João Duarte d'Almeida, pioneiro da colonização de Moçâmedes
Amélia Duarte de Almeida, pioneira da colonização de Moçâmedes (2ª colónia)
Fotos do livro de Mendonça Torres dobre Moçâmedes.
João Duarte de Almeida, considerado um dos 1ºs colonos que se instalaram em Moçâmedes, em finais da década de 1840 , era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), onde nasceu em 26 de Março de 1822. Era com mais 4 irmãos, filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina, natural de Castelo Branco, Beira Baixa), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida ( cujo nome de solteira rta Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em
desgraça, conforme vem descrito em GeneallNet).
João Duarte de Almeida casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de um seu companheiro de colonização,
José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida.
Orfão de pai, com mais 4 (?) irmãos menores, dos quais 3 varões, muito cedo
João Duarte de Almeida resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, onde se encontrou com Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que em 1849 chegou a Moçâmedes na Barca "Tentativa Feliz", chefiando a primeira colónia de luso-brasileiros vinda de Pernambuco, Brasil, para dar início ao povoamento branco da região. Esta informação está contida no livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), ou seja, quando Bernardino chegou a Moçâmedes já ali encontrava (no distrito), João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela".
Os irmãos de João Duarte de Almeida eram Miguel Duarte de Almeida, e
Luís Castelino Duarte de Almeida, que conforme acima referido, também foram para Moçâmedes.
Sabe-se que João Duarte de Almeida, numa primeira fase tinha-se fixado em Benguela, e só depois seguiu para Moçâmedes onde se estabeleceu com duas fazendas agrícolas e onde se tornou um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul», no Coroca, em Porto Alexandre.
Há referências que em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau (1) e a terceira no Coroca. E já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e a da colheita da urzela. Também há referências que na margem
esquerda do rio Bero (Varzea dos Casados?), o 1º colono que aí se instalou foi João Duarte de
Almeida, tendo mandado construir uma vala para aproveitamento da água do rio,
ao longo do qual instalou comportas que forneciam a água necessária ao
regadio das suas culturas agrícolas. Aliás, no princípio da década de 1860, 10
anos após a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, João Duarte de
Almeida possuía já 11 fazendas no distrito de Moçâmedes, onde cultivava algodã
o, empregando entre trabalhadores escravos e libertos o total de 350, sendo sua a maior das das fazendas da região. A produçã
o
anual nessa época calculava-se em 1780 arrobas de algodão. Em 1890,
João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da
Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400
serviçais a trabalharem para si. Os seus
esforços tiveram notável eficiência, cabendo-lhe, por isso, na opinião de Mendonça Torres, a
reputação de maior cultivador de algodão, cultivador de cana de açúcar para aguardente, e ainda de activo descobridor da "almeidina"
em 1883,
um produto com uma boa percentagem de borracha, a partir de um suco
leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea
Thirucale que comercializo com êxito (vidé Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de
1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). A almeidina foi introduzida no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola.
Seguem algumas informações sobre esses dois produtos comerciáveis e
naturais que aliviaram bastante a economia da época, e que em
Moçâmedes foram explorados por Duarte d'Almeida: urzela e goma copal. A
urzela é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtém uma tinta azul
arroxeada de forte concentração usada em carimbos
e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à
beira mar.
Cabo Verde foi um grande produtor de urzela. A goma copal é uma resina
especial
mas as savanas oferecem outras resinas, de várias densidades e
consistências.. Os
produtos sintetizados vibraram-lhes um duro golpe.
.
Eis o que escreveu Carlos Pacheco
no livro “Angola um gigante com pés de barro” a propósito da urzela:
« O governador Xavier Bressane
Leite por ter permitido a exportação
deste género para portos estrangeiros recebeu uma advertência do ministro da
Marinha e Ultramar que lhe comunicou a sua desaprovação por tal concessão,
ordenando que proibisse a exportação e remetesse para Lisboa o produto dos
direitos cobrados.» No mínimo, hilariante! Bressane Leite governou de 1842 e
1843, morreu em Luanda.
Não admira, há referências que já nessa altura o distrito de Moçâmedes possuía uma
rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraúl:
leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras,
oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou
figueiras, etc.
Eis o que a este respeito nos diz António M Cristão.
