Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 5 de abril de 2018

O Rádio Clube de Moçâmedes





O projecto de um sonho irrealizado...
 Foto Salvador




A ideia da formação do Rádio Clube de Moçâmedes surgiu pela primeira vez  no jornal "O Lobito" de 11/06/1938, onde se anunciava a formação de uma Comissão organizadora para angariar fundos com vista à criação da sua emissora. 

Com uma verba de apenas 153 contos, a Comissão viu aprovados os Estatutos do Rádio Clube em Fevereiro de 1945. No entanto, a data oficial da sua criação é 20 de Novembro de 1944, e foi para o ar com um emissor de 50 W, em 1945.
O Rádio Clube Moçâmedes como todos os Rádios Clubes de Angola, nasceu como uma  associação clubística, e por tal necessitada de suporte financeiro,  daí que tendessem a tornar-se em verdadeiras empresas para através da publicidade e da comercialização dos seus programas caminharem no sentido duma crescente profissionalização dos seus colaboradores eventuais e não remunerados.Até lá havia que sobreviver com os proventos que giravam à volta da publicidade, e tal como os clubes desportivos da cidade, também das quotizações mínimas dos seus associados, que não eram muitos, para além do produto de algumas festas que levavam a cabo pelo carnaval, fim de ano, Programas da Simpatia, subscrições, etc. Muita coisa se ia fazendo graças à carolice de uns quantos habitantes da cidade que dela se orgulhavam e se esforçavam por a melhorar. Inda assim, o Rádio Clube Moçâmedes foi sem dúvidas, um grande impulsionador do desenvolvimento da cidade, naqueles 40 anos em que o território angolano superou todos os índices de crescimento, tendo a sua actividade, para além do campo informativo,  cultural  e lúdico se  expandido ao desporto através da promoção regular de relatos de futebol, de hóquei em patins e de basquetebol masculino e feminino.








 Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes quando esta ainda funcionava no prédio junto do antigo campo de futebol, ao fundo da Avenida da República (de cima para baixo e da esq. para a dt.) : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador. 




 
 Interessante foto dos primeiros tempos do RCM, que juntou  inúmeros colaboradores: Ana Liberato e Rui de Mendonça Torres. Foto Salvador
 Aqui podemos ver Celeste Gouveia (a Néné Carracinha) e Herondina Mangericão, entusiasmadíssimas no seu trabalho. Foto Salvado
 

Fernando Andrade Vieira, Orlando Salvador, Francisco Velhinho, Raúl de Sousa Fr/Lico Sousa,  e... Lico de Sousa. Este  chegou a ter um programa  cómico em que vestia a figura do negro "Canganiça" no qual ficou célebre a sua frase "Cada um é como cada qual e ninguém é como evidentemente!.  Foto Salvador


?, Frederico Costa, Rodolfo Ascenso,  e à frente, Oliveira (Maboque), César (electricista do RCM), Rui Bauleth de Almeida e António José Carvalho Minas. Foto Salvador
Orlando Salvador, José Roberto e Adriano Parreira. Foto Salvador

 


Colaboradores/as do Rádio Clube de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Néné Alves de Oliveira ao acordeon, ?, Julia Gomes à guitarra (fadista) e Manuela Evangelista (viola). Inauguração da sede do RCM? Foto Salvador.


 

Carlos Moutinho e Cecília Victos (ao centro) rodeado de outras figuras ligadas ao RCM, entre as quais  Lico de Sousa, Arlete Pereira, à dt e Rui Bauleth de Almeida atrás. Foto Salvador

Entre outros, da esq. para a dt: Luciano Sena, Evaristo Sena Fernandes, Sousa Santos, Soares e Silva, Domingos Barra, Embaixo: Rui Bauleth de Almeida, ?, Carlos Moutinho, Cecília Victor, Calila, ?, Antóno José Minas. Em cima, 1ª fila, Bica, Salvador, ?, Rui Torres, ?. Foto Salvador

 
Sebastião Coelho

Joana Campina


Carlos Meleiro

Salientam-se algumas  figuras pioneiras na história do Rádio Clube de Moçâmedes, nomes como o de Augusto Cantos de Araújo, de Carlos Cristão, Joana Campina (senhora de vasta cultura, licenciada em Letras e conhecida como declamadora de grande mérito) , Sebastião Coelho (foi contratado pela primeira vez, em 1951, para chefiar a produção do Rádio Clube de Moçâmedes, facto memorável logo pela razão de ser o primeiro radialista natural de Angola que se tornava profissional da Rádio) 1. E ainda Maria Manuela, Costa Pereira, Carlos Moutinho (Chefe de produção) , Carlos Meleiro (Chefe de produção), Ernesto de Oliveira, José Manuel Frota, Arlete Pereira, Rui Rodrigues Costa. Rui Bauleth de Almeida , António José Carvalho Minas, Edgar Teixeira, etc,etc.

