Aquando do êxodo dos retornados vindos de Angola, a confusão no aeroporto da Portela, era aquela que as pessoas com mais de 50 anos estão lembradas.
O aeroporto de Lisboa regorgitava de gente. A ponte aérea entre as colónias do Ultramar e a Metrópole, funcionava em pleno com aviões de muitas nacionalidades despejando homens, mulheres e crianças de todas as idades, brancos e pretos, novos e velhos, numa amálgama de pessoas de que não havia memória na história contemporânea em tempo de paz (se é que o mundo, desde que é mundo, alguma vez conheceu a paz), gente apreensiva com relação ao futuro que os esperava, e traumatizados pelo desfazer do sonho angolano que os embalou durante toda uma vida.
Numa das muitas viagens dos aviões que descarregavam gente, apreensão e décadas de muitos sonhos desfeitos, num total de mais de quinhentas mil pessoas, veio o RC com a família formada, por mulher, criançada e avó negra, por afinidade.
Naquela confusão de gente que chegava e de gente que vinha ver quem chegava, enormes filas para identificação, para trocas de cinco contos de cá por cinco contos de lá, por pessoa, para inscrição no IARN, (Instituto de Apoio ao Regresso de Naturais), para a burocracia, etc. tudo com muita espera de muitas horas, à anciã, depois de muitos apertos, deu-lhe vontade de urinar, e, não suportando mais aguentar a necessidade fisiológica, disse para as netas:
Meninas, vão perguntar aí, onde a gente faz chi-chi.
A criança foi, demorou-se algum tempo, e trouxe o recado:
" É ali, avó, ao fundo do corredor, vira à direita, anda um bocadinho e encontra uma porta com um boneco a imitar uma mulher. É aí."
A velha desconfiada resmungou:
"Um boneco? Mas eu quero é mijá! Olha eu vou mazé na mahanja. Ucês me acompanha na minha trás, o resto fica a tomar conta das nossas bicuatas enquanto o Gerinho não aparece. Mas fica de olho bem aberto para ninguém não roubar, porque aqui tem muito granco e também muito ladrão."
Netos e avó de mãos dadas serpentearam por entre as pessoas e bagagens, sairam do aeroporto, andaram sem tino e, quando a claridade das luzes ia sendo vencida pela escuridão da noite, as crianças iam ficando para trás, e com medo regressaram para a confusão.
A velha com aquele ar cansado que lhe dava o carregar com setenta e alguns anos e muita ralação, mais o zonzear da viagem do avião, lá foi à procura do capim alto que era onde ficava a mahanja.
Fez o que tinha a fazer, ficou aliviada, mas não deu com o caminho do regresso, perdeu-se, e depois de muito tentar regressar, foi encontrada pelos seguranças do aeroporto, que a entregaram ao posto da polícia mais próximo, ali para os lados do bairro das Galinheiras.
Começou o interrogatório:
- Você veio donde:
-De Moçâmedes.
-Veio na ponte aérea?
-Não veio, não siô, veio não avião.
-A dona é retornada?
-Não siô.
-Veio do Ultramar?
-Não siô.
-Então veio das colónias?
-Também não.
-Então veio de onde?
-Aka, eu já disse, eu veio de Moçâmedes.
-Onde fica isso?
-Perto da Praia Amélia.
-E a Praia Amélia?
.-Antes ou depois de Moçâmedes, conforme. Ucê conhece?
-Os guardas eram pacientes, entreolharam-se e continuaram.
-Sabe onde mora?
-Na Torre do Tombo.
-Se a levar para lá a Dona sabe dizer onde é a sua casa?
-Pois claro que sei.
Era um caso simples de resolver. Os agentes policiais meteram-na no jeep, seguiram pela Alameda das Linhas de Torres, passaram pelo estádio de Alvalade e pararam perto do edifício do arquivo da Torre do Tombo, em Entrecampos.
-É por estes lados que você mora?
-Aka! Eu já disse que mora na Torre do Tombo e aqui não é Torre do Tombo que eu conheço muito bem. Ainda nem passou nem o Palácio, nem a Igreja, nem a loja do Carumbemba, como é que aqui é Torre do Tombo?
Os agentes conferenciaram e acharam melhor regressar. Contaram ao Cabo, comandante do Posto o acontecido e este por sua vez, chamou a assistente social que estava mais vocacionada para estes casos, que ele diagnosticou de perda de memória ou demência degenerativa, própria da idade da anciã.
Tiraram a identificação, aboletaram a senhora na Pensão Luanda, da Almirante Reis que tinha contrato com o IARN, e garantiram gelidamente, como só os polícias sabem fazer.
- Olhe, não falei com o dono da Pensão, a Senhora vai pernoitar aqui e amanhã continuamos a procurar. Está bem ?
- Não esperaram pelo assentimento da idosa e remataram:
-Então, até amanhã.
Dois dias depois apareceram os zeladores da ordem e da lei. Prosseguiu o interrogatório com outro interlocutor, uma moça jovem que depressa foi posta ao corrente da situação. Querendo ser simpática para cativar a idosa, começou o interrogatório no sitio onde os seus colegas tinham ficado:
-Então avó, se não sabe onde mora, sabe ao menos quem são o seu marido, filhos, netos?
-A velha mete o dedo indicador por dentro do lenço que cobre a cabeça, e coça a carapinha branca, dizendo com ar de enfado:
- Pra já ucê não é minha neta, o meu homem já morreu faz tempo, e o meu neto de leite se chama Gerinho. Ucê pergunta aí a qualquer pessoa que toda a gente o conhece.
-Onde trabalha o teu neto Gero?
-No Caminho de Ferro.
-No Caminho se Ferro dos comboios?
-Esse mesmo,
Suspiraram de alívio. As coisas estavam-se a compôr. Meteram a velha de novo na parte de trás do Jeep , atravessaram Lisboa de lés a lés, em hora de ponta, e quando a viatura afrouxou a marcha, em Santa Apolónia, ela subitamente despertou, levantou-se e gritou, de dedo em riste:
-Pára, pára, é aqui mesmo. Tá ali a casa do sô Radich!
-Quem é esse Radich ou lá o que é?
-Já morreu faz tempo. Bom homem esse. É marido da Dona Beatrizinha, irmã do Sô Caleres do Banco, que casou com a Dona Branca, irmã do Patalim, e as filhas se chamam...
-Chega, chega, poça! Como é que se faz para calar esta velha, oh nosso Cabo? explodiu o motorista, engrenando a primeira e arrancando de esticão.
Bem, andaram com a velha por toda a Lisboa, de Jeep, atrás de pistas falsas durante dezassete noites, a rádio fez apelos e a televisão passou fotografias e abordou com desenvolvimento aquele estranho desaparecimento da idosa retornada no noticiário das oito.
Após tantas notícias e apelos cruzados da polícia e do RC, este apareceu no posto policial afogueado, e abraçando-se à avó, quase chorando recriminou:
-Então avó, isto faz-se? Toda a gente ficou em cuidados e não sabíamos mais o que fazer.
-Não precisava. Olha lá, e tu só agora é que apareces, não é? Disse ela, calmamente, agarrando nas coisas que a assistente social lhe tinha dado. Agradece à menina que faz muita pergunta pra nada e também a esses tchinderes que não estão bons da cabeça e que me levaram a passear por tanta rua esquisita.
