Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 15 de março de 2018

Casa de um colono. Lubango 1908.






Foto: Casa de um colono. Lubango. Uma família de colonos madeirenses e alguns elementos da etnia muhuíla.. Corrua o ano 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos...


CURIOSIDADES: LUANDA NOS ANOS 30-40 DO SÈCULO XX AINDA ERA ASSIM...
  Quanto a Angola, nesse novo contexto que se foi desenhando, a população branca passou de uns meros 6.000 habitantes em 1890 para uns também meros 13.000 em 1918, e para cerca de 58.000 em 1930.
Assim, por volta de 1930, o ano do Acto Colonial, quando se imprimiu uma direcção centralista à administração colonial, havia em Angola oito cidades com um total de 110.000 habitantes: Luanda, Lobito, Benguela, Moçâmedes, no litoral; e Nova Lisboa, Malanje, Silva Porto e Sá da Bandeira, no planalto. Mas destas cidades, além de Luanda, só três atingiam pouco mais de 10.000 habitantes: Benguela, Lobito e Nova Lisboa. Sá da Bandeira tinha mais de 7.000 habitantes, Malanje, Silva Porto e Moçâmedes tinham mais de 4.000 cada.
Os números trazem à superfície realidades que a realidade não pode obscurecer.A magestosa, moderna, desenvolvida e organizada Angola de 1975, na realidade foi erguida em muito poucos anos, a ter em conta o retrato da cidade capital e o número de habitantes nas cidades, nos anos 30! Muito ficou por fazer, sem dúvida. Mas será que seria possível fazer-se mais, a ter em conta a real conjuntura? Fica a pergunta?


Fotos dizem mais que palavras....

Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, "o sul de Angola foi a guerra”. "Por toda a parte havia conflitos, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. A guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados, e, sobretudo porque foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que os negros aguerridos não possuíam  a metralhadora."
 

Tentando uma leitura desta foto direi que, em meio a uma situação de conflitos que perpassavam à época o sul de Angola, e que se estenderam desde 1885 a 1915, esta, tal como outras famílias de madeirenses, que viviam isoladas e conviviam harmoniosamente com africanos muhuilas, marcaram bem a diferença na atitude perante a vida. Uma coisa eram as demandas do regime, outra coisa eram as pessoas. 

São estes aspectos da História que a História dos povos não devia ocultar, mas que oculta quando mete tudo e todos no mesmo saco. E é esse um dos grandes erros de quem escreve História.  A maldade existe, basta escutarmos os pacotes de notícias que jornais e TVs nos oferecem todos os dias. A maldade existe e não escolhe povos, nem fronteiras. As pessoas são boas ou  más por natureza e por educação, nada a ver com a maior ou a menor quantidade de melanina (pigmentação) presente na sua pele. A História não pode nem deve ser encarada a preto e branco. Só por ignorância ou má fé tal tem sido possível!  (1) 

 
Entre os primeiros povoadores do sul de Angola estavam os madeirenses, simples emigrantes,  na maioria gente analfabeta ou muito pouco letrada,  gente que desconhecia a História, e que para o sul de Angola partiu influenciada pelas campanhas de propaganda que os conseguiu persuadir. Iam em busca de uma vida melhor, e instalaram-se no planalto da Huíla, nos anos 1884 e 1885. Precisamente na altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que teve como principal resultado a "Partilha de África" entre as potências europeias industrializadas, e a definição das regras para a colonização, assunto a que eram alheios, ou que até mesmo desconheciam.O acordo final saído daquela Conferência impôs o “princípio da posse efectiva”, ou seja, uma potência só poderia reclamar o controle de uma determinada região se estivesse em condições de ocupar com gente da Metrópole, e de a desenvolver. Outros direitos, como os direitos históricos que Portugal reclamava sobre várias regiões de África, deixaram de ter validade. No caso particular de Angola, quando a Conferência de Berlim chegou ao fim, a 26 de Fevereiro de 1885, ainda havia grandes extensões do território angolano onde nenhum português tinha ainda posto os pés.  Desde logo começou a corrida para a ocupação de África. Esta levou ao envio maciço de tropas para as regiões a defender, e provocou o agravamento da escalada dos conflitos entre as concorrentes europeias, e principalmente com as tribos africanas. Na partilha, Portugal teve que se confrontar com as pretensões da Inglaterra e da Alemanha, as potências cobiçosas do território que por direito histórico reclamava, e teve que desenvolver acções de pacificação do gentio revoltado que estavam em marcha, e foram levadas a cabo sem grande consideração pelos pequenos núcleos de famílias de origem europeia, que recentemente ali se haviam estabelecido, e que pacificamente coexistiam com as populações negras de diferentes etnias, no sul de Angola.