Outros que deram a sua contribuição na fase do arranque da associação foram Magalhães Monteiro, Adriano Parreira,  Norberto Gouveia, Ana Liberato, Rui de Mendonça Torres, Celeste Gouveia (a Néné Carracinha), Herondina Mangericão, José Roberto, Cruz Almeida, Evaristo Sena Fernandes, Alfredo Falcão, Carlos Cristão, Raul de Sousa (Lico),  Rodolfo Ascenso,  César (electricista do RCM), Luciano Sena, Sousa Santos, Soares e Silva, Domingos Barra, etc, etc.


O Rádio Clube de Moçâmedes (CR6RM) “nasceu” numa casa que dividia com o Sindicato dos Empregados do Comércio (SNECIPA), frente ao Caminho de Ferro de Moçâmedes, ao lado da loja de tecidos, a Casa Pinheiro (Pirilau). Dada a proximidade, quando havia relatos de futebol
estendiam um cabo que ligava o relator à “regie”. Era assim que faziam as transmissões. O mesmo se passava quando havia jogos de interesse para Moçâmedes, em Sá da Bandeira, que eram transmitidos através da linha telefónica do C.F.M. No exterior utilizavam uma carrinha emprestada pelo Sindicato de Pesca, conduzida por Domingos Alves Figueiras, da qual existe uma foto.
No início dos anos 50, a famosa década que mobilizou toda uma população desde os mais jovens até aos de meia idade, quandofoi lançada a ideia da organização de um conjunto ou "orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes", tendo à cabeça o fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador, saxofonista e chefe da orquestra, para além dos pianistas Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e Martins da Alfândega, dos violinistas Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola), do acordeonista, Raúl Gomes Filho (que também tocava guitarra e viola), e dos bateristas Firmo Bonvalot e Albertino Gomes, não esquecendo o trompetista, Anselmo de Sousa que há época trabalhava na empresa de Abilio Simões.  E quanto a vozes que abrilhantaram programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado NAMIBE. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. 










Carlos Moutinho entrevistando a foca "Boni-Bonita"



O Rádio Clube de Moçâmedes, como todos os Rádios Clubes da época, pela sua natureza associativa clubistica, com direções democraticamente eleitas, como bem dizia Leonel Cosme. "eram o único espaço de relativa autonomia onde se manifestava a "opinião pública" das populações angolanas.  Mas havia um sonho difícil de concretizar: a construção da  futura sede do Rádio Clube de Moçâmedes, obra que teve como seu grande impulsionador o radialista e Chefe de produção, Carlos Moutinho, e um punhado de "carolas" que  graciosamente dirigiam aquela associação radiofónica, nunca chegou a ser concluída, e no ano da independência de Angola, devido à carência de verbas, reflexo da penúria dos meios e da ausência de ajuda do Estado à altura de projectos deste género, já se encontrava paralisada. 

Em 15/08/1952 foi  lançada a 1ª pedra a sede do Rádio Clube de Moçâmedes, um edifício a construir exclusivamente para o efeito. Eram sonhos que falavam demasiado alto,  e  não chegaram a ser concretizados, devido à carência de meios e à ausência de ajudas oficiais

Quem viveu em Angola naquele tempo sabe bem que este tipo de iniciativas dependia sempre da boa vontade das populações mais que de ajudas estatais, e que neste campo, o campo dedicado ao lazer das populações, tudo era conseguido a ferros e a toque de subscrições públicas. Foi o que aconteceu com o Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, outra obra inacabada que já foi por nós abordada, através de uma postagem.

Numa Angola riquíssima, Moçâmedes chegou-se à independência como uma cidade harmoniosa e com belas vivendas, em grande parte, graças aos esforços dos seus moradores.  Ao nível da habitação, não fosse Mariano Pereira Craveiro e outros "carolas" fundadores da sociedade cooperativa "O Lar do Namibe", Moçâmedes chegaria a 1975 reduzida ao velho casario do  seu centro histórico ou pouco mais, pois sequer havia créditos bancários destinados a habitação. O próprio Clube Nautico conseguiu completar o seu edifício, graças à ajuda dos industriais de Pesca, grande número dos quais a residir no bairro da Torre do Tombo, que contribuíram para tal com uma determinada percentagem que lhes era descontada por cada mala de peixe seco que entregavam no Grémio da pesca de Moçâmedes.


Ruínas que entristecem... Foto Salvador

As novas e inacabadas instalações ficavam para os lados da "Sanzala dos Brancos"


Visita do Governador Nunes da Ponte à antiga sede do Rádio Clube de Moçâmedes, em 1956/7 ?  tendo à sua esq. e à sua dt, Albérico Sampaio e Mário Rocha, ambos elementos da Direcção do RCM na altura. A antiga sede ficava na Rua da Praia do Bonfim, ao fundo, próximo do velho campo de futebol, em frente da Avenida.


