Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 20 de outubro de 2019

ESCRAVIDÃO EM ÁFRICA ANTES E DEPOIS DAS ROTAS ATLÂNTICAS




Todos os povos cometerem actos deploráveis no decurso da sua História, e a História dos povos africanos, no antes e no depois dos colonialismos, não está isenta de tal. Todos os povos devem assumir a sua quota de responsabilidade.


Como se sabe houve escravidão africana feita pelos africanos, nada disso é tabú, quando se fala a sério de escravidão. Está bem documentado. O comércio de escravos existiu em África desde a Antiguidade, porém o número de escravos acentuou-se na Idade Moderna, com o tráfico negreiro europeu.

Por vezes aqueles africanos que assumem a escravidão africana, feita pelos africanos, tendem a avançar com a ideia de que foi uma escravidão diferente, doméstica e não mercantil, deixando subentendido que seria familiar, moderada, quase acolhedora. O escravo não era uma mercadoria, mas um braço a mais na colheita, na pecuária, na mineração e na caça; um guerreiro a mais.

E se um escravo fosse fiel ao seu senhor poderia ocupar um cargo de prestigio local, inclusive possuir escravos seus. Ser escravo de africanos não era uma condição de humilhação e desrespeito, e mesmo representando uma submissão, defendem tratar-se de uma situação próxima de pessoas livres, que eram tratados como iguais, quando sabemos que a escravidão na África se desenvolveu de várias formas, e que em paralelo à escravidão doméstica existia o comércio de escravos. Algumas sociedades africanas viviam da guerra para a captura de africanos para serem ovendidas a outros povos que necessitavam de escravos, primeiro aos árabes do norte de África, depois aos portugueses. Como na África subsaariana existiam várias etnias, vários grupos políticos diferentes (os africanos não eram um único povo), as guerras entre eles eram frequentes, e a escravização dos vencidos uma consequência, e estes podiam ser vendidos segundo a necessidade do vencedor. Esses africanos que praticavam escravatura preferiam as mulheres como escravas, já que elas eram as responsáveis pela agricultura e poderiam gerar novos membros para a comunidade. No entanto, na sua visão preconceituosa, ganância e crueldade são práticas desumanas do exclusivo dos brancos, quando sabemos que infelizmente não foi assim, nem é assim, e encontramo-las ainda em profusão em todos os continentes, nos dias de hoje.
Quanto ao comércio árabe de escravos este intensificou-se no século VII, quando conquistaram o Magreb e o leste africano. Eram grandes mercadores de escravos, e conseguiam suas mercadorias humanas em diversas regiões: Espanha, Rússia, Oriente Médio, Índia e África. Os escravos comprados nessas regiões eram vendidos principalmente na península Arábica, mas também podiam ser vendidos em regiões mais distantes, como na China. 

Tidiane N'Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês, publicou "O Genocídio Ocultado" em 2008, onde considera que o tráfico de escravos árabo-muçulmano e a escravatura realizados durante quase mil anos, ainda não foi reconhecido em toda a dimensão. Como refere , eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. Ou seja, do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos. Refere ainda que a penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados "irmãos muçulmanos" e confiscaram os seu bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente. Sem ignorar o tráfico transatlântico que se segue durante quatro séculos, Tidiane N'Diaye considera que "os árabes arrasaram a África Subsariana durante treze séculos ininterruptos" e que a "maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada".



Quanto tráfico e à escravatura levada a cano pelos portugueses, estes quando chegaram a Ceuta, no início do século XV, iniciaram a captura e escravização dos africanos das redondezas, com a justificativa de que eram prisioneiros de guerra e muçulmanos, considerados inimigos da fé católica europeia. A partir de então, em pleno processo de expansão marítima, avançaram em direcção ao sul, na costa atlântica da África, em busca de riquezas para serem comercializadas e foram descobrindo o comércio de escravos. Num primeiro momento, o comércio de gente não interessou aos portugueses, já que a Europa à época não tinha necessidade de mão de obra escrava, mas quanto mais avançavam na costa africana, mais sentiam a necessidade de se estabelecer em alguns pontos de comércio, para consolidar sua exclusividade na região.

