Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MEMÓRIAS COM HISTORIA: O Teatro Garrett em Moçâmedes



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 Avenida da República de Moçâmedes, no tempo do Teatro Garrett (década de 1930/40) era assim…



Na ausência de uma foto do Teatro Garrett,  coloco esta, da Avenida da República tal como se aoresentava na Moçâmedes daquele tempo, bem como algumas páginas de folhetos de publicidade, e publicações em Jornais, que  nos ajudam  a tecer neste blogue, algumas considerações sobre o citado Teatro.

Situado na Rua Calheiros, o Teatro Garrett  foi constituido como uma casa de espectáculos pela empresa exploradora de recreios moçamedenses, sociedade anónima de responsabilidade limitada, tendo por fim a exploração de espectáculos públicos, com sede em Moçâmedes. Foram sócios fundadores os residentes Serafim Simões Freire de Figueiredo, António Florentino Torres, Miguel Duarte Loureiro de Almeida, Manuel da Silva Dias e Honorato Júlio de Mendonça.   Data de 01 de Outubro de 1896 a escritura da constituição da sociedade, por sua vez registada, no Tribunal do Comércio, em 15 de Junho 1906. Foi matriculada em 13 de Dezembro de 1924, porém tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, pelo motivo de também ter sido provisório o seu título constituído.

O Teatro Garrett ainda existia na década de 1940, diz-se que tinha então como proprietário Raúl de Sousa, e era ali, na Rua Calheiros, o local onde os moçamedenses assistiram às primeiras peças de teatro e de revista, e viram correr os primeiros filmes, grande parte dos quais em cinema mudo.

Enquadrado no tempo que o viu nascer, em finais do século XIX,  o "Teatro Garrett" acabou demolido na década de 1940 para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes. Dizem os que o frequentaram, que ficava num edifício de 1º andar, de fachada vulgar, com porta larga encimada pelo nome em letras gordas "Teatro Garrett", e que do exterior não dava para imaginar o requinte do seu interior, todo forrado a madeira trabalhada (Talha dourada), com suas frisas, camarotes, plateia e reposteiros de veludo vermelho, um requinte tal, que, ressalvando as devidas proporções, fazia lembrar o Politeama de Lisboa.

Mas antes do "Teatro Garrett" houve uma outra sala de espectáculos em Moçâmedes que seria a primitiva, e esta ficava situada na Rua das Hortas onde mais tarde o comerciante Álvaro Vieira Ascenso veio a construir os seus armazéns, porém para além da memória da sua localização, nem uma réstea do nome, nem um indício do seu dono chegou aos nossos dias.  Por isso o "Teatro Garrett" acabou por ficar na memória dos moçamedeses como a primeira sala de espetáculos da cidade, memória essa que se ficou a dever ao já citado  requinte do seu interior. Conta-se também que por volta dos anos 1940 já a madeira do "Teatro Garrett", artisticamente trabalhada, se encontrava corroída pela bicharada e  incapaz para ser aproveitada. E foi assim que o "Teatro Garrett"  que ameaçava desintegrar-se, encerrou, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes, nessa mesma década, ocupando o antigo "Jardim da Colónia". Sobre este aspecto introduzo um texto com certa graça, do moçamedense Arménio Jardim, que ajuda a dar mais nitidez à memória do "Teatro Garrett" que ele mesmo frequentou:

"....Feliz ou infelizmente, vivemos num mundo finito ao qual não conseguimos escapar. E nem o Cuprinol da Robbialac, produto supostamente contra o caruncho, conseguiu salvar o "Teatro Garrett" da derrocada total. É que, ao longo do tempo, o bicho-carpinteiro foi-se alimentando do madeirame de uma tal forma tão subreptícia e insidiosa que as estruturas do Garrett começaram inesperadamente a ranger por tudo quanto era sítio. E numa manhã de cacimbo, após uma noite de ruidoso e animado filme de piratas e corsários, o pessoal de limpeza deu de chofre com aquele triste espectáculo. Essa deve ter sido a última noite de grande farra para os carunchos e os escaravelhos, pois deixaram de tal modo esboroados os camarotes, as frisas e o balcão do Galinheiro, que a partir de então o "Teatro Garrett" passou apenas a servir de local onde a miudagem do Bairro da Facada ia brincar às escondidas e aos polícias e ladrões. Só as duas goiabeiras do quintal do Garrett choravam lágrimas de seiva amarga, pois o Tó Lindas e o Monacaia não perdiam ocasião para dar caça às bengalinhas que nelas poisavam para os seus cantos divinais. Com desgraças ou sem elas, a vida não pára!... Tempos depois, sobre os escombros do Cine-Teatro Garrett, viria a ser construído a Sede do Atlético Clube de Moçâmedes, atirando para as brumas da memória aquele elegante e singular Cinema que tantas alegrias havia proporcionado aos nossos queridos “Cabeças de Pungo. Nesse intervalo, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube Recreativo e Beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que decorriam sem grandes condições de acomodamento, e sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas, e as peças de teatro, sem nunca atingirem o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. " (1)
Fim de transcrição.