Vem referida nesta foto a visita Governador do Distrito Salles Grade às novas instalações do RCM em 1956, acompanhado pelo "Capitão do Porto",  comandante Marrecas Ferreira,  Joyce Chalupa, Newton da Silva, Mário Rocha e Ferreira da Silva. Orlando Salvador e Sousa Jr. dão conta das modernas características dos novos gira-discos.

Na verdade já parecia uma praga, essa história das obras inacabadas: edifício do Rádio Clube de Moçâmedescuja planta prometia uma obra de valor e de grande embelezamento para aquela zona da cidade; Cine-Estúdio Satélite; Cine Estúdio "Satélite", o inacabado de arquitectura futurista revestido de belos painéis alusivos às actividades do Distrito, à cidade, ao deserto e ao mar, construido na zona alta da cidade, que fazia lembrar uma nave espacial pousada na "Cidade do Deserto"; complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, também na cidade alta. Ficou-se pelo campo de jogos, a aguardar por melhores dias para a sua conclusão...

Em meio a tanta carolice, alguns projectos surgiram em termos de  organização e gestão do RCM, mas que não passaram de sonhos. O projecto do Rádio Clube de Moçâmedes foi um desses projectos que não passou disso mesmo: Projecto!

MariaNJardim


(1) Sebastião Coelho, à frente da emissora de Moçâmedes, dá guarida e colabora, em parceria com Leston Martins, então naquela cidade, num programa de divulgação dos jovens poetas angolanos, que era igualmente apresentado no Rádio Clube de Benguela, em colaboração com a jornalista Helena Soeiro (Mensurado, por casamento com outro jornalista, José Mensurado também ele um dos dinamizadores da Mensagem. Na pequena e mais puxada ao Sul cidade de Angola - fundada, só na segunda metade do século XIX, por colonos luso-brasileiros fugidos de Pernambuco às defenestrações nativistas e sem assinaláveis tradições culturais - tem particular significado a acção quase "missionária" de Sebastião Coelho, apoiando a entronização, no Namibe, de um Movimento  da "novi-angolanidade", que os seus promotores já queriam ver distinto do "lusotropicalismo teorizado pelo brasileiro nordestino Gilberto Freyre, aproveitado pelo regime colonial e, ainda hoje, como que travestido numa difusa "crioulidade" que é, no fundo, um desvio da "angolanidade" defendida pelos "mensageiros" com o sentido de afirmação de uma personalidade autónoma e prospectivamente africana. (Leonel Cosme)


Ainda sobre o RCM: OUTROS SONHOS...



RÁDIO CLUBE NÁUTICO DE MOÇÂMEDES


Houve um tempo em que um grupo de amigos teve um sonho que ficou sempre no segredo dos deuses. Já não sei se a idéia terá sido minha, se do Mário , se do Andrade, que fazia parte do corpo directo do Rádio Clube, se do Alegria, locutor com o programa “O Calhambeque”, se a memória não me atraiçoa. Éramos todos amigos e colegas no Banco, o que por si só era meio caminho andado para transformar o sonho em realidade. Para lá do próprio projecto em si, o plano para a sua concretização era engenhoso, mas muito simples, e imbuído de boa fé e de um genuino idealismo que só existe enquanto a juventude não nos foge.

Mas, afinal, qual era o nosso sonho?

Se bem se lembram, a construção do edifício do Rádio Clube de Moçâmedes foi uma iniciativa, a todos os títulos louvável, do locutor Carlos Moutinho, professional competente que revolucionou a rádio da cidade. Simplesmente, por falta de apoios e vontade política, que era coisa que não existia naqueles tempos, o edifício acabou por ficar a meio, transformando-se num autêntico escarro no coração de uma zona que se estava a transformar num bairro bonito, graças à Cooperativa “O Lar do Namibe”.


Por outro lado, o Clube Náutico tinha sido projectado, de raíz, para levar um 1º andar, destinado aos seus serviços administrativos, coisa que viria a não se concretizar por falta também de verbas.
O nosso sonho era, pois, vender ao Lar do Namibe o inacabado prédio do Rádio Clube, com os seus terrenos adjacentes, e com os proventos daí resultantes construir o 1º andar do Casino, nome popular do Clube Náutico, e ali instalar o Rádio Clube. Ora, para se obter esse desiderato era necessário, obviamente, conseguir-se a fusão dos dois clubes. que passaria, então, a designar-se por “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes”. Mas essa fusão era o principal problema a ser ultrapassado, pois havia interesses instalados que tinham de ser removidos . A maioria das pessoas não se dava conta, mas a gestão do Rádio Clube girava à volta da publicidade, fonte substantiva das receitas, que era facultada de modo pouco transparente e pro bono a algumas, muito poucas, empresas da cidade; no Casino, o problema era de outro cariz e de muito mais fácil resolução: o clube tinha poucos associados, a maioria dos quais nem as quotas mensais pagava e estava entregue a uma vintena de sócios, apaixonados pela sala de jogos e pelo poquer. Os proventos resumiam-se às receitas originadas pela utilização do salão de festas por ocasião do carnaval, fim de ano e matinés dançantes aos fins de semana, suficientes para uma gestão equilibrada.