-Ah!, e explica a eles onde fica a Torre do Tombo!
-E, de repente, fixando o neto, perguntou:
-É verdade, olha lá, como é mesmo como se chama as filhas da D. Beatrizinha, mulher do Radich da Alfândega. irmã do Sô Caleres, que é do Banco, que casou com a D. Branca, irmã do Patalim?
Fim
(Do caderno de memórias Contos Breves de Escárnio e Maldizer, de Mário Lopes.)
Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"
(*) in “Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal
(*) in “Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal
sábado, 18 de agosto de 2018
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
A literatura e as guerras em Angola. No Princípio Era o Verbo
Texto integral
1Se não for por catarse, diga-se que a tão repetidamente evocada Guerra Colonial de
1961-74 foi simplesmente a última das muitas guerras que se seguiram à
primeira, travada entre as hostes de Paulo Dias de Novais e Ngola
Kiluanje, em 1575. De facto, com a segunda chegada de Diogo Cão, em
1484, e o seu relacionamento com o Mani-Soyo, ainda se poderá falar de
“colonização missionária” (expressão eufemística de Adriano Moreira para
caracterizar toda a colonização portuguesa…), de tal modo foram
cordiais e de interesses recíprocos as relações entre portugueses e
angolanos. Depois, foi o que é consabido: o tráfico de escravos e a
busca de ouro e prata formataram as relações e os interesses ao ponto de
nem os missionários escaparem à tentação da riqueza – lembrem-se os
padres dos Lóios.
2Só do primeiro tempo em que o adjectivo colonial ainda remetia para o étimo latino colonus (o que cultiva a terra em lugar do seu dono) se poderia dizer, parafraseando a Bíblia, que No Princípio era o Verbo,
porque a confiança na Palavra dita e os actos consequentes faziam jus
ao pensamento de Santo Agostinho, um milénio antes, de que o tempo é o
espaço onde decorrem as coisas. Mas já antes Cícero advertia: o tempora! O mores! E
como se viu até aos nossos dias, os interesses, as práticas e os
costumes, pese embora a primeira Palavra, mudaram o espaço e o tempo,
até que…
3…por
fim, a Palavra transbordou como componente de um vulcão adormecido, que
depois entra em erupção: primeiro magma, depois lava. Tal como na
natureza humana: primeiro, conformação, resignação, esperança; depois,
inconformidade, protesto, luta.
4No
caso, todavia, em duas vertentes: uma, que se reportava aos interesses
do colonizador; outra, do colonizado – gerando (até 1961…), no dizer de
Mário António, a respeito de alguns textos questionáveis contidos na
revista Mensagem, “um caldo de ambiguidades”.
5Esse
“caldo”, enquanto palavra escrita, está já presente nos primeiros
jornais que se fundaram em Angola, a partir de 1866 (o primeiro arremedo
de informação começou em 1845, com a criação pelo Governo do Boletim Oficial). Até então a escrita, já literária, fazia-se num Almanach de Lembranças Luzo-Brasileiro e
nos recortes que iam chegando do Brasil pela mão dos maçons
estabelecidos ou degredados em Angola, como foram os implicados na Inconfidência Mineira, em
1789: José Álvares Maciel, o ideólogo da intentona, Inácio José de
Alvarenga Peixoto, Domingos de Abreu Vieira, Luís Vaz de Toledo e
Francisco António de Oliveira Lopes, uns literatos, outros militares de
carreira.
6Com a intentona que a independência do Brasil inspirou nas cidades de Benguela e Luanda, denominada Confederação Brasílica, em
1822-23, sob a égide de um dito “partido brasileiro”, constituído por
brasileiros, portugueses e angolanos, saltava à vista que a narrativa da
Portugalidade no futuro de Angola teria vários pronunciamentos.
7Um deles já tinha vindo de um português que integrara a colónia formada em Pernambuco, em consequência da Revolta Praieira,
e que em 1849-50 demandara a região de Moçâmedes, na expectativa de
substituir um Brasil em estado de revolta nativista por uma nova “Terra
da Promissão”. Chamava-se António Francisco Nogueira (literariamente A.
F. Nogueira), sem uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e
bancário), revelando-se durante a sua permanência no Sul de Angola como
um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da
Metrópole e, por último, um importante livro de ensaios com o título
genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:
[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?
[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!
8Este
colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando,
mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a
Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”.
Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de
Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de
Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:
Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
9Macedo
sabia bem do que falava: em 1901 tinha vindo a lume, impresso em
Portugal, um libelo escrito por destacadas personalidades angolanas,
civis e religiosas, que sob anonimato verberavam as críticas racistas de
um deputado português de visita a Angola. Intitulava-se esse livro Voz de Angola Clamando no Deserto, cujo primeiro depoimento – “Solemnia Verba” –, por muito apaziguador que fosse, não iludia o que subjaz à expressão latinista: Solene Advertência.
10O Verbo,
a Palavra final, continuou por dizer nos anos seguintes, até ao momento
em que um poeta já revolucionário, Viriato da Cruz, em 1956 defendeu o
imperativo de criar um Movimento Popular de Libertação de Angola, sendo
verdade que, desde antes, escritores, poetas e jornalistas já tinham
assumido, em revistas e jornais, o direito inalienável a uma identidade
própria, política e cultural. O Poeta Maior, Agostinho Neto,
expressá-la-ia posteriormente numa tríade paradigmática: Sagrada
Esperança, A Renúncia Impossível, Nós Somos!
11Em 1951, no primeiro número da revista Mensagem, da Associação dos Naturais de Angola, ainda a Cultura era um campo onde fecundavam as aspirações e germinavam os ideais:
[…] MENSAGEM será – nós o queremos! – o marco iniciador de uma Cultura Nova, de Angola e por Angola, fundamentalmente angolana, que os jovens da nossa Terra estão construindo. E porque assim é, porque é sincero o nosso desejo de auto-realização, não admitimos o preconceito, o compadrio; abominamos a hipocrisia e a injustiça; surpreende-nos a louvaminha, o elogio mútuo; desagradam-nos as meias tintas.
Batemo-nos pela Verdade, pela verdade forte, sem a verrina da agressividade mas com a justiça da nossa sinceridade; somos pelos grandes horizontes, sem nuvens, mas com a luminosidade forte do sol que nos aquece; pela generosidade dos nossos ideais, pela grandeza dos nossos Problemas. […]
12A revista durou apenas dois anos, com dois números publicados.
