Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



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“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 29 de outubro de 2016

Maria da Purificação Vasa Marreiros, degredada para Moçâmedes, Angola, por assassinato


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A deportação  e o degredo foram nos séculos XIX e XX uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo, e foi evidente a sua utilização quer como meio de cumprir pena para criminosos de delitos graves, assassinos, etc., quer para emigração forçada, e para impedir a acção dos opositores político não gratos ao regime.  O próprio Batalhão de Caçadores 3, que 1º estacionou na Fortaleza de Moçâmedes (1), era, na sua quase totalidade, constituído por criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. A maioria dos degredados acabavam por se fixar, internando-se no território, porém  de muitos se perdeu o rasto. Outros chegaram a ser úteis à administração. 

Esta mulher, Maria da Purificação Vasa Marreiros, de 47 anos, está registada no livro de matriculas dos degredados em Moçâmedes, para onde foi cumprir pena por cumplicidade em homicídio, por 15 anos. porque matou o marido, José Joaquim Almeida Marreiros, de 69 anos, no último dia de junho de 1881 em Casal da Areia, na Freguesia de Salir de Matos, no território metropolitano.

 Os 15 anos de degredo, a seguir à pena perpétua, eram o máximo de tempo que um condenado teria de passar em África.

 A pena para Maria da Purificação Vasa de inicio foi de três anos de prisão celular ou seis de degredo, a mínima para um caso de cumplicidade em homicídio O problema viria mais tarde, fruto de terem resolvido recorrer da sentença.

"... Maria da Purificação, se fizesse como os seus primos, usaria os apelidos “de Vasa César de Faro e Vasconcelos", como o pai. Na sua certidão de nascimento, estão registados os avós paternos: José da Vasa César e Vasconcelos, e dona Maria Eulália da Rocha Castro e Meneses. São, contudo, nomes de uma família de fidalgos da casa real que não surgem no extenso trabalho do genealogista Manuel Arnao Metello, “Os Vasas em Portugal - Família do Oeste de origem talvez sueca”, publicado na revista “Raizes & Memórias.


"....A professora universitária brasileira Selma Pantoja encontrou a ficha de a viúva de Almeida Marreiros no livro de matriculas dos degredados, quando faziam investigações nos anos de 1990 final do século XX. “Entre as 358 degredadas para Angola, entre 1865 a 1898, só Maria da Purificação Vasa Marreiros está registada com o título de Dona, com nome do pai, 47 anos, condenada por cumplicidade em homicídio, degredada por 15 anos para Mossâmedes”, escreveu em “A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898)”.

 


 
 Para ler o texto completo: http://expresso.sapo.pt/…/2016-10-24-Mandou-estrangular-o-m…






(1) Dos vários episódios que marcaram o passado da Fortaleza de Moçâmedes, conta-se que em 1869 estava ali aquartelado um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas, e que na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o então chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça, do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados amotinados já pegavam em armas, e chegaram mesmo a alvejá-lo, com um tiro de pistola, ainda que sem consequências. O oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu recebê-los no dia seguinte na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas, o que de facto aconteceu. Após um diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado, porém os soldados voltaram a sublevar-se e, convencidos de que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força, armaram-se de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontos a fazer fogo, e mesmo a destruir a povoação e incendiar as casas de seguida, levando os moradores apavorados, receosos de toda a espécie de atrocidades, a abandonaram as suas habitações e a procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.


Foi então que o inesperado aconteceu. No meio de tão dramática situação, quando parecia estar tudo perdido, que a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, "saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram os rancorosos impulsos dos amotinados, que, tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e , confundidos pela severidade que lhes transmitira o nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formaram fileiras, e apresentaram-lhes armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora pôde desempenhar a nobre missão que se lhe impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-se dominada por irreprimível eloquência, fez-lhes sentir a hidiondez do crime que iam cometer, dirigimdo-se-lhes com uma inflexão de voz tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, comoveram-se, e assumiram em seguida inteira obediência. O Chefe do Concelho, que estivera sempre junto de sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada. .."(1)
(1) Passagens retiradas do livro Moçâmedes, de Mendonça Torres, obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991





sábado, 15 de outubro de 2016

A ESCOLA DE PESCA E COMÉRCIO DE MOÇÂMEDES




Edificio onde a funcionou a Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, mais tarde, Escola Comercial de Moçâmedes, algum tempo depois, Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes, e finalmente, em edifício próprio, Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique



 À direita o edifício térreo onde funcionou a Escola Prática de Pesca
e Comércio de Moçâmedes
em foto de 2007




Alunos e alunas da Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, em 1948. Este era o quintal interior para onde desembocava, as salas de aula da dita Escola, já em péssimas condições de conservação como se pode ver. Clicar sobre a foto para aumentar. É grande.