Havia, pois, necessidade de “tomarmos de assalto” de uma forma legal as duas direccões, o que se presumia fácil dado que, pela nossa experiência de sócios de ambos os clubes, sabíamos que nas assembleias gerais anuais as presenças resumiam-se sempre a meia dúzia de sócios. E no que toca ao Clube Náutico, era extremamente fácil vencer as eleições. O mais complicado, e que exigia uma maior cautela na manutenção do segredo, era o Rádio Clube, que possuia uma grande massa de sócios facilmente manipulada com as conhecidas procurações de última hora.

Era preciso, pois, que o nosso núcleo se expandisse em segredo absoluto apenas e tão só até a um número mínimo que nos garantisse a vitória na eleição do Rádio Clube. E sem nunca reveler o propósito final nem qualquer ligação com a Assembleia Geral do Clube Náutico, no qual detínhamos a maioria face ao irrisório número de sócios nele existente. Era um plano talvez maquiavélico, mas de uma pureza impoluta face ao idealismo que emanava da nossa juventude. E tínhamos a forte convicção de que iríamos não só engrandecer os dois clubes, como valorizar o edifício do Casino, em termos arquitectónicos, com reflexos directos para toda a envolvência da Praia das Miragens.
Mas naquela noite não houve nem lua cheia nem luar e o nosso sonho se esboroou quando, ao cair do pano, apareceram na assembleia geral do Rádio Clube as famigeradas procurações.

Sonhávamos um “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes” como verdadeiro ex-líbris da cidade do sol, sal e mar, fundada por uns sonhadores que ali chegaram na Tentativa Feliz e a erigiram a partir do absolutamente nada.

Mas, desgraçadamente, a história mostra-nos que em todos os lados e em todas as latitudes existe sempre um Miguel de Vasconcelos à mão de semear.
E nós tivemos o nosso. Por um prato de lentilhas

(ass) Arménio Jardim

quarta-feira, 28 de março de 2018

OS MONDOMBES ERAM O POVO MAIS PRÓXIMO, QUANDO DA CHEGADA DOS PORTUGUESES A MOÇÂMEDES



 Mondombes numa das ruas de Moçâmedes
Casal de Mondombes
Mondombes e filho

Mondomba e filho

Mondombes 
Mondombas
                                                                          Mondombes 


Dizem os entendidos que em Moçâmedes, por volta de 1860, existiam três tribus de negros, a Mini-Quipola, no vale dos Cavaleiros e proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vivia junto do rio do mesmo nome; e a Croque ou Coroca, que vivia igualmente junto ao rio do mesmo nome, sendo esta a mais afastada.  Estas tribus teriam novecentas pessoas de ambos os sexos nessa altura, e segundo João de Almeida in " Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), os MONDOMBES pertenciam às duas primeiras tribus citadas, contudo convém ter em conta que se chamavam MONDOMBES  indivíduos de algumas tribus do interior. Aliás, é comum adiantar-se que MONDOMBES  eram povos originários do Dombe (1), mas também não devemos esquecer que era comum as tribus adoptarem para si os nomes das terras onde iam habitar, quando das suas emigrações, ou o nome dos seus chefes, e ter em consideração que fusões entre povos de tribus diferentes foram acontecendo ao longo dos tempos. (2)
 
Segundo João de Almeida, in " Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), dificilmente se poderia determinar, porque os indígenas da região não pertenciam todos à mesma tribo, tendo a sua expansão para terras do sul sido gerada por invasões e emigrações violentas de várias tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidades da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção.

Importante seria estudar a marcha dessas diferentes emigrações, a proveniência dos povos que sucessivamente tem vindo a habitar esta região de Angola, estudo difícil e complexo, mesmo impossível dada a ausência dos elementos mais essenciais, uma vez que estes povos sem escrita, não pertenciam todos à mesma tribo, tendo a sua expansão para terras do sul sido gerada por invasões e emigrações violentas de várias tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidades da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção. João de Almeida considera mesmo impossível dada a ausência dos elementos mais essenciais, uma vez que estes povos sem escrita, não nos legaram nem documentos, nem edifícios nem monumentos, etc. Apenas os factos históricos que perduraram através da tradição oral.

Transcreve-se do livro de João de Almeida, algumas informações a este respeito colhidas na época, através de narrativa oral:  os povos gentios dos Cubaes, Dombe, Giraullo e Quipolla, pertencem todos à mesma raça, e os três últimos formaram por muito tempo um só povo, o qual por dissenções ocorridas com o soba do Dombe se refugiou para a Huila, indo ali mesmo uma guerra mandada pelo dito soba a persegui-lo, de novo emigrou, vindo parar em um lugar denominado pelo gentio Lutunda, entre o Bumbo e a Pedra Grande, donde se dividiu, indo uns habitar no país dos Mucubaes e os outros vindo aqui estabelecer as duas tribus do Giraullo (fim do caminho) e do Quipolla, hoje também já separadas, mas antes e desde a sua descida do centro do país reunidas no sitio Quissongo. Tendo-se retirado deste ponto alguns para o Coroque ali formaram a tribu d'esta denominação, alliando-se com os Muximbas. Esta ultima tribu dos Coroques é assaz notável pela sua linguagem gutural, talvez resultado da mistura do primitivo idioma com o dos Muximbas.

