Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 21 de dezembro de 2008

A primeira traineira de Moçâmedes: década de 1940



A PRIMEIRA TRAINEIRA DE MOÇÂMEDES

Esta enorme «traineira» que aqui vemos em Portimão encostada à muralha do porto, num local muito próximo da «Casa Inglêsa» (o café que tem à venda o melhor que se fabrica na doçaria regional algarvia), foi a primeira traineira que sulcou os mares de Moçâmedes. Chegada a Portugal, em tempos mais atrás, encomendada pela Cooperativa «Galinho», que se dedicava à pesca da sardinha, era movida a vapôr através de caldeiras. Mais tarde, por volta dos anos 1940, foi adquirida pela família Grade, residente em Moçâmedes, mas teve que passar pelos estaleiros de Portimão onde foi submetida a várias modificações, que incluiram a retirada do cano, uma vez que passou a funcionar a motor a gasoil.
Foi levada até Luanda fazendo porte da carga de um navio, porém de de Luanda para a Baía dos Tigres, onde ficava a pescaria do proprietário, viajou pelos seus próprios meios.O primitivo nome que lhe foi então dado foi o de «Nossa Senhora da Luz». Ao chegar a Moçâmedes foi baptizada com o nome da filha do proprietário: «Maria José». Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabaram por se radicar em Moçâmedes, onde ficaram até à independência de Angola, em 1975. Quando se deu a independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, esta enorme traineira já tinha sido vendida a uma sociedade de que faziam parte Virgilio Gonçalves de Matos, Francisco Velhinho e Miguel de Freitas. Perante o agravar dos conflitos entre os movimentos em luta, e a degradação das condições de vida na cidade de Moçâmedes, os sócios resolveram partir de avião para o Brasil, enquanto a traineira atravessou o mar, rumo às terras de Santa Cruz (Brasil), conduzida pelo seu mestre, de origem madeirense, cujo nome não recordo, que com ele levara a família constituída pela mulher seis ou sete filhos. No Brasil, mais propriamente em Santos, esta traineira acabaria por ser vendida dada a dificuldade na aquisição de licenças de pesca para barcos estrangeiros. Nesse mesmo dia em que a enorme traineira partiu de Moçâmedes, com uma diferença de horas, partiu também na sua traineira rumo ao Brasil, José Vicente Arvela. Nunca se encontraram pelo caminho. A primeira foi dar a Porto Seguro, esta, a S. Salvador da Baía. Imagine-se o que foi a chegada à baía da traineira de José Arvela, sem prévio aviso às autoridades portuárias daquela cidade, com a bandeira portuguesa desfraldada ao vento. A traineira entrou descontraidamente e ficou ali fundeada à espera. Do modo como foram recebidos o seu proprietário jamais esquecerá. A bordo subiu o chefe do Comando do 2º Distrito Naval do Brasil - Salvador da Baía, que logo lhes ofereceu alojamento e alimentação por um ano.



MariaNJardim

Acrescento que a Senhora da Luz atravessou o Atlântico acompanhada de duas traineiras, a Nª Sª de Montserrat e o Herói pertencentes à firma Olímpio Mário Aquino. Levava a bordo nessa odisseia de 18 dias os responsáveis José Vicente Arvela e Albino Rocha d'Aquino (o Bio), enquanto a restante família viajou na ponte aérea de 1975 para Portugal. A chegada a Salvador foi quase despercebida, sendo primeiro assinalada por um barco da marinha americana que de seguida reportou o facto às autoridades brasileiras.



Foto gentilmente cedida por Vicente José Arvela, bem como as respectivas informações.

Estaleiros da Torre do Tombo: finais da década de 40



















Foto do livro «Era uma vez Angola... » de Paulo Salvador.

O fluxo de algarvios para Moçâmedes, iniciado em 1860, dez anos após a chegada de portugueses vindos de Pernambuco (Brasil) por força da revolução praeeira, foi o mais importante no que diz respeito ao desenvolvimento da actividade pesqueira em terras do Namibe. Conhecedores que eram das artes de pescar e daquilo que pensavam vir ali a instalar, levaram consigo linhas, anzóis, para a pesca de vários tamanhos de peixes, de fundo e de superfície, chumbadas, roletes de cortiça, cabos variadíssimos, modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. 

Mas uma simples rede de não mais que cem braças de comprimento, alada de terra a pulso, não permitia pescar para além do necessário para a subsistência do grupo, não chegava para abastecer o interior nem os povos disseminados pelas altas terras da Huila. Também os pequenos barcos de pesca já não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais algarvios para que viessem instalar os seus estaleiros em Moçâmedes, de modo a que ali construíssem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

Sobre os primeiros construtores navais que chegaram a Moçâmedes, refere Carlos Cristão em Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva:

«(...) A convicção e a vontade de vencer convenceram outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se transferiram, do Algarve para Moçâmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de «avô Leandro» e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»


Nota: Hoje tive a notícia de que o meu avô paterno Thomás de Sousa estava ligado a
José de Sousa - conhecido por José de Deus, construtor naval de grande prestígio.

MariaNJardm

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E lá para a década de 60, vieram os imponentes edifícios públicos, e outros de vários andares...






























A partir de meados da década de 50, Moçâmedes começou a perder o ar pitoresco que a caracterizava, e começou, paulatinamente, a ser invadida, aqui e alí, por modernos edifícios públicos de algum porte, bem assim como alguns prédios de vários andares, inclusive no centro histórico, descaracterizando a cidade, e tudo isto, escusadamente, numa terra onde o espaço não falta.

As primeiras duas fotos mostram-nos os bonitos edifícios das Finanças e da Associação Comercial (ao tempo da colonização).