Em 1455 construíram a primeira feitoria no norte de Arguim (actualmente a Mauritânia), e para a manter passaram  capturar escravos africanos e a utilizá-los,  mas rapidamente perceberam que era mais lucrativo entrar nas redes de comércio de escravos já existentes, e começaram a buscar essa mercadoria junto aos povos mais próximos do litoral. Um dos primeiros povos aliados dos portugueses no tráfico de escravos foram os jalofos, na Senegâmbia....Em troca os jalofos conseguiam cavalos dos portugueses (um cavalo era trocado por 15 ou 20 escravos) e armas de fogo, o que aumentava o seu poder de guerra e de conquista de mais escravos.

Com o início da colonização das ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (na segunda metade do século XV), a necessidade de mão de obra aumentou, e a compra de escravos foi a solução encontrada pela Coroa portuguesa.  Na mesma época, os portugueses chegaram à Costa da Guiné (actualmente desde a Guiné até a Nigéria), onde encontraram povos ricos que já negociavam com os árabes e puderam com eles comercializar ouro, especiarias e escravos. Tamanha era a riqueza da região que os portugueses passaram a chamá-la de Costa do Ouro, Costa da Mina e Costa dos Escravos.

Em 1482, Diogo Cão e as caravelas chegaram ao Reino do Congo e foram feitas alianças com o manicongo ("senhor do Congo") Nzinga Kuvu, ma base de interesses mútuos: os portugueses  pretendiam um  maior acesso às redes de comércio em África, e o manicongo pretendia obter técnicas de guerra e de navegação, incluso converteu-se à religião católica, e passou a chamar-se Dom João. Por 4 séculos o Reino do Congo e do reino vizinho, Andongo, chamado  Angola pelos portugueses foram a maior fonte de escravos do tráfico atlântico português deu-se a partir daí.  Esta situação ocorreu principalmente quando os portugueses conseguiram o direito de negociar mão de obra escrava para a exploração espanhola da América e passaram a precisar da mesma mão de obra para desenvolver a sua colónia americana: o Brasil onde chegaram em 1500. 
O tráfico acabou abolido após séculos em estranho silêncio sobre a permanência da servidão e da escravidão, e foi abolido porque a intelectualidade ocidental, destacando-se os integrantes do Iluminismo anglo-francês, passaram no século XVIII, justamente aquele em que o tráfico negreiro foi mais intenso e lucrativo para os mercadores, a denunciar o horror e a desumanidade da instituição servil.  A consequência directa contra a utilização da mão de obra cativa na vida produtiva das sociedades, foi a crescente indignação moral que levou ao surgimento de sociedades filantrópicas e abolicionistas, tanto em Londres como em Paris, que fizeram intensa agitação em favor da abolição do tráfico e do fim dos grilhões que prendiam seres humanos, criando desde então um cenário favorável para que, especialmente após a Revolução francesa de 1789, a instituição servil se visse condenada para sempre. Filósofos do Iluminismo, como o Abade Gregório ou mesmo Montesquieu, defendiam os negros, enquanto no mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. 






O século XIX levou ao auge a ebulição em torno da questão da escravidão, que iria culminar na abolição do tráfico, mas foi no século XVIII, quando o tráfico negreiro atingiu os máximos, que explodiu na Europa a indignação moral contra a situação, criando um cenário favorável para que e a  Revolução Francesa tivesse lugar, abrindo espaço para novas realidades, de entre a quais o viver em Democracia. A Inglaterra, uma das nações com maior actuação no comércio de escravos, passa a encabeçar a campanha abolicionista e foi esta potência europeia pioneira da industrialização quem primeiro requereu o fim do tráfico atlântico e em seguida a abolição da escravidão.   

A abolição está, pois, relacionada com o já citado movimento filantrópico e abolicionista, com a  Revolução francesa e com os ideais iluministas de Fraternidade, Igualdade e Liberdade, mas não podemos ignorar a Revolução Industrial que teve ao leme a Inglaterra,  potencia que  em 1884/5 teve um papel cimeiro na Conferência de Berlim (1884-5), a célebre Conferência  que teve como objectivo o estabelecimento de regras para a chamada "Partilha da África" entre as potências europeias industrializadas. A Inglaterra havia descoberto a máquina a vapor que libertava braços de trabalho, e a África potencialmente rica em matérias-primas, proporcionadora de mão de obra barata assalariada, e mercados consumidores, era essencial para o avanço da Revolução Industrial para a sua 2ª fase.
O interesse sempre ao leme das grandes calamidades, mas também das grandes decisões que foram levando ao avanço da humanidade. O que é incontestável, é que foi na Europa, também ela sofrida e a fazer sofrer, que o grande salto positivo para a humanidade aconteceu.  