Interessante era o modo como era feita a publicidade naquele tempo, através de um "cartaz ambulante" rectangular, com cerca de 1, 50 metro de largura e e 1, 20 metro de altura, apoiado em dois paus, que percorria as ruas cidade, levado por dois africanos. O cartaz incluia imagens de cenas do filme ou das peças de Teatro e de Revista que ali iam ter lugar, etc, etc.

O Teatro Garrett, como todos os Teatros daquele tempo, passou por essa fase de passagem para os Cine-Teatros, em que o Cinema que foi buscar ao Teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, ao transformá-los  num lugar apropriado para a exibição dos filmes. E para aproveitar o tempo na troca das bobinas que continham o filme, havia nesse tempo dois intervalos sem tempo definido. No Teatro Garrett, o público passava então para as elegantes galerias, onde se encontravam à sua espera toda a espécie de bebidas e gulodices, cigarros, etc etc. 

No campo das realizações, na bela sala de espectáculos do  "Teatro Garrett" foram levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. Mas ao palco do "Teatro Garrett" também subiram artistas da nossa terra, crianças, jovens e adultos que muitos de nós ainda recordam. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de Moçâmedes, integrando a Revista "Coração ao Largo", que incluía, entre outros bailados, o  muito ovacionado "Bailado das Horas". Este bailado era desempenhado por 24 bailarinas de diferentes idades, que dançaram magistralmente, e que eram distribuídas por 4 grupos, consoante as idades, representando as mais novinhas, as "madrugadas", as da idade seguinte, as "manhãs", as mais cresciditas, as "tardes", e as mais velhas, as "noites". O acompanhamento ao piano esteve a cargo de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros: 

1. "Mossâmedes à vista"  (naquele tempo escrevia-se com "SS ")
2. "No Quiosque do Faustino"
3. "Coisas e Loisas"
4. "Beija-me muito"
5. "Cenas de Rua"


"Coração ao Largo" era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas:  Zé Topa Tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins (António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Clube de Moçâmedes. Foi levada à cena vezes sucessivas e sempre com bilheteiras esgotadas. Os preços da entrada eram variados, conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral.


De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo", que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, ficaram os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz). 


Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituído por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida pela "Voz de Ouro do Deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta. A interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: "Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." . 

Outra figura de Moçâmedes que cantou no Cine Garrett foi Augusto Gavino. E em tempos mais recuados, subiram à cena outras peças de entre as quais a intitulada "Gioconda", outro sucesso de bilheteira que as nossas avós não cansavam de lembrar.


Recorte de jornal da época (finais dos anos 1930)


Também era comum por ocasião do Natal levarem à cena  actos de variedades e peças de Teatro com pequenos artistas da terra que revelavam grande talento, tais como Norberto Gouveia (Patalim), com apenas 12 anos, e outros que ficaram  na memória colectiva:  a Lolita, o Renato Veli, o Nito Santos, à época crianças. Eram geralmente festas de caridade, destinadas a angariar ajudas para a "sopa económica" dos desprotegidos da  cidade. O artigo refere nomes de alguns colaboradores, de entre os quais Dina de Sousa (pianista e ensaiadora), Maria Eugénia de Almeida, Rosete Almeida, Vénus de Sousa e Beatriz Caleres. 

As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Ti-ro-liro", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:


"...Cá em cima está o tiro-liro 
Lá embaixo está o tiro-liro-ló 
Juntaram-se os dois à esquina 
A tocar a concertina 
E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre, 
gosto muito da sua afilhada, 
É bonita, apresenta-se bem 
e parece que tem, 
a face rosada...

etc..



 A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.

 
Programa da Revista "Coração ao Largo"




O Armazém Primavera de Mossâmedes


Conta-se que naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas e convenientemente iluminadas (a iluminação era a óleo de baleia), e as pessoas andavam a pé, sendo escassas as lojas de moda, as nossas, inda assim no pequeno e pacato burgo, algumas das nossas elegantes quando iam ao Teatro Garrett aperaltavam-se, elas, envergando tailleurs bordados a lantejoulas, luvas, chapéus, eles, com fatos de alpaca, colete, lacinho ou gravata e chapéu. O curioso da questão é que as indumentárias eram vinham directamente dos Armazéns "Printemps" de Paris, via Congo francês, através de encomendas que eram feitas nos "Armazéns Primavera", uma coincidência, convenha-se. Este armazém (vidé foto), ficava  no rés-do-chão do edifício centenário da familia Zuzarte de Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Central, alugado à  familia Gouveia.  Mas também se conta que no tempo do "Teatro Garrett"  não havia quaisquer restrições à entrada de crianças, e até as mães podiam levar os seus bebés ao colo, o que transformava por vezes as noites de cinema numa alegre festa em família.


