anos 60 o maior centro piscatório da África, com dezenas de fábricas de farinhas e óleos de peixe e um grande centro conserveiro. Com a modernização das instalações fabris, até as moscas que durante muito tempo  enxamearam as eiras de secagem ao sol da farinha de peixe e invadiam as habitações, acabaram por desaparecer. Sem dúvida, se Porto Alexandre foi possível, tudo é possível, desde que o homem queira e a natureza ajude!


MariaNJardim (pesquisa e texto)


Alguma bibliografia consultada:
1 GONÇALVES, Flávio. Os pescadores poveiros em Angola e Moçambique , Póvoa de Varzim Boletim Cultural, volume VI nº 2, C.M. da Póvoa de Varzim, 1967. pp. 286/288
2 “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 11/10/1921.

3 Moreira, Cecilio, Entre as Dunas e o Mar 
Vilela., Afonso José. "Pesca, Industria e Derivados do Distrito de Moçâmedes"
(Porto Alexandre, 1923. pg 43)

http://web.cm-pvarzim.pt/lanchapoveira/images/documentos/bibliografia/boletim_cultural/bc_vi_2_285_322.pdf

Imagens
1ª imagem - do volume "A Pesca, Industria e Derivados do Distrito de Moçâmedes", de Afonso José Vilela (Porto Alexandre, 1923. pg 43)
3ª, 4ª imagens - Separata de Cecilio Moreira "Entre o mar e o deserto"
As restantes imagens foram fornecidas por conterrâneos que as disponibilizaram na Net (Samzalangola e facebook ) e a quem muito agradecemos
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Nota 1
Muito se agradece a todos aqueles que visitem este blog e daqui retirem algo para outras publicações,  que não esqueçam de dar ao mesmo os respectivos e justos créditos, como é de boa norma fazer.

Nota 2 (acrescentada à posteriori)
A autora deste blogue colocou aqui uma  foto da regata de traineiras, publicada na Revista   «Notícias»/Angola/1972. Lamentavelmente esta foto foi daqui retirada para outro blogue dedicado a atacar aquilo que considera os "erros da descolonização", onde a mesma foto surge com legenda distorcida, o que lhe retira toda a credibilidade, ou seja apropriou-se da foto, não referiu de onde a tirou, e colocou como legenda, erradamente, tratar-se de uma manifestação de gente de Porto Alexandre contra a descolonização, ainda que não fosse o caso.


Ver também




sábado, 3 de agosto de 2013

Manuel Júlio de Mendonça Torres: SOBRE A POLÉMICA DATA DA FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES







Sobre a data da fundação de Moçâmedes


As datas da fundação de Moçâmedes, da fundação do Presídio, e data da chegada a Moçâmedes dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil,  são temas que geraram e continuam a gerar uma certa polémica, que iremos aqui abordar. 

No seu livro “O Distrito de Moçâmedes na Fase da sua Origem e Primeira Organização: 1485-1859”, Manuel Júlio de Mendonça Torres procura esclarecer dúvidas por vezes levantadas sobre a data da fundação de Moçâmedes, actual Namibe, que, entendem uns, ter sido fundada em 1840, opinam outros, em 1849.

Defende Mendonça Torres que 1840 é a data da fundação do Presídio, com o início do povoamento, pela montagem de feitorias, casas comerciais de movimento incerto, que não poderiam por isso manter-se, a despeito das confiantes diligências dos seus empreendedores. 

A primeira feitoria pertencente a António Guimarães Junior e a Jacome Filipe Torres, montada em 1840, foi pouco depois roubada e destruída pelo gentio conforme, descreve Brito Aranha in “Memórias Históricas Estatísticas”, pg 236; e lê-se nos Annaes Municipais de Moçâmedes, com a data de 31 de Dezembro de 1856, que nesta data só existia uma única feitoria, a de Fernando Cardoso Guimarães, não havendo conhecimento de ter sido montada uma só, após 1845. 

