Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"
(*) in “Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal
(*) in “Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal
domingo, 19 de novembro de 2017
Moçâmedes do antigamente era ali....
Aquela velhinha ponte-cais da Praia das Miragens era o pão nosso de cada dia para as gentes de Moçâmedes do antigamente.
Tinha ela o guindaste na extremidade direita, que indiscriminadamente tudo carregava e descarregava, com o velho Veli e o Rogério Camusseques como maquinistas omnipresentes. Do outro lado da ponte, ficava o pequeno farol cuja principal função era sinalizar a localização da ponte em sintonia com o farol da Ponta do Pau de Sul e o farol do Saco de Giraul.
Era ali… e por ali que tudo se passava. A exportação da farinha de peixe em sacos de serapilheira, o óleo de sardinha, taínha e chicharro, acondicionados em velhos tambores de gasolina e até bois vivos seguiam para os cargueiros fundeados ao largo, através daqueles conhecidos batelões que ficavam um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos, dos nossos namoricos e dos nossos contentamentos.
Depois, havia o dia de S. Vapor, o dia em que os navios de passageiros chegavam com novidades do Puto e traziam os mais variados produtos, desde os nacionais até aos dos Armazéns Printemps, importados directamente de Paris.
Era uma festa para a cidade e os gasolinas do Mário de Almeida e do Raul de Sousa andavam todo o dia numa roda viva de cá para lá e de lá para cá, transportando sem parar cavalheiros e senhoras, mais senhoras do que cavalheiros, que nos barbeiros do navio compravam de contrabando sedas, lingeries, perfumes da marca Tabu e outras coisas mais.
No portaló do navio havia sempre um guarda-fiscal de plantão, mais para marcar presença do que para fiscalizar o contrabando, que era tudo gente boa e conhecida, pelo que, no regresso, as senhoras desciam as escadas do navio numa alegre e descontraída cavaqueira, não obstante o excesso de fragrâncias do perfume Tabu que carregavam atrás de si.
E já em terra, no Posto da Guarda-Fiscal, ali existente mesmo à saída da ponte, estava a palpadeira de serviço, a D. Fernanda, funcionária da Alfândega, velha solteirona que sofria de uns pequenos handicaps e que por isso ou por via disso andava sempre com um pintainho dentro do soutien para lhe aquecer o peito e cuja onomatopeia que de lá vinha ninguém conseguia discernir se era do piar do pintainho, se era da pieira ou farfalheira da bronquite crónica, que com o cacimbo só lhe piorava a vida.
Mas a verdade é que a D. Fernanda era uma santa mulher sem qualquer vocação para palpadeira. De modo que, quando as senhoras lhe chegavam à sala privada com as suas saias largas e redondas carregadas subrepticiamente com as lingeries e os perfumes Tabus, a D. Fernanda recebi-as com um sorriso de menina inocente e dizia simplesmente: - “Minhas queridas, que rica fragrância têm esses perfumes Tabus que carregam. Poupem, que o próximo vapor só por cá passa daqui a dois meses”.
E era ali, naquela ponte-cais, antes do sol raiar e do galo cantar, já depois dos pescadores da Torre do Tombo terem dobrado a Ponta do Pau do Sul com as suas baleeiras à vela, à bolina ou de vento em pôpa, a caminho do mar da Alemanha ou dos Três Irmãos, que se acomodavam os capitães de areia do Bairro da Facada.
Vinham todos eles, felizes e contentes, o Patona e o Monacaia, o Armando Galã e o Tó Lindas, mais o Mário Cantor e o Peniquinho, para a pesca dos chocos, dos cabolobolos e dos camoxilos.
À noite, depois do jantar, eram os mais velhos, viciados na pesca desportiva, que apareciam: o Cristiano Faustino, o velho Pinho Gomes, o Craveiro do café torrado, o Rufino sapateiro e outros mais que o tempo dissipou.
O pisca-pisca do farol da ponte atraía toda a espécie de bicharada. No ar, eram os gafanhotos, libelinhas e formigas de asas brancas; no mar, peixe espada para os pescadores à cana; moriangas, roncadores e corvinas prateadas para os amantes da pesca à linha.
No outro dia, ao final da tarde, quando o pôr do sol na Ponta do Pau do Sul matizava o horizonte de vermelhos, amarelos e laranjas, reuniam-se, então, os mais velhos na esplanada do Quiosque do Faustino debitando as suas piedosas mentiras, próprias dos pescadores amadores, que para os profissionais as suas histórias eram bem diferentes.
E era ali…, e era ainda ali, na velha ponte-cais, que apareciam aqueles rufias matulões, o Tó Coribeca, o Helder Cabordé, o Mário Bagarrão, o Romualdo Parreira e outros que tais, que eram como uma quase lenda viva para os miúdos do Bairro da Facada.
A sua manifestação de habilidade e coragem deslumbrava toda a gente, em particular os capitães de areia. Os seus mergulhos do alto do guindaste, em estilo livre ou em asa de anjo, os seus triplo-saltos mortais da ponte, em corrida ou de parada, ou mergulhos em parafuso do alto do tejadilho do guindaste eram tão espectaculares que levavam os miúdos a imitá-los junto à rebentação.
Mas a apoteose, o que mais tocava os nossos corações de criança, acontecia quando apareciam mesmo junto à praia, entre a jangada e a rebentação, pequenos cardumes de toninhas e golfinhos que vinham brincar como cachorrinhos com aqueles rufias matulões. Que os miúdos ainda eram miúdos de mais e tinham medo daqueles bicharocos, que afinal só queriam brincadeira.
E, no final, alheio ao pôr do sol, ao tempo ameno, às discussões bizantinas da esplanada do Oásis e do Hotel Turismo, ali estava o Dominguinhos ceguinho, sentado no passeio da loja do Henriques Pessoa, tocando quissange e improvisando as suas cantigas de maldizer para os cazicutas do carnaval, acerca do estupro da menina, criada da D. Rosa:
“Canta no ramo o pardal,
Canta no mar a baleia!
Fernandinha no hospital,
Gingubinha na cadeia!”
(ass) Arménio Jardim
sábado, 18 de novembro de 2017
O Padrão do Cabo Negro
Trata-se do padrão original do Cabo Negro assente em 1486,
que se encontra-se desde 1892, no átrio da Sociedade de Geografia, em Lisboa.
que se encontra-se desde 1892, no átrio da Sociedade de Geografia, em Lisboa.
A 16 de Janeiro de 1486, Diogo
Cão e os nautas dão com um cabo a que chamaram de Cabo Negro, 15º 42´
lat. sul, onde ergueram o Padrão do Cabo Negro, em cerimónia seguida de
celebração de missa. A seguir entraram numa Angra à qual deram o nome de
"Angra das duas Aldeias" ( nome primitivo dado a Porto Alexandre,
actual Tombwa, que perdurou ao século XIX, 1834, por nela os nautas
terem achado duas grandes aldeias de negros, gente pobre que se mantinha
de pescarias, única riqueza da terra, “ nesta terra nam há proveyto “
). O Cabo Negro foi sempre um ponto de referência, assinalando uma
etapa na navegação para o Oriente. Desde a sua descoberta pela guarnição
de Diogo Cão em Janeiro de 1486, nunca mais a navegação deixou de o
procurar. É ele que referencia, sem erro o local onde ora se situa Porto
Alexandre , a actual Tombwa), a que a guarnição do navegador Diogo Cão
deu o nome de “Angra das Aldeias” e que Bartolomeu Dias visitou na sua
viagem na descoberta do Cabo da Boa Esperança.
Esta é réplica do primitivo Padrão do Cabo Negro, colocada em 1892 em substituição do original que foi destruída no pós independência de Angola, em 1975.
