Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

BALEIAS : A carne e a gordura desses cetáceaos na alimentação humana", por Carlos Carneiro


 

                                                                          Dr Carlos Baptista Carneiro


Do Veterinário Dr. Carlos Carneiro, passarei a transcrever partes de um texto publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 174 do ano de 1948:

 
BALEIAS


«...No decurso da guerra ( 1814-1918) a Noruega, perante as espantosas necessidade de matéria gorda em todo o mundo, organizou frotas para a caça aos cetáceos no mar Ártico. Instalou fábricas para óleos e guanos em seu territorio, e em seguida em Angola para onde fez desviar uma flotilha de caça e contruiu instalações fabris na Praia Amélia, a seis quilómetros a sul de Moçâmedes.

O Antártico, entretanto, começou seduzindo este povo de navegadores e caçadores de baleias que iriam caçar em campo virgem e reconhecidamente muito abundante em cetáceos. E para a região da Antártica seguiu a primeira expedição norueguesa. Organizaram, então, empresas com capitais franceses, ingleses e noruegueses, que vieram trabalhar na costa ocidental de África, junto ao Equador, e outras que tinham o seu campo de acção naquela região glacial.

Até certo momento as instalações para o fabrico de óleos e guanos de baleia eram construidas em terra porque a caça se fazia numa zona marítima muito limitada, mas quando se reconheceu a necessidade de procurar longe os cetáceos, afugentados da costa pela perseguição sem tréguas que lhes era feita, houve que adoptar navios-fábricas dentro dos quais se realizavam todas as transformações dos despojos da baleia, desde os óleos aos torteaux alimentares.

Os noruegueses instalados em Angola, abandonando então a fábrica que possuiam na Praia a fábrica da Praia Amélia, levaram para o seu país, utilizando os navios da flotilha , todo o produto da caça aos cetáceos feita em águas angolanas, por não terem pago os direitos que os serviços aduaneiros atribuiram a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio dessa instalação fabril. Anos depois, por 1936, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul , desde o ilhéu das Rolas, junto à ilha de S. Tomé, até Porto Alexandre, que, abatendo baleias, as faziam desviar para os navios-fábrica, onde se fazia a industrialização de todos os seus produtos.»


Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola, seriam, segundo relatório do Veterinário Dr. Carlos Carneiro : “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou perma- cete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp).Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 



                                                          Porto Alexandre -tubarão-baleia
Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre
                                                        Porto Alexandre -tubarão-baleia

Porto Alexandre -tubarão-baleia

Voltaremos a este assunto, mas entretanto diremos que Vilela a ele também se referira rapidamente escrevendo que a intensidade da perseguição às baleias no mar de Angola obrigara-as a procurar outras paragens para só reapa recerem 20 anos depois. »
 

                                                                                        

"Baleias - A carne e a gordura desses cetáceaos na alimentação humana", por Carlos Carneiro, Veterinário Chefe do Quadro Comum do Império Colonial Português


 À França se deve a iniciação da caça à baleia.  Entre fins do século XIV e principios do século XV,  o Golfo da Gasconha era considerado a mancha atlântica mais rica em cetáceos. Pescadoresda Bretanha e de Vascongadas adestraram-se no abate desses gigantescos mamíferos que, perseguidos, se dispersaram pelas costas de Espanha e de Portugal, e daí para  os mares da América do Oeste.


A França, por 1870 tomou a prioridade na caça aos cetáceos, seguida da Noruega e América que não só procuravam esses mamíferos nos mares empobrecidos, como foram exterminá-los nos mares de toso o mundo, desde a Geórgia do Sul à África Equatorial.


Em 1910foram abatidas mais de dez mil baleias e baleinópteros. Por 1914, a França, perante a eminência do total extermínio das baleias que pescavam nos mares das suas colónias ultramarinas, procuraram controlar a sua caça através de acordo internacional e estabelecimento de regulamentos severos de protecção da espécie que tornasse interdito o abate de animais novos e que obrigava os industriais a uma completa utilização de todos os seus despojos, mas a guerra eclodiu por essa altura e o assunto nas Chancelarias perdeu o interesse.  No decurso da guerra de 1914-1918, a Noruega, perante as espantosas necessidades de matéria gorda em todo o mundo, organozou frotas para a caça de cetáceos no mar artico. Instalou fábricas para óleos e guanos em seu território, e  em seguida em Angola, para onde fez deslocar uma flotilha caça e  construiu instalações fabris na Praia Amélia, a 6 quilómetrosa dul de Moçâmedes.


O antartico, entretanto, começou a seduzir este povo de navegadores para a caça de baleias que iriam caçar em campo virgem muito abundante em cetáceos. E para a região antártica seguiu a primeira expedição norueguesa organizando então empresas com capitais franceses e ingleses enoruegueses que vieram trabalhar para a costa ocidental de África, junto ao Equador, e outras que tinham o seu campo de acção naquela região glacial.


Até certo momento as instalações para o fabrico de óleos e guanos de baleia eram construidas em terra, porque a caça se fazia numa zona marítima muito limitada, mas quando se reconheceu a necessidade de procurar londe os cetáceos afugentados da costa pela perseguição sem tréguas que lhes era feita, houve que que adaptar navios-fábricas, dentro dos quais se realizavam todas as transformações dos despojos das baleias, desde óleos aos torteaux alimentares. 