13Cinco anos depois, em Novembro de 1957, uma nova revista, CULTURA (II), editada pela Sociedade Cultural de Angola (já tinha existido uma primeira CULTURA, em 1942-47, de inspiração liceal irrelevante) propôs-se prosseguir e actualizar a linha editorial da Mensagem. Como
se afirma no editorial do seu n.º 8, de Junho de 1959, não assinado mas
sendo presidente da instituição o advogado e ensaísta Eugénio Ferreira:
Nós queremos que a Sociedade Cultural de Angola seja um organismo vivo, dinâmico na sua acção, objectivo perante os problemas da vida angolana. Um organismo despretenciosamente capaz de possibilitar aos homens de Angola, e sobretudo à sua juventude, um meio de abordar quantos problemas atormentam o seu espírito. O tempo e o homem de Angola são os elementos decisivos na gestação de uma cultura angolana, nacional pela forma e pelo conteúdo, universal pela intenção, capaz de ultrapassar a incipiência do exotismo tropical e do primitivismo turístico. Não podemos iludir nem ignorar os problemas. Não podemos abandonar as suas soluções às contingências do acaso. Nem subordiná-las a interesses pessoais e transitórios. Não podemos contentar-nos com exercícios de oratória mais ou menos oportuna, para não dizer oportunista. Necessitamos de pôr, com clareza e coragem, os nossos problemas em equação; discuti-los sem reservas, franca e honestamente, sem tolos melindres nem descabidas vaidades e encontrar as soluções justas, justas sob o ponto de vista nacional, justas sob o ponto de vista humano. Só assim lançaremos as bases de uma cultura… […]
14O
ano de 1959 é particularmente trágico para os intelectuais de Angola,
onde a PIDE/DGS já estava instalada desde 1957. Deu inequívoco sinal da
sua presença com a formatação do famigerado “processo dos 50” e a
consequente prisão e desterro de alguns dirigentes da Sociedade Cultural
de Angola e colaboradores literários da CULTURA (já o tinham sido da Mensagem),
também “marcados” pela sua participação na campanha presidencial de
Arlindo Vicente/Humberto Delgado, pelas janelas que ela prometia abrir
para os horizontes de uma Nova Angola.
15CULTURA é
extinta em Novembro de 1960, com 12 números publicados. Pese embora uma
declaração de interesses, é significativo que na última página do seu
último número seja registado, com nota positiva, o surgimento, na cidade
de Sá da Bandeira (hoje Lubango), da Colecção Imbondeiro, numa recensão assinada por A. A. (o conhecido causídico e poeta “mensageiro” Antero de Abreu):
No pobre panorama literário de Angola, a iniciativa da “Colecção Imbondeiro” reveste-se da maior importância, pelo que revela de esforço e seriedade, pelo que representa de amor a uma literatura consciente e de qualidade, pelos caminhos que abriu e abrirá. Até ao seu aparecimento, a actividade editorial em Angola, tirada a imprensa e os boletins desta ou daquela organização cultural, consistia na publicação de um ou dois livros anuais, a maior parte das vezes de versos, como é natural, e em edição dos autores. Hoje, com a “Colecção Imbondeiro”, já se pode falar em movimento editorial em Angola. Por isso, e porque é efectivamente uma realização cuidada e séria, a obra iniciada por Garibaldino de Andrade, Leonel Cosme, Maurício Soares e Carlos Sanches, presentemente mantida pelos dois primeiros apenas, tem já assegurado o seu lugar numa futura história da literatura (de Angola).
16A
Imbondeiro foi criada em Janeiro de 1960, tendo como suporte legal a
classificação de livraria-distribuidora, já que, no contexto político da
época, como editora não seria obviamente autorizada. Por precaução e
como subterfúgio, todos os cadernos da “Colecção Imbondeiro”, dedicados
ao conto e à poesia, referiam, na última página, que eram propriedade e
edição dos autores. Ao oitavo caderno, a PIDE local pediu para lhe ser
mostrada a licença da actividade: um alvará comercial passado pela
Repartição de Finanças do Lubango…
17Era
o primeiro “aviso”. Não a distraíra o facto de o quinto caderno ser
preenchido por um conto de Joaquim Paço d’Arcos, considerado autor
situacionista, entre outros autores considerados separatistas. Nem lhe
diminuíra a suspeição o Propósito aparentemente inócuo expresso no primeiro caderno:
Duas razões nos levaram a lançar esta colecção: a necessidade de dar a conhecer ao público português os valores ultramarinos que se espalham pelos cantos do mundo onde se fala a língua lusíada, desde a Guiné até Macau, e o direito, que se impõe, de os manifestar conjuntamente à luz duma consciência nacional que não pode deixar de reconhecer, nos caprichosos tons da grande aguarela lusitana, um curioso tema de interesses recíprocos, solicitados por anseios de espírito ou por afinidades de cultura tradicional.
Não se passará, imediatamente, duma tentativa em moldes simples (tão dependente de variados factores), traduzida em trabalho breve, mas responsável, como é o conto: explica-a, de resto, esta forma primária da Literatura, que, seja em Angola como em Moçambique, não possui, por ora, arcaboiço adulto com recursos igualáveis aos de uma terra de antiga existência literária.
Mas, dentro da estreiteza das possibilidades, será nosso intuito cumprir a tarefa com o melhor aproveitamento dos muitos valores esparsos, maiores ou menores, que ainda hibernam – na espreita duma aurora que cesse a já longa escuridão – à sombra dos braços clamorosos dum velhíssimo imbondeiro…
18A ambiguidade deste texto inaugural prestava-se a várias interpretações, em que a escolha da árvore imbondeiro (m’bondo no
étimo angolano) para sigla da “editora” não era fruto do acaso, mas um
símbolo, quiçá um ícone, a que as características da milenária “árvore
sagrada”, para os nativos (que dela retiravam alimentos e remédios),
davam o sentido desejado. O que se viu quando a par da “Colecção
Imbondeiro” foram surgindo as colecções “Mákua” (poesia) e “Dendela”
(contos infantis), isto é, o fruto e a flor da imbondeiro.
19Na
mais pacífica interpretação, a iniciativa convidava ao reconhecimento
de uma Lusofonia no vasto espaço luso-tropical… Esta terá sido a
primeira leitura dos epígonos do regime colonial, a PIDE incluída, não
desmentida quando outras colecções do tipo da Imbondeiro surgiram em
Nova Lisboa (Bailundo), no Lobito (Capricórnio) e em Cabo Verde
(Dragoeiro), estas de vida curta.
20E
porque o propósito da Imbondeiro não distinguia, literariamente
falando, os autores de diversas formações ideológicas, e por isso chegou
a ser criticada no Boletim da Casa dos Estudantes do Império, também
chamado Mensagem,
foi necessário, ao segundo ano de existência, defender o seu
“eclectismo cultural”, que não excluía (pois também os publicou) os
autores “progressistas” que constituíam a Colecção Autores Ultramarinos
da C.E.I., aliás de curta duração:
[…] ausência de opções, portas abertas a todo o pensamento dos nossos escritores, independentemente das suas tendências literárias e sociais – seguindo enfim uma linha de rumo que, agradando ou não a gregos e troianos, vem sendo cumprida desde o primeiro instante: isenção, franqueza e independência, na convicção firme de que só os caminhos da liberdade intelectual podem conduzir ao seio da Cultura e da Arte, pelo menos na acepção em que as temos. […]
21Depois
(como antes) deste “incidente”, Imbondeiro continuou a publicar, em
cadernos e antologias, contistas e poetas, incipientes e consagrados,
presos ou em liberdade, de todos os territórios de língua portuguesa,
incluindo os que sob a acusação genérica de serem contra a segurança do
Estado e inimigos da unidade da Nação portuguesa se propunham libertar
as colónias de armas na mão.