Foi o governador Guilherme Augusto de Brito Capelo, que em 1891 ordenou a substituição, porque o original não apenas estava sofrendo a erosão natural como também fora alvo de mutilação por vândalos, tal como vinha acontecendo com os vários padrões assentes pela guarnição de Diogo Cão, que ao todo eram 4. A vandalização de símbolos da colonização foi uma constante ao longo dos séculos. Em 1975 tratou-se de um gesto anti-colonial em ambiente de euforia patriótica, com a conquista da independência, mas em outros tempos atrás a vandalização acontecia por outras motivações. Só para se fazer uma ideia, o padrão de D. Jorge, o 1º padrão que foi colocado por Diogo Cão a 26 de Abril de 1483, na foz do Zaire, num local conhecido por ponta do Padrão, perto da Moita Seca, foi objecto de 4 vandalizações, seguidas da colocação no mesmo local de 4 réplicas. Era dos quatro padrões o mais exposto à navegação estrangeira. Foi em 1642 destruído pelos holandeses e deu lugar a uma 1ª réplica que por sua vez, foi destruída em 1648, dando lugar a nova réplica. Em 1855, um navio de guerra inglês a vapor assinalou a sua passagem, despedaçando a tiros de artilharia essa nova réplica do Padrão de S. Jorge. Conta-se que por essa altura um escaler da marinha inglesa, tentou recuperar a parte superior do padrão, onde se encontravam as inscrições e a cruz original, mas ao dirigir-se para o navio maior, voltou-se e a parte superior padrão perdeu-se nas águas do rio”!. (Luciano Cordeiro, Diogo Cão, pág. 50). Em 1859, o governador de Angola mandou colocar no mesmo local outro padrão, uma 2ª réplica, mas este cinco anos depois, em 1864 desapareceu, destruído por uma grande cheia ou maré. Entretanto os pedaços do Padrão de S. Jorge que havia sido bombardeado a tiros de artilharia por um navio de guerra inglês, em 1855, haviam sido recolhidos por nativos do Soyo, que passaram a venerá-los como poderoso feitiço, um feitiço de branco, foram procurados e recuperados e os fragmentos em número de dois foram levados para o museu da Sociedade de Geografia em Lisboa. Em 1892, o governador de Angola mandou erigir novo padrão, uma 3ª réplica do padrão primitivo, que permaneceu até 1932 na Ponta do Padrão, num local mais afastado da margem das águas do rio. Mas esta 3ª réplica do padrão de S Jorge ainda iria ter lugar uma 4ª réplica. Por ocasião da primeira viagem do Presidente Carmona em 1938 a S. Tomé e a Angola foi erguido na foz do Rio Zaire um outro padrão, este uma cópia fiel do Padrão de S. Jorge de 1486 que ali havia sido colocado pela guarnição de Diogo Cão. O Presidente Carmona, no areal escaldante da foz do rio Zaire, na presença da marinha de guerra que prestava a guarda de honra, e na presença de muitas autoridades gentílicas, sobas das regiões nortenhas, e uma grande multidão compacta, ao som de tambores e clarins, depôs uma coroa de flores em bronze transportada pelos marinheiros vindos dos barcos de guerra, fundeados ao largo, e proferiu em seguida o seu patriótico discurso, por todos aplaudido.
MariaNJardim
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De JV, Rudzki, Major Commandante, segue a parte de um texto relacionado com o Padrão do Cabo Negro:
Rudzki, Major Commandante, deixou escrito a respeito do mesmo assunto...
(...) Resta-me dizer que no Cabo Negro ainda existe o padrão que alli foi collocado por Diogo Cam; fui vè-lo e mandei a descripção d'elle ao Governador Geral da Província, que a mandou reproduzir no Boletim Official n.° 629 de 17 de Outubro de 1857.
Quando em Agosto de 1855 o Governador Geral da Província se dignou dar
por acabada a minha commissão, deixei alli prompto o quartel militar com
muitas e boas acommodações, horta plantada de batata, cará, mandioca,
bananeiras, c muitas hortaliças, e os indígenas dos contornos, nas
melhores disposições de se relacionarem comnosco. As expedições de maior
importância tém desviado o Governo de ocupar-se d'este novo
estabelecimento; mas talvez venha um dia, em que a salubridade do clima
convide a irem para alli algumas pessoas, a quem bastará a pesca para
não perderem o seu tempo, até que relações mais intimas com os povos do
interior proporcionem mais avultadas vantagens.´
Sobre o padrão a que a precedente noticia se refere, lé-se no Boletim Official do Governo de Angola, de 17 de Outubro de 1857, o seguinte:
Sobre o padrão a que a precedente noticia se refere, lé-se no Boletim Official do Governo de Angola, de 17 de Outubro de 1857, o seguinte:
«Em 1485, reinando D. João II em Portugal, Diogo Cam, cavalleiro da Casa
d'EI-Rei, descobriu o rio Zaire, e levantou na foz delle, do lado do
sul um padrão, que denominou de S. Jorge. Foi d aqui que veio o nome de
Ponta do Padrão áquella localidade, que ainda o conserva. A vandalica
façanha da destruição do dito padrão foi praticada pelos hollandezes,
durante a sua ephemera usurpação d'estas conquistas de 1641 a 1648.
«No seguinte anno de 1486, voltou de Portugal Diogo Cam, e proseguindo
na sua navegação para o sul, descobriu toda a costa até Cabo Negro,
plantando dois novos padrões, um n'aquelle cabo, e outro mais ao norte,
fronteiro ao Ilheo de Pina, na bahia de Santa Maria, ao sul de
Benguella.
«Eram estes monumentos, como os descreve João de Barros: «Padrões de pedra de altura de
dois estados d'homem, com o escudo das Armas Reaes deste Reino, e nas
costas delle um letreiro em Latim, e outro em Portuguez, os quaes
diziam, que Rey mandara descubrir aquella terra, e em que tempo, e por
que capitão fôra aquelle padrão alli posto, e em cima no topo uma cruz
de pedra embutida com chumbo. «O padrão de Cabo Negro ainda
lá existe. Pela seguinte descripção que d'elle deu o Tenente Coronel
graduado d'esla Província, Marcellino Antonio Norberto Rudzki, quando
esteve commandando o presidio próximo de Porto de Pinda, em 1855, se
verá quanto concorda com a de João de Barros, acima citada, salvas as
differenças que devem de ser attribuidas á acção do tempo, em perto de
tres séculos.
«Quando cheguei a esta terra fiquei logo desejoso de ver o padrão de
Cabo-Negro, collocado alli por Bartholomeu Dias, em tempos mais ditosos.
Os muitos objectos a meu cargo não me permittiram faze-lo até agora,
porém em 27 do mez próximo lindo alli fui. Saí do presidio ás seis horas
da manhã, e apesar de ir montado em boi-cavallo de boa marcha, andando
sempre a passo largo, cheguei ao cabo ás nove horas e meia, o que me faz
crer que a distancia é de tres léguas para mais. «O Cabo-Ncgro é a
ponta mais saida ao mar, da cordilheira de rochedos que corre do
nordeste ao sudoeste, descrevendo um arco, junto do qual, pelo lado do
sul, passa o rio Kroque. Estes rochedos foram, na sua origem, elevadas
dunas de areia, as quaes, por ajuntamento de outras matérias, se
petrificaram, organisando-se em diversas camadas de massa compacta e
dura, e de seixos mui variados em cor, tamanho e configuração, e também
em penedos de pedra esponjosa e frágil. Estes últimos, amontoados uns
sobre os outros em caprichosa desordem, e cobertos com uma casca escura e
áspera, saem ao mar em fórma de lingueta com tres a quatro braças
apenas de largura, constituindo o Cabo-Negro. No cimo o chão é de areia,
com pedras soltas, e na extremidade sobre o mar, aonde forma um pequeno
taboleiro plano, é aonde está collocado o padrão da antiga gloria
nacional dos portuguezes.