No Distrito de Moçâmedes, mais propriamente no planalto da Huila,  em finais do século XIX, encontravam-se estabelecidos, e dedicados à agricultura, os boeres e os madeirenses. Em Moçâmedes, desde 1849 viviam dedicados à agricultura e à pesca, os luso-brasileros de Pernambuco, e uma comunidade de colonos algarvios que ali começaram a chegar a partir de 1861. Todos juntos, estes povoadores foram essenciais para que Portugal, através da ocupação efectiva e dos meios pacíficos do trabalho merecesse o respeito das nações competidoras.  Aliás, acabaram por ser o garante da ocupação daquela fatia de Angola. Sem eles, o mapa de Angola muito provavelmente teria sido diferente daquele que é hoje, dada a cobiça de potências estrangeiras. Talvez os alemães do Sudoeste africano (actual Namíbia) tivessem avançado pelo Distrito de Moçâmedes adentro, e tivesse  anexado a faixa cobiçada do território  a sul de Benguela. Respeitando as  regras então estabelecidas para a  ocupação, com a sua presença, teriam sido o travão para esse ambição.

Quer a fundação de Moçâmedes, quer a do Lubango foram levadas a cabo no quadro de um novo paradigma colonial que já nada tinha a ver com o anterior paradigma centrado no tráfico de escravos, o qual dificilmente se pode chamar colonização.

O que dizer a respeito dos colonos senão que eles não eram mais que um conjunto de pessoas preocupadas com a sua subsistência, gente que queria trabalhar,  fazer coisas sem grandes preocupações em legar testemunhos para a posteridade. Por isso eles não nos deixaram documentos escritos das suas vidas, não produziram  relatórios detalhados sobre as condições reais da sua existência, quando muito deles sobrou uma ou outra lápide de eterna saudade. Muitos deles, como aqui já foi dito,  mal sabiam ler e escrever. A função de deixar coisas escritas pertencia aos governantes, na maioria das vezes mais interessados em serem  protagonistas da História, do que parceiros de atormentados percursos. Isolados no terreno acabaram por desenvolver  estratégias na busca de condições mínimas de sobrevivência e de segurança, para si e para suas famílias, naquele tempo numerosas, num meio envolvente  inseguro, desconfiado,  por vezes pouco hospitaleiro, ou até mesmo hostil, onde os recursos oferecidos pela Natureza surgiam como uma espécie de porta entreaberta para o mundo.



MariaNJardim


(1) Em Moçambique, por exemplo,  desde a independência já morreu  1 milhão de almas na guerra civil, em combates e por conta de crises de fome cinco milhões de civis foram deslocados, e muitos sofreram amputações  por minas terrestres, um legado da guerra que continua a assolar o país. O conflito terminou em 1992 no entanto, passados mais de vinte anos de paz formal, Moçambique presenciou em 2013 o ressurgimento do conflito armado nas regiões central e norte do país, pondo em questão a aparente estabilidade democrática e o processo de reconciliação.Apesar das inúmeras negociações, um novo acordo de paz ainda não foi concluído. 




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Na foto: uma casa isolada no território da Huíla habitada por uma família madeirense, que ali podemos ver acompanhada por autóctones da região. 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos.

quinta-feira, 1 de março de 2018

AÍ ESTÃO ELES. OS TIGRES DA BAÍA DOS TIGRES...