22Para os directores da Imbondeiro a razão da sua existência era uma só: dilatar o Verbo até ao ponto em que ele se exprimia em termos de Cultura nacional e universal. Pois que, repetindo Terêncio, homo sum: humani nihil a me alienum puto.
23Esta volição cosmopolítica deu pleno sentido à inclusão na “Colecção Mákua”, no n.º 5/6 (Grandes Poetas do Século XX),
já em 1964, de poemas de Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias
Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère,
Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiri Wolker, Langston Hughes,
Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir
Maiakovski.
24Não
aparece o nome do grande poeta angolano, Agostinho Neto, pelo simples
facto de naquela data ainda não estar publicado o primeiro livro que o
internacionalizou: Sagrada Esperança. Mas já era o primeiro nome da selecção de poetas que constituíram o n.º 49/50 da “Colecção Imbondeiro” – Antologia Poética Angolana –, saído em Junho de 1963.
25Já
se calculava que esta primeira antologia, reunindo nomes de poetas
presos, desterrados e suspeitos, angolanos e portugueses, seria
provavelmente encarada pela polícia política como uma “provocação”. A
certeza concretizou-se, no ano seguinte, com a publicação da MÁKUA
“internacionalista”: a PIDE invadiu a Livraria Imbondeiro para apreender
os exemplares ainda ali existentes, pois o grosso da tiragem já tinha
sido preventivamente enviado para os assinantes da Colecção, antes de
seguir para as livrarias…
26Era
o período nevrálgico em que a guerrilha dos movimentos independentistas
progredia no interior e, na capital, o livro de contos Luuanda, de Luandino Vieira (prisioneiro no Tarrafal) fora distinguido com o Prémio Mota Veiga por
um júri que integrava dirigentes da Sociedade Cultural de Angola. Este
facto foi assim registado num extenso relatório da PIDE de 16 de
Setembro de 1965:
Em 1964, serviu ainda a sede da SOCIEDADE CULTURAL DE ANGOLA para reunião do júri que, irregularmente, atribuiu o prémio “MOTA VEIGA” ao livro intitulado “LUUANDA”, da autoria de LUANDINO VIEIRA, obra que se integra na problemática desnacionalizante da literatura negro-africana (ou negritude) que a referida Sociedade fomentava desde 1957.
27A
sul, no Lubango, a Gráfica da Huíla imprimia, em Dezembro de 1964, o
caderno n.º 69 da “Colecção Imbondeiro”, com um trabalho de Luandino
Vieira, que seria o primeiro de 1965, quando a PIDE invade a tipografia,
apodera-se do papel já impresso e do próprio chumbo da composição, e,
não bastando, estende a sua acção às instalações da “editora”, onde
apreende toda a documentação, literária e comercial, existente no
escritório, incluindo textos inéditos.
28A ‘aventura’ de Imbondeiro chegara ao fim. Mas o Verbo ainda estava na primeira conjugação…
29Junte-se,
para a memória desse período, o facto de aquele livro de Luandino
Vieira ter merecido, no ano seguinte, o Grande Prémio de Novelística da
Sociedade Portuguesa de Escritores (a seguir extinta após a sua invasão
por legionários), e de a Sociedade Cultural de Angola ser também extinta
por Portaria de 5 de Março de 1966 do Governo de Angola. Era governador
Silvino Silvério Marques e ministro do Ultramar, Joaquim da Silva
Cunha.
Leonel Cosme
https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:4VimVSlxqlUJ:https://journals.openedition.org/cultura/2581+&cd=1&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-b
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Welwitschia Mirabilis
"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto
(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)
Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se precisamente no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas, descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), que se tinha deixado encantar pela natureza africana a ponto de só a ter abandonado quando foi vítima de maleitas tropicais.que se encontra precisamente no deserto do Namibe. O nome foi dado em homenagem a Friedrich Welwitsch (1806-1872) seu descobridor e criador de um género novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.
A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Possui um caule duro, do qual saem duas folhas, que crescem lentamente, esfarrapando-se nas extremidades, a um nível rasteiro. Parece apenas um monte de fibras secas e velhas, mas apesar de desarrumada e descolorida, é um fenômeno da natureza. Trata-se do prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.
O Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (Mukubais) nada tem a ver com o Tchitundo-Hulu, um outro morro do Namibe. Sobre ele Namibiano Ferreira escreveu um interessante testo que transcrevo a seguir:
«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. Fim de transcrição.
MariaNJardim
segunda-feira, 25 de junho de 2018
Estátua de Maria da Cruz Rolão, (1) colocada à entrada de Porto Alexandre (actual Tombwa), nos inícios da década de 70, poucos anos antes da independência de Angola. Acabaria por ser demolida nesses tempos de nacionalismo exacerbado que se seguiram ao processo agitado de descolonização e independência do território.
Subscrevo totalmente este texto assinado por Manuel Gaspar:
"...Os africanos, por motivos que plenamente compreendemos, e dada a incapacidade de distinguir entre bons e maus colonos, entre o colono trabalhador do ambicioso colonialista, nunca perdoaram a colonização. E o radicalismo das posições não tem ajudado a compreender a verdade histórica de um povo que, ao arrepio da desconfiança desenvolvida face a teses de fácil aproveitamento, mas não menos reais, como a do "lusotropcalismo" de Gilberto Freyre, não possuia nem possui características racistas de outros povos, já que facilmente se miscigenou, fosse com índios, no Brasil, fosse com negros em África, formando uma população tri-híbrida.
Os portugueses quando partiram para a diáspora já carregavam consigo séculos de integração genética e cultural de povos europeus, como os celtas e os lusitanos, para além dos 7 séculos de convivência com mouros do norte de África e com judeus, relacionamento que deixou um importante legado a este povo. Lá virá um dia em que haverá a capacidade de interpretar a História, com o necessário distanciamento, e se há de ultrapassar preconceitos de má memória e de maus resultados, que apenas servem e continuam a servir àqueles que pretendem dividir para reinar! E tanto mais que não existe margem para dúvidas de que chefes tribais estiveram envolvidos no tráfico de escravos de má memória, e que hoje em dia chefes africanos encontram-se profundamente mergulhados na exploração dos seus próprios povos, numa época em que a ambição dos grandes está no auge, e que já ninguém duvida que ela não têm côr nem tem pátria!"
Dia da inauguração da Estátua, na presença do Governador e Presidente da Câmara de Porto Alexandre, Lourdino Tendinha. Entrevistador, José Manuel Frota do RCM
Esta mulher, Maria da Cruz Rolão, era afinal uma mulher do povo que, pela sua energia e por saber ler e escrever numa época em que a maioria do povo português era analfabeto, foi por consenso tácito do reduzido núcleo populacional de Porto Alexandre, eleita a sua Regedora. Um facto ninguém jamais poderá negar, é que os destemidos algarvios deram, também eles, com a sua presença nas terras áridas e desérticas do sul de Angola, o seu contributo para que o território angolano se mantivesse íntegro, nos momentos cruciais que se seguiram à Conferência de Berlim, (1885-6), quando a imposição das potências estrangeiras era a ocupação, evitando assim que o mesmo território fosse cindido em proveito de outras potências interesseiras e interessadas, como a Alemanha que pretendia a anexação pelo Sudoeste Africano (Namibia), da faixa territorial de Angola, a sul de Benguela.