Esta interessantíssima foto, gentilmente cedida por Antonieta Bagarrão Lisboa, permite-nos ver o conjunto de alunos/as que frequentavam esta escola do 1º ao 5º ano, nesse ano lectivo de 1948/49. Actualmente já na casa dos 70 anos e mais , felizmente a maioria ainda vivos e cheios de vitalidade, talvez reflexo da boa alimentação que tiveram na infância em Moçâmedes /Angola), terra do bom peixe rico em omega3 etc etc. Vêem-se alguns dos professores que na altura leccionavam nesta Escola, a única escola secundária do distrito. Reconheço, entre outros, de baixo para cima, e da esq. para a dt: 1. Albino Aquino (Bio), Carlos Pinho Gomes, ?, Manuel Dias Monteiro (Neca), ?, Amilcar de Sousa Almeida, José Patrício, Arnaldo Van der Keller (Nado)?, Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita, Nito Abreu, Bajouca, José Duarte (Zézinho), Manuel Rodrigues Araújo, António José de Carvalho Minas (Tó Zé) e Norberto Edgar Neves de Almeida (Nor). 2. Carlos Vieira Calão, ??????, Fernando Morais (7º de camisa escura), ???, Licas Freitas (de pé, ao centro), Dito Abano, Jaime Custódio, Zezo Freitas de Sousa, Carequeja,?, Elisio Soares, ???, Beto de Sousa, ??, Albertino Gomes, e?. 3. Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé), Mimi Carvalho (5ª) Maximina Teixeira (8º),???. 4. Fátima Abrantes, ?, Nélinha Costa Santos, Salete Leitão, Fátima Duarte, Melanie Sacramento, Carolina Mangericão,?, Lucia Brazão Reis, ???, Raquel Martins Nunes, Mª Orbela Gomes Guedes da Silva, ???, Fernanda Vieira,... 5. Francelina da Costa Gomes, ???, Augusto Martins (func. da Escola), ??, Padre Guilhermino Galhano, Dr Domingos Borges (Director da Escola), ??, Professor Carrilho (Dact/Caligraf/Estenograf.), Luzete Sousa,  e mais à dt, Bernardete Diogo, ?, e Fernandina Peyroteu.




Estudantes e professores da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, no decurso de uma visita de estudo ao "Padrão do Cabo Negro". 1946?
Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, com o mestre Ceciilio Moreira apos uma aula tr]atica de Constru;\ao Naval junto dos estaleiros da cidade

Estudantes à entrada da Escola Prática de Pesca 
e Comércio de Moçâmedes. 1948


Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948 com corpo docente, vendo/se ao fundo, de entre outros Cecilio Moreira, O Dr Domingos da Ressurreicao Borges, director, o Padre Guilhermino Galhano e a dt o prof Carrilho. Os alinos sao Fatima Duarte Salete Leitao, Carlitos Oliveira, de entre outros
Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, com mestre cecilio Moreira.  Sao Cecilia Vitor, Maria Emilia Ramos,  Edith Frota, Carrisso, Humberto Gomes, etc

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948



Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, junto dos balnearios da Praia das Miragens

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948 no decurso de uma aula pratica de Construcao Naval

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948



Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948. Sao Humberto Gomes e Salvador









MEMÓRIAS COM HISTÓRIA


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.
Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:
Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)








sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MEMÓRIAS COM HISTORIA: O Teatro Garrett em Moçâmedes



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 Avenida de Moçâmedes no tempo do Teatro Garrett (década de 1930/40) era assim...








Sem ter conseguido uma foto para aqui expôr, da sala de espectáculos que antecedeu o Cine Teatro de Moçâmedes, não deixarei de tecer neste blogue, algumas considerações sobre o Teatro Garrett.