Aproveitamos para transcrever um texto que se reporta à inauguração da Escola Primária Superior Brão de Mossâmedes, publicado no Jornal “O Mossamedense”, nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série de que era director Alberto Trindade, e editor Joaquim Augusto Monteiro, e que faz referência a uma récita de gala no Teatro Garrett, e a uma opereta da autoria do Dr. António Augusto de Miranda, intitulada - “Pérolas do Mar”, em 3 actos, à qual se seguiu um deasfio de futebol entre o Royal e Ginásio da Torre do Tombo:

INAUGURAÇÃO SOLENE
DA ESCOLA PRIMÁRIA SUPERIOR
DE MOSSÂMEDES

No acto usaram da palavra O Director da Escola, Dr. António Augusto de Miranda, que fez a oração de “Sapientia” - peça oratória de incontestável valor, um hino entusiasta aos obreiros da instrução. Usou a seguir da palavra o antigo colono Sr. Ribeiro da Cruz que, com profunda comoção e bem sentido entusiasmo, felicitou-se e à cidade de Mossâmedes pela realização de tão importante melhoramento, destinado a elevar o nível intelectual da Colónia de Mossâmedes caracteristicamente europeia. 

Falou ainda o Sr. Jaime Rocha, aludindo ao acto solene que estava decorrendo e mostrando com proficiência as vantagens da educação física aliada ao desenvolvimento.
"...De longe vinha a ideia e aspiração de dotar Mossâmedes com um estabelecimento de ensino secundário. Esta ideia tomou vulto durante o governo de José Manuel da Costa que encetou as demarches para a sua criação.  Ardente apóstolo desta causa foi então o Sr. Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres.
Coube finalmente ao actual governador Sr. Artur da Silva a glória de, com maior felicidade que os seus antecessores, ver coroados de êxito os seus esforços e presidir à inauguração da Escola Primária Superior. Seguiu-se um “match de foot-ball” entre as primeiras categorias dos clubs Royal e Ginásio Torre do Tombo, que terminou com um empate. À noite houve récita de gala no nosso Teatro. Foi posta em cena uma engraçada opereta da autoria do nosso amigo o Sr. Dr. António Augusto de Miranda, intitulada - “Pérolas do Mar”, em 3 actos. 


Conseguimos recentemente adquirir algumas páginas de uma revista lançada em Moçâmedes com publicidade relacionada com já aqui referida Opereta em 3 actos "Pérolas do Mar", da autoria do Dr. António Augusto Miranda (1886-1964), então Juiz em Moçâmedes, que  foi levada à cena no Teatro Garrett, nos dias 15 e 16 de Maio de 1925, em benefício do Asilo de S. João e de um fundo a estabelecer para a criação de um Jardim-Escola dirigido para educação da Classe Infantil. Esta preocupação pela Escola e pela Educação  o que ilustra bem  a preocupação pela Escola e pela Educação, após a instauração da 1ª República, em 1910, não obstante as crises económicas que se fizeram sentir, em consequência dos custos com a participação da 1ª Grande Guerra de 1914-18, olhos postos na preservação das colónias de África,  e a instabilidade política derivada da sucessão de governações. 

Tal como as anteriores peças levadas a cabo no Teatro Garrett, também esta Opereta contou com a colaboração de um elenco de moçamedenses, sempre pronto a colaborar para o avanço da sua cidade. Deixo aqui o meu agradecimento à neta do Dr. António Augusto Miranda,  Emilia Maria Santiago Miranda, e apeoveito para referir que seu avô pessoa dedicada à cultura, publicou os livros "Scenas da Aldeia" (1909),"Os Meus Ídolos" (1914), "Manual Teórico e Prático dos Juizes Municipais, Instrutores e Populares" (1928) e "Posse e tutela possessória: ensaio sobre a posse e os remédios possessórios" (1945).

Nesta Opereta participaram como persongens: Manuel G. Cunha, Jayme Rocha, Francisco Ervedosa, A Peyroteo, João Tulson, Celeste Nóbrega, Serafina Vaz Pereira, Maria Hortense Peyroteo, Mavilda Quartin, Anacleta Rodrigues, Alberto Torres, Joaquim Paulo Rodrigues, Mário Peyroteo e Serafim Costa. Nos Coros: Maria Laura Godinho, Maria Júlia Pestana Júnior, Julieta Costa Santos, Celeste Pessoa, Maria Salomé Mendonça, Maria Amélia Costa, Ilda dos Santos Costa, Maria Violante Gomes, Cacilda Pessoa, Marta Rodrigues, Florentina Nóbrega, Maria Aurora Vieira e Maria das Dores S, Sousa.

Ensaiador: Manuel da Silva Dias e por impedimento deste, ? Tulson. Ponto: Raúl de Figueiredo, Contra Regra: João P. M. Vicente. Cenário do 2º acto: António Gonçalves Guerra. Cenário do 3º acto: Francisco Ervedosa. Ao piano:  Emma Mendonça. Ao Violino: Mário Madeira.



 Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925

  Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925

  Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925


 Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925




 Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes no Teatro Garrett


Finalmente, acrescento o texto que segue e que remete para uma sessão de boxe e de esgrima, realizada no palco do Cine  Teatro Garrett, retirado do livro "Moçâmedes, Memórias Desportivas"  da autoria do moçamedense Mário António Guedes da Silva, no seu livro Moçâmedes, Memórias Desportivas:

"O BOX E A ESGRIMA

Ao contrário do que sucedeu com a esgrima, a longevidade do box em Moçâmedes foi mais consistente. Nas décadas de vinte e trinta, já o box era praticado na bela cidade de Moçâmedes, ainda que empiricamente, pondo em pulvorosa os muitos adeptos fervorosos. Esta modalidade esteve integrada nas sessões desportivas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Os boxeadores que mais entusiasmaram o público foram OCHOA e FAQUINHAS, na modalidade de pesos super pesados, correspondente a mais de 91 quilos. Era técnica com força...