 
 “Mundombes” - Africa Occidental (Moraes 1882: s/p)




Como vivia este povo? 

No álbum Africa Occidental de  J. A da Cunha Moraes os MONDOMBES aparecem descritos como uma tribo nómada civilizacionalmente atrasada que habita o território entre Benguela e Moçâmedes. Apesar da sua cultura “do ultra-nú” e de “não saberem velar-se dos pés à cabeça com, pelo menos, folhas de parra”, são gente laboriosa, que se dedica à agricultura, à caça e ao serviço de transporte nos sertões (Moraes 1882: s/p).

OS MONDOMBES de Moçâmedes eram familias de pastores negros que viviam próximos da povoação, em cubatas feitas de ramos secos, por fora barradas com excremento do gado, do feitio dos fornos para onde entravam de agachados.

Conforme os escritos da época, os MONDOMBES eram polígamos, como todos os indígenas de África constituíam famílias onde um homem possuía três ou quatro mulheres e um grande numero de filhos. O seu governo pouco diferia do de todos os negros; tinham um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros). Eles viviam em harmonia com os brancos, a quem prestavam alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella (muito poucos).


 Naquele tempo de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravava o desenvolvimento das regiões, os MONDOMBES eram os povos "Carregadores" de Moçâmedes , dedicados por conta própria ao transporte de mercadorias, tais como eram os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela. Estes povos monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam o território angolano, em detrimento de quaisquer outras comitivas, eles impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas.

Apesar de grande número de MONDOMBES por essa altura já terem abandonado a vida nómade e semi-nómade, um terço levava ainda uma vida errante, com os gados em busca de pastos, e  aqueles que viviam perto dos europeus em nada modificavam os seus hábitos primitivos, não se deixando assimilar. E quanto à roupagem apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas ou panos que usavam. Os homens usavam um pano de algodão amarrado em volta do corpo, e outro lançado aos ombros como um manto, e traziam sempre um cajado na mão.  Eram de estatura elegante, robustos, bem constituídos, saudáveis, e as suas posições e movimentos distinguiam-se, pela desenvoltura, da dos negros de outras tribus, que levavam grande parte do dia sentados. Quanto à causa provável para a sua robustez e boa constituição, apontam-se os efeitos da selecção natural, ou seja, a sobrevivência do mais forte, daquele que melhor se adapta ao meio, e vai transmitindo a sua robustez de geração em geração, do mesmo modo como se transmitem moléstias hereditárias. Apesar de possuírem uma compleição física  bem constituída, os MONDOMBES eram sujeitos a constipações, por andarem quase nus, e terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo. As suas crianças andavam inteiramente nuas até aos oito ou dez anos, mas já antes dessa idade as raparigas usavam manilhas de vime.  Os MONDOMBES sustentavam-se de milho pisado com uma pedra, cozido em água e leite, tipo de alimento a que davam grande apreço. Antes da chegada dos colonos plantavam apenas milho, feijão e abóboras, mais tarde passaram a cultivar também a mandioca, o cará, as batatas, enriquecendo o produto das suas lavras. Os colonos idos de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes não só, levaram consigo sementes de espécies vegetais que ali espalharam, como nas duas deslocações a Luanda e ao interior, levavam dali novas sementes que iam enriquecendo quer os seus cultivos quer os dos nativos.

Os MONDOMBES tinham a idéa de um Ente Supremo, mas pouca adoração lhe prestava. O seu ídolo eram os gados, que cada um celebra com cantigas e libações. Não os vende, aproveita-se do leite que produzem. Acreditam numa outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquele dano.

No último quartel do século XIX, no distrito de Moçâmedes, com o estabelecimento da colónia boer que veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, as caravanas de "carregadores" MONDOMBES entram em recessão. Mas se exceptuarmos a linha férrea de Luanda a Cazengo, e a carreira fluvial do Quanza, de Luanda ao Dondo, feita com dois pequenos vapores, em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estava ainda sob a dependência das caravanas de "carregadores", sujeitos as mais variadas contingências, de entre as quais, os capricho dos sobas, a rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio , as guerras gentílicas, os conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos, proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciais, etc.