"...Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especialmente
na margem esquerda, que se cultivaram as melhores árvores de fruto de todo o
sul do distrito. Na margem esquerda cultivavam-se mamoeiros, diospiros, bananeiras, nespera-cereja-dendém, palmeira de óleo palma, etc,
etc. A razão é que na margem esquerda, dada a inclinação do terreno e a
presença de uma lage a cerca 5 km, havia um curso de água permanente, enquanto à direita,
a água surgia mas apenas por infiltração. Na margem direita, foi necessário a
Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da "Companhia de Mossâmedes",
proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que
entretanto desaparecia, tendo que a aguardar de novo, que, por infiltração,
as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a
terramargem direita necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e
adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto,
porquanto nas margens esquerdas os corvos eram totalmente negros e menos
brilhantes, e os da margem direita possuiam uma plumagem negra, luzidia e com uma gola
branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto, cor e tamanho diferentes. Estes pormenores vêm descritos no livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão.
Iremos abordar em seguida, uma outra faceta da vida de
João Duarte de Almeida, ligada
a aspectos de ordem cultural que importa reter.
O cemitério de São Nicolau, de existência intimamente ligada à fazenda de S. João do Norte de que João Duarte de Almeida era proprietário, depois do
cemitério indígena de Moçâmedes, foi um dos locais mais interessantes
para estudo da arte Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", sobretudo a obra de um dos mais
afamados canteiros negros – Victor Jamba, escravo mandado especializar-se em Lisboa em estelas funerárias.
A arte tumular Mbali ou Mbari, arte do povo africano aportuguesado "quimbar" do distrito de Moçâmedes, invulgar em África, surgiu numa altura do avanço da colonização, quando vivos eram ainda pioneiros como
João Duarte de Almeida, falecido em 1898. Trata-se, segundo o sociólogo Gilberto Freyre, de um caso de cultura afro-cristã gerada em consequência do contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do Distrito, em 1849, entre os colonos luso-brasileiros e a mão-de-obra negra. Uma cultura de fusão que se traduz em cruzetas de pedra de
filtro, ou pedra sabão, mas também em madeira ou cimento armado
trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a óbito, por
ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função
de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os
seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que
aí se contavam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas
cruzetas acabavam partidas.
O que ficou a caracterizar a maior parte das esculturas do Cemitério de S. Nicolau foi o facto de apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajes, o que se deve ao facto de Victor Jamba, o canteiro da região, ter-se deslocado a Lisboa a mando de seu patrão João Duarte de Almeida, para se especializar, tendo a sua arte adquirido tais características. (1) Da sua autoria, são as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc.. Victor Jamba era o canteiro mais célebre e o mais perfeito, e também foi o mais convencional se comparado com outros canteiros que imprimiram aos seus trabalhos um cunho de originalidade.
Importante era também o espólio que no tempo colonial podia ser encontrado no Cemitério chamado do Pretos de Moçâmedes, no Cemitério ao ar livre do Saco, e em outros espalhados pelo distrito. A arte Mbali ou Mbari, de rara expressão em África, tinha no cemitério
de S. Nicolau um dos seus melhores documentos que importava a todo o
custo preservar.
Uma outra faceta da vida de
João Duarte de Almeida, que deve ser aqui mencionada, é a de que juntamente com Bernardino Abreu e Castro, foi um dos apóstolo da abolição do tráfico de escravos e da escravatura. Aliás, ambos sobre o assunto, fizeram diversas exposições
ao Ministro Sá da Bandeira, enquanto no poder em Portugal, sob como se deveria agir na costa de Angola para acabar de vez com o vil negócio, conforme refere o
padre José Vicente, que em seu livro se detém, por falta de espaço, apenas às exposições de Bernardino.
Quando, em 1836, a opção africana se impôs na política do Governo
português, o ministério de Sá da Bandeira tomou importantes medidas legislativas sobre
a abolição da escravatura e a protecção do comércio entre as colónias e Lisboa. As
relações internacionais impostas pela complementaridade entre as economias industriais e
os fornecedores de matérias-primas determinavam o enfraquecimento do comércio triangular
através do Brasil e o reforço da ligação directa à metrópole.
Tais medidas resultaram em grandes perturbações na economia
ultramarina e nas relações entre o poder colonial e os poderes africanos. As autoridades coloniais eram as primeiras a demonstrar incapacidade
para executar a nova legislação, visto que a actividade económica se reduzia ao
comércio e este, por sua vez, ao tráfico de escravos para a América. Os grandes comerciantes exportadores, que punham em movimento, a partir
da costa, o comércio de longa distância, eram apenas negreiros que não sabiam nem
queriam lidar com outro tipo de «mercadoria». A exportação em grandes quantidades do
marfim, da cera, da goma copal, da urzela não interessava aos traficantes nem aos seus
concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço,
oferecidos pela escravatura. A inaptidão conduziu ao desespero das burguesias urbanas de
Luanda e Benguela, que concentravam nas mãos a ligação ao comércio internacional.