Para Mendonça Torres, para a valorização económica do distrito, as feitorias representavam apenas escassas tentativas que viriam por fim a malograr-se, não obstante as actividades exercidas e as exportações efectuadas. Instaladas em reduzido número, e trabalho em precárias condições, não podiam contribuir para o enriquecimento do Presídio. Uma a uma, como era de prever, foram desaparecendo apesar da luta vã dos seus empreendedores.

1949 é para Mendonça Torres, a data da fundação do Distrito, com o início da colonização propriamente dita, que teve lugar após a chegada a Moçâmedes do primeiro grupo de emigrantes portugueses de Pernambuco, cujos componentes, tal como os do segundo, conseguiram a utilização vantajosa dos recursos naturais, e tornaram possível, pelo número e pelas condições, a organização regular do aglomerado populacional que formaram. Foram eles, incontestavelmente, os fundadores do Distrito. Acrescenta que "na fase primeira da organização os colonos lutam, patrocinados embora pelo Estado, sem cooperação vantajosa apreciável. Aos êxitos alcançados aos fim dos dez primeiros anos se deve quase exclusivamente ao admirável e preservante esforço da sua enérgica vontade. Cabe-lhes a indiscutível glória não só de terem erguido no Distrito a primeira povoação, como terem nele terem iniciado, com necessária eficácia, a exploração agrícola, a labutação piscatória, o movimento comercial e o exercício de várias outras secções de trabalho. Só a partir de 1860 os colonos de Pernambuco tiveram na faina marítima, como activos cooperantes, colonos algarvios que lhes prestaram concurso digno de apreço para o progresso piscatório distrital. Os primeiros colonos algarvios  a Moçâmedes em 1860, de onde passaram a Porto Alexandre e daí à Baía dos Tigres."



                                                               

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Barão de Mossâmedes e a origem do toponímio Mossâmedes atribuido à região até então conhecida por "Angra do Negro" ...


BRAZÃO DE MOSSÃMEDES
(Actual Namibe)  

 Brasão



Quanto à origem do toponímio Mossâmedes atribuido à região até então conhecida por "Angra do Negro" à altura da sua descoberta, estudiosos convergem na sua origem árabe e de significado desconhecido. 

Sabe-se que ficou a dever-se ao ao geógrafo e oficial da Marinha, José Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, que propôs em 1790 a atribuição do novo nome, em homenagem ao Governador Geral de Angola (de 1784 a 1790),  "por relevantes serviços prestados à Nação", José de Almeida Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares Albergaria, Senhor da Terra do Celeiro de Mossãmedes, na Ribeira da Cruz, Póvoa do Concelho do Distrito de Vizeu -Beira Alta  - 14º ,  Capital General d'Angola (de 1784 a 1790), Barão de Mossâmedes    .

Há quem opine que Mossâmedes poderá ter derivado de «Muça-Medina» (cidade de Muça) facilmente convertível em Mossâmedes. Muçamudes eram, também, os habitantes de Muçaun. Outros defendem que Mossãmedes é o plural de de «Masmuda», nome arabizado duma das muitas tribos que por lá passaram e habitaram.

A partir de 1944, Mossâmedes com dois «ss» passou a escrever-se com «ç», alteração ortográfica introduzida pela Sociedade de Geografia de Lisboa, talvez com o propósito de a conciliar com a ortografia de Moçambique que sempre se escrevera com «ç».  Assim reza o artº 1.0 da Portaria N. 269D, de 23 de Agosto de 1919, assinado pelo Governador Geral de Angola, Francisco Coelho do Amaral Reis, (Visconde de Penalva) e publicada no Boletim Oficial da Província de Angola, 1ª série n. 34, de 26 de Agosto de 1919.

Sobre este assunto e mais pormenorizadamente, no livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849, dos arquivos da Câmara Municipal de Mossâmedes podia-se lêr:


 "...Mossâmedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadores, foi mandada vezitar pelo Capitão General d'Angola Barão de Mossâmedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação. Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939.