Situado na Rua Calheiros, o Teatro Garrett  foi constituído como uma casa de espectáculos pela empresa exploradora de recreios moçamedenses, sociedade anónima de responsabilidade limitada, tendo por fim a exploração de espectáculos públicos, com sede em Moçâmedes. Foram sócios fundadores Serafim Simões Freire de Figueiredo, António Florentino Torres, Miguel Duarte Loureiro de Almeida, Manuel da Silva Dias e Honorato Júlio de Mendonça.   Foi em 01 de Outubro de 1896 a escritura da constituição da sociedade, registada no Tribunal do Comércio em 15 de Junho 1906. Foi matriculada em 13 de Dezembro de 1924. Tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, pelo motivo de também ser provisório o seu título constituido.
Esta casa de espectáculos ainda existia na década de 1940, tinha então como proprietário Raúl de Sousa, e foi ali, na Rua Calheiros, o local onde os moçamedenses assistiram às primeiras peças de teatro e de revista, e viram correr os primeiros filmes, grande parte dos quais em cinema mudo.
Enquadrado no tempo que o viu nascer, em finais do século XIX,  o "Teatro Garrett" acabou demolido na década de 1940 para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes. Dizem os que o frequentaram, que ficava num edifício de 1º andar, de fachada vulgar, com porta larga encimada pelo nome "Teatro Garrett", e que do exterior não dava para imaginar o requinte do seu interior todo forrado a madeira trabalhada (Talha dourada), com suas frisas, camarotes, plateia e reposteiros de veludo vermelho, um requinte tal, que, ressalvando é claro as devidas proporções, havia quem dissesse que fazia lembrar o Politeama de Lisboa.

Mas atenção, contavam os mais antigos que houve uma sala de espectáculos anterior ao "Teatro Garrett", e que esta se situava na Rua das Hortas onde mais tarde o comerciante Álvaro Vieira Ascenso veio a construir os seus armazéns de comércio, daí que para além da memória da sua localização, nem uma réstea do nome, nem um indício do seu dono chegou aos nossos dias.  Por isso o "Teatro Garrett" acabou por ficar na memória colectiva na Moçâmedes do antigamente como a primeira sala de espetáculos da cidade, a que se deve ao já citado  requinte do seu interior. Conta-se  porém que por volta dos anos 1940 já a madeira do "Teatro Garrett", artisticamente trabalhada, se encontrava corroída pela bicharada e  incapaz para ser aproveitada. E foi assim que encerrou o "Teatro Garrett",  que ameaçava desintegrar-se, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes. Sobre este aspecto introduzo um texto com certa graça, de um conterrâneo que ajuda dar mais nitidez à memória do "Teatro Garrett" que ele mesmo frequentou:


"....Feliz ou infelizmente, vivemos num mundo finito ao qual não conseguimos escapar. E nem o Cuprinol da Robbialac, produto supostamente contra o caruncho, conseguiu salvar o "Teatro Garrett" da derrocada total. É que, ao longo do tempo, o bicho-carpinteiro foi-se alimentando do madeirame de uma tal forma tão subreptícia e insidiosa que as estruturas do Garrett começaram inesperadamente a ranger por tudo quanto era sítio. E numa manhã de cacimbo, após uma noite de ruidoso e animado filme de piratas e corsários, o pessoal de limpeza deu de chofre com aquele triste espectáculo. Essa deve ter sido a última noite de grande farra para os carunchos e os escaravelhos, pois deixaram de tal modo esboroados os camarotes, as frisas e o balcão do Galinheiro, que a partir de então o "Teatro Garrett" passou apenas a servir de local onde a miudagem do Bairro da Facada ia brincar às escondidas e aos polícias e ladrões. Só as duas goiabeiras do quintal do Garrett choravam lágrimas de seiva amarga, pois o Tó Lindas e o Monacaia não perdiam ocasião para dar caça às bengalinhas que nelas poisavam para os seus cantos divinais. Com desgraças ou sem elas, a vida não pára!... Tempos depois, sobre os escombros do Cine-Teatro Garrett, viria a ser construído a Sede do Atlético Clube de Moçâmedes, atirando para as brumas da memória aquele elegante e singular Cinema que tantas alegrias havia proporcionado aos nossos queridos “Cabeças de Pungo. Nesse intervalo, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube Recreativo e Beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que decorriam sem grandes condições de acomodamento, e sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas, e as peças de teatro, sem nunca atingirem o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. " (1)

Ficámos pois a saber que o proprietário do Teatro Garrett,  Raúl de Sousa, perante o descalabro deste Teatro, transferiu-se para o edifício-sede do Ferrovia, Clube Recreativo e Beneficiente, na Rua Serpa Pinto, onde até à fundação do Cine Teatro de Moçâmedes passaram a decorrer espectáculos que iam acontecendo na cidade, cinematográficos e não só.

