Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 6 de setembro de 2019

LENDO E APRENDENDO SOBRE A HISTÓRIA DE ANGOLA, COM FLAUSINO TORRES








"...Depois de 1885, em que se realizou a Conferência de Berlim para a partilha da Africa, o governo da Monarquia lançou-se na ocupação militar dos territórios a que se chamava Portugal, pois essa ocupação era, segundo as decisões da Conferência, obrigatória para que nenhuma potência ambiciosa pudesse afirmar que apenas as costas estavam dominadas.

E foi esta a politica que o Governador de Moçambique, António Enes, com o título de Comissário Régio, desenvolveu na colónia que estava a seu cargo. Foi por essa altura que se levou a cabo uma campanha de destruição de certos régulos indígenas, entre os quais há que salientar o muito conhecido Gungunhana. E foi dentro desta política do governo e do Comissário Régio que se tiveram determinados combates em que se salientou a figura de Mouzinho de Albuquerque.

A mesma politica que alcançou exito em Moçambique em 1895, foi desenvolvida na Guiné, em Timor e em certas regiões de Angola, continuando ainda, também a praticar-se em Moçambique.

Esta orientação de ocupação militar foi seguida de várias tentativas de ocupação populacional branca. Mas sem aquele sucesso que esperavam alguns dum país que tinha então uma forte emigração, sobretudo para o Brasil.

Entretanto a politica de expansão colonial (com as respectivas disputas, resultado da concorrência, principalmente entre a França, a Inglaterra e a Alemanha) reflectia-se nas colónias portuguesas, pois que tanto a Angola como Moçambique tinham como vizinhos a Alemanha e a Inglaterra. À Alemanha tinha cabido o território ao Norte de Moçambique, conhecido então por Tanganica, ao sul de Angola, o Sudoeste Africano Alemão. Se a fronteira ao norte de Moçambique estava claramente limitada pelo rio Rovuma, já assim não acontecia à fronteira do sul de Angola, pois o Deserto do Calaari, estentendo-se para o Norte e para o Sul do Cunene, abafava este rio com as suas areias. Daí disputas e questiúnculas constantes que obrigavam à construção de uma verdadeira rede de fortins que defendessem a colónia pelo lado sul.

Para isso era igualmente necessário evitar a subordinação dos indígenas que os alemães ajudavam em tudo aquilo que pudesse provocar perturbações. Com este objectivo foi enviada para o sul de Angola, nos últimos anos na Monarquia, uma série de destacamentos militares,

A guerra de 1914-18 já no período republicano (a Republica tinha sido proclamada em Outubro de 1910) favoreceu extraordinariamente a politica expansionista alemã. e logo em 1915, antes portanto da entrada de Portugal na guerra, que somente se verificou em 1917, forças militares alemães atravessaram a fronteira, que já então se encontrava mais bem definida, e ocuparam territórios, indiscutivelmente para além das suas fronteiras, depois de terem expulsado as forças militares portuguesas. isto deu lugar a que o governo republicano fosse obrigado a mandar uma razoável expedição militar, não só com o objectivo de recuperar os territórios perdidos mas de pacificar os indígenas que, aproveitando a fraqueza portuguesa se tinham insubordinado: foi a chamada Campanha do Cuamato.

Vencida a Alemanha em 1918, e entregues as suas duas grandes colónias citadas à administração inglesa, entrou-se em Angola e Moçambique, numa politica de pacificação e exploração económica colonial. O grande orientador desta política foi em Angola Norton de Matos; e em Moçambique, o escritor e político Brito Camacho ( que aproveitou motivos africanos para alguns dos seus contos) , e Álvaro de Castro. 

A exploração colonial tinha sido iniciada ainda no tempo da Monarquia com a criação de algumas Companhias Majestáticas e que tinha sido entregue quase que por inteiro, a própria administração da região. Data de então a fundação da Companhia de Diamantes de Angola, a que foi entregue com direitos exclusivos de exploração, o distrito da Lunda quase completo. Esta empresa é hoje uma das maiores de toda a África. Rasgaram-se linhas de Caminho de Ferro na direcção do interior, partindo de portos como Lobito, Benguela e Lourenço Marques, Para que a ocupação fosse rentável, era preciso dar um desenvolvimento aos portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldade de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldades de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos como o de São Paulo de Luanda, Lobito e sobretudo Lourenço Marques na Africa Oriental, pois que era a saída das minas do Rand.

Entretanto surgia a Grande Guerra de 49-45; e depois dela inicia-se o movimento conhecido por libertação dos povos coloniais. Depois de uma grande parte da África se ter constituído em Estados independentes, ou pelo menos com grande autonomia, dentro dos antigos impérios coloniais da França e de Inglaterra, chegou a vez às colónias portuguesas.
de Angola, Moçambique e Guiné sentirem as consequências deste movimento de autonomia. E em 1961 inicia-se a luta com este objectivo, em Angola, norte de Angola, seguindo-se-lhe a do Norte de Moçambique, e um pouco mais tarde o da Guiné. Já então estas três colónias eram exploradas e praticamente orientadas por algumas grandes empresas com sede em Lisboa, mas com prolongamentos coloniais como por exemplo o Banco Nacional Ultramarino, a Companhia União Fabril e o Banco de Angola. 

Logo que a luta assumiu maiores proporções, com o envio de alguns exércitos metropolitanos, o Alto Capitalismo Internacional, na pessoa de empresas do género da Krupp e da Gulf Oil Company..., começaram-se interessando a fundo pelos problemas de Angola e Moçambique, desenvolvendo-se então a exploração, sobretudo do subsolo, E assim nasceu a exploração do ferro e do petróleo, do urânio, do cobre, em escala desconhecida até então. 