«Se bem me recordo da historia, os padrões1
Da aqui equivoco, o padrão de Cabo Negro, e os dois do Zaire e da bahia
dc Sanla Maria, foram postos por Diogo Cam, como jà o dissemos;
Bartholomeu Dias, que continuou as explorações de Diogo Cam, até
descobrir o Cabo da Boa Esperança em 1487, collocou o padrão do Santiago
na Angra dos llhéos, áquem do dito cabo, aondo parece que ainda existe
que Barlholomeu Dias plantou eram de ferro ': n'este caso, o que aqui se
acha não é já primitivo. Este é de mármore branco venoso, c levanta do
chão, sem pedestal, entre algumas pedras soltas: tem a fórma cylindrica,
com cinco pés de altura fóra da terra, e trinta c duas pollegadas de
circumferencia. Este pilar termina reclangularmente no topo, tendo
dezoito pollegadas em cada lado da face, e oito de espessura, no
parallelipipedo de que se trata. Tudo é de uma só peça inteiriça.
Conhece-se que teve inscripções gravadas, mas estão de tal modo
deterioradas, que se não pódem distinguir as letras. Do centro da pedra
superior ergue-se uma cruz de quarenta pollegadas dc alto, havendo vinte
e oito pollegadas dope da cruz aos braços, e doze por cima. Cada braço
leni tambem este ultimo comprimento. A cruz é de barra de ferro, obra
bastante tosca, sendo unidas as suas duas partes por um prego rebatido.
Uma placa redonda de cobre forma resplendor no cruzamento dos braços. A
barra tem duas pollegadas de largura, e unia de grossura, achando-se já
mui carcomida da ferrugem. No braço horisontal da cruz, olhando para o
mar, está o seguinte letreiro, em letras recortadas em cobre e soldadas á
harra de ferro,=MERCURE— 27 J.er 18í8=» a
«Tenho a honra de apresentar a V. Ex." o desenho d'este monumento, como
elle agora se mostra aos olhos do viajante; do que teria acanhamento se
não estivesse certo que V. Ex. o receberá com indulgência, considerando a
minha inhabilidade n'esta sorte de trabalho.»
Porto-Pinda, 18 de Março de 1855.=.V. A. JV, Rudzki, Major Commandante.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2017
O primitivo Padrão do Cabo
Negro
Porque o Padrão do Cabo
Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!
Texto de: Manuel João de Pimentel Teixeira
“Um facto inegável que tem ajudado a enriquecer este trabalho é a contribuição que se recebe da família, de amigos, de e - amigos e de pessoas anónimas. São os moçamedenses que mais têm colaborado. Reconhecidamente orgulhosos da sua terra, jamais perdem a oportunidade de dá-la a conhecer. E está correcto! É quase uma obrigação de quem provém de uma cidade que tem por seus eternos companheiros, de um lado o mais antigo deserto do mundo, o Deserto do Namibe, do outro o mar, o Atlântico Sul...
A réplica do Padrão do Cabo Negro
“Um canto da nossa terra tão desconhecido e com tanta História.”
“A frase faz parte do relato que me foi feito por Manuel João de Pimentel Teixeira sobre a sua ida ao Cabo Negro, no Sul de Angola, Província do Namibe, no passado mês de Julho desse ano (2003). O que me contou assim como as fotografias que me enviou do local sensibilizaram-me: foi-me dado conhecer, ainda que virtualmente, um local que é História.
Chocou-me ver a destruição a que o símbolo que o Homem lá instalou há mais de 5 séculos tinha mais uma vez sido objecto. O símbolo que não diz respeito somente a Angola e a Portugal. Porque faz parte de feitos que mudaram o mundo. É, portanto, um símbolo que ultrapassa fronteiras, atravessa o tempo.
Em Angola, a terra que nos viu nascer, passados que estão os tempos de ânimos exacerbados, de lutas fratricidas, deve também ter-se em conta que nem tudo o foi feito estava errado, nem tudo o que se faz é correcto.
Assim foi e será sempre porque o Homem não é perfeito. Mas Deus concedeu-lhe a capacidade de discernir, de se sensibilizar. Se quiser, saberá que, se aproveitar o que foi/é bom, deixando que a História faça o seu julgamento, o povo será o grande beneficiado, a nação será engrandecida. E porque assim sinto e vejo “as coisas”, querendo partilhar as imagens e a mensagem do Cabo Negro, pedi e obtive a anuência do autor para aqui reproduzir o que me descreveu. Importa, também, que recordemos o que a História nos relata sobre este local.
As páginas finais desta crónica disso darão conta. Basear-me-ei na obra “O Distrito de Moçâmedes”, da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, edição da Agência -Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950). São dois volumes e o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe.
Deve, todavia, ter-se em conta que esse escrito reflecte o pensamento da época, o sentimento de nação, de patriotismo, de posse de terra. Como já uma vez escrevi, as ideias e os ideais alteraram-se, a História reescreveu-se. Não pode, todavia, modificar-se o que foi escrito e que, independentemente dos ideais de cada um, transmite ensinamentos preciosos. Este símbolo possa um dia ser reconstruído.
Os dois relatos, infelizmente, não se completam, mas é preciso que se tome conhecimento de ambos. Na esperança de que se acordem consciências. Para que Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!
Visita ao Cabo Negro no dia 27 de Julho de 2003
Estava muito cacimbo, a estrada de asfalto molhada e escorregadia. Uma viagem agradável e serena. O ar limpo e húmido. Pouco vento. Nas praias que cercam o cabo e nas suas proximidades, tudo vazio, sem vivalma.
Subimos ao Cabo Negro. É uma marca inconfundível. Visto de longe, a Norte, percorrendo a estrada batida de terra, depois de deixar o asfalto, na direcção do mar, assemelha-se a um barco de pedra, enorme, pronto a entrar no oceano, a meio de praias rasas, solitário.
O carro avança com calma, até um ponto a quase 3/4 da altura das rochas, pela areia. Chegámos. Dirigimo-nos pelo topo, a pé, na direcção do local do Padrão, bem acima do mar, no pequeno "plateau", ponto mais elevado, mas sem grandes socalcos. Ao longe, mais a norte, a Rocha Magalhães, com as salinas que foram as mais produtivas de Angola.
A placa de mármore cravada na rocha de formas estranhas, que se vê nas fotos, tem cerca de 50 cm altura por 60 cm de largura, e um corte em forma de ranhura funda como moldura, a dois centímetros das margens e podia ler-se ainda, mas com dificuldade, mas sempre do lado direito no fim da primeira linha,
em cima .................. oyses Pinho
no meio, ......................... Sagres.
depois, mais afastada destas linhas, lia-se por baixo, ............ nove
As letras entalhadas, muito esbatidas já. A data mencionada talvez fosse de - ou por volta de - 1939, 1949 ou mesmo 1959. Será necessário confirmá-la, possivelmente em relatos escritos sobre alguma comemoração no local.
Qualquer coisa me diz ser possivelmente uma data dessas, não sei por que causa histórica, mas parece-me já ter lido algo sobre isso há muito tempo.....em criança talvez, até relativamente á Mocidade Portuguesa, á história de Gago Coutinho, ou de qualquer coisa assim.
Creio até que foi Setembro, o mês do meu aniversário.
Seria Dom Moisés Alves de Pinho?? Cardeal, Arcebispo, creio eu!!!!!! Para lá ir, pode chegar-se com o automóvel (4X4, obviamente), tirando-se algum ar das câmaras - de - ar dos pneus, de todos igualmente, para melhor se conduzir na areia, como se faz no deserto, e indo pelo Sul para a parte mais alta, em declive macio. Depois caminha-se bem a pé, sem qualquer problema, cerca de 50 metros. Vasculho com os olhos toda a área... Vou-me aproximando e, como num filme, em zoom, tristemente confirmo o que jamais imaginei: encontro-me perante o que restou do Padrão de Diogo Cão.
