Demos agora logar ao destronado rei dos animaes.
II
Leao
Este animai, dentro dos territorios de que trato, parece habitar so do Quanza para
o Sul. Pelo menos so excepcionalmente terà sido encontrado ao norte deste rio.
Lembro-me apenas de uma vez me terem dito, que apparecéra na regiao do Dondo ou
Gazengo um grande biche, que foi visto so por pretos, e que segundo elles
informavam era o leao, porque tinha cara de gente.
Na regiào do Gongo, ao sul do Zaire, nào tenho conhecimento da sua existencia ;
e do lado do norte d'este rio afirmaram-me que nao apparece. A regiao pois, que
posso designar para o seu habitat, é a dos districtos de Benguella e Mossamedes,
onde elle apparece frequentemente, e faz o iheatro das suas proezas.
N'esta regiao chamam-lhe os indigenas curica; e nas lingoas do lado do norte do
Quanza chama-se hoje.
Os habitantes de Benguella e Mossamedes e os viajantes, que por ali passam, nem se
lembram de que podem encentrar o leao, a maior parte das vezes. Eu nunca os vi,
nem ouvi rugir, se bem que uma vez passei muito perto d'um.
Um proprietario da Biballa, que veio a Gapangombe, quando eu ali estava, depois de
se ter demorado quasi todo o dia, e a proposito de nào sei que historia, é que se
lembrou de me dizer, que linha encontrado um leào no caminho da Assumpcao, por onde
eu linha passado pouco tempo antes d'elle, de madrugada. O homem tomou o partido que,
segundo é sabido, deve tomar-se em taes circumstancias ; parou, e fitou o animal,
que a principio indignado ou admirado terminou por mostrar receio e retirar-se, em
attitude similhante a dos galos, que se affastam d'uma pendencia, sem terem jogado
a unbada.
N'estas circumstancias seria lemeridade atirar a fera. So um atirador de primeira
ordem, comò Serpa Finto, que contasse com toda a sua presenta de espirito e com a
força e rapidez dos seus tiros, poderia sem perigo prostrar o animal, feriodo-o no
coração ou no cerebro. Se porém o ferisse, deixando-lhe ainda o uso dos sentidos e
a faculdade de saltar, poderia considerar-se perdido, a nào ser que Ihe acudissem,
como fizeram a Livingston os seus companheiros.
E' certo, porém, que o leao a maior parte das vezes é inoffensivo para o homem :
nao quer luclar com elle, cantenta-se com outras prezas mais modestas.
Em Capangombe e Mossamedes, em geral, alimenla-se de zebras : é o pastor d aquellas
manadas; e busca, para fazer a preza, o momento em que os animaes vào beber, saltando
traiçoeiramente sobre uma cria, e ficando a devoral-a, em quanto a récua foge
espavorida.
Quando este alimento Ihe falta, o animai procura outro, é claro ; e algumas vezes
compellido pela fome chega a fazer victimas humanas. N'estas circumstancias é
terrivel, porque, quebrado o encanto que o mantinha temeroso diante do homem,
parece pouco resolvido a alimentar-se de outra especie de carne. No caminho de
Benguella para a Catumbella, e no silio denominado Gavaco, andou muilas semanas um
leào, que de quando em quando saltava sobre um viandante, e levava-o na bocca para
o devorar na espessura do mato ; e ha jà uns poucos de annos, que um leào em
Capangombe devorou em noiles quasi successivas as sentinellas da forlaleza,
naturalmente porque as enconlrava adormecidas.
Em ambos esles casos intervieram os moradores a conjurar a calamidade, e conseguiram
matar os ferozes carniceiros.
Um outro caso demonstra ainda, que o leào deixou uma vez de se sentir embaragado pelo
respeito ao homem.
Dr. Aguiar de Mossamedes ia para Capangombe, montado n'um boi cavallo, e acompanhado
sómenle pelo seu criado particular. Jà ia perle da Fedra Grande, quando viu a saltar
sobre si um leào, que o desmontou com o choque, e flcoa com as prezas e as garras
cravadas sobre as ancas do pobre boi. Dr. Aguiar, logo que póde levantar-se, fugiu a
pé ; e o criado preto puxoo ainda pelas redias ao boi, e ralhou com o leao que queria
comer o boi do senhori, sem se importar com rugir ameagador da fera, deixando-lhe a
proeza, quando està caia prostrada, e lembrando-se so enlao de fugir tambem!
Estes casos, pórém, sao excepcionaes e muito raros. Os leões, ainda mesmo famintos
espeitam o homem, ou so atacam depois de provocados e feridos.