Assim terminou com carácter internacional a ocupação e colonização que se tinha iniciado com o objectivo de fazer frente, exactamente, à penetração de grandes potências. Se a Alemanha foi infeliz na tentativa (durante a Primeira Guerra Mundial) de domínio do Norte de Moçambique e Sul de Angola; se a Inglaterra também não foi feliz com as suas tentativas de partilha, por ela e pela Alemanha, destas duas colónias ---mais felizes foram seus imensos capitais. que conseguiram entrar sem armas na mão! O Alto Capitalismo internacional está bem patente da grande empresa que acaba de ser construída para o domínio das águas do Zambeze.

Ele criou duas ordens de dificuldades, ao autóctone que pretende a independência ou a autonomia; e a alguns centos de milhares de colonos, pequenos colonos, portugueses que na agricultura, na pastorícia, na pequena indústria e no comércio vivem há anos de um trabalho honrado que se ia transformando em movimento de civilização."


In FLAUSINO TORRES: PORTUGAL, uma PERSPECTIVA da sua HISTÓRIA . Afrontamento/Porto. 1974.


Nota: Título Original: HISTÓRIA DE PORTUGAL . Editado em Praga pela Universidade pela Universidade Carlos, em 1970.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA. MOÇÂMEDES, ALUNOS E ESCOLAS...


A escolinha do cabo Almeida na Torre do Tombo, nos anos 1940




Miúdos do Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, Angola, nos tempos em que se jogava à bola no meio da rua, não havia asfalto e corria-se em cima de terra batida.




Nas novas instalações da Escola 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950
Na Escola Nr 49
 Alunos da Escola Pratica de Pesca do Distrito de Moçâmedes nos anos 1940 junto do Padrão do Cabo Negro
Alunos da Escola Pratica de Pesca do Distrito de Moçâmedes nas velhas instalações decadentes, em foto do inicio da década de 1950



Escola de Pesca, Aula prática de Construção Naval e regresso da aula, junto das velhas pescarias da Torre do Tombo (subida da S.O.S)


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.

Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:

Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)






sábado, 25 de maio de 2019

TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO

Clube "O Luso" dos meninos da Torre do Tombo, no início da década de 1950: Juju, Monteiro, Amilcar, Antonio Joaquim,? e Carlitos Miroides
A pesca à sacada era a principal actividade até aos anos 1950, quando surgem em força as traineiras...

 Amílcar tendo por fundo a pescarias…
Que foram mandadas abater na década de 1950, para a construção da marginal e do cais comercial…
Uma foto deste local no inicio do séc XX… O morro sempre presente, hoje em dia bastante desgastado pela erosão do tempo e pela intervenção do homem...
Um grupo unido naquele tempo (inicio dos anos 1950) na Torre do Tombo. Aqui na Praia do Mexilhão, lã para os lados da Ponta do Pau do Sul ou Noronha…
Aqui estão eles de novo…
A subir a falésia que leva ao farol da Ponta do Pau do Sul…
Na juventude a caminho no  Deserto, rumo às pescarias do Canjeque e Praia Amélia, num tempo em que se andava muito a pé...
Na Praia do Cano, junto aos estaleiros...
O Amílcar e  Zequinha Esteves...

O Ginásio Clube da Torre do Tombo, no início dos anos 1950… Nasceu em 1919 e foi o clube pioneiro de Moçâmedes...
O Ginásio Clube de Moçâmedes, no inicio doa anos 1950.  Aqui com o Padre Galhano…

Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
A primitiva Escola n. 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo em Moçâmedes anos 1940?, uma construção do tipo palafita colonial interessante, que mais tarde abandonado foi ocupado por uma família antes de ser demolido..

A Escola enquanto abandonada chegou a ser a morada de uma família, antes de ser demolida
Alunos e alunas da Escoa N 56 de Pinheiro Furtado, no inicio da década de 1950
Meninos da Torre do Tombo (Bairro Feio) no aniversário de uma amiguinha, junto a uma dessas bonecas enormes, de Las Palmas, que se comprava a bordo dos navios de passageiros que escalavam Moçâmedes...
Ginásio Clube da Torre do Tombo, equipa de basquetebol feminino em 1954, Moçâmedes. Dizem que foi esta equipa que ao formar-se, veio dar um pouco de alento a um clube já então agónico, e que não tardaria a se extinguir. O velho e pioneiro Ginásio… A Torre do Tombo, praticamente posta de lado pela autoridade competente, começou a ficar para trás. A centro da cidade expandira-se com o  surgimento da Sociedade Cooperativa de Habitação "O Lar do Namibe", situação que levou a maioria das suas gentes â aquisição de habitação própria e a mudarem a sua residência para zonas mais agradáveis e modernas...

Em meados dos anos 1950, nos jardins da Avenida de Moçâmedes...

Hoje em dia o que resta do Bairro da Torre d Tombo, agora completamente cercado de casotas humildes,  em adobe, construídas pela população mais debilitada que ali se fixou, após a debandada dos portugueses em 1975, Deste grupo de casario salienta-se a 1ª Fábrica de conservas de Moçâmedes,  a Fábrica Africana, e o importante conjunto habitacional de João Duarte, o proprietário da pescaria da Praia Amélia. De genuína traça colonial portuguesa. muito apreciado por quem percebe da História dos movimentos de arquitectura, e pelos visitantes, este conjunto único, que inclui um casarão também ele de estilo único e insubstituível, a cair aos pedaços...



TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão.Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 

DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
Do LUSO ,meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
Dos CACILHEIROS sulcando o Tejo, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO

Amilcar Sousa Almeida


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?



Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?


Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.

Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”.

É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida naquele local e, por definição e determinação filológica, não desfruta de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano.

Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.

Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio.

Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. 

Vejamos em seguida a posição sobre o mesmo assunto de um outro neto do mesmo fundador, João Thomás da Fonseca:

"...Não quero ser polémico nem contestar ninguém mas pela experiência que tive da minha vivência de Àfrica, embora não sendo filólogo ou especialista em línguas, faz-me mais sentido que se escreva com “Mu”, pela simples razão que é um prefixo usado para definir o nome de uma raça humana no sul de Angola ou o nome de árvores. 
Dou alguns exemplos.
Àrvores:- Mucuio (figueira brava), Mulemba, Mucua, Muthiati e por aí além.
Raças humanas:-
Mucubal,
MuMhuíla, Mudimba,
Mucuanhama,
Mukancala, etc.
Possivelmente o meu avô João Thomaz tenha usado a forma aportuguesada, pois realmente toda a louça do nosso chalet está com o nome MOCUIO.
Obrigado pela oportunidade de poder dar a minha opinião.
Um abraço.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O conde de Almoster

Foto do Conde de Almoster publicada em  Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5

Antes de darmos inicio à publicação integral do texto  publicado em "Portugal em África", revista scientifica, Volume 5, pgs 218 a 221, dedicado ao Conde de Almoster, convém saber que o mesmo texto se integra no contexto da resistência africana em face da partilha de África, numa época em que uma epidemia, um fenómeno da natureza ou qualquer outra catástrofe, poderia ser atribuida à presença do colonizador, aquele estranho ser que levara para África todas as suas mazelas, incluindo as  epidemias que dizimaram o gado, uma maldição advinda dos brancos, fossem portugueses ou alemães. 

Por volta de 1897 a região sul de Angola foi atingida por uma epidemia proveniente da África do Sul que rapidamente atingiu as regiões da Damaralândia e Ovampo, e se espalhou pelo sul de Angola,  devastando o gado bovino que era a principal actividade económica dos autóctones. Em face do acontecido, os administradores coloniais resolveram-se por uma campanha de vacinação nos rebanhos, sendo para tal convocada a Companhia dos Dragões do Planalto de Moçâmedes sob o comando de José Eugénio da Silva e do tenente Almoster. E como de entre os colonos portugueses José António Lopes dominava a técnica da vacinação de bois, este foi convidado a integrar aquela Companhia conforme refere  A. A da Silva Guardado in "O Massacre dos dragões do Conde de Almoster, in Cadernos Colonias, n.34, 1939, publicação que nos ajuda a compreender o ocorrido. A vacinação dos bois era efectuada através de uma técnica que consistia em injectar nos animais sãos as bílis dos bois ligeiramente atacados, processo que dava como média de 50 a 60% de animais salvos. Desconhecia-se ainda a vacinação com soro obtido do sangue de bois imunes à peste, processo que levaria à salvação de animais na ordem dos 90%, e possibilitava vacinar animais já atingidos pela doença, salvando alguns. A equipa foi convencer o soba de uma aldeia para essa necessidade de vacinar os rebanhos parecendo à primeira vista que o soba concordara com a ideia e até teriam manifestado contentamento. Porém no dia seguinte quando iam proceder à vacinação puderam verificar um grande ajuntamento de anciãos que se apresentavam com pequenos barretes feitos de fibra de embondeiro na cabela, quais solidéus cardinalícios, simbolo da autoridade. Eram secúlos ou sobetas da região que representavam o soba nas povoações mais impostantes. Depois de reunidos em assembleia e de terem debatido seus pontos de vista sobre a vacinação, entrou em cena o soba que veio dizer à autoridade que não podia cumprir e combinado da véspera com os oficiais porque o seu povo reunido se opunha, uma vez que o gado era pertença ou bens do sobado e não do soba que apenas podia usufruir do seu rendimento. E que eles sabiam que do outro lado do rio tinham posto remédio no gado e este morria. Não foi possível convencer o soba por mais esforços que fizessem. Resumindo toda essa tentativa que fizeram avançando mato a dentro, acabou num falhanço porque a maioria dos nativos, desconfiados não aceitava e como resultado a epidemia acabara por devastar seus rebanhos.  Foi no regresso que o drama do massacre das tropas portuguesas aconteceu, e morreu. ALMOSTER. Para mais informações consultar o artigo "A Revolta da Vacina- Made in Africa-  Mossâmedes
, Sankofa. Revista da História da África e de Estudos da Diáspora Africana, 1897. José Bento Rosa da Silva. Vai o link:
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http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:reIX4AKhJGcJ:www.revistas.usp.br/sankofa/article/download/88815/91696/+&cd=10&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-b

De Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5, transcrevemos  na íntegra as pgs 218 a 221, o texto dedicado ao


 CONDE DE ALMOSTER.



"....João Carlos de Saldanha Oliveira. e Daun, segundo conde de Almoster, nasceu em Barcellos no dia 11 de agosto de 1858.

Era neto do heroico marechal duque de Saldanha e filho do segundo duque e da actual duqueza.

Assentou praça no regimento de cavallaria n.° 2, lanceiros da Rainha, no dia 2 de outubro de 1878. Foi promovido a alferes em 7 de janeiro de 1881, a tenente em 30 de junho de 1890 e a capitão em 11 de novembro de 1897.

