Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 5 de fevereiro de 2012

COLÉGIO DE RAPARIGAS EM MOSSAMEDES, MOÇÂMEDES, ANGOLA (1880-1894)






Foto do interior da casa da familia Mendonça Torres em Mossamedes, Moçâmedes, Angola, no último quartel do século XIX

Não seria por acaso que um viajante estrangeiro manifestou a sua surpresa  quando em finais do século XIX,  na sua passagem por Mossamedes, ao passar por uma rua da vila, pôde ouvir sons de piano saidos da casa de uma família....

Tocar piano ao serão, cantar ou bordar a bastidor, era uma prática muito comum nos serões familiares femininos da época nas burguesias ocidentais. Aliás, como podemos ver pela transcrição que se segue, havia na altura  em Mossâmedes uma determinada burguesia "aristocratizada" que já tinha ao seu dispôr para a educação das filhas, um Colégio e  sabe-se que  até  recorriam a preceptoras estrangeiras para a  sua educação.

UM COLÉGIO DE RAPARIGAS EM MOSSAMEDES (1880-1894)
De acordo com um texto que se segue, retirado DAQUI , houve em Mossamedes no ano de 1880 e até 1894, um colégio frequentado por jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, dirigido por uma professora de origem irlandesa, de porte distinto e invulgarmente culta, que exercera o magistério em Lisboa, e que ali ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. As jovens mantinham-se no citado Colégio, cujo programa educativo rivalizava com as melhores de Portugal e mesmo da Europa, durante bastantes anos e algumas só saíam para casar... Trata-se de Miss Herriet (Herreeth) Deehan ou Henriqueta Deehan . 

 «...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossamedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »

No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »

«...UM COLÉGIO DE RAPARIGAS EM MOSSAMEDES (1880-1894) Miss Harriet Dehan professora de Angola, de origem irlandesa mas educada na França, tinha maneiras muito distintas. (...)
«Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram ir mãos das suas alunas. »(3) 

Tenha-se em conta que a cidade de Mossamedes foi fundada por emigrantes idos de Parnambuco (Brasil) e alí chegados nos anos de 1849 e 1950, e que desses grupos fazia parte uma «elite» preoaupada com a educação de suas filhas, numa época em que a escola pública se democratizava e se abria à coedução. Não lhes conviria pois, ter as suas meninas misturadas nem com as meninas de outras classes, nem com elementos do sexo oposto. Aliás, o mesmo aconteceu na Metrópole, no século XIX, onde as famílias de uma determinada elite recorriam a preceptoras estrangeiras ou a «Colégios elegantes», onde as meninas podiam adquirir conhecimentos de História, Português, Francês, Inglês, Geografia, Desenho, Música (Piano), Canto, etc.,  «prendas» à época julgadas imprescindíveis na educação de uma mulher, e necessárias a um bom casamento.

Foram estes usos e costumes burgueses e de certo modo aristocratizados *, que foram passados para a geração seguinte já nascida em Mossamedes, e que vemos referidos na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÃO, pg.221:

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: a primeira ponte de cais

Descarregando munições em Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe), antes da 1ª ponte, em ponte móvel

Colonos desembarcando em Mossâmedes(?), ou outra qualquer ponte na região...  Da capa do livro Slaves, Peasants and Capitalists in Southern Angola 1840-1926 (African Studies)
by W. G. Clarence-Smith (December 3, 2007) 
A ponte de caes de Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe) e piquete da Guarda-Fiscal (de Gustave Eiffel).
  Foto do album de Cunha Moraes. Esta ponte começou a ser construida em 1880 e foi inaugurada em 1881. Custou 26 mil reis


Até 1873 não havia em Moçâmedes um modesto arremedo sequer de ponte de cais.Na baía, apesar da extensão e profundidade do fundeadoro, faziam-se os embarques pessoais aos ombros dos pretos, que, desastrosos, compeliam por vezes os passageiros a tomarem um banho forçado. Já em 1861, o autor anónimo do livro "Quarenta e cinco dias em Angola" aconselhava a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura proximamente das construções regulares e com escadarias para embarque e desembarque de pessoas e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega. Só em 1873 é que se construiu em Moçâmedes a primeira ponte de cais, toda de madeira, acente sobre estacaria, que, pela celeridade da construção, em pouco tempo se arruinou e se inutilizou. Assim nos informa o Governador Costa Cabral no seu relatório, datado de 19 de Junho de 1877, propondo a sua urgente substituição e lamentando que não houvesse no local outros meios de desembarque, ou de carga e descarga, que se faziam, em ocasiões de grande calema, com perigosos riscos pessoais e sensiveis prejuizos para as mercadorias. 
 
***

in Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado,  vol x, 1867, uma referência
que mostra bem a penúria da colonização portuguesa:

"...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal. ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripçao particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripçao  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias."

***

Sobre a primitiva ponte, refere em 1954  Manuel Júlio de Mendonça Torres: "Durou esta ponte, cuja localização os textos nos não indicam, até 1881, ano em que foi inaugurada a actual, no dia 04 de Agosto, pelo Governador Nunes da Mata, assunto de que havemos de tratar num volume, possivelmente intitulado "O Distrito de Moçâmedes, na quadra da produção intensiva da cana". 

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1960 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres in
Boletim do Ultramar
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.



Perspectivas da Ponte de cais antes do acrescento em madeira que veio a  acontecer, por força  do recuo das marés.
Movimento na ponte onde se vê o guindaste. Encostados à ponte um batelão e mais próximo uma chata

Desembarque do Bispo de Angola, D. António. Este conjunto de fotos, embora de finais do século XIX e  de inicios do século XX, já apresentam a ponte de embarque/desembarque definitiva


 Perspectiva da ponte, tendo por fundo uma parte da vila e a praia. Foto  de  finais do século XIX. A ponte foi inaugurada em 1881.