Neste anno veio de Benguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria. Jacomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação. Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio  João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura.

Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada. Os partidos politicos do Brazil, principalmente em Pernambuco, tendo sempre por fim a maior ou menor perseguição aos Portuguezes alli residentes desgostarão estes, e muito concorreo tal perseguição para fornecer a idea de colonizar Mossamedes; as expozições que de Pernambuco se fizerão para o Governo Portuguez sendo acolhidas, este deu providencias para se transportarem colonos Portuguezes do Brazil para Mossamedes. Em Maio de 1849 sahirão o Brigue Douro e a Barca Tentativa Feliz da barra de Pernambuco; e em 4 de Agosto do mesmo ano chegarão a Mossamedes transportando famillias e homens solteiros de todas as classes e idades; sendo todas as despezas feitas à custa do Governo ( Ate aqui seguimos huma memoria fornecida a esta Câmara pelo cidadão Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, a qual por sêr bastante extensa deixamos de transcrever; e continuaremos a approveitar d'ella o que julgar-mos necessário e util. A ditta memoria acha-se archivada n'esta Camara, onde pode ser consultada). Em 13 de Outubro de 1850 huma outra expedição deixava as agoas de Pernambuco a bordo do Brigue Douro, e da Barca Bracharense que se denominou segunda colónia; cujo transporte e despezas forão feitas à custa de huma subscripção Portugueza, e que apezar das notícias a drede espalhadas por meio de carta hidas de Massamedes na "Escuna Maria" que fazião huma descripção miseravel, e infelizmente verdadeira naquella epoca, deste estabelecimento, não deixou de ser numeroza; aportando a Mossamedes a 26 de Novembro do ditto anno. Estes segundos colonos que deixando Pernambuco em hum estado mais calmo do que aquelle em que deixarão os primeiros de seus compatriotas, e que por conseguinte vivião já em melhor tranquilidade vierão achar aquelles em hum estado deploravel, e faltos de animo. Huma esterilidade espantoza motivada pela secca; pessimo sustento composto de má farinha de mandioca, feijão pôdre, etc. Huma nudez quazi completa, e finalmente hum completo exaspêro, a ponto de muitos se julgarem felizes com a praça que se lhe assentava em recompensa de tantas privações! Quinze mezes erão passados, e nesta epoca de esterilidade que poderia fazer-se? Alem da secca, faltavão sementes; o directôr da colonia foi a Loanda levando em sua companhia hum colono (Francisco da Maia Barreto); este foi ao Bengo, e de alli trouxe as primeiras sementes de cana, maniva etc., e pouco antes da chegada destas chegárão algumas sementes ao cidadão Fernando Joze Cardozo Guimarães que forão plantadas (a canna) sob a direcção do colono Joze de Albuquerque na horta daquelle senhôr, e foi d'estas sementes que se crearão viveiros para os annos fucturos. Foi ainda nesta epoca de verdadeira calamidade que chegárão mais colonos do Rio de Janeiro, e Bahia, dos quais ficárão mui poucos por falta de recursos; entre os desta ultima cidade alguns vinhão que trazião capitaes e querião ficar para negociar, o que não seria pequena vantagem; infelizmente fôrão disso despersuadidos. A este facto, e ao de terem-se escripto d'aqui pessimas noticias para o Brazil se deve o não terem continuado a aportar aqui colonos vindos à sua custa; - mas como virião elles se para alli se escrevia dizendo-o clima é pessimo - he um lugar de degredados onde sômos tractados como taes ( e em parte havia razão para o dizer) - he peor que na Ilha de Fernando de Noronha - não nos deixão de aqui sahir sem completar 10 annos - e outras muitas couzas? Dizemos que em parte tinhão razão por que a mortandade foi espantoza nos primeiros dois annos: Colono houve que foi 10 e 15 vezes ao Hospital em hum anno, donde sahia como entrava por falta de tratamento! Como não seria grande a mortandade se pessoas que habituadas a hum tratamento regular vivião agora a meia ração, e esta muitas vezes damnificada? Se hum lugar pouco salubre como o Bumbo em quanto que a chuva cahia a jorros se achavão miseros infelizes debaixo de alguns ramos aquentando-se a huma fogueira sem roupa para cobrir-se, por que muitos a deixarão no Estabelecimento por falta de conductôres quando para alli fôrão; tendo tido huma penosa viagem a pé por caminhos quazi intranzitaveis sem poder suportar o calôr de huma areia quazi ardente? Examine-se um pequeno numero de artistas e outras pessoas, que puderão sustentar-se com hum alimento mais saudável, e que não passarão essas privações, e vêr-se la que não tiverão até hoje huma baixa ao Hospital, e alguns dos quaes no decurso de seis annos não sofrêrão ainda huma intermittente; e examine-se tambem essas pessoas que aqui chegão do Reino ou do Brazil, e que não soffrem essas privações; veja-se a sua robustez, e conhecer-se ha esta verdade. Foi em consequência dessas privações que alguns colonos fugirão da Huilla, e que hum melhor futuro fez volver ou trazer a Mossamedes, porque desde o momento que os colonos podérão sustentar-se à sua custa, desaparecêrão essas molestias, e Mossamedes de hoje (1870?) he hum Paraizo comparada ao de 1850. Se nos demorarmos em mencionar este facto he porque julgamos de interesse e seu conhecimento no fucturo; he porque sômos Portuguezes, e desejamos que se saiba no Brasil, em Portugal, e se possivel fôr em todo o mundo, que o clima de Mossamedes he melhór do que o de toda a Africa; superior ao de todo o Brazil; superiôr ao de muitos lugares de Portugal, e quazi igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz; e desejamos emfim que se desvaneção esses restos de receio de vir aqui habitar; porque só assim e com hum governo poderemos prosperar; e para prova do que acabamos de dizer deste clima salutar examine-se ainda essas crianças nascidas e creadas aqui; a sua robustez, e sobre tudo essa côr purpurina de suas faces, huma grande parte das quaes vive continuamente exposta aos raios abrazadôres do sol!".

