Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Colonização de Moçâmedes (Namibe): José Alves Bastos e Amélia Torres Bastos. Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres


 



                                                                Manuel José Alves Bastos

Manuel José Alves Bastos,
natural de Fermil, distrito de Vila Real (Trás-os-Montes), foi um dos componentes da primeira colónia chegadas a Moçâmedes em 1849, ida de Pernambuco, Brasil, em consequência da perseguições aos portugueses que se negavam em abdicar da sua nacionalidade (revolução praeira/mata-marinheiros/independência do Brasil).  Comerciante e proprietário, estabeleceu-se na região, onde se dedicou ao comércio de marfim e do gado, às actividades agrícola com plantações e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos da região, na época. Repousa em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.


 


 Amélia Torres Bastos

Manuel José Alves Bastos casou com  Amélia Torres Bastos,  filha de Manuel Joaquim Torres (09-04-1813) e de Maria José da Costa Torres (Açores, S. Miguel, 1827+24.07.1912),  componente, como seus pais da segunda colónia ida do Brasil (Pernambuco) para Moçâmedes, em 1850. Sabemos que faleceu a 12 de Abril de 1896, e seus restos mortais repousam em mausoléu no Cemitério de Moçâmedes (Namibe). 

Seguem alguns dados genealógicos  do ramo Manuel Joaquim Torres encontrados disponíveis na Net. Estes dados não incluem o nome de Amélia Torres como sua filha, porquanto referem apenas que do casamento de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) com Maria José da Costa Torres (1827-1912)  nasceu António Florentino Torres (Angola, Moçâmedes, 27-08-1932). Ver GeneallNet


António Florentino Torres casou com Maria Júlia Mendonça. * 21.06.1866. Foram  descendentes:

Da união de  Eduardo de Mendonça Torres Maria Salles Lane, iria derivar um dos ramos desta família pioneira da colonização de Moçâmedes  que ali se manteve até às independência de Angola, em 1975.

Portanto, estes últimos faziam parte de uma 3ª geração já nascida em terras de Angola.











 
Interior de uma da casa a casa da familia Torres , na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes.
Deste grupo de sete senhoras, em 1991, três ainda viviam a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano. (vidé foto e descrição, clicando AQUI). Ano provável: 1885. Do livro Moçâmedes de Mendonça Torres


Os Mendonça Torres foram durante muito tempo uma das famílias melhor situadas, social e materialmente, em Moçâmedes. Aliás,
Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil (Pernambuco) para Moçâmedes, em 1850,  
integrados na 2ª colónia de luso-brasileiros que viera juntar-se aos pioneiros da fundação ali chegados em 04 de Agosto de 1849.
Refere quem visitou a casa da Rua dos Pescadores, que esta família mantinha as características dos lares da burguesia portuguesa da época, que chamara a si os modos de ser e de estar da aristocracia, e que se encontravam reflectidos quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes, quer nos serões familiares à volta de uma grande mesa, onde jovens casadoiras coziam  à máquina e bordavam ao bastidor, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc.


Aliás, como referem os escritos da época, os colonos carregaram consigo para terras de África. não apenas usos e costumes, mas também móveis de jacarandá, (1) quadros a óleo, pratas  e e cristais cintilantes, etc. Ali o visitante, o familiar ou o amigo podiam encontrar objectos decorativos de valor, e nem o tradicional piano (instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada destinada a um bom casamento) falta, bem assim como a máquina de costura, etc. 


Já li algures (não recordo onde), o testemunho escrito deixado por um visitante estrangeiro, que se dizia surpreendido, quando em finais do século XIX, no silêncio da noite, ao passar por uma das ruas de Moçâmedes, pôde escutar os sons melodiosos de um piano, e ao mesmo tempo ver, através da janela, uma jovem a tocar e outra a cantar, à luz da lamparina, enquanto outras bordavam, prática muito comum nos serões familiares femininos da época, nas burguesias ocidentais.



Sabe-se que uma das condições impostas ao Estado português pelos colonos de 1848 e 1850, na sua  transferência de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes,  foi o de se fazerem acompanhar pelo recheio das suas habitações e de todos os seus haveres, tendo para os efeito a sua viagem sido acompanhada pelo vaso de guerra português "Douro". Ao chegarem a Moçâmedes foram acolhidos em barracões, mas de imediato aquela que iria ser a cidade de Moçâmedes começou a ser edificada.





Tomando como referência o exame de romances produzidos e divulgados nesse período, a educação das jovens destas classes, quer na sociedade portuguesa e europeia, quer na sociedade brasileira de meados do século XIX,  era realizada nas próprias casas, sob a orientação da mãe  e de preceptoras, e nos grandes centros urbanos, em colégios  particulares, cuja meta tinha como objectivo torná-las atraentes  e dotadas de certas prendas que pudesse atrair o melhor casamento possível, como  saber conversar e comportar-se em público, tocar piano e falar francês, para além da  leitura, escrita, gramática, aritmética, álgebra, geometria, geografia e história.


Como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Moçâmedes (Mossâmedes), uma determinada burguesia que já tinha ao seu dispôr um Colégio  para a educação das suas filhas, onde se ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc., rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa. E como não podia deixar de ser, na educação de uma menina prendada da época, os desenhos e bordado tinham uma importância muito especial... Sabe-se também que uma ou outra familia melhor situada, até se recorria a preceptoras estrangeiras:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)

Ainda sobre a mesma Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »




(1) No Brasil, madeiras preciosas só podiam ser derrubadas se a Coroa portuguesa autorizasse, a fim de impedir fosse contrabandeada por navios espanhóis, franceses e ingleses, madeiras duras, resistentes e de alto valor comercial, a chamada "madeira de lei’" que incluia, o pau-brasil, o jatobá, o peroba, o ipê, o jacarandá, e até o cedro e o mogno, madeiras impermeáveis a fungos e a insectos que podiam sobreviver por centenas de anos na construção de casas, em móveis, instrumentos musicais, etc, etc.