A este texto acrescentarei ainda apenas uma pequena nota, pois não me passou despercebido o modo preconceituoso com que à época eram encarados estes povos, que por se encontrarem num estádio civilizacional  diferente, aqueles estádio pelo qual todos os povos passaram, ainda andavam nús e semi-nús, mas sem que entre eles próprios o seu corpo tivesse necessidade de “...velar-se dos pés à cabeça com, pelo menos, folhas de parra”, conforme J. A da Cunha Moraes no álbum Africa Occidental,  evocando o preconceito cristão o pecado original sobre povos no seu estado natural,  anumistas.

MariaNJardim

(1) Originários da região do Dombe, districto de Benguela, eles irradiaram para o sul, entre a Chela e o mar, e habitavam os vales da Bentiaba, da Montipa e as bacias do Giraul e do Béro, desde as suas cabeceiras nas faldas daquela serra.

(2) Também segundo João de Almeida, uma nova migração de dámaras se alastrou pelos vales do Curoca, Béro, Giraul, "..formando os bacubaes, bacurocas, bacuanhócas, giraues e quipolas, vindo também para ali os expulsos pelos nanos e banhanecas, os badombes e bacuissos, que se fixaram no Giraul e Muninho, imprimindo neles traços característicos que ainda hoje claramente se evidenciam. Pelo norte, ao longo da Chela, penetraram em seguida os banhanecas, mais ou menos impelidos pelos nanos e ganguelas.

Bibliografia consultada:
- "Exploração geográfica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895."
-"45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862
-" Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), de João de Almeida.



















quinta-feira, 1 de março de 2018

AÍ ESTÃO ELES. OS TIGRES DA BAÍA DOS TIGRES...






"Transcreveremos aqui os apontamentos que a respeito d'essa tentativa nos ministrou o sr. P. Craveiro Lopes, um dos officiaes da expedição.

Saimos de madrugada e andámos por terra até ás duas horas e meia da tarde, caminhando uns para N. e outros para S., sem jámais encontrarmos agua, lenha ou gente. So vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes, e immensidade de aves, taes como pandas, pellicanos, patos e africanos; estas ultimas aos bandos de cem, e fazendo de longe como regimentos de soldados inglezes de fardas vermelhas e calças brancas; é muito bravia toda essa caça, e por isso custosa de apanhar.
Tanto nas vizinhanças do mar como para o sertão, recobrem o solo grandes dunas de areia, cuja superficie, açoutada do vento, está em constante movimento ondulatorio, exactamente analogo ao que tem as camadas conductoras das vibrações sonoras. Tão alentadas são algumas das dunas sertanejas que olhando do topo para a base, da banda de sotavento, isto ê, proximamente da banda do NE., para onde a inclinação é de uns 45° a 55°, turva-se a vista. Não são raras as que vingam a altura de um sexto andar de Lisboa, e deixando cair um corpo de bastante peso e superficie no cume de um d'esses outeiros, ouve-se como o estampido de uma arma de fuzil.

Por segunda vez descemos a terra ao romper da manhã de 23 de dezembro de 1854, e ao cabo de andarmos 4 ou 5 leguas encontrámos um preto, pescando na borda do mar e junto a umas pedras. Interrogado pelo nosso interprete soubemos que pertencia a uma tribu errante, para a qual estava pescando e que acampára nas proximidades. Procurámo-la e vimos que se compunha de 4 homens, 3 mulheres, 6 crianças e 19 cães, tudo accommodado em 2 barracas e um cercado feito de costellas e outros ossos de baleia; sustentavam-se de peixe, secco ao sol; bebiam agua tão pessima que, apesar de ardendo em sede, não podémos entrar com ella, e vestem-se apenas com trapos que lhes tapam as verilhas. Caso raro, rejeitaram a aguardente que se lhes offereceu, e sob pretexto de ser muito fria não aceitaram da nossa agua doce; comeram porém com avidez farinha de pau, e estimaram muito o tabaco. Por elles soubemos que ao cabo de 3 ou 4 dias de marcha para S. encontrariamos o rio Cunene».

Descripção e roteiro da costa occidental de Africa desde o cabo de Espartel até o das Agulhas
by Castilho, Alexandre Magno de, 1834-1871
Publication date 1866

https://archive.org/details/descripoeroteir00castgoog

PRAIA AMÉLIA: TANTAS HISTÓRIAS PARA CONTAR...

               Várias fotos da Praia Amélia no inicio do séc XX, no tempo da pesca à baleia feita por noruegueses



Hoje quem visita Moçâmedes e se desloca 5 km a sul na direcção da PRAIA AMÉLIA, já poucos vestígios do passado encontra, mesmo de um passado recente, com que possa ilustrar suas narrativas, porque tudo quanto era História vem sendo dali varrido com rodar do tempo. No entanto quem ali viveu decerto não se cansou de ouvir histórias contadas pelos antepassados sobre acontecimentos que tiveram lugar na PRAIA AMÉLIA, e que ficaram a marcar a História daquela praia.