A 3ª foto mostra-nos três desses novos prédios da baixa de Moçâmedes. O da esq., o mais elevado, então propriedade de José Alnes, que veio substituir o antigo Aero-Clube de Moçâmedes, que era à época um prédio bem enquadrado naquele previlegiado local, de esquina para a Praça Leal, ou Praça de Táxis, e que foi pura e simplesmente demolido.

Será que os actuais e futuros dirigentes da ex-Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, irão dar continuidade a esta hecatombe, e que daqui a 10, 20 ou mais anos estaremos em face de um centro histórico completamente descaracterizado, com prédios altos em vez do baixo casario, num autêntico crime de lesa partrimónio histórico e cultural?  Ou será que, pelo contrário, irão ter o sentido histórico que faltou àqueles que ainda no tempo colonial deram início a esta delapidação? Temos notícia que muitos edificios antigos estão a ser recuperados o que denota isso mesmo. Esperemos que nunca desistam para bem do Namibe!

Afinal não foi a «Angra do Negro», Mossãmedes, a primeira urbe edificada por europeus em Angola,  a uma velocidade que pasma, tendo em menos de 10 anos alcançado o estatuto de vila?  E com um outro fito que não o de mero entreposto de escravos? 


A cidade do Namibe tem História, que só é possível contá-la e recontá-la aos vindouros se a  Moçâmedes, a Mossãmedes,  e a «Angra do Negro»  de outros tempos continuar a ser lembrada...


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Quiosque de Moçâmedes (Quiosque do Faustino) em fase de construção e já pronto e enquadrado na Avenida. O Obelisco.

  
O "Quiosque do Faustino"  surge aqui muito bem enquadrado. Estava-se na 1ª metade dos anos 1950
Um troço da AVENIDA, vendo-se ao fundo o Quiosque do Faustino. À dt o Cine Teratro de Moçâmedes. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

A AVENIDA vendo-se a meio o Quiosque do Faustino. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

Faustino, o proprietário do Quiosque de Moçâmedes, e esposa


Este bonito Quiosque que se manteve durante décadas a côr rosa, nasceu com um belo enquadramento, no centro dos jardins da vasta Avenida da República, em finais dos anos 1940, em frente ao edifício da Alfândega, e em local onde  até então ficava muito próximo um obelisco erigido à memória de Marquês Sá da Bandeira, o General que havia mandado promulgar, a 10 de Dezembro de 1936, o decreto de abolição do tráfico de escravos.

 
 
No início da década de 1950 esta Avenida foi objecto de grandes melhoramentos, e transformou-se num local ainda mais atrente, rodeado de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver. Bancos de jardim surgiram em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer. A Avenida era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas passeavam para cá e para lá, em doce confraternização. O Rádio Clube de Moçâmedes, sob a direcção de Carlos Moutinho levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes,  programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes pendurados em árvores que entrevistavam pessoas, lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. Lá para os finais dos anos 1950 os bailes de finais de tarde,  aos domingos, então disputados entre os salões do Atlético e do Casino, passaram a ser mais frequentes, os encontros desportivos multiplicaram-se, surgiram outros divertimentos e estes usos e costumes são ultrapassados.





Batalha de "cocotes" de farinha, entre Bilibaus e Tragateiros, por ocasião do Carnaval de 1955, nos jardins da Avenida da República,  em frente ao "Quiosque do Faustino".


Este Quiosque transformou-se na década de 1950 no ponto de encontro de um grupo de «velhotes» da terra que para ali convergiam, religiosamente, ao fim do dia, onde  permaneciam até à hora do jantar, em agradável  «cavaqueira», enquanto jogavam uma partida de damas ou dominó, e  tomavam  o seu «café», ainda não se chamava "bica" , e talvez também um cognac ou uma qualquer bebida que lhes aquecesse a garganta. Eram eles o veterano Virgilio Gomes (do Armazém), ou Virgilio Russo, grande contador de estórias e de anedotas que inventava com grande imaginação e talento, e que era  «carinhosamente» conhecido por «Virgilio aldrabão», devido ao insólito das mesmas. Frequentava também o local, o industrial e comerciante da Torre do Tmbo e Praia Amélia, João Duarte, que para alí levado religiosamente, todos os dias, à mesma hora, ao entardecer,  pelo  seu «chauffeur» na sua «limousine», bem como o velho Piquito, proprietário da Farmácia da Praça Leal/Praça de Táxis, que acabou os seus dias com uma paragem cardíaca, enquanto sentado no interior da mesma Farmácia. E também o velho Pimentel Teixeira, que trabalhava na farmácia do Sindicato da Pesca, na Torre do Tombo,  um velho maçon, que faleceu de uma queda da bicicleta, o seu transporte habitual, depois de ter  descido a descida da Fortaleza, vindo do local  trabalho,  e de ter sofrido o embate contra uma carrinha que havoa efectuado uma paragem brusca, quando passava em frente à empresa de Gaspar Gonçalo Madeira, na Rua da Praia do Bonfim.  Outro habitué do famoso local era o velho Cabral (conhecido por «caído da Lua»), que andava sempre de fato branco e laçinho, e morava na Rua da Praia do Bonfim, num velho edificio recuado, de 1º andar, ao lado da casa onde morava o Salvador fotógrafo. E ainda o velho Ringue, solteirão de origem holandesa (boer), domiciliado no Hotel Moçâmedes, ex-produtor de tabaco na zona da Bibala, que havia sido vigarizado por uma tabaqueira e acabou por perder a sua propriedade, tendo acabado por viver os últimos anos da sua vida como tradutor de algumas empresas da cidade. Mas havia outros frequentadores do Quiósque do Faustino, nesses primeiros anos da sua construção, finais de 1940, início de 1950,  cujos nomes de momento não me ocorrem. 