Mas voltemos ao Teatro Garrett. Interessante era o modo como era feita a publicidade naquele tempo, através de um "cartaz ambulante" rectangular, com cerca de 1, 50 metro de largura e e 1, 20 metro de altura, apoiado em dois paus, que percorria as ruas cidade, levado por dois africanos. O cartaz incluia imagens de cenas do filme ou das peças de Teatro e de Revista que ali iam ter lugar, etc, etc.

No campo das realizações, na bela sala de espectáculos do  "Teatro Garrett" foram levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. Mas ao palco do "Teatro Garrett" também subiram artistas da nossa terra, crianças, jovens e adultos que muitos de nós ainda recordam. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de Moçâmedes, integrando a Revista "Coração ao Largo", que incluía, entre outros bailados, o  muito ovacionado "Bailado das Horas". Este bailado era desempenhado por 24 bailarinas de diferentes idades, que dançaram magistralmente, e que eram distribuídas por 4 grupos, consoante as idades, representando as mais novinhas, as "madrugadas", as da idade seguinte, as "manhãs", as mais cresciditas, as "tardes", e as mais velhas, as "noites". O acompanhamento ao piano esteve a cargo de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros: 

1. "Mossâmedes à vista"  (naquele tempo escrevia-se com "SS ")
2. "No Quiosque do Faustino"
3. "Coisas e Loisas"
4. "Beija-me muito"
5. "Cenas de Rua"


"Coração ao Largo" era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas:  Zé Topa Tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins (António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Clube de Moçâmedes. Foi levada à cena vezes sucessivas e sempre com bilheteiras esgotadas. Os preços da entrada eram variados, conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral.


De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo", que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, ficaram os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz). 


Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituído por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida pela "Voz de Ouro do Deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta. A interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: "Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." . 

Outra figura de Moçâmedes que cantou no Cine Garrett foi Augusto Gavino. E em tempos mais recuados, subiram à cena outras peças de entre as quais a intitulada "Gioconda", outro sucesso de bilheteira que as nossas avós não cansavam de lembrar.


Recorte de jornal da época (finais dos anos 1930)


Também era comum por ocasião do Natal levarem à cena  actos de variedades e peças de Teatro com pequenos artistas da terra que revelavam grande talento, tais como Norberto Gouveia (Patalim), com apenas 12 anos, e outros que ficaram  na memória colectiva:  a Lolita, o Renato Veli, o Nito Santos, à época crianças. Eram geralmente festas de caridade, destinadas a angariar ajudas para a "sopa económica" dos desprotegidos da  cidade. O artigo refere nomes de alguns colaboradores, de entre os quais Dina de Sousa (pianista e ensaiadora), Maria Eugénia de Almeida, Rosete Almeida, Vénus de Sousa e Beatriz Caleres. 

As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Ti-ro-liro", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:


"...Cá em cima está o tiro-liro 
Lá embaixo está o tiro-liro-ló 
Juntaram-se os dois à esquina 
A tocar a concertina 
E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre, 
gosto muito da sua afilhada, 
É bonita, apresenta-se bem 
e parece que tem, 
a face rosada...

etc..



 A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.

Programa da Revista "Coração ao Largo"







Conta-se que naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas e convenientemente iluminadas (a iluminação era a óleo de baleia), e as pessoas andavam a pé, sendo escassas também as lojas de moda, as nossas e os nossos elegantes quando assistiam a espectáculos no Teatro Garrett exibiam, elas, elegantes tailleurs bordados a fita e lantejoulas, missangas, etc, estolas, casacos de peles, luvas, chapéus, etc. E eles elegantes fatos de alpaca, colete, lacinho ou gravata e chapéu. O aspecto curioso da questão é que as indumentárias eram mandadas vir directamente dos Armazéns "Printemps" de Paris, via Congo francês, através de uma loja de Moçâmedes simbolicamente denominada "Armazéns Primavera", que ficava  no rés-do-chão do edifício centenário da familia Zuzarte Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Central, alugado à  familia Gouveia.  Mas também se conta que no tempo do "Teatro Garrett"  não havia quaisquer restrições à entrada de crianças, e até as mães podiam levar os seus bebés ao colo, o que transformava por vezes as noites de cinema numa alegre festa em família...

