Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 1 de março de 2018

AÍ ESTÃO ELES. OS TIGRES DA BAÍA DOS TIGRES...






"Transcreveremos aqui os apontamentos que a respeito d'essa tentativa nos ministrou o sr. P. Craveiro Lopes, um dos officiaes da expedição.

Saimos de madrugada e andámos por terra até ás duas horas e meia da tarde, caminhando uns para N. e outros para S., sem jámais encontrarmos agua, lenha ou gente. So vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes, e immensidade de aves, taes como pandas, pellicanos, patos e africanos; estas ultimas aos bandos de cem, e fazendo de longe como regimentos de soldados inglezes de fardas vermelhas e calças brancas; é muito bravia toda essa caça, e por isso custosa de apanhar.
Tanto nas vizinhanças do mar como para o sertão, recobrem o solo grandes dunas de areia, cuja superficie, açoutada do vento, está em constante movimento ondulatorio, exactamente analogo ao que tem as camadas conductoras das vibrações sonoras. Tão alentadas são algumas das dunas sertanejas que olhando do topo para a base, da banda de sotavento, isto ê, proximamente da banda do NE., para onde a inclinação é de uns 45° a 55°, turva-se a vista. Não são raras as que vingam a altura de um sexto andar de Lisboa, e deixando cair um corpo de bastante peso e superficie no cume de um d'esses outeiros, ouve-se como o estampido de uma arma de fuzil.

Por segunda vez descemos a terra ao romper da manhã de 23 de dezembro de 1854, e ao cabo de andarmos 4 ou 5 leguas encontrámos um preto, pescando na borda do mar e junto a umas pedras. Interrogado pelo nosso interprete soubemos que pertencia a uma tribu errante, para a qual estava pescando e que acampára nas proximidades. Procurámo-la e vimos que se compunha de 4 homens, 3 mulheres, 6 crianças e 19 cães, tudo accommodado em 2 barracas e um cercado feito de costellas e outros ossos de baleia; sustentavam-se de peixe, secco ao sol; bebiam agua tão pessima que, apesar de ardendo em sede, não podémos entrar com ella, e vestem-se apenas com trapos que lhes tapam as verilhas. Caso raro, rejeitaram a aguardente que se lhes offereceu, e sob pretexto de ser muito fria não aceitaram da nossa agua doce; comeram porém com avidez farinha de pau, e estimaram muito o tabaco. Por elles soubemos que ao cabo de 3 ou 4 dias de marcha para S. encontrariamos o rio Cunene».

Descripção e roteiro da costa occidental de Africa desde o cabo de Espartel até o das Agulhas
by Castilho, Alexandre Magno de, 1834-1871
Publication date 1866

https://archive.org/details/descripoeroteir00castgoog

PRAIA AMÉLIA: TANTAS HISTÓRIAS PARA CONTAR...

               Várias fotos da Praia Amélia no inicio do séc XX, no tempo da pesca à baleia feita por noruegueses



Hoje quem visita Moçâmedes e se desloca 5 km a sul na direcção da PRAIA AMÉLIA, já poucos vestígios do passado encontra, mesmo de um passado recente, com que possa ilustrar suas narrativas, porque tudo quanto era História vem sendo dali varrido com rodar do tempo. No entanto quem ali viveu decerto não se cansou de ouvir histórias contadas pelos antepassados sobre acontecimentos que tiveram lugar na PRAIA AMÉLIA, e que ficaram a marcar a História daquela praia.



Porquê PRAIA AMÉLIA? A ORIGEM DO NOME:

A PRAIA AMÉLIA era assim chamada porque em 1842 no banco de pedra ali existente encalhou a "escuna Amélia"  no banco de pedra alí existente.  A escuna fora pertença da Marinha de Guerra Portuguesa - esquadra miguelista - comprada em Inglaterra e aprezada pelos liberais em 1833.  A zona do banco era uma zona perigosa para a navegação marítima pois na baixa mar ficava a descoberto, e com a maré cheia era uma armadinha para os barcos de grande calado, que ousassem por ali passar. Os barcos mais pequenos, como as embarcações, traineiras, etc, podiam passar pelo canal existente entre a ponta da PRAIA AMÉLIA e o banco , mas os maiores tinham que passar ao largo do referido banco. Por alturas do ano de 1840, houve quem afirmasse ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passarem por entre o baixo e a praia da Amélia, ou seja pelo canal, que lhe fica fronteira, algo arriscado.




A PRAIA AMÉLIA, A CAPTURA DE BALEIAS E A GRANDE FÁBRICA DOS NORUEGUESES ...



Decerto os que ali viveram ouviram falar de uma fábrica de grandes proporções para a época, de capitais noruegueses, que ali se instalou, no início do século XX, com seus barcos de pesca dedicados à captura de baleias.