Na fazenda de Seraphim e Victoria, nas margens do rio Curoca, appareceram ha tempo
quatro leoes, que se installaram dentro da plantaçao, e faziam ali quarlel general
das suas correrias sobre as manadas da fazenda. Por fim iam jà de noite ao curral,
saltando por cima do muro que tem dois metros de altura, e trazendo para fora, e pelo
mesmo caminho, a preza nos dentes. proprietario nao se atrevia a ir atacar as feras;
e ainda não tinha tomado uma resoluçao para sahir d'aquella situaçao difficil, quando
em uma das manhas um servirai preto reconhece nos restos do festim da noite alguns
pedaços do seu querido boi, que era toda a sua propriedade. Tanto bastou para que
tomasse uma espingarda, amotinasse os companheiros, e fossem todos ale junto da
plantaçao, onde se sentia rogir das feras, dar uma descarga là para dentro. Os leOes,
perturbados na sua laboriosa digestao, mal se dispunham ao combate; mas afinal
sahiram investindo com os pretos, que apanhando-os a descoberto, fora docanavial,
deixaram estendidos sem vida tres, e correram pelos areaes em perseguiçao do quarto,
que fugiu, demorando-se por là todo o dia. Chegado a este ponto, senhores, haveis de
permittir que vos apresente o nosso Julio Gerard, o intrepido cagador de leoes,
Nestor José da Costa. E tao modesto, comò valente e bom atirador; e por isso ninguem
o conhece no seu paiz, a nào serem as poucas pessoas que o lem visto. Rapaz dos seus
trinta e quatro annos, robusto e leve, de barba e cabellos pretos, olhar meigo e
firme, é proprietario de duas fazendas importantes no concelho de Capangombe, uma na
Biballa e outra no Munhino. N'aquella cultiva tafée canna, e n'esta algodào. Em ambas
tem multo gado.
As edificagOes da fazenda do Munhino ficam n'um cerro coberto de blocos de granito,
que as rodeam em posigoes caprìchosas, tornando os caminhos dìQiceis. Està tudo
dentro d'um muro : para um lado a vivenda do proprietario com os armazens do algodào;
para o outro as habitaçoes dos serviçaes; e no centro, em fórma de cidadeira, um
cercado de paus a prumo, aguçados em cima, que é o curral dos bois. Isto é jà
precauçao centra as feras.
Certa noite sentiu Nestor os bois muito inquietos no curral; e em breve teve a
certeza de que um leao. que tlnha saltado pelo muro da cerca, rodeava o cercado,
procurando introduzir-se no curral. proprietario quiz defender a sua proprledade ;
apezar da escuridào da nolte, tomou a sua meihor espingarda, abriu com precauçao a
porta, e procurou a fera com a vista. Antes, porém, de a ter encontrado, sentiu-lhe
o rugido, vendo-a logo saltar sobre si proprio. Mal teve tempo de descarregar e
arremessar a esplngarda, mettendo-se immediatamente dentro da porla, que estava perto
; quando elle batia com a porta fechando-a, batia n'ella tambem pelo lado de fora o
leao a persegull-o 1 Succederam-se horas angustiosas, porque o animai parecia,
pelo rugir furioso, que tinho sldo ferido pelo tiro. No dia seguinte, depois de longo
silencio, aventuroii o nosso heroe a cabeça por una buraco do telhado, a ver se
conseguia saber onde parava a fera ; e, depois de demorado exame, viu-a estendida
na cozìnha com a cabeça em posigào escondida, nào sabendo por isso se estava morta.
Para se certificar disparou-Ihe de cima para baixo um tiro no corafao. bicbo nào se
mexeu : eslava morto, e estavam todos salvos. Os serviçaes so se atreveram a abrir as
portas e sahir, depois do patrão estar no pateo a examinar os effeitos do seu primeiro
tiro.
D'outra vez um leào ferido com armadiiha, dentro do recinto, leve ainda vida e força
para saltar o muro ; e rugiu do lado de fora loda a noite.
De manha o Nestor queria que os serviçaes fossem trabalhar e os gados fossem pastar,
mas isso era uma temeridade que podia custar algumas vidas ; e por isso resolveu-se
a esperar que a fera morresse, ou se afastasse. Esperou lodo o dia e toda a noite
seguinte, e a fera continuava a rugir escondida entre os penedos da visinhança.
O gado jà estava faminto, e a necessidade dos serviços era urgente. Foi mister tomar
uma resoluçao.
Nestor armou-se, e fez-se acompanhar d'um pequeno moleque, seu criado parlicular que
lhe levava uma outra espingarda, e d'um caosinho que farejaria o leào para o auxiliar
na pesquiza.
Avancou cautelosamente na direçao d'onde partiam os rugidos, e em breve notou que o
cão fugia para traz, dando todos os signaes de terror. A fera devia estar ali perto,
e estava jà calada. De repente ouve o rugido, e ve o leào a saltar para elle.
Descarregou a espingarda, e mal leve tempo de tornar a outra que o pequeno Ihe
entregou, jà engatilhada. A fera tocava com a cabeça no cano da espingarda, quando
elle disparou o segando tiro e estes, e muitos outros casos difficeis de caçadas,
foram-me contados pelo proprio Nestor no teatro das suas façanhas. Já tinha morto
a esse tempo, em 1879, uns sete leoes, e protestava nào tornar a meter-se com
semilhantes feras ; mas eu soube, que o horoe nao campriu a sua promessa, e jà elevou
a muito mais do dobro o numero das victimas, Valha a verdade, que os lem morto sempre
por necessidade, diz elle, afóra estes casos o leao em geral mostra-se cobarde perante
o homem. Os seguintes facies demonstram-no bem.