A sua história, todos a conhecemos, devidamente fundamentada e largamente difundida, para quem se interessa pela História da Humanidade. O toco, deixado por vândalos da inconsciência e das paixões políticas levadas ao extremo, nada mais é que a sua base com cerca de 40 cm de lado por cerca de 25 cm de altura até ao chão, aonde se eleva, quebrado de Poente para Nascente, num ângulo de 50 graus, com 60 cm no ponto mais alto do corte. O tronco do Cruzeiro tem cerca de 24 cm de diâmetro.
Possivelmente foi construído com algum tipo de calcário granulado, como aliás se vê no Cabo Negro, e está muito desgastado pela acção do tempo. Quando me propus visitar o Cabo Negro, que não conhecia, perguntei a muita gente, dali mesmo e de Porto Alexandre, se sabiam aonde era a cabeça do Diogo Cam, e ninguém soube informar-me. Foi a minha teimosia e a certeza de que o que o meu Avô escrevia era absolutamente EXACTO, que me fez e ao motorista Fernando, de Benguela, escalar pedras e a falésia, perigosa, e depois, por fim, decidir-me a ir por baixo, pela praia, até um ponto mais dentro do mar... mas não muito, quando há baixa-mar (não era baixa-mar na altura).
Teimosamente, dizia a mim próprio: “Se o meu Avô disse e fotografou como sendo aqui, TEM QUE SER AQUI!” (Há os que, dizendo-se conhecedores da região, se referem à “Ponta Negra” como se fosse um outro local, muitíssimo mais a Norte, e a Norte de Moçâmedes!).
Para se ver o "busto de Diogo Cam" ou a "cabeça de Diogo Cão", deve sair-se sempre duas horas antes da baixa-mar, a partir de Porto Alexandre - ou Tombua, como erradamente se lhe designa hoje aquela angra tão bela (o nome usado pelos habitantes do Deserto para designar a welwitschia mirabilis é tumbo) - pelo Sul e pela praia junto do Cabo, até aonde o carro puder ir, o que se faz sem problema, mas tomando-se sempre as devidas e acima mencionadas precauções, até uma distância de cerca de cem metros da ponta do cabo.
É claro que é necessário saber-se dirigir em areia, fugindo sempre das curvas muito apertadas - quanto mais largas melhor, pois numa curva fechada os pneus sem pressão poderão sair das jantes - e nunca forçando movimento algum, nem acelerando demais.
Instala-se o carro em ponto relativamente mais alto que as marcas da maré-alta anterior deixadas na praia, e desloca-se a pé, sem problemas, e como que em reflexão meditativa, até á base do Cabo Negro junto ao mar, pela praia molhada, na direcção Sul -Norte.
A chegada às rochas da base é feita sem o mínimo perigo, até para crianças, - com cuidado para não escorregar ao subir às rochas baixas - e tem-se a admirável visão que tantos outros antes de nós tiveram, maravilhados. O meu Avô, há 100 anos, inclusive, aquele apaixonado pelas terras que adoptou como suas, sem jamais haver regressado "à Metrópole" após ter vindo para Angola, concluído que teve o seu Curso em Coimbra e no Porto, e com toda a certeza, deleitado e sentindo-se sublimado também, como Diogo Cão ter-se-á sentido à 518 anos.
E alguns e poucos mais antes de mim, há menos tempo, mais recentemente, se é que tal viram. Era perigosa a descida, diziam. Mas há caminhos mais simples e menos abruptos. É preciso sabê-los. E saber ir em Paz.
Uma rocha única, uma obra natural, desconhecida como "arte" por
África e pelo Mundo. Um ornamento natural para a História de Angola. Um
monumento eterno. É realmente um espectáculo, observar-se tanta simplicidade e
tanta nobreza, trabalho imponente criado pela Mãe Natureza, esculpindo com o
mar, com o vento e com as areias, nas marés calmas ou no mar irado, um símbolo
tão belo, como que elevando o Homem acima do mar e do tempo.
Escrito aos 23 de Agosto de 2003, em Luanda. "
Escrito aos 23 de Agosto de 2003, em Luanda. "
domingo, 22 de outubro de 2017
MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: O INCRÍVEL BURACO !

Depois, aos poucos, foi acordando e lá foram surgindo alguns bairros novos e um pouco mais de entusiasmo. Moçâmedes alindava-se e preparava-se para o futuro. Dentre outros melhoramentos surgiu a nova estrada Moçâmedes - Porto Alexandre ! ...Nasceu uma faixa de asfalto ligando as duas cidades, encurtando o percurso e trazendo mais progresso.
A nova estrada fez esquecer as atribulações passadas.
Na antiga, que praticamente não existia, pois cada um escolhia por onde
queria ir, no deserto, os velhos camiões que faziam a travessia,
gemendo e chorando, todos eles se torciam ameaçando partir o “chassi” e
desfazerem-se, principalmente no famoso local chamado “Buraco”,
levando todo o género de bens essenciais à vida de Porto Alexandre e
principalmente lenha para alimentar as caldeiras das fábricas de
farinha e óleo de peixe.
Era dura a vida de camionista !
O incrível Buraco era sempre satirizado por todos os palhaços das companhias de circo que passavam pelas duas cidades : - “Você, minha senhora, tem um pé em Moçâmedes e o outro em Porto Alexandre, o que fica no meio ? - O Buraco ! ...” Piadas de palhaços que nos ficam gravadas na memória !
Ao longo dos primeiros quilómetros da nova estrada estavam plantando, a espaços, uma fileira de árvores que eram religiosamente regadas pelo pessoal da Câmara, na esperança que se adaptassem a viver no deserto ! ...
Pouco antes do sítio onde se situava o famoso Buraco, uma Associação de senhoras religiosas cercou um pequeno, raquítico e resistente arbusto (tal como todas as plantas do deserto), colocando a imagem de uma santa ou santo, que já me não lembro qual, tendo o cuidado de adicionar uma placa, que além de identificar a espécie, informando que se tratava de um exemplar raro, do qual não existia outro muitos quilómetros em redor, pedia que a regassem ! ...
Muitas vezes lá parei para esvasiar uma garrafinha de água ! ...
Roberto Trindade
Era dura a vida de camionista !
O incrível Buraco era sempre satirizado por todos os palhaços das companhias de circo que passavam pelas duas cidades : - “Você, minha senhora, tem um pé em Moçâmedes e o outro em Porto Alexandre, o que fica no meio ? - O Buraco ! ...” Piadas de palhaços que nos ficam gravadas na memória !
Ao longo dos primeiros quilómetros da nova estrada estavam plantando, a espaços, uma fileira de árvores que eram religiosamente regadas pelo pessoal da Câmara, na esperança que se adaptassem a viver no deserto ! ...
Pouco antes do sítio onde se situava o famoso Buraco, uma Associação de senhoras religiosas cercou um pequeno, raquítico e resistente arbusto (tal como todas as plantas do deserto), colocando a imagem de uma santa ou santo, que já me não lembro qual, tendo o cuidado de adicionar uma placa, que além de identificar a espécie, informando que se tratava de um exemplar raro, do qual não existia outro muitos quilómetros em redor, pedia que a regassem ! ...
Muitas vezes lá parei para esvasiar uma garrafinha de água ! ...
Roberto Trindade
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INDÍGENAS DO LIMITE DE MOSSAMEDES
MUNDOMBES. USOS E COSTUMES (Transcrito do Livro "45 dias em Angola", de autor anónimo 1862)
"....Eu não quiz regressar à Praia sem vêr uma das cousas talvez mais curiosas das nossas possessões: são diferentes familias de pretos gentios, que se deixaram ficar nas proximidades de Mossamedes quando os portuguezes alli se estabeleceram. Estas familias de pastores, a quem dão o nome de Mundombes, vivem em cubatas de ramos seccos do feitio dos fornos que ha na provincia do Minho, em certos soutos onde se costumam fazer arraiaes, e para as quaes elles entram de rasto.