As respectivas sessões eram realizadas no palco do vetusto mas lindo Teatro Garrett, que na altura já albergava mais de quinhentos espectadores, entre plateia, camarotes e frisas. Ochoa, experiente lutador, e Faquinhas, homem corpulento e impetuoso, eram adversários temíveis. Este último demonstrava a sua brutalidade colocando um barril com vinho (100 litros) sobre o balcão da tasca que habitualmente frequentava. O primeiro prélio estava anunciado, e poucos eram os que acreditavam numa derrota de Faquinhas. Era visível o receio de Ochoa, mas confiante e concentrado entrou no ringue, sob as cordas. O gongo tocou! Punhos fechados, olhos nos olhos, os primeiros toques eram de ensaio. O truculento Faquinhas quase derrubara o adversário na primeira tentativa a sério. Ochoa protegeu-se, fitando-o. o que se repetiu nas seguintes investidas de Faquinhas. O público aplaudia freneticamente. a casa estava lotada. Terminara o primeiro assalto, o segundo, e no terceiro Faquinhas já evidenciava sinais de cansado. Foi quando Ochoa desferiu o golpe de misericórdia. Faquinhas tombou! KO impressionante. Foi um delírio! A desforra foi aceite por Ochoa e no novo combate realizado algum tempo depois, antes que se repetisse a sua consideração de vítima. Faquinhas derrubou o antagonista de forma visivelmente irregular. Imperou a truculência! Terminou tacitamente a luta! " Fim de transcrição.

O "Teatro Garrett" (designação pioneira ostentada na fachada do edifício)  viveu essa época de transição, em que, com o surgimento do cinema, surgiram novos equipamentos culturais aptos para o cinema sem esquecerem o teatro: os Cine-teatros. Apresentado inicialmente como uma curiosidade para o público frequentador dos music-halls, dos cafés-concertos e dos pequenos teatros, aos poucos o Cinema foi criando salas próprias para um público próprio, numa trajetória evolutiva que passou pelo período efervescente da "Belle époque" até o período áureo dos Cine-Teatros,

Os filmes “Mulheres da Beira” e “Os Lobos”, feitos há quase 100 anos em Portugal pelo realizador italiano Rino Lupo
Todos como grandes sucessos da altura foram as comédias: O Pai Tirano (1941), O Pátio das Cantigas (1941) e A Vizinha do Lado (1945).

Passados que foram 40 anos sobre a independência de Angola, e o abandono em massa da cidade de Moçâmedes pelos seus moradores europeus, ficam estas recordações de momentos passados num outro tempo, num outro lugar, por gentes que na maioria a morte há muito ceifou, mas que merecem ser lembradas pelo brilho da sua participação em eventos sociais e lúdicos, pela vivacidade com que ajudaram a tornar mais leve a monotonia dos dias, num tempo em relação ao qual apenas restam vagas recordações. A recordar também, que o Teatro Garrett tendo nascido em 01 de Outubro de 1896 com a escritura da constituição de uma sociedade, por sua vez registada no Tribunal do Comércio, em 15 de Junho 1906, foi matriculada em 13 de Dezembro de 1924. Tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, pelo motivo de também ter sido provisório o seu título constituído.



 MariaNidiaJardim 

 (direitos de autor) 
20.06.2008 







quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bernardino Abreu e Castro e João Duarte de Almeida, dois apóstolos da abolição da escravatura






 



Uma das primeiras caracterizações da sociedade angolana do século XIX surge em 1857, pela pena de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, numa carta redigida em Mossâmedes, contendo a sua “Opinião” sobre a abolição do comércio de escravos, pedida pelo governador de então, José Rodrigues Coelho do Amaral, e que se publicou, entre outras, no número 611 do Boletim Official.
Bernardino divide os europeus em três classes: A de empregados publicos, a de homens que vem procurar fortuna, a de degredados. A primeira classe, que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem à Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que
o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitue hoje limitada excepção a esta regra. [. . . ] A segunda classe e dos que vem procurar fortuna e como esta se obtinha por meio do embarque de escravos, claro está ser a idea dominante até ha poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar, que o numero dos que não são ainda hoje d’ella affectados não é o maior; e que os que se dirigem à cultura precisam luctar com quazi insuperaveis difficuldades, ter paciencia mais que ordinaria, e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. [. . . ] . A terceira classe é a dos degredados, os quaes quazi todos são soldados, e não é a menos útil, pois não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saude, e habitos ociosos

Sobre os indígenas, seus costumes e relações de poder, também dá um retrato pormenorizado, no qual salienta a falta de hábitos de trabalho, as tendências para a bebida, o desrespeito pela propriedade privada e o carácter bélico, acabando por concluir que a responsabilidade na manutenção, senão na decadência, destes costumes cabe aos portugueses: “Costumes, religião, e governo do gentio são quazi geralmente os mesmos da primitiva, só com a differença de que nada de bom lhe tem ensinado os europeos, antes communicado os nossos vicios”. 