Outra perspectiva da ponte, esta já do início do século XX , onde se pode ver a Estação do Caminho de Ferro e estaleiros, o Observatório Metereológico, o Piquete da Guarda Fiscal, o Colégio das Doroteias, o edificio do Cabo Submarino, as Casuarinas etc.

 

Este postal regista o momento da passagem pelo antigo Piquete da Guarda Fiscal de Mossâmedes, em 1 de Outubro de 1905 do Conselheiro do Governador Geral de Angola, já de regresso a Luanda. No dia 28 de Setembro de 1905 fora inaugurada a Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  ,  assinada a acta, e ptocedeu-se ao assentamento da primeira pedra no cunhal leste da estação pelo  Dr. Ramada Curto. No dia 29 de Setembro de 1905 fora oferecido um copo d'água, no Saco, pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores da cidade. Também no mesmo dia partiu o primeiro comboio de Mossâmedes (Moçâmedes) ao Saco, conduzindo o Conselheiro Governador Geral, o Governador do Distrito, e o Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Luanda e convidados.
 
 O Piquete da guarda-fiscal era um tipo de construção interessante, do século XIX, de traça romântica, que  acabou por desaparecer  com  a  inauguração do cais acostável. Era por ali que se fazia o controle da saida e entrada de mercadorias e pessoas que dos navios, ancorados a meio da baía, acediam à ponte, as mercadoria através de quatro batelões, barcos possantes e sem motor,  que eram por sua vez rebocados por um  pequeno barco a motor, as pessoas em barcos a motor alimentados a gasolina, chamados, por analogia, de «Gasolinas». Eram pequenos barcos, agradáveis à vista,  pintados de branco, que podiam possuir uma cabine totalmente fechada, ou meia fechada, com bancos corridos, e que comportavam cerca de 50 pessoas, sentadas e de pé. 

 

A PONTE (POEMA)
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"
Joaquim Paço D´Arcos

(que viveu em Moçâmedes de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914)
 
CURIOSIDADES

Conta-se que nesses tempos em que não existia cais acostável e os navios fundeavam ao largo, houve necessidade de se descarregar carruagens  destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes e como na época era a firma Duarte d'Almeida, agentes da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que possuia um estaleiro na Torre do Tombo na antiga praia do cano, na  hoje zona marginal, teve de construir algumas barcaças bastante grandes para se fazer a descarga. As barcaças eram encaminhadas para a antiga praia da Capitania que ficava junto a esta ponte onde foram montados carris ficando ali a aguardar a altura própria da maré para que fossem removidas as carruagens para terra firme. Nesta operação bastante difícil e instável trabalharam entre muitos alguns carpinteiros da época, Gilberto, Celestino, Manuel e António Valente, André, etc., gente anónima que merece ser aqui lembrada.

 Na ponte através de um guindaste embarca-se gado bovino. Ao largo, navios, palhabotes, batelões e baleeiras. Transcrevo um texto de Roberto Trindade




TOURADA NA PRAIA
(De Roberto Trindade)

Antes de ter sido construído o cais acostável, a estrada marginal e a linha de caminho de ferro que a acompanhava para transporte das mercadorias, os navios que escalavam Moçâmedes fundeavam ao largo e os passageiros eram transportados para terra e para bordo, por pequenos barcos de passageiros a que chamavam os “gasolinas do Bauleth”, por ser o sr. Bauleth o concessionário de tal transporte.
As mercadorias eram descarregadas para bordo de batelões, que eram rebocados para ancorarem ao largo, aguardando que fossem descarregados na ponte cais, onde trabalhava o sr. Rogério Camusseque, que para lá se deslocava na sua velha e pachorrenta bicicleta, tendo a parte de baixo das calças seguras com duas molas de roupa, para que se não sujassem de óleo na corrente da geringonça ! Também lá trabalhava nos guindates o sr. António Martins, irmão de outro Martins da Escola Industrial, e ainda irmão do João e Roberto Latinhas (...)

(Por alturas do Natal, nadávamos para os batelões para nos abastecermos de castanhas) ! ...
Do mesmo modo procediam quando as mercadorias, não só locais, como de outras zonas do interior, eram exportadas a partir de Moçâmedes.

Ali embarcavam pequenas manadas de gado destinadas ao puto. Os mucubais levavam a manada até à ponte, e o processo de embarque era muito original. Passavam uma cinta pela barriga do animal e este era içado pelo guindaste que o ia colocar a bordo do batelão. (Vejam na foto que junto abaixo, onde se vê um boi pendurado).

Por vezes acontecia escorregar um bicho que dava um monumental mergulho e acabava por nadar para terra e ir esbaforido para a Praia das Miragens, causando o pânico entre os banhistas que ali disfrutavam e se bronzeavam.

Certo dia em que aconteceu o mesmo, o desgraçado do boi corria de um lado para o outro, assustado e assustando cada vez mais os banhistas que tentavam correr mais que o boi e ainda assustavam mais o bichinho.

Foi nessa altura que se revelou o grande talento do nosso saudoso amigo António Carvalho Minas (Tonito Minas, como era conhecido) para a arte de bem tourear. O Tonito agarrou numa toalha de banho e vai de enfrentar a fera !...

Imaginem a cena : O boi assustado e o Tonito gritando : Hé, touro !
Fez uma faena e tanto, de tal forma que, em Moçâmedes, durante um tempo foi tema de conversa e foi merecida a ovação que todos lhe prestaram."


Ela ainda existe, velhinha e desmobilizada, testemunho silencioso de um tempo que não volta mais, desmobilizada que fora  após a inauguração, em 24.05.1957, do 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012