 À esq. a moradia da familia Torres, na Rua dos Pescadores, gaveto com a Rua 4 de Agosto. O Jardim que se vê era ainda na década de 1930 o "Jardim da Colónia"




Esta moradia, um primeiro andar de arquitectura classizante, teria sido um dos primeiros prédios de dois pisos construídos em Moçâmedes (1885?).  Situada  num gaveto que convergia com a Rua dos Pescadores e com a Rua 04 de Agosto, nas traseiras do edifício da Alfândega, ficava próximo do antigo «Jardim da Colónia» (jardim, para o qual esteve projectado um monumento à memória dos fundadores, e que na década de 1940 foi demolido para dar lugar ao Cine Teatro de Moçâmedes).  O rés-do-chão desta moradia, em tempos mais atrás, esteve alugado aos "Armazéns Primavera", que importavam artigos de moda "chic", etc., dos célebres "Armazéns Printemps" de Paris. Na década de 1950/60, o edifício esteve alugado à família Gouveia, passando a funcionar como o "Hotel Central", enquanto os proprietários, se mudaram para uma outra residência que possuiam na fazenda «Nossa Senhora da Conceição», situada na várzea do rio Bero. Mais tarde, no rés-do-chão do mesmo edifício estiveram funcionaram os escritórios da fábrica S.O.S.   Hoje, revertido a favor da Angola independente, o rés do chão do edifício serve de Museu Etnográfico do Namibe, onde repousam os restos do Império.


Ainda sobre a mesma Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »
Como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Moçâmedes (Mossâmedes), uma determinada burguesia que já tinha ao seu dispôr um Colégio  para a educação das suas filhas, onde se ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc., rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa. E como não podia deixar de ser, na educação de uma menina prendada da época, os desenhos e bordado tinham uma importância muito especial... Sabe-se também que uma ou outra família melhor situada, até se recorria a preceptoras estrangeiras:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)


MariaNJardim
(Texto protegido pelas leis de copiright)


Na foto: Almeida, Guiomar Zuzarte de Mendonça, Mª José Torres,...Lima, Teresa Mayo, Laura de Almeida, Elisa de Moura, Maria Julia Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça, Ema Zuzarte de Mendonça, Pinto da França, Henriqueta Torres, Carmen Dias, Branca, Francisco Alexandrino, Manuel Alexandrino, João Torres, Bento Pinto da França (genro do General Honorato José de Mendonça). Foto gentilmente cedida por Vitor Torres. Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio.


Conforme dados colhidos em GeneallNet, em 1895, quando o velho governador de Moçâmedes, Honorato Zuzarte de Mendonça faleceu, e foi substituido por João de Mascarenhas Gaivão, que trouxe António da França consigo como ajudante de campo, este ali casou com M. Clara de Oliveira Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça em 1897.

"As virgens de Moçâmedes cantavam e contavam os meses que separavam a passagem das fragatas inglesas que levavam uma nova guarnição para a ilha de Santa Helena. Havia sempre baile no Palácio. Ficavam sempre no ar vagos amores, esboçados ao de leve e todavia tão vividos e tão sofridos" (APF)

"Era suave, loiro de olhos verdes, parecia um dos oficiais ingleses da ilha de Santa Helena que costumavam passar por Moçâmedes. Logo conheceu a minha Avó (M. Clara), enamoraram-se para toda a vida, Casaram na igreja de Santo Adrião e no Palacio lhes nasceu o primeiro filho, Bento, antes de regressarem a Portugal"(APF).

Foram estes usos e costumes burgueses "aristocratizados" *, que foram passando para as gerações seguintes já nascidas em Mossâmedes, que explicam algumas referências a este respeito na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221 :

«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Moçâmedes.» Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Moçâmedes até à década de 50 foi professora particular de Música, Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra, etc, etc..

Isso talvez explique que Moçâmedes durante bastante tempo primasse pelas suas femininas representantes sempre prontas a aprender as boas regras de etiqueta, a bem receber, vestir, etc. De facto ainda em meados da década de 50, era facilmente detectável nas jovens raparigas da terra a preocupação das mães na sua educação, ainda que não pertencessem a uma classe elevada, ainda que não fossem descendentes dos antigos colonos fundadores vindos do Brasil em 1849 e em 1850, mas sim de gente que também começou a fixar-se em Moçâmedes a partir dos anos 1860, vindas so Algarve, ou mais propriamente, de Olhão. Eram mães que se dedicavam inteiramente ao lar e à família, e que, por mecanismos de imitação social, aprenderam a cultivar algumas dessas qualidades que transmitiam às suas filhas através das gerações. A partir de finais da década de 50, e mais decisivamente a partir dos anos 60, as raparigas já não tinham tempo para o cultivo dessas «prendas domésticas» que faziam as delícias dos seus admiradores... Com a entrada da mulher no mundo do trabalho, uma consequência da industrialização e do progersso, abriam-se outras perspectivas para as suas vidas...

 Região do Caraculo. Sitio do Rancho Montemor. Km 58. Foto gentilmente cedida por Vitor Torres. Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio.
 Maria Eduarda, Beatroz Radich e Maria Antonieta. Foto gentilmente cedida por Vitor Torres. Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio. 



Acrescenta-se ainda que o culto da arte de bem receber da família Torres foi sendo transmitido de geração em geração, e que em 1932, quando da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona à cidade foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, e que decorreu conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 


«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. 
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .

Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossâmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim)
Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.

MariaNJardim


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Rui Duarte de Mendonça Torres foi o último gestor dos negócios e bens desta família, nas áreas da indústria pesca e agropecuária .