Famílias influentes emigraram para o Brasil e com elas os capitais que detinham. É certo
que, com a conivência da administração, a exportação de escravos continuaria ainda,
por cerca de dez anos. Mas a expectativa da vigilância marítima internacional e as
pressões por parte do Governo central faziam prever um fim a médio prazo. Estava-se em 1858 quando Portugal decretou que, passados vinte
anos não poderia haver escravos; mas foi apenas em 1869,
que foi abolido o estado de escravidão, tendo passado à condição de
libertos os escravos em todas as possessões. O Governo português assim procedeu a fim de compatibilizar os interesses dos proprietários
coloniais que haviam investido em escravos, e a boa
consciência de um país que se queria progressista.
Duarte de Almeida concorreu a várias
exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto,
etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos
seus produtos. Foi testemunha presencial, na sua qualidade de negociante e de proprietário, juntamente com o Dr. João Cabral Pereira Lapa, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (chefe da 1ª colónia ida de Pernambuco na Barca Tentativa Feliz, em 1849) e José Joaquim da Costa (chefe da 2ª colónia ida de Pernambudo na Barca Bracarense chegada a Moçâmedes em 1850), da cerimonia da
Escritura de Promessa e Voto , o acto solene do reconhecimento
manifestado pelos antigos colonos na Escritura de Promessa e Voto, de 4
de Agosto de 1859, para que em todos
os anos e no dia quatro de Agosto, se celebrasse, na Igreja Matriz de
Moçâmedes, uma missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus" . Era
agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da
Conceição de Vila Viçosa". Nos cargos de juiz substituto e de presidente
da Câmara Municipal, Duarte de Almeida muito ajudou os colonos.
João Duarte de Almeida faleceu no dia 9 de Julho de 1898. Repousa, como outros portugueses que se transferiram na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Moçâmedes, sob artístico mausoléu «aristocrático» de estilo luso-católico, que ainda hoje se pode ver no Cemitério da cidade, apesar do estado de abandono a que aquele Cemitério, que faz parte integrante do património cultural e histórico do Namibe, tem sido votado. Eis o mausoléu de Duarte de Almeida, mandado erguer por sua esposa e filhos.
Este é o mausoléu da esposa de
João Duarte de Almeida, D. Amélia Josefina da Costa Duarte de Almeida, filha do chefe da 2ª colónia
Pesquisa e texto de MariaNJardim (
Este texto está protegido pelas leis de Copyright)
(1)
Bibliografia consultada:
Manuel Júlio de Mendonça Torres «Moçâmedes», 1º volume datado 1954
Exploração Geográfica e mineralógica do Distrito de Mossâmedes, 1894-1895" por J. Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real.
Ver também: Os primeiros produtores na Exposição do Porto:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2010_03_24_archive.html
VER
AQUI
OU AQUI
João Duarte de Almeida: Genealogia
Em GeneallNet encontrei as seguintes referências que passo a transcrever:
"Em relação aos Duartes de Almeida, de Moçâmedes, penso não errar em supô-los descendentes de
I – Bento Duarte de Almeida, de Mangualde, e de D. Antónia Rita, da Várzea de Candosa, onde residiram e onde nasceu o filho:
II – Dr. João Duarte de Almeida (Borges Belmiro Castelo Branco), médico em Mangualde, fidalgo de antiga linhagem (cfr. António Duarte de Almeida Veiga (seu neto), «Midões e o seu Velho Município», e J. M. Dias Ferrão, «João Brandão») cc (Midões 5 6 1821) D. Ana Emília Brandão, * Midões (prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça).
Refere também uma escritora, irmã mais nova de Duarte de Almeida
O Dr. João Duarte de Almeida faleceu cedo, deixando 5 filhos menores, dos quais os 3 varões que foram para Moçâmedes:
(III)
– João Duarte de Almeida * Midões 26 3 1822 + em Moçâmedes. Órfão de pai, partiu para o Brasil em 1838 em busca de fortuna. Daí passou, pouco depois, a Angola, acompanhando Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador da cidade de Moçâmedes. Foi grande produtor de algodão e cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul». Foi também armador, e descobriu uma borracha, por si denominada «Almedina», que desenvolveu e comercializou com êxito.