Os noruegueses instalados em Angola, abandonaram então a fábrica que possuiam na Praia Amélia, levaram para o seu país, utilizando os navios da flotilha , todo o produto da caça aos cetáceos feita em águas angolanas, por não terem pago os direitos que os serviços aduaneiros atribuiam a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio dessa instalação fabril. Anos depois, por 1936, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul , desde o ilhéu das Rolas, junto à ilha de S. Tomé, até Porto Alexandre, que, abatendo baleias, as faziam desviar para os navios-fábrica, onde se fazia a industrialização de todos os seus produtos.


Entretanto a Alemanha, que até 19936 pouco se tinha interessado pela caça destes mamíferos, preparando-se para a guerra, organiza frotas modelares, com fábricas flutuantes, e faz caça intensiva a esses cetáceos, conseguinbdo reservas enormes de gorduras de de carnes com que abasteciam as suas tropas durante o decurso da guerra última. Finda esta, e perante a insuficiência em gorduras e em carne, do povo, que saiu dela exausto e faminto, a caça da baleia passou a ser problema dominante dos países vencedores que encontaram que encontraram na exploração desses mamíferos monstruosos a solução mais fácil para acudir à fome e ao depauperamento orgânico das populações esmagadas pela violência bélica. E hoje, propagandeia-se por toda a Europa, as maravilhas alimentares da carne de baleia e, com ela, dizem as gazetas,  fazem-se banquetes onde se aglomeram centenas de pessoas para experimentarem o excelente produto. Com a gordura desse cetáceo submetida a hidrogenização, preparam-se margarinas que irão resolver uma das maiores necessidades nutritivas do povo sub-alimentado.


A Inglaterrra acaba de lançar ao mar para a caça aos cetáceos no Antártico, o maiot navio de todo o mundo, o "Baleana", de quinze mil toneladas, tenso a borso a mais perfeita apetrechagem para a conservação da carne e indistrialização das gorduras e "torteaux" alimentares.  Esse navop é acompanhado de uma flotilha de caça que leva a borso um avião para pesquisa e  localização de baleias.


O "Baleana" que partiu para o Oceano glaciar Antártico em fins de Outubro passado,  conduz uma missão de cientistas do Departamento Científico e de Estudos Industriais da Grã Bretanha, encarregado de estudar o uso da carne de baleia na alimentação humana, a sua selecção e classificação, conservação dela a bordo, e prática distribuição desse produto pelas populações em fome.  Antes do "Baleana" a Inglaterra havia mandado para os mares antárticos o "Empire Victory" que, durante uma estação de alguns meses abateu 1600 baleias que produziram 15 000 toneladas de óleo que, a bordo foi convertido em margarina para alimentação das tropas inglesas em guerra. E para os mares antárticos, em apressada corrida,  seguem flotilhas norueguesas, americanas, inglesas e dinamarquezas em busca de cetáceos, cuja carne e gordura resolvem em grande parte, o problema alimentar das suas populações que a guerra esgotou.


CONTINUA... 

Créditos de imagem:
umas retiradas de
http//:antigamente1900.blogspot.com
e outras gentilmente cedidas por Hernâni Nunes
AtlanticoSul, santuario de baleias

UM VÍDEO EM DESTAQUE

Pesca da baleia no navio «Lobito», 1929


Documentário de 1929, sobre a pesca da baleia. Filmagens a bordo do baleeiro “Lobito”, ao largo de Moçâmedes (actual Namibe, Angola).
Filme com 18’ 50’’, disponibilizado online pela Cinemateca Portuguesa.

PARA VER AQUI

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, sobre a melhor forma de extinguir a escravatura







Para a História de Moçâmedes/Namibe
Correspondência de 15 deAbril de 1857.com o Governador Geral da Provincia, Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral



 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, opinião sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”( doct. de 15 d’Abril de 1857)

Imagem: o busto de Bernardino, chefe da 1ª colonia que em 1849 fundou Moçâmedes, e que presentemente se encontra no Museu Etnográfico do Namibe.



Documento Nº 4


IIlmo e Exmo Snr. – Em cumprimento do officio que V. Excia se dignou mandar dirigir-me com data de 15 de Dezembro do anno passado, da repartição civil, sob o nº 1842, e recebi em dez do corrente, pela polaca “Esperança”, no qual me determina que exponha a minha oppinião sobre os meios possíveis de acabar por uma vez com o tráfico da escravatura nesta província, direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões e intelligencia me ditam, e bem assim a experiencia de quasi oito annos dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º - Acabar o tráfego da escravatura para fora das possessões portuguezas;
2ª - Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Em quanto ao primeiro ponto, a rasão, a humanidade, e a própria conveniencia reclamam que o Governo Portugues, com as mais urgentes medidas ponha por uma vez termo a tam vil, dehumano, e degradante tráfico, que em vez de ser util as mesmas possessões, é a causa de seu completo, por não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delictos cometidos em um desembarque – delictos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal se poderia acreditar que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que soffrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal trafico, alem de ferrete e de ignominia e da barbaridade que acarreta aos que nela tomam parte, é de nenhuma utilidade, senão de prejuízo para os que residem nas possessões: porquanto raras vezes recebem o producto dos infelises que uma louca ambição os fez sacrificar, e se algum recebem, é tam ceriado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades.
Exemplificarei, a meu modo de ver, a cauza desta illusão.
Costumados os habitadores europeus d’ Africa a enviarem para o Brazil um certo numero de escravos, com cuja remessa obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa, não attenderam a que taes circumstancias haviam mudado; e animados pró correspondências, e ate por agentes daquelles que alli, depois de tal trafico se fazer por contrabando, eram os únicos que tiravam vatage, e que algumas vezes os engordavam, remettendo exactamente o producto dos escravos embarcados, continuaram porque já tinha tal habito; e os que vieram vindo sem reflexão e “mere pedudam”, seguiram a mesma marcha.