As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos.
Tenho notícias que já não existe o referido "chalet" e que até o portão da entrada, obra do século XIX com a data gravada,  foi arrancado dali retirado não se sabe para onde.
A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde possuía uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

Pesquisa e texto de MariaNJardim

 
Fotogravuras extraidas do livro «O distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Julio de Mandonça Torres. 
Alguma bibliografia consultada:

-«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»
-“O Mossamedense”,  nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaq
uim Augusto Monteiro
- Boletim
da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
-GeneallNet


Clicar AQUI para ver: Lista dos 1ºs. colonos chegados a Moçâmedes, provenientes de Pernambuco (Brasil).
HORTAS DE MOÇÂMEDES 




MariaNJardim
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

João Chagas . Memorial Republicano XL



João Chagas

O renitente degredo de João Chagas

Era um homem alto, desempenado e bem parecido. Encontrava-se prisioneiro na cadeia da Relação do Porto quando a cidade foi percorrida pelos republicanos amotinados que fizeram a revolta de 31 de Janeiro de 1891. Daí tentou seguir todos os lances da emocionante jornada, como se estivesse num “camarote de ópera”. Ninguém teria desejado mais do que ele o triunfo daquele pronunciamento. Chamava-se João Pinheiro Chagas mas todos os democratas o conheciam, mais abreviadamente, por João Chagas.
A sua família havia emigrado para o Brasil no decurso dos confrontos entre miguelistas e liberais. Cedo se deu conta que João Chagas demonstrava extraordinárias qualidades para a missão do jornalismo. Possuía um estilo literário másculo, vibrátil, servido por uma lógica irrefutável e por imagens que surpreendiam pela sua adequação à realidade. Também fazia gala de uma pouco vulgar e aprofundada cultura. Homem requintado, talvez até um pouco dado ao hedonismo, ganhou a estima de figuras cimeiras da aristocracia do tempo, como Bernardo Pinheiro de Melo, o futuro Conde de Arnoso, que lhe franqueou a intimidade do lar e lhe devotou uma sincera amizade. Veio o Ultimato. João Chagas indignou-se, substituindo a pretérita posição de jornalista neutral - ou pelo menos não enfeudado - por uma outra mais interveniente. E como, a partir de então, o campo da sua peleja se identificasse claramente com o republicanismo, João Chagas afastou-se de muitas das suas sociabilidades habituais. Assim, deixou de frequentar o domicílio de Bernardo de Melo, para que aquele amigo não se sentisse constrangido com uma militância política que só poderia ser-lhe adversa. No Porto, fundou o combativo jornal A Republica Portugueza (sic), dando guarida aos clamores de desafronta que partiam de todas as camadas sociais e, sobretudo, realçando as exortações à revolta formuladas por militares pouco graduados. Por isso, sofreu em 26 de Janeiro de 1891 uma condenação judicial que o levou à prisão, tendo sido a partir da sua cela que seguiu o rumor da revolta portuense do dia 31. Quando esta se gorou, as autoridades monárquicas consideraram-no como um dos seus mais perigosos inspiradores. Por isso, João Chagas foi julgado em conselho de guerra e condenado a quatro anos de prisão maior celular ou, em alternativa, a seis anos de degredo.


Levaram-no então para Angola, cumprindo a sua pena entre Luanda e Moçâmedes. 


A audácia, que sempre revelara, acalentou-lhe o sonho da evasão. Falhou a primeira tentativa de fuga, mas concretizou uma segunda, a bordo do iate Adelaide, que o levou até ao Congo Belga, numa tormentosa travessia marítima. Daí partiu para Paris, onde foi encontrar numerosos conspiradores da jornada nortenha, como José Pereira de Sampaio (Bruno) e Alves da Veiga. Lá se inteirou das diligências feitas na pátria por José Falcão e dos rumores que davam como quase preparada uma segunda tentativa militar anti-monárquica. A sua impaciência, aliada ao desejo de tomar parte activa em todas as sedições ou pronunciamentos republicanos, trouxeram-no de volta ao Porto. Cumplicidades várias procuraram proteger-lhe a clandestinidade, mas o cerco policial estreitava-se dia a dia. O velho José Falcão fez-lhe chegar a oferta de o alojar e proteger no seu próprio domicílio conimbricense. Contudo, João Chagas não o quis tornar cúmplice de um acto que seria sempre ilegal e que poderia fazer dele a vítima da própria generosidade. Presumindo que não poderia proteger-se por muito mais tempo, regressou a Paris. Entretanto, no Porto, o seu jornal mudara de cabeçalho: como a lei proibia agora o uso público do vocábulo "república" , a folha A Republica Portugueza passou a aparecer com o nome A [espaço em branco] Portugueza ! Nele se estamparam artigos da sua lavra, sobretudo de conteúdo político. Regressou ao Porto uma vez mais, sob nome falso e com documentos sanitários forjados. Mas agora a sua boa estrela empalideceu, pois acabaria por ser aprisionado, talvez devido a denúncia.
Conduziram-no novamente para Angola. José Falcão já havia falecido. Tudo parecia perdido para a causa republicana. Em Luanda, a fortaleza de S. Miguel recebeu o presidiário nº 170 da Terceira Companhia, homem de letras, de prelos de jornal e de inamovíveis convicções, que aguentou sem pestanejar os motejos e as provocações grosseiras de carcerários torpes, rudes, de brutal atitude. Mais uma vez se constituiu um conselho de guerra para punir exemplarmente a sua evasão. Porém, já em plena sala de audiências, divulgou-se a notícia de que o Poder monárquico havia amnistiado os civis ligados ao movimento portuense. Tiveram de o soltar. Poder-se-ia imaginar que depois de tamanhos incómodos, vexames e perseguições, o antigo presidiário tinha chegado ao ponto de dar tréguas aos que tanto se tinham encarniçado para o neutralizar. Puro engano. Numa carta que por então escreveu, dirigida ao tenente Manuel Maria Coelho, encontramos esta solene declaração, espelho de uma vontade sem vacilações, temperada pela prova de mil adversidades: “ Vou tornar a ver a terra de que nos baniram. (…) Eu parto para novas lutas. Cada um de nós, os que entrámos honradamente neste pleito, tomou o compromisso tácito de o ganhar ou sucumbir nele. Temos na vida um intuito que a preenche. Queremos uma Pátria nova. Havemos de fazê-la”.
Publicado por Amadeu Carvalho Homem

http://republicamiranda.blogspot.pt/2010_04_01_archive.html

 

Curiosidades:

João Chagas, jornalista exilado em Moçâmedes, dizia na sua obra "Diário de um Condenado" que "...Mossâmedes  não sendo uma colónia próspera , não fornecia borracha, marfim,  cera, café, produzia em comparação belas e saudáveis crianças que toleravam o sol ardente, e o interior das casas  da população branca, pintadas a cal, oca, anil, e vermelhão mantêm quadros e móveis tradicionais dos interiores das familias portuguesas."

