Avenida da República de Moçâmedes, no tempo do Teatro Garrett (década de 1930/40) era assim…
Na ausência de uma foto do Teatro Garrett, coloco esta, da Avenida da República tal como se aoresentava na Moçâmedes daquele tempo, bem como algumas páginas de folhetos de publicidade, e publicações em Jornais, que nos ajudam a tecer neste blogue, algumas considerações sobre o citado Teatro.
Situado na Rua Calheiros, o Teatro Garrett foi constituido como uma casa de espectáculos pela empresa exploradora de recreios moçamedenses, sociedade anónima de responsabilidade limitada, tendo por fim a exploração de espectáculos públicos, com sede em Moçâmedes. Foram sócios fundadores os residentes Serafim Simões Freire de Figueiredo, António Florentino Torres, Miguel Duarte Loureiro de Almeida, Manuel da Silva Dias e Honorato Júlio de Mendonça. Data de 01 de Outubro de 1896 a escritura da constituição da sociedade, por sua vez registada, no Tribunal do Comércio, em 15 de Junho 1906. Foi matriculada em 13 de Dezembro de 1924, porém tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, pelo motivo de também ter sido provisório o seu título constituído.
O Teatro Garrett ainda existia na década de 1940, diz-se que tinha então como proprietário Raúl de Sousa, e era ali, na Rua Calheiros, o local onde os moçamedenses assistiram às primeiras peças de teatro e de revista, e viram correr os primeiros filmes, grande parte dos quais em cinema mudo.
Enquadrado no tempo que o viu nascer, em finais do século XIX, o "Teatro Garrett" acabou demolido na década de 1940 para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes. Dizem os que o frequentaram, que ficava num edifício de 1º andar, de fachada vulgar, com porta larga encimada pelo nome em letras gordas "Teatro Garrett", e que do exterior não dava para imaginar o requinte do seu interior, todo forrado a madeira trabalhada (Talha dourada), com suas frisas, camarotes, plateia e reposteiros de veludo vermelho, um requinte tal, que, ressalvando as devidas proporções, fazia lembrar o Politeama de Lisboa.
Mas antes do "Teatro Garrett" houve uma outra sala de espectáculos em Moçâmedes que seria a primitiva, e esta ficava situada na Rua das Hortas onde mais tarde o comerciante Álvaro Vieira Ascenso veio a construir os seus armazéns, porém para além da memória da sua localização, nem uma réstea do nome, nem um indício do seu dono chegou aos nossos dias. Por isso o "Teatro Garrett" acabou por ficar na memória dos moçamedeses como a primeira sala de espetáculos da cidade, memória essa que se ficou a dever ao já citado requinte do seu interior. Conta-se também que por volta dos anos 1940 já a madeira do "Teatro Garrett", artisticamente trabalhada, se encontrava corroída pela bicharada e incapaz para ser aproveitada. E foi assim que o "Teatro Garrett" que ameaçava desintegrar-se, encerrou, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes, nessa mesma década, ocupando o antigo "Jardim da Colónia". Sobre este aspecto introduzo um texto com certa graça, do moçamedense Arménio Jardim, que ajuda a dar mais nitidez à memória do "Teatro Garrett" que ele mesmo frequentou:
"....Feliz ou infelizmente, vivemos num mundo finito ao qual não conseguimos escapar. E nem o Cuprinol da Robbialac, produto supostamente contra o caruncho, conseguiu salvar o "Teatro Garrett" da derrocada total. É que, ao longo do tempo, o bicho-carpinteiro foi-se alimentando do madeirame de uma tal forma tão subreptícia e insidiosa que as estruturas do Garrett começaram inesperadamente a ranger por tudo quanto era sítio. E numa manhã de cacimbo, após uma noite de ruidoso e animado filme de piratas e corsários, o pessoal de limpeza deu de chofre com aquele triste espectáculo. Essa deve ter sido a última noite de grande farra para os carunchos e os escaravelhos, pois deixaram de tal modo esboroados os camarotes, as frisas e o balcão do Galinheiro, que a partir de então o "Teatro Garrett" passou apenas a servir de local onde a miudagem do Bairro da Facada ia brincar às escondidas e aos polícias e ladrões. Só as duas goiabeiras do quintal do Garrett choravam lágrimas de seiva amarga, pois o Tó Lindas e o Monacaia não perdiam ocasião para dar caça às bengalinhas que nelas poisavam para os seus cantos divinais. Com desgraças ou sem elas, a vida não pára!... Tempos depois, sobre os escombros do Cine-Teatro Garrett, viria a ser construído a Sede do Atlético Clube de Moçâmedes, atirando para as brumas da memória aquele elegante e singular Cinema que tantas alegrias havia proporcionado aos nossos queridos “Cabeças de Pungo. Nesse intervalo, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube Recreativo e Beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que decorriam sem grandes condições de acomodamento, e sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas, e as peças de teatro, sem nunca atingirem o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. " (1)
Fim de transcrição.