Cada familia compõe-se de um homem com três ou quatro mulheres, e um avultado numero de filhos. Estas creaturas, apesar de viverem já ha annos perto dos europeus, e estarem todos os dias em contacto com elles, em nada tem modificado os seus hábitos primitivos.
Os homens usam de um traje que se compõe de um panno d'algodão amarrado em volta do corpo, e outro lançado aos hombros como um manto, e trazem sempre um cajado na mão. São d'elegante estatura, e as suas posições e movimentos muito diferentes das dos pretos das outras tribus, que andam com acanhamento, e não perdem uma occasião em que possam estar de cócoras, ou sentados.
As posições dos Mundombes são nobres e altivas. Nas mulheres é que existe toda a originalidade
d'esta raça. Trazem sobre a cabeça um bocado de pelle de boi por curtir, levantam-lhe as pontas de traz e de diante para cima da cabeça, de forma que aquelle adorno immundo e de cor escura, assemelha-se a um pequeno chapéo como o de Napoleão. Por vestuário apenas dous bocados de pelle, caiidos da cinta para baixo, um por diante, e outro por traz, e por cima d'elles, cobrindo- Ihes as nádegas e o ventre, uma quantidade enorme de missangas brancas, azues e encarnadas. N'isto consiste todo o seu luxo: — aquella que tem o maior pezo de missanga é a mais feliz. Nas pernas e nos braços trazem grande quantidade de manilhas de ferro, que é o distinctivo das casadas; em volta do corpo uma correia lhes aperta os peitos, os achata, e estende ás vezes do comprimento de palmo e meio, o que dá a estas fêmeas o aspecto mais repugnante, — mas passa entre ellas por uma das maiores bellezas. Não se lavam nunca, e augmentam a immundicia em que vivem, untando o corpo e o cabello com manteiga de vacca fabricada por ellas.
Ás casadas só é permittido divertirem-se, ou por outra, dançarem, porque n'isso se resumem todos os seus divertimentos. As suas danças podem comparar-se aos passos desenfreados, que os antigos nos descrevem quando faliam das famosas Saturnaes.
Assisti ás danças dos Mundombes executadas por diversos grupos: — eram copia fiel umas das outras. Reunem-se sete ou oito mulheres, e formam um circulo, entoando uma cantiga de uma monotonia capaz de fazer morrer de spleen lodos os collaboradores do «Charivari» acompanham este canto batendo as mãos, e levantando ora um pé, ora o outro. Ao cabo de cinco minutos pouco mais ou menos, e quando começam a electrisar-se, entra uma d'ellas para o centro, e desata a saltar como endemoninhada, fazendo passos e gestos incríveis, que vão crescendo conforme a approvaçao dos assistentes. As mais velhas são as que mais se saracoteiam ; não é difíicil acreditar, que são ellas também as que apresentam contracções de physionomia mais horrendas no delirio a que se entregam.
O que deduzi de tudo quanto presenciei, foi que o estudo principal d'aquellas mulheres é tornarem-se feias e immundas, porque as raparigas são quasi todas limpas, e bastante engraçadas. Estas usam em volta do corpo um panno d'algodão, como as demais pretas da costa, com a diíferença que lhes não passa abaixo dos joelhos; nas pernas trazem manilhas de vime, que é o signal de virgindade. Fácil é de comprehender quanto anhelam trocar estas manilhas pelas de ferro, que além d'outros gosos, lhes facilita o da dança, que ellas tanto apetecem.
Na occasião das danças as raparigas conservam-se em grupos a certa distancia, vendo-as com inveja. Os rapazes chegam-se para os velhos, e sempre n'uma posição académica, contemplam com seriedade todas aquellas desenvolturas.
As creanças andam inteiramente nuas até aos oito ou dez annos, mas já antes d'essa idade as raparigas trazem as manilhas de vime.
O sustento de toda aquella gente compõe-se de milho pisado com uma pedra, cozido em agua e leite : — é uma comida insipida que qualquer desdenharia sem ser gastronomo, mas a que dão grande apreço.
Os Mundombes pagam os tributos em géneros, como nos mais districtos da Província : são eleitores, e não sei se elegiveis. Note-se que nenhum sabe lêr, e que raros são os que falam ou entendem o portuguez.
As mulheres não tendo nada mais em que se occupar do que em cozinhar a cachupa, sobrava-lhes tempo se prezassem a limpeza para destruir a immensa quantidade de bichos que trazem por entre as missangas; mas preferem dormir, fumar, e dançar. Este viver, que parece mais próprio d'animaes, do que de creaturas humanas, tem taes attractivos para quem foi creado n'aquelles hábitos, que ainda não ha muito, que uma rapariga que estava a servir uma familia da Praia, teve de a acompanhar á Europa, onde se demorou bastante tempo, parecendo ter adoptado os nossos costumes, e regressou a Mossamecles bem vestida e calçada, e de luva branca. Não tardou porém muito tempo que a mucamba não trocasse esses bellos atavios por manilhas de ferro, e por missangas !
Lá a vi entregue ao frenesi da dança, trazendo escarranchada na anca uma creança, a quem fazia soffrer de certo grande martyrio, por causa dos solavancos occasionados pelas posturas desordenadas. Era curioso vêr as caretas que o moleque fazia, agarrando-se á mãe com medo de cahir. Esta maneira de trazer as creanças, a quem chamam crias, é usada pelas negras em toda a Província, com a difíerença que as escravas e libertas trazem-as envolvidas n'uma segunda saia, que arregaçam e prendem em volta do corpo, de modo que só a cabeça da creança fica de fora.
Como ouvisse fallar muito nas sanzallas, quiz vér o que era: achei uma certa quantidade de cubatas em que vivem os negros, compostas só de ramos; fiquei desapontado, e voltei para a Praia.
Uma das cousas mais desagradáveis que encontrei em Mossamedes, e que sempre me causou repugnância, foi o gosto do fumo muito pronunciado em todas as comidas que vão ao lume; como não ha carvão vegetal, cozinham com lenha verde, e rara é a comida que não fique estragada.
"...Existem aqui três tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vive no rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondombes os que pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de mais algumas tribus do interior.
Pouca alteração tem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos.1 Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que, não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje mais mantimentos, e lêem mais gado do que d'antes; a rasão d'este augmento é obvia em relação aos alimenlos; quanto aos gados, provém o augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes receiam os brancos aqui estabelecidos.
Um terço dos ditos Mondombcs anda errante com os gados em busca de pastos. As suas habitações são miseráveis, tem toda a similhança com um forno, e são por fora barradas cora excremento do gado. Como todos os indígenas de África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo pouco differe do de todos os negros; têem um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).
É costume dar-se o nome de pannos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.
Esta gente tem idéa de um Ente Supremo, a que chama IIuco; mas pouca adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que cada celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e muito os poupa por não matar. Acredita n'uma outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.
Enfim esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, c lhes presta alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.
(...)
Não é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca, porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da vida á influencia do clima cm que nasceram. Apenas ha para notar que os velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa saúde. Entretanto vé-se que entre os negros indígenas se apresentam alguns velhos centenários.
Estes indígenas são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são mais sujeitos a constipações, pela circumstancia de andarem quasi nus, e de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.
Convém aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os indivíduos, que não tenham a robustez bastante para reagir contra os agentes que lhes são damninhos.
Do livro "45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017
Moçâmedes e os seus enfermeiros ...
Hospital D Amélia de Moçâmedes. Este foi o 2º Hospital de Moçâmedes, sito na Avenida Felner, que foi demolido no início da década de 1960
Mandaram-me estas memórias de um moçamedense, hoje octogenário, que publico a seguir:
MEMÓRIAS COM HISTÓRIAS
-OS NOSSOS ENFERMEIROS-
Ao tempo, a Torre do Tombo conheceu dois enfermeiros. Primeiro, o Coelho e mais tarde, o Franco.