Foto: outra perspectiva da estátua erguida em Porto Alexandre em homenagem a Maria da Cruz Rolão, obra do escultor, já falecido, Fernando Marques, sobre a qual se desconhece o destino. Foi executada em cimento na cidade de Sá-da-Bandeira, pelo escultor Fernando Marques, era composta por duas ou três peças, e foi em seguida pintada na cor bronze. Foto cedida por Paula Marques, sua filha, a quem agradecemos. Ao mesmo escultor Moçâmedes ficou a dever os baixos relevos das galerias do "Cine-Estúdio SATÉLITE", o Cinema inacabado, de arquitectura futurista que faz lembrar um ovni e que se encontra por acabar, desde 1975, porém deixado quase concluido, quando a cidade foi abandonada pela população branca e não só, devido aos confrontos bélicos entre movimentos independentistas que precederam e se seguiram à independencia. Também Fernando Marques tinha em mãos, em 1975, o projecto para um outro monumento a erguer na Marginal, em Moçâmedees, uma evocação aos fundadores da cidade.
Maria da Cruz Rolão, a heróica Regedora de Porto Alexandre, nasceu em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21 de Setembro de 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro. Era filha de Domingos Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (conf. Câmara Municipal de Moçâmedes, Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883 a 1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito de seu filho, José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes, em 1 de Dezembro de 1905, motivado por tuberculose pulmonar, no estado de casado com 53 anos de idade - nascido em Olhão em 1852, registou-se a filiação: filho de Maria da Cruz Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 do Registo de Obitos 1898-1911) . Outro Registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os Sacramentos. Indica a sua profissão: Maritimo. O seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão. Confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó, maritimo, e de Maria da Cruz Rolão, natural e Olhão e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz, não dez testamento, deixou seis filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião, de Moçâmedes, Registo de Obitos de 1905). Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão, verificado em Moçâmedes, a 06 de Julho de 1902 com a indicação da idade: 70 anos, e do estado civil: casado, apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (Câmara Municipal de Moçâmedes Livro 52? Registo óbito 1898-1911. Há outros registos que referem dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz.
De Delgado, Ralph seguem algumas passagens que mais pormenorizadamente nos podem esclarecer sobre o perfil da Regedora, Maria da Cruz Rolão:
“...A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.
”...Para
intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos
seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do
Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do
Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso
uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José
(piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e
um pequeno chamado Baptista.
“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.
“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.
“...Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”
Delgado, Ralph (2) vol. II pp. 60/61
Cecilio Moreira no seu
“Elegeram,
entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão,
algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D.
Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de
Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.
“Cruz
Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas
funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos,
sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever,
tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão
muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos
pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz
tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada
altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães,
passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A
povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora
procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que
conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco
do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado
populacional, e este foi salvo.
“Igualmente,
em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande
almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía,
em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua
Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes
devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a
restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado,
no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores,
nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das
mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os
maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e
pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da
Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua
porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico.
Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de
gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a
perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a
indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez
suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”
Moreira (1) pp. 20/21
Vendo bem, através de uma perspectiva transcendental, europeus e africanos foram vitimas (as maiorias) e foram beneficiários (uma minoria) desse processo histórico que hoje chamamos "globalizaçâo" e que teve o seu arranque com as caravelas portuguesas no séc XV, impulsionado mais tarde pela Revolução Industrial (1ª e 2ª) na busca de matérias primas, mão de obra barata e mercados consumidores.
Estamos presentemente no limiar de uma nova era. Outras revoluções estão em curso, para o bem e para o mal. O capitalismo, a mola que tudo faz movimentar tem a sua dinâmica própria, que não se compadece com barreiras que se encontram no seu caminho. Presume-se que novas e radicais mudanças que não divisamos venham a acontecer na vida das pessoas num futuro próximo, consequência de uma enorme revolução tecnológica, da computorização, da robótica que, significam um salto histórico e
civilizatório comparável à descoberta da técnica, enquanto ferramenta e
arma, pelo homo sapiens. De agora em diante, precisamos
de inteligência artificial, pois o volume de dados é imenso, estão
armazenados na nuvem e chegamos ao tempo em que robôs já estão nos
ajudando a decifrar o mundo em que vivemos. Não é ficção científica, já é
realidade. Nada será como antes: negócios, relacionamentos, produção de
conhecimento, percepção do mundo, da sociedade, da natureza, do espaço,
das galáxias, enfim, tudo. Estas são algumas conclusões a que se pode
chegar...Não estaremos por cá para ver por que caminhos trilhará a humanidade.
MariaNJardim
domingo, 24 de junho de 2018
Moçâmedes. Namibe, por João Catarino
Serra da Leba
Os cerca de 200 km que separam o Namibe do Lubango são feitos pela nacional 280, uma estrada agora de bom asfalto que inicialmente atravessa superfícies arenosas quase desérticas à cota do mar, até se aproximar da Serra da Leba onde pela sua influencia tudo se vai tornando mais verdejante e fresco. Aí iniciamos um dos percursos mais curtos, mas mais contrastantes e vertiginosos de todos os que fizemos em Angola. A Serra da Leba constitui um enorme degrau geográfico que divide aquela zona de África da influencia atlântica e da influencia continental. Em pouco mais de 20 Km passamos quase do nível do mar até mais de 2000 metros de altitude. Nas curvas que serpenteiam a subida vamos sentindo as mudanças climáticas, passamos pelas nuvens, pelas sombras frias, por cascatas cobertas de musgo, assim como pelas escarpas expostas ao calor tórrido, também por trovoadas e aguaceiros que na curva seguinte se dissipam na evaporação do asfalto ainda quente. Todo o cenário é já um filme, mas não havia espaço para parar e filmar. Saí do carro e subi alguma parte a pé entalado entre o esmagamento do rodado dos camiões que desciam a chiar dos travões e a vertigem das escarpas separadas pelos rails de protecção que pareciam não ter espaço na beira onde se agarrar. Numa curva uns quilómetros mais acima havia de estar o Câmera-men que com a lente me ia seguindo à distancia.
Rio Muninho
Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos.
Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos.
No Namíbe
No Namíbe tudo se estende na horizontal, a construção é de baixa densidade e de baixa altura, há muito espaço para tudo se espraiar junto do litoral pelo solo árido e desértico. O caminho de ferro de Moçâmedes começa ali num emaranhado de carris até à data ferrugentos. Esta é segunda linha férrea mais importante de Angola começada a construir logo no início do século XX pouco depois da linha de Benguela. Em Agosto passado foi reactivada, pouco a pouco as artérias de Angola sejam em ferro ou asfalto vão recomeçando a funcionar.
No Namíbe tudo se estende na horizontal, a construção é de baixa densidade e de baixa altura, há muito espaço para tudo se espraiar junto do litoral pelo solo árido e desértico. O caminho de ferro de Moçâmedes começa ali num emaranhado de carris até à data ferrugentos. Esta é segunda linha férrea mais importante de Angola começada a construir logo no início do século XX pouco depois da linha de Benguela. Em Agosto passado foi reactivada, pouco a pouco as artérias de Angola sejam em ferro ou asfalto vão recomeçando a funcionar.