Mas antes do "Teatro Garrett" houve uma outra sala de espectáculos em Moçâmedes que seria a primitiva, e esta ficava situada na Rua das Hortas onde mais tarde o comerciante Álvaro Vieira Ascenso veio a construir os seus armazéns, porém para além da memória da sua localização, nem uma réstea do nome, nem um indício do seu dono chegou aos nossos dias. Por isso o "Teatro Garrett" acabou por ficar na memória dos moçamedeses como a primeira sala de espetáculos da cidade, memória essa que se ficou a dever ao já citado requinte do seu interior. Conta-se também que por volta dos anos 1940 já a madeira do "Teatro Garrett", artisticamente trabalhada, se encontrava corroída pela bicharada e incapaz para ser aproveitada. E foi assim que o "Teatro Garrett" que ameaçava desintegrar-se, encerrou, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes, nessa mesma década, ocupando o antigo "Jardim da Colónia". Sobre este aspecto introduzo um texto com certa graça, do moçamedense Arménio Jardim, que ajuda a dar mais nitidez à memória do "Teatro Garrett" que ele mesmo frequentou:
"....Feliz ou infelizmente, vivemos num mundo finito ao qual não conseguimos escapar. E nem o Cuprinol da Robbialac, produto supostamente contra o caruncho, conseguiu salvar o "Teatro Garrett" da derrocada total. É que, ao longo do tempo, o bicho-carpinteiro foi-se alimentando do madeirame de uma tal forma tão subreptícia e insidiosa que as estruturas do Garrett começaram inesperadamente a ranger por tudo quanto era sítio. E numa manhã de cacimbo, após uma noite de ruidoso e animado filme de piratas e corsários, o pessoal de limpeza deu de chofre com aquele triste espectáculo. Essa deve ter sido a última noite de grande farra para os carunchos e os escaravelhos, pois deixaram de tal modo esboroados os camarotes, as frisas e o balcão do Galinheiro, que a partir de então o "Teatro Garrett" passou apenas a servir de local onde a miudagem do Bairro da Facada ia brincar às escondidas e aos polícias e ladrões. Só as duas goiabeiras do quintal do Garrett choravam lágrimas de seiva amarga, pois o Tó Lindas e o Monacaia não perdiam ocasião para dar caça às bengalinhas que nelas poisavam para os seus cantos divinais. Com desgraças ou sem elas, a vida não pára!... Tempos depois, sobre os escombros do Cine-Teatro Garrett, viria a ser construído a Sede do Atlético Clube de Moçâmedes, atirando para as brumas da memória aquele elegante e singular Cinema que tantas alegrias havia proporcionado aos nossos queridos “Cabeças de Pungo. Nesse intervalo, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube Recreativo e Beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que decorriam sem grandes condições de acomodamento, e sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas, e as peças de teatro, sem nunca atingirem o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. " (1)
Fim de transcrição.
Interessante era o modo como era feita a publicidade naquele tempo, através de um "cartaz ambulante" rectangular, com cerca de 1, 50 metro de largura e e 1, 20 metro de altura, apoiado em dois paus, que percorria as ruas cidade, levado por dois africanos. O cartaz incluia imagens de cenas do filme ou das peças de Teatro e de Revista que ali iam ter lugar, etc, etc.
1. "Mossâmedes à vista" (naquele tempo escrevia-se com "SS ")
2. "No Quiosque do Faustino"
3. "Coisas e Loisas"
4. "Beija-me muito"
5. "Cenas de Rua"
"Coração ao Largo" era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas: Zé Topa Tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins (António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Clube de Moçâmedes. Foi levada à cena vezes sucessivas e sempre com bilheteiras esgotadas. Os preços da entrada eram variados, conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral.
De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo", que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, ficaram os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz).
Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituído por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida pela "Voz de Ouro do Deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta. A interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: "Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." .