A caça à baleia XIV teria sido iniciada em princípios do século XV, no golfo da Gasconha, por pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição dos gigantescos mamíferos, que acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. Era então a França era nessa  a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protetores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo, a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.  Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construidas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuídos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.

Enquanto os noruegueses ali trabalhavam praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso. As instalações encerraram, mas os noruegueses que ali trabalhavam marcaram para sempre uma época em Moçâmedes. Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, especialmente pela «Praia das Conchas».

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção.   Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 

Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. 
 


A PRAIA AMÉLIA E OS MOMENTOS DE LAZER DA POPULAÇÃO DE MOÇÂMEDES:  O TEMPO DOS BANHOS, DA PESCA DESPORTIVA E DAS ALMOÇARADAS NA PRAIA AMÉLIA


O tempo das almoçaradas na Praia Amélia, nos anos 1950. Foto cedida por Olimpia Aquino.


A pescaria de João Duarte situada mais a sul da Praia Amélia, a dar para a zona funda da praia de banhos, junto da ponte, (zona que permitia a atracagem de traineiras e de barcos de certo calado), para além da grande contribuição para o desenvolvimento de Moçâmedes, era a pescaria ideal para onde aos domingos pela manhã, no Verão, se deslocavam familiares e amigos para ali passarem o dia em ameno convívio e confraternização, quer tomando banhos de mar na zona funda mais próxima da ponte, quer na  mais afastada, sem fundão, mas com altas ondas, que se fosse hoje em dia dava para a prática do windsurf.  Outros preferiam a pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, caça submarina, pesca desportiva, etc. Eram encontros que tinham o seu ponto alto à hora do almoço, quase sempre uma caldeirada de peixe feita mesmo ali por baixo do telheiro da pescaria, lado a lado com os tanques de salga do pescado. As famílias carregavam consigo frutas e doces refrigerantes, bebidas, toalhas, guardanapos, louças, copos, talheres, etc. Cozinhavam ali mesmo sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo desses que foram vedeta antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia se faziam em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

Foto cedida por Antonieta Bagarrão. Em 1949 na Praia Amélia para uma banhoca. São Antonieta, Eduarda, M. Emilia, Lala, ?, Rui Bauleth e Pessanha. Embx: Carequeja, Elizabete Pessanha


A Praia Amélia era a alternativa mais próxima, à Praia das Miragens, no centro da cidade, aquela que oferecia uma maior variedade de diversões, uma vez que para além dos banhos, ali se podia pescar e até fazer  as já citadas almoçaradas em agradável e alegre convívio, uma prática que perdurou forte, pelo menos até meados dos anos 1950, e foi desvanecendo com  o aumento populacional e as novas e diversificadas ofertas  ao lazer das populações a partir dos anos 1960, a década em que tudo mudou. Esta década foi também a do início das "Festas do Mar" e a do "boom" populacional em Angola de que Moçâmedes beneficiou.

O modelo dos fatos de banho das raparigas, com uma espécie de saia à frente, e bastante subidos no peito denunciam a época. Talvez não tanto nas colónias de África, mas na Metrópole e no quadro do Estado Novo, as exigências e as probições eram enormes nesta década. O que se sabe, aliás, é que em 1941, com a entrada em Portugal de refugiados da 2ª Grande Guerra, estes pouco habituados aos pudores nacionais, iam para as praias do Estoril exibir seus corpos, daí terem sido publicadas regras sobre o uso e venda de fatos de banho, e estabelecido um sistema de fiscalização e sanções a aplicar aos transgressores, cabendo aos cabos do mar fiscalizar o seu estrito cumprimento. É claro que com a entrada e o desenrolar da década de 1950 já nada era assim. O sopro da modernidade veio acompanhado do bikini fez a sua aparição em finais dos anos 50, de início como que desafiando uma velha ordem  retrógada, beata e caduca!. Diz-se que nas colónias a moda do biquini avançou mais rápida que ma Metrópole .

 

Finais da década de 1940, Maria Emília Ramos conduzindo uma motorizada em plena areia da praia, na Praia Amélia. Algo inédito na época,  uma mulher conduzindo uma motorizada! Ao fundo, à direita, os giraus ou tarimbas para a secagem do peixe, e à esquerda, as instalações de João Duarte. Foto decida por Antonieta Bagarrão.

Um passeio de bicicleta à Praia Amélia. Atrás as casas dos empregados 
da pescaria de João Duarte, 1953.  São da esq. para a dt: Carlos Jardim, Mário Cruz, Tolentino Ganho, Rui Coelho Oliveira , Arménio Jardim  e Álvaro Jardim. Foto do meu álbum.


 A Praia Amélia em dia calmoso

A Praia Amélia em dia menos calmoso...


Na ponte da Praia Amélia, pescaria de João Duarte, com familiares e amigos do proprietário: ?, Guida, Embx: Ildete, Lala, Guida e Ricardina.  Foto cedida por Ricardina Lisboa



A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva por ocasião das "Festas do Mar" e de outras festas da cidade que as antecederam, enquanto a ponte era invadida por uma multidão de espectadores, gente de ambos os sexos e de várias idades, interessadas na modalidade.