A Baía de Namibe
A Baía de Namibe é desolada suja e encantadora. Felini podia bem ter rodado ali um filme, mesmo no seu tempo e nos anos que a cidade conheceu alguma prosperidade o cenário não terá sido muito diferente. Agora com a patine impressa pelo tempo, a ferrugem dos aparelhos de pesca que restam, as brincadeiras das crianças descalças que chutam qualquer coisa que sirva de bola, as carcaças das embarcações, a vadiagem de canitos pele e osso, o ar desocupado das pessoas numa cidade com tanta terra ainda por ocupar, torna tudo verdadeiramente encantador, com tanto tempo que parece ter para gastar apetece ficar a fazer um filme sem mais nada, montar o tripé e deixar a câmera ligada. Esse seria o verdadeiro registo da Baía de Namibe, mas a história que tinha-mos de contar era outra. Foram estas as primeiras casas algumas edificadas outras escavadas na falésia que os Portugueses vindos do Algarve construíram. Quando Capelo e Ivens aqui chegaram em 1884 a cidade de Moçâmedes (actual Namibe) ainda mal figurava no mapa, aqui formaram a caravana de guias, carregadores e toda a logística necessária, deixaram o atlântico e partiram por terra a caminho do Índico na contra costa de África.
No sul de Angola tudo continuava a parecer muito familiar, já tarde
depois de procurarmos alojamento numa pequena pensão numa casa de traça
algarvia com um pátio interior empedrado, onde se seca e lava a roupa
num tanque de cimento como nas casas que se alugavam nas férias no
Algarve antes da oferta de camas ser o que é hoje. No clube Naval do
Namibe ainda nos serviram jantar, na ementa não havia um só ingrediente
que não fosse completamente familiar. A corrente fria de Benguela faz
com que ali seja um dos lugares de pesca mais importantes de Angola,
terra de bom peixe mas a fome ditou que em pleno Namibe o que veio à
mesa fosse depois de uma sopa de legumes com rodelas de chouriço a
flutuar uma bela carne de porco à Alentejana.
Contra todas as advertências e expectativas sobre a resistência e a
capacidade que o pequeno Chevrolet teria em conseguir transpor os
obstáculos que encontrou pela frente, lá chegámos ao Namibe graças
sobretudo à perícia de condução dos nossos produtores. Esse sempre foi
aliás o meu maior receio antes e depois de partir para África, o facto
de não conhecer devidamente a equipa com quem me ia enfiar dentro de um
carro durante cerca de um mês para atravessar África de Angola à Contra
Costa.
A noite caía rápido algumas dezenas de quilómetros antes de chegar ao
Namibe, quando alguém nos avisou que teríamos de voltar para trás porque
uma ponte tinha caído recentemente durante a estação das chuvas. Já bem
cansados e com a expectativa da meta à vista tornava-se bem mais
difícil de segurar o moral. Tínhamos mesmo de voltar para trás e
conforme as indicações, seguir já de noite durante largos quilómetros
por um desvio sobre pistas de pedras e areia sobre o deserto do Namibe,
passámos por vários jeeps parados com pneus furados, uma família com o
carro atolado montava um abrigo à luz dos faróis, para ali pernoitar
junto dos trilhos de areia que se iam abrindo com a passagem dos jeeps.
Com sorte escolhemos o trilho certo. Chegamos à antiga cidade de
Moçâmedes onde Capelo e Ivens teriam organizado a sua comitiva de guias e
carregadores que os acompanharam atravessar África a pé até do
Atlântico até ao Índico.
Depois de Benguela o caminho mais curto pelo mapa até ao Namibe, seria
pela estrada do litoral, cujo asfalto termina pouco depois de Benguela e
daí segue por atalhos e desvios, por montes e vales desérticos
atravessando pequenas povoações de pescadores por uma costa de praias e
falésias arenosas infindáveis e quem sabe até com baías de água
cristalina e ondas perfeitas ainda por descobrir. Essa era a via que eu
gostava de ter feito mas impensável para o nosso pequeno chevrolet
citadino. A estrada transitável para sul é só uma, a que segue por
Chongoroi, pelo interior até ao Lubango e depois ruma a oeste desce as
curvas da Serra da Leba e daí até ao Namibe segue por uma planície na
mesma cota do mar. Depois de Chongoroi afinal a dita via transitável
pelo interior, a seguir à estação das chuvas deixara de o ser. Há muito
que o asfalto tinha sumido, havia vestígios de antigos marcos de
estrada, de bermas empedradas e protecções em cimento como as que vemos
na estrada marginal entre Cascais e Lisboa a mais de um metro de altura
do nível onde hoje os camiões escavam na lama um novo rodado. Vários
foram os que paravam para nos avisar de que a estrada não estava
transitável para o pequeno Chevrolet sem tracção total, mas se os
Kupapata ou mesmo alguns candongueiros passavam nós também havia-mos de
passar.
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Moçâmedes; Namib; por João Catarino;
quinta-feira, 10 de maio de 2018
A BAÍA DOS TIGRES E A SUA COLONIZAÇÃO PISCATÓRIA PELO DR CARLOS B. CARNEIRO
Mossâmedes-1935.
Quási no extrêmo sul do litoral de Angola abre-se, enorme e profunda, uma baia a que um listrado regular e geométrico que se desenha ao longo de uma imponente muralha de dunas que se eleva no lado continental, dizem uns, dar o nome de Baia dos Tigres e que, segundo outros, tal designação tem origem num ruido ennervante como uivo de féra molestada que o redemoinhar da areia provoca no cóne superior das dunas.
E' desoladora a paisagem. E' areal, de uma côr terrosa e mortificante, tudo o que nos cerca. A meio da restinga, língua de areia saliente à superfície azul das águas atlânticas, ergue-se um pequeno aglomerado de edifícios, sem simetria e sem estética., onde se alberga uma sacrificada colónia de pescadores.
São pequenas casas feitas com bordão e areia calcinada, rebocadas a cal e de tectos em bordão unido, e coberto por uma ligeira camada ele cimento ou vedado a feltro. Perto do mar, as suas rudimentaríssimas instalações de pesca. Não há locais pavimentados, para escalar· peixe, nem tanques feitos cm cimento para o salgar. Nem é possível havê-los.
A areia, num movimento constante que o vento provoca, sotérra em minutos um edifício, ou descobre despojos de edifícios outrora soterrados. Entre o homem e a areia há uma luta constante, sem tréguas. Para dela se defender, resgüarda a sua cabana. com sébes mortas, ante-dunas contra as quais a, areia vem bater imobilizando-se.
Mas se o sudoeste é rijo, se a garrôa é violenta, a duna forma-se enorme, tremenda, e faz desaparecer dentro de si o que o homem, com tanto sacrifício e com tão árduo trabalho, edificou.
O mar, que também tem os seus caprichos, ora cede terreno, alargando a. estreita facha de areia onde poisa, tristonha, aquela pobre povoação de pesca.dores, ora avança em fúria, pela terra dentro e chama a si as míseras instalações de pesca, daquela, gente mártir.