Frequentava na época a zona muito próxima deste Quiosque, uma figura típica, natural de Moçâmedes, um homem que possuia uma bem timbrada e forte voz, e que em tempos havia sido um brilhante administrativo, mas que por motivos que desconheço acabaria por perder o tino, e levava os seus dias sentado num banco do jardim, que funcionava como seu local de trabalho, espécie de "escritório" ,  conhecido por "Faria das Baleias". Faria apesar de indigente, nunca perdeu a sua educação e cumprimentava sempre, atenciosamente, toda a gente que que por ali passava. Abandonado pelos seus, como pela cidade corria,  recolhia-se ao fim do dia para pernoitar  no interior de um velho e histórico moinho de vento em ruinas, lá para os lados do Rdio Clube e daquele bairro que ficou baptizado pela "Sanzala dos Brancos", onde tinha por companheiros os seus muitos cães.

 
Mas recuemos no tempo... Como podemos ver pela foto, o edificio da Alfândega de Moçâmedes tinha à sua frente, antes da inauguração do Quiosque de Faustino, um pequeno Quiosque de ferro, e  no local do novo Quiosque um obelisco que havia sido levado para ali, nos anos 1930, proveniente da "Praça Sá da Bandeira", (1) uma praça que existiu ocupando o quarteirão onde foi construída a Escola Portugal, erguida nessa década. Este monumento de grande sobriedade, o OBELISCO, também conhecido por monumento  ao herói da Liberdade, o Visconde de Sá da Bandeira, que mandou abolir o tráfico de escravos em 1836, dois anos após a queda do absolutismo em Portugal e o triunfo do liberalismo, mas definitivamente apenas em 1869, n medida em que o sec xix portugès foi por toda a 1ª metade trespassado por guerras, conflitos, avanços, recuos, etc, que  deixaram o país abatido, e impediram uma nrmal governação. Importa contudo ainda saber que, segundo outras informações a que tivemos acesso, este OBELISCO teria mais tarde passado a ser conhecido como um monumento destinado a homenagear o “Esforço da Colonização”, dedicado à gesta colonizadora. 
 
 
 
 A praça junto do Bairro da Facada, para onde foi transferido o Obelisco a Sá da Bandeira, simbolo da liberdade relacionado com a abolição do tráfico de escravos para o Brsil e Américas, e onde se encontra presentemente
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf


O "Obelisco" foi transferido para o largo em frente à casa comercial de João Pereira Correia (foto imediatamente acima), próximo do «Bairro da Facada», onde ainda hoje se encontra, porém já sem a histórica dedicatória, o que é de lamentar. Por curiosidade acrescentarei que o transporte do referido obelisco foi efectuado em «vagonetas» rolando sobre carris, que foram na altura colocados apenas para o efeito, na estrada,  ao longo da Avenida e até ao novo local, sendo em seguida retirados.
 
 


Outra perspectiva da Avenida nos anos 1930, onde se pode ver o Obelisco e o  primitivo Quiosque de ferro, bastante mais pequeno e estreito que o actual e que era pintado de verde escuro, com o tecto beje, e com idênticas funções,  porém acabou por ser  também retirado, e nunca mais ninguém soube o que foi feito dele.  Era, como se pode ver pelas fotos, um quiosque de estilo romântico idêntico aos que hoje em dia ainda podemos ver numa ou noutra rua de Lisboa.
 
O primitivo quiosque de ferro podia ter sido aproveitado tal como foi o obelisco, e colocado em outro local (foto acima ), uma vez que fazia parte do património urbanístico da cidade,  mas acabou num qualquer amontoado de «ferro velho», numa das lixeiras da cidade.
 
Ainda quanto ao pequeno Quiosque dizia-se por Moçâmedes que  era frequentado pelo  Padre Basílio que tinha fama de malandreco e atiradiço para as raparigas, quando regressadas a Escola do Palácio ousavam entrar na Igreja de Santo Adrião para se benzer com água benta, e que tinha também o hábito de na Igreja  fazer tiro ao alvo matando ratos com uma caçadeira.   R que o Padre aparecia aos finais de tarde com o seu inseparável chapéu preto para se pôr ao corrente das últimas novidades.
 
 
 
Ainda há a referir que era em seu redor daquele primitivo Quiosque de ferro, que no decurso da 2ª Grande Guerra Mundial (1939/1945) se reuniam os homens da terra para ouvir os noticiários difundidos pela BBC de Londres. Eram poucas as famílias que na cidade possuíam aparelhos de rádio, que na altura ainda eram alimentados a bateria.  No anúncio  colocado acima podemos ver dois modelos desses aparelhos de rádios . Como o mundo mudou!
 
 
 

MariaNJardim
Ver também AQUI

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Angola: 500 Anos de Evangelização





















Os 500 anos do início da evangelização de Angola, no antigo Reino do Congo (1491), são o motivo que levam Bento XVI a este país lusófono pela primeira vez. Uma ocasião para recordar que o Cristianismo chega a Angola através dos Portugueses.

A fim de satisfazer os pedidos do Rei do Congo, saiu de Lisboa, em 1490 a primeira missão de cooperação e evangelização, chegando a 29 de Março de 1491 ao Soyo, foz do Rio Zaire. A catequese começou pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíram a primeira igreja. O início da evangelização de Angola, ocorreu no antigo Reino do Congo (1491), pouco tempo após...