O Coelho era " o terror" das crianças. Desde miúdo que nos habituamos a
temer a sua presença. O paludismo era atacado com as dolorosas injecções
de quinino aplicadas pelo Coelho, nem sempre da forma mais
correcta. Muitas crianças ficavam para sempre marcadas com as injecções
agravadas nos seus rabinhos. A "marca do Zorro" como se dizia. Nunca
mais dele se esqueceriam.
Ao que constava o Coelho era muito
amigo da aguardente. Nem sempre estaria nas melhores condições e as
consequências ficavam à vista. No caso do autor, ficamos para sempre com
problemas na perna esquerda, o que viria a condicionar a nossa
actividade desportiva futura .Na época,teve de ir a Luanda fazer
choques eléctricos para poder recuperar a força na perna esquerda.
Minha mãe dizia que quando entrava em casa sentia o meu pé a arrastar-se
pelo corredor. E tanto quanto sei,à época o Coelho nunca foi chamado à
responsabilidade.
Mais tarde, surgiu um novo enfermeiro - o
Franco, negro. Trabalhava no Grémio da Pesca e vivia numa casa na Torre
do Tombo, com a mulher e duas filhas.Dedicado profissional, rapidamente
granjeou simpatias e foi substituindo o nefasto Coelho.
Era o
Franco que tratava dos nosso furúnculos e das feridas que sofríamos nas
nossas brincadeiras e jogos de futebol. Infelizmente, vieram ambos a
sofrer idêntico percalço.
Na época, a bicicleta era o meio de
transporte mais usado.Surgiram entretanto as motorizadas e naturalmente
os dois enfermeiros aderiram à moda e adquiriram motorizadas para
facilitar as suas deslocações em serviço.Por razões que desconhecemos, a
não ser a velocidade na condução das motorizadas, ambos tiverem
acidentes idênticos, resultantes de choques com automóveis em
cruzamentos. Acidentes esses que lhes afectou a vida profissional. Ambos
tiveram de passar a usar próteses nas pernas para toda vida, o que o enfermeiro Franco de todo não o merecia.
Repórter ASA (ass)
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sábado, 31 de dezembro de 2016
João Duarte de Almeida. pioneiro da fundação de Moçâmedes, Angola, e sua descendência
João Duarte d'Almeida, pioneiro da colonização de Moçâmedes
Amélia Duarte de Almeida, pioneira da colonização de Moçâmedes (2ª colónia)
Fotos do livro de Mendonça Torres dobre Moçâmedes.
Fotos do livro de Mendonça Torres dobre Moçâmedes.
João Duarte de Almeida, considerado um dos 1ºs colonos que se instalaram em Moçâmedes, em finais da década de 1840 , era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), onde nasceu em 26 de Março de 1822. Era com mais 4 irmãos, filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina, natural de Castelo Branco, Beira Baixa), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida ( cujo nome de solteira rta Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça, conforme vem descrito em GeneallNet).
João Duarte de Almeida casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de um seu companheiro de colonização, José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida.
Orfão de pai, com mais 4 (?) irmãos menores, dos quais 3 varões, muito cedo João Duarte de Almeida resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, onde se encontrou com Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que em 1849 chegou a Moçâmedes na Barca "Tentativa Feliz", chefiando a primeira colónia de luso-brasileiros vinda de Pernambuco, Brasil, para dar início ao povoamento branco da região. Esta informação está contida no livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), ou seja, quando Bernardino chegou a Moçâmedes já ali encontrava (no distrito), João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela".
Os irmãos de João Duarte de Almeida eram Miguel Duarte de Almeida, e Luís Castelino Duarte de Almeida, que conforme acima referido, também foram para Moçâmedes.
Os irmãos de João Duarte de Almeida eram Miguel Duarte de Almeida, e Luís Castelino Duarte de Almeida, que conforme acima referido, também foram para Moçâmedes.
Sabe-se que João Duarte de Almeida, numa primeira fase tinha-se fixado em Benguela, e só depois seguiu para Moçâmedes onde se estabeleceu com duas fazendas agrícolas e onde se tornou um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul», no Coroca, em Porto Alexandre. Há referências que em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau (1) e a terceira no Coroca. E já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e a da colheita da urzela. Também há referências que na margem esquerda do rio Bero (Varzea dos Casados?), o 1º colono que aí se instalou foi João Duarte de Almeida, tendo mandado construir uma vala para aproveitamento da água do rio, ao longo do qual instalou comportas que forneciam a água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Aliás, no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, João Duarte de Almeida possuía já 11 fazendas no distrito de Moçâmedes, onde cultivava algodão, empregando entre trabalhadores escravos e libertos o total de 350, sendo sua a maior das das fazendas da região. A produção anual nessa época calculava-se em 1780 arrobas de algodão. Em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Os seus esforços tiveram notável eficiência, cabendo-lhe, por isso, na opinião de Mendonça Torres, a reputação de maior cultivador de algodão, cultivador de cana de açúcar para aguardente, e ainda de activo descobridor da "almeidina" em 1883, um produto com uma boa percentagem de borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale que comercializo com êxito (vidé Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). A almeidina foi introduzida no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola.
Seguem algumas informações sobre esses dois produtos comerciáveis e naturais que aliviaram bastante a economia da época, e que em Moçâmedes foram explorados por Duarte d'Almeida: urzela e goma copal. A urzela é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtém uma tinta azul arroxeada de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à beira mar. Cabo Verde foi um grande produtor de urzela. A goma copal é uma resina especial mas as savanas oferecem outras resinas, de várias densidades e consistências.. Os produtos sintetizados vibraram-lhes um duro golpe.
.
Eis o que escreveu Carlos Pacheco
no livro “Angola um gigante com pés de barro” a propósito da urzela:
« O governador Xavier Bressane
Leite por ter permitido a exportação
deste género para portos estrangeiros recebeu uma advertência do ministro da
Marinha e Ultramar que lhe comunicou a sua desaprovação por tal concessão,
ordenando que proibisse a exportação e remetesse para Lisboa o produto dos
direitos cobrados.» No mínimo, hilariante! Bressane Leite governou de 1842 e
1843, morreu em Luanda.
Não admira, há referências que já nessa altura o distrito de Moçâmedes possuía uma
rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraúl:
leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras,
oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou
figueiras, etc. Eis o que a este respeito nos diz António M Cristão.
"...Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especialmente na margem esquerda, que se cultivaram as melhores árvores de fruto de todo o sul do distrito. Na margem esquerda cultivavam-se mamoeiros, diospiros, bananeiras, nespera-cereja-dendém, palmeira de óleo palma, etc, etc. A razão é que na margem esquerda, dada a inclinação do terreno e a presença de uma lage a cerca 5 km, havia um curso de água permanente, enquanto à direita, a água surgia mas apenas por infiltração. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da "Companhia de Mossâmedes", proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia, tendo que a aguardar de novo, que, por infiltração, as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem direita necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esquerdas os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes, e os da margem direita possuiam uma plumagem negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto, cor e tamanho diferentes. Estes pormenores vêm descritos no livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão.
Iremos abordar em seguida, uma outra faceta da vida de João Duarte de Almeida, ligada a aspectos de ordem cultural que importa reter.
O cemitério de São Nicolau, de existência intimamente ligada à fazenda de S. João do Norte de que João Duarte de Almeida era proprietário, depois do cemitério indígena de Moçâmedes, foi um dos locais mais interessantes para estudo da arte Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", sobretudo a obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba, escravo mandado especializar-se em Lisboa em estelas funerárias.
A arte tumular Mbali ou Mbari, arte do povo africano aportuguesado "quimbar" do distrito de Moçâmedes, invulgar em África, surgiu numa altura do avanço da colonização, quando vivos eram ainda pioneiros como João Duarte de Almeida, falecido em 1898. Trata-se, segundo o sociólogo Gilberto Freyre, de um caso de cultura afro-cristã gerada em consequência do contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do Distrito, em 1849, entre os colonos luso-brasileiros e a mão-de-obra negra. Uma cultura de fusão que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, ou pedra sabão, mas também em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a óbito, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que aí se contavam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas.