In Júlio de Castro Lopo,Jornalismo de Angola – Subsídios para o seu Estudo, Luanda, Edição do Centro de Informação e Turismo de Angola, 1964.

Se fora de Luanda as populações autóctones se mantêm, salvo raras excepções, na situação descrita por Bernardino Feire, nesta cidadeassiste-se, na segunda metade do século XIX, a uma aproximação íntima entre o português e o “agregado africano, com o qual se cruzou e constituiu família, determinando uma sociedade em que o mestiço, [. . . ] gozou duma certa relevância". 



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Transcrevo algumas passagens do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro",   do Padre  Vicente, José (Gil Duarte),  página 1959, sobre  a posição de  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro   e de João Duarte d' Almeida  no que diz respeito à abolição do tráfico de escravos  para fora das possessões portuguesas africanas e  ao fim da escravatura dentro das mesmas possessõesque se fazia na  direcção do Brasil  e as Américas:



"...João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida fez, sobre o assunto,  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa,  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste. Passarei pois a transcrever uma dessas exposições, tenso em conta que em relação a este assunto João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro tinham os mesmos ideais. A mesma exposição deve ser analisada não à luz dos nossos dias, mas à luz das mentalidadea da época em que estes dois homens viveram. Ei-la:

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem,  se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades." Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefutável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

E continua:

" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.

Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local de qualquer embarque que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.

Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo, dar parte do que ocorrer entre Mossâmedes e a Lucira; outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha; entre esta e Novo Redondo; entre este e Benguela Velha; entre esta e o rio Longa; entre esta e a cidade de Loanda; entre esta e o Dande; entre este e o Ambriz; entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."

Bernardino fez depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capitulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e inhumano que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não goze do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.

Considera o estado das possessões, os usos e costumes dos europeus que as habitam, o estado da civilização dos indígenas que as habitam, se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 

Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."

Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."

Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."

Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele: "Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade, incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 

Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".

E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."

Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos, e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido, porém, dos que mais desejam o progresso, o aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.
Honra lhes seja! "
 

Como escreveu Fernando Pessoa: "O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos".

 Para saber mais sobre esta época:

 http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf


sábado, 30 de julho de 2016

Chamavam-lhe o "40"

 

Chamavam-lhe o "40". Quando vi a foto deste sujeito que viveu em Moçâmedes e, outras eras logo me veio ao pensamento que podia ter sido um ex-militar que teria participado das campanhas de África do início do século XX, e que por ali teria ficado. Mas não, disse-me logo uma conterrânea que por tradição oral sabia da sua história

"...Não, o "40" era um presidiário da Fortaleza de S. Fernando em Moçâmedes. "40" era o seu nº de cela, ele foi deportado para Angola porque bateu num homem que já estava morto. Era conhecido porque roubava pombas, burros , pintava-os com manchas e depois ia vender aos donos, claro quando as pombas tomavam banho e as manchas desapareciam, lá ia o "40" novamente preso, não tinha emenda, era o único pecado dele.  Era um homem de pele clara e olhos azuis. Foi trabalhar para a minha bisavó, Júlia Pestana, acompanhava o meu avô e o irmão, para todo o lado.  Nesta altura a irmã Hortense, já estava casada com o Costa Santos .Segundo o meu avô era um bom homem, ficou na família e morreu lá.  Vina "

A Vina recordou-se da história, mas desconhece o seu nome. Fica aqui para memória futura, o registo deste cidadão anónimo que já há muito não está entre nós.  Alguém que viveu em Moçâmedes nas primeiras décadas do século XX, e que dele resta apenas esta imagem.


MariaNJardim 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Inauguração do uso de camiões automóvel, em 1915, na Campanha contra os Cuanhamas em N'giva






No sul de Angola, de recente colonização portuguesa, a forte resistência dos Cuanhamas e alguns revezes do exército colonial na região justificaram um outro tipo de ocupação militar sistemática.
É na campanha de 1915 contra os Cuanhamas na sua capital N’giva, que se inicia o uso dos camiões automóveis. Os serviços excelentes prestados pelos carros boers no Bié, no Bailundo e no Moxico, entre outros, dependiam do alimento e da água para os animais. No sul a obtenção da  água era um problema que colocava o exército na mão das populações locais.

No final das operações ficou completa a estrada de automóveis desde a linha do caminho-de-ferro até ao interior do distrito da Huíla. O trajecto entre Mossâmedes e a N’giva, que anteriormente se fazia em 60 a 80 dias passou a poder fazer-se em 36 horas. A rapidez do avanço sobre a N’giva, a capital, ficou a dever-se aos camiões, embora os carros boers seguissem na retaguarda. As populações não conheciam a velocidade nem o rendimento do motor das novas máquinas de transporte.


Ver também
http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/CadernosColoniais/CadernosColoniais-N28&p=6

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe



A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.