Outra figura de Moçâmedes que cantou no Cine Garrett foi Augusto Gavino. E em tempos mais recuados, subiram à cena outras peças de entre as quais a intitulada "Gioconda", outro sucesso de bilheteira que as nossas avós não cansavam de lembrar.
O Teatro Garrett, como todos os Teatros daquele tempo, passou por essa fase de passagem para os Cine-Teatros, em que o Cinema que foi buscar ao Teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, ao transformá-los num lugar apropriado para a exibição dos filmes. E para aproveitar o tempo na troca das bobinas que continham o filme, havia nesse tempo dois intervalos sem tempo definido. No Teatro Garrett, o público passava então para as elegantes galerias, onde se encontravam à sua espera toda a espécie de bebidas e gulodices, cigarros, etc etc.
No campo das realizações, na
bela sala de espectáculos do "Teatro Garrett" foram levadas à cena
peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas
digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive,
pelas respectivas orquestras. Mas ao
palco do "Teatro Garrett" também subiram artistas da nossa terra,
crianças, jovens e adultos que muitos de nós ainda recordam. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou
e levou à cena, nos anos 1940,
o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de
Moçâmedes, integrando a Revista "Coração ao Largo", que incluía, entre outros bailados, o muito ovacionado "Bailado das Horas". Este bailado era desempenhado por 24 bailarinas de diferentes idades, que dançaram
magistralmente, e que eram distribuídas por 4 grupos, consoante as
idades, representando as mais novinhas, as "madrugadas", as da idade
seguinte, as "manhãs", as mais cresciditas, as "tardes", e as mais velhas,
as "noites". O acompanhamento ao piano esteve a cargo de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros:
1. "Mossâmedes à vista" (naquele tempo escrevia-se com "SS ")
2. "No Quiosque do Faustino"
3. "Coisas e Loisas"
4. "Beija-me muito"
5. "Cenas de Rua"
"Coração ao Largo" era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas: Zé Topa Tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins (António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Clube de Moçâmedes. Foi levada à cena vezes sucessivas e sempre com bilheteiras esgotadas. Os preços da entrada eram variados, conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral.
De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo", que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, ficaram os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz).
Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituído por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida pela "Voz de Ouro do Deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta. A interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: "Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." .
Outra figura de Moçâmedes que cantou no Cine Garrett foi Augusto Gavino. E em tempos mais recuados, subiram à cena outras peças de entre as quais a intitulada "Gioconda", outro sucesso de bilheteira que as nossas avós não cansavam de lembrar.
Recorte de jornal da época (finais dos anos 1930)
Também era comum por ocasião do Natal levarem à cena actos de variedades e peças de Teatro com pequenos artistas da terra que revelavam grande talento, tais como Norberto Gouveia (Patalim), com apenas 12 anos, e outros que ficaram na memória colectiva: a Lolita, o Renato Veli, o Nito Santos, à época crianças. Eram geralmente festas de caridade, destinadas a angariar ajudas para a "sopa económica" dos desprotegidos da cidade. O artigo refere nomes de alguns colaboradores, de entre os quais Dina de Sousa (pianista e ensaiadora), Maria Eugénia de Almeida, Rosete Almeida, Vénus de Sousa e Beatriz Caleres.
As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Ti-ro-liro", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:
"...Cá em cima está o tiro-liro
Lá embaixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
E a dançar o sol e dó...
Comadre, minha comadre,
gosto muito da sua afilhada,
É bonita, apresenta-se bem
e parece que tem,
a face rosada...
etc..
A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.
Programa da Revista "Coração ao Largo"
O Armazém Primavera de Mossâmedes
Conta-se que naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas e convenientemente iluminadas (a iluminação era a óleo de baleia), e as pessoas andavam a pé, sendo escassas as lojas de moda, as nossas, inda assim no pequeno e pacato burgo, algumas das nossas elegantes quando iam ao Teatro Garrett aperaltavam-se, elas, envergando tailleurs bordados a lantejoulas, luvas, chapéus, eles, com fatos de alpaca, colete, lacinho ou gravata e chapéu. O curioso da questão é que as indumentárias eram vinham directamente dos Armazéns "Printemps" de Paris, via Congo francês, através de encomendas que eram feitas nos "Armazéns Primavera", uma coincidência, convenha-se. Este armazém (vidé foto), ficava no rés-do-chão do edifício centenário da familia Zuzarte de Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Central, alugado à familia Gouveia. Mas também se conta que no tempo do "Teatro Garrett" não havia quaisquer restrições à entrada de crianças, e até as
mães podiam levar os seus bebés ao colo, o que transformava por vezes as noites de
cinema numa alegre festa em família.
