POR J. V. BARBOZA DU BOCAGE
Volume 1 (e-Livro Google)
SEGUNDA LISTA 1
SEGUNDA LISTA 1
As aves que temos agora a mencionar são o resultado da proveitosissima exploração do sr. Anchieta, e teem diversas procedencias; foram colligidas umas em S. João do Sul no rio Coroca e Porto Alexandre, regiões do littoral do districto de Mossamedes; outras, ultimamente recebidas, em Capangombe, mais no interior. Pareceu-nos mais conveniente respeitar a distribuição geographica das especies, repartindo-as por duas listas distinctas.
A. Aves de S. João do Sul no rio Coroca e Porto Alexandre
Para darmos uma idéa da
physionomia especial e das condições faunicas d'esta região, não podemos
fazer melhor do que transcrever a parte da carta do nosso illustrado
explorador em que nol-as descreve. Diz assim o sr. Anchieta:
«Desde o dia 19 de março que me occupo da exploração zoologica de S. João do Sul no rio Coroca, situado no plano littoral a cinco horas de viagem do Porto Alexandre. É
este o logar mais ao sul dos colonisados n'este districto, por isso
recommendavel para o conhecimento da geographia zoologica da provincia
d'Angola. Aqui a fauna, posto que interessantissima, é muito desegual.
Em mammiferos é pobre.
Só tenho1 Veja-se o num. II d'este Jornal, pag. 129. noticias de se encontrar a hyena, o adibe, uma antilope, poucos ratos que não pude ainda obter e os morcegos de que faço remessa. Em aves é só abundante em ribeirinhas e palmipedes; das outras ordens poucos representantes se encontram. Em reptis é mediocre: á excepção de alguma serpente, poucas especies espero alcançar além das que remetto. Peixes só tenho visto de duas familias, Siluroides e Cyprinoides. De insectos não se encontra abundancia de generos, como n'outras localidades. De arachnideos e myriopodos poucas especies, de crustaceos só alguns cloportideos.»
Só tenho1 Veja-se o num. II d'este Jornal, pag. 129. noticias de se encontrar a hyena, o adibe, uma antilope, poucos ratos que não pude ainda obter e os morcegos de que faço remessa. Em aves é só abundante em ribeirinhas e palmipedes; das outras ordens poucos representantes se encontram. Em reptis é mediocre: á excepção de alguma serpente, poucas especies espero alcançar além das que remetto. Peixes só tenho visto de duas familias, Siluroides e Cyprinoides. De insectos não se encontra abundancia de generos, como n'outras localidades. De arachnideos e myriopodos poucas especies, de crustaceos só alguns cloportideos.»
«As aves que remetto são principalmente dos generos Ardea, Tantalus, Ibis, Himantopus, Porphyrio, Rallus, Fulica, Pelecanus, Graculus e Anas. Não levam os nomes mocorocas, porque
este gentio, timido e desconfiado mais que qualquer outro, evadia-se a
responder-me a todas as perguntas que lhe fizesse sobre quaesquer
productos do seu territorio; além de que a lingua que falia esta pequena
e limitada tribu, emigrada de pontos mui distantes, é absolutamente
differente de todas as que se faliam no sertão d'este districto, e teem
sons difllcilimos de pronunciar e impossiveis de escrever com as nossas
lettras. Em Mossamedes é que pude indagar de alguns soldados oriundos do
sertão d'Angola os nomes por que eram ali conhecidas estas aves, e
todos unanimemente não só deram os mesmos nomes, mas deixaram de os dar
ás que os não levam escriptos, por as não conhecerem d'aquelle sertão.»
Ao nome scientiflco e procedencia das especies juntamos a indicação do nome vulgar, cor da iris, dos tarsos, carunculas etc., sempre que pelo sr. Anchieta nos são fornecidos estes utilissimos esclarecimentos.
1. Ceblepjris phoeniceus. Lath.
Um exemplar S. Iris parda. Rio Coroca.
2. Corvus scapulatus. Daud.
Um exemplar j. Iris parda. Rio Coroca. Nome vulgar Kilambalembo.
A maior parte dos ornithologistas consideram especies distinctas o C. scapulatus. Daud. representado na est. 53 de Levaillant (Histoire naturelle des oiseaux d'Afrique) e o C. curvirostris. Gould identico ao C. leuconotus. Swains. (Birds ofwest. Africa, t.
I, pl. 5), e dão como caracter distinctivo das duas especies a maior
extensão da cor negra que no primeiro cobre, além da cabeça, a parte
superior do pescoço, em quanto que no segundo desce até á base d'este.