Em 23 de janeiro de 1896 embarcou para Angola com destino ao esquadrão de dragões do planalto de Mossamedes, em cujo servico manteve os creditos de official disciplinador e como tal erajustamente considerado por toda a população portugueza do planalto. Ás brilhantes qualidades de bravura, patriotismo, nobreza de caracter e a verdadeira affeição aos seus soldados, que o adoravam, alliava a mais perfeita comprehensão dos deveres militares, mantendo com inquebrantavel firmeza as boas tradições deixadas no esquadrão pelo bravo e illustrado official de artilheria, o capitão Mascarenhas Gaivão, seu organisador e primeiro commandante.

Era o conde de Almoster um sincero admirador da acção civilisadora das missões catholicas sobre os indígenas africanos, sendo um dedicado amigo dos missionarios, aos quaes sempre dispensou as mais respeitosas attenções, merecendo-lhes elogiosas referencias pelas suas idéas generosas em favor da regeneração da raça negra.

A sua attitude benevola para os indígenas era conhecida em todo o planalto, citando-se, como exemplo digno de ser imitado, a generosidade com que conduzia os prisioneiros de guerra, a quem tratava com brandura, dispensava commodidades, procurando por todo os meios ao seu alcance suavisar-lhes as armaguras da prisão e separação violenta dos seus lares. Sob este ponto de vista poucos officiaes conhecemos na Africa tão generosos e pacientes para os soffrimentos dos pretos, como o conde, a ponto de privar-se de artigos do seu uniforme para abrigar os prisioneiros dos rigores do frio! ao contrario do que vimos fazer, que é amarral-os com grossas cadêas de ferro e obrigal-os a marchar ãs coronhadas, á. chuva, ao frio, mal dormidos e peor alimentados, sem consideração pela sua posição hierarchica, nem pela edade. Regulos ou os mais desprezíveis bandidos, velhos ou novos, todps marcham acorrentados para o exílio no meio das vaias, encontrões e pancadas da soldadesca, quando não ficam extenuados pela fadiga, fome e frio. 

É do domínio público o lamentável desastre que enlutou a familia militar portuguesa com o massacre da força do esquadrão de Mossâmedes, sob o comendo do conde em terras do Humbe, em que foram trucidados pelos indígenas revoltados o valente oficial e 23 soldados.  A fim de auxiliar os serviços sanitários para obstar à propagação da peste bovina que ameaçava invadir as populações creadoras de gado estabelecidas nas bacias do Rio Cunene e Caculovar, foi enviado para a fronteira do Humbe o esquadrão de dragões que pouco depois era mandado  retirar do Humbe por efeito de desintelligências e conflictos havidos entre o seu commandante e o chefe do concelho. A retirada do esquadrão  fez-se por pelotões que partiram separados , uns dos outros, com intervalos de três a quatro dias. O último 'pelotão, sob o comando do conde de Almoster seguia quatro dias depois da partida do passo das forças formado pelos 2º e 3º pelotões sob a direcção do commandante do esquadrão, o sr. capitão Silva.

O pelotão do conde era formado por 30 praças,  das quaes 19 eram doentes dos outros pelotões, deixados em tratamento na enfermaria da fortaleza e cuja conducção fora confiada ao conde, que para esse serviço apenas contava com 11 homens válidos , capazes de pegar em armas. Alguns doentes seguiam a cavallo por não poderem marchar a pé, outros, mais gravemente atacados de febres, nem mesmo a cavallo podiam seguir, eram levados aos ombros dos companheiros. A força seguia lentamente, sendo preciso fazer frequentes altas em attenção ao estado dos doentes.

Chegada ao sitio Catequere, na fronteira noroeste do Humbe, acampou a força, sendo enviados dois soldados à procura de água para o rancho, Os indígenas, em represália por extorsões soffridas por parte dos pelotões anteriores, acolheram hostilmente os soldados, perseguindo-os à zagaia e à flecha; estes clamaram por socorro sendo defendidos da sanha dos selvagens por um pequeno grupo dos nossos,  formado pelo conde e quatro soldados.
Chegados ao local do acampamento e vendo a impossibilidade de ali demorar-se perante a atitude hostil dos indígenas, resolveu seguir para o próximo acampamento  no Chicusse sobre o rio Caculouvar onde devia encontrar os outros pelotões sob o commando do capitão Silva. 

Metidos os doentes no centro da pequena força, seguia ela para a frente, quando pouco depois vê-se cercada por todos os lados por numerosos bandos de gentios que a perseguiam a tiro, zagaia e flecha. Sem perder o ânimo perante a força numérica do inimigo, mandou o bravo official  fazer três descargas a fim de abrir caminho na direcção do Chicusse e avançou com toda a ordem debaixo de fogo do inimigo.  Durante duas horas marchou a nossa diminuta força  sob  fuzilaria do gentio, sendo preciso três vezes formar quadrado para varrer as hordas de selvagens que tentavam esmagar a ferro frio os nossos bravos  soldados. Durante o primeiro quadrado ficou ligeiramente ferida uma praça num dedo.  Durante o segundo recebeu um grave ferimento no joelho o sargento, e o conde foi attingido por uma bala n'uma perna.  Vendo o bravo official que o gentio era cada vez mais numeroso, e que começavam a escassear as munições de guerra, resolveu mandar avisar o capitão Silva no Chicusse,  de que o seu pelotão corria imminente perigo de ser trucidado pelo gentio. Offereceu-se para levar o aviso o sargento Rocha que, apesar de gravemente ferido num joelho, montou no cavallo do conde e pôde a galope cerrado passar por entre as hostes inimigas. O gentio comprehendendo que aquelle cavaleiro ia em busca de socorro urgente das forças acampadas no Chicusse, resolveu cair sobre o pelotão e acabar de vez com os nossos heroicos soldados.