Como disse o Papa Francisco, em 2014: “A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade,unicidade e irripetibilidade de cada pessoa humana. 

Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da História, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente», dando origem precisamente ao conceito de«pessoa». 

A ter presente a Revolução Industrial inglesa impulsionada pela descoberta da máquina a vapor, iniciada na segunda metade do século XVIII veio modificar completamente os parâmetros sociais e económicos, ao  deitar por terra os regimes absolutistas.
Olhando do alto, foi a dinâmica do Capitalismo e as necessidades da Industrialização que vieram modificar os parâmetros sociais e económicos.Tal como foi a necessidade de acumulação de capital que deu inicio à instituição servil, Tudo interligado.
A História dos povos não pode ser coisa séria quando divide as pessoas em boas e más de acordo a mera cor da sua pele. Em cada povo, há pessoas boas e há pessoas más, O crime do tráfico de escravos que vem da antiguidade, tocou a todos os povos. O interesse cega as pessoas, e toda as situações devem ser compreendidas no quadro ideológico, político, económico e institucional de cada época. Compreendidas não e o mesmo quer aceites.

Como refere Mônica Lima: "Não há como recuperar a africanidade, sem conhecer a própria história da África. Ao mesmo tempo, é necessário despir-nos dos preconceitos etnocêntricos (olhar um povo ou etnia com valores de outro) a África como lugar atrasado, inculto, selvagem – e deixar de supervalorizar o papel de vítima- do tráfico, do capitalismo, do neocolonialismo, atitude que alimenta sentimentos de impotência."
Gaspar Correia (sec. XVI), in “Lendas da Índia“ refere que “Nenhuma cousa desta vida é tão aproveitável aos viventes, que a lembrança e memória dos males passados para do mal nos guardarmos, regendo a vida para nele não cairmos segundo os bons fizeram.”
NJ

sábado, 19 de outubro de 2019

O CINE INACABADO DE MOÇÂMEDES

 O Cinema inacabado de Moçâmedes, em Angola



Quando se deu a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, uma nova casa de espectáculos estava em marcha em Moçâmedes, implantada numa futura zona mais diplomática da cidade, próxima daquele que é hoje o Governo Provincial, cuja arquitectura futurista, cósmica, espacial, inspirada nas criações de Le Corbusier (1) e na arquitectura brasileira, em arquitectos como Oscar Niemeyer, fazia lembrar um OVNI, com as suas "garras" fincadas à terra. Encontrava-se na fase terminal da sua construção, já tinha os painéis que circundam a galeria colocado, a pintura interior concluída, e não iria faltar muito tempo para ser inaugurada. Ela era o testemunho vivo do quanto estávamos actualizados, pois na verdade nada do género vimos construído, na época, em território português.

Este era um tempo de grande desenvolvimento económico e demográfico em Angola, que vinha acontecendo desde 1960, com reflexos na criação de novos espaços de lazer. Angola assistia ao culminar de um movimento evolutivo das casas de Cinema que tinham começado nos anos 1930 com os Cine-Teatros, progredido nos anos 1960 para os Cine-Esplanada, e que já nos anos 1970, à beira da independência, terminaria com os Cine-Estúdio, o tipo de construção que veio catapultar a cidade de Moçâmedes para o topo da corrente modernista internacional. Aliás, foi nas colónias de África, em clima tropical que, fugindo às regras do Estado Novo, os jovens arquitectos portugueses, aproveitando-se das potencialidades construtivas do betão armado, encontraram nas colónias de África um espaço de liberdade criativa que desconheciam, e puderam, libertos dos condicionalismos de um regime que não permitia tais ousadias,  dar asas à sua imaginação criativa,  e deixar para a posteridade obras como esta.

 
 A plateia e a abóbada
O Palco, a plateia e a abóbada...
As galerias  e os painéis

 As galerias e os painéis...