Porquê PRAIA AMÉLIA? A ORIGEM DO NOME:

A PRAIA AMÉLIA era assim chamada porque em 1842 no banco de pedra ali existente encalhou a "escuna Amélia"  no banco de pedra alí existente.  A escuna fora pertença da Marinha de Guerra Portuguesa - esquadra miguelista - comprada em Inglaterra e aprezada pelos liberais em 1833.  A zona do banco era uma zona perigosa para a navegação marítima pois na baixa mar ficava a descoberto, e com a maré cheia era uma armadinha para os barcos de grande calado, que ousassem por ali passar. Os barcos mais pequenos, como as embarcações, traineiras, etc, podiam passar pelo canal existente entre a ponta da PRAIA AMÉLIA e o banco , mas os maiores tinham que passar ao largo do referido banco. Por alturas do ano de 1840, houve quem afirmasse ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passarem por entre o baixo e a praia da Amélia, ou seja pelo canal, que lhe fica fronteira, algo arriscado.




A PRAIA AMÉLIA, A CAPTURA DE BALEIAS E A GRANDE FÁBRICA DOS NORUEGUESES ...



Decerto os que ali viveram ouviram falar de uma fábrica de grandes proporções para a época, de capitais noruegueses, que ali se instalou, no início do século XX, com seus barcos de pesca dedicados à captura de baleias.

A caça à baleia XIV teria sido iniciada em princípios do século XV, no golfo da Gasconha, por pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição dos gigantescos mamíferos, que acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. Era então a França era nessa  a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protetores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo, a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.  Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construidas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuídos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.

Enquanto os noruegueses ali trabalhavam praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso. As instalações encerraram, mas os noruegueses que ali trabalhavam marcaram para sempre uma época em Moçâmedes. Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, especialmente pela «Praia das Conchas».

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção.   Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 

Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. 
 


A PRAIA AMÉLIA E OS MOMENTOS DE LAZER DA POPULAÇÃO DE MOÇÂMEDES:  O TEMPO DOS BANHOS, DA PESCA DESPORTIVA E DAS ALMOÇARADAS NA PRAIA AMÉLIA


O tempo das almoçaradas na Praia Amélia, nos anos 1950. Foto cedida por Olimpia Aquino.


A pescaria de João Duarte situada mais a sul da Praia Amélia, a dar para a zona funda da praia de banhos, junto da ponte, (zona que permitia a atracagem de traineiras e de barcos de certo calado), para além da grande contribuição para o desenvolvimento de Moçâmedes, era a pescaria ideal para onde aos domingos pela manhã, no Verão, se deslocavam familiares e amigos para ali passarem o dia em ameno convívio e confraternização, quer tomando banhos de mar na zona funda mais próxima da ponte, quer na  mais afastada, sem fundão, mas com altas ondas, que se fosse hoje em dia dava para a prática do windsurf.  Outros preferiam a pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, caça submarina, pesca desportiva, etc. Eram encontros que tinham o seu ponto alto à hora do almoço, quase sempre uma caldeirada de peixe feita mesmo ali por baixo do telheiro da pescaria, lado a lado com os tanques de salga do pescado. As famílias carregavam consigo frutas e doces refrigerantes, bebidas, toalhas, guardanapos, louças, copos, talheres, etc. Cozinhavam ali mesmo sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo desses que foram vedeta antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia se faziam em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

Foto cedida por Antonieta Bagarrão. Em 1949 na Praia Amélia para uma banhoca. São Antonieta, Eduarda, M. Emilia, Lala, ?, Rui Bauleth e Pessanha. Embx: Carequeja, Elizabete Pessanha


A Praia Amélia era a alternativa mais próxima, à Praia das Miragens, no centro da cidade, aquela que oferecia uma maior variedade de diversões, uma vez que para além dos banhos, ali se podia pescar e até fazer  as já citadas almoçaradas em agradável e alegre convívio, uma prática que perdurou forte, pelo menos até meados dos anos 1950, e foi desvanecendo com  o aumento populacional e as novas e diversificadas ofertas  ao lazer das populações a partir dos anos 1960, a década em que tudo mudou. Esta década foi também a do início das "Festas do Mar" e a do "boom" populacional em Angola de que Moçâmedes beneficiou.

O modelo dos fatos de banho das raparigas, com uma espécie de saia à frente, e bastante subidos no peito denunciam a época. Talvez não tanto nas colónias de África, mas na Metrópole e no quadro do Estado Novo, as exigências e as probições eram enormes nesta década. O que se sabe, aliás, é que em 1941, com a entrada em Portugal de refugiados da 2ª Grande Guerra, estes pouco habituados aos pudores nacionais, iam para as praias do Estoril exibir seus corpos, daí terem sido publicadas regras sobre o uso e venda de fatos de banho, e estabelecido um sistema de fiscalização e sanções a aplicar aos transgressores, cabendo aos cabos do mar fiscalizar o seu estrito cumprimento. É claro que com a entrada e o desenrolar da década de 1950 já nada era assim. O sopro da modernidade veio acompanhado do bikini fez a sua aparição em finais dos anos 50, de início como que desafiando uma velha ordem  retrógada, beata e caduca!. Diz-se que nas colónias a moda do biquini avançou mais rápida que ma Metrópole .