"De expressão moderna, com volumes de silhueta triangular, em articulação com um expressivo corpo troncocónico em betão aparente, onde se rasgam pequenos vãos de modo irregular, no tipo da Igreja de Romchamp, por Le Corbusier.  Foi projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960. "
José Manuel Fernandes, professor catedrático na Faculdade de Arquitectura da UT


 

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.




A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.






A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.



A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.



A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.




A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.






A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.





A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.




OLHAR A IGREJA DE S. PEDRO DE MOÇÂMEDES/NAMIBE, SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENTE...




Regra geral, olhamos superficialmente os edifícios, sofremos o impacto daquilo que eles a nossos olhos representam, gostamos, não gostamos, fazemo-lo empiricamente, apoiados exclusivamente na experiência e na observação, sem quaisquer análises estética ou ideológica do edifício em si, sem nos preocuparmos com contextos históricos, com correntes arquitectónicas, com aquilo que eles de facto representam, a menos que tenhamos uma formação académica ligada às coisas da arquitectura, ou que a curiosidade nos leve à pesquisa,

A Igreja de São Pedro na cidade de Moçâmedes,  Namibe,  Angola, projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960, tem algo mais a transmitir que um simples olhar para a sua fachada. Ela segue a arquitectura modernista da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp, de Paris, projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade, reconhecido por alguns dos cometimentos arquitetónicos mais extraordinariamente significativos do século XX, decisivos para o desenvolvimento da arquitectura da segunda metade do século. E isso devia ser um orgulho para nós.

Como  Ronchamp, a Igreja de S Pedro,  também  ela pode ser descrita pela sua fachada, "...paredes em ângulos rectos, curvos, a um tempo triangular, redonda, alongada, baixa, alta, vasta, fechada, aberta sobre exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem e penetração de jogos de volumes de luz, etc etc."

A Igreja de S. Pedro  foi construída na fase final do Estado Novo, ela faz parte do conjunto de edifícios modernos que vieram romper com numa época em que a arquitectura portuguesa esteve condicionada pela vontade do Estado e da ditadura vigente, que se impunha ao nível do gosto e da estética dos cidadãos, fazendo com que os arquitectos lusos  não acompanhassem o desenvolvimento  da arquitectura europeia ou mesmo mundial,  com reflexos no urbanismo. (1)

Este é um tema pouco debatido, porquanto a arquitectura moderna  acabaria por ser desenvolvida nas antigas colónias, durante a vigência do Estado Novo, quando na Metrópole a arquitectura era ainda usada como instrumento de propaganda do Regime. Portugal dava os primeiros passos para entrada na modernidade em termos de arquitectura, quando uma viragem aconteceu, imposta pelo Estado Novo, rumo a uma produção de características nacionalistas e monumentais,  que ficou para sempre denominada "Português Suave", e que ficou marcada com a grande Exposição do Mundo Português em 1940. Logo em 1941 é apresentada, em Lisboa, a Exposição da Moderna Arquitectura Alemã, organizada pelo arquitecto Albert Speer, o preferido de Hitler. Os arquitectos que anos antes tinham seguido os princípios do Movimento Moderno passaram, salvo raras excepções, a instrumentos da criação dos modelos da ditadura, centralizados no Ministério das Obras Públicas, e controlados pelo ministro Duarte Pacheco. Desde então, os edifícios públicos (universidades, cine-teatros e tribunais) aproximavam-se dos exemplos alemães e italianos da época, com um forte carácter monumental e clássico, cujo objectivo era transmitir aos cidadãos a ideia de autoridade e ordem. Nos edifícios de menores dimensões nas pequenas cidades era escolhida uma arquitectura   mais regional (escolas primárias, pousadas, edifícios dos Correio, da Caixa Geral de Depósitos e nos bairros de habitação social). Em Lisboa raros arquitectos se opunham às imposições do Estado Novo. Na cidade do Porto, ao nível das escolas os adeptos do regime, conseguiam inda assim manter uma postura mais liberal, incentivando os alunos a descobrirem outros caminhos na arquitectura em constante mutação, mas foi com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, e a consequente queda do regime nazi, que Salazar foi proporcionando uma maior abertura no campo cultural. O Congresso Nacional de Arquitectura,   em 1948,  promovido pelo Governo para celebrar os “15 Anos de Obras Públicas” foi o início da contestação da classe de arquitectos. Deste então começou a emergir uma geração jovem de arquitectos com vontade e coragem para enfrentar as imposições do Estado Novo, reivindicando os princípios  do Movimento Moderno. Ao longo dos anos 1950 assiste-se a uma progressiva libertação da arquitectura portuguesa que se vai aproximando dos circuitos internacionais. Um acrescento para referência aqui do edifícios dos Correios de Moçâmedes, erguida em finais dos anos 1940, inicio dos anos 1950, que se enquadra nesse tipo de arquitectura mais regional do estilo "Português Suave" , estilo mais tarde bastante valorizado.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes enquadra-se pois, nessa dinâmica que veio romper com a tradição estado-novista,  e em simultâneo com a arquitectura eclesiástica ligada ao dogmatismo religioso, opostas à linguagem moderna de Le Corbusier, que se veio a revelar em terras da África portuguesa, pela mão de alguns arquitectos que para lá "emigraram", munidos de uma nova visão, fortemente influenciada o advento do modernismo, e pela produção da arquitectura brasileira, mais internacional  bem acolhida junto das novas gerações mais libertos de condicionalismos ideológicos.   Até porque do ponto de vista climático o Brasil era semelhante ao continente africano, os arquitectos podiam dispor de soluções e técnicas já experimentadas facilmente transpostos para o novo contexto.  Em Angola construíram-se inúmeros edifícios modernos, acontecendo porém que décadas após a independência, aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe em Luanda, acabaria demolido, talvez por ignorância do seu verdadeiro valor para a História da Arquitectura das cidades,  para  no seu lugar  nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. Uma perda irreparável. Com a independência, em 1975, a generalidade dos arquitectos modernistas regressaram a Portugal, mas alguns partiram para o Brasil, estabelecendo a sua actividade naquele país.