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques.Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques.Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques. Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à agricultura (oliveira e vinha), ao Deserto do Namibe e à etnia mucubal.  Obra do escultor Fernando Marques que aqui se pode ver, à direita.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca e às praias de banhos de Moçâmedes, obra do escultor Fernando Marques.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca a Moçâmedes , com o escultor Fernando Marques à esquerda.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.


Segundo uns este Cine-estúdio iria chamar-se "Cine estúdio Arco Íris",  tal como o Cine estúdio de Sá da Bandeira (Lubango). Segundo outros, seria o "Cine estúdio Welwitschia", e ainda outros apontavam para  o "Cine estúdio Satélite" . Hoje é comum falar-se do "Cine-estúdio Namibe" como a obra interrompida por força de um processo histórico que em 1975 arrancou de Angola praticamente a totalidade da população europeia,  e que ainda hoje está por acabar, 40 anos após a independência, o que é de lamentar, atendendo àquilo que de facto esta obra representa: a penetração em terras de África de uma nova concepção de edifícios que se assemelham a naves espaciais, objectos voadores, estações em órbita no espaço celeste, uma arquitectura futurista de ponta, e sem paralelo na época.

O Cine-estúdio inclui também um restaurante e zona comercial. Os serviços garantem o acesso vertical do bar, cozinha, sanitários e camarotes dos artistas. A plateia, ocupa o primeiro e segundo piso. Sob a laje da cabine são inseridos o programa de bilheteira e bar, implementados na extensão das galerias laterais que se abraçam no espaço desperdiçado sob a pendente da plateia. 

Quanto aos proprietários, estes pertenciam a uma sociedade que integrava entre outros Eurico Martins, Gaspar Madeira, António Bauleth e Nascimento Marques (?), os mesmos do Cine Teatro de Moçâmedes.  Estes teriam encomendado em 1973 o desenho ao arquitecto Botelho Pereira de Vasconcelos , do atelier Boper. Quanto ao empreiteiro que levou a cabo esta obra, temos a informação que foi Vasco Luz. Soubemos também  que foi com este empreiteiro que caiu a cúpula do Cinema na primeira vez que foi colocada, e que a mesma cúpula foi reposta com êxito.

Reparem na arquitectura dos interiores,  nos mosaicos e azulejos originais, do período colonial português,  em todo esse arsenal de elementos que constituem uma mais valia para o património cultural e histórico da cidade. Reparem nos pormenores dos altos-relevos das paredes das galerias que circundam o espaço central inferior, reparem no espaço mais acima, onde fica a ampla e moderna sala de espectáculos. Descobrirão  figuras humanas que invocam vivências do tempo colonial,  jovens banhistas europeias, pescadores europeus e africanos envolvidos na faina marítima, que era o ganha-pão das gentes da terra;  painéis que invocam as actividades tradicionais com realce para a pesca e a agricultura, culturas de eleição, como a oliveira e a vinha que facilmente medravam nas Hortas de Moçâmedes. E ainda a fauna e a flora do fabuloso Deserto do Namibe, onde medram as welwitschia mirabilis, as espinheiras, cactos várias espécies, e uma variedade de animais aqui representados pelas elegantes gazelas, por hipopótamos e avestruzes.  E também as gentes mais representativas do Deserto, a etnia mucubal.

O acesso à sala de espectáculos no piso superior é visto à esquerda, através desta foto que nos mostra 
a organização espacial da zona

 A planta do Cine-Estúdio


Outra perspectiva da planta do Cine-Estúdio



O Cine-Estúdio Inacabado, o Impala Cine, o Mercado Municipal e a Igreja de S. Pedro, são as quatro construções que representam a penetração da corrente de arquitectura  vanguardista entre nós, e que muito orgulhosos nos deixaram, sem esquecer  as casas de espectáculos que o antecederam, igualmente integradas na modernidade inaugurada pelo "Art Deco", o estilo arquitectónico patente no Cine Teatro de Mocâmedes, na década de 1940. Lamentavelmente este OVNI que os arquitectos portugueses fizeram aterrar no deserto do Namibe encontra-se abandonado, devoluto e vandalizado.