O "Teatro Garrett" é fruto de uma época de passagem em que, com o surgimento do Cinema, as salas de Teatro passaram a exercer uma função duplice, ou seja,  o Cinema, surgido com as mudanças ocorridas com a industrialização, em finais do século XIX foi buscar ao Teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, ao transformar o Teatro num lugar apropriado para a exibição dos filmes.

Como não podia deixar de ser, a componente comercial fazia parte do projecto. A este respeito um conterrâneo avançou:
"... Para aproveitar o tempo na troca das bobinas que continham o filme, havia dois intervalos sem tempo definido. O público passava, então, para as elegantes galerias, onde se encontravam à sua espera toda a espécie de bebidas e gulodices, cigarros, etc etc.

Resumindo, os Cine Teatros foram a resposta da época no campo da manifestação artística. Apresentado inicialmente como uma curiosidade para o público frequentador dos music-halls, dos cafés-concertos e dos pequenos teatros, aos poucos o Cinema foi criando salas próprias para um público próprio, numa trajetória evolutiva que passou pelo período efervescente da "belle époque" até o período áureo dos Cine-Teatros, em edificios de carácter peóprio, cujas fachadas e interiores em arquitectura "Art Déco" surgida nos "loucos anos 20", em Paris, são hoje em dia reconhecidas como um primeiro passo da arquitectura rumo à modernidade.

Passados que foram 40 anos sobre a independência de Angola, e o abandono em massa da cidade de Moçâmedes pelos seus moradores europeus, ficam estas recordações de momentos passados num outro tempo, num outro lugar, por gentes que na maioria a morte já ceifou, mas que merecem ser lembradas pelo brilho da sua participação em eventos sociais e lúdicos, pela vivacidade com que ajudaram a tornar mais leve a monotonia dos dias, num tempo em relação ao qual apenas restam vagas recordações.

E quando, em amenas cavaqueiras com amigos de infância, recordamos essa Moçâmedes do antigamente, acabamos sempre por montar no vento leste e cavalgar no tempo, viajando por esses sonhos intemporais onde ainda vivem e moram a Myrna Loy e o Gary Cooper, a Greta Garbo e o Errol Flynn, o Zorro e o Tarzan… E outros tantos mais!... (2)

 MariaNidiaJardim 

 (direitos de autor) 
20.06.2008 










quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bernardino Abreu e Castro e João Duarte de Almeida, dois apóstolos da abolição da escravatura






 



Uma das primeiras caracterizações da sociedade angolana do século XIX surge em 1857, pela pena de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, numa carta redigida em Mossâmedes, contendo a sua “Opinião” sobre a abolição do comércio de escravos, pedida pelo governador de então, José Rodrigues Coelho do Amaral, e que se publicou, entre outras, no número 611 do Boletim Official.
Bernardino divide os europeus em três classes: A de empregados publicos, a de homens que vem procurar fortuna, a de degredados. A primeira classe, que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem à Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que
o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitue hoje limitada excepção a esta regra. [. . . ] A segunda classe e dos que vem procurar fortuna e como esta se obtinha por meio do embarque de escravos, claro está ser a idea dominante até ha poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar, que o numero dos que não são ainda hoje d’ella affectados não é o maior; e que os que se dirigem à cultura precisam luctar com quazi insuperaveis difficuldades, ter paciencia mais que ordinaria, e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. [. . . ] . A terceira classe é a dos degredados, os quaes quazi todos são soldados, e não é a menos útil, pois não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saude, e habitos ociosos

Sobre os indígenas, seus costumes e relações de poder, também dá um retrato pormenorizado, no qual salienta a falta de hábitos de trabalho, as tendências para a bebida, o desrespeito pela propriedade privada e o carácter bélico, acabando por concluir que a responsabilidade na manutenção, senão na decadência, destes costumes cabe aos portugueses: “Costumes, religião, e governo do gentio são quazi geralmente os mesmos da primitiva, só com a differença de que nada de bom lhe tem ensinado os europeos, antes communicado os nossos vicios”. 