O lado continental é dominado por grandes dunas caprichosamente feitas pelo vento do sudoeste que sopra sempre, descolando massas colossais de areia que tomam disposições geométricas regulares e majestosas.
A vida parece ter desaparecido daquêle pedaço assustador do Kalaári.
Desenham se, a medo, os leitos dos rios sempre secos, porque não há água que sacie a sêde destas areias calcinadas. A vegetação desapareceu totalmente debaixo de arenosas muralhas intransponíveis nem se atrevo a aparecer nos recantos mais sossegados e menos batidos pelo vento porque a areia, sempre em movimento, não permite tais desejos de vida.
Só está de pé, pescando sempre, sempre trabalhando, o homem que foi fadado para. mostrar aos fracos, aos pusilânimes da espécie, até onde chega uma vontade firme, do que é capaz um temperamento rijo de lutador que desafia, altivo, a intempérie e que não receia o mar, quando embravecido.
E' ouvir-lhe a sua história; não há no curso da sua vida uma recordação feliz, uma saüdade pungente por um amor distante, uma infância desassossegada, tranqüila, cujos incidentes sempre cheios de ingenuidade e de maravilha, a nossa memória retem com avareza.
Há só tristezas, desalentos, perigos. Foi a sua casinha que desapareceu outrora, vitima da fúria dos elementos: recorda, cheio de amargura, essa pequena cabana que foi o seu berço; a luta titânica para se salvar da derrocada, para não ser absorvido, como a casa querida, por aquela areia assassina.
Depois, já moço, nas lides do mar, vem o naufrágio. A garrôa imprevista apanhou-o sôbre as ondas, dentro de um pequeno barco que desmantelou, que desfez, e êle, já homem do mar, lutou com as vagas alterosas que o despejam, exausto, quasi morto, na praia salvadora.
E' o escorbuto que, de quando em vez, o atira, febricitante, para cima dum catre, dilacerando-lhe as gengivas anémicas, abafando-lhe os dentes, roídos pelo tártaro, convulsionando-lhe os intestinos.
E a água, com que matar a sêde que o domina, falta-lhe, como bàrbammente lhe falta o citro que lhe caustique as gengivas doridas e os vegetais que normalizem a sua função gástrica e intestinal.
E' uma vida cheia de heroísmos, prenhe de sacrifícios a do colono pescador a quem o destino lançou, sem piedade, para as areias mordentes da Baía dos Tigres.
Há quási meio século reuniam-se representantes de todos os países coloniais para se estabelecer o "modus faciendi" que haveria de fixar os limites do algumas colónias do Continetnte Africano.
Nos arquivos ministeriais e nas Chancelarias da Europa. falhavam os documentos que afirmassem onde terminava, ao sul, o território de Angola.
Até então nunca interessou a ninguém a ocupação e a posse da zona desértica que se estende, arenosa, sêca, improdutiva, desde o litoral ao lago Etocha, no Ovampo e que constitúe o deserto kalaariano.
Havia, no entanto, informações seguras que numa língua de areia que formava, a cem milhas a sul de Mossâmedes, a grande Bafa dos Tigres, existia um aglomerado
de gente branca que, através de todos os perigos e de tôdas as inclemências, ali vivia da pesca.
A nacionalidade dêsse povo garantiria a posse de território ao país a que pertencesse.
Eram portugueses, vindos de algarvias terras, aquêles que, heróis e mártires, se agarraram estoicamente às areias calcinadas da Bala dos Tigres e ao mar que a contorna e que tão rico é em peixe.
Mais tarde, fixava-se como limite sul do território de Angola, o rio Cunéne que desagúa no Atlântico a quarenta milhas a sul daquela baía.
'O MAR DE ANGOLA', de Carlos Carneiro (Luanda 1949)
Angola - As riquezas do mares da antiga colónia portuguesa
'O MAR DE ANGOLA'
De Carlos Carneiro
Edição Empresa Gráfica de Angola
Luanda 1949
Livro com 246 páginas e em muito bom estado de conservação.
De muito difícil localização.
Muito raro.
O autor revela as formas de uso dos mares e as suas riquezas nas costas de Angola, nos meados os século passado.
Uma raridade pelo tema em abordagem e pela escassa tiragem.
Do ÍNDICE:
- Prefácio - F. Morais Sarmento;
- PORQUE ME SEDUZIU O MAR DE ANGOLA;
- A INTELIGÊNCIA DOS PEIXES;
- OS PEIXES OUVEM;
- AS MIGRAÇÕES DOS PEIXES;
- BALEIAS E CACHALOTES;
- O BÓTO, CETÁCEO EQUATORIAL;
- TONINHAS E ROAZES;
- OS ESQUILOS;
- O ATUM DE ANGOLA;
- A PESCADA DO REINO;
- SERPENTES DO MAR;
- OS CEFALOPODOS - O POLVO;
- OS CRUSTÁCEOS;
- OS ESPONJIÁRIOS;
- HÁ ENGUIAS NOS RIOS DE ANGOLA;
- A EDUCAÇÃO TÉCNICA DO PESCADOR;
- A PESCA, SOB O PONTO DE VISTA SOCIAL;
- INDUSTRIA DA PESCA;
- A INDUSTRIA PISCATÓRIA ANGOLANA PÓS-GUERRA;
- A INDUSTRIA DA PESCA NO CONGO BELGA (A pesca no Lago Alberto);
- A PESCA EM KATANGA;
- AS OVAS DOS PEIXES;
- COMERCIALIZAÇÃO DO PEIXE SECO (Peixes novos e peixes velhos);
- O PEIXE SECO E OS SEUS MERCADOS;
- ATENÇÃO, CONSERVEIROS !;
- AASIM NASCEU, EM ANGOLA, A INDUSTRIA DE FARINHA DE PEIXE;
- O VALOR DA FARINHA DE PEIXE NA INDUSTRIA AÇUCAREIRA;
- A HIDROGENIZAÇÃO DOS ÓLEOS DE PEIXE;
- O ABASTECIMENTO DE PEIXE A LUANDA;
- PORQUE NÃO SE FABRICAM NO SECTOR PISCATÓRIO DE LUANDA A FARINHA E O ÓLEO DE PEIXE?;
- A CHÁVEGA E O PALANGRE;
- OS ARRASTÕES;
- A PESCA AO CANDEIO;
- A PESCA NO LOBITO;
- MUITA CHUVA, POUCA PESCA...;
- O QUE ANGOLA DEVE À SUA NAVEGAÇÃO MOTORIZADA;
- JÁ ESTÃO PESCANDO, EM ANGOLA, DUAS TRAINEIRAS MOTORIZADAS;
- ANGOLA NECESSITA DE DOCAS E ESTALEIROS;
- A "AVITAMINOSE" NOS HOMENS DO MAR;
- HÁ PÉROLAS EM ANGOLA;
segunda-feira, 30 de abril de 2018
O toponímio Mossâmedes com "ss"
Mossâmedes com dois "ss", assim se escreveu, até determinada altura, o nome da povoação capital de Distrito que em Angola tinha por limites a norte, o Distrito de Benguela, a sul o rio Cunene, a oeste o Oceano Atântico e a este os rios Cunene e e Cubango.