João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro, colonos fundadores de Mossâmedes ( Moçâmedes, Namibe, Angola) e a abolição da escravatura



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
João Duarte de Almeida

Joao Duarte d'Almeida

João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura.

João Duarte de Almeida faz, sobre o assunto, fez  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa,  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste :

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes:
"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão  sob dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em ujm embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades."
Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefitável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

Continua: " A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueçes que têm caido no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dalí se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.
Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.

Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender algune contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.

Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: poe exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela Velha: entre esta e o rio Longa. entre esta e a cidade de Loanda: entre esta e o Dande: entre este e o Ambriz: entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."

Bernardino fas depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Dis que, neste capítulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e unhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.

Considera o estado das possessões; os usos e costumes dos europeus que as habitam; o estado da civilização dos indígenas que as habitam; se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria frabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.
Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, sntes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr ps sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que duzemos". 

Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, poe exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."

Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detras, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."

Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incitindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque deemanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."

Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:
"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra oa Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez que ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionáriuos, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 

Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizadoe de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me nãp fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".

E mais adiante: " Não me agrada a dintinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."

Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém, repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido; porém, dos que mais desejam o progresso, qumento e civilização das nossas possessões."
Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois uma ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, aboliu o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Estraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.
Honra lhes seja! "


do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro" .  Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Para a História de Moçâmedes/Namibe: Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, opinião sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”( doct. de 15 d’Abril de 1857)



Para a História de Moçâmedes/Namibe: Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, opinião sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”( doct. de 15 d’Abril de 1857). 
Imagem: o busto de Bernardino, chefe da 1ª colonia que em 1849 fun
dou Moçâmedes, e que presentemente se encontra no Museu Etnográfico do Namibe.

Documento Nº 4

IIlmo e Exmo Snr. – Em cumprimento do officio que V. Excia se dignou mandar dirigir-me com data de 15 de Dezembro do anno passado, da repartição civil, sob o nº 1842, e recebi em dez do corrente, pela polaca “Esperança”, no qual me determina que exponha a minha oppinião sobre os meios possíveis de acabar por uma vez com o tráfico da escravatura nesta província, direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões e intelligencia me ditam, e bem assim a experiencia de quasi oito annos dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:

1º - Acabar o tráfego da escravatura para fora das possessões portuguezas;
2ª - Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.

Em quanto ao primeiro ponto, a rasão, a humanidade, e a própria conveniencia reclamam que o Governo Portugues, com as mais urgentes medidas ponha por uma vez termo a tam vil, dehumano, e degradante tráfico, que em vez de ser util as mesmas possessões, é a causa de seu completo, por não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delictos cometidos em um desembarque – delictos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal se poderia acreditar que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que soffrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal trafico, alem de ferrete e de ignominia e da barbaridade que acarreta aos que nela tomam parte, é de nenhuma utilidade, senão de prejuízo para os que residem nas possessões: porquanto raras vezes recebem o producto dos infelises que uma louca ambição os fez sacrificar, e se algum recebem, é tam ceriado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades.

Exemplificarei, a meu modo de ver, a cauza desta illusão.

Costumados os habitadores europeus d’ Africa a enviarem para o Brazil um certo numero de escravos, com cuja remessa obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa, não attenderam a que taes circumstancias haviam mudado; e animados pró correspondências, e ate por agentes daquelles que alli, depois de tal trafico se fazer por contrabando, eram os únicos que tiravam vatage, e que algumas vezes os engordavam, remettendo exactamente o producto dos escravos embarcados, continuaram porque já tinha tal habito; e os que vieram vindo sem reflexão e “mere pedudam”, seguiram a mesma marcha.

As transições são sempre custozas, e é por isso que o que obtinha escravos, em vez de os educar para os trabalhos agriculas _ do que tiraria mais sólidas e seguras vantagens _ como isso mandava diligencia, trabalho assíduo e estudado, paciência e alguma demora em colher resultados, preferia embarca-los, o que apenas lhe custava escrever algumas cartas. A repetição dos atos constituiu o habito, e para o destruie é mister empregar meios.
Serão estes, porem, difíceis na actualidade?

Parece-me que não. A oppinião do mundo reprova o enfame e criminos traficio: a situação e ordem das coizas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o sygmatisa: e so tem a dseu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados: mas quem são estes? Que o digam os que tem cahido no laço de fazer taes consignações. Se não fora a verdade de que o numero dos loucos é infinito: se não fora a possibilidade dos negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos _ como farão em ultimo recurso, pois que não se limita a venda de escravos so aquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da America do norte, e por alto preço - eu diria que o trafico dos escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza; porem, em rasão destas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois, que parecem por si so eficazes.