"Transcreveremos aqui os apontamentos que a respeito d'essa tentativa nos ministrou o sr. P. Craveiro Lopes, um dos officiaes da expedição.

Saimos de madrugada e andámos por terra até ás duas horas e meia da tarde, caminhando uns para N. e outros para S., sem jámais encontrarmos agua, lenha ou gente. So vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes, e immensidade de aves, taes como pandas, pellicanos, patos e africanos; estas ultimas aos bandos de cem, e fazendo de longe como regimentos de soldados inglezes de fardas vermelhas e calças brancas; é muito bravia toda essa caça, e por isso custosa de apanhar.
Tanto nas vizinhanças do mar como para o sertão, recobrem o solo grandes dunas de areia, cuja superficie, açoutada do vento, está em constante movimento ondulatorio, exactamente analogo ao que tem as camadas conductoras das vibrações sonoras. Tão alentadas são algumas das dunas sertanejas que olhando do topo para a base, da banda de sotavento, isto ê, proximamente da banda do NE., para onde a inclinação é de uns 45° a 55°, turva-se a vista. Não são raras as que vingam a altura de um sexto andar de Lisboa, e deixando cair um corpo de bastante peso e superficie no cume de um d'esses outeiros, ouve-se como o estampido de uma arma de fuzil.

Por segunda vez descemos a terra ao romper da manhã de 23 de dezembro de 1854, e ao cabo de andarmos 4 ou 5 leguas encontrámos um preto, pescando na borda do mar e junto a umas pedras. Interrogado pelo nosso interprete soubemos que pertencia a uma tribu errante, para a qual estava pescando e que acampára nas proximidades. Procurámo-la e vimos que se compunha de 4 homens, 3 mulheres, 6 crianças e 19 cães, tudo accommodado em 2 barracas e um cercado feito de costellas e outros ossos de baleia; sustentavam-se de peixe, secco ao sol; bebiam agua tão pessima que, apesar de ardendo em sede, não podémos entrar com ella, e vestem-se apenas com trapos que lhes tapam as verilhas. Caso raro, rejeitaram a aguardente que se lhes offereceu, e sob pretexto de ser muito fria não aceitaram da nossa agua doce; comeram porém com avidez farinha de pau, e estimaram muito o tabaco. Por elles soubemos que ao cabo de 3 ou 4 dias de marcha para S. encontrariamos o rio Cunene».

Descripção e roteiro da costa occidental de Africa desde o cabo de Espartel até o das Agulhas
by Castilho, Alexandre Magno de, 1834-1871
Publication date 1866

https://archive.org/details/descripoeroteir00castgoog

PRAIA AMÉLIA: TANTAS HISTÓRIAS PARA CONTAR...

               Várias fotos da Praia Amélia no inicio do séc XX, no tempo da pesca à baleia feita por noruegueses



Hoje quem visita Moçâmedes e se desloca 5 km a sul na direcção da PRAIA AMÉLIA, já poucos vestígios do passado encontra, mesmo de um passado recente, com que possa ilustrar suas narrativas, porque tudo quanto era História vem sendo dali varrido com rodar do tempo. No entanto quem ali viveu decerto não se cansou de ouvir histórias contadas pelos antepassados sobre acontecimentos que tiveram lugar na PRAIA AMÉLIA, e que ficaram a marcar a História daquela praia.



Porquê PRAIA AMÉLIA? A ORIGEM DO NOME:

A PRAIA AMÉLIA era assim chamada porque em 1842 no banco de pedra ali existente encalhou a "escuna Amélia"  no banco de pedra alí existente.  A escuna fora pertença da Marinha de Guerra Portuguesa - esquadra miguelista - comprada em Inglaterra e aprezada pelos liberais em 1833.  A zona do banco era uma zona perigosa para a navegação marítima pois na baixa mar ficava a descoberto, e com a maré cheia era uma armadinha para os barcos de grande calado, que ousassem por ali passar. Os barcos mais pequenos, como as embarcações, traineiras, etc, podiam passar pelo canal existente entre a ponta da PRAIA AMÉLIA e o banco , mas os maiores tinham que passar ao largo do referido banco. Por alturas do ano de 1840, houve quem afirmasse ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passarem por entre o baixo e a praia da Amélia, ou seja pelo canal, que lhe fica fronteira, algo arriscado. (1)




A PRAIA AMÉLIS, A CAPTURA DE BALEIAS E A GRANDE FÁBRICA DOS NORUEGUESES ...