Aproveitamos para transcrever um texto que se reporta à inauguração da Escola Primária Superior Brão de Mossâmedes, publicado no Jornal “O Mossamedense”, nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série de que era director Alberto Trindade, e editor Joaquim Augusto Monteiro, e que faz referência a uma récita de gala no Teatro Garrett, e a uma opereta da autoria do Dr. António Augusto de Miranda, intitulada - “Pérolas do Mar”, em 3 actos, à qual se seguiu um deasfio de futebol entre o Royal e Ginásio da Torre do Tombo:
INAUGURAÇÃO SOLENE
DA ESCOLA PRIMÁRIA SUPERIOR
DE MOSSÂMEDES
No acto usaram da palavra O Director da Escola, Dr. António Augusto de Miranda, que fez a oração de “Sapientia” - peça oratória de incontestável valor, um hino entusiasta aos obreiros da instrução. Usou a seguir da palavra o antigo colono Sr. Ribeiro da Cruz que, com profunda comoção e bem sentido entusiasmo, felicitou-se e à cidade de Mossâmedes pela realização de tão importante melhoramento, destinado a elevar o nível intelectual da Colónia de Mossâmedes caracteristicamente europeia.
Falou ainda o Sr. Jaime Rocha, aludindo ao acto solene que estava decorrendo e mostrando com proficiência as vantagens da educação física aliada ao desenvolvimento.
"...De longe vinha a ideia e aspiração de dotar Mossâmedes com um estabelecimento de ensino secundário. Esta ideia tomou vulto durante o governo de José Manuel da Costa que encetou as demarches para a sua criação. Ardente apóstolo desta causa foi então o Sr. Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres.
Coube finalmente ao actual governador Sr. Artur da Silva a glória de, com maior felicidade que os seus antecessores, ver coroados de êxito os seus esforços e presidir à inauguração da Escola Primária Superior. Seguiu-se um “match de foot-ball” entre as primeiras categorias dos clubs Royal e Ginásio Torre do Tombo, que terminou com um empate. À noite houve récita de gala no nosso Teatro. Foi posta em cena uma engraçada opereta da autoria do nosso amigo o Sr. Dr. António Augusto de Miranda, intitulada - “Pérolas do Mar”, em 3 actos.
Conseguimos recentemente adquirir algumas páginas de uma revista lançada em Moçâmedes com publicidade relacionada com já aqui referida Opereta em 3 actos "Pérolas do Mar", da autoria do Dr. António Augusto Miranda (1886-1964), então Juiz em Moçâmedes, que foi levada à cena no Teatro Garrett, nos dias 15 e 16 de Maio de 1925, em benefício do Asilo de S. João e de um fundo a estabelecer para a criação de um Jardim-Escola dirigido para educação da Classe Infantil. Esta preocupação pela Escola e pela Educação o que ilustra bem a preocupação pela Escola e pela Educação, após a instauração da 1ª República, em 1910, não obstante as crises económicas que se fizeram sentir, em consequência dos custos com a participação da 1ª Grande Guerra de 1914-18, olhos postos na preservação das colónias de África, e a instabilidade política derivada da sucessão de governações.
Tal como as anteriores peças levadas a cabo no Teatro Garrett, também esta Opereta contou com a colaboração de um elenco de moçamedenses, sempre pronto a colaborar para o avanço da sua cidade. Deixo aqui o meu agradecimento à neta do Dr. António Augusto Miranda, Emilia Maria Santiago Miranda, e apeoveito para referir que seu avô, pessoa dedicada à cultura, publicou os livros "Scenas da Aldeia" (1909),"Os Meus Ídolos" (1914), "Manual Teórico e Prático dos Juizes Municipais, Instrutores e Populares" (1928) e "Posse e tutela possessória: ensaio sobre a posse e os remédios possessórios" (1945).
Nesta Opereta participaram como persongens: Manuel G. Cunha, Jayme Rocha, Francisco Ervedosa, A Peyroteo, João Tulson, Celeste Nóbrega, Serafina Vaz Pereira, Maria Hortense Peyroteo, Mavilda Quartin, Anacleta Rodrigues, Alberto Torres, Joaquim Paulo Rodrigues, Mário Peyroteo e Serafim Costa. Nos Coros: Maria Laura Godinho, Maria Júlia Pestana Júnior, Julieta Costa Santos, Celeste Pessoa, Maria Salomé Mendonça, Maria Amélia Costa, Ilda dos Santos Costa, Maria Violante Gomes, Cacilda Pessoa, Marta Rodrigues, Florentina Nóbrega, Maria Aurora Vieira e Maria das Dores S, Sousa.