Do livro "ANNAES DO MUNICIPIO DE MOSSAMEDES", DE FLS. 41 E 41-V, ANNOS de 1839 A 185






Escola Primária Superior "Barão de Mossâmedes"

Outros aspectos relaccionados:

Em 1919 a cidade de Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe) inaugurou , em homenagem ao Capitão General d'Angola (de 1784 a 1790), José de Almeida Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares Albergaria, Barão de Mossâmedes, no edifício pintado a escuro,  (ver foto acima), situado na Rua da Praia do Bonfim, rua paralela à Avenida da República, a Escola Primária Superior «Barão de Mossâmedes». Ver AQUI

 Poderá consultar, para mais informação:
 http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/gravura-de-mossmedes.html

domingo, 16 de junho de 2013

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, em tempos recuados. Repare-se, em cima, à esq., a Avenida Felner na parte já a entrar pela Torre do Tombo, as poucas casas que nesta altura alí existiam .

 
"...Fundou-se a fábrica de conservas Africana, cuja iniciativa se deve a Miguel Duarte de Almeida, iniciativa que tomou corpo com o apoio do grande colono Serafim Simões Freire de Figueiredo, sogro do primeiro, que meteu mãos à obra, fundando a fábrica.»
Miguel Duarte de Almeida era casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida.



Outra perspectiva da mesma  Fábrica que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que transitavam da ponte para o seu interior, entrando em linha recta para o local onde era descarregado o pescado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como  podemos ver mais adiante.



Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro a esta fábrica, em 1932?


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas

A escalagem era uma das primeiras operações...

 
A seguir vinha a fase da cozedura...