Nesta primeira fase destaca-se o rei Dom Afonso I, Mvémba–Nzínga (1506-1543), que foi naquele tempo o maior missionário do seu povo. O Reino do Congo procurou ter relações directas com a Santa Sé em Roma, enviando aí embaixadores.
A pedido de D. Afonso, D. Manuel I, de Portugal, enviou ao Congo dois grupos de missionários. O primeiro partiu de Lisboa em 1504 e o segundo, formado por padres toios, em 1508. Era chefiado por frei João de Santa Maria.
Em 1517, o Papa Leão X nomeou bispo o Príncipe D. Henrique, que foi o primeiro Bispo da África Negra. Em 1534, foi criada a diocese de São Tomé, desmembrada da do Funchal. O Congo passou a depender da diocese de São Tomé.
Mais tarde, pela bula “Super specula militantis Ecclesiae”, de 20 de Maio de 1596, o Papa Clemente VII desmembrava da Diocese de São Tomé a nova Diocese do Congo, com sede em Mbanza Congo, chamada São Salvador do Congo.
O Papa Urbano VIII, pede, por intermédio da Congregação da Propaganda fidei, o envio de missionários para o Congo e em 1640 cria-se prefeitura Apostólica do Congo e Frei Boaventura de Alessano é nomeado Prefeito Apostólico.
Em 1643 prepara-se nova expedição, sob a direcção do mesmo Frei Boaventura de Alessano. O embarque deu-se a 20 de Janeiro de 1645 e o desembarque na foz do rio Zaire foi em Junho do mesmo ano, após uma viagem acidentada.
Angola passou praticamente a constituir um domínio do Brasil, que em África encontrava o mercado de escravos de que precisava para a agricultura e, mais tarde, para o trabalho das minas. O século XVIII foi já de profunda decadência, principalmente com a expulsão dos jesuítas e com a decadência das Ordens Religiosas em quase toda a Europa.
Octávio Carmo (retirado DAQUI)

Renascimento
O problema do clero indígena é dos mais graves e delicados nas actividades missionária. As dificuldades tanto vinham dos evangelizados como dos evangelizadores. Os sacerdotes que se encontravam em Angola eram pouco numerosos e geralmente faltava-lhes organização, zelo missionário e métodos apropriados ao apostolado missionário. O encerramento das casas religiosas em Portugal pelo Governo Liberal em 1834 tirou a esperança da recuperação durante muitos anos. Um bispo do século XIX pedia para Portugal que se acudisse à sua "moribunda diocese e a um outro, de meados deste século atribui-se esta frase de desalento: "Das Missões de Angola e Congo só resta a memória". Na realidade o número de sacerdotes chegou ao índice mais baixo em 1853: 5 angolanos, encontrando-se 4 em Luanda I em Benguela. As antigas paróquias e igrejas tinham desaparecido quase todas, missões propriamente ditas no interior não havia nenhuma.Desde 1885 até 1910 a vida religiosa foi-se desenvolvendo com certa intensidade: o pessoal missionário - padres, irmãos e irmãs - iam aumentando progressivamente e as populações iam-se abrindo à evangelização. Mas algumas guerras de ocupação do território tornaram certos povos impermeáveis por algum tempo, como os cuanhamas.
Era de esperança a acção religiosa em 1910, com a chegada anual de vários sacerdotes, irmãos e irmãs. Em 5 de Outubro daquele ano, a revolução que suprimiu a monarquia e instaurou o regime republicano em Portugal mostrou-se logo de início contra a Igreja Católica e suas instituições: supressão dos Institutos religiosos, dos seminários e do ensino religioso nas escolas, nacionalização dos bens eclesiásticos - seminários, residências episcopais e paroquiais e das comunidades religiosas - imposição do casamento civil, admissão do divórcio, etc. Ao mesmo tempo, na imprensa intensificou-se a propaganda, que já vinha detrás, contra a Igreja e a vida católica.
Em Angola, os reflexos destas leis e da campanha anti-religiosa encontravam numerosos adeptos, mesmo em algumas autoridades. Vários missionários, sobretudo estrangeiros, foram perseguidos, foram expulsas as religiosas que trabalhavam em Luanda e Moçâmedes, e suprimidos os subsídios que o Estado vinha concedendo a várias missões e outras instituições católicas. Mas a supressão dos Institutos Religiosos e dos seminários em Portugal tinha consequências mais desastrosas em Angola e nas outras colónias portuguesas. Quanto às Religiosas sucedia o mesmo: as Franciscanas Hospitaleiras retiraram-se para Portugal e não voltaram mais.
Em 1940 a Santa Sé e o Governo Português estabeleceram dois acordos: A Concordata e o Acordo Missionário, aos quais o Governo Português acrescentou o Estatuto Missionário. Estes documentos condicionaram o funcionamento das missões. Tais documentos consagraram o nacionalismo missionário, como afirmaram alguns responsáveis do tempo. O Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, referindo-se ao Acordo Missionário, declara a 10 de Dezembro de 1940: "Pelo Acordo Missionário continua no Ultramar a nossa vocação de dilatar a Fé e o Império". " A constituição da hierarquia nas nossas mais importantes Colónias é um acto simbólico da sua ocupação, para Cristo e para Portugal". A 25 de Maio do mesmo ano, Salazar acrescenta: "Não pode pôr-se, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade da evangelização; pelo contrário, uma faz parte da outra. O governo condiciona a evangelização à formação patriótica do clero". Monsenhor Alves da Cunha concluiu: "Com o Acordo Missionário a Santa Sé favorece os altos interesses nacionais de Portugal. A Organização Missionária Católica será essencialmente portuguesa".
Entre 1926 e 1940, a expansão da Igreja Católica foi visivelmente impulsionada com a fundação de 29 novas missões. De 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia.
Em 28 anos (1940-1968), o número de Padres angolanos passou de 8 a 71. Durante a 2." Guerra Mundial (1939-1945), não foi possível a entrada de pessoal missionário estrangeiro; mas, finda a Guerra, muitas Congregações acorreram ao apelo e dedicaram-se ao apostolado missionário em Angola.
Em 1954, Ano Santo Mariano, a revista “O Apostolado” deu início à campanha para a fundação de uma Emissora Católica de Angola (E.C.A.). No dia 8 de Dezembro de 1954 (encerramento das comemorações marianas) realizou-se a primeira emissão da Rádio Ecclesia, Emissora Católica de Angola.
Na cidade de Luanda, em 15 anos (1960-1975), as paróquias passaram de 5 a 14. A expansão missionária prosseguia com novas dioceses e novos seminários diocesanos, com frequência muito animadora. A evangelização foi feita com mais profundidade e, em muitos lugares, era uma autêntica pré-evangelização.