Em Moçâmedes/Namibe, esse "modernismo tropical" para além da Igreja de S. Pedro, deixou algumas outras obras de um modernismo de ponta que muito dignifica aquela cidade, quer por aquilo que representam do ponto de vista histórico-ideológico, quer pela contribuição estilística para a paisagem urbana: Mercado Municipal, o Impala Cine, o Cinema inacabado, os que melhor recordo, se não os únicos.

Não queremos terminar sem integrar aqui um texto relacionado com o projecto desta nova Igreja, então ainda a construir, de acordo com o plano de urbanização da cidade de Moçâmedes, aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues. Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952. (2)

"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores, a localização do baptistério, de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente, o que permite a normal celebração do acto do culto.

"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torre um relógio e um sino de grandes dimensões.

Apreciemos então  agora a  Igreja Ronchamp, construída na década de 1950 no alto de uma colina vasta e verdejante, a sudeste de Paris, que veio ocupar um lugar desde há muito de peregrinação católica, que fora destituído de seu principal símbolo de comunhão, a sua Igreja, atingida por um bombardeamento alemão, no Outono de 1944. Este edifício já havia substituído outro anterior, destruído por um incêndio em 1913. Ronchamp foi depredada numa tentativa de furto e sofreu um dano irreparável, o único vitral assinado pelo grande mestre foi completamente destruído.

Desenhada para "criar um local de silêncio, oração, paz e alegria interior", segundo Le Corbusier, o pai do modernismo, a Igreja Ronchamp foi classificada como monumento histórico em 1967,  e atrai  anualmente cerca de 80 mil turistas. Foi uma obra polémica, tanto por parte dos arquitectos, quanto pelo público, quer em relação à plasticidade, quer a outros aspectos,  Uns viram em Ronchamp  um indício da crise do racionalismo. Outros viram um regresso ao passado. Na verdade, com Ronchamp, a reprodutividade e a estandardização cedem espaço à experiência singular, a Arquitectura e a História relacionam-se, ergue-se o valor da dimensão simbólica, social e cultural.

De um branco brilhante em seus muros externos, paredes grossas e curvilíneas, a um tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta, vasta e aberta sobre o exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem o jogo dos volumes sobre a luz, qualidades que se evidenciam na Igreja de S. Pedro de Moçàmedes, eis da Igreja Ronchamp algumas fotos:


Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp, projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade




Perspectiva do interior da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), Igreja de Ronchamp.



Pesquisa e texto por MariaNJardim


(1) In Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres




(Texto protegido pelas leis de Copyright)
Plágio é crime, porque viola os direitos de autor Lei nº 9.610/98 – a Lei de Direitos Autorais. A

rt. 1º Esta Lei regula os direitos autorais, entendendo-se sob esta denominação os direitos de autor e os que lhes são conexos.

PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.


Ver aqui Ronchamp:







segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma perspectiva de Moçâmedes, in Navegação de Paz e de Glória, de Dutra Faria

Navegação de paz e de glória.: FARIA, Dutra, 1910-1978












"SUBINDO A SERRA DA CHELA"


..."Cidade de pescadores,em seu aspecto portuguesíssima e paupérrima,com sua população humilde formada por algarvios e outros homens do litoral metropolitano , laboriosos, tenazes,com o gosto, o amor, a paixão do mar,proprietários e tripulantes de trezentos barcos -- Moçâmedes há muito que ficou para trás entalada entre as ondas do Atlântico sulcadas de velas,as rochas da Torre do Tombo esburacadas de cavernas e as areias e pedregais do mais feio, mais árido e mais monótono deserto do mundo,através do qual as cabras de leque galopam,tímidas e airosas,numa fuga desabalada e pânica...