Um proprietario do Curoca estava n'um domingo de tarde estendido sobre a cama a ler
os jornais que recebera da Europa, e, comò tinha sentido durante a noite passada o
rugir do leao na visinhança levou para dentro do quarto, e prendeu a um pé da cama,
um caosito que possuia, para que o leao Iho nào levasse, encontrando-o distrahido
fora da porta.
A occasiào prestava-se para isso, porque àquella bora todos OS pretos andavam a
trabalhar nas letras, que os patroes costumam ceder-lhe para com esse usofructo Ihe
pagarem os serviços de toda a semana; e nenhum estava em casa, ou porto.
N'esta situaçao foi o proprietario distrahido da leitura por um vulto, que rapidamente
entrava pela porta dentro em direcçao ao pé da cama. Era o leao, que ia buscar o ca-
chorro. O homem sem reflectir no que fazia, levantou-se, e bateu
com jornal no leao gritando-lhe instinctivamente. A fera afastou-se e fugiu, sem ter
feito mal ao caosito. D'outra vez um proprietario de Mossamedes trouxe para casa uns
leõesitos, que conseguiu arranjar, na mente de os criar e mandar para a Europa.
Jà nem se lembrava, que os paes poderiam procurar a sua prole, quando um dia, estando
a jogar com algiins amigos sobre a meza de jantar, que estava provisoriamente
installada n'uma barraca coberta de esteiras, viram cair do tecto, rompendo-as, um
leào que assustado por aquella estranha sitaaçao fugiu pela proxima janella aberta,
sem jà se lembrar dos filhos, que estavam ali perto, e o atrahiram là pelo cheiro,
ou pela voz.
Os donos da casa tambem nào esperaram outra visita: foram pressurosos depositar os
fìlhos em logar, onde fosse facil aos paes encontral-os.
Na Iquemina, fazenda muito conbecida e frequentada pelos navios de guerra inglezes,
que vào ali tornar gado e refrescos, tambem costumam apparecer leOes proprietario
quiz uma noite fazer uma espera a uns poucos que Ihe rondavam a casa. Armou-se com
os seus mais corajosos empregados e servigaes, e foi esperai- os para cima da terra,
que é superior a um segundo andar. Os animaes vieram, mas, sem chegar ao alcance dos
tiros, reliraram-se. No dia seguinte Bastos Pina dizia para os seus
amigos de Benguella, em fórma de telegramma : «Eram ciuco
leoes; esperamol-os no terraço. Gobardes, fugiram»
Os leoes, tendem a desapparecer dentro mesmo da circumscrìpcao, que deixo indicada
para o seu habitat. indigena do planalto do sul, corajoso e aguerrido, ataca-o por
vezes com as suas armas brancas, ou, melhor direi, com as suas armas escuras; porque
as zagaias, facas e outras armas de ferro de uso dos pretos, andam sempre untadas de
maniciga e cobertas d'urna camada de pò humedecido por ella, que Ihe impede a
oxidacao, sem Ihe deixar o brilho, que entra nós deu a armas similhantes, o nome de brancas.
indigena dizia eu, ataca-o por vezes, e consegue matal-o, e fazer-se heroe na tribù
por esse motivo.
Os boeres, ultimamente estabelecidos na Humpata, tambem tem morto muitos leSes.
Empregam para esse fim um meio mais racional e seguro. Quando apparece um leao na
visinhança, sempre que o sitio é descoberto, vao immediatamente matal-o. Partem, um
ou dois, montados em cavallos muito habituados a galopar pelas campinas, apezar dos
buracos do porco espinho que tornam perigosa a carreira para outros cavallos, e
dirigem-se a fera, atacando-a frente a frente. chegados a uma distancia de cincoenta
ou sessenta metros, apontam, e atiram. Raras vezes tiro lhes falba, porque sào muito
bons atiradores.
Em seguida a esle primeiro ataque fogem para respeitosa distancia, e d'ahi observam o
animai. Quando a agonia se Ihe prolonga muito, voltam a mesma dislancia, e dào-lhe
outro tiro.
Este processo nào tem os perigos que alguem ppderà imaginar, porque o leào nao corre
atraz das suas viclimas ; limita-se a saltar sobre ellas, uma, duas ou tres vezes,
transpondo de cada salto o vao maximo de dez metros.
Os perigos portante d'este systema de perseguiçào do leao limitam-se ao do cavallo
partir as pernas mellendo-as nos buracos de que fallei, e tornar assim dificil a
situaçao do cavalleiro, que póde chegar a ser vidima, se a distancia é pequena, e o
leao vae saltando sobre elle.
(...)