Nota da autora: inclui fotos de missões estrangeiras em Angola

em Agência Eclésia

domingo, 2 de novembro de 2008

Moçâmedes, a Cooperativa de Habitação "O LAR DO NAMIBE" e o seu presidente. E foi a partir de então que a cidade começou a encher-se de bonitas vivendas...



 



O Banco de Angola era à época o único no território,  não fazia empréstimos para habitação própria,
foi quando a  Sociedade Cooperativa de Construção «O Lar do Namibe» fez-se, 
e Moçâmedes encheu-se de belas vivendas...
Estas foram as primeiras a surgir, na continuidade da Rua das Hortasm cidade alta,  em seguida vivendas doa mais variados modelos, todas lindas e cheias de flores, espalharam-se por toda a cidade ... Mas já nãao apenas por Moçâmedes, também por Porto Alexandre  e por toda a Angola...

Belas vivenda, cuja aquisição de outro modo não seria possível... A pessoas não eram ricas nem havia créditos habitaçáo própria.




 Ainda hoje é possível contar-se quantas foram pelos inúmeros azulejos que suas fachadas ostentam... Esta o nr 21, a que vem a seguir 2867...





Elementos da direcção da Cooperativa de construção «O Lar do Namibe»,
do livro «Recordar Angola» 2. vol. Mariano Pereira Craveiro, o seu Presidente, à esq, de camisa branca   De entre outros,  da esq. para a dt; Santos (polícia), Simáo, Mariano,  esposa de Craveiro?, José Carlos de Freitas,  Arménio Matos,  ?,?,Jose Alves e Tavares Rodrigues  Uma reunião jantante entre elementos da direcção da Cooperativa de construção «O Lar do Namibe»,
do livro «Recordar Angola» 2. vol. de Paulo Salvador


Este largo merecia ter sido denominado "Largo Mariano Pereira Craveiro", por ser aquele que maior número de casas da Cooperativa reune, com todo o respeito pelos "Heróis de Mucaba". Mas Mariano era um opositor ao regime, que nas eleiçóes de 1958 esteve ao lado do Gereral sem Medo, Humberto Delgado, cntra Américo Tomás, da União Nacional.
  Largo "Heróis de Mucaba" no tempo colonial. Nesta fase da vida da cidade a CMM pugnava imenso pelo aspeto dos seus jardins floridos....
 
 
 
Foi graças à Sociedade Cooperativa « O Lar do Namibe», nascida em 16 de Fevereiro de 1950, data da assinatura da escritura pública, tendo como Presidente Mariano Pereira Craveiro, que os moçâmedenses, gente que na sua maioria vivia do produto do seu trabalho, puderam finalmente aceder ao velho sonho de ter casa própria, através de reduzidas quotizações mensais que iam ali depositando, sendo a aquisição do direito de construção efectuada através de três sistemas, um por sorteio mensal entre os associados, outro por número de ordem de antiguidade (número de ordem também ele efectuado por sorteio na fase de arranque da referida Cooperativa), e outro por leilão. Foi assim que começaram a surgir bonitas vivendas e moradias que ofereceram à cidade um toque de modernidade, enquanto se ia alargando em várias direcções, vencendo com determinação as areias do deserto.

Mas a actividade da «Cooperativa o Lar Namibe» não se limitou apenas à cidade que a viu nascer, ela acabou por se estender, numa primeira fase, à cidades de Porto Alexandre (hoje Tombwa), em seguida a Serpa Pinto (hoje Menongue), acabando por se expandir por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metópole onde já havia associados.


Esta Cooperativa foi um bem para a cidade, uma vez que não existiam à data financiamentos bancários à habitação própria, e muito poucos podiam dispor de capitais próprios para por si próprios as mandar erguer. Faço aqui uma referência especial à cidade de Serpa Pinto que estava a ser praticamente urbanizada pela «Cooperativa o Lar do Namibe» que a transformou de uma pequena  vila do interior numa cidadezinha bonita e moderna, à base de lindas vivendas, em cujas fachadas ainda hoje se podem ver os azulejos com o distintivo desta Cooperativa.

Mariano Pereira Craveiro, o Presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», era um Republicano de raiz maçónica oposicionista ao regime. Ele fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado, o General sem Medo,(*) nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado a seu lado no palco do Cine-Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...?


Aqui fica a minha humilde homenagem à memória do grande «Patrono» que foi MARIANO PEREIRA CRAVEIRO, figura que merece ser erguida das brumas do esquecimento e ser para sempre lembrada, mesmo ainda hoje na cidade do Namibe (ex-Moçâmedes), na Angola independente,. Aliás, Mariano Pereira Craveiro mereceria, desde logo e ainda hoje, ter o seu nome ligado ao grande largo existente na cidade de Moçâmedes que se encontra totalmente rodeado por casas construídas pela «Cooperativa o Lar do Namibe».