As transições são sempre custozas, e é por isso que o que obtinha escravos, em vez de os educar para os trabalhos agriculas _ do que tiraria mais sólidas e seguras vantagens _ como isso mandava diligencia, trabalho assíduo e estudado, paciência e alguma demora em colher resultados, preferia embarca-los, o que apenas lhe custava escrever algumas cartas. A repetição dos atos constituiu o habito, e para o destruie é mister empregar meios.
Serão estes, porem, difíceis na actualidade?

Parece-me que não. A oppinião do mundo reprova o enfame e criminos traficio: a situação e ordem das coizas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o sygmatisa: e so tem a dseu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados: mas quem são estes? Que o digam os que tem cahido no laço de fazer taes consignações. Se não fora a verdade de que o numero dos loucos é infinito: se não fora a possibilidade dos negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos _ como farão em ultimo recurso, pois que não se limita a venda de escravos so aquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da America do norte, e por alto preço - eu diria que o trafico dos escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza; porem, em rasão destas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois, que parecem por si so eficazes.

Primeiro:- Tornar responsáveis as auctoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras de suas jurisdições: mas que esta responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique so escrita no papel, este so meio acabaria de uma so vez com tal trafico. Quem vive na Africa sabe o que é um embarque, e tem ouvido o retinido das correntes, o eco do pisar dos pés opprimidos com o peso dos ferros, o bulicio das lanchas e botes, o rápido andar de centos de hõmes, que, aceleradamente se dirigem as praias. Bem se ve que difícil é que a auctoridade deixe de o saber, e, portanto, que tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniencia ou por tolerância. Admito, porem, ainda que possível, sem que auctoridade o soubesse, e em tal cazo lembro.

Segundo:- Que o Governo da província seja auctorisado a despender, alguns contos de reis com espiões, por anno, os quaes seja obrigados a dar parte as auctoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretenda fazer: penso que assim nenhuma terá logar.

Estes espiões devem ser locaes marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros entre esta e Benguela, entre Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Bengueloe Velha, entre esta e rio Longa, entre este e a cidade de Loanda, entre esta e Dande: entre este e Ambriz, entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despezas que a que se faz com cruzeiros, que poir maiores que sejam e mais vigilantes, faram diminuir, mas não acabar o trafico para o exterior, se consegue o fim desejado.

Dificil é, e de gravíssimo peso, desenvolver o segundo ponto de vista, isto é, acabar na actualidade com a escravatura dentro das possessões portuguesas d’Africa. Há uma lucta do coração com a cabeça: porque, se aquelle diz que é bárbaro e inhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade; aquella grita, que é isso verdade, mas aponta-nos as consequências que dahi podem resultar na questão sujeita.

Sera actualmente conveniente que de todo e por uma vez acabe a escravatura dentro das possessões portuguezas d’Africa?
Consideremos:

1º . O estado das possessões.
2º . Uzos e costumes dos europeus que as habitam.
3º .Estado de civilização dos indígenas, seus uzos e costumes.
4º .Se para se conservarem as possessões, será bastante o commercio, ou se sam necessárias tãobem a cultura e a industria fabris.
5º . Se a cultura e industria fabris podem ser por braços importados da Europa, ou somente pelos indígenas.

Ninguem contestara que é mau o estado actual das possessões portuguezas d’Africa; porquanto o período de transição, que infalivelmente tem de atravessar, esta ainda morosamente passando, fez com que deve absolutamente acabar o trafico da escravatura para o exterior, que era o seu ramo considerável de commercio, e requer que esta lacuna seja preenchida por outros meios de industria que é mister crear.

É bem sabido que Portugal exerce poder governativo somente nos pontos do litoral, e que no interior se conservam os uzos, costumes e governo do gentio, embora haja chefes que são para alli despachados, pois que estes se acommodam aos mesmos uzos e costumes por necessidade , e para fazerem o seu interesse, que é ordinariamente o que lá os leva. Chamando eu a Africa portugueza “um deserto de moralidade”, teria com duas palavras explicado quaes os uzos e costumes dos europeus que a habitam, salvas as devidas e honrosas excepções: porem, inda assim, dividirei estes em três classes: a de funcionários públicos; a de homes que vem procurar fortuna: a de degredados. A primeira classe que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem a Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitui hoje limitada excepção a esta regra.