In Júlio de Castro Lopo,Jornalismo de Angola – Subsídios para o seu Estudo, Luanda, Edição do Centro de Informação e Turismo de Angola, 1964.

Se fora de Luanda as populações autóctones se mantêm, salvo raras excepções, na situação descrita por Bernardino Feire, nesta cidadeassiste-se, na segunda metade do século XIX, a uma aproximação íntima entre o português e o “agregado africano, com o qual se cruzou e constituiu família, determinando uma sociedade em que o mestiço, [. . . ] gozou duma certa relevância". 



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Transcrevo algumas passagens do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro",   do Padre  Vicente, José (Gil Duarte),  página 1959, sobre  a posição de  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro   e de João Duarte d' Almeida  no que diz respeito à abolição do tráfico de escravos  para fora das possessões portuguesas africanas e  ao fim da escravatura dentro das mesmas possessõesque se fazia na  direcção do Brasil  e as Américas:



"...João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida fez, sobre o assunto,  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa,  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste. Passarei pois a transcrever uma dessas exposições, tenso em conta que em relação a este assunto João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro tinham os mesmos ideais. A mesma exposição deve ser analisada não à luz dos nossos dias, mas à luz das mentalidadea da época em que estes dois homens viveram. Ei-la:

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem,  se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades." Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefutável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

E continua:

" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.

Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local de qualquer embarque que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.

Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo, dar parte do que ocorrer entre Mossâmedes e a Lucira; outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha; entre esta e Novo Redondo; entre este e Benguela Velha; entre esta e o rio Longa; entre esta e a cidade de Loanda; entre esta e o Dande; entre este e o Ambriz; entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."

Bernardino fez depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capitulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e inhumano que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não goze do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.

Considera o estado das possessões, os usos e costumes dos europeus que as habitam, o estado da civilização dos indígenas que as habitam, se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 

Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."

Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."

Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."

Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele: "Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade, incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 

Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".

E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."

Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos, e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido, porém, dos que mais desejam o progresso, o aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.
Honra lhes seja! "
 

Como escreveu Fernando Pessoa: "O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos".

 Para saber mais sobre esta época:

 http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf


sábado, 30 de julho de 2016

Chamavam-lhe o "40"

 

Chamavam-lhe o "40". Quando vi a foto deste sujeito que viveu em Moçâmedes e, outras eras logo me veio ao pensamento que podia ter sido um ex-militar que teria participado das campanhas de África do início do século XX, e que por ali teria ficado. Mas não, disse-me logo uma conterrânea que por tradição oral sabia da sua história

"...Não, o "40" era um presidiário da Fortaleza de S. Fernando em Moçâmedes. "40" era o seu nº de cela, ele foi deportado para Angola porque bateu num homem que já estava morto. Era conhecido porque roubava pombas, burros , pintava-os com manchas e depois ia vender aos donos, claro quando as pombas tomavam banho e as manchas desapareciam, lá ia o "40" novamente preso, não tinha emenda, era o único pecado dele.  Era um homem de pele clara e olhos azuis. Foi trabalhar para a minha bisavó, Júlia Pestana, acompanhava o meu avô e o irmão, para todo o lado.  Nesta altura a irmã Hortense, já estava casada com o Costa Santos .Segundo o meu avô era um bom homem, ficou na família e morreu lá.  Vina "

A Vina recordou-se da história, mas desconhece o seu nome. Fica aqui para memória futura, o registo deste cidadão anónimo que já há muito não está entre nós.  Alguém que viveu em Moçâmedes nas primeiras décadas do século XX, e que dele resta apenas esta imagem.


MariaNJardim 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Inauguração do uso de camiões automóvel, em 1915, na Campanha contra os Cuanhamas em N'giva






No sul de Angola, de recente colonização portuguesa, a forte resistência dos Cuanhamas e alguns revezes do exército colonial na região justificaram um outro tipo de ocupação militar sistemática.
É na campanha de 1915 contra os Cuanhamas na sua capital N’giva, que se inicia o uso dos camiões automóveis. Os serviços excelentes prestados pelos carros boers no Bié, no Bailundo e no Moxico, entre outros, dependiam do alimento e da água para os animais. No sul a obtenção da  água era um problema que colocava o exército na mão das populações locais.