* - Video discurso de Salazar sobre Hu
 
 Ver aqui A EPOPEIA  DE MUCABA:
 
 
OUTRAS NOTÍCIAS SOBRE O COOPERATIVISMO NAS COLÓNIAS
4.1. Cooperativismo em Moçâmedes
De Angola, o Boletim Cooperativista nº 104, de junho de 1962, publica o artigo «O LAR DO NAMIBE» -
UMA COOPERATIVA DE CONSTRUÇÃO EM FRANCO PROGRESSO, de autoria de Alberto Alves Carneiro.
São as mais animadoras e sem dúvida entusiásticas as informações que constantemente nos chegam sobre o modelar funcionamento e proveitosa actividade, da sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», com sede em Moçâmedes, Angola.Fundada em 16 de Fevereiro de 1950, data da assinatura da escritura pública, esta teve a outorgá-la elevado número de sócios fundadores, e desde então o seu desenvolvimento tem-se acentuado de maneira notável com realizações dignas de registo, facto que muito tem contribuído para a valorização da propriedade, em sistema colectivo, de várias localidades em África.Se bem que a sua sede seja em Moçâmedes, a acção construtiva da Cooperativa estende-se, com indiscutível projecção, a outras terras de todo aquele continente africano.Pontos de vista interessantíssimos e grandemente favoráveis no que se refere a benefícios e direitos dos respectivos associados tornam em moldes diferentes a organização de «O Lar de Namibe» de muitas outras sociedades congéneres existentes em terras da Metrópole.O número de sócios em 31 de Março último elevava-se a 9714, e as construções efectuadas desde a sua fundação em fins de Dezembro do ano findo eram representadas por 291 habitações, 28 apartamentos, 26 estabelecimentos, 2 sedes destinadas a colectividades, 1 capela e 1 hotel.
Perante os trágicos acontecimentos ocorridos no princípio do ano de 1961, em Angola, em que muitas foram as famílias que se retiraram da Província, foi de notar, por tal motivo, a falta de pretendentes às habitações construídas.A instituição, num alto sentido de objectividade dos princípios que representa e defende, não fez paralisar as construções que tinha a seu cargo e responsabilidade, garantindo dessa forma o trabalho ao pessoal da construção civil, como procurou ainda adquirir, num local muito central da cidade de Moçâmedes, um amplo terreno para início de novas construções onde pudesse aplicar as verbas disponíveis de capital, previstas nos Estatutos.Um imóvel de positivo valor - uma Estalagem, no sentido mais digno e nobre da palavra - aí teria a sua edificação, com o fim de testemunhar, aos vindouros, um exemplo dado pelos moçâmedenses levado a efeito numa hora séria e grave.As diligências para que tal imóvel apareça aos olhos da população de Moçâmedes, ou aos seus futuros visitantes e residentes, prosseguem, activa e inteligentemente, por parte da Direcção da Cooperativa, dado que certas dificuldades surgiram a tão simpático empreendimento, da entidade oficial que superintende e autoriza as respectivas construções citadinas.Como no início se afirma, a acção de «O Lar do Namibe», abrange toda a terra portuguesa, e a prová-lo está o facto de, a seguir a um sem número de consultas, ter construído a sua primeira Delegação, cabendo à cidade do Porto, essa honra.Desde Maio do corrente ano, que uma metódica e insistente propaganda está sendo feita por intermédio de comunicados oficiais, publicados e distribuídos directamente a uma parte da população e firmas comerciais da referida cidade, no sentido de tornar bem conhecidos os elevados objectivos que animam e orientam a Instituição, interessando aquelas entidades, pessoais ou colectivas, nas finalidades sociais que são a razão da existência da Sociedade «O Lar do Namibe». Desta forma, em contacto com a Delegação agora criada, os inscritos residentes no País, ficam com a faculdade de, com mais possibilidades, estabelecerem as suas relações sociais com a sua Cooperativa.O «Boletim Cooperativista», que é distribuído aos sócios do «Lar do Namibe», graças à simpática decisão dos amigos que compõem a Direcção da Cooperativa, ao adquirir certo número de exemplares, não podia deixar de se referir a mais uma iniciativa - a sua Delegação - que vem muito valorizar a acção dos dirigentes cooperativistas que, em terras de África, procuram com inteligência, dedicação e alta visão social, resolver um problema de interesse vital, a construção de uma casa para cada sócio.
Tal como em Moçambique, as cooperativas de habitação terão sido o ramo cooperativo mais pujante na outra ex-colónia portuguesa do sul de África.A menção à abertura de uma delegação na metrópole, no Porto, e a referência feita ao início da guerra independentista na colónia, pode significar que os membros se estariam a precaver para o caso de terem de abandonar o território. Mas apesar de uma outra notícia sobre a cooperativa surgida mais adiante no tempo, nada se conhece sobre o andamento do dito projeto do Porto, e depois de Abril não existe registo de que a delegação da cooperativa tenha funcionado.Ainda ligada à cooperativa «O Lar do Namibe», o Boletim Cooperativista, no seu nº 106, de agosto de 1962 epigrafa um artigo com COOPERATIVA EDITORIAL ANGOLANA.