Recrudesceu a fusilaria do inimigo sendo o conde gravemente ferido no ventre. Um soldado preto tomou-o sobre os hombros, enquanto  enquanto a nossa força seguia rapidamente pelo centro de uma floresta queimando os últimos cartuchos. Às 6 horas da tarde, consumidas todas as munições de guerra, mandou o conde formar quadrado e callar bayoneta, e n'uma lucta homérica  de um contra cem, foram os nossos bravos soldados esmagados pelos indígenas. Ficaram estendidos no campo da honra o  heróico conde Almoster, e vinte e três dos seus valentes companheiros, escapando os restantes mercê do escuro da noite. 

Morreu o bravo militar combatendo gloriosamente pelo prestígio da nossa bandeira no cumprimento rigoroso do seu dever militar.

O elogio d'este glorioso feito de armas do neto do Marechal Saldanha , foi celebrado em toda a imprensa e ecoou nas dias casas do parlamento em termos de consagração à memória dos nossos heroicos vencidos.

Por iniciativa do illustre par do reino, o brioso general D. Luis da Câmara Leme, em sessão da câmara dos Pares, de 7 de Janeiro do corrente anno, foi apresentado um projecto de lei concedendo a cada um dos filhos do bravo conde de Almoster a pensão annual de 120$000 reis, e por proposta do mesmo digno Par foi lançado na acta, foi lançado na acta da sessão de 4 do mesmo mêsum voto de profundo sentimento pela morte dos nossos soldados  trucidados no Humbe, e referindo-se à morte do Conde lamentou que ainda não se tivesse erguido um monumento ao Duque de Saldanha, avô do illustre extincto.  No discurso da Corôa, por occasião da abertura do parlamento , o Augusto Chefe do Estado referindo-se ao desastre do Humbe, expressou-se nos seguintes termos: "A notícia de um desastre no Humbe, cujos pormenores não são todavia conhecidos, causou, como era natural dolorosa impressão, mas resta-nos a convicção de que os valentes alli victimados cumpriram o seu dever, e que dentro em pouco as nossas armas saberão castigar os rebeldes."

Terminamos este breve esboço biográphico do illustre conde de Almoster, transcrevendo as apreciações dos principais dos peincipais orgãos da imprensa periódica sobre a morte heroica do bravo official e dos seus companheiros.

Do Tempo:
"Depois d'um grande e aturado combate, exgotadas todas as munições de guerra que o esuqdrão levava, o valente official lembrando-se do nome do seu heroico avô, e não querendo offuscar o nome e título que tinha,  preferiu morrer a aviltar-se, entregando-se ao inimigo ou fugindo com os seus soldados.
Podemos imaginar as terríveis agonias do seu coração., lembrando-se que deixava na orphandade cinco filhos, todos creanças, e na viuvez sua infeliz e saudosa esposa. Mas entendeu aquelle descendente  do marechal Saldanha que a honra do seu nome e do seu país se opunham a uma cobardia. e por isso preferiu morrer combatendo. Paz è sua Alma.

Do Correio da Noite:

"Não pode haver consolação para um tal desastre. Entretanto deve registar-se com orgulho como foi intemerata a attitude desses bravos, como a sua coragem e o seu amor à bandeira  que defendiam falou mais alto do que o natural humano amor à vida. Sabiam que luctavam contra o inimigo que os havia de esmagar, mas isso não os entibiou. Enquanto tiveram munições empregaram-nas contra os inimigos da sua nação, e quando ellas faltaram formaram quadrado, armaram bayonetas para deterem o arranco dos adversários, que continuaram a victimál-os a tiros e a zagaias, e esperaram heroicamente a morte, dando serenamente a vida pelo dever.

Os soldados portugueses eram commandados pelo conde de Almoster, Este nome resume uma epopeia de heroicidades. Foi em Almoster que o duque de Saldanha ganhou o maior título de glória de toda a sua carreira militar. o neto do grande soldado soube honrar o nome histórico que herdara. Que a sua memória e a dos seus infelizes companheiros viva eternamente na saudade e na gratidão dos que prestam culto à honra do nosso exército e que se orgulham por ver que elle continua a manter honradamente as tradições do velho e destemido Portugal."

Do Diário da Manhã:

"Vinte e três victimas do dever ficaram, pois, no campo incluindo o heroico neto do marechal Saldanha. miserável e cobardemente azagaiado pelos negros! Triste sina a d'esses bravos certamente predestinados a mais gloriosos feitos ! Malbaratada valentia.
Cumpriram, porém religiosamente o seu dever, de militares briosos na defesa da pátria, e isso basta para que nos sintamos orgulhosos da sua heroicidade, qualidade, por assim dizer innata do nosso soldado, e tenhamos pela sua saudosa memória a mesma veneração e respeito que sempre tributamos pelas victórias de outros mais felizes que tem conseguido sobreviver para glória e renome do exército português."

Do Universal:

Curvamo-nos reverentes perante a sepultura desses bravos heroes mártires da pátria que tão conscientemente emmolaram  as próprias vidas para mais uma vez honrarem  as brilhantes tradições do exército portuguêz.