  Nídia e Arménio na ponte da pescaria de João Duarte, em dia de Concursos de Pesca Desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Foto do meu álbum.


 
 Arménio e Eduardo Braz na ponte da pescaria de João Duarte.  Do meu álbum.


Pesca Desportiva
Pesca Desportiva
 
Pesca Desportiva


John Pereira exibe o seu troféu de caça submarina

John e Saturnino





 A PRAIA AMÉLIA. AS PESCARIAS DE JOÃO DUARTE E DO VENÂNCIO



Em meados do século XX duas grandes empresas dedicadas à indústria pesqueira brilhavam  na PRAIA AMÉLIA, a de Venâncio Guimarães e a de João Duarte, ambas ligadas, respectivamente, à fabricação de conservas de peixe e à fabricação de guanos, que deram a sua grande contribuição para o avanço do Distrito.

João Duarte era então o mais bem sucedido morador do Bairro da Torre do Tombo, o bairro onde vivia. Foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. A sua pescaria na Praia Amélia, com a gestão familiar, e a participação de todo um conjunto de trabalhadores, brancos, negros e mestiços, gente de terra, gente do mar, mestres contra-mestres, motoristas, pessoal auxiliar (contratados), capatazes, etc etc, foi evoluindo, e em 1968 quando faleceu tinha uma fábrica de farinha e óleo de peixe totalmente automatizada, e 3 traineiras de bom porte, que garantiam a matéria prima -  a João de Deus, a Zita Lourdes e a Maria Margarida, e ainda instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, uma ponte, várias casas para o pessoal E até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares , abençoadas pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios.


 
Uma parte das instalações da pescaria de João Duarte que já fazia parte integrante da paisagem!
Este telheiro era o "cartaz" que nos remetia de imediato para Praia Amélia naqueles tmpos em que a colonização como que inesperadamente chegara ao fim.
 Na praia trabalhadores europeus e africanos lavando as redes. Ao fundo, a ponte da pescaria de João Duarte. Mais ao fundo, as instalações da Pescaria de Venâncio Guimarães. Foto Salvador

A traineira "Maria Margarida"

Momentos da laboração . Pescaria de João Duarte
A fartura do pescado

 

Traineira de João Duarte. Foto da família Duarte
 


 A labuta da pesca. Os contratados.
  A labuta da pesca. Os contratados
 
  A labuta da pesca. Os contratados.
  A labuta da pesca. Preparando o peixe: contratados, quimbares e pescadores algarvios...
João Duarte, o industrial da Praia Amélia, vivia na casa cor de rosa da esquina, no Bairro periférico da Torre do Tombo, que dá acesso à Praia Amélia, era proprietário de todas estas casas térreas de traça colonial portuguesa, que incluía uma loja (ao fundo, à esq.), um dos conjuntos mais preciosos, em termos da arquitectura histórica  de valor cultural, marco da trajetória de uma sociedade que teve na pesca a grande actividade impulsionadora.



A Capela da Praia Amélia 



A determinada altura, por volta dos anos 1950, João Duarte mandou construir na Praia Amélia esta CAPELA, para a qual importou da Metrópole uma imagem da Santa da sua devoção, e onde se tiveram lugar ao longo de 2 décadas cerimónias religiosas, para além de baptizados e de casamentos. Eram geralmente baptizados e casamentos ligados à familia de João Duarte. A capela da Praia Amélia foi o que escapou à voragem das demolições que tiveram lugar há uns anos atrás, e que se desenrolaram num abrir e fechar de olhos...





Ficam estas recordações.


Pesquisa e texto de
MariaNJardim


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES COMO PATRIMÓNIO HISTÓRICO E CULTURAL (by MariaNJardim)





 










Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga, para alcançarem a imortalidade. Daí que os cemitérios ou necrópoles sejam muito mais do que um lugar de descanso para entes queridos. Eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas para se tornarem, também um patrimônio arqueológico, artistico, histórico e cultural. São pois lugares de Arte, que guardam Historia, que suscitam memórias, sendo alguns cemitérios verdadeiros museus ao ar livre.

E assim sendo, andar por um cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular pode despertar os sentidos, trazer prazer ao observador. Cemitérios oferecem-nos uma viagem no tempo. São espaços que contam histórias sobre a História e sobre as gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, artístico e social da sucessão das épocas desde que foram construídos. Alguns cemitérios podem ser considerados verdadeiros museus ao ar livre.

Os cemitérios obedecem, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, tal como as portas das casas. Possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Com a avançar do século XX, a entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre e lugares de arte, de história, de arquitectura, de escultura e de genealogia. É o que explica boom actual do necroturismo europeu. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. Em Lisboa, no Cemitério dos Prazeres as visitas ao jazigo dos duques de Palmela, o terceiro maior da Europa, bate records em termos de visitação turística.

Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas gratuitas duas vezes por mês, aos sábados ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial, As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris a prática da visitação turística de Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor preservaram e continuam a preservar os seus mortos, porque mais cedo tomaram consciência do valor artistico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. Porque cemitérios integram Arte, História,suscitam memórias, alguns são verdadeiros museus ao ar livre, uma mais valia a conhecer e a explorar.


Abstraindo-me da consideração que todos mortos merecem, independentemente do seu estatuto social, estou a lembrar-me do valor histórico dos mais importantes mausoléus e jazigos existentes no cemitério de Moçâmedes, que têm resistido ao tempo e à degradação e remetem para a fundação da cidade. Sim, porque talvez excepto jazigos e mausoléus, mais e menos imponentes, as mais humildes sepulturas, sem ter quem delas cuide, nestes 40 anos, já devem ter desaparecido com a voragem do tempo.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar, e até mesmo vir a ser visitado por estudantes no decurso de pesquisas para trabalhos escolares e de licenciaturas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

E se assim vier a acontecer, o guia turístico de uma rota por este Cemitério torna-se indispensável. Passando ao lado de cada túmulo ele terá que fazer um resumo da vida e da acção em Moçâmedes de alguns dos colonos fundadores que ali respousam e cujos túmulos chegaram aos nossos dias.


Sem fazer a apologia do colonialismo, baseando-me apenas em relatos de factos, passo a mostrar alguns dos mais mais importantes túmulos presentes no Cemitério de Moçâmedes. Este é túmulo do colono João Duarte d´' Almeida, considerado um dos colonos fundadores, embora não tivesse feito parte de nenhum dos grupos de colonos vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850.
Era natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), e com mais 4 irmãos era filho de João Duarte de Almeida (bacharel em medicina), e de D. Ana Emília Duarte de Almeida (nome de solteira Ana Emília Brandão, natural de Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça em Portugal). Nasceu em 26 de Março de 1822 e faleceu no dia 9 de Julho de 1898, em Moçâmedes, onde repousa no Cemitério local, sob artístico mausoléu mandado erguer por sua esposa e filhos.
O artístico mausoléu só por si já é uma obra de arte para quem tenha a capacidade de para ele olhar e o apreciar, numa terra tão carente de monumentos. O túmulo de João Duarte d' Almeida, erguido por subscrição pública, não apenas se distingue e se projecta no Cemitério de Moçâmedes, mas também evoca memórias ligadas aos primórdios da colonização, e remete para a História das Religiões e para a História das Mentalidades.

João Duarte d' Almeida foi um grande agricultor, um empreendedor de sucesso, um desbravador de terras incultas, cujos produtos, alguns anos apenas a seguir a fundação já estavam presentes em várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), onde foi contemplado com medalhas de ouro pela boa apresentação. Produtos de Moçâmedes!

Não é possível falar de Duarte de Almeida com propriedade, sem falar da terra que o pioneiro viu nascer. João Duarte d'Almeida foi protagonista de momentos-chave na História de Moçâmedes, na qual deixou a sua marca. Eis, para memória futura, alguns feitos ligados a Moçâmedes e à sua pessoa:

- Assinou a célebre "Escritura de Promessa e Voto", acto solene do reconhecimento do 4 de Agosto de 1849, como dia de Moçâmedes, a celebrar anualmente, na Igreja Matriz, com missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus", costume que ainda perdura. Esteve investido nos cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal. E pelo alto desempenho em favor do progresso de Moçâmedes foi agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa".

- O seu nome bem como da sua fazenda de S. João do Norte, estão intimamente ligados ao cemitério de São Nicolau, um dos locais mais interessantes para estudo da arte tumular Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", e à obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba - um ex-escravo, serviçal que ele mandou especializar-se em Lisboa em estelas funerárias. A Arte Mbali ou Mbari, arte invulgar em África, surgida antes do seu falecido em 1898, representa uma cultura de fusão (afro-cristã) que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, e em madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a morte, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração. Os canteiros "quimbares" de Moçâmedes inseriam nas cruzetas, trabalhos em relevo que descreviam o que as pessoas haviam sido em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus interesses, os acontecimentos que as marcaram, e tudo isso através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores, tais como a"mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); o "leão" (para os caçadores); a "bola" (para o futebolista), e outros símbolos mais como o "chicote", a "palmatória", o "cajado do capitão", a "cobra de que fora mordido", o oficio que possuía ao falecer, etc... Infelizmente as histórias que ali se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. Da sua autoria, eram as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc que ilustram alguns textos dedicados ao assunto. Desconhecemos o que foi feito delas, se ainda existem ou em que estado se encontram . Uma preciosidade para a História de Moçâmedes.