__________________________________________________________________________________________________________________________________Sob o patrocínio da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», com gente sua e para seguir a mesma rota de trabalho, foi constituída em Moçâmedes, por escritura pública de 15 de Janeiro p. p., a «Cooperativa Editorial Angolana».Como determinam os Estatutos, a Cooperativa é absolutamente alheia a qualquer espécie de manifestações de carácter político e religioso e podem ser sócios dela, todos os indivíduos, maiores, de ambos os sexos, e menores quando devidamente autorizados por seus pais ou tutores, e também as entidades comerciais, industriais, agrícolas, culturais, de recreio, ou quaisquer outras, quando devidamente legalizadas.São considerados sócios fundadores, todos aqueles que fizerem a sua inscrição até ao dia 30 de Setembro de 1962.Os sócios estão divididos por várias categorias, a saber:
Efectivos - Pagando o mínimo de 10 acções, no valor de 100$00 cada, mas podendo estas ser liquidadas mensalmente, no mínimo de vinte prestações de 50$00, acrescidas de 10%, para encargos de administração. Nesta qualidade de sócios efectivos, não ficam obrigados a outros encargos futuros, a não ser de 2$50 mensais, para a construção do Edifício Sede da «Cooperativa Editorial Angolana».Sócios Auxiliares - Sem encargos de Acção, pagam a quota mínima, mensal, de 5$00, que pode ser cobrada nas condições que o sócio indicar. Esta qualidade de sócio, não tem direitos de voto nem de discussão nas Assembleias, nem sobre os destinos da Cooperativa. Limitam-se a colaborar financeiramente nos objectivos sociais da Cooperativa.Sócios Beneméritos - São todos aqueles que contribuem com um mínimo de 5.000$00 (cinco mil escudos), pagáveis num máximo de 10 prestações.Sócios Honorários - São todos aqueles que prestem à Cooperativa, auxílios de qualquer natureza, de ordem moral ou financeira.A traços ligeiros foi dito, quais os propósitos da «Cooperativa Editorial Angolana» e a orgânica no que se refere à admissão de associados.O QUE OFERECEMOS?Quem entra para qualquer agregado social visa, regra geral, conhecer as benesses de ordem material que possa escolher. Essas são ínfimas na «Cooperativa Editorial Angolana» O fim dela não é o balcão, nem operações rendosas que ofereçam garantias ao pequeno capital a despender por quem venha a inscrever-se na Cooperativa.No entanto, o Artigo 8º dos Estatutos prevê um desconto de 10% nos livros editados e 5% em jornais ou revistas, para todas as categorias de sócios.Com o tempo, o sócio receberá a compensação, mas dos que vierem até nós é de esperar a compreensão de utilidade social que representamos e não rentabilidade da sua cooperação financeira, porque, como foi dito, à parte o encargo inicial, o sócio efectivo não mais terá quotas a pagar, a não ser o mínimo de 2$50 mensais para fins de construção da Sede. À juventude, à mocidade estudiosa e aos homens para quem os problemas angolanos fazem parte da sua razão espiritual de ser, oferece a «Cooperativa Editorial Angolana» campo vasto para em livros e folhetos poderem apresentar as suas ideias
Um Conselho Técnico formado em condições que o Regulamento Interno mencionará, fará a apreciação e decidirá quais as obras que de preferência deverão ser editadas.É evidente que será dada primazia às produções intelectuais dos associados, mas não obsta que se considere também o trabalho de indivíduos alheios à Cooperativa. Dirigimo-nos, pois, não apenas aos que têm sede e fome de justiça, mas, acima de tudo, àqueles que vêem no Homem um valor a elevar, a dignificar, a respeitar.__________________________________________________________________________________________________________________________________Como se fosse um anúncio, e na primeira página, este artigo mostra-nos uma cooperativa com incursões pelos ramos da cultura e da produção editorial. Porém, ao contrário da Coop de Moçambique, a atividade levou à criação de uma nova cooperativa e não ao alargamento de atividades da cooperativa ‘mãe’, a de habitação.No Boletim Cooperativista nº 118, de agosto de 1963, surge-nos uma derradeira referência à cooperativa de habitação criada em Moçâmedes:_________________________________________________________________________________________________________________________________
SOCIEDADE COOPERATIVA «O LAR DE NAMIBE»Tomámos conhecimento com prazer do Relatório da Gerência de 1962 desta cooperativa de habitação cuja sede é em Moçâmedes.Do mesmo relatório transcrevemos:«Nunca viemos, em qualquer ano da existência da nossa cooperativa, perante a massa associativa, declarar um recuo quanto ao aumento populacional e arrecadação de receitas.Assim acontece também este ano, que com íntima satisfação podemos dizer nesta Assembleia, que mais outro ano rodou sobre a vida da Cooperativa e com ele, mais um salto progressivo, embora Angola tivesse sofrido e continue sofrendo, a guerra e o terrorismo.Nem por isso estes factores impediram o progresso e engrandecimento da nossa organização podemos mesmo afirmar que todos os sectores se apresentam em franco progresso, que a verdade dos números se encarregará de demonstrar, com bastante eloquência».Durante o ano de 1962 foram admitidos 1059 sócios, havendo em 31 de Dezembro, no activo, 6500.Saudamos a Cooperativa «O Lar de Namibe» esperando que continue em franco progresso Cont....
 