Vinte e três incencíveis morreram no seu posto de honra, levantando com esse assombroso sacrificio ao seu auge a glória da patria.

Foram muito alem do dever. Excederam tudo o que o brio nacional  e o amor da patria pode impor aos servidores do pais.
Immortalisaram-se morrendo!
N'este triste desmanchar da feira , em que o egoismo falla mais alto do que todos os deveres civicos, consola poder registar-se ainda feitos tão nobres e levantados.
Com o conde Almoster termina a linhagem masculina do primeiro soldado portuguez d'este seculo. O ultimo representante do nome do immortal marechal Saldanha acaba de levantar sobre o seu proprio cadaver o maior monumento que se poderia consagrar ao glorioso vencedor de Almoster.

Faz orgulho poder registar semelhantes provas de abnegação, valor e civismo»


Do Reporter :


«Este telegramma lança já. alguma luz sobre os acontecimentos, de que resultou ser victimada uma pequena força portugueza no Humbe Vê-se por elle que o neto do vencedor de Almoster soube honrar brilhantemente as tradições gloriosas de sua familia, e que devido ao seu arroio e valentia é que perdeu a vida com os seus heroicos companheiros...


Do Jornal do Comércio:

-Se alguma cousa nos pode consolar n'esta desgraça. é a valentia. a heroicidade com que se bateram os nossos, ficando materialmente derrotados, mas moralmente gloriosos. Honra mais uma vez aos nossos valentes soldados` que sabem morrer heroicamente, e honra a esse nobre moço o sr. conde de Almoster, que foi fiel as suas gloriosas tradições de familia e que era digno de usar o nome que recordava a primeira batalha ganha por seu immortal avô, o duque de Saldanha!

J.P.N

Fim de citação

Ver tb AQUI: https://docplayer.com.br/60831726-Ii-angola-e-a-resistencia-colonial-o-caso-do-massa-cre-dos-dragoes-do-conde-de-almoster-armando-augusto-siqueira-1.html

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

QUEM DISSE QUE MAUSOLÉUS do CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES NÃO SÃO MONUMENTOS HISTÓRICOS?



Mausoléu de João Duarte d'Almeida, colono cintemporâneo da fundadação de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por um conterrâneo

Mausoléu de João Duarte d'Almeida, Colono contemporâneo da fundação de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por um conterrâneo.

Mausoléu de João Duarte d'Almeida. Colono contemporâneo da fundação de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por um conterrâneo (1)

 

 

  Mausoléu do Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, o 1º médico-cirurgião contemporâneo da fundação de Moçâmedes. Embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, toda a sua vida foi vivida em Moçâmedes, onde faleceu. (2)


QUEM DISSE QUE MAUSOLÉUS do CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES NÃO SÂO MONUMENTOS HISTÓRICOS?


Ninguém, certamente!






Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo de encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade, foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga. A cidade dos mortos obedece em quase tudo à organização das cidades dos vivos.

Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Mausoléus aristocráticos como aqueles que ainda hoje podemos ver no Cemitério de Moçâmedes, em Angola, são verdadeiros monumentos históricos, que como tal devem ser considerados, porque eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas, são lugares que guardam Historia, que suscitam memórias, que oferecem ao visitante um manancial de informações que desvelam os primórdios da formação de Moçâmedes.Um lugar digno de ser visitado pelo residente e pelo forasteiro..

Sob esses Mausoléus repousam os restos mortais de colonos fundadores que chegados a Moçâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, ali se estabeleceram, ali viveram, ali trabalharam, ali tiveram filhos, netos e bisnetos, e ali acabaram por perecer.

Sob esses Mausoléus, a maioria dos quais mandado erguer pela Câmara da cidade, através de subscrições, repousam os restos mortais de colonos fundadores que chegados a Moçâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, ali se estabeleceram, ali viveram, ali trabalharam e ali pereceram.

E assim sendo, andar por um Cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular oferece-nos uma viagem no tempo. Cemitérios são espaços que contam histórias sobre a História das gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, económico, social, artístico da sucessão das épocas desde que foram construídos. A cidade dos mortos obedece, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida. hierarquização social que é reflexo de como se vivia em cada época. Mas a arte tumular, como arte que é, pode também despertar os sentidos, trazer prazer ao observador...

Com a avançar do século XX, entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os Cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre, lugares de Arte, de Arquitectura, e de Escultura, lugares de História, de Arquiologia e de Genealogia. Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos, uma mais valia a conhecer e a explorar.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor os preservaram e continuam a preservar porque mais cedo tomaram consciência do valor artístico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: Necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas duas vezes por mês, aos sábados, ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial. Nesse Cemitério, o terceiro maior da Europa, as visitas de turistas ao jazigo dos duques de Palmela, batem records. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos Cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris, a cidade das "Luzes", a prática da visitação turística aos Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar. Ou até num tempo mais próximo se este Cemitério vier a ser visitado por estudantes tendo em vista trabalhos escolares, quando a História de Moçâmedes, no decurso de pesquisas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

Posto isto, passamos a debruçar-nos sobre o perfil de pelo menos dois homens da fundação de Moçâmedes, que embora não tivessem feito parte dos grupos de pioneiros fundadores da cidade, ali chegados nos anos 1849 e 1850, vindos de Pernambuco, Brasil, são consagrados na obra “O Distrito de Moçâmedes na Fase da sua Origem e Primeira Organização: 1485-1859”, de Manuel Júlio de Mendonça Torres, como ombreando ao lado desses  mesmos fundadores.