Para além destes aspectos, João Duarte d' Almeida juntamente com Bernardino Abreu e Castro, chefe da 1ª colonia de 1849, desenvolveram esforços pela abolição total do tráfico de escravos e o fim da escravatura interna. Ambos estiveram em contacto com o general Sá da Bandeira, a quem iam dando conta da situação e solicitando o estabelecimento de um regime de trabalho livre, contra situações de escravatura interna, e de tráfico clandestino que se estabeleceram a seguir à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, em 1836.

Para os que não sabem, estes eram tempos de reconversão económica de Angola, em que Sá da Bandeira, após a queda do regime absolutista em Portugal, aproveitando-se de uma conjuntura favorável apressou-se a publicar o decreto da abolição do tráfico de escravos em território português. Existia até então em Angola e em várias colónias de África, todo um sistema económico montado na base do negócio legal de escravos para o Brasil e Américas, que se esboroou, e passou a fazer-se na clandestinidade, fugindo ao Decreto abolicionista e às brigadas marítimas portuguesas e inglesas que em perseguição do mesmos, patrulhavam a costa. Era um tempo de falta de braços de trabalho, de fuga de escravos, em que o governo português fora levado a distribuir os escravos libertados de navios negreiros apresados, pelas actividades económicas em formação em que Moçâmedes também recebeu escravos e ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, sem os quais a economia do distrito estava em risco de tudo deitar a perder.

As ideias de João Duarte d' Almeida e de Bernardino Abreu e Castro, desagradavam aos grandes comerciantes de tráfico negreiro de Luanda e de Benguela, que não sabiam nem queriam lidar com outro tipo de «mercadoria» se não o escravo. A exportação do marfim, da cera, da goma copal, da urzela não lhes interessava nem aos seus concessionários, uns e outros habituados aos grandes lucros, com pouco esforço. A incapacidade de reconversão conduziu ao desespero as burguesias destas duas cidades, cujos textos históricos nos dizem que eram maioritariamente mestiças que beneficiavam do vil negócio, em conluio sobas e intermediários negros a partir do sertão. Esta organização que envolvia negociantes na sua maioria com interesses no Brasil e que durante séculos alimentou a economia angolana, e a Corôa portuguesa através dos direitos aduaneiros cobrados, envolveu brancos, negros e uma maioria mestiça, gente do lado de cá e de lá do Atlântico que acabaria por entrar em decadência com a vigilância marítima internacional e as pressões por parte do Governo central. Foi apenas em 1869, que foi abolido o estado de escravidão, mas há notícia que o trabalho compelido se arrastou por muito mais tempo e que alimentou a nova ordem a partir de então estabelecida.

A História tem que ser compreendida no quadro da mentalidade e da cultura de cada época.

São algumas memórias que o túmulo de João Duarte d' Almeida evocam. Positivas e negativas, temos que nos confrontar com elas, nunca pondo de parte o contexto e as mentalidades da época!



Parando em frente ao mausoléu de um outro pioneiro da fundação, o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, diríamos que o 1º médico-cirurgião da terra, cuja vida foi quase toda vivida em Moçâmedes, onde faleceu, embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, não se limitou a exercer clínica, entrando para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Em Moçâmedes o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro mandou construir a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. O movimento "Arte nova", ou "Arte noveau", surgiu em Paris na 2ª metade do século XIX, e espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e outros países do mundo, e chegou à África e a Moçâmedes graças a este talentoso 1º médico-cirurgião de Moçâmedes que deixou igualmente um palacete numa Horta vizinha do sítio da Aguada. (1) Em ambos os casos um riquíssimo património. Infelizmente nem no tempo colonial, nem nos dias de hoje, o belo edifício em Arte Noveau, carente de conservação e de restauro, tem recebido a consideração que merece.

Mas há outras facetas da vida deste médico, Lapa e Faro era uma personalidade singular, ele próprio um artista, um artesão, um apaixonado por África, comparado a um Robinson Crusué, pela sua habilidade em todos os ofícios, capaz de cozer a sua própria roupa, seja calça sejam chapéus, como tratar doentes na sua qualidade de médico que comodamente visitava servindo-se de um carro de novo género, que tinha por motor um boi-cavalo, e que havia mandado construir para transportar as pessoas doentes ou fragilizadas, e para frequentar caçadas pelos areais do Deserto do Namibe.
Preferia viver no campo, na sua casa da Horta ou na Quinta dos Cavalleiros, vizinha da de Bernardino, onde tenciona ter-se-ia ocupado da cultura do algodão.

Lapa e Faro acompanhou o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações. No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações,.

Quantas memórias e quanta História estes túmulos suscitam !