Este Cine-Estudio ao abandono integra a  História dos Cinemas em todo o mundo, iniciada com os Cine-Teatros, continuada com os Cine-esplanadas e  que na época teve o seu culminar com os Cines-Estudio. Todos juntos, são legados que nos chegam através dos tempos, e nos permitem compreender a  evolução tipológica das casas de espectáculo  desde o seu surgimento.

 MariaNJardim

(1) A Igreja de S. Pedro em Moçâmedes, erguida igualmente às véspers da independência, teria sido igualmente inspirada em Chapelle Notre-Dame-du-Haut de Ronchamp, conhecida informalmente como Ronchamp, é unha capela de culto católico, construída entre 1950-55 em Ronchamp, França polo arquitecto Le Corbusie, sendo un dos exemplos máis destacables de  arquitectura religiosa no século XX .

Nota: Informações colhidas sobre o Cine Inacabado,  apontam para que tenha sido o engº Guido Vidal  o responsável pelos cálculos de estrutura e estabilidade, e que este tinha uma sociedade com o Mário Martins, empreiteiro da obra. O traçado confirma-se  tratar-se de obra do arquitecto Botelho Pereira aquele que poderia ceder os desenhos para estudo tendo em vista a sua recuperação.

Consultar para mais informações a dissertação "Cineteatros Angolanos: Tipologias (1932/75)" , 2017-11-17, de
Afonso Gonçalves Quintã
  https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/108692  


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

LENDO E APRENDENDO SOBRE A HISTÓRIA DE ANGOLA, COM FLAUSINO TORRES








"...Depois de 1885, em que se realizou a Conferência de Berlim para a partilha da Africa, o governo da Monarquia lançou-se na ocupação militar dos territórios a que se chamava Portugal, pois essa ocupação era, segundo as decisões da Conferência, obrigatória para que nenhuma potência ambiciosa pudesse afirmar que apenas as costas estavam dominadas.

E foi esta a politica que o Governador de Moçambique, António Enes, com o título de Comissário Régio, desenvolveu na colónia que estava a seu cargo. Foi por essa altura que se levou a cabo uma campanha de destruição de certos régulos indígenas, entre os quais há que salientar o muito conhecido Gungunhana. E foi dentro desta política do governo e do Comissário Régio que se tiveram determinados combates em que se salientou a figura de Mouzinho de Albuquerque.

A mesma politica que alcançou exito em Moçambique em 1895, foi desenvolvida na Guiné, em Timor e em certas regiões de Angola, continuando ainda, também a praticar-se em Moçambique.

Esta orientação de ocupação militar foi seguida de várias tentativas de ocupação populacional branca. Mas sem aquele sucesso que esperavam alguns dum país que tinha então uma forte emigração, sobretudo para o Brasil.

Entretanto a politica de expansão colonial (com as respectivas disputas, resultado da concorrência, principalmente entre a França, a Inglaterra e a Alemanha) reflectia-se nas colónias portuguesas, pois que tanto a Angola como Moçambique tinham como vizinhos a Alemanha e a Inglaterra. À Alemanha tinha cabido o território ao Norte de Moçambique, conhecido então por Tanganica, ao sul de Angola, o Sudoeste Africano Alemão. Se a fronteira ao norte de Moçambique estava claramente limitada pelo rio Rovuma, já assim não acontecia à fronteira do sul de Angola, pois o Deserto do Calaari, estentendo-se para o Norte e para o Sul do Cunene, abafava este rio com as suas areias. Daí disputas e questiúnculas constantes que obrigavam à construção de uma verdadeira rede de fortins que defendessem a colónia pelo lado sul.

Para isso era igualmente necessário evitar a subordinação dos indígenas que os alemães ajudavam em tudo aquilo que pudesse provocar perturbações. Com este objectivo foi enviada para o sul de Angola, nos últimos anos na Monarquia, uma série de destacamentos militares,

A guerra de 1914-18 já no período republicano (a Republica tinha sido proclamada em Outubro de 1910) favoreceu extraordinariamente a politica expansionista alemã. e logo em 1915, antes portanto da entrada de Portugal na guerra, que somente se verificou em 1917, forças militares alemães atravessaram a fronteira, que já então se encontrava mais bem definida, e ocuparam territórios, indiscutivelmente para além das suas fronteiras, depois de terem expulsado as forças militares portuguesas. isto deu lugar a que o governo republicano fosse obrigado a mandar uma razoável expedição militar, não só com o objectivo de recuperar os territórios perdidos mas de pacificar os indígenas que, aproveitando a fraqueza portuguesa se tinham insubordinado: foi a chamada Campanha do Cuamato.