Decerto os que ali viveram ouviram falar de uma fábrica de grandes proporções para a época, de capitais noruegueses, que ali se instalou, no início do século XX, com seus barcos de pesca dedicados à captura de baleias.

A caça à baleia XIV teria sido iniciada em princípios do século XV, no golfo da Gasconha, por pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição dos gigantescos mamíferos, que acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. Era então a França era nessa  a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protetores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo, a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.  Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construidas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuídos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.

Enquanto os noruegueses ali trabalhavam praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso. As instalações encerraram, mas os noruegueses que ali trabalhavam marcaram para sempre uma época em Moçâmedes. Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, especialmente pela «Praia das Conchas».

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção.   Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 

Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. 
 


A PRAIA AMÉLIA E OS MOMENTOS DE LAZER DA POPULAÇÃO DE MOÇÂMEDES:  O TEMPO DOS BANHOS, DA PESCA DESPORTIVA E DAS ALMOÇARADAS NA PRAIA AMÉLIA


O tempo das almoçaradas na Praia Amélia, nos anos 1950. Foto cedida por Olimpia Aquino.


A pescaria de João Duarte situada mais a sul da Praia Amélia, a dar para a zona funda da praia de banhos, junto da ponte, (zona que permitia a atracagem de traineiras e de barcos de certo calado), para além da grande contribuição para o desenvolvimento de Moçâmedes, era a pescaria ideal para onde aos domingos pela manhã, no Verão, se deslocavam familiares e amigos para ali passarem o dia em ameno convívio e confraternização, quer tomando banhos de mar na zona funda mais próxima da ponte, quer na  mais afastada, sem fundão, mas com altas ondas, que se fosse hoje em dia dava para a prática do windsurf.  Outros preferiam a pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, caça submarina, pesca desportiva, etc. Eram encontros que tinham o seu ponto alto à hora do almoço, quase sempre uma caldeirada de peixe feita mesmo ali por baixo do telheiro da pescaria, lado a lado com os tanques de salga do pescado. As famílias carregavam consigo frutas e doces refrigerantes, bebidas, toalhas, guardanapos, louças, copos, talheres, etc. Cozinhavam ali mesmo sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo desses que foram vedeta antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia se faziam em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

Foto de ida por Antonieta Bagarrão. Em 1949 na Praia Amélia para uma banhoca...


A Praia Amélia era a alternativa mais próxima, à Praia das Miragens, no centro da cidade, aquela que oferecia uma maior variedade de diversões, uma vez que para além dos banhos, ali se podia pescar e até fazer  as já citadas almoçaradas em agradável e alegre convívio. Sim, porque a outra praia, a "Praia das Conchas",  de "praia" apenas possuía o nome!

A prática das grandes almoçaradas perdurou forte, pelo menos até meados dos anos 1950, e foi desvanecendo com  o aumento populacional e as novas e diversificadas ofertas  ao lazer das populações nos anos 1960, a década em que tudo mudou. Esta década foi também a do início das "Festas do Mar" e a do "boom" populacional em Angola de que Moçâmedes beneficiou.
 
Finais da década de 1940, Maria Emília Ramos conduzindo uma motorizada em plena areia da praia, na Praia Amélia. Uma jovem de moto era naquele tempo coisa rara! Ao fundo, à direita, os giraus ou tarimbas para a secagem do peixe, e à esquerda, as instalações de João Duarte. Foto decida por Antonieta Bagarrão.