Há algumas que procuram fazer aquelles interesses por meios lícitos: para o maior numero todos o sam uma vez que consigam o seu fim.
Não parece que esta seja uma das cauzas porque as possessões não hão de melhorar, antes ir cada vez em maior decadência. As auctoridades para as possessões, são aquellas sobre que devia haver mais apurada e escrupulosa escolha: porque se uma exorbita no reino, facile pronto pode ser o remédio; mas nas possessões, quando ele chega, que de males já se não tem causado?

A segunda classe é dos que vem procurar fortuna, e como esta se tinha por meio de desembarque de escravos, claro esta ser a ideia dominante ate há poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar que o numero dos que não sam dela afectados não é o maior que se dirigem a cultura presisam luctar com quase isuervs dificuldades. Ter consciência mais que ordinária e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. Ainda assim , tal qual o impulso se lhe tem dado, mormente em Mossamedes, em cujo porto já entram por annos dezenas de navios que vem procura produtos agicolas.
A terceira classe é a dos degredados, os quaes quasi todos sam soldados, e não é a menos útil pois que não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saúde e de hábitos occiosos.

Costumes, religião e governo do gentio sam quasi geralmente os mesmos da primitiva. So com a diferença de que nada de bom lhes tem ensinado os europeus, antes communicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado, poderia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar innativo nas terras do litoral, mas correr os sertões ver o que por la vae, e se faz, para bem avaliar o que dizemos.
Não é possível referir aqui todos os costumes do gentio; seria isso matéria para uma obra volumosa: referirei somente alguns que tem relação com a matéria em questão.

Sabido é que a maior parte do gentio d’Africa tem o seu governo, sob uma ou outra denominação, sob uma ou outra forma de sucessão. O governo patriarchal indistinctamente a todos os que governam seus filhos, ou seus escravos. Dispoem, ouvindo a oppinião dos seus conselheiros (esta é a forma de governo mais seguida). Da vida e da propriedade de todos tomando por pretexto este ou aquelle crime: por exemplo, o de olhar para o “Tembo”, a primeira amiga do chefe porque passou por tal lugar, porque é feiticeiro. Este ultimo crime, que quase sempre recae sobre quem possue gados, é frequentemente imputado, e a pena é ser morto o feiticeiro, escravisada a gente que com ele residia, e tomados os gados e tudo o mais que possuíam. Muitas vezes a pena de morte do feiticeiro é comutada em degredo, para fora do estado, sendo vendidos com escravos. Ora, sendo muitos os governos, porque quasi todos são menores em terreno e população do que uma das nossas províncias do reino, e sendo este o costume de todos já se vê o numero de escravos feitos por anno, por tal motivo.

É honra e signal de nobreza entre o gentio, ser bêbado e ladrão, e aquelle que mais guerras faz e rouba maior quantidades de gado e pessoas, é o maior e mais fidalgo; sendo esta a rasão de tantas e tam repetidas correrias, a que chamam guerras. Todas as pessoas nelas agrarradas sam escravisadas velhas, moças e creanças e os seus parentes as vam resgatar, ou sam vendidas ou mortas, e daqui se pode concluir o numero de escravos que tal costume deve produzir. Em quasi todos os governos pode o chefe mandar vender um dos seus filhos., ou escravos, quando carecer de pólvora, d’armas, de vestidos, etc.., e assim daqui vem ainda o augmento do numero de escravos.

Os pretos, segundo os seus uzos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: sam as pretas: A profissão deles é caçar, pescar e carregar. Se um preto, por exemplo, tiver sua mulher doente, e for buscar uma cabaça d’agua, ou um feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa, do que se matasse outro preto.

Quem percorre os sertões, e com os olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos; porque as pretas sam os que cultivam, fazem a comida, preparam as bebidas, e ate o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: tem estes, quasi todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correa na cintura, com um palmo de couro que lhes cubra as partes pudendas, e outro palmo que cubra por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.

Dois ou prés porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz, ou – a parte que tem de ferro os seus ferreiros . Ei-lo armado e pronto a seguir por toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia. À vista, pois, dos costumes que venho a referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessásrio, ou que o gentio obedeça e cumpra a lei que se lhe impuzer, e perca seus maus e inveterados uzos, por meio da força, ou que se empregue meios de o civilizar, incutindo-les os princípios da sã moral. O primeiro meio quase impossível porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor; o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espalhar entre eles, bons missionários. Com estes meios, em poucos annos, muito se conseguiria.

Ora, isto é quanto ao gentio: para acabar a escravidão entre os súbditos portugueses há que considerar.

1º Que o commercio so por si não é sufficiente para manter as possessões.
2º Que sam necessárias a agricultura e a industrial fabril, e que estas não podem existir sem braços.
3º Que estes, attentos aos uzos e costumes do gentio, não se obtem senão obrigando-os.
4.º Que segundo situação actual, e o poder que sobre os pretos exerce o governo, o único meio de os obrigar é comprando-os, porque entendem que logo sam vendidos, tem o dever de prestarem a quem os compra os serviços.
5. Que para acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões é de justiça que os que tem escravos, recebem o valor dos mesmos, para o que são necessários muitos centos de contos de reis.