O toponímio Mossâmedes com dois "ss" foi atribuido à velha "Angra do Negro" , à "Mossungo Bitoto" na língua local, pelo geógrafo e oficial da Marinha, José Cândido Cordeiro
Pinheiro Furtado, que o propôs, em 1790, no decurso de uma expedição à Angra, em
homenagem ao Governador Geral de Angola (de 1784 a 1790), o Barão de Mossâmedes, José de Almeida Vasconcelos Soveral de
Carvalho da Maia Soares Albergaria, Senhor da Terra do Celeiro de
Mossãmedes, na Ribeira da Cruz, Póvoa do Concelho do Distrito de Vizeu
-Beira Alta, "por relevantes
serviços prestados à Nação".
O Barão de Mossâmedes já havia demonstrado nítido interesse em ocupar a região conhecida nas antigas cartas e roteiros por "Angra do Negro", e por "Litlle Fish Gay" nas cartas inglesas, tendo para o efeito solicitado ao Ministério da Marinha e do Ultramar o envio de recrutas e de colonos, preferencialmente casados, e resultando as suas preocupações numa expedição que teve lugar em 12 de junho de 1785, a bordo da fragata Loanda, comandada pelo tenente-coronel de engenharia, Luiz Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, enquanto Gregório José Mendes, rico sertanejo com um corpo de tropa explorava o interior, no intuito de afastar o interesse de estabelecimentos estrangeiros (1). Apesar de todo o seu esforço, a região de Mossâmedes continuou por muito tempo ainda no esquecimento das autoridades portuguesas, que sem condições de aumentar o número de colonos na região, acabou deixando espaço para especulações estrangeiras.
Quanto ao toponímio, a partir de 1944, Mossâmedes com dois «ss» passou a
escrever-se com «ç», alteração ortográfica introduzida pela Sociedade de
Geografia de Lisboa, talvez com o propósito de a conciliar com a
ortografia de Moçambique que sempre se escrevera com «ç». Assim reza o artº 1.0 da Portaria N. 269D, de 23 de Agosto de 1919,
assinado pelo Governador Geral de Angola, Francisco Coelho do Amaral
Reis, (Visconde de Penalva) e publicada no Boletim Oficial da Província
de Angola, 1ª série n. 34, de 26 de Agosto de 1919.
O Barão de Mossâmedes já havia demonstrado nítido interesse em ocupar a região conhecida nas antigas cartas e roteiros por "Angra do Negro", e por "Litlle Fish Gay" nas cartas inglesas, tendo para o efeito solicitado ao Ministério da Marinha e do Ultramar o envio de recrutas e de colonos, preferencialmente casados, e resultando as suas preocupações numa expedição que teve lugar em 12 de junho de 1785, a bordo da fragata Loanda, comandada pelo tenente-coronel de engenharia, Luiz Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, enquanto Gregório José Mendes, rico sertanejo com um corpo de tropa explorava o interior, no intuito de afastar o interesse de estabelecimentos estrangeiros (1). Apesar de todo o seu esforço, a região de Mossâmedes continuou por muito tempo ainda no esquecimento das autoridades portuguesas, que sem condições de aumentar o número de colonos na região, acabou deixando espaço para especulações estrangeiras.
Dessa expedição existem a memória de Gregório José Mendes, e a carta de Pinheiro Furtado, bem como as plantas por este ultimo levantadas da Angra do Negro, que ele denominou Bahia de Mossamedes, e da Enseada da Lapa, 1785. (2)
MariaNJardim
(1) Quanto a "interesses estrangeirios" com relação ao território a sul de Benguela, à época por ocupar, Simão José da Luz Soriano em "Revelações da minha vida e memórias de alguns factos e homens meus contemporâneos" (1860), assim os descreve : " ...No quarto volume, documento n.º 13, da viagem que Mr. João Baptista Douville fez a Angola, em 1827, vê-se aparecer ali bem descrito o porto e o sertão de Mossâmedes. Mais se vê ter ele fortemente despertado a atenção do governo francês por meio de uma memória dirigida ao ministro das colónias, sobre aquele porto, rogando-o encarecidamente para que nele mandasse levantar um presídio para degradados. (...) A leitura de tudo isto convenceu-me cada vez mais da urgência de se segurar a todo o custo o porto e o sertão de Mossâmedes, antes que o governo francês anuisse as instâncias de Douville, e nos expellissem do sul de Angola pelo mesmo modo por que nos tinham expellido do norte.(...)
(2) In "Ensaios sobre a estatistica das possessões portuguezas na Africa occidental e na China e Oceania", por José Joaquim Lopes de Lima, 1844oficial-maior da secretária do estado dos negócios da marinha e ultramar em Angola, em suas
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Mossâmedes; dois "ss"; Moçâmedes com "ç";
quarta-feira, 25 de abril de 2018
Ponta do Noronha em Moçâmedes
«...Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossâmedes.»
«...Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.»

Ponta do Noronha, ou Pau do Sul
Para a maioria "PONTA DO PAU DO SUL", para os entendidos "PONTA GROSSA OU DO NORONHA"
Ponta do Giraúl
As pescarias, a baía e a cidade como pano de fundo. 1955
«...Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.
«...Estende-se a ponta do Girahúlo, que é rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.
«...Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.
«...Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a bahia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que pode montar 8 peças.

O morro da Torre do Tombo e pescarias primitivas em finais do século XIX
Na base da falésia (Morro*) da Torre do Tombo, com as obras do cais e marginal e aterros em execução. 1956. Vê-se à esquerda uma das famosas grutas nas inscrições do Morro da Torre do Tombo.
«...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.
![[Amilcar+Betinha+e+Gracietinha+Pau+do+Sul.jpg]](https://4.bp.blogspot.com/_QN04x6AzKRw/SIKNwJKDxqI/AAAAAAAAI50/9V1lspDALXQ/s400/Amilcar%2BBetinha%2Be%2BGracietinha%2BPau%2Bdo%2BSul.jpg)
Sobre a ponta do Noronha (Pau do Sul), familiar e amigas vislumbrando o Canjeque e a Praia Amélia... 1956
«...Milha e seis décimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amélia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amélia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem afirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.

O Canjeque e pescarias, por ocasião das grandes calemas de 1955
«...Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.
«...Afoitamente se pode navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.

A ponta do Canjeque, entre a Ponta do Noronha e a Praia Amélia
«...Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.
«...Indo do N. deve-se dar resguardo à ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
A ponta do Noronha (Pau do Sul), a baía, a ponte, navios de carga, palhabote, batelões, barcos de pesca. Início do século XX
«...Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.»
«...Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tombo, e.em 9 metros ou 6m,4.»
«...Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.»
As antigas pescarias em 1950
«...Há, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.»
De Brito Aranha in Archivo pittoresco, Volume 10, p. 11
* O morro da Torre do Tombo, famoso pelas grutas escavadas a punho na rocha branda, e pelas inscrições ali deixadas impressas em tempos remotos por mareantes que por ali passavam e ali vaziam aguada, ou seja, abasteciam-se de agua e descansavam, e que mais tarde serviram para abrigar alguns colonos fundadores da cidade, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e1850, bem como algarvios que a partir de 1861 deram início a umas corrente migratória que se estendeu por todo o século XX .
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