Primeiro:- Tornar responsáveis as auctoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras de suas jurisdições: mas que esta responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique so escrita no papel, este so meio acabaria de uma so vez com tal trafico. Quem vive na Africa sabe o que é um embarque, e tem ouvido o retinido das correntes, o eco do pisar dos pés opprimidos com o peso dos ferros, o bulicio das lanchas e botes, o rápido andar de centos de hõmes, que, aceleradamente se dirigem as praias. Bem se ve que difícil é que a auctoridade deixe de o saber, e, portanto, que tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniencia ou por tolerância. Admito, porem, ainda que possível, sem que auctoridade o soubesse, e em tal cazo lembro.

Segundo:- Que o Governo da província seja auctorisado a despender, alguns contos de reis com espiões, por anno, os quaes seja obrigados a dar parte as auctoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretenda fazer: penso que assim nenhuma terá logar.

Estes espiões devem ser locaes marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros entre esta e Benguela, entre Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Bengueloe Velha, entre esta e rio Longa, entre este e a cidade de Loanda, entre esta e Dande: entre este e Ambriz, entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despezas que a que se faz com cruzeiros, que poir maiores que sejam e mais vigilantes, faram diminuir, mas não acabar o trafico para o exterior, se consegue o fim desejado.

Dificil é, e de gravíssimo peso, desenvolver o segundo ponto de vista, isto é, acabar na actualidade com a escravatura dentro das possessões portuguesas d’Africa. Há uma lucta do coração com a cabeça: porque, se aquelle diz que é bárbaro e inhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade; aquella grita, que é isso verdade, mas aponta-nos as consequências que dahi podem resultar na questão sujeita.

Sera actualmente conveniente que de todo e por uma vez acabe a escravatura dentro das possessões portuguezas d’Africa?
Consideremos:

1º . O estado das possessões.
2º . Uzos e costumes dos europeus que as habitam.
3º .Estado de civilização dos indígenas, seus uzos e costumes.
4º .Se para se conservarem as possessões, será bastante o commercio, ou se sam necessárias tãobem a cultura e a industria fabris.
5º . Se a cultura e industria fabris podem ser por braços importados da Europa, ou somente pelos indígenas.

Ninguem contestara que é mau o estado actual das possessões portuguezas d’Africa; porquanto o período de transição, que infalivelmente tem de atravessar, esta ainda morosamente passando, fez com que deve absolutamente acabar o trafico da escravatura para o exterior, que era o seu ramo considerável de commercio, e requer que esta lacuna seja preenchida por outros meios de industria que é mister crear.

É bem sabido que Portugal exerce poder governativo somente nos pontos do litoral, e que no interior se conservam os uzos, costumes e governo do gentio, embora haja chefes que são para alli despachados, pois que estes se acommodam aos mesmos uzos e costumes por necessidade , e para fazerem o seu interesse, que é ordinariamente o que lá os leva. Chamando eu a Africa portugueza “um deserto de moralidade”, teria com duas palavras explicado quaes os uzos e costumes dos europeus que a habitam, salvas as devidas e honrosas excepções: porem, inda assim, dividirei estes em três classes: a de funcionários públicos; a de homes que vem procurar fortuna: a de degredados. A primeira classe que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem a Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitui hoje limitada excepção a esta regra.

Há algumas que procuram fazer aquelles interesses por meios lícitos: para o maior numero todos o sam uma vez que consigam o seu fim.
Não parece que esta seja uma das cauzas porque as possessões não hão de melhorar, antes ir cada vez em maior decadência. As auctoridades para as possessões, são aquellas sobre que devia haver mais apurada e escrupulosa escolha: porque se uma exorbita no reino, facile pronto pode ser o remédio; mas nas possessões, quando ele chega, que de males já se não tem causado?

A segunda classe é dos que vem procurar fortuna, e como esta se tinha por meio de desembarque de escravos, claro esta ser a ideia dominante ate há poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar que o numero dos que não sam dela afectados não é o maior que se dirigem a cultura presisam luctar com quase isuervs dificuldades. Ter consciência mais que ordinária e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. Ainda assim , tal qual o impulso se lhe tem dado, mormente em Mossamedes, em cujo porto já entram por annos dezenas de navios que vem procura produtos agicolas.
A terceira classe é a dos degredados, os quaes quasi todos sam soldados, e não é a menos útil pois que não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saúde e de hábitos occiosos.

Costumes, religião e governo do gentio sam quasi geralmente os mesmos da primitiva. So com a diferença de que nada de bom lhes tem ensinado os europeus, antes communicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado, poderia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar innativo nas terras do litoral, mas correr os sertões ver o que por la vae, e se faz, para bem avaliar o que dizemos.
Não é possível referir aqui todos os costumes do gentio; seria isso matéria para uma obra volumosa: referirei somente alguns que tem relação com a matéria em questão.

Sabido é que a maior parte do gentio d’Africa tem o seu governo, sob uma ou outra denominação, sob uma ou outra forma de sucessão. O governo patriarchal indistinctamente a todos os que governam seus filhos, ou seus escravos. Dispoem, ouvindo a oppinião dos seus conselheiros (esta é a forma de governo mais seguida). Da vida e da propriedade de todos tomando por pretexto este ou aquelle crime: por exemplo, o de olhar para o “Tembo”, a primeira amiga do chefe porque passou por tal lugar, porque é feiticeiro. Este ultimo crime, que quase sempre recae sobre quem possue gados, é frequentemente imputado, e a pena é ser morto o feiticeiro, escravisada a gente que com ele residia, e tomados os gados e tudo o mais que possuíam. Muitas vezes a pena de morte do feiticeiro é comutada em degredo, para fora do estado, sendo vendidos com escravos. Ora, sendo muitos os governos, porque quasi todos são menores em terreno e população do que uma das nossas províncias do reino, e sendo este o costume de todos já se vê o numero de escravos feitos por anno, por tal motivo.