O que ficou a caracterizar a maior parte das esculturas do Cemitério de S. Nicolau foi o facto de apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajes, o que se deve ao facto de Victor Jamba, o canteiro da região, ter-se deslocado a Lisboa a mando de seu patrão João Duarte de Almeida, para se especializar, tendo a sua arte adquirido tais características. (1) Da sua autoria, são as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc.. Victor Jamba era o canteiro mais célebre e o mais perfeito, e também foi o mais convencional se comparado com outros canteiros que imprimiram aos seus trabalhos um cunho de originalidade.
Importante era também o espólio que no tempo colonial podia ser encontrado no Cemitério chamado do Pretos de Moçâmedes, no Cemitério ao ar livre do Saco, e em outros espalhados pelo distrito. A arte Mbali ou Mbari, de rara expressão em África, tinha no cemitério de S. Nicolau um dos seus melhores documentos que importava a todo o custo preservar.
Uma outra faceta da vida de João Duarte de Almeida, que deve ser aqui mencionada, é a de que juntamente com Bernardino Abreu e Castro, foi um dos apóstolo da abolição do tráfico de escravos e da escravatura. Aliás, ambos sobre o assunto, fizeram diversas exposições ao Ministro Sá da Bandeira, enquanto no poder em Portugal, sob como se deveria agir na costa de Angola para acabar de vez com o vil negócio, conforme refere o padre José Vicente, que em seu livro se detém, por falta de espaço, apenas às exposições de Bernardino.
Quando, em 1836, a opção africana se impôs na política do Governo
português, o ministério de Sá da Bandeira tomou importantes medidas legislativas sobre
a abolição da escravatura e a protecção do comércio entre as colónias e Lisboa. As
relações internacionais impostas pela complementaridade entre as economias industriais e
os fornecedores de matérias-primas determinavam o enfraquecimento do comércio triangular
através do Brasil e o reforço da ligação directa à metrópole.
Tais medidas resultaram em grandes perturbações na economia
ultramarina e nas relações entre o poder colonial e os poderes africanos. As autoridades coloniais eram as primeiras a demonstrar incapacidade
para executar a nova legislação, visto que a actividade económica se reduzia ao
comércio e este, por sua vez, ao tráfico de escravos para a América. Os grandes comerciantes exportadores, que punham em movimento, a partir
da costa, o comércio de longa distância, eram apenas negreiros que não sabiam nem
queriam lidar com outro tipo de «mercadoria». A exportação em grandes quantidades do
marfim, da cera, da goma copal, da urzela não interessava aos traficantes nem aos seus
concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço,
oferecidos pela escravatura. A inaptidão conduziu ao desespero das burguesias urbanas de
Luanda e Benguela, que concentravam nas mãos a ligação ao comércio internacional.
Famílias influentes emigraram para o Brasil e com elas os capitais que detinham. É certo
que, com a conivência da administração, a exportação de escravos continuaria ainda,
por cerca de dez anos. Mas a expectativa da vigilância marítima internacional e as
pressões por parte do Governo central faziam prever um fim a médio prazo. Estava-se em 1858 quando Portugal decretou que, passados vinte
anos não poderia haver escravos; mas foi apenas em 1869,
que foi abolido o estado de escravidão, tendo passado à condição de
libertos os escravos em todas as possessões. O Governo português assim procedeu a fim de compatibilizar os interesses dos proprietários
coloniais que haviam investido em escravos, e a boa
consciência de um país que se queria progressista.Duarte de Almeida concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos. Foi testemunha presencial, na sua qualidade de negociante e de proprietário, juntamente com o Dr. João Cabral Pereira Lapa, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (chefe da 1ª colónia ida de Pernambuco na Barca Tentativa Feliz, em 1849) e José Joaquim da Costa (chefe da 2ª colónia ida de Pernambudo na Barca Bracarense chegada a Moçâmedes em 1850), da cerimonia da Escritura de Promessa e Voto , o acto solene do reconhecimento manifestado pelos antigos colonos na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859, para que em todos os anos e no dia quatro de Agosto, se celebrasse, na Igreja Matriz de Moçâmedes, uma missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus" . Era agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa". Nos cargos de juiz substituto e de presidente da Câmara Municipal, Duarte de Almeida muito ajudou os colonos.
João Duarte de Almeida faleceu no dia 9 de Julho de 1898. Repousa, como outros portugueses que se transferiram na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Moçâmedes, sob artístico mausoléu «aristocrático» de estilo luso-católico, que ainda hoje se pode ver no Cemitério da cidade, apesar do estado de abandono a que aquele Cemitério, que faz parte integrante do património cultural e histórico do Namibe, tem sido votado. Eis o mausoléu de Duarte de Almeida, mandado erguer por sua esposa e filhos.
Este é o mausoléu da esposa de João Duarte de Almeida, D. Amélia Josefina da Costa Duarte de Almeida, filha do chefe da 2ª colónia
Pesquisa e texto de MariaNJardim (Este texto está protegido pelas leis de Copyright)
(1)
Bibliografia consultada:
Manuel Júlio de Mendonça Torres «Moçâmedes», 1º volume datado 1954
Exploração Geográfica e mineralógica do Distrito de Mossâmedes, 1894-1895" por J. Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real.
Ver também: Os primeiros produtores na Exposição do Porto:
VER AQUI
OU AQUI
João Duarte de Almeida: Genealogia
Em GeneallNet encontrei as seguintes referências que passo a transcrever:
(III) – João Duarte de Almeida * Midões 26 3 1822 + em Moçâmedes. Órfão de pai, partiu para o Brasil em 1838 em busca de fortuna. Daí passou, pouco depois, a Angola, acompanhando Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador da cidade de Moçâmedes. Foi grande produtor de algodão e cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul». Foi também armador, e descobriu uma borracha, por si denominada «Almedina», que desenvolveu e comercializou com êxito.
"Em relação aos Duartes de Almeida, de Moçâmedes, penso não errar em supô-los descendentes de
I – Bento Duarte de Almeida, de Mangualde, e de D. Antónia Rita, da Várzea de Candosa, onde residiram e onde nasceu o filho:
II – Dr. João Duarte de Almeida (Borges Belmiro Castelo Branco), médico em Mangualde, fidalgo de antiga linhagem (cfr. António Duarte de Almeida Veiga (seu neto), «Midões e o seu Velho Município», e J. M. Dias Ferrão, «João Brandão») cc (Midões 5 6 1821) D. Ana Emília Brandão, * Midões (prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça).
I – Bento Duarte de Almeida, de Mangualde, e de D. Antónia Rita, da Várzea de Candosa, onde residiram e onde nasceu o filho:
II – Dr. João Duarte de Almeida (Borges Belmiro Castelo Branco), médico em Mangualde, fidalgo de antiga linhagem (cfr. António Duarte de Almeida Veiga (seu neto), «Midões e o seu Velho Município», e J. M. Dias Ferrão, «João Brandão») cc (Midões 5 6 1821) D. Ana Emília Brandão, * Midões (prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça).
Refere também uma escritora, irmã mais nova de Duarte de Almeida
O Dr. João Duarte de Almeida faleceu cedo, deixando 5 filhos menores, dos quais os 3 varões que foram para Moçâmedes:
"...Presumo que os Duartes de Almeida, de Moçâmedes, sejam todos descendentes dos 3 irmãos de Midões (ou Mangualde). Cumprimentos, José Caldeira (in Genea)
"...Existe em Genea alguns elementos sobre outros Duartes de Almeida "... Edgard Duarte de Almeida, nascido em Moçâmedes, em 28.10.1903. Faria mais tarde em Lisboa o Curso de Arquitectura na Antiga Escola de Belas Artes e, segundo a GEPB, também teve uma carreira com algum relevo na época como artísta lírico, baixo, actuando no Teatro Nacional de São Carlos e noutros locais.