Ensaiador: Manuel da Silva Dias e por impedimento deste, ? Tulson. Ponto: Raúl de Figueiredo, Contra Regra: João P. M. Vicente. Cenário do 2º acto: António Gonçalves Guerra. Cenário do 3º acto: Francisco Ervedosa. Ao piano: Emma Mendonça. Ao Violino: Mário Madeira.
Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925
Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925
Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925
Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925
Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes no Teatro Garrett
Finalmente, acrescento o texto que segue e que remete para uma sessão de boxe e de esgrima, realizada no palco do Cine Teatro Garrett, retirado do livro "Moçâmedes, Memórias Desportivas" da autoria do moçamedense Mário António Guedes da Silva, no seu livro Moçâmedes, Memórias Desportivas:
"O BOX E A ESGRIMA
Ao contrário do que sucedeu com a esgrima, a longevidade do box em Moçâmedes foi mais consistente. Nas décadas de vinte e trinta, já o box era praticado na bela cidade de Moçâmedes, ainda que empiricamente, pondo em pulvorosa os muitos adeptos fervorosos. Esta modalidade esteve integrada nas sessões desportivas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Os boxeadores que mais entusiasmaram o público foram OCHOA e FAQUINHAS, na modalidade de pesos super pesados, correspondente a mais de 91 quilos. Era técnica com força...
As respectivas sessões eram realizadas no palco do vetusto mas lindo Teatro Garrett, que na altura já albergava mais de quinhentos espectadores, entre plateia, camarotes e frisas. Ochoa, experiente lutador, e Faquinhas, homem corpulento e impetuoso, eram adversários temíveis. Este último demonstrava a sua brutalidade colocando um barril com vinho (100 litros) sobre o balcão da tasca que habitualmente frequentava. O primeiro prélio estava anunciado, e poucos eram os que acreditavam numa derrota de Faquinhas. Era visível o receio de Ochoa, mas confiante e concentrado entrou no ringue, sob as cordas. O gongo tocou! Punhos fechados, olhos nos olhos, os primeiros toques eram de ensaio. O truculento Faquinhas quase derrubara o adversário na primeira tentativa a sério. Ochoa protegeu-se, fitando-o. o que se repetiu nas seguintes investidas de Faquinhas. O público aplaudia freneticamente. a casa estava lotada. Terminara o primeiro assalto, o segundo, e no terceiro Faquinhas já evidenciava sinais de cansado. Foi quando Ochoa desferiu o golpe de misericórdia. Faquinhas tombou! KO impressionante. Foi um delírio! A desforra foi aceite por Ochoa e no novo combate realizado algum tempo depois, antes que se repetisse a sua consideração de vítima. Faquinhas derrubou o antagonista de forma visivelmente irregular. Imperou a truculência! Terminou tacitamente a luta! " Fim de transcrição.
Os filmes “Mulheres da Beira” e “Os Lobos”, feitos há quase 100 anos em Portugal pelo realizador italiano Rino Lupo
Todos como grandes sucessos da altura foram as comédias: O Pai Tirano (1941), O Pátio das Cantigas (1941) e A Vizinha do Lado (1945).
Passados que foram 40 anos sobre a independência de Angola, e o abandono em massa da cidade de Moçâmedes pelos seus moradores europeus, ficam estas recordações de momentos passados num outro tempo, num outro lugar, por gentes que na maioria a morte há muito ceifou, mas que merecem ser lembradas pelo brilho da sua participação em eventos sociais e lúdicos, pela vivacidade com que ajudaram a tornar mais leve a monotonia dos dias, num tempo em relação ao qual apenas restam vagas recordações. A recordar também, que o Teatro Garrett tendo nascido em 01 de Outubro de 1896 com a escritura da constituição de uma sociedade, por sua vez registada no Tribunal do Comércio, em 15 de Junho 1906, foi matriculada em 13 de Dezembro de 1924. Tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, pelo motivo de também ter sido provisório o seu título constituído.
MariaNidiaJardim
(direitos de autor)
20.06.2008




