Esta geração de jovens mulheres nascidas na década de 1930, em Moçâmedes, podemos dizer sem receio de errar, foi aquela que rompeu com o modelo tradicional de suas mães e avós, secularmente reduzidas ao papel único de donas de casa, esposas e mães, com muito actividade quase nula na esfera pública, excepto na área do social ligada à paróquia. Aliás era normal que assim fosse dado o trajectória histórica da mulher portuguesa e a estrutura social num tempo de oferta escassa de trabalho, como foi Angola até 1950.



Um passeio de bicicleta à Praia Amélia. Atrás as casas dos empregados 
da pescaria de João Duarte, 1953.  Foto do meu álbum.

 
 Na Praia Amélia, numa manhã de Carnaval em 1953. Foto do meu álbum.


 A Praia Amélia em dia calmoso

A Praia Amélia em dia menos calmoso...

O modelo dos fatos de banho denunciam a época.  Nesta altura as jovens usavam ainda fatos de banho com uma espécie de saia à frente, e bastante subidos no peito. Eram, aliás, as normas do Estado Novo. Para quem desconhece, importa lembrar que em 1941, na sequência da chegada a Portugal de muitos refugiados da Segunda Guerra Mundial que, pouco habituados aos pudores nacionais, aproveitavam as praias da Linha do Estoril para exibir os corpos, foi promulgada legislação com "várias disposições sobre o uso e venda de fatos de banho", instituindo e estabelecendo "o sistema de fiscalização e sanções a aplicar aos transgressores." As razões do Ministério do Interior estavam relacionadas com factos ocorridos durante a última época balnear que passaram a exigir "normas adequadas à salvaguarda da decência e dia valores morais estéticos que os povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam", escrevia-se então.  Assim, trajes balneares de homens e mulheres passaram a obedecer a regras específicas, cabendo aos cabos do mar fiscalizar o seu estrito cumprimento quer em relação a  homens quer a mulheres. É claro que na década de 1960, ou até já mesmo a partir de meados dos anos 1950, já nada era assim. Com o fim da guerra 1939-45, ventos de mudança vindos do exterior penetraram em Portugal e chegaram às colónias de África onde eram mais facilmente acolhidos.  O biquini fez a sua aparição nos anos 1960, como que desafiando uma velha ordem  retrógada, beata e caduca! Diz-se que nas colónias a moda do biquini avançou mais rápida.

Na ponte da Praia Amélia, pescaria de João Duarte, com familiares e amigos do proprietário.  Foto cedida por Ricardina Lisboa 



 As Festas do Mar e os concursos de pesca desportiva e caça submarina na Praia Amélia.  Nós na ponte da pescaria de João Duarte. Foto do meu álbum.
Pesca Desportiva
Pesca Desportiva
 
Pesca Desportiva

A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva por ocasião das "Festas do mar" e outras que as antecederam, enquanto a ponte era invadida uma multidão se espectadores, gente de ambos os sexos e de várias idades, interessadas na modalidade.


 
 As Festas do Mar e os concursos de pesca desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Arménio e Eduardo Braz na ponte da pescaria de João Duarte.  Do meu álbum.

John Pereira exibe o seu troféu de caça submarina


John e Saturnino

 A PRAIA AMÉLIA E AS PESCARIAS DE JOÃO DUARTE E DO VENÂNCIO



Em meados do século XX duas grandes empresas dedicadas à indústria pesqueira encontravam-se intimamente ligadas ao nome da PRAIA AMÉLIA, a de Venâncio Guimarães e a de João Duarte, tendo ambas por sua vez ligadas, respectivamente, à fabricação de conservas de peixe e à fabricação de guanos, que deram a sua grande contribuição para o avanço do Distrito.