Pretende-se tambem que o C. scapulatus vive mais
exclusivamente na Africa austral, ao passo que o C. curvirostris habita
a Africa Occidental e oriental. Temos presentes exemplares de Cabinda,
S. Paulo de Loanda, Benguella, Mossamedes, Cabo da Boa-Esperança e
Abyssinia, e podemos affirmar que se é n'elles ora mais ora menos
extensa a cor negra da cabeça e collo, não concordam por fórma alguma
taes variantes com as localidades d'onde procedem. Um exemplar do Cabo,
comprado ha annos á casa Verreaux de Paris e etiquetado como C. scapulatiis pelo
distincto ornithologista e nosso amigo Jules Verreaux, é perfeitamente
identico a outro dá Abyssinia que o professor Schimper nos offerecera em
1859 e que o sr. Jules Verreaux considerou como C. curvirostris.
Havia muito tempo já que nos inclinavamos a ver uma
só especie nas duas geralmente admittidas, quando se nos deparou uma
autoridade a nosso favor, em presença da qual entendemos que não
deviamos vacillar em expor a nossa humilde opinião. O sabio director do
Museu de Leyde, na obra magistral que está actualmente publicando com o
titulo de Museum des Pays-Bas, diz a tal respeito o seguinte:
«Cet oiseau a été observe depuis la Nubie et la
Senegambie jusquau Cap de Bonne-Espèrance, les iles de Mayotte et
Madagascar, et ne presente point de différences suivant ces différentes
localités, les différences indiquées par les auteurs étant purement
accidentelles.»
Entendemos por tanto que o C. curvirostris. Gould -. C. leuconotus. Sw. devem figurar na synonimia do C. scapulatus. Daud., designação que tem por si o direito de prioridade.
3. Vidua paradisca. L.
Um exemplar S. Iris parda. Interior de Mossamedes. Nome vulgar Kilacatembo.
4. Centropns supercilliosns. Rúpp.
Um exemplar S. Iris vermelha. Rio Coroca. Nome vulgar Slocuco.
5. Numida mitrata. Pall.
Dois exemplares $ e j. Iris parda, face azul
clara, pelle nua do alto da cabeça vermelha, parte nua do pescoço
azul-arroxado, barhilhões desta ultima cor com o apice vermelho. Rio Coroca. Nome vulgar Manga.
6. Plcniistes Sclaterii. Nov. sp. (Est. VI)
Pileo nigricante fusco: capitis lateribus et
superciliis albis, regione parotica fuscescente; collo albido maculis
longitudinalibus nigris; dorsi jugnlique plumis et tectricibus alae
cinereo-fuscis, maculis lanceolatis et scapis brunneis; dorso imo
uropygioque magis rufescentibus; pectore, abdomine, hypochondriis,
crisso et sub caudalibus sordide albis, maculis magnis longitudinalibus
fusco-nigris, scapis nigris; rcmigibus primariis lotis fuscis, margine
externo pallidiori, pogonio interno unicolori; cauda rufo-brunnea fusco
vermiculata, rectricibus duabus mediis obscurioribus; rostro, regione
peri-ophthalmica, gutture, pedibusque rubris; iride brunnea.
Long. tot. 0m,26,— rostri a rictu 0m,22,— alae 0m, 155, — tarsi 0,ш45, —dig. med. c. u. 0m,040.
Habitat: Mossamedes.
Um só exemplar 5. Nome vulgar Guari.
Dedicamos ao distincto ornUhologista inglez, o sr.
Sclater, digno secretario da Sociedade Zoologica de Londres, esta
especie que reputamos nova.
É nas dimensoes muito inferior aos Pt. nudicollis. Gm. e rubricollis. Rüpp.
Com o primeiro fóra em todo o caso impossivel confundil-o, attenta a
diversidade 'das cores: do segundo approxima-se sem duvida mais no
aspecto geral e cores, porém differe essencialmente na maneira por que
estas se acham distribuidas. O Pt. rubricollis, de que temos
presentes exemplares dos dois sexos, é malhado de branco tanto superior
como inferiormente, e as malhas brancas occupam a parte central de cada
penna, sendo a haste tambem branca; no Pt. Sclaterii o dorso nâo é
malhado de branco mas de pardo-escuro, e estas malhas occupam o centro
das pennas e abrangem as suas hastes. Além d'isso, n'aquella especie as 5
011 6 pennas primarias das azas teem na lamina interna uma extensa
malha branca, em quanto que n'esta sâo todas dum pardo-escuro uniforme.
O Pt. Humboldtii. Peters
', descoberto em Tete pelo erudito director do Museu de Berlim, é a
especie a que mais incontestavelmente se assemelha. Tivemos porém
recentemente occasiâo de ver exemplares d'esta especie nos museus de
Londres e de Berlim, e de
1 Vcja-sc Monatsb. Akad. Wissens. Berlim. 1854, p. 134.
Continua...