"..Eu já sabia entretanto da existência de uns nossos familiares de Moçâmedes, os Duarte de Almeida, mulatos. Dois deles constam da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o pintor e ilustrador Álvaro de Figueiredo Duarte de Almeida (vol.v 9. págs. 322 e 323, vol.39 ( apêndice) pág. 494 e vol. 4 1ª actualização, pág. 260. Nasceu em M. a 20.01.1909, foi professor dos Cursos de Desenho da Sociedade Nacinal de Belas Artes. Foi o ilustrador da História da Tauromaquia, uma edição de luxo em dois grossos volumes, dirigida por Jaime Duarte de Almeida, que existe na casa do meu já falelecido avô, de quem além de primo era amigo.Tinha duas irmãs, que eu cheguei a conhecer , que tinham uma casa em Ranholas , Sintra , uma das quais também consta da dita Enciclopédia, cantora lírica, Maria Amélia Duarte de Almeida n. Moçamedes 26.08.1900 e + Lisboa, a 15.03.1979.
"... Olívia Simões Freire de Figueiredo, casada com um Eugénio Duarte de Almeida que tiveram uma filha Maria Adelaide Duarte de Almeida, n. em Moçâmedes a 19.11.1919 , casada e com geração, de quem nunca tinha ouvido falar. Terá alguma ligação com os Freires de Figueiredo? ass Luís Piçarra in GeneallNet
Esses Duartes de Almeida eram primos do meu avô, embora como disse, ignore como se establece a relação, mas julgo ser anterior à sua ida para Angola.
Os que eu refiro , tal como Maria Amélia, Álvaro , Edgard, já pertencem a uma geração nascida em Moçâmedes.
"...Pessoalmente só conheci essa prima Maria Amélia D.A. e a irmã ambas filhas de um casamento misto.
Quanto ao Álvaro Duarte de Almeida, também lá nascido, que iustrou a História da Tauromaquia , pintor e colaborador como ilustrador de revistas tauromáquicas nos anos 50 , era primo do meu avô, mas não estou certo se era irmão ou primo ou primos de Maria Amélia... ass. Luís Piçarra in GeneaNet.
Sequem algumas fotos antigas de familiares do ramo Duarte de Almeida , e alguns recortes de livros e de jornais com interesse para esta familia, cedidos por um descendente a quem muito agradecemos.
Miguel Duarte d'Almeida e Amélia Figueiredo Duarte d'Almeida
100º aniversário de Amélia Adelaide. Com as filhas em 1969.
O tio Óscar como era carinhosamente conhecido em Moçâmedes. (emendo a data: 1899-1973)
.
Transcrevo algumas passagens do Livro intitulado "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", do Padre Vicente, José (Gil Duarte), página 1959, sobre a posição de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e de João Duarte d' Almeida no que diz respeito à abolição do tráfico de escravos para fora das possessões portuguesas africanas e ao fim da escravatura dentro das mesmas possessões, que se fazia ainda entao, a partir de Angola, na clandestinidade, na direcção do Brasil e as Américas. João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro a este respeito tinham os mesmos ideais. A exposição deve ser analisada não à luz dos nossos dias, mas à luz das mentalidade da época em que estes dois homens viveram. Ei-la:
"..João Duarte de Almeida
e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da
escravatura. João Duarte de Almeida fez, sobre o assunto, diversas
exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em
seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de
Lisboa, o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15
de Abril de 1857 ao governador-geral da província, José Rodrigues
Coelho do Amaral, a pedido deste.
Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes:
"...
Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de
inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito
anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com
escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob
dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto
ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência
reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha
por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez
de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não
dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem, se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades." Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefutável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.
E continua:
" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.
" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.
Primeiro,
tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por
qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que
essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não
fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico
Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido
das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o
bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que
aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as
autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu,
ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que
fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.
Segundo,
que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns
contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar
parte às autoridades administrativas e policiais do local de qualquer
embarque que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.
Estes
espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta
província ter um a seu cargo, dar parte do que ocorrer entre Mossâmedes
e a Lucira; outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha;
entre esta e Novo Redondo; entre este e Benguela Velha; entre esta e o
rio Longa; entre esta e a cidade de Loanda; entre esta e o Dande; entre
este e o Ambriz; entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos
despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que
sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico
para o exterior, se consegue o fim desejado."
Bernardino
fez depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da
escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste
capitulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele
--acentua-- diz que é bárbaro e inhumano que qualquer homem seja
obrigado a servir outro, e que não goze do mais sublime dote da
natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas
aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão
sujeita.
Considera
o estado das possessões, os usos e costumes dos europeus que as
habitam, o estado da civilização dos indígenas que as habitam, se para
se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são
necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e
indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou
somente por indígenas.
Bernardino
é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina
que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as
populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz:
"costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os
mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm
ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou
exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que
demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas
terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que
se faz, para bem avaliar o que dizemos".
Aceita
o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para
convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos,
segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços
domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar,
Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma
cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior
multa do que se matasse outro preto."
Continua:
"Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que
se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os
pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as
bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm
estes, quase todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de
um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um
palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe
cubra as partes por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.
Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo
faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e
pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou
gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."
Deduz,
com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho
de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das
possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei
que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da
força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incutindo-lhes os
princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque
demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é
o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios
bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se
conseguiria."
Não
restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura,
Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:
"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra
gentílica contra os Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em
todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei,
porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o
seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível,
semelhante reclamação, e talvez ouvissem a esse respeito o que ainda
não tinham ouvido. Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes
dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante
uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão,
que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus
costumes, senso a primeira necessidade, incutir-lhes amor ao trabalho;
porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus
usos que a favorecem".
Neste
pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de
Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres
porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para
eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com
castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso
me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido
três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".
E
mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos,
nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais
direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu
comportamento."
Bernardino
conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que
deviam prestar os pretos, e a humanidade mesmo reclama se comprem nas
nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados
nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é
mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem
tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por
enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso
mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem
regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados
-- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades
administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém ,
repito ainda, que esta responsabilidade não deveria ficar somente
escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na
província, o menos entendido, porém, dos que mais desejam o progresso, o aumento e civilização das nossas possessões."
Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.
Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.
Extraordinária
vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência
tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu
e Castro.
Honra lhes seja! "
Como escreveu Fernando Pessoa: "O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos".
Para saber mais sobre esta época:
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf
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Moçâmedes
Nota: recebi esta mensagem que deixo aqui, uma vez que me é impossível atender à rectificação solicitada por não poder fazer alterações no quadro acima, que não foi feito por mim, mas que foi em tempos colocado na Net por um familiar de João Duarte d'Almeida:
"....Olá, boa tarde! O meu nome é Manuela Duarte d'Almeida Guerreiro e sou trisneta de , filho de João e de Anna Emilia Duarte d'Almeida. Gostaria que corrigissem alguns dados, uma vez que o meu trisavô estava casado ( naturalmente com a minha trisavó) MARIA AMÁLIA de OLIVEIRA LOUREIRO e não como escrito com Ana Máxima da Costa. Nunca ouvi falar dum filho José!!!! A irmã mais nova do meu trisavô chamava-se EMILIA e não Maria Cecilia, como escrito. A minha bisavó Constança Bensabat Lapa Valente- Duarte d'Almeida ( do1. casamento) nasceu, segundo certidão de baptismo, a 06.09.1874. Melhores Cumprimentos, Manuela em Pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia
Agradeço aos familiares de João Duarte de Almeida, especialmente ao Jorge, que nos proporcionaram o acesso a grande parte deste material (fotos) aqui exposto. Bem haja.
MariaNJardim
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