Vencida a Alemanha em 1918, e entregues as suas duas grandes colónias citadas à administração inglesa, entrou-se em Angola e Moçambique, numa politica de pacificação e exploração económica colonial. O grande orientador desta política foi em Angola Norton de Matos; e em Moçambique, o escritor e político Brito Camacho ( que aproveitou motivos africanos para alguns dos seus contos) , e Álvaro de Castro. 

A exploração colonial tinha sido iniciada ainda no tempo da Monarquia com a criação de algumas Companhias Majestáticas e que tinha sido entregue quase que por inteiro, a própria administração da região. Data de então a fundação da Companhia de Diamantes de Angola, a que foi entregue com direitos exclusivos de exploração, o distrito da Lunda quase completo. Esta empresa é hoje uma das maiores de toda a África. Rasgaram-se linhas de Caminho de Ferro na direcção do interior, partindo de portos como Lobito, Benguela e Lourenço Marques, Para que a ocupação fosse rentável, era preciso dar um desenvolvimento aos portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldade de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldades de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos como o de São Paulo de Luanda, Lobito e sobretudo Lourenço Marques na Africa Oriental, pois que era a saída das minas do Rand.

Entretanto surgia a Grande Guerra de 49-45; e depois dela inicia-se o movimento conhecido por libertação dos povos coloniais. Depois de uma grande parte da África se ter constituído em Estados independentes, ou pelo menos com grande autonomia, dentro dos antigos impérios coloniais da França e de Inglaterra, chegou a vez às colónias portuguesas.
de Angola, Moçambique e Guiné sentirem as consequências deste movimento de autonomia. E em 1961 inicia-se a luta com este objectivo, em Angola, norte de Angola, seguindo-se-lhe a do Norte de Moçambique, e um pouco mais tarde o da Guiné. Já então estas três colónias eram exploradas e praticamente orientadas por algumas grandes empresas com sede em Lisboa, mas com prolongamentos coloniais como por exemplo o Banco Nacional Ultramarino, a Companhia União Fabril e o Banco de Angola. 

Logo que a luta assumiu maiores proporções, com o envio de alguns exércitos metropolitanos, o Alto Capitalismo Internacional, na pessoa de empresas do género da Krupp e da Gulf Oil Company..., começaram-se interessando a fundo pelos problemas de Angola e Moçambique, desenvolvendo-se então a exploração, sobretudo do subsolo, E assim nasceu a exploração do ferro e do petróleo, do urânio, do cobre, em escala desconhecida até então. 

Assim terminou com carácter internacional a ocupação e colonização que se tinha iniciado com o objectivo de fazer frente, exactamente, à penetração de grandes potências. Se a Alemanha foi infeliz na tentativa (durante a Primeira Guerra Mundial) de domínio do Norte de Moçambique e Sul de Angola; se a Inglaterra também não foi feliz com as suas tentativas de partilha, por ela e pela Alemanha, destas duas colónias ---mais felizes foram seus imensos capitais. que conseguiram entrar sem armas na mão! O Alto Capitalismo internacional está bem patente da grande empresa que acaba de ser construída para o domínio das águas do Zambeze.

Ele criou duas ordens de dificuldades, ao autóctone que pretende a independência ou a autonomia; e a alguns centos de milhares de colonos, pequenos colonos, portugueses que na agricultura, na pastorícia, na pequena indústria e no comércio vivem há anos de um trabalho honrado que se ia transformando em movimento de civilização."


In FLAUSINO TORRES: PORTUGAL, uma PERSPECTIVA da sua HISTÓRIA . Afrontamento/Porto. 1974.


Nota: Título Original: HISTÓRIA DE PORTUGAL . Editado em Praga pela Universidade pela Universidade Carlos, em 1970.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA. MOÇÂMEDES, ALUNOS E ESCOLAS...