Acresce ainda mais, e esta consideração é de grande peso, que se comprarem os pretos que os costumes gentílicos fazem escravos em todos os annos, serão muitos deles mortos, porque os captivos nas guerras, e os condenados por feitiçarias, e por outros taes crimes, a não serem vendidos, serão assassinados, e por conseguinte, a medida de acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões, ditada pela civilização, pela justiça, e pela humanidade, é, nas actuaes circunstancias, não so prejudicial, mas talvez aniquile as mesmas possessões, leve em seus resultados, a que cometam crimes ainda mais inhumanos.

Quando as circunstancias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas forão as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal Soba estava pronto para o serviço do Rei, porem que este os queria prejudicar acabando com os escravos, que era o seu primeiro redito. Combato, como em taes lances me foi possível, semelhante reclamação e talvez que ouvissem a este respeito o que ainda não tinham ouvido. Combati esse bárbaro costume, e taes razões lhes dei, que não lhes ficando esperança de poderem continuar tam degradante uso, ainda assim obtive o que pretendi e foi d’ahi que tirei por conclusão que, com bons missionários fácil seria fazel-os mudar de seus maus costumes, sendo a primeira necessidade, incutir-lhes o amor ao trabalho; porquanto, a occiosidade que professam, lhes faz abraçar todos os uzos que a favorecem.

Os poucos pretos com que trabalho, podem hoje ser livres, porque continuarão a ser úteis e felizes pela sua agencia, que para eles já é habito. Eduquei-os antes com boas maneiras, do que com castigos bárbaros: não tem tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. SE em vez de trinta tivesse tido três mil, daria hoje a Africa outroa tantos bons trabalhadores. Será porem possível fazer-se nas possessões d’Africa, com braços importados da Europa, a cultura?

É facílimo resolver esta questão negativamente; porquanto, sem lembrar a difficuldade de os obter, e as enormes despezas para isso necessárias, direi não ser possível cultivar com os europeus, porque ficam logo iimpossibiltados do trabalho braçal, em rasao das moléstias de que são atacados, e, porque tãobem não se pode obter o numero suficiente para a cultura e industria fabril; e assim o ultimo recurso é aproveitar os indígenas, e o medo é compral-os, pois assim se sujeitam sem o menor obstáculo e sem repugnância, e se depois fogem, é isso devida a maior parte das vezes, ao mau modo de os tratar. So no fim de tres ou quatro annos é que um preto gentio fica bom trabalhador, e neste período é necessário muita paciência em o ensinar, e em so o ir exigindo diariamente mais um pouco de serviço.

Não me agrada a distinção de escravos e livres, nem admito na minha fazenda. Todos sam agricultores com iguaes direitos e obrigações. So é distincto o que merece, pelo seu comportamento. Esta nomenclatura é causa de rivalidade, portanto, origem de desordens e fugas.

Entendo que bem podia legislar-se dobre os serviços que deviam prestar os pretos que a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões segundo o estado actual, sem se uzarem os reprovados nomes de escravos e liberto. Se o infeliz háde injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços que tam úteis se podem tornar em mãos de homes e intelligentes, sendo taes serviços por enquanto essencialmente necessarios nas mesmas possessões. Era isso mais racional e justo uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser tratados os comprados – regulamentos, cuja exata execução fosse encarregada as auctoridade3s administrativas e policiaies, com a mais severa responsabilidade; porem, repito ainda que esta responsabilidade não devia ficar somente escripta no papel , como acontece a quase todas as nossas leis.

Expendi francamente a minha opinião, e fui gastante extenso; mas ainda maior extensão podia a matéria, que julgo de toda a transcendencia.

Sou na província o menos entendido; porem dos que mais desejam o progresso, augmento e civilização das nossas possessões.



Deos Guarde a V. Exa. Por mui dilatados annos. Mossamedes, 15 d’Abril de 1857. IIImo e Exmo. Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador Geral da Provincia. – Bernardino F.F.A. e Castro.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pinto da França, Zuzarte de Mendonça e Teixeira Pinto. Saga de 3 famílias na pacificação e colonização do sul de Angola


Honorato Zuzarte de Mendonça
General de brigada, ajudante de campo do rei D. Luis
 e Chefe da Casa Militar do rei D. Carlos
 Imagem: Genealnet



José Júlio Zuzarte de Mendonça
Imagem: Genealnet


Pinto da França, Zuzarte de Mendonça e Teixeira Pinto.
 Saga de 3 famílias na pacificação e colonização do sul de Angola.


No longo e difícil processo de consolidação territorial da colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, a cobiça de potências estrangeiras, desejosas de os substituirem naquelas paragens. A efectiva ocupação do território imposta pela Conferência de Berlim (1884-5) passou a ser para as potências europeias, o principal factor para reivindicar os seus os ricos territórios africanos, ao contrário da visão colonial portuguesa da altura que assentava ainda nos direitos históricos.