As caldeiras para cozedura e o peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração



O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras

O encaixotamento


 



Trata-se da primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana de Figueiredo * e Almeida, Lda. 
 
Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias  . Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias,  Dr Armindo Monteiro, em 1932, já com Salazar no poder, a S. Tomé e Príncipe e a Angola, tendo na sua passagem por Moçâmedes visitado esta Fábrica.
BGC N.88 - vol VIII. 1932, pg 407. Agência Geral das Colónias


Através da leitura do mesmo Boletim das Colónias, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, em 1932, se denominava "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda  em fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da "Companhia de Mossâmedes"O Ministro das Colónias  visitou também  a Empresa Fabril de Conservas de Peixe, propriedade de Manuel Costa Santos, situada um pouco mais a sul.   

Há notícia de que poente da Fábrica Africana ficava, em tempos recuados, uma fábrica  ligada à indústria piscatória, pertencente a Costa & Pestana. Esta acabaria na falência devido a toda uma situação gerada à volta do produto que chegou ao destino em péssimas condições e não foi pago pelos compradores.

Ainda sobre esta Fábrica, sabe-se que, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  esta fábrica encontrava-se na altura dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com a praia, e foi destinado de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” ( ou seja, provenientes das muito badaladas “Hortas de Moçâmedes”), e também a enlatados de carne de vaca e de porco, e  de peixe em salmouras e escabeche, ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria, conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes. No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana, de apelido Figueiredo. Também há ref. à " Figueiredo & Almeida Limitada"  que possuia em Mossâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI 

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo da fachada de cada unidade que integra o edifício , por cima das janelas da Fábrica, encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Também se podia ver o símbolo da Fábrica: uma águia.

Há indicações que na década de 20 e 30 se exportava para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e o Gabão produtos de alta qualidade que competiam com os de outras origens por serem mais baratos, situação que levou ao surgimento de novas conserveiras.



Para uma informação mais pormenorizada, transcrevemos a seguir uma passagem de um  interessante apontamento histórico de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar», onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do  Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, que aborda o estado da Industria de Conservas: **
 
«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...


«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)
  «...Como sub-produtos do pescado fabricava-se: óleo e farinha de peixe, mas utilizando métodos absolutamente primitivos ou arcaicos.



Encontram-se também referências desta fábrica como sendo propriedade da "Companhia do Sul de Angola", tendo Josino da Costa como arrendatário, e sendo. Olimpio Aquino o gerente. Nos anos 1950 esta fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS) e com esta denominação permaneceu até à independência de Angola. Encontra-se uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola "a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe.


O peixe era transportado para o interior da fábrica através de «vagonetas» sobre linha férrea, que ali faziam a sua entrada, em linha recta, onde era descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. Há notícia de que na década de 1940 ainda nesta Fábrica trabalhavam senhoras recrutadas a partir de Olhão para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano feminino como aqui podemos ver (enlatadeiras).


Sabemos que na década de 1960, e após um período aureo de grande produção como Sociedade Oceânica do Sul (SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e, vendida a Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos sócios eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira, acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique. Esta situação mantinha-se em 1975,
quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje. Temos notícia que se encontra desmobilizada.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade de Moçâmedes, hoje Namibe, e dada a sua situação geográfica em local privilegiado, junto à marginal,  corre o risco de desaparecer. E tanto mais quanto o sentido histórico da vida das cidades começa a ser tragado pelos interesses do capital.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam enquadrá-la em futuros projectos que venham a ser concebidos para aquela zona. Ela faz parte da memória da cidade e do distrito, hoje província do Namibe, e poderia ser transformada num interessante e apelativo "Museu do Mar"! 


Pesquisa e  texto de MNJardim

Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).



Alguma bibliog consultada:

Indústria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.

Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898.



Respeitem este blog e o trabalho de pesquisa da sua autora. Se retirarem algo daqui não se esqueçam de citar a proveniencia da informação. MariaNJardim