Sobre  João Duarte d' Almeida (n.1822), sabemos que era natural de Midões, Beira Baixa - Portugal, filho de João Duarte d' Almeida (Bacharel em medicina) e de D. Ana Emília Duarte de Almeida ( Ana Emília Brandão, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça). Casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes, em 1850. Tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. 

Orfão de pai, muito cedo João Duarte d' Almeida resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, onde se encontrou com Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, em Moçâmedes, após estadia em Benguela. No livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), podemos ler a notícia de que quando Bernardino chegou a Moçâmedes, em 04 de Agosto de 1849,  chefiando a 1ª colónia vinda de Pernambuco, já ali encontrava João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela".

A "urzela" é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtém uma tinta azul arroxeada de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à beira mar. Cabo Verde foi um grande produtor de urzela.

Outro produto que também se lhe atribui a exploração levada a cabo em Moçâmedes, é a "goma copal", uma resina especial à qual os produtos sintetizados vibraram um duro golpe.

Sabe-se que João Duarte d' Almeida  tornou-se um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas "S. João do Norte" e "S. João do Sul", no Coroca, em Porto Alexandre. Há referências que logo em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau, e a terceira no Coroca. E que já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como a indústria de "charqueação" .

Outras notícias referem que no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, João Duarte de Almeida possuía já 11 fazendas no distrito de Moçâmedes, onde cultivava algodão, empregando entre trabalhadores escravos e libertos o total de 350, sendo sua a maior das fazendas da região. A produção anual nessa época calculava-se em 1780 arrobas de algodão. E que em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si.

Duarte de Almeida, foi o maior possuidor de algodoais nas suas fazendas de S. João do Norte, de S. João do Sul e de S. Nicolau, e principal exportador de algodão do Distrito, Agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo.

Os seus esforços levaram a que Mendonça Torres no seu livro sobre Moçâmedes daquele tempo lhe conferisse a reputação de maior cultivador de algodão e de cana de açúcar para aguardente, e ainda de activo descobridor da "almeidina", em 1883, um produto com uma boa percentagem de borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale que comercializou com êxito (vidé Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). A "almeidina" foi introduzida no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola, ambos de Moçâmedes.

Seria necessário  termos uma noção mais abrangente daquilo que era a Angola desse tempo, um tempo em que na Metrópole, os ventos da Revolução Francesa que sopraram além Pirinéus, e a penetração da maçonaria levou ao fim a velha ordem absolutista, a sociedade dos 3 Estados (Clero, Nobreza e Povo) em que os dois primeiros usufruíam de todos os privilégios, enquanto sobre o povo e a burguesia emergente, o 3º Estado, suportava a carga dos trabalhos e dos impostos, num país sem escolas, onde ao povo miserável restava a emigração, e onde o analfabetismo rondava os 95%. Este o panorama em que tiveram lugar as invasões francesas, a fuga do Rei e da Corte para o Brasil, a revolução de  1820. a independência do Brasil (1822), as lutas entre liberais e absolutistas, o triunfo do liberalismo (1834),  e as lutas entre facções do liberalismo que percorreram todo o resto da 1ª metade do século XIX português. Insere-se aqui  colonização de Moçâmedes em 1849, que aconteceu numa altura em que no Parlamento português, enquanto uns passaram a olhar a África, e sobretudo Angola, a colónia mais rica, como um novo Brasil em África, outros contrapunham a necessidade de povoar o Alentejo abandonado à sua sorte, num pais carente de gente para si mesmo, necessitado de uma total Regeneração. Por essa altura havia chegado ao Parlamento uma Petição subscrita por portugueses de Pernambuco que haviam sido maltratados na voragem da "Revolta Praieira", e solicitavam ao Governo português passagens e ajudas nos primeiros tempos, para todos os cidadãos lusos que quisessem transferir-se dali para qualquer ponto do globo onde tremulasse a bandeira portuguesa.  E assim nasceu Moçâmedes, com esse grupo de pioneiros chefiados pelo professor de História no Colégio Pernambucano, Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, com quem  João Duarte de Almeida se foi encontrar, quando resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, e se fixado primeiro em Benguela, mais tarde em Moçâmedes. Infelizmente os seus restos mortais de Bernardino, considerado o fundador de Moçâmedes, não repousam neste Cemitério nem em qualquer outro do Distrito, o que é de estranhar. Sabe-se que Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 18 71, e  que tinha então  62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla. Memoriais: somente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim da cidade, implantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não lhe prestaram a homenagem devida.


Cabe aqui também uma referência para outra grande figura da colonização de Moçâmedes,  o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro,  1º médico-cirurgião da terra,  cujos restos mortais repousam neste Cemitério sob Mausoléu artístico mandado erguer por subscrição da população de Moçâmedes. Também Lapa e Faro embora não tendo pertencido aos grupos que chegaram à velha Angra do Negro, oriundos do Brasil, em 1849 e 1850, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro e por José Joaquim da Costa, segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres no seu livro sobre Moçâmedes publicado em 1854,  activa e dedicadamente prestou inolvidáveis serviços ao Distrito e às suas gentes na fase da sua formação, pelo que a sua veneranda memória se tornara credora da singela, mas expressiva homenagem, que aqui deixamos reproduzida.  

Pessoa de índole bastante popular, o Dr Lapa e Faro  não se limitou a exercer clínica, a entrar para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações.