Mais de três séculos depois de as caravelas de Diogo Cão terem chegado à embocadura do rio Zaire e se estabelecerem relações com os povos locais, a ocupação do território  com a respectiva delimitação de fronteiras estava ainda muito longe de estar consolidada. A zona de Moçâmedes era vital para os Portugueses. Foi então que em 1840 foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, na ampla e abrigada baía, encravada entre as águas do oceano e o vasto e árido deserto.  A Moçâmedes chegaram  alguns comerciantes oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda, e ali nasceram as primeiras feitorias em plena praia. Nesse ano decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando e por coincidência, anos depois, de Pernambuco no Brasil chegou uma petição às autoridades lusitanas enviada por um grupo de portugueses perseguidos , após a independência, solicitando que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império onde tremulasse a bandeira portuguesa. O Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía, onde deveriam fundar uma colónia agrícola. No dia 23 de Maio de 1849, saiu do Recife rumo às costas de África, a barca Tentativa Feliz escoltada pelo brigue Douro com 174 refugiados, a quem tinha sido prometido um paraíso na terra. Ao fim de 2 meses e meio de navegação em difíceis condições, os passageiros têm enfim à vista a desmaiada vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim e a de­solação dos seus novos lares: meia dúzia de choupanas com coberturas de palha. Foram calamitosos os primeiros anos dos colonos, devido a um período de 3 anos de calores sufocantes e águas escassas, que levou a que a colónia vacilasse. Águas abundantes chegaram de um dia para o outro e das águas brotou a ressurreição de Moçâmedes. A eles se juntaram um novo grupo de pernambucanos, e a partir de 1861 grupos de familias algarvias de Olhão. Mais tarde, e precisamente nos anos em que decorria a Conferência de Berlim (1884-5), que resultou na "Partilha de África" entre potências europeias, chegaram a Moçâmedes duas "levas" de madeirenses, e com o decorrer do tempo Moçâmedes passou a ser um importante entreposto comercial com o interior, com os navios nacionais e estrangeiros que a necessitar de aprovisionamento.

Segue uma interessante publicação de Nuno Pinto da França Craveiro Lopes que encontrei na Net relacionada com a colonização de Moçâmedes, na parte que tocou a elementos da sua familia:

"...O relato que segue é da vida de 3 famílias, na saga de pacificação e colonização de Moçâmedes: João Teixeira Pinto (1810-1896), meu tetra-avô, José Júlio Zuzarte de Mendonça (1847-1911), meu trisavô, e António da França Pinto de Oliveira (1872-1917), meu bisavô materno. José Júlio Zuzarte de Mendonça era filho ilegítimo. Seu pai Honorato José Zuzarte de Mendonça, general de brigada, ajudante de campo do rei D. Luis e Chefe da Casa Militar do rei D. Carlos, receando a hostilidade da família em Portugal contra seu filho, na altura com 10 anos de idade, pede a sua transferência e parte em 1857 no brigue Velloz levando-o consigo para Moçâmedes.
Aí assume o comando da companhia de linha de Moçâmedes, exercendo mais tarde o cargo de Secretário do Governo, de chefe da secção militar da secretaria do Governo Geral da Província e finalmente de Governador de Moçâmedes. José Júlio licenciou-se em Direito e foi aí Juiz de Paz, Administrador da Alfândega e Comandante do Porto de Moçâmedes. Veio a desposar com Maria Rosa de Oliveira Teixeira Pinto, filha de João Teixeira Pinto, General de Infantaria, pacificador de Moçâmedes e herói de Angola nas campanhas do Cuamato em 1907, onde, comandando um corpo de tropas auxiliares constituído por voluntários boers, europeus e autóctones, derrotou e ocupou o território dos Cuamatos perto do rio Cunene, que em 1904 tinham provocado um massacre de tropas Portuguesas apanhadas de surpresa numa emboscada no vale do Pembe, deixando no local 250 mortos. Os indígenas pacificados chamavam-no "Kurika" que significava "leão". Segundo constava, era tão bravo no campo de batalha como fecundo em sucessivos leitos conjugais, tendo tido 2 filhos e 16 filhas. Como a campanha de pacificação se prolongou e Moçâmedes se mostrasse uma terra pacífica chamou para junto de si a mulher e as filhas mais velhas, uma das quais, Maria Rosa, veio a casar com José Júlio.
 
  João Teixeira Pinto "O Kurika"

Maria Rosa, de boa cepa, gerou ano após ano, pontualmente, 7 filhas e um filho. Cedo se finou, segundo então se pensou, devorada pelas febres, exangue pela sua fertilidade explosiva, mas rumores houve de que uma negra enciumada a envenenara ou lhe fizera mortal feitiço. Na verdade José Júlio deixou também descendência de uma nativa local (três filhos e duas filhas). Pequeno burguez honrado, legitimou-os e juntamente com seus filhos e filhas legítimas, brincavam e estudavam todos num colégio de freiras francesas existente em Moçâmedes. As "virgens de Moçâmedes" como eram chamadas, cantavam, tocavam piano e contavam os meses que separavam a passagem das fragatas inglesas que levavam uma nova guarnição para a ilha de Santa Helena no atlântico sul. Quando as fragatas chegavam, era sempre um acontecimento! Havia baile no palácio e ficavam sempre no ar vagos amores, esboçados ao de leve e todavia tão vividos e tão sofridos.


