MUNDOMBES. USOS E COSTUMES (Transcrito do Livro "45 dias em Angola", de autor anónimo 1862)
"....Eu não quiz regressar à Praia sem vêr uma das
cousas talvez mais curiosas das nossas possessões: são diferentes
familias de pretos gentios, que se deixaram ficar nas proximidades de
Mossamedes quando os portuguezes alli se estabeleceram. Estas familias
de pastores, a quem dão o nome de Mundombes, vivem em cubatas de ramos
seccos do feitio dos fornos que ha na provincia do Minho, em certos soutos onde se costumam fazer arraiaes, e para as quaes elles entram de rasto.
Cada
familia compõe-se de um homem com três ou quatro mulheres, e um
avultado numero de filhos. Estas creaturas, apesar de viverem já ha
annos perto dos europeus, e estarem todos os dias em contacto com elles,
em nada tem modificado os seus hábitos primitivos.
Os
homens usam de um traje que se compõe de um panno d'algodão amarrado em
volta do corpo, e outro lançado aos hombros como um manto, e trazem
sempre um cajado na mão. São d'elegante estatura, e as suas posições e
movimentos muito diferentes das dos pretos das outras tribus, que andam
com acanhamento, e não perdem uma occasião em que possam estar de
cócoras, ou sentados.
As posições dos Mundombes são nobres e altivas. Nas mulheres é que existe toda a originalidade
d'esta
raça. Trazem sobre a cabeça um bocado de pelle de boi por curtir,
levantam-lhe as pontas de traz e de diante para cima da cabeça, de
forma que aquelle adorno immundo e de cor escura, assemelha-se a um
pequeno chapéo como o