João Duarte d' Almeida e o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro são apenas dois pequenos exemplos. Há muitos mais!
Pesquisa e texto de MariaNJardim 

Este texto, de minha autoria, já se encontra publicado em Moçâmedes, Registos e Factos e tem direitos de autor. Incorre em
PELÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autoria

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O traço enigmático das gravuras rupestres de Tchitundo-hulo



Foi há cerca de cinquenta anos que o Tchitundo-hulo começou a interessar os cientistas. Em 1952, o geólogo Camarate França iniciou o estudo da estação. Em 1954, o etnólogo alemão Herman Baumann observou as gravuras e pinturas do Tchitundo-hulo Mulume e encontrou o Tchitundo-hulo Mucai.

Já na década de 70, coube ao professor angolano Carlos Ervedosa1 e ao professor Santos Júnior (a quem se deve o registo de novas gravuras no Tchitundo-hulo Mulume, assim como a descoberta da Pedra da Lagoa e da Pedra das Zebras) visitar e efectuar pesquisas nesta estação.
O Tchitundo-hulo Mulume deve ter cerca de duas mil gravuras, quase todas de tipo geométrico. Associações de circunferências e de traços rectilíneos constituem figuras verdadeiramente labirínticas e de interpretação bastante difícil.

Segundo aferiram os dois últimos cientistas, “as gravuras (…) parecem resultar da percussão da superfície da rocha, seguida da fricção dos sulcos abertos, possivelmente segundo um desenho previamente riscado.”

“Não são todas da mesma idade e com facilidade isso se constata. Desde as mais apagadas ou patinadas até às de traço mais recente (…), há uma infinidade de estados intermediários, atestando uma tradição desde longa data perpetuada no Tchitundo-hulo.”
O professor Santos Júnior2 apresenta várias razões para defender a antiguidade destas gravuras, sendo uma delas o seu grande número, o que “deve corresponder a um largo período de utilização daquele monte para a prática de quaisquer cerimónias, nas quais a execução de gravuras no chão de 
pedra fizesse parte integrante do respectivo ritual.”

“É também lícito imaginar que correspondam a um período de certa permanência nas redondezas do povo que tão exuberantemente deixou assinalada a sua presença naquele grande morro.”
“Por isso, é lógico admitir que a antiguidade daquelas gravuras corresponda a um período de condições climáticas menos severas do que as actuais naquela orla do deserto, onde a falta de água é manifesta, por a chuva ser rara e escassa.”
Devido à escassez de água, o Tchitundo-hulo é, presentemente, apenas um abrigo temporário das populações cuvales, que por ele passam em busca de pastagens e água para o seu gado.
Na rota das suas deambulações, o morro acolhe-os por pouco tempo. Por ali erguem o “sambo” (cercado de ramos de espinheira), onde o gado pernoita, assim como os pastores, que se acolhem em pequenas cabanas cónicas, cobertas de bosta de boi, com porta baixa e, por vezes, curto alpendre.
A carta étnica de Angola de José Redinha, editada em 1975, referencia o Tchitundo-hulo como pertencendo à zona de ocupação dos Cuíssis, com os Cuvales a oriente, estendendo-se até aos contrafortes da serra da Chela.


Em relação aos nomes Tchitundo-hulo Mulume e Tchitundo-hulo Mucai, distantes um do outro cerca de mil metros, o primeiro (com muitas gravuras rupestres e um abrigo, ou pala com pinturas no tecto) significará o homem e o outro a mulher.
Entre os muitos outros “inselbergs” que ali se erguem, Camarate França refere-os sob a designação de mãe e filha, não tendo os naturais da região sabido explicar o motivo que os terá levado a dar-lhes estes nomes.
Parece evidente que Tchitundo significa monte ou morro. É na significação de hulo que as opiniões divergem.
Em Março de 1970, Cornelius Prinsloo refere ao professor Santos Júnior que Tchitundo-hulo significaria Monte do Céu, em virtude de se acreditar que as figuras de círculos concêntricos – especialmente as que se encontram raiadas – e que constituem o motivo dominante dos desenhos, representam astros.
O dr. Alberto Machado Cruz , que foi conservador do Museu da Huíla, informa que terá havido no alto do morro um acampamento que se chamava Tchitundo-hulo (Acampamento do Céu).
Por sua vez, o padre Carlos Estermann assinala: “Quanto a hulo, supõe que o seu significado não pode ser concretamente o que lhe tem sido atribuído… Monte Sagrado. Será Tchitundo-n’cola, visto que n’cola ou uncola significam sagrado. Para dizermos Monte do Céu seria Tchitundo-èúlo, visto que èúlo é céu.”
Segundo parecer deste ilustre reverendo, hulo pode significar último, derradeiro, e acrescenta que, por exemplo, ondjila hulo quer dizer caminho último, fim de caminho, ou ainda caminho terminado.”


E conclui o professor Santos Júnior:
“Como o fim do caminho da vida do homem é a morte, fim último, pode, pois, emitir-se a hipótese de ser aquele monte local de especial veneração entre os naturais da região, por ali terem realizado as cerimónias dos ritos de passagem e mesmo práticas rituais em manifestações fúnebres de culto pelos mortos.”