 

Finais da década de 1940, Maria Emília Ramos conduzindo uma motorizada em plena areia da praia, na Praia Amélia. Algo inédito na época,  uma mulher conduzindo uma motorizada! Ao fundo, à direita, os giraus ou tarimbas para a secagem do peixe, e à esquerda, as instalações de João Duarte. Foto decida por Antonieta Bagarrão.

Um passeio de bicicleta à Praia Amélia. Atrás as casas dos empregados 
da pescaria de João Duarte, 1953.  São da esq. para a dt: Carlos Jardim, Mário Cruz, Tolentino Ganho, Rui Coelho Oliveira , Arménio Jardim  e Álvaro Jardim. Foto do meu álbum.


 A Praia Amélia em dia calmoso

A Praia Amélia em dia menos calmoso...


Na ponte da Praia Amélia, pescaria de João Duarte, com familiares e amigos do proprietário: ?, Guida, Embx: Ildete, Lala, Guida e Ricardina.  Foto cedida por Ricardina Lisboa



A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva por ocasião das "Festas do Mar" e de outras festas da cidade que as antecederam, enquanto a ponte era invadida por uma multidão de espectadores, gente de ambos os sexos e de várias idades, interessadas na modalidade.

  Nídia e Arménio na ponte da pescaria de João Duarte, em dia de Concursos de Pesca Desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Foto do meu álbum.


 
 Arménio e Eduardo Braz na ponte da pescaria de João Duarte.  Do meu álbum.


Pesca Desportiva
Pesca Desportiva
 
Pesca Desportiva


John Pereira exibe o seu troféu de caça submarina

John e Saturnino





 A PRAIA AMÉLIA. AS PESCARIAS DE JOÃO DUARTE E DO VENÂNCIO



Em meados do século XX duas grandes empresas dedicadas à indústria pesqueira brilhavam  na PRAIA AMÉLIA, a de Venâncio Guimarães e a de João Duarte, ambas ligadas, respectivamente, à fabricação de conservas de peixe e à fabricação de guanos, que deram a sua grande contribuição para o avanço do Distrito.

João Duarte era então o mais bem sucedido morador do Bairro da Torre do Tombo, o bairro onde vivia. Foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. A sua pescaria na Praia Amélia, com a gestão familiar, e a participação de todo um conjunto de trabalhadores, brancos, negros e mestiços, gente de terra, gente do mar, mestres contra-mestres, motoristas, pessoal auxiliar (contratados), capatazes, etc etc, foi evoluindo, e em 1968 quando faleceu tinha uma fábrica de farinha e óleo de peixe totalmente automatizada, e 3 traineiras de bom porte, que garantiam a matéria prima -  a João de Deus, a Zita Lourdes e a Maria Margarida, e ainda instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, uma ponte, várias casas para o pessoal E até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares , abençoadas pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios.


 
Uma parte das instalações da pescaria de João Duarte que já fazia parte integrante da paisagem!
Este telheiro era o "cartaz" que nos remetia de imediato para Praia Amélia naqueles tmpos em que a colonização como que inesperadamente chegara ao fim.
 Na praia trabalhadores europeus e africanos lavando as redes. Ao fundo, a ponte da pescaria de João Duarte. Mais ao fundo, as instalações da Pescaria de Venâncio Guimarães. Foto Salvador

A traineira "Maria Margarida"

Momentos da laboração . Pescaria de João Duarte
A fartura do pescado

 

Traineira de João Duarte. Foto da família Duarte
 


 A labuta da pesca. Os contratados.
  A labuta da pesca. Os contratados
 
  A labuta da pesca. Os contratados.
  A labuta da pesca. Preparando o peixe: contratados, quimbares e pescadores algarvios...
João Duarte, o industrial da Praia Amélia, vivia na casa cor de rosa da esquina, no Bairro periférico da Torre do Tombo, que dá acesso à Praia Amélia, era proprietário de todas estas casas térreas de traça colonial portuguesa, que incluía uma loja (ao fundo, à esq.), um dos conjuntos mais preciosos, em termos da arquitectura histórica  de valor cultural, marco da trajetória de uma sociedade que teve na pesca a grande actividade impulsionadora.



A Capela da Praia Amélia 



A determinada altura, por volta dos anos 1950, João Duarte mandou construir na Praia Amélia esta CAPELA, para a qual importou da Metrópole uma imagem da Santa da sua devoção, e onde se tiveram lugar ao longo de 2 décadas cerimónias religiosas, para além de baptizados e de casamentos. Eram geralmente baptizados e casamentos ligados à familia de João Duarte. A capela da Praia Amélia foi o que escapou à voragem das demolições que tiveram lugar há uns anos atrás, e que se desenrolaram num abrir e fechar de olhos...





Ficam estas recordações.


Pesquisa e texto de
MariaNJardim