 
  António da França Pinto de Oliveira, 
foi Ajudante de campo do Governador João de Mascarenhas Gaivão
Imagem: Genealnet


Em 1895, quando o velho governador de Moçâmedes, Honorato Zuzarte de Mendonça (1) faleceu, foi substituido por João de Mascarenhas Gaivão, que trouxe consigo como ajudante de campo, António da França Pinto de Oliveira, filho de família de “sangue azul”, capitão de cavalaria. Era suave, loiro de olhos verdes, parecia um dos oficiais ingleses da ilha de Santa Helena que costumavam passar por Moçâmedes. Logo conheceu uma das filha de José Júlio, Maria Clara de Oliveira Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça e enamoraram-se para toda a vida. Casaram na igreja de Santo Adrião em Moçâmedes e no palácio lhes nasceu o primeiro filho, Bento, antes de regressarem a Portugal. António da França Pinto de Oliveira veio a ser comandante do Forte de S. Miguel e da Fortaleza de S. Pedro da Barra em Luanda, exerceu varias comissões de serviço em Macau, Africa Oriental e Ocidental, tendo sido agraciado e louvado repetidas vezes. Veio a falecer em Lisboa em 1917 aos 45 anos de idade de doença cardiaca aguda. A sua esposa sobreviveu-lhe 57 anos, vindo a falecer também em Lisboa, com 90 anos de idade em 1964. Publicada por Nuno Pinto da França Craveiro Lopes


Retirado daqui:Publicada por Nuno Pinto da França Craveiro LopesPublicada por Nuno Pinto da França Craveiro Lopes

 Para mais informações, visitar esta página:
(1)  http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-jose.html

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, sua evolução até aos anos 1930: o contributo do capitão Sr. José Maria de Mendonça e da Câmara da cidade. A Fortaleza e a Avenida.da Republica

                                                



 
  Rua Costa. Época em que  a elevação do morro corria até quase a meio da Avenida
A Fortaleza de S. Fernando e a acção do comandante, capitão  José Maria de Mendonça


"...Um dos monumentos que impressionam a vista a quem de bordo de um navio ancorado na baía, contempla Moçâmedes, é a Fortaleza de São Fernando. Edificada no extremo leste da planura da Torre do Tombo, no morro São Fernando, ela nasceu como a atalaia vigilante dos possíveis ataques que daquele lado viessem. Parece que dela já havia alguma construção quando à velha Angra do Negro, aproou a primeira Colónia de emigrantes vinda de Pernambuco, Brasil, em 04 de Agosto de 1849, trazida pela Barca brasileira "Tentativa Feliz" capitaneada pelo Brigue português "Douro". "





Mas falemos do assunto que nos trás aqui. 

 Miguel Coelho no “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934,  faz uma referência notável  à acção do seu actual comandante, o capitão José Maria de Mendonça, o homem que transformou (palavras textuais)  aquele pardieiro infecto, que causava repugnância a quem o visitava, transformando-o num edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãosAs obras da "continuação da Avenida da Répública", foram disso um exemplo. O morro sobre o qual assenta a Fortaleza, também conhecido por Ponta Negra, prolongava-se na época pela parte cimeira da Avenida da República, desde o Palácio indo a morrer até ao edifício da Capitania do Porto, e teve que ser desaterrado a pá e picareta, sendo a terra transportada, através de vagonetas, para preenchimento de uma depressão que existia ao fundo da mesma Avenida, lá para os lados da estação do Caminho de Ferro. 


No mesmo “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934, Miguel Coelho publicava o seguinte artigo:  


Não é nosso intento fazer a narrativa histórica deste edifício e sim apenas registar a sua actual aplicação.Serve de quartel a uma Companhia Disciplinar, para punição de delitos militares. Nada de notável isto ofereceria, se não tivéssemos que focar a notável acção do seu actual comandante, o capitão Sr. José Maria de Mendonça. São bem dignos de registo os efeitos da zelosa e acertada actividade deste ilustre militar. Ao entrar no comando da Companhia Disciplinar, que, ao tempo era também depósito de degradados, encontrou um pardieiro infecto, um aglomerado de construções cujo aspecto, causava tristeza a quem o via de fora, e repugnância a quem o visitava. Os correccionais nele agrupados passavam uma vida ociosa e os castigos registavam-se por muitas centenas. O seu actual comandante, com um bom senso invulgar, enfrentou a questão e concebeu o plano de, pelo trabalho, restaurar o edifício e, o que é mais, regenerar os reclusos. O seu intento foi coroado do melhor êxito, e presentemente, a Fortaleza de S. Fernando é, exteriormente, um edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãos.


A sua população tem hoje no trabalho bem orientado o meio de evitar os castigos, que as suas taras provocavam, e, esses castigos desceram em número a indicadores dignos de nota. Ainda seguindo um plano acertadamente estabelecido, a actividade dêsses correccionais tem sido aplicada na construção de obras de interesse geral. Para indicarmos a mais importante, citaremos a continuação da Avenida da República, obra que está concluída e que, se fôsse executada pelos meios usuais, teria custado milhares de contos.
 

Tudo isto se fez, tudo isto se conseguiu sem dispêndio para o Estado, com pequeno dispêndio para o Município, e com um grande título de glória para o sr Comandante da Fortaleza de S. Fernando.
Está nisto uma prova do muito que se pode conseguir, na causa publica, quando os homens, numa nítida compreensão dos seus deveres, procuram ser úteis à sociedade.
 