No final das operações ficou completa a estrada de automóveis desde a linha do caminho-de-ferro até ao interior do distrito da Huíla. O trajecto entre Mossâmedes e a N’giva, que anteriormente se fazia em 60 a 80 dias passou a poder fazer-se em 36 horas. A rapidez do avanço sobre a N’giva, a capital, ficou a dever-se aos camiões, embora os carros boers seguissem na retaguarda. As populações não conheciam a velocidade nem o rendimento do motor das novas máquinas de transporte.


Ver também
http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/CadernosColoniais/CadernosColoniais-N28&p=6

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe



A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.



"De expressão moderna, com volumes de silhueta triangular, em articulação com um expressivo corpo troncocónico em betão aparente, onde se rasgam pequenos vãos de modo irregular, no tipo da Igreja de Romchamp, por Le Corbusier.  Foi projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960. "
José Manuel Fernandes, professor catedrático na Faculdade de Arquitectura da UT


 

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.




A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.






A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.



A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.



A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.




A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.






A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.






OLHAR A IGREJA DE S. PEDRO DE MOÇÂMEDES/NAMIBE, SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENTE...




Regra geral, olhamos superficialmente os edifícios, sofremos o impacto daquilo que eles a nossos olhos representam, gostamos, não gostamos, fazemo-lo empiricamente, apoiados exclusivamente na experiência e na observação, sem quaisquer análises estética ou ideológica do edifício em si, sem nos preocuparmos com correntes arquitectónicas, nem com aquilo que eles representam, a menos que tenhamos uma formação académica ligada às coisas da arquitectura.

A Igreja de São Pedro na cidade de Moçâmedes,  Namibe, em Angola, projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960, tem algo mais a transmitir. Ela segue a arquitectura modernista da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp, de Paris, projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade, reconhecido por alguns dos cometimentos arquitetónicos mais extraordinariamente significativos do século XX, decisivos para o desenvolvimento da arquitectura da segunda metade do século. 

Como  Ronchamp, a Igreja de S Pedro,  também  ela pode ser descrita pela sua fachada, "...paredes em ângulos rectos, curvos, a um tempo triangular, redonda, alongada, baixa, alta, vasta, fechada, aberta sobre exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem e penetração de jogos de volumes de luz. " etc etc.

A Igreja de S. Pedro  foi construída no quadro do Estado Novo, ela faz parte do conjunto de edifícios modernos que vieram romper com numa época em que a arquitectura portuguesa estivera condicionada pela vontade do Estado Novo e da ditadura vigente, que se impunha ao nível do gosto e da estética dos cidadãos, fazendo com que os arquitectos lusos  não acompanhassem o desenvolvimento  da arquitectura europeia ou mesmo mundial,  com reflexos no urbanismo. (1)
Este é um tema pouco debatido, porquanto a arquitectura moderna  acabaria por ser desenvolvida nas antigas colónias, durante a vigência do Estado Novo, quando na Metrópole a arquitectura era ainda usada como instrumento de propaganda do Regime. 

A viragem imposta pelo Estado Novo rumo a uma produção de características nacionalistas e monumentais,  que ficou para sempre denominada "Português Suave", ficou marcada com a grande Exposição do Mundo Português em 1940. Logo em 1941 é apresentada, em Lisboa, a Exposição da Moderna Arquitectura Alemã, organizada pelo arquitecto Albert Speer, o preferido de Hitler. Os arquitectos que anos antes tinham seguido os princípios do Movimento Moderno passaram, salvo raras excepções, a instrumentos da criação dos modelos da ditadura, centralizados no Ministério das Obras Públicas, e controlados pelo ministro Duarte Pacheco. Os edifícios públicos (universidades, cine-teatros e tribunais) aproximavam-se dos exemplos alemães e italianos da época, com um forte carácter monumental e clássico, cujo objectivo era transmitir aos cidadãos a ideia de autoridade e ordem. Nos edifícios de menores dimensões nas pequenas cidades era escolhida uma arquitectura   mais regional (escolas primárias, pousadas, edifícios dos Correio, da Caixa Geral de Depósitos e nos bairros de habitação social). Em Lisboa raros arquitectos se opunham às imposições do Estado Novo. Na cidade do Porto, ao nível das escolas os adeptos do regime, conseguiam inda assim manter uma postura mais liberal, incentivando os alunos a descobrirem outros caminhos na arquitectura em constante mutação, mas foi com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, e a consequente queda do regime nazi, que Salazar foi proporcionando uma maior abertura no campo cultural. O Congresso Nacional de Arquitectura,   em 1948,  promovido pelo Governo para celebrar os “15 Anos de Obras Públicas” foi o início da contestação da classe de arquitectos. Deste então começou a emergir uma geração jovem de arquitectos com vontade e coragem para enfrentar as imposições do Estado Novo, reivindicando os princípios  do Movimento Moderno. Ao longo dos anos 1950 assiste-se a uma progressiva libertação da arquitectura portuguesa que se vai aproximando dos circuitos internacionais.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes veio também ela romper com a tradição estado-novista,  e em multâneo com a arquitectura eclesiástica ligada ao dogmatismo religioso, opostas à linguagem moderna de Le Corbusier, que se veio a revelar em terras da África portuguesa, pela mão de alguns arquitectos que para lá "emigraram", munidos de uma nova visão, fortemente influenciada o advento do modernismo, e pela produção da arquitectura brasileira, mais internacional  bem acolhida junto das novas gerações mais libertos de condicionalismos ideológicos.   Até porque do ponto de vista climático o Brasil era semelhante ao continente africano, os arquitectos podiam dispor de soluções e técnicas já experimentadas facilmente transpostos para o novo contexto.  Em Angola construiram edifícios modernos, acontecendo porém que décadas após a independência, aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe em Luanda, acabou demolido, para  no seu lugar  nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. Uma perda irreparável.