domingo, 26 de outubro de 2008

Alguns documentos Documentos -de Conhecimento de Embarque de 1899.



Sobre exportações de Moçâmedes e Porto Alexandre, encontrei estes documentos muito antigos, que resolvi por curiosidade colcar aqui:

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1899.

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Ambaca, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 6 de Abril de 1899. A carga despachada por

para Joaquim Seixas constava de 40 malas com peixe.
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Os 23 conhecimentos de embarque da Empresa Nacional de Navegação consultados, referentes ao período entre 1885 e 1905, incluem 12 documentos de exportação de Angola para S. Tomé – 1 de Porto Alexandre [Tombua], 6 de Moçâmedes [Namibe], 1 de Benguela e 4 de Novo Redondo [Sumbe].

As exportações de Angola eram constituídas pelo seguinte – de Porto Alexandre, peixe seco; de Moçâmedes, bois, peixe (sem indicação de qualquer tratamento) e peixe seco; de Benguela, carne, fubá e tabaco; e de Novo Redondo, aguardente, feijão, fubá e mantimentos não especificados.
As exportações de Porto Alexandre foram efectuadas pela Companhia de Moçâmedes; as de Moçâmedes por Manuel José Alves Bastos, posteriormente (pelo menos a partir de 1897), pela Viúva Bastos & Filhos, e por Torres & Irmão; as de Benguela por Francisco José Freitas; e as de Novo Redondo por Alexandre da Costa, Guimarães & Irmão, e Ferreira Marques e Fonseca.

Em S. Tomé, os destinatários da mercadoria eram C. Palanque (peixe seco de Moçâmedes), Mateus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café (peixe seco de Porto Alexandre e peixe de Moçâmedes), Ricardo Spengler, e Joaquim Seixas (peixe de Moçâmedes).

Até 10 de Julho de 1888, o imposto de selo pago na alfândega de S. Tomé, para produtos vindos de Angola, era de 60 reis, estando documentado um aumento para 80 reis a partir de 16 de Janeiro de1892.

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1900

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Cabo Verde, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 10 de Maio de 1900.

A carga despachada por Torres & Irmão para Matheus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café, constava de 30 malas com 60 arrobas de peixe comum.

In blogdaruanove

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fábrica Africana : Companhia do Sul de Angola (posteriormente Sociedade Oceânica do Sul "SOS")





Trata-se da primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana de Figueiredo (1)e Almeida, Lda. Repare-se, em cima, à esq, nas casas que existiam na altura na Avenida Felner, a Avenida que liga a baixa da cidade à Torre do Tombo.



Outra perspectiva da Fábrica Africana, mais tarde S.O.S. (Sociedade Oceânica do Sul), e da respectiva ponte por onde circulavam vagonetas sobre os carris de ferro que,  em linha recta,  transportavam o peixe para o interior da mesma Fábrica, onde era escalado e cozido em grandes caldeirões. A fase seguinte era a do enlatamento e por fim o engradamento. Mas havia também determinado pescado que ia para os giraus ou eiras secar.  No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como  podemos ver.



Foto: Homens de chapéu e de gravata à porta da entrada da Fábrica Aficana (proprietários e empregados a aguardam a visita de alguma entidade?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu em 1932 a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro. Será que esta foto é dessa altura?


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura...



As caldeiras para cozedura e o peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração



O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras. Por esta altura, anos 1930,  parecem ser todas africanas, mas existem fotos dos anos 1940 e 50 onde as enlatadeiras brancas vindas de Olhão já estavam em maioria.

O encaixotamento


 

 

As duas fotos imediatamente acima, foram retiradas do portal Memória Africa,  Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. Encontram-se nesta foto  Manuel Costa Santos e Manuel Paulo, de Moçâmdes.
 
Através da leitura do mesmo Boletim das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407 , na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, em 1932, se denominava "Fábrica Africana", e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, restando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da "Companhia de Mossâmedes".  

Nesse dia em que o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, segundo aquele Boletim, outra empresa fabril de conservas de peixe vizinha não muito longe desta foi visitada. Trata-se de uma Fábrica mais pequena, pertenç de Manuel Costa Santos. (2)

Segundo aquele Boletim, a Fábrica Africana  instalada em edifício propositadamente construído para esse fim,  encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com a praia, destinava-se de a enlatados de legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” (1) e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), e também a enlatados de carne de vaca ou de porco, de peixe em salmouras e escabeche, e mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, , segundo aquele Boletim. «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes.

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da Fábrica Africana  encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc., bem como símbolo da Fábrica, uma águia.

Há indicações de que na década de 1920 e 1930 se exportava para o mercado italiano e para os Congos Belga e Francês e o Gabão, produtos de alta qualidade que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Transcrevemos a seguir um passagem de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes (3), subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 1920, e 1930 do século passado:
 
... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921 (...)  No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. 


Mais tarde esta Fábrica foi vendida  à"Companhia do Sul de Angola", tendo Josino da Costa como arrendatário, e  como gerente o conserveiro Olímpio Aquino.

Nos anos 1950 esta Fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (S.O.S), e  há uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola " a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuía uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especialmente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essencialmente os   peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as taínhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam um alto rendimento na produção de óleo de peixe.

No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano feminino como aqui podemos ver (enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, e após um período áureo de grande produção como "Sociedade Oceânica do Sul"(SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à empresa "Produtos de Angola Lda" (PRODUANG) cujos sócios eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira, acabando por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique. Esta situação mantinha-se em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira manteve-se na cidade de Moçâmedes.
 

 


Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Talvez não fosse má ideia preservá-la enquanto representativa desta fase e da principal indústria da região de Moçâmedes: a industria pesqueira.

Pesquisa e texto de MNJardim


(1) Figueiredo & Almeida limitada  possuía em Moçâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus: ver AQUI 
 
(2) O texto não refere, mas temos conhecimento que a poente da Fábrica Africana, encontrava-se uma fábrica  ligada à industria piscatória, pertencente a Costa & Pestana. Durante muito tempo podíamos ver ali, junto do início da falésia da Torre do Tombo, o cano do escoamento de fumos
 
 Nota: Sobre Industria de Pesca e seus derivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, consultar: Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão  . No livro encontra-se o nome do 1º colono  que  instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da " Companhia de Moçâmedes", proprietária da referida fazenda, e 1º proprietário da Fábrica Africana (?). 


Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).


Alguma bibliografia consultada:

 Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407
"Apontamento histórico" de Antonio Martins Mendes,  Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa
Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão 
"Portugal em Africa: revista scientifica", Volume 5 1898


Ver também