Que o exemplo frutifique e que haja sempre motivo para grato registo de factos desta natureza, são os votos do “ Mossâmedes”.

(ass) Miguel Coelho"

Seguem algumas fotos que ilustram bem esse trabalho levado a cabo  a pá e picareta por militares aquartelados na Fortaleza de Moçâmedes.




Esta foto mostra-nos parte da elevação que teve que ser terraplanada


Esta foto mostra-nos a elevação que teve que ser terraplanada
As obras de terraplanagem da elevação que nesta altura cobria a parte cimeira da Avenida da República, na continuação do morro da"Ponta Negra" ou morro de D. Fernando, onde assenta a Fortaleza.~Estas obras decorreram na década de 1930, conforme o “Semanário Mossâmedes” em  publicava em 1934, num artigo assinado por Miguel Coelho.


As obras na Avenida: Terraplanagem do morro. Aqui vai nascer o topo da Avenida da República

 A terra foi retirada com a ajuda de vagonetas deslizando sobre carris...



Depois ficou assim... Década 1930


 

A arborização da Avenida a desenhar-se...










Nesta altura  encontrava-se na Avenida o Obelisco erguido em memória do General Sá da Bandeira, que decretou em 1836 a abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas. Este obelisco tinha vindo da Praça Sá da Bandeira, que ficava no quarteirão onde foi construída a Escola Portugal ( Escola N. 55). Mais tarde foi  levado para uma praça perto do Bairro da Facada, onde ainda hoje se encontra, e no lugar do Obelisco nasceu o Quiosque.







Colecção do Centenário: 1949



As obras prosseguiram no início de 1950. O troço sul da Avenida de Moçâmedes que sobe na direcção do Palácio-residência do Governador foi alvo de novos melhoramentos. Foi a altura em que o topo da Avenida veio a beneficiar de um um imponente edifício, o Palácio da Justiça. Seguem mais algumas fotos

 

 

O imponente Palácio da Justiça (Tribunal). No tempo da 2ª Grande Guerra (1939-45), as fábricas europeias estiveram ao serviço do material bélico e as importações de toda uma série de materiais de construção, e não só, ficaram suspensas







Segue um texto assinado por J.A.M.,  publicado no “Semanário Mossâmedes”  em Janeiro de 1934:


 Câmara Municipal

 
Sendo o nosso número de hoje dedicado a “esta nobre e querida cidade” não podíamos deixar de dizer alguma coisa sôbre a Câmara Municipal de Mossâmedes. Há 6 anos que meia dúzia de homens eleitos pelo povo para defenderem os interesses do Município. Há 6 anos que esses homens, com uma fôrça de vontade e persistência notáveis, teem desenvolvido uma actividade que a todos satisfaz. Não descansam. Ontem foi a construção de passeios e marcos fontenários, arborização dos bairros da Torre do Tombo e Aguada, os dois extremos da cidade; abertura de novas ruas e nivelamento de largos. Hoje temos a continuação da formosa Avenida da Rèpública que o carinho e inteligencia de Fernando Pestana tem transformado na mais bela avenida da Província. Outras pessôas ha que muito teem concorrido tambem para a efectiva realização de algumas das obras de maior vulto na cidade e que seria injusto não mencioná-las. São êsses bons Amigos de Mossâmedes S. Exª o sr. Governador do Distrito José Pereira Sabrosa, e os Ex.mºs srs. Capitão José Maria de Mendonça, Comandante da Companhia Disciplinar e Engenheiro Mello Vieira, Director dos Portos e Caminhos de Ferro do Sul, sem o auxílio de quem não seriam possíveis o desmoronamento do morro que cercava a Fortaleza de S. Fernando e o atêrro do largo destinado ao Stadium Municipal.
 
Fazem parte da Câmara os srs. António Monteiro Portela, Fernando Pestana, Bernardo de Figueiredo, Joaquim Afonso Salavisa, Oscar Duarte de Almeida, Herculano Morgado, José Augusto Vilela e J.A. Monteiro.

O programa da Câmara é grande: Nele está indicada a montagem da luz eléctrica para fornecimento a particulares, esgôtos e canalização de água, pelo que, muito se tem interessado o vereador do respectivo pelouro, sr. Bernardo Figueiredo. Estes melhoramentos sendo de fácil realização tornam-se, contudo, difíceis pela exiguidade do orçamento que não comporta tais despezas.
 

Tem a Câmara dirigido ao Govêrno muitas exposições pedindo um empréstimo de 3000 contos. Esse empréstimo, muito embora tivesse sido autorizado pelo conselho de ministros, ainda não foi efectivado.
Os 3000 contos seriam aplicados, como em cima dizemos, na montagem da luz eléctrica com todos os requisitos modernos, e na higiene da cidade. Quando será? Oxalá que seja breve para que possamos dizer: Mossâmedes! A “nobre e querida cidade” é também a mais bela e confortável cidade!Mossâmedes – A Cintra de Africa pela amenidade do seu clima – será em tudo digna dêsse nome!
 
Por J.A.M. in “Semanário Mossâmedes” Janeiro de 1934.


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