É honra e signal de nobreza entre o gentio, ser bêbado e ladrão, e aquelle que mais guerras faz e rouba maior quantidades de gado e pessoas, é o maior e mais fidalgo; sendo esta a rasão de tantas e tam repetidas correrias, a que chamam guerras. Todas as pessoas nelas agrarradas sam escravisadas velhas, moças e creanças e os seus parentes as vam resgatar, ou sam vendidas ou mortas, e daqui se pode concluir o numero de escravos que tal costume deve produzir. Em quasi todos os governos pode o chefe mandar vender um dos seus filhos., ou escravos, quando carecer de pólvora, d’armas, de vestidos, etc.., e assim daqui vem ainda o augmento do numero de escravos.

Os pretos, segundo os seus uzos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: sam as pretas: A profissão deles é caçar, pescar e carregar. Se um preto, por exemplo, tiver sua mulher doente, e for buscar uma cabaça d’agua, ou um feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa, do que se matasse outro preto.

Quem percorre os sertões, e com os olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos; porque as pretas sam os que cultivam, fazem a comida, preparam as bebidas, e ate o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: tem estes, quasi todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correa na cintura, com um palmo de couro que lhes cubra as partes pudendas, e outro palmo que cubra por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.

Dois ou prés porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz, ou – a parte que tem de ferro os seus ferreiros . Ei-lo armado e pronto a seguir por toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia. À vista, pois, dos costumes que venho a referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessásrio, ou que o gentio obedeça e cumpra a lei que se lhe impuzer, e perca seus maus e inveterados uzos, por meio da força, ou que se empregue meios de o civilizar, incutindo-les os princípios da sã moral. O primeiro meio quase impossível porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor; o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espalhar entre eles, bons missionários. Com estes meios, em poucos annos, muito se conseguiria.

Ora, isto é quanto ao gentio: para acabar a escravidão entre os súbditos portugueses há que considerar.

1º Que o commercio so por si não é sufficiente para manter as possessões.
2º Que sam necessárias a agricultura e a industrial fabril, e que estas não podem existir sem braços.
3º Que estes, attentos aos uzos e costumes do gentio, não se obtem senão obrigando-os.
4.º Que segundo situação actual, e o poder que sobre os pretos exerce o governo, o único meio de os obrigar é comprando-os, porque entendem que logo sam vendidos, tem o dever de prestarem a quem os compra os serviços.
5. Que para acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões é de justiça que os que tem escravos, recebem o valor dos mesmos, para o que são necessários muitos centos de contos de reis.

Acresce ainda mais, e esta consideração é de grande peso, que se comprarem os pretos que os costumes gentílicos fazem escravos em todos os annos, serão muitos deles mortos, porque os captivos nas guerras, e os condenados por feitiçarias, e por outros taes crimes, a não serem vendidos, serão assassinados, e por conseguinte, a medida de acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões, ditada pela civilização, pela justiça, e pela humanidade, é, nas actuaes circunstancias, não so prejudicial, mas talvez aniquile as mesmas possessões, leve em seus resultados, a que cometam crimes ainda mais inhumanos.

Quando as circunstancias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas forão as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal Soba estava pronto para o serviço do Rei, porem que este os queria prejudicar acabando com os escravos, que era o seu primeiro redito. Combato, como em taes lances me foi possível, semelhante reclamação e talvez que ouvissem a este respeito o que ainda não tinham ouvido. Combati esse bárbaro costume, e taes razões lhes dei, que não lhes ficando esperança de poderem continuar tam degradante uso, ainda assim obtive o que pretendi e foi d’ahi que tirei por conclusão que, com bons missionários fácil seria fazel-os mudar de seus maus costumes, sendo a primeira necessidade, incutir-lhes o amor ao trabalho; porquanto, a occiosidade que professam, lhes faz abraçar todos os uzos que a favorecem.

Os poucos pretos com que trabalho, podem hoje ser livres, porque continuarão a ser úteis e felizes pela sua agencia, que para eles já é habito. Eduquei-os antes com boas maneiras, do que com castigos bárbaros: não tem tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. SE em vez de trinta tivesse tido três mil, daria hoje a Africa outroa tantos bons trabalhadores. Será porem possível fazer-se nas possessões d’Africa, com braços importados da Europa, a cultura?

É facílimo resolver esta questão negativamente; porquanto, sem lembrar a difficuldade de os obter, e as enormes despezas para isso necessárias, direi não ser possível cultivar com os europeus, porque ficam logo iimpossibiltados do trabalho braçal, em rasao das moléstias de que são atacados, e, porque tãobem não se pode obter o numero suficiente para a cultura e industria fabril; e assim o ultimo recurso é aproveitar os indígenas, e o medo é compral-os, pois assim se sujeitam sem o menor obstáculo e sem repugnância, e se depois fogem, é isso devida a maior parte das vezes, ao mau modo de os tratar. So no fim de tres ou quatro annos é que um preto gentio fica bom trabalhador, e neste período é necessário muita paciência em o ensinar, e em so o ir exigindo diariamente mais um pouco de serviço.

Não me agrada a distinção de escravos e livres, nem admito na minha fazenda. Todos sam agricultores com iguaes direitos e obrigações. So é distincto o que merece, pelo seu comportamento. Esta nomenclatura é causa de rivalidade, portanto, origem de desordens e fugas.

Entendo que bem podia legislar-se dobre os serviços que deviam prestar os pretos que a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões segundo o estado actual, sem se uzarem os reprovados nomes de escravos e liberto. Se o infeliz háde injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços que tam úteis se podem tornar em mãos de homes e intelligentes, sendo taes serviços por enquanto essencialmente necessarios nas mesmas possessões. Era isso mais racional e justo uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser tratados os comprados – regulamentos, cuja exata execução fosse encarregada as auctoridade3s administrativas e policiaies, com a mais severa responsabilidade; porem, repito ainda que esta responsabilidade não devia ficar somente escripta no papel , como acontece a quase todas as nossas leis.

Expendi francamente a minha opinião, e fui gastante extenso; mas ainda maior extensão podia a matéria, que julgo de toda a transcendencia.