... De novo desembarcados, o nosso automóvel galga já os contrafortes da imensa e agressiva serra da Chela. Os olhos descobrem,na estrada, as primeiras curvas perigosas;alcançam da estrada os primeiros abismos tenebrosos. Lá em baixo,é o deserto que se alonga até aos confins do horizonte"....."Sucedem-se, essas ruínas, por assim dizer de quilómetro em  quilómetro, nuas, desamparadas, esquecidas, sem uma lápida, sem um placa que fale da sua história aos que passam, trágicas como túmulos abandonados. Páginas apagadas -- desfeitas -- de uma epopeia silenciosa e anónima. Marcos de um esforço e de uma vontade animados por uma esperança e por instinto de império. Passos de um lento calvário. Outras tantas experiências de colonização ao longo dos caminhos da serra, na marcha para os planaltos de Angola"...

...A terra parecia fértil, luxuriante, a vegetação dócil, o gentio. Detinha-se numa daquelas clareiras, uma família de colonos. Desengatavam-se os bois da "espana".Amassavam o barro.Punham os tijolos a secar ao sol. Derrubavam árvores. Desbastavam troncos. Levantavam as paredes da casa, cobriam-nas de capim bem seco. E mal o fogo crepitava na pedra da lareira, afugentando para longe as sombras e os pavores da noite africana, o colono voltava-se para a terra, ateando queimadas, arrancando raízes,abrindo canais de irrigação, revolvendo endurecidos torrões a golpes de enxada,deitando,enfim,nos primeiros sulcos do arado,os primeiros grãos de trigo ou de milho. Mas a terra negava-se. Não era,afinal o que parecia. Novamente o colono engatava os bois, novamente partia, comprido chicote em punho, deixando a casa,voltando-se as costas... Mais adiante !...mais adiante !..."

...Entrámos nós também no planalto. Entretanto anoiteceu, e por cima das nossas cabeças parecem mais perto de nós as estrelas. Acabou-se a estrada tormentosa, íngreme,ladeada de precipícios. Rectas agora sucedem-se às rectas. Depois, ao longe, avistam-se luzes como de uma grande cidade. Mas aquelas luzes movimentam-se, deslocam-se, avançam, correm -- vêm ao nosso encontro. São archotes, milhares de archotes empunhados por milhares de pretos. A uma luz vacilante e vermelha destacam-se da treva, por entre a fumarada, tatuagens medonhas, colares e pulseiras de luzidio cobre, facas e azagaias que reluzem, carapinhas emplumadas, bocas abertas, escancaradas num pasmo selagem. " (pgs.: 142-143-144-146) 

(Transcrições parciais da obra: "A NAVEGAÇÃO DE PAZ E DE GLÓRIA" , de DUTRA FARIA (1910-1978) em "ANTOLOGIA DA TERRA PORTUGUESA - O ULTRAMAR PORTUGUÊS - ANGOLA" - 1961  
Agência Geral das Colónias, 1945 - 165 páginas

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As colonias portuguezas no seculo XIX, by Manuel Pinheiro Chagas




Pinheiro Chagas um dos mais importantes e influentes políticos do seu tempo (1842-1895)




Pinheiro Chagas viveu uma época de grande tensão, em que Portugal era confrontado com crescentes problemas levantados pelas potências europeias, especialmente a Grã.Bretanha e a Alemanha, interessadas na "Partilha de África", para além das pressões anti-esclavagistas lideradas pela potência britânica, que punha em crise a velha partilha de esferas de influência naquele continente, e ameaçava a manutenção do controlo luso sobre boa parte dos territórios tradicionalmente reclamados como estando sob soberania ou protectorado português.
Estas e outras questões, levaram à convocação da Conferência de Berlim, que decorreu de Novembro de 1884  a Fevereiro do ano seguinte, num ambiente de grande exaltação patriótica em Portugal, em boa parte preparado. Foi neste contexto que Pinheiro Chagas se associou a um grupo de intelectuais e políticos para fundar, à imagem das sociedades de exploração britânicas, a Sociedade de Geografia de Lisboa. O objectivo era dar corpo a um conjunto de viagens de exploração em África que rivalizassem com as realizadas sob a égide britânica, francesa e belga. Foi assim que nasceu o mapa cor-de-rosa e se realizaram as grandes viagens de exploração entre 1884 e 1885. 

Pinheiro Chagas  manteve sempre uma muito activa presença parlamentar e na imprensa, para além de ser à época considerado como um dos mais conceituados escritores portugueses.  Faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1895. Foi um dos grandes vultos da história portuguesa, tendo sido vítima de uma odiosa agressão, mal esclarecida, da qual nunca se recuperou.

Eis como Pinheiro Chagas encararava o estado de abandono em que se encontravam as colónias africanas às vésperas da Conferência de Berlim (1884-5), onde, excepto a acção de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes, pouco mais se fazia !


"...As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes."

Em 1817, quando acabou a guerra peninsular e se tratou de mandar uma expedição para Montevideo, organizou-se com a flor dos nossos regimentos, pozeram-se à sua frente officiais como Lecou, Saldanha, Azevedo e Claudino.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre t

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu, esse animo generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir.
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836  porque os escravistas não a deixavam executar. D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique, via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Ber- nardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Lu- ctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se trans- formou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos ! E pouco mais se fazia ! 

Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras. 

Trinta e três annos depois é que o auctor destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia !"


As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890)

https://archive.org/details/ascoloniasportu00chaggoog