João Duarte era, sem dúvida, o mais bem sucedido morador do Bairro da Torre do Tombo, o bairro onde vivia. Foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. A sua pescaria na Praia Amélia, com a gestão familiar, e a participação de todo um conjunto de trabalhadores, brancos, negros e mestiços, gente de terra, gente do mar, mestres contra-mestres, motoristas, pessoal auxiliar (contratados), capataz, etc etc, foi evoluindo, e em 1968 quando faleceu tinha uma fábrica de farinha e óleo de peixe totalmente automatizada, e 3 traineiras de bom porte, que garantiam a matéria prima -  a João de Deus, a Zita Lourdes e a Maria Margarida, e ainda instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares abençoadas pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios.


 Uma parte das instalações da pescaria de João Duarte na Praia Amélia. Já fazia parte integrante da paisagem!
 Ao fundo, a ponte da pescaria de João Duarte. Na praia trabalhadores lavando as redes. Mais ao fundo, as instalações da Pescaria de Venâncio Guimarães. Foto Salvador



Momentos da laboração . Pescaria de João Duarte
A fartura do pescado

 

Traineira de João Duarte. Foto da família Duarte
 


 A labuta da pesca. Os contratados.
  A labuta da pesca. Os contratados
 
  A labuta da pesca. Os contratados.
  A labuta da pesca. Preparando o peixe: contratados, quimbares e algarvios...



A Capela da Praia Amélia 



A determinada altura, por volta dos anos 1950, João Duarte mandou construir na Praia Amélia uma capela, para a qual importou da Metrópole uma imagem da Santa da sua devoção, e onde se tiveram lugar ao longo de 2 décadas cerimónias religiosas, para além de baptizados e de casamentos. Eram geralmente baptizados e casamentos ligados à familia de João Duarte. A capela da Praia Amélia foi o que escapou à voragem das demolições que tiveram lugar há uns anos atrás, e que se desenrolaram num abrir e fechar de olhos...





Ficam estas recordações.


Pesquisa e texto de
MariaNJardim




(1) Na escuna naufragada que deu o nome à PRAIA AMÉLIA viajava Joaquim António Menezes, autor do livro "Demonstração Geográfica e Política do Território Portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."   publicado em 1848. Esta obra bastante critica é um ataque cerrado à forma como decorria a colonização na época, e a Pedro Alexandrino da Cunha;  fase das feitorias em Moçâmedes, antes da chegada dos colonos de Pernambuco, Brasil, em 1849, quando Guimarães Junior o fundador da 1ª feitoria foi expulso. O autor da citada obra refere a respeito da escuna que deu o nome à Praia Amélia, o seguinte: "...Em 1842 dous annos depois da violentada sahida de Guimarães Junior de Mossâmedes, ainda ali vimos (levados áquellas praias pelo naufragio da já citada escuna Amelia) a sua barraca, posto que quasi abatida, com restos de verzella que ficára abandonada, e proximo da qual é a horta outrora de Guimarães, em terreno por elle comprado aos indigenas, mas de que se apossaram os que tambem se haviam apoderado da sua pessoa, deportando-o para Loanda, e d'ali para Lisboa sem causa justificada. Assim procedem os tyrannetes predilectos do gabinete; a legalidade os incommoda, nem se quer procuram acobertar com ella os actos despoticos que frequentemente exercitam." 


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES COMO PATRIMÓNIO HISTÓRICO E CULTURAL (by MariaNJardim)





 










Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga, para alcançarem a imortalidade. Daí que os cemitérios ou necrópoles sejam muito mais do que um lugar de descanso para entes queridos. Eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas para se tornarem, também um patrimônio arqueológico, artistico, histórico e cultural. São pois lugares de Arte, que guardam Historia, que suscitam memórias, sendo alguns cemitérios verdadeiros museus ao ar livre.

E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo. São espaços que contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, artístico e social da sucessão das épocas desde que foram construídos. Alguns cemitérios podem ser considerados verdadeiros museus ao ar livre.

Os cemitérios obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Com a avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre e lugares de arte, de história, de arquitectura, de escultura e de genealogia. É o que explica boom actual do necroturismo europeu. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. Em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres as visitas ao jazigo dos duques de Palmela, o terceiro maior da Europa, bate records em termos de visitação turística.

Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial, As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor preservaram e continuam a preservar os seus mortos, porque mais cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. Porque cemitérios integram Arte, História,suscitam memórias, alguns são verdadeiros museus ao ar livre, uma mais valia a conhecer e a explorar.


Abstraindo-me da consideração que todos mortos merecem, independentemente do seu estatuto social, estou a lembrar-me do valor histórico dos mais importantes mausoléus e jazigos existentes no cemitério de Moçâmedes, que têm resistido ao tempo e à degradação e remetem para a fundação da cidade. Sim, porque talvez excepto jazigos e mausoléus, mais e menos imponentes, as mais humildes sepulturas, sem ter quem delas cuide, nestes 40 anos, já devem ter desaparecido com a voragem do tempo.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para trabalhos escolares e de licenciaturas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

E se assim vier a acontecer, o guia turístico de uma rota por este Cemitério torna-se indispensável. Passando ao lado de cada túmulo ele terá que fazer um resumo da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos colonos fundadores que ali respousam e cujos túmulos chegaram aos nossos dias.


Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de factos, passo a mostrar alguns dos mais mais importantes túmulos presentes no Cemitério de Moçâmedes. Este é túmulo do colono João Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850.
Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.
O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização, e remete para a História das Religiões e para a História das Mentalidades.

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de Moçâmedes!

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colonia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da escravatura interna. Ambos estiveram em contacto com o general Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em 1836.

Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português. Existia até então em Angola e em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos para o Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos, patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação em que Moçâmedes também recebeu escravos e ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder.

As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro, desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias destas duas cidades, cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas e intermediários negros a partir do sertão. Esta organização que envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiros cobrados, envolveu brancos, negros e uma maioria mestiça, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.

A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.

São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época!



Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1) Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!
Pesquisa e texto de MariaNJardim 

Este texto, de minha autoria, já se encontra publicado em Moçâmedes, Registos e Factos e tem direitos de autor. Incorre em
PELÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autoria

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O traço enigmático das gravuras rupestres de Tchitundo-hulo



Foi há cerca de cinquenta anos que o Tchitundo-hulo começou a interessar os cientistas. Em 1952, o geólogo Camarate França iniciou o estudo da estação. Em 1954, o etnólogo alemão Herman Baumann observou as gravuras e pinturas do Tchitundo-hulo Mulume e encontrou o Tchitundo-hulo Mucai.

Já na década de 70, coube ao professor angolano Carlos Ervedosa1 e ao professor Santos Júnior (a quem se deve o registo de novas gravuras no Tchitundo-hulo Mulume, assim como a descoberta da Pedra da Lagoa e da Pedra das Zebras) visitar e efectuar pesquisas nesta estação.
O Tchitundo-hulo Mulume deve ter cerca de duas mil gravuras, quase todas de tipo geométrico. Associações de circunferências e de traços rectilíneos constituem figuras verdadeiramente labirínticas e de interpretação bastante difícil.

Segundo aferiram os dois últimos cientistas, “as gravuras (…) parecem resultar da percussão da superfície da rocha, seguida da fricção dos sulcos abertos, possivelmente segundo um desenho previamente riscado.”

“Não são todas da mesma idade e com facilidade isso se constata. Desde as mais apagadas ou patinadas até às de traço mais recente (…), há uma infinidade de estados intermediários, atestando uma tradição desde longa data perpetuada no Tchitundo-hulo.”
O professor Santos Júnior2 apresenta várias razões para defender a antiguidade destas gravuras, sendo uma delas o seu grande número, o que “deve corresponder a um largo período de utilização daquele monte para a prática de quaisquer cerimónias, nas quais a execução de gravuras no chão de 
pedra fizesse parte integrante do respectivo ritual.”