"...Presumo que os Duartes de Almeida, de Moçâmedes, sejam todos descendentes dos 3 irmãos de Midões (ou Mangualde). Cumprimentos, José Caldeira (in Genea)
"...Existe em Genea alguns elementos sobre outros Duartes de Almeida "... Edgard Duarte de Almeida, nascido em Moçâmedes, em 28.10.1903. Faria mais tarde em Lisboa o Curso de Arquitectura na Antiga Escola de Belas Artes e, segundo a GEPB, também teve uma carreira com algum relevo na época como artísta lírico, baixo, actuando no Teatro Nacional de São Carlos e noutros locais.
"..Eu já sabia entretanto da existência de uns nossos familiares de Moçâmedes, os Duarte de Almeida, mulatos. Dois deles constam da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o pintor e ilustrador Álvaro de Figueiredo Duarte de Almeida (vol.v 9. págs. 322 e 323, vol.39 ( apêndice) pág. 494 e vol. 4 1ª actualização, pág. 260. Nasceu em M. a 20.01.1909, foi professor dos Cursos de Desenho da Sociedade Nacinal de Belas Artes. Foi o ilustrador da História da Tauromaquia, uma edição de luxo em dois grossos volumes, dirigida por Jaime Duarte de Almeida, que existe na casa do meu já falelecido avô, de quem além de primo era amigo.Tinha duas irmãs, que eu cheguei a conhecer , que tinham uma casa em Ranholas , Sintra , uma das quais também consta da dita Enciclopédia, cantora lírica, Maria Amélia Duarte de Almeida n. Moçamedes 26.08.1900 e + Lisboa, a 15.03.1979.
"... Olívia Simões Freire de Figueiredo, casada com um Eugénio Duarte de Almeida que tiveram uma filha Maria Adelaide Duarte de Almeida, n. em Moçâmedes a 19.11.1919 , casada e com geração, de quem nunca tinha ouvido falar. Terá alguma ligação com os Freires de Figueiredo? ass Luís Piçarra
in GeneallNet
Esses Duartes de Almeida eram primos do meu avô, embora como disse, ignore como se establece a relação, mas julgo ser anterior à sua ida para Angola.
Os que eu refiro , tal como Maria Amélia, Álvaro , Edgard, já pertencem a uma geração nascida em Moçâmedes.
"...Pessoalmente só conheci essa prima Maria Amélia D.A. e a irmã ambas filhas de um casamento misto.
Quanto ao Álvaro Duarte de Almeida, também lá nascido, que iustrou a História da Tauromaquia , pintor e colaborador como ilustrador de revistas tauromáquicas nos anos 50 , era primo do meu avô, mas não estou certo se era irmão ou primo ou primos de Maria Amélia... ass. Luís Piçarra in GeneaNet.
Sequem algumas fotos antigas de familiares do ramo Duarte de Almeida , e alguns recortes de livros e de jornais com interesse para esta familia, cedidos por um descendente a quem muito agradecemos.
Miguel Duarte d'Almeida e Amélia Figueiredo Duarte d'Almeida
100º aniversário de Amélia Adelaide. Com as filhas em 1969.
O tio Óscar como era carinhosamente conhecido em Moçâmedes. (emendo a data: 1899-1973)
.




Transcrevo algumas passagens do Livro intitulado "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro", do Padre Vicente, José (Gil Duarte), página 1959, sobre a posição de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e de João Duarte d' Almeida
no que diz respeito à abolição do tráfico de escravos
para fora das possessões portuguesas africanas e ao fim da escravatura
dentro das mesmas possessões, que se fazia ainda entao, a partir de Angola, na clandestinidade, na direcção do Brasil e as
Américas. João
Duarte de Almeida
e Bernardino Abreu e Castro a este respeito tinham os mesmos ideais. A exposição
deve ser analisada não à luz dos nossos dias, mas à luz das mentalidade
da época em que estes dois homens viveram. Ei-la:
"..João Duarte de Almeida
e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da
escravatura. João Duarte de Almeida fez, sobre o assunto, diversas
exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em
seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de
Lisboa, o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15
de Abril de 1857 ao governador-geral da província, José Rodrigues
Coelho do Amaral, a pedido deste.
Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes:
"...
Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de
inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito
anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com
escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob
dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto
ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência
reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha
por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez
de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não
dizer vergonhoso atraso.
Sem
me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um
embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos
de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os
cometessem, se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a
descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde,
empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal
tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta
aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo
para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o
produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se
algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as
suas necessidades." Bernardino
comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefutável, denunciando
os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios
abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.
