Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com
ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do
antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus
feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e
reis da Grécia Antiga, para alcançarem a imortalidade. Daí que os
cemitérios ou necrópoles sejam muito mais do que um lugar de descanso
para entes queridos. Eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e
religiosas para se tornarem, também um patrimônio arqueológico,
artistico, histórico e cultural. São pois lugares de Arte, que guardam
Historia, que suscitam memórias, sendo alguns cemitérios verdadeiros
museus ao ar livre.
E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do
que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente
querido. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao
observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo. São espaços que
contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as
cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, artístico e
social da sucessão das épocas desde que foram construídos. Alguns
cemitérios podem ser considerados verdadeiros museus ao ar livre.
Os cemitérios obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos
vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as
portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples
campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam
estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes,
criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.
Com a avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos
crematórios, os cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos
enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros
museus ao ar livre e lugares de arte, de história, de arquitectura, de
escultura e de genealogia. É o que explica boom actual do necroturismo
europeu. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para
homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. Em
Lisboa, no Cemitério dos Prazeres as visitas ao jazigo dos duques de
Palmela, o terceiro maior da Europa, bate records em termos de visitação
turística.
Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se
espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar
cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome:
necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por
mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e
as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial, As
Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos cemitérios
seguindo o exemplo de outros países. Em Paris a prática da visitação
turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX.
A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que
melhor preservaram e continuam a preservar os seus mortos, porque mais
cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da
velha casa dos mortos. Porque cemitérios integram Arte,
História,suscitam memórias, alguns são verdadeiros museus ao ar livre,
uma mais valia a conhecer e a explorar.
Abstraindo-me da consideração que todos mortos merecem,
independentemente do seu estatuto social, estou a lembrar-me do valor
histórico dos mais importantes mausoléus e jazigos existentes no
cemitério de Moçâmedes, que têm resistido ao tempo e à degradação e
remetem para a fundação da cidade. Sim, porque talvez excepto jazigos e
mausoléus, mais e menos imponentes, as mais humildes sepulturas, sem ter
quem delas cuide, nestes 40 anos, já devem ter desaparecido com a
voragem do tempo.
Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o
lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este
Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até
mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para
trabalhos escolares e de licenciaturas, como por escritores,
historiadores, curiosos, etc .
E se assim vier a acontecer, o guia turístico de uma rota por este
Cemitério torna-se indispensável. Passando ao lado de cada túmulo ele
terá que fazer um resumo da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos
colonos fundadores que ali respousam e cujos túmulos chegaram aos nossos
dias.
Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de
factos, passo a mostrar alguns dos mais mais importantes túmulos
presentes no Cemitério de Moçâmedes. Este é túmulo do colono João
Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não
tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de
Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850.
Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era
filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana
Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural
de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em
desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9
de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob
artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.
O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a
capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de
monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição
pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de
Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da
colonização, e remete para a História das Religiões e para a História
das Mentalidades.
João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de
sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos
apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições
agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde
foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de
Moçâmedes!
Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João
Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de
Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns
feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:
- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do
reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar
anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum
Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de
juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto
desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as
comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila
Viçosa".
- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão
intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais
interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular
do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros –
Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em
Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em
África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de
fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em
madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas
um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era
atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua
identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes
inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as
pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os
seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através
da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros
símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos
manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o
"leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros
símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a
"cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc...
Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e
ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram
as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um
tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao
assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que
estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.
Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com
Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colonia de 1849, desenvolveram
esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da
escravatura interna. Ambos estiveram em contacto com o general
Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o
estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de
escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a
seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em
1836.
Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de
Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em
Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a
publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território
português. Existia até então em Angola e em várias colónias de África,
todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos
para o Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na
clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas
marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos,
patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de
fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir
os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades
económicas em formação em que Moçâmedes também recebeu escravos e
ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a
economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder.
As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro,
desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de
Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de
«mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma
copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e
outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade
de reconversão conduziu ao desespero as burguesias destas duas cidades,
cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças
que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas e intermediários
negros a partir do sertão. Esta organização que envolvia negociantes na
sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a
economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiros
cobrados, envolveu brancos, negros e uma maioria mestiça, gente do lado
de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a
vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo
central. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas
há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e
que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.
A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.
São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam.
Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de
parte o contexto e as mentalidades da época!
Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr.
João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da
terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu,
embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali
chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para
salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde
palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e
Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de
arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau",
que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era
que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e
difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário,
uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte
noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela
Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a
Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que
deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1)
Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo
colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente
de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.
Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma
personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um
apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua
habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja
calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que
comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha
por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar
as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos
areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos
Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado
da cultura do algodão.
Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro
estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e
articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são
devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de
Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da
construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio
do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma
estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da
casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio
meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e
para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha
Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de
1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes,
iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e
concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que
estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo
várias modificações,.
Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !
João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos
exemplos. Há muitos mais!
Pesquisa e texto de MariaNJardim
Este texto, de minha autoria, já se encontra publicado em Moçâmedes, Registos e Factos e tem direitos de autor. Incorre em
PELÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autoria