Sou na província o menos entendido; porem dos que mais desejam o progresso, augmento e civilização das nossas possessões.
Deos Guarde a V. Exa. Por mui dilatados annos. Mossamedes, 15 d’Abril de 1857. IIImo e Exmo. Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador Geral da Provincia. – Bernardino F.F.A. e Castro.

sábado, 22 de setembro de 2012

Relembrar a canhoneira Limpopo - David e Golias.



"Quando a 6 de Dezembro 1904, pelos 8 horas da manhã, os japoneses chegam por fim ao cimo da “colina 203” para iniciarem logo no dia seguinte o bombardeamento e destruição final dos restos da esquadra russa do Pacífico, a primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico entrava na Baía dos Tigres em Angola onde se encontrava a canhoneira portuguesa Limpopo sob o comando do tenente Silva Pereira, que, de imediato se dirigiu ao couraçado Kniaz Suvarov para interpelar o almirante-comandante da esquadra Rozhestvenski aí embarcado, dizendo-lhe que estava em águas portuguesas.

O almirante russo negou tal facto, pois estaria é certo na Baía dos Tigres, mas a mais de três milhas da costa. O oficial português respondeu que as águas nacionais começavam na linha que unia os extremos da baía. Após uma longa pausa, o almirante russo pediu 24 horas de permanência de acordo com as cláusulas do Direito Internacional, o que lhe foi concedido pelo tenente Silva Pereira, como escreveu no seu relatório.

Para o historiador alemão Frank Thiess, a pequena canhoneira Limpopo terá levantado ferro e navegado para Moçamedes onde estaria o cruzador britânico Barroso. Para o comandante J. Bouteille de um navio mercante não russo que integrava a esquadra russa, a Limpopo terá ameaçado disparar contra a poderosa 1ª Divisão russa se permanecesse em águas portuguesas mais de 24 horas. "

Que grande coragem e sentido do dever. Um canhoneira de um lado e uma poderosa esquadra.

Ver mais aqui:
1 http://lagosmilitar.blogspot.pt/2010_03_01_archive.html
2 http://naval.blogs.sapo.pt/31355.html


Imagem retirada do blog NRP Alvares Cabral F336

sábado, 18 de agosto de 2012

Usos e costumes olhanenses transferidos para Mossâmedes (Moçâmedes ), no século XIX, inícios do século XX, ao nível da indumentária feminina: o uso do biôco





MULHERES EMBIOCADAS NAS RUAS DE MOÇÂMEDES...


Interessante foto, tirada entre finais do século XIX, inícios do século XX, numa rua de Moçâmedes  (actual cidade do Namibe). Trata-se de três senhoras vestidas com o tradicional "bioco", como era na época tradição em Olhão (Algarve), uma peça de vestuário em forma de capa destinada a cobrir inteiramente a mulher que a usava, sendo a cabeça ocultada pelo próprio cabeção,  ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas, dizia-se, pareciam "ursos com cabeça de elefante".

Como sabemos,  a Moçâmedes a partir de 1861 começaram a chegar,  em caíques, palhabotes e barcos à vela,  navegando por sua conta e risco, grupos de famílias algarvias que ali se fixaram, ou em praias próximas (Porto Alexandre, Baía dos Tigres, Baía das Pipas, Catára, etc), entregando se à faina da pesca. Olhão teria sido, naturalmente, a terra da proveniência destas três senhoras (anónimas), que levaram para os confins de África,  este costume algarvio que sugere e influencia arabe. Alias, no Algarve ninguém tem dúvidas, o "biôco" ficou a dever a origem à influência dos mouros e ao legado de cinco séculos de ocupação árabe, presente incluso na arquitectura, para além de usos e costumes como este. Autores defendem  a origem árabe do bioco e que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional,  essencialmente o Alto Algarve, o Alentejo e Ilha Terceira, nos Açores. Não eram precisamente iguais, no entanto, apesar da distância geográfica, existem muitas semelhanças.

Recorde se que o Gharb al-Ândalus era a parte mais ocidental do al-Ândalus, que corresponde a parte do actual território português. Em 711, os muçulmanas atravessaram o estreito de Gibraltar e deram início à conquista da Península Ibérica, o al-Ândalus. O ocidente peninsular de influência mediterrânica, o Gharb al-Ândalus — corresponde aproximadamente aos limites da antiga Lusitânia — embora intensamente islamizado, não assumiu o protagonismo de outras regiões do al-Ândalus, resistindo sempre aos processos de centralização do califado de Córdova (Cordoba), ou posteriormente de Sevilha. O Gharb incluía cinco territórios principais correspondentes ao termo de Coimbra, ao estuário do Tejo, ao Alto Alentejo, ao Baixo Alentejo e ao Algarve. Estes territórios estendiam-se ainda para as actuais Estremadura espanhola e Andaluzia Ocidental. Destacavam-se as cidades de Coimbra, Lisboa, Santarém, Silves, Mértola, Faro, Mérida e Badajoz. O Gharb começou a perder terreno aquando da Reconquista, na qual os reis cristãos do norte da península, nomeadamente D. Afonso Henriques, começaram a conquistar o território para Sul. O fim do Gharb foi assinalado com a conquista do Algarve pelo rei D. Afonso III.

 Em 1822, Raul Brandão escreveu a propósito desta indumentária, no seu livro "Os Pescadores":

" Ainda há pouco tempo todas as mulheres de Olhão usavam cloques e biôco ou biuco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis. É um trajo misterioso e atraente . Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."


No Alto Alentejo este tipo de indumentária era conhecida por "côca", e teria começado por ser um traje de noiva na segunda metade do século XIX, tendo a dimensão e colocação do véu a ver com três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente. A "côca" como traje de noiva acabou por rapidamente cair em desuso, e passou a ser moda apenas no seio das mulheres aristocratas ou da alta burguesia quando assistiam a actos religiosos, obras de caridade, ou nas visitas a amigas,  entre finais do século XIX e princípios do XX.  Elas usavam essa espécie de "biôcos" cobertos no cimo por uma renda larga que caía sobre as costas, agregados a uma capa curta . À frente era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns casos a renda era colocada caindo do alto da cabeça sobre as costas, em outros era posta em sentido contrário, isto é, cobrindo o rosto. Completava o trajo uma saia de merino. José Leite de Vasconcellos observa que este seria o "trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte". O investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866 terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de "um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas".


Em 1920, a revista Ilustração Portugueza publicou uma reportagem intitulada “Algarve: Jardim da Europa”, onde o autor, por entre relatos idílicos de uma vida campestre hoje estranha àquela região, fala do biôco como uma realidade a desaparecer, mas ainda presente. ...A camponesa algarvia (…) não conhece o garridismo das cores hilariantes, e na cabeça, sobre o lenço escuro, estendido em ponta, põe a tampa androgina de um chapeu de homem. E em alguns pontos, como em Olhão, usa ainda o seu trajo antigo, a capa e o biôco que lhe imprimem agourentas aparencias de esfinge”, lê-se.




 


 Nos Açores a mulher usava como agasalho, a sua espécie de capa idêntica ao "bioco" algarvio. Era um capote preto com capelo armado, diferindo o seu feitio de ilha para ilha. Leite de Vasconcelos visitou o arquipélago em 1924 e pôde ver como elas na Ilha Terceira e no Faial usavam mantos e capotes, um costume que chegou até meados do século XX nos meios citadino. O manto era uma saia comprida e rodada de cor preta, o capote era uma espécie de capa ampla, mais farta lateralmente que nas costas. Quando utilizavam o manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, e a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso traduzia-se num amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo. Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de cair no esquecimento já não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Na realidade não se sabe quando este tipo de indumentária feminina foi introduzido em Portugal, sabe se que há registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e que ha quem defenda que teria entrado em uso em 1649, no reinado de D. João IV.

Não serão  o "bioco" algarvio,  a "côca" alentejana, e o "capelo" da Ilha Terceira (Açores), algo parecido com a tão criticada "burca" que ainda hoje é imposta às mulheres no mundo muçulmano fundamentalista, destinando-se a sua utilização a impedir o seu contacto com os transeuntes que com ela se cruzassem na rua, ocultando a sua identidade?




 
Talvez. Não esqueçamos  que,  como ficou escrito atrás o Algarve  sofreu a ocupação árabe durante mais de 500 anos, e que o estatuto de subalternidade da mulher em relação ao homem recaiu sobre ela  até quase ao limiar do século XX. Estamos perante um tipo de indumentária feminina que, para além da sua função de abafo, promove um certo apagamento da mulher na esfera pública, e aponta mesmo para a total exclusão do elemento feminino da sociedade, uma vez que, completamente coberta, dificilmente se descobriria a sua identidade. Por outro lado permitir-lhe-ia alguma liberdade,  já que não sendo identificável ela podia movimentar-se livremente ocultada dos olhos castradores da moralidade alheia.

Oficialmente a extinção do uso desta peça de vestuário feminina ocorreu em 1892, por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve.

"Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto."

O bioco foi proibido nas ruas e templos, mas atenção, ela continuou a ser usada em Olhão até aos anos 30 do século XX, quando foram vistos os últimos biocos.  Dois anos volvidos, o mesmo governador assinava as palavras que abrem este artigo e parecia lamentar a regulação. ...E o biôco, indestructivel como as pyramides do Egypto que medem a sua existencia pela dos seculos, foi sacrilegamente banido dos costumes algarvios”, dizia, atirando a responsabilidade da proibição para a “influencia da opinião publica”. 

A proibição, contudo, parecia desnecessária, pois já havia uma regulação que proibia as mulheres de andarem com a cara tapada. E essa lei tinha sido produzida mais de 200 anos antes, como explica Joaquim José Caetano Pereira e Sousa em 1827 na obra “Esboço de hum diccionario juridico, theoretico, e practico remissivo às leis compiladas, e extravagantes”: Pelo Decreto de 11 de Agosto de 1649, e Alvará de 20 do mesmo mes, e anno se prohibirão os rebuços das mulheres; e pelo outro Alvará de 6 de Outubro do mesmo anno se declarou que as mulheres devião andar com a cara descoberta, ou, havendo de trazer biôco, devião trazer o manto cahido até aos peitos”.  A verdade é que o decreto parece ter sido letra morta.
Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca.  Sabemos também que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes, daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de humildade perante Deus. E que  por toda a Europa (França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.
 E claro a foto das mulheres embiocadas nas ruas de Mocãmedes retrata já uma outra época em que o processo de laicizacao da sociedade estava em marcha sob o impeto do liberalismo, quando não da 1 Republica que veio promover a separação de poderes Igreja e Estado. Sem duvida usos e costumes sao dificeis de mudar e por vezes a lei tem que actuar. Nao era apenas na Idade Média europeia que o facto da mulher enfeitar-se, maquilhar-se, exibir-se, era visto como subversão das regras sociais. Em pleno seculo XIX, com o avanco da burguesia europeia o papel da mulher na sociedade mais que nunca se reduzira ao papel tradicional de dona de casa, esposa e mae. A laicização da sociedade iniciada no sec XIX, em Portugal, após a queda do absolutismo e o triunfo do liberalismo e dos ideais iluministas veiculados pela Revolução Francesa, e a entrada na modernidade proporcionada pela Revolução Industrial, vieram imprimir um rude golpe na subjugação secular a que a mulher estivera sujeita.




Pesquisa e texto de MariaNJardim

 (Coberto pelas Leis Copyright (Direitos de Autor)


http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012_08_18...


 

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Bibliografia consultada:


Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999


Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca.  Sabemos também que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes, daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de humildade perante Deus. E que  por toda a Europa (França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.