“É também lícito imaginar que correspondam a um período de certa permanência nas redondezas do povo que tão exuberantemente deixou assinalada a sua presença naquele grande morro.”
“Por isso, é lógico admitir que a antiguidade daquelas gravuras corresponda a um período de condições climáticas menos severas do que as actuais naquela orla do deserto, onde a falta de água é manifesta, por a chuva ser rara e escassa.”
Devido à escassez de água, o Tchitundo-hulo é, presentemente, apenas um abrigo temporário das populações cuvales, que por ele passam em busca de pastagens e água para o seu gado.
Na rota das suas deambulações, o morro acolhe-os por pouco tempo. Por ali erguem o “sambo” (cercado de ramos de espinheira), onde o gado pernoita, assim como os pastores, que se acolhem em pequenas cabanas cónicas, cobertas de bosta de boi, com porta baixa e, por vezes, curto alpendre.
A carta étnica de Angola de José Redinha, editada em 1975, referencia o Tchitundo-hulo como pertencendo à zona de ocupação dos Cuíssis, com os Cuvales a oriente, estendendo-se até aos contrafortes da serra da Chela.


Em relação aos nomes Tchitundo-hulo Mulume e Tchitundo-hulo Mucai, distantes um do outro cerca de mil metros, o primeiro (com muitas gravuras rupestres e um abrigo, ou pala com pinturas no tecto) significará o homem e o outro a mulher.
Entre os muitos outros “inselbergs” que ali se erguem, Camarate França refere-os sob a designação de mãe e filha, não tendo os naturais da região sabido explicar o motivo que os terá levado a dar-lhes estes nomes.
Parece evidente que Tchitundo significa monte ou morro. É na significação de hulo que as opiniões divergem.
Em Março de 1970, Cornelius Prinsloo refere ao professor Santos Júnior que Tchitundo-hulo significaria Monte do Céu, em virtude de se acreditar que as figuras de círculos concêntricos – especialmente as que se encontram raiadas – e que constituem o motivo dominante dos desenhos, representam astros.
O dr. Alberto Machado Cruz , que foi conservador do Museu da Huíla, informa que terá havido no alto do morro um acampamento que se chamava Tchitundo-hulo (Acampamento do Céu).
Por sua vez, o padre Carlos Estermann assinala: “Quanto a hulo, supõe que o seu significado não pode ser concretamente o que lhe tem sido atribuído… Monte Sagrado. Será Tchitundo-n’cola, visto que n’cola ou uncola significam sagrado. Para dizermos Monte do Céu seria Tchitundo-èúlo, visto que èúlo é céu.”
Segundo parecer deste ilustre reverendo, hulo pode significar último, derradeiro, e acrescenta que, por exemplo, ondjila hulo quer dizer caminho último, fim de caminho, ou ainda caminho terminado.”


E conclui o professor Santos Júnior:
“Como o fim do caminho da vida do homem é a morte, fim último, pode, pois, emitir-se a hipótese de ser aquele monte local de especial veneração entre os naturais da região, por ali terem realizado as cerimónias dos ritos de passagem e mesmo práticas rituais em manifestações fúnebres de culto pelos mortos.”

Que gravuras encontraremos ali, nos dias de hoje, em perigo de desaparecerem, vandalizadas impunemente por quem ignora o seu valor?
“…grande número de símbolos astrais, círculos e desenhos abstractos (…), pequeno número de animais de grande porte ou médio. Ausência de figuras antropomórficas (…), sobreposições de gravuras, desde as mais apagadas ou patinadas (que constituem a grande maioria), até às de traço mais vivo, (o que nos leva) a concluir que desde tempos recuados até quase aos nossos dias têm feito gravações no Tchitundo-hulo Mulume.”
“Só vimos seis representações de animais, três antílopes, um  chacal e duas cobras. É possível que haja mais e nos tenham passado despercebidas.”

Fotos: Emídio Canha


in AUSTRAL nº 50, artigo gentilmente cedido pela TAAG - Linhas Aéreas de Angola

  • 1. Arqueologia Angolana de Carlos Ervedosa, ed.Minist. da Esducação, 1980
  • 2. Santos Junior,1974, Ervedosa,C,1974
por Dario Melo
 http://www.buala.org/pt/vou-la-visitar/o-traco-enigmatico-das-gravuras-rupestres-de-tchitundo-hulo