A escolinha do cabo Almeida na Torre do Tombo, nos anos 1940




Miúdos do Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, Angola, nos tempos em que se jogava à bola no meio da rua, não havia asfalto e corria-se em cima de terra batida.




Nas novas instalações da Escola 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950
Na Escola Nr 49
 Alunos da Escola Pratica de Pesca do Distrito de Moçâmedes nos anos 1940 junto do Padrão do Cabo Negro
Alunos da Escola Pratica de Pesca do Distrito de Moçâmedes nas velhas instalações decadentes, em foto do inicio da década de 1950



Escola de Pesca, Aula prática de Construção Naval e regresso da aula, junto das velhas pescarias da Torre do Tombo (subida da S.O.S)


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.

Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:

Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)






sábado, 25 de maio de 2019

TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO

Clube "O Luso" dos meninos da Torre do Tombo, no início da década de 1950: Juju, Monteiro, Amilcar, Antonio Joaquim,? e Carlitos Miroides
A pesca à sacada era a principal actividade até aos anos 1950, quando surgem em força as traineiras...

 Amílcar tendo por fundo a pescarias…
Que foram mandadas abater na década de 1950, para a construção da marginal e do cais comercial…
Uma foto deste local no inicio do séc XX… O morro sempre presente, hoje em dia bastante desgastado pela erosão do tempo e pela intervenção do homem...
Um grupo unido naquele tempo (inicio dos anos 1950) na Torre do Tombo. Aqui na Praia do Mexilhão, lã para os lados da Ponta do Pau do Sul ou Noronha…
Aqui estão eles de novo…
A subir a falésia que leva ao farol da Ponta do Pau do Sul…
Na juventude a caminho no  Deserto, rumo às pescarias do Canjeque e Praia Amélia, num tempo em que se andava muito a pé...
Na Praia do Cano, junto aos estaleiros...
O Amílcar e  Zequinha Esteves...

O Ginásio Clube da Torre do Tombo, no início dos anos 1950… Nasceu em 1919 e foi o clube pioneiro de Moçâmedes...
O Ginásio Clube de Moçâmedes, no inicio doa anos 1950.  Aqui com o Padre Galhano…

Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
A primitiva Escola n. 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo em Moçâmedes anos 1940?, uma construção do tipo palafita colonial interessante, que mais tarde abandonado foi ocupado por uma família antes de ser demolido..

A Escola enquanto abandonada chegou a ser a morada de uma família, antes de ser demolida
Alunos e alunas da Escoa N 56 de Pinheiro Furtado, no inicio da década de 1950
Meninos da Torre do Tombo (Bairro Feio) no aniversário de uma amiguinha, junto a uma dessas bonecas enormes, de Las Palmas, que se comprava a bordo dos navios de passageiros que escalavam Moçâmedes...
Ginásio Clube da Torre do Tombo, equipa de basquetebol feminino em 1954, Moçâmedes. Dizem que foi esta equipa que ao formar-se, veio dar um pouco de alento a um clube já então agónico, e que não tardaria a se extinguir. O velho e pioneiro Ginásio… A Torre do Tombo, praticamente posta de lado pela autoridade competente, começou a ficar para trás. A centro da cidade expandira-se com o  surgimento da Sociedade Cooperativa de Habitação "O Lar do Namibe", situação que levou a maioria das suas gentes â aquisição de habitação própria e a mudarem a sua residência para zonas mais agradáveis e modernas...

Em meados dos anos 1950, nos jardins da Avenida de Moçâmedes...

Hoje em dia o que resta do Bairro da Torre d Tombo, agora completamente cercado de casotas humildes,  em adobe, construídas pela população mais debilitada que ali se fixou, após a debandada dos portugueses em 1975, Deste grupo de casario salienta-se a 1ª Fábrica de conservas de Moçâmedes,  a Fábrica Africana, e o importante conjunto habitacional de João Duarte, o proprietário da pescaria da Praia Amélia. De genuína traça colonial portuguesa. muito apreciado por quem percebe da História dos movimentos de arquitectura, e pelos visitantes, este conjunto único, que inclui um casarão também ele de estilo único e insubstituível, a cair aos pedaços...



TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão.Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 

DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
Do LUSO ,meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
Dos CACILHEIROS sulcando o Tejo, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO

Amilcar Sousa Almeida