E continua:
" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e
ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o
estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e
animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são
estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais
consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é
infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem
dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último
recurso, pois que não se limita a venda de escravos só àquela ilha,
mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto
preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria
por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é
necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si
só eficazes.
Primeiro,
tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por
qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que
essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não
fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico
Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido
das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o
bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que
aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as
autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu,
ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que
fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.
Segundo,
que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns
contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar
parte às autoridades administrativas e policiais do local de qualquer
embarque que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.
Estes
espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta
província ter um a seu cargo, dar parte do que ocorrer entre Mossâmedes
e a Lucira; outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha;
entre esta e Novo Redondo; entre este e Benguela Velha; entre esta e o
rio Longa; entre esta e a cidade de Loanda; entre esta e o Dande; entre
este e o Ambriz; entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos
despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que
sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico
para o exterior, se consegue o fim desejado."
Bernardino
fez depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da
escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste
capitulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele
--acentua-- diz que é bárbaro e inhumano que qualquer homem seja
obrigado a servir outro, e que não goze do mais sublime dote da
natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas
aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão
sujeita.
Considera
o estado das possessões, os usos e costumes dos europeus que as
habitam, o estado da civilização dos indígenas que as habitam, se para
se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são
necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e
indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou
somente por indígenas.
Bernardino
é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina
que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as
populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz:
"costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os
mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm
ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou
exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que
demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas
terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que
se faz, para bem avaliar o que dizemos".
Aceita
o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para
convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos,
segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços
domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar,
Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma
cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior
multa do que se matasse outro preto."
Continua:
"Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que
se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os
pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as
bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm
estes, quase todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de
um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um
palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe
cubra as partes por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.
Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo
faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e
pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou
gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."
Deduz,
com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho
de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das
possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei
que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da
força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incutindo-lhes os
princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque
demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é
o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios
bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se
conseguiria."
Não
restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura,
Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:
"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra
gentílica contra os Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em
todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei,
porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o
seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível,
semelhante reclamação, e talvez ouvissem a esse respeito o que ainda
não tinham ouvido. Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes
dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante
uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão,
que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus
costumes, senso a primeira necessidade, incutir-lhes amor ao trabalho;
porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus
usos que a favorecem".
Neste
pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de
Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres
porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para
eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com
castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso
me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido
três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".
E
mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos,
nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais
direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu
comportamento."
Bernardino
conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que
deviam prestar os pretos, e a humanidade mesmo reclama se comprem nas
nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados
nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é
mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem
tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por
enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso
mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem
regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados
-- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades
administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém ,
repito ainda, que esta responsabilidade não deveria ficar somente
escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na
província, o menos entendido, porém, dos que mais desejam o progresso, o aumento e civilização das nossas possessões."
Bernardino
escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um
ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não
poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o
estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos
os escravos, em todas as suas possessões.
Extraordinária
vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência
tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu
e Castro.
Honra lhes seja! "
Como escreveu Fernando Pessoa:
"O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos".
Para saber mais sobre esta época:
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf
Nota: recebi esta mensagem que deixo aqui, uma vez que me é impossível atender à rectificação solicitada por não poder fazer alterações no quadro acima, que não foi feito por mim, mas que foi em tempos colocado na Net por um familiar de João Duarte d'Almeida:
"....Olá, boa tarde! O meu nome é Manuela Duarte d'Almeida Guerreiro e sou
trisneta de , filho de João e de Anna Emilia Duarte
d'Almeida.
Gostaria que corrigissem alguns dados, uma vez que o meu trisavô estava
casado ( naturalmente com a minha trisavó) MARIA AMÁLIA de OLIVEIRA
LOUREIRO e não como escrito com Ana Máxima da Costa. Nunca ouvi falar
dum filho José!!!!
A irmã mais nova do meu trisavô chamava-se EMILIA e não Maria Cecilia,
como escrito.
A minha bisavó Constança Bensabat Lapa Valente- Duarte d'Almeida ( do1.
casamento) nasceu, segundo certidão de baptismo, a 06.09.1874.
Melhores Cumprimentos,
Manuela em
Pioneiros
da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte
de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia
Agradeço aos familiares de João Duarte de Almeida, especialmente ao Jorge, que nos proporcionaram o acesso a grande parte deste material (fotos) aqui exposto. Bem haja.
MariaNJardim
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