Que gravuras encontraremos ali, nos dias de hoje, em perigo de desaparecerem, vandalizadas impunemente por quem ignora o seu valor?
“…grande número de símbolos astrais, círculos e desenhos abstractos (…), pequeno número de animais de grande porte ou médio. Ausência de figuras antropomórficas (…), sobreposições de gravuras, desde as mais apagadas ou patinadas (que constituem a grande maioria), até às de traço mais vivo, (o que nos leva) a concluir que desde tempos recuados até quase aos nossos dias têm feito gravações no Tchitundo-hulo Mulume.”
“Só vimos seis representações de animais, três antílopes, um  chacal e duas cobras. É possível que haja mais e nos tenham passado despercebidas.”

Fotos: Emídio Canha


in AUSTRAL nº 50, artigo gentilmente cedido pela TAAG - Linhas Aéreas de Angola

  • 1. Arqueologia Angolana de Carlos Ervedosa, ed.Minist. da Esducação, 1980
  • 2. Santos Junior,1974, Ervedosa,C,1974
por Dario Melo
 http://www.buala.org/pt/vou-la-visitar/o-traco-enigmatico-das-gravuras-rupestres-de-tchitundo-hulo

sábado, 23 de dezembro de 2017

A FOCA


 

Foto Salvador
Foto Salvador

Foto Salvador

MOÇÂMEDES. MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: A FOCA


No vasto jardim da Avenida da República, em Moçâmedes, Angola, avenida paralela à Rua da Praia do Bonfim, num local privilegiado da cidade, em frente ao belo e clássico edifício do Banco de Angola, onde ainda no início da década de 1950 existia um romântico Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do polo sul, influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava, e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de toda a gente, incluso de mães com as suas crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia ter passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade.

Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevemos que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou.



A FOCA
Foi morta, a tiros vis, a foca, a grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

 E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora, a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz,  da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!

Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
 Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

(Angelino da Silva Jardim)

domingo, 19 de novembro de 2017

Moçâmedes do antigamente: era Natal...



Já cheirava a Natal!... O Natal estava a chegar e os gourmets da Rua das Hortas sempre a aviar: o Gingubinha; o Brasileiro; o Jaime Cariongo e ainda outros mais que a concorrência era grande e havia que aproveitar.

As lojas de brinquedos, essas então, punham os miúdos a delirar e a sonhar: e era um martírio para os pais arrancá-los das montras dos Armazéns do Minho, do Venâncio Guimarães e do Pires Correia. Mas a mais espectacular de todas era, sem dúvida nenhuma, a montra do Pires Correia.
Era tão apelativa, tão encantatória que alguns miúdos se passavam de todo, sabendo de antemão que nenhum daqueles brinquedos viria a ser seu. Por isso, o Tolentino extravasava as suas raivas metendo pelo buraco das portadas das montras do Pires Correia um fino caniço e com ele jogava o bilhar com os brinquedos, pondo num caos a bonita montra feita com tanto desvelo.

E, então, numa das noites antes do Natal, o velho Pires Correia apanhou o Tolentino em flagrante delito e, furibundo, levantou-o do chão pelos fundilhos dos calções, mas…, milagre de Natal!, fez-se luz... e veio a compaixão. Em vez de dar duas galhetas ao Tolentino, o bom velho Pires Correia fez um trato com o miúdo:

- Eu conheço-te, tu és filho da D. Máxima. Vamos fazer o seguinte: eu dou-te um brinquedo de Natal à tua escolha e tu prometes nunca mais desfazeres a minha montra. Combinado?

E o Tolentino escolheu, então, o maior brinquedo que por lá havia: um carrão dos bombeiros, todo ele feito de madeira, vermelho, vermelhão e com uma dezena de bonitos bonequinhos armados de capacetes também vermelhos...

Depois havia os mucubais que, vindos do Giraul de Cima com os últimos cabritos vivinhos da costa, batiam à porta das casas humildes para vendê-los a preços da uva mijona.

E a avó Catarina perguntava:
- Quanto custa cada cabrito?
- Cinco angolares, Senhora, respondia o mucubal.
- Então, o ano passado era quatro angolares cada um, agora é mais caro 25%? Como é isso?
- E o mucubal volvia, então, com manifesta convicção: “É a inflação, Senhora, é a inflação que não pára”
- Vá lá, contemporizava, contrariada, a avó Catarina, não convencida de todo, instruindo o mucubal: - Dá a volta e leva o cabrito para o quintal.