Quase dois anos depois de ter chegado a Luanda, fez parte, com o segundo-tenente Carlos Frederico de Almeida Afonso. do grupo do major Marcelino Antonío Norberto Rudzki, encarregado de fundar um estabelecimento militar no Pinda que ficava na margem esquerda do rio Curoca, junto à foz . Este estabelecimento antecedeu a fundação de Porto Alexandre, que somente vai ter lugar em 1860. O grupo de Rudzki chegou à baía do Pinda no já mencionado brigue de guerra Serra do Pilar, acompanhado do brigue-escuna Trindade, em 6 de Dezembro zembrode 1854(3). 

Os trabalhos para a escolha do local e construção das novas instalações militares duraram oito meses, tendo sido dadas como concluídas em Agosto de 1855, data em que os mesmos três oficiais regressaram a Luanda. Rudzki e a sua equipa deixavam assim, para os lados da fronteira sul de Angola, um quartel militar com boas acomodações, bem como uma granja cheia de vegetais, frutas, hortaliças, e o mais importante boas relações com a gente da região, os curocas. Uma vez regressado do Pinda a Luanda, e no quadro de saúde daquela ex-provincia portuguesa Lapa e Faro não descansou enquanto não foi prestar serviços, tendo, depois, sido colocado na recém-criada vila de Moçâmedes, para onde foi em principias de 1857. Em 1858, Lapa e Faro fez publicar um trabalho a que chamou «Breve Noticia Sobre Moçâmedesl».


No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construção da casa para repartição de obras publicas, deposito e Observatório Meteorológico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações.

Mas Lapa e Faro foi também com a sua personalidade artística aquele que mandou erguer na Moçâmedes daquele tempo, a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. 

E também foi obra sua o Palacete da Horta do sítio da Nação, Aguada. Em ambos os casos um riquíssimo património erguido num tempo  em que a maioria das casas eram ainda precárias, difícil e até mesmo impossível a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe.  

Infelizmente o belo edifício em Arte Noveau da ex-Rua Calheiros, carente de conservação e de restauro, encontra-se em risco de queda eminente  e de  perda total, se nada entretanto vier a ser feito, como aliás se prevê. 

A saber, o "Arte Noveau" surgiu em Paris e na Bélgica, na 2ª metade do século XIX, se espalhou pela Europa e pelo mundo, fruto das mudanças estéticas que acompanharam as inovações trazidas pela sociedade industrial essencialmente burguesa, cujos gostos, opondo-se ao classissismo aristocratizante, veio promover uma verdadeira revolução ao nível da arte e da arquitectura. 

Em Portugal houve um inevitável aportuguesamento com a conjugação de elementos manuelinos, além de outros pormenores e foi sem duvida  uma época em que o património nacional enriqueceu com obras geniais, verdadeiros tesouros artísticos repletos de belas cantarias, estatuária, vitrais, ferragens, gradeamentos, pinturas e frescos, estuque , motivos florais,  soalhos, mibiliário, etc. Irreversivelmente já se perderam alguns dos mais preciosos exemplares  deste riqíssino património, outros mais estão prestes a perder-se para sempre, abandonados ou à espera de melhores dias, demolidos para dar lugar a odiosos "mamarrachos", condenados pela ignorância e pela ganância... São o que resta de uma "Belle Époque".
Soubemos através da obra de Cecílio Mreira que  o próprio director do hospital local, o médico de primeira classe dr. Lapa e Faro, caíu gravemente enfermo, e que escreveu então ao seu querido amigo, o sábio naturalista José Alberto d'Oliveira Anchieta, naquela altura a fazer explorações em Caconda , a mais de trezentos quilometros a norte para o interior, a pedir para lhe tratar e tomar conta dos doentes como aconteceu. Anchieta quando chegou a Moçâmedes encontrou os medicamentos já esgotados (o clássico quinino usado nesta altura para a cura desses males à base de leite, que a experiencia de longos amos pelos matos de Angola , em contacto com os nativos lhe havia ensinado  com bons resultados. De cultura invulgar, Lapa e Faro era um homem assim, um jovem médico, que ficou preso à imponência do Deserto do Namibe, à paisagem dum mundo diferente que assusta mas atraí e convida à aventura, a desvendar o desconhecido. Por outro lado, colonos foragidos ao nativismo brasileiro em 1849 e 1850, tinham vindo da outra banda do Atlântico fundar a colónia de Moçâmedes. Este novo agregado populacional do Sul teve logo de inicio à sua frente homens de vulto, quer como colonos, quer como governantes, e até mesmo como deportados políticos que naquela altura por ali passaram. 

Nesse trabalho Cecilio Moreira dã.nos do autor dá-nos uma visão clara da forma como e onde estavam a funcionar os Serviços de Saude locais, Administrativos, sobre a Fortaleza de S, Fernando, a igreja e o começo do palácio do Govetvador. Fala-nos também sobre os europeus e nativos, sobre as habitações da vila, e ainda das propriedades agrícolas nos subúrbios . Da mesma forma, em 17 de Março de 1863, apareceram algumas considerações sobre o estado sanitátio da vila devidas a um estido do notável médico João pereira Lapa e Faro (...). Encontra-se esta referencia num atrigo publicado na Revista Portuguesa Colonial Maritima» de 1897/98, pág. 779. Quando Lapa e Faro ali chegou, levantaram-se as primeiras moradias e os primeiros sobrados que mais tarde vieram a formar a bela cidade do Namibe. 



MNJARDIM



Ver tb;
https://www.marinha.pt/Conteudos_Externos/Revista_Armada/1985/index.html#p=392