Com a independência, em 1975, a generalidade dos arquitectos  regressaram a Portugal, mas alguns partiram para o Brasil, estabelecendo a sua actividade naquele país.

Em Moçâmedes/Namibe, esse "modernismo tropical" para além da Igreja de S. Pedro, deixou algumas outras obras de um modernismo de ponta que muito dignifica aquela cidade, quer por aquilo que representam do ponto de vista histórico-ideológico, quer pela contribuição estilística para a paisagem urbana: Mercado Municipal, o Impala Cine, o Cinema inacabado.

Não queremos terminar sem integrar aqui um texto relacionado com o projecto desta nova igreja então ainda a construir em Moçâmedes, de acordo com o plano de urbanização da cidade de Moçâmedes, aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues. Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952. (2)


"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.


"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores, a localização do baptistério, de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente, o que permite a normal celebração do acto do culto.


"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torre um relógio e um sino de grandes dimensões.

Pesquisa e texto por MariaNJardim


(Texto protegido pelas leis de Copyright)
Plágio é crime, porque viola os direitos de autor Lei nº 9.610/98 – a Lei de Direitos Autorais. Art. 1º Esta Lei regula os direitos autorais, entendendo-se sob esta denominação os direitos de autor e os que lhes são conexos.


Ver aqui Ronchamp:
(*) http://www.archdaily.com.br/…/classicos-da-arquitetura-cape…".






Apreciemos então a  Igreja Ronchamp, construida da década de 1950 no alto de uma colina vasta e verdejante, a sudeste de Paris, que veio ocupar um lugar desde há muito de peregrinação católica, que fora destituído de seu principal símbolo de comunhão, a sua Igreja, atingida por um bombardeamento alemão, no Outono de 1944. Este edifício já havia substituído outro anterior, destruído por um incêndio em 1913. (*)

A Igreja Ronchamp foi esenhada para "criar um local de silêncio, oração, paz e alegria interior", segundo Le Corbusier. Foi classificada como monumento histórico em 1967,  e atrai  anualmente cerca de 80 mil turistas. Foi uma obras polémica, tanto por parte dos arquitectos, quanto pelo público. Uns viram em Ronchamp quer um regresso ao passado, quer à plasticidade, outros um indício da crise do racionalismo. Com Ronchamp, a reprodutividade e a estandardização cedem espaço à experiência singular, a Arquitectura e a História relacionam-se, ergue-se o valor da dimensão simbólica, social e cultural.

De um branco brilhante em seus muros externos, paredes grossas e curvilíneas, a um tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta, vasta e aberta sobre o exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem o jogo dos volumes sobre a luz.

Ronchamp foi depredada numa tentativa de furto e sofreu um dano irreparável, o único vitral assinado pelo grande mestre foi completamente destruído.

Eis algumas fotos:


Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp, projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade




  Perspectiva do interior da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), Igreja de Ronchamp





(1) In Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres

Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.