No quintal, já estava a Maria Torresmo à espera, de facão em riste, para a matança do pobre animal. E mal começava a esquartejar o cabrito, dava logo início a um monólogo bem audível que abria o apetite a quem a ouvia, mesmo aos próprios acamados, que eram muitos nessa altura de transição. E ia fazendo o relato para si, alto e em bom som, do destino a dar ao desgraçado do bicho: -

“estas pernas assadas no forno, com umas batatinhas douradas e arroz de legumes salteados, acompanhados de um fresquinho vinho branco do alentejo; estas mãos, este peito, estas costeletas para a caldeirada, sem poupanças na cebola e no tomate, alho e louro q.b. e com muito gindungo para puxar pelo tintol, que maravilha!...”, dizia a Maria Torresmo, salivando e babando-se já a olhos vistos. E continuava a esquartejar sem dó nem piedade o pobre animal, membro a membro até às partes mais miúdas.

Mas a caldeirada de cabrito destinava-se apenas para o almoço do Natal, pois que para a Consoada era o tradicional bacalhau cozido, com a habitual couve portuguesa cobrindo as batatas e os ovos.
E para o próprio dia de Natal havia sempre uma ou outra família do Bairro da Facada que podia dar-se ao luxo de um almoço com mais requinte, como era, por exemplo, a casa do Tó Lindas.
É que, quanto a isso, o Tó Lindas tinha o seu segredo de Polichinelo bem guardado, supostamente só do seu conhecimento e de alguns poucos amigos.
Na realidade não devia ser bem assim, mas era assim que o Tó Lindas o concebia. Um pouco mais além da velha ponte-cais da Praia das Miragens, a Mãe Natureza tinha caprichosamente plantado no seu fundo arenoso uma vintena de lages, formando autênticos gavetões onde as lagostas tinham fixado residência.

Ninguém sabia ao certo quem tinha sido o seu descobridor, mas a verdade é que os capitães de areia do Bairro da Facada estavam de posse das suas coordenadas.

E era assim que o Tó Lindas nas vésperas de Natal, pelas seis da matina, pegava num saco de rede e nos óculos de caça submarina, vestia uma camisola velha de lã, que as águas em Dezembro ainda eram frias, e, assim munido, lá ia ele para a Praia das Miragens.

E ali chegado, mergulhava na parte norte da velhinha ponte-cais, nadava uns trinta metros para lá do cabeço da ponte e flectia, então, para a Praia do Cano, mas parando logo defronte à Capitania.
Não devia ser difícil configurar as coordenadas do lugar, porque qualquer pescador da Torre do Tombo o fazia diariamente com as suas sacadas ou na pesca à linha, quer fossem algarvios, madeirenses ou quimbares. Mas para os miúdos era obra.

Mas para o Tó Lindas, em particular, era canja; olhava para o Casino e para a grande árvore do quintal do dr Soares Pinto, e já estava; a sul, bastava olhar para o último canhão da Fortaleza de S. Fernando e para a pedreira da Torre do Tombo e… voilà!

Era só mergulhar, ir directo à capoeira das lagostas e escolher três das maiores. Apenas três, que o Tó Lindas não era nada ganancioso.
Quando chegava a casa, era recebido em festa. E havia almoço de Natal com requintes de gente fina; lagosta cozida com maionese. Maravilha!... E a avó Catarina não conseguia reter umas lágrimas que teimosamente lhe corriam pela face roída pelo tempo e pelas agruras da vida.
- Então, e o Capitão do Porto? – perguntava por fim a avó Catarina.

- O quê que tem, avó, o mar é dele?

À tarde, era o cinema do Eurico que passava o filme do Tarzan e, como habitualmente, os miúdos pobres tinham o seu presente com entrada livre no dia de Natal. E lá estavam todos eles na fila de entrada, os capitães de areia do Bairro da Facada, com o Tó Lindas à cabeça.
Começava o filme e quando o Tarzan, numa luta feroz, matava o leão ou nadava mais rápido do que o jacaré, a sala do cinema vinha quase abaixo com tanta claque e algazarra dos miúdos do Bairro da Facada.

Depois do filme terminado, iam todos a correr de alma cheia e coração ao alto, com alguns tostões nas algibeiras, directos para o Quiosque do Fautino para o lanche do Natal:

- Sr. Faustino, dois molhados para cada um.
- O que é isso de molhados, perguntava o Sr. Faustino.
- São panguengues – respondiam os miúdos.
- Falem português, seus palermas.
- Então, o Sr. Faustino não sabe? Molhados ou panguengues são papo-secos só com o molho das bifanas - explicitava o Tó Lindas.
- Não, não temos cá disso, só temos sandes de carne assada na panela – respondia o Sr. Faustino.
- Então o Bar do Sporting tem panguengues e o Sr. Faustino não tem! Como é isso, então?

E lá iam eles, os capitães de areia do Bairro da Facada, cantando e rindo, felizes e contentes, a caminho do Bar do Sporting em demanda dos molhados ou panguengues, que Deus Nosso Senhor assim mesmo os fez como são, por alguma boa razão que não conseguimos enxergar: pobretes… mas alegretes!...

Porque era Natal… e foi em Belém!...


(ass) Arménio Jardim