Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 22 de abril de 2018

Ainda sobre Moçâmedes e o seu feriado...









Ainda que a fundação do Presidio sob orientação oficial e  militar, que ficou a demarcar a posse  para Portugal das terras circunvizinhas,  bem como das primeiras feitorias, tivesse  acontecido cerca de uma década antes da chegada a Moçâmedes, em 04 de Agosto de 1849 da 1ª colonia constituida por luso-brasileiros oriundos de Pernambuco Brasil, fugidos da revolução praeeira, e capitaneados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, foi esta a data escolhida desde logo para as celebrações da fundação da cidade. A época das feitorias foi um período histórico essencialmente de iniciativa particular tendo por tal resultado em falhanços ou em tentativas mal sucedidas, de êxito relativo, que ficaram muito aquém dos objectivos que os seus esforçados empreendedores sonharam alcançar. As feitorias não foram senão meras tentativas  de fixação e povoamento por habitantes acidentais sem consequências, porque não foram acompanhados das indispensáveis circunstâncias para o genuíno exercício da missão colonizadora  (como defende Mendonça Torres, no citado livro) . Deixaram perder (danificados, roubados ou abandonados) os módicos haveres, que haviam sido proficiosamente adquiridos, viram, em pouco tempo, desaparecer, sem que deles restasse a mínima sombra de vestígio. Não passaram pois,  de esforçadas tentativas às quais faltaram o apoio do Estado Português, ainda que o seu objectivo fosse o povoamento das regiões a sul de Benguela com povoadores do reino.

Segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres na sua obra base "O Distrito de Moçâmedes nas Fases de Origem e Primeira Organização", 1840 não poderia de modo algum respresentar a data da fundação de Moçâmedes, mas sim o 04 Agosto de 1849. E porquê? Precisamente devido ao falhanço das mesmas feitorias. Familias seriam necessárias para o êxito da fixação.

Também há quem afirme que primeiros colonos chegaram a Moçâmedes a 03 de Agosto de 1849,  servindo-se como fundamento  das suas argumentações  a existência de um ofício que dali fora dirigido ao Governador Geral de Angola pelo Major Herculano  Ferreira Horta, designado para dirigir a recepção aos colonos. Outros registam o dia 4 de Agosto desse mesmo ano, fazendo uso das afirmações de Bernardino  numa das suas crónicas publicadas Boletim Oficial Angola, referindo que a 01 de Agosto chegara a Moçâmedes  o Brigue Douro e no dia 04 a Barca brasileira "Tentativa Feliz",  após 74 dias viagem.

Sabe-se que anos mais tarde Bernardino teria sido incumbido pela edilidade de Moçâmedes a narrar  em livro que registasse os mais releventes factos históricos do Município,  a mando do Governador Geral, e  que havia chamado  a atenção das Câmaras Municipais para que com base portarias Minsterio Marinha e Ultramar criasse em cada município tais livros designados Anais do Municipio.  Aí Bernardino ao abordar o problema da data chegada, aponta o 4 de Agosto, repetindo a afirmação quando das comemorações pela passagem do décimo aniversário da fundação da colónia em 1850.  Aliás esta data foi sempre aceite pelos colonos incontestavemnete,  e nesse dia foi sempre comemorada a festa municipal.





Pesquisa e texto por MariaNJardim





quinta-feira, 5 de abril de 2018

O Rádio Clube de Moçâmedes





O projecto de um sonho irrealizado...
 Foto Salvador




A ideia da formação do Rádio Clube de Moçâmedes surgiu pela primeira vez  no jornal "O Lobito" de 11/06/1938, onde se anunciava a formação de uma Comissão organizadora para angariar fundos com vista à criação da sua emissora. 

Com uma verba de apenas 153 contos, a Comissão viu aprovados os Estatutos do Rádio Clube em Fevereiro de 1945. No entanto, a data oficial da sua criação é 20 de Novembro de 1944, e foi para o ar com um emissor de 50 W, em 1945.
O Rádio Clube Moçâmedes como todos os Rádios Clubes de Angola, nasceu como uma  associação clubística, e por tal necessitada de suporte financeiro,  daí que tendessem a tornar-se em verdadeiras empresas para através da publicidade e da comercialização dos seus programas caminharem no sentido duma crescente profissionalização dos seus colaboradores eventuais e não remunerados.Até lá havia que sobreviver com os proventos que giravam à volta da publicidade, e tal como os clubes desportivos da cidade, também das quotizações mínimas dos seus associados, que não eram muitos, para além do produto de algumas festas que levavam a cabo pelo carnaval, fim de ano, Programas da Simpatia, subscrições, etc. Muita coisa se ia fazendo graças à carolice de uns quantos habitantes da cidade que dela se orgulhavam e se esforçavam por a melhorar. Inda assim, o Rádio Clube Moçâmedes foi sem dúvidas, um grande impulsionador do desenvolvimento da cidade, naqueles 40 anos em que o território angolano superou todos os índices de crescimento, tendo a sua actividade, para além do campo informativo,  cultural  e lúdico se  expandido ao desporto através da promoção regular de relatos de futebol, de hóquei em patins e de basquetebol masculino e feminino.








 Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes quando esta ainda funcionava no prédio junto do antigo campo de futebol, ao fundo da Avenida da República (de cima para baixo e da esq. para a dt.) : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador. 




 
 Interessante foto dos primeiros tempos do RCM, que juntou  inúmeros colaboradores: Ana Liberato e Rui de Mendonça Torres. Foto Salvador
 Aqui podemos ver Celeste Gouveia (a Néné Carracinha) e Herondina Mangericão, entusiasmadíssimas no seu trabalho. Foto Salvado
 

Fernando Andrade Vieira, Orlando Salvador, Francisco Velhinho, Raúl de Sousa Fr/Lico Sousa,  e... Lico de Sousa. Este  chegou a ter um programa  cómico em que vestia a figura do negro "Canganiça" no qual ficou célebre a sua frase "Cada um é como cada qual e ninguém é como evidentemente!.  Foto Salvador


?, Frederico Costa, Rodolfo Ascenso,  e à frente, Oliveira (Maboque), César (electricista do RCM), Rui Bauleth de Almeida e António José Carvalho Minas. Foto Salvador
Orlando Salvador, José Roberto e Adriano Parreira. Foto Salvador

 


Colaboradores/as do Rádio Clube de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Néné Alves de Oliveira ao acordeon, ?, Julia Gomes à guitarra (fadista) e Manuela Evangelista (viola). Inauguração da sede do RCM? Foto Salvador.


 

Carlos Moutinho e Cecília Victos (ao centro) rodeado de outras figuras ligadas ao RCM, entre as quais  Lico de Sousa, Arlete Pereira, à dt e Rui Bauleth de Almeida atrás. Foto Salvador

Entre outros, da esq. para a dt: Luciano Sena, Evaristo Sena Fernandes, Sousa Santos, Soares e Silva, Domingos Barra, Embaixo: Rui Bauleth de Almeida, ?, Carlos Moutinho, Cecília Victor, Calila, ?, Antóno José Minas. Em cima, 1ª fila, Bica, Salvador, ?, Rui Torres, ?. Foto Salvador

 
Sebastião Coelho

Joana Campina


Carlos Meleiro

Salientam-se algumas  figuras pioneiras na história do Rádio Clube de Moçâmedes, nomes como o de Augusto Cantos de Araújo, de Carlos Cristão, Joana Campina (senhora de vasta cultura, licenciada em Letras e conhecida como declamadora de grande mérito) , Sebastião Coelho (foi contratado pela primeira vez, em 1951, para chefiar a produção do Rádio Clube de Moçâmedes, facto memorável logo pela razão de ser o primeiro radialista natural de Angola que se tornava profissional da Rádio) 1. E ainda Maria Manuela, Costa Pereira, Carlos Moutinho (Chefe de produção) , Carlos Meleiro (Chefe de produção), Ernesto de Oliveira, José Manuel Frota, Arlete Pereira, Rui Rodrigues Costa. Rui Bauleth de Almeida , António José Carvalho Minas, Edgar Teixeira, etc,etc.

Outros que deram a sua contribuição na fase do arranque da associação foram Magalhães Monteiro, Adriano Parreira,  Norberto Gouveia, Ana Liberato, Rui de Mendonça Torres, Celeste Gouveia (a Néné Carracinha), Herondina Mangericão, José Roberto, Cruz Almeida, Evaristo Sena Fernandes, Alfredo Falcão, Carlos Cristão, Raul de Sousa (Lico),  Rodolfo Ascenso,  César (electricista do RCM), Luciano Sena, Sousa Santos, Soares e Silva, Domingos Barra, etc, etc.


O Rádio Clube de Moçâmedes (CR6RM) “nasceu” numa casa que dividia com o Sindicato dos Empregados do Comércio (SNECIPA), frente ao Caminho de Ferro de Moçâmedes, ao lado da loja de tecidos, a Casa Pinheiro (Pirilau). Dada a proximidade, quando havia relatos de futebol
estendiam um cabo que ligava o relator à “regie”. Era assim que faziam as transmissões. O mesmo se passava quando havia jogos de interesse para Moçâmedes, em Sá da Bandeira, que eram transmitidos através da linha telefónica do C.F.M. No exterior utilizavam uma carrinha emprestada pelo Sindicato de Pesca, conduzida por Domingos Alves Figueiras, da qual existe uma foto.
No início dos anos 50, a famosa década que mobilizou toda uma população desde os mais jovens até aos de meia idade, quandofoi lançada a ideia da organização de um conjunto ou "orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes", tendo à cabeça o fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador, saxofonista e chefe da orquestra, para além dos pianistas Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e Martins da Alfândega, dos violinistas Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola), do acordeonista, Raúl Gomes Filho (que também tocava guitarra e viola), e dos bateristas Firmo Bonvalot e Albertino Gomes, não esquecendo o trompetista, Anselmo de Sousa que há época trabalhava na empresa de Abilio Simões.  E quanto a vozes que abrilhantaram programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado NAMIBE. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. 










Carlos Moutinho entrevistando a foca "Boni-Bonita"



O Rádio Clube de Moçâmedes, como todos os Rádios Clubes da época, pela sua natureza associativa clubistica, com direções democraticamente eleitas, como bem dizia Leonel Cosme. "eram o único espaço de relativa autonomia onde se manifestava a "opinião pública" das populações angolanas.  Mas havia um sonho difícil de concretizar: a construção da  futura sede do Rádio Clube de Moçâmedes, obra que teve como seu grande impulsionador o radialista e Chefe de produção, Carlos Moutinho, e um punhado de "carolas" que  graciosamente dirigiam aquela associação radiofónica, nunca chegou a ser concluída, e no ano da independência de Angola, devido à carência de verbas, reflexo da penúria dos meios e da ausência de ajuda do Estado à altura de projectos deste género, já se encontrava paralisada. 

Em 15/08/1952 foi  lançada a 1ª pedra a sede do Rádio Clube de Moçâmedes, um edifício a construir exclusivamente para o efeito. Eram sonhos que falavam demasiado alto,  e  não chegaram a ser concretizados, devido à carência de meios e à ausência de ajudas oficiais

Quem viveu em Angola naquele tempo sabe bem que este tipo de iniciativas dependia sempre da boa vontade das populações mais que de ajudas estatais, e que neste campo, o campo dedicado ao lazer das populações, tudo era conseguido a ferros e a toque de subscrições públicas. Foi o que aconteceu com o Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, outra obra inacabada que já foi por nós abordada, através de uma postagem.

Numa Angola riquíssima, Moçâmedes chegou-se à independência como uma cidade harmoniosa e com belas vivendas, em grande parte, graças aos esforços dos seus moradores.  Ao nível da habitação, não fosse Mariano Pereira Craveiro e outros "carolas" fundadores da sociedade cooperativa "O Lar do Namibe", Moçâmedes chegaria a 1975 reduzida ao velho casario do  seu centro histórico ou pouco mais, pois sequer havia créditos bancários destinados a habitação. O próprio Clube Nautico conseguiu completar o seu edifício, graças à ajuda dos industriais de Pesca, grande número dos quais a residir no bairro da Torre do Tombo, que contribuíram para tal com uma determinada percentagem que lhes era descontada por cada mala de peixe seco que entregavam no Grémio da pesca de Moçâmedes.


Ruínas que entristecem... Foto Salvador

As novas e inacabadas instalações ficavam para os lados da "Sanzala dos Brancos"


Visita do Governador Nunes da Ponte à antiga sede do Rádio Clube de Moçâmedes, em 1956/7 ?  tendo à sua esq. e à sua dt, Albérico Sampaio e Mário Rocha, ambos elementos da Direcção do RCM na altura. A antiga sede ficava na Rua da Praia do Bonfim, ao fundo, próximo do velho campo de futebol, em frente da Avenida.


Vem referida nesta foto a visita Governador do Distrito Salles Grade às novas instalações do RCM em 1956, acompanhado pelo "Capitão do Porto",  comandante Marrecas Ferreira,  Joyce Chalupa, Newton da Silva, Mário Rocha e Ferreira da Silva. Orlando Salvador e Sousa Jr. dão conta das modernas características dos novos gira-discos.

Na verdade já parecia uma praga, essa história das obras inacabadas: edifício do Rádio Clube de Moçâmedescuja planta prometia uma obra de valor e de grande embelezamento para aquela zona da cidade; Cine-Estúdio Satélite; Cine Estúdio "Satélite", o inacabado de arquitectura futurista revestido de belos painéis alusivos às actividades do Distrito, à cidade, ao deserto e ao mar, construido na zona alta da cidade, que fazia lembrar uma nave espacial pousada na "Cidade do Deserto"; complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, também na cidade alta. Ficou-se pelo campo de jogos, a aguardar por melhores dias para a sua conclusão...

Em meio a tanta carolice, alguns projectos surgiram em termos de  organização e gestão do RCM, mas que não passaram de sonhos. O projecto do Rádio Clube de Moçâmedes foi um desses projectos que não passou disso mesmo: Projecto!

MariaNJardim


(1) Sebastião Coelho, à frente da emissora de Moçâmedes, dá guarida e colabora, em parceria com Leston Martins, então naquela cidade, num programa de divulgação dos jovens poetas angolanos, que era igualmente apresentado no Rádio Clube de Benguela, em colaboração com a jornalista Helena Soeiro (Mensurado, por casamento com outro jornalista, José Mensurado também ele um dos dinamizadores da Mensagem. Na pequena e mais puxada ao Sul cidade de Angola - fundada, só na segunda metade do século XIX, por colonos luso-brasileiros fugidos de Pernambuco às defenestrações nativistas e sem assinaláveis tradições culturais - tem particular significado a acção quase "missionária" de Sebastião Coelho, apoiando a entronização, no Namibe, de um Movimento  da "novi-angolanidade", que os seus promotores já queriam ver distinto do "lusotropicalismo teorizado pelo brasileiro nordestino Gilberto Freyre, aproveitado pelo regime colonial e, ainda hoje, como que travestido numa difusa "crioulidade" que é, no fundo, um desvio da "angolanidade" defendida pelos "mensageiros" com o sentido de afirmação de uma personalidade autónoma e prospectivamente africana. (Leonel Cosme)


Ainda sobre o RCM: OUTROS SONHOS...



RÁDIO CLUBE NÁUTICO DE MOÇÂMEDES


Houve um tempo em que um grupo de amigos teve um sonho que ficou sempre no segredo dos deuses. Já não sei se a idéia terá sido minha, se do Mário , se do Andrade, que fazia parte do corpo directo do Rádio Clube, se do Alegria, locutor com o programa “O Calhambeque”, se a memória não me atraiçoa. Éramos todos amigos e colegas no Banco, o que por si só era meio caminho andado para transformar o sonho em realidade. Para lá do próprio projecto em si, o plano para a sua concretização era engenhoso, mas muito simples, e imbuído de boa fé e de um genuino idealismo que só existe enquanto a juventude não nos foge.

Mas, afinal, qual era o nosso sonho?

Se bem se lembram, a construção do edifício do Rádio Clube de Moçâmedes foi uma iniciativa, a todos os títulos louvável, do locutor Carlos Moutinho, professional competente que revolucionou a rádio da cidade. Simplesmente, por falta de apoios e vontade política, que era coisa que não existia naqueles tempos, o edifício acabou por ficar a meio, transformando-se num autêntico escarro no coração de uma zona que se estava a transformar num bairro bonito, graças à Cooperativa “O Lar do Namibe”.


Por outro lado, o Clube Náutico tinha sido projectado, de raíz, para levar um 1º andar, destinado aos seus serviços administrativos, coisa que viria a não se concretizar por falta também de verbas.
O nosso sonho era, pois, vender ao Lar do Namibe o inacabado prédio do Rádio Clube, com os seus terrenos adjacentes, e com os proventos daí resultantes construir o 1º andar do Casino, nome popular do Clube Náutico, e ali instalar o Rádio Clube. Ora, para se obter esse desiderato era necessário, obviamente, conseguir-se a fusão dos dois clubes. que passaria, então, a designar-se por “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes”. Mas essa fusão era o principal problema a ser ultrapassado, pois havia interesses instalados que tinham de ser removidos . A maioria das pessoas não se dava conta, mas a gestão do Rádio Clube girava à volta da publicidade, fonte substantiva das receitas, que era facultada de modo pouco transparente e pro bono a algumas, muito poucas, empresas da cidade; no Casino, o problema era de outro cariz e de muito mais fácil resolução: o clube tinha poucos associados, a maioria dos quais nem as quotas mensais pagava e estava entregue a uma vintena de sócios, apaixonados pela sala de jogos e pelo poquer. Os proventos resumiam-se às receitas originadas pela utilização do salão de festas por ocasião do carnaval, fim de ano e matinés dançantes aos fins de semana, suficientes para uma gestão equilibrada.

Havia, pois, necessidade de “tomarmos de assalto” de uma forma legal as duas direccões, o que se presumia fácil dado que, pela nossa experiência de sócios de ambos os clubes, sabíamos que nas assembleias gerais anuais as presenças resumiam-se sempre a meia dúzia de sócios. E no que toca ao Clube Náutico, era extremamente fácil vencer as eleições. O mais complicado, e que exigia uma maior cautela na manutenção do segredo, era o Rádio Clube, que possuia uma grande massa de sócios facilmente manipulada com as conhecidas procurações de última hora.

Era preciso, pois, que o nosso núcleo se expandisse em segredo absoluto apenas e tão só até a um número mínimo que nos garantisse a vitória na eleição do Rádio Clube. E sem nunca reveler o propósito final nem qualquer ligação com a Assembleia Geral do Clube Náutico, no qual detínhamos a maioria face ao irrisório número de sócios nele existente. Era um plano talvez maquiavélico, mas de uma pureza impoluta face ao idealismo que emanava da nossa juventude. E tínhamos a forte convicção de que iríamos não só engrandecer os dois clubes, como valorizar o edifício do Casino, em termos arquitectónicos, com reflexos directos para toda a envolvência da Praia das Miragens.
Mas naquela noite não houve nem lua cheia nem luar e o nosso sonho se esboroou quando, ao cair do pano, apareceram na assembleia geral do Rádio Clube as famigeradas procurações.

Sonhávamos um “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes” como verdadeiro ex-líbris da cidade do sol, sal e mar, fundada por uns sonhadores que ali chegaram na Tentativa Feliz e a erigiram a partir do absolutamente nada.

Mas, desgraçadamente, a história mostra-nos que em todos os lados e em todas as latitudes existe sempre um Miguel de Vasconcelos à mão de semear.
E nós tivemos o nosso. Por um prato de lentilhas

(ass) Arménio Jardim

quarta-feira, 28 de março de 2018

OS MONDOMBES ERAM O POVO MAIS PRÓXIMO, QUANDO DA CHEGADA DOS PORTUGUESES A MOÇÂMEDES



 Mondombes numa das ruas de Moçâmedes
Casal de Mondombes
Mondombes e filho

Mondomba e filho

Mondombes 
Mondombas
                                                                          Mondombes 


Dizem os entendidos que em Moçâmedes, por volta de 1860, existiam três tribus de negros, a Mini-Quipola, no vale dos Cavaleiros e proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vivia junto do rio do mesmo nome; e a Croque ou Coroca, que vivia igualmente junto ao rio do mesmo nome, sendo esta a mais afastada.  Estas tribus teriam novecentas pessoas de ambos os sexos nessa altura, e segundo João de Almeida in " Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), os MONDOMBES pertenciam às duas primeiras tribus citadas, contudo convém ter em conta que se chamavam MONDOMBES  indivíduos de algumas tribus do interior. Aliás, é comum adiantar-se que MONDOMBES  eram povos originários do Dombe (1), mas também não devemos esquecer que era comum as tribus adoptarem para si os nomes das terras onde iam habitar, quando das suas emigrações, ou o nome dos seus chefes, e ter em consideração que fusões entre povos de tribus diferentes foram acontecendo ao longo dos tempos. (2)
 
Segundo João de Almeida, in " Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), dificilmente se poderia determinar, porque os indígenas da região não pertenciam todos à mesma tribo, tendo a sua expansão para terras do sul sido gerada por invasões e emigrações violentas de várias tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidades da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção.

Importante seria estudar a marcha dessas diferentes emigrações, a proveniência dos povos que sucessivamente tem vindo a habitar esta região de Angola, estudo difícil e complexo, mesmo impossível dada a ausência dos elementos mais essenciais, uma vez que estes povos sem escrita, não pertenciam todos à mesma tribo, tendo a sua expansão para terras do sul sido gerada por invasões e emigrações violentas de várias tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidades da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção. João de Almeida considera mesmo impossível dada a ausência dos elementos mais essenciais, uma vez que estes povos sem escrita, não nos legaram nem documentos, nem edifícios nem monumentos, etc. Apenas os factos históricos que perduraram através da tradição oral.

Transcreve-se do livro de João de Almeida, algumas informações a este respeito colhidas na época, através de narrativa oral:  os povos gentios dos Cubaes, Dombe, Giraullo e Quipolla, pertencem todos à mesma raça, e os três últimos formaram por muito tempo um só povo, o qual por dissenções ocorridas com o soba do Dombe se refugiou para a Huila, indo ali mesmo uma guerra mandada pelo dito soba a persegui-lo, de novo emigrou, vindo parar em um lugar denominado pelo gentio Lutunda, entre o Bumbo e a Pedra Grande, donde se dividiu, indo uns habitar no país dos Mucubaes e os outros vindo aqui estabelecer as duas tribus do Giraullo (fim do caminho) e do Quipolla, hoje também já separadas, mas antes e desde a sua descida do centro do país reunidas no sitio Quissongo. Tendo-se retirado deste ponto alguns para o Coroque ali formaram a tribu d'esta denominação, alliando-se com os Muximbas. Esta ultima tribu dos Coroques é assaz notável pela sua linguagem gutural, talvez resultado da mistura do primitivo idioma com o dos Muximbas.

 
 “Mundombes” - Africa Occidental (Moraes 1882: s/p)




Como vivia este povo? 

No álbum Africa Occidental de  J. A da Cunha Moraes os MONDOMBES aparecem descritos como uma tribo nómada civilizacionalmente atrasada que habita o território entre Benguela e Moçâmedes. Apesar da sua cultura “do ultra-nú” e de “não saberem velar-se dos pés à cabeça com, pelo menos, folhas de parra”, são gente laboriosa, que se dedica à agricultura, à caça e ao serviço de transporte nos sertões (Moraes 1882: s/p).

OS MONDOMBES de Moçâmedes eram familias de pastores negros que viviam próximos da povoação, em cubatas feitas de ramos secos, por fora barradas com excremento do gado, do feitio dos fornos para onde entravam de agachados.

Conforme os escritos da época, os MONDOMBES eram polígamos, como todos os indígenas de África constituíam famílias onde um homem possuía três ou quatro mulheres e um grande numero de filhos. O seu governo pouco diferia do de todos os negros; tinham um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros). Eles viviam em harmonia com os brancos, a quem prestavam alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella (muito poucos).


 Naquele tempo de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravava o desenvolvimento das regiões, os MONDOMBES eram os povos "Carregadores" de Moçâmedes , dedicados por conta própria ao transporte de mercadorias, tais como eram os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela. Estes povos monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam o território angolano, em detrimento de quaisquer outras comitivas, eles impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas.

Apesar de grande número de MONDOMBES por essa altura já terem abandonado a vida nómade e semi-nómade, um terço levava ainda uma vida errante, com os gados em busca de pastos, e  aqueles que viviam perto dos europeus em nada modificavam os seus hábitos primitivos, não se deixando assimilar. E quanto à roupagem apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas ou panos que usavam. Os homens usavam um pano de algodão amarrado em volta do corpo, e outro lançado aos ombros como um manto, e traziam sempre um cajado na mão.  Eram de estatura elegante, robustos, bem constituídos, saudáveis, e as suas posições e movimentos distinguiam-se, pela desenvoltura, da dos negros de outras tribus, que levavam grande parte do dia sentados. Quanto à causa provável para a sua robustez e boa constituição, apontam-se os efeitos da selecção natural, ou seja, a sobrevivência do mais forte, daquele que melhor se adapta ao meio, e vai transmitindo a sua robustez de geração em geração, do mesmo modo como se transmitem moléstias hereditárias. Apesar de possuírem uma compleição física  bem constituída, os MONDOMBES eram sujeitos a constipações, por andarem quase nus, e terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo. As suas crianças andavam inteiramente nuas até aos oito ou dez anos, mas já antes dessa idade as raparigas usavam manilhas de vime.  Os MONDOMBES sustentavam-se de milho pisado com uma pedra, cozido em água e leite, tipo de alimento a que davam grande apreço. Antes da chegada dos colonos plantavam apenas milho, feijão e abóboras, mais tarde passaram a cultivar também a mandioca, o cará, as batatas, enriquecendo o produto das suas lavras. Os colonos idos de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes não só, levaram consigo sementes de espécies vegetais que ali espalharam, como nas duas deslocações a Luanda e ao interior, levavam dali novas sementes que iam enriquecendo quer os seus cultivos quer os dos nativos.

Os MONDOMBES tinham a idéa de um Ente Supremo, mas pouca adoração lhe prestava. O seu ídolo eram os gados, que cada um celebra com cantigas e libações. Não os vende, aproveita-se do leite que produzem. Acreditam numa outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquele dano.

No último quartel do século XIX, no distrito de Moçâmedes, com o estabelecimento da colónia boer que veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, as caravanas de "carregadores" MONDOMBES entram em recessão. Mas se exceptuarmos a linha férrea de Luanda a Cazengo, e a carreira fluvial do Quanza, de Luanda ao Dondo, feita com dois pequenos vapores, em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estava ainda sob a dependência das caravanas de "carregadores", sujeitos as mais variadas contingências, de entre as quais, os capricho dos sobas, a rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio , as guerras gentílicas, os conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos, proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciais, etc.

A este texto acrescentarei ainda apenas uma pequena nota, pois não me passou despercebido o modo preconceituoso com que à época eram encarados estes povos, que por se encontrarem num estádio civilizacional  diferente, aqueles estádio pelo qual todos os povos passaram, ainda andavam nús e semi-nús, mas sem que entre eles próprios o seu corpo tivesse necessidade de “...velar-se dos pés à cabeça com, pelo menos, folhas de parra”, conforme J. A da Cunha Moraes no álbum Africa Occidental,  evocando o preconceito cristão o pecado original sobre povos no seu estado natural,  anumistas.

MariaNJardim

(1) Originários da região do Dombe, districto de Benguela, eles irradiaram para o sul, entre a Chela e o mar, e habitavam os vales da Bentiaba, da Montipa e as bacias do Giraul e do Béro, desde as suas cabeceiras nas faldas daquela serra.

(2) Também segundo João de Almeida, uma nova migração de dámaras se alastrou pelos vales do Curoca, Béro, Giraul, "..formando os bacubaes, bacurocas, bacuanhócas, giraues e quipolas, vindo também para ali os expulsos pelos nanos e banhanecas, os badombes e bacuissos, que se fixaram no Giraul e Muninho, imprimindo neles traços característicos que ainda hoje claramente se evidenciam. Pelo norte, ao longo da Chela, penetraram em seguida os banhanecas, mais ou menos impelidos pelos nanos e ganguelas.

Bibliografia consultada:
- "Exploração geográfica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895."
-"45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862
-" Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), de João de Almeida.



















quinta-feira, 15 de março de 2018

Casa de um colono. Lubango 1908.






Foto: Casa de um colono. Lubango. Uma família de colonos madeirenses e alguns elementos da etnia muhuíla.. Corrua o ano 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos...


CURIOSIDADES: LUANDA NOS ANOS 30-40 DO SÈCULO XX AINDA ERA ASSIM...
  Quanto a Angola, nesse novo contexto que se foi desenhando, a população branca passou de uns meros 6.000 habitantes em 1890 para uns também meros 13.000 em 1918, e para cerca de 58.000 em 1930.
Assim, por volta de 1930, o ano do Acto Colonial, quando se imprimiu uma direcção centralista à administração colonial, havia em Angola oito cidades com um total de 110.000 habitantes: Luanda, Lobito, Benguela, Moçâmedes, no litoral; e Nova Lisboa, Malanje, Silva Porto e Sá da Bandeira, no planalto. Mas destas cidades, além de Luanda, só três atingiam pouco mais de 10.000 habitantes: Benguela, Lobito e Nova Lisboa. Sá da Bandeira tinha mais de 7.000 habitantes, Malanje, Silva Porto e Moçâmedes tinham mais de 4.000 cada.
Os números trazem à superfície realidades que a realidade não pode obscurecer.A magestosa, moderna, desenvolvida e organizada Angola de 1975, na realidade foi erguida em muito poucos anos, a ter em conta o retrato da cidade capital e o número de habitantes nas cidades, nos anos 30! Muito ficou por fazer, sem dúvida. Mas será que seria possível fazer-se mais, a ter em conta a real conjuntura? Fica a pergunta?


Fotos dizem mais que palavras....

Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, "o sul de Angola foi a guerra”. "Por toda a parte havia conflitos, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. A guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados, e, sobretudo porque foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que os negros aguerridos não possuíam  a metralhadora."
 

Tentando uma leitura desta foto direi que, em meio a uma situação de conflitos que perpassavam à época o sul de Angola, e que se estenderam desde 1885 a 1915, esta, tal como outras famílias de madeirenses, que viviam isoladas e conviviam harmoniosamente com africanos muhuilas, marcaram bem a diferença na atitude perante a vida. Uma coisa eram as demandas do regime, outra coisa eram as pessoas. 

São estes aspectos da História que a História dos povos não devia ocultar, mas que oculta quando mete tudo e todos no mesmo saco. E é esse um dos grandes erros de quem escreve História.  A maldade existe, basta escutarmos os pacotes de notícias que jornais e TVs nos oferecem todos os dias. A maldade existe e não escolhe povos, nem fronteiras. As pessoas são boas ou  más por natureza e por educação, nada a ver com a maior ou a menor quantidade de melanina (pigmentação) presente na sua pele. A História não pode nem deve ser encarada a preto e branco. Só por ignorância ou má fé tal tem sido possível!  (1) 

 
Entre os primeiros povoadores do sul de Angola estavam os madeirenses, simples emigrantes,  na maioria gente analfabeta ou muito pouco letrada,  gente que desconhecia a História, e que para o sul de Angola partiu influenciada pelas campanhas de propaganda que os conseguiu persuadir. Iam em busca de uma vida melhor, e instalaram-se no planalto da Huíla, nos anos 1884 e 1885. Precisamente na altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que teve como principal resultado a "Partilha de África" entre as potências europeias industrializadas, e a definição das regras para a colonização, assunto a que eram alheios, ou que até mesmo desconheciam.O acordo final saído daquela Conferência impôs o “princípio da posse efectiva”, ou seja, uma potência só poderia reclamar o controle de uma determinada região se estivesse em condições de ocupar com gente da Metrópole, e de a desenvolver. Outros direitos, como os direitos históricos que Portugal reclamava sobre várias regiões de África, deixaram de ter validade. No caso particular de Angola, quando a Conferência de Berlim chegou ao fim, a 26 de Fevereiro de 1885, ainda havia grandes extensões do território angolano onde nenhum português tinha ainda posto os pés.  Desde logo começou a corrida para a ocupação de África. Esta levou ao envio maciço de tropas para as regiões a defender, e provocou o agravamento da escalada dos conflitos entre as concorrentes europeias, e principalmente com as tribos africanas. Na partilha, Portugal teve que se confrontar com as pretensões da Inglaterra e da Alemanha, as potências cobiçosas do território que por direito histórico reclamava, e teve que desenvolver acções de pacificação do gentio revoltado que estavam em marcha, e foram levadas a cabo sem grande consideração pelos pequenos núcleos de famílias de origem europeia, que recentemente ali se haviam estabelecido, e que pacificamente coexistiam com as populações negras de diferentes etnias, no sul de Angola.

No Distrito de Moçâmedes, mais propriamente no planalto da Huila,  em finais do século XIX, encontravam-se estabelecidos, e dedicados à agricultura, os boeres e os madeirenses. Em Moçâmedes, desde 1849 viviam dedicados à agricultura e à pesca, os luso-brasileros de Pernambuco, e uma comunidade de colonos algarvios que ali começaram a chegar a partir de 1861. Todos juntos, estes povoadores foram essenciais para que Portugal, através da ocupação efectiva e dos meios pacíficos do trabalho merecesse o respeito das nações competidoras.  Aliás, acabaram por ser o garante da ocupação daquela fatia de Angola. Sem eles, o mapa de Angola muito provavelmente teria sido diferente daquele que é hoje, dada a cobiça de potências estrangeiras. Talvez os alemães do Sudoeste africano (actual Namíbia) tivessem avançado pelo Distrito de Moçâmedes adentro, e tivesse  anexado a faixa cobiçada do território  a sul de Benguela. Respeitando as  regras então estabelecidas para a  ocupação, com a sua presença, teriam sido o travão para esse ambição.

Quer a fundação de Moçâmedes, quer a do Lubango foram levadas a cabo no quadro de um novo paradigma colonial que já nada tinha a ver com o anterior paradigma centrado no tráfico de escravos, o qual dificilmente se pode chamar colonização.

O que dizer a respeito dos colonos senão que eles não eram mais que um conjunto de pessoas preocupadas com a sua subsistência, gente que queria trabalhar,  fazer coisas sem grandes preocupações em legar testemunhos para a posteridade. Por isso eles não nos deixaram documentos escritos das suas vidas, não produziram  relatórios detalhados sobre as condições reais da sua existência, quando muito deles sobrou uma ou outra lápide de eterna saudade. Muitos deles, como aqui já foi dito,  mal sabiam ler e escrever. A função de deixar coisas escritas pertencia aos governantes, na maioria das vezes mais interessados em serem  protagonistas da História, do que parceiros de atormentados percursos. Isolados no terreno acabaram por desenvolver  estratégias na busca de condições mínimas de sobrevivência e de segurança, para si e para suas famílias, naquele tempo numerosas, num meio envolvente  inseguro, desconfiado,  por vezes pouco hospitaleiro, ou até mesmo hostil, onde os recursos oferecidos pela Natureza surgiam como uma espécie de porta entreaberta para o mundo.



MariaNJardim


(1) Em Moçambique, por exemplo,  desde a independência já morreu  1 milhão de almas na guerra civil, em combates e por conta de crises de fome cinco milhões de civis foram deslocados, e muitos sofreram amputações  por minas terrestres, um legado da guerra que continua a assolar o país. O conflito terminou em 1992 no entanto, passados mais de vinte anos de paz formal, Moçambique presenciou em 2013 o ressurgimento do conflito armado nas regiões central e norte do país, pondo em questão a aparente estabilidade democrática e o processo de reconciliação.Apesar das inúmeras negociações, um novo acordo de paz ainda não foi concluído. 




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Na foto: uma casa isolada no território da Huíla habitada por uma família madeirense, que ali podemos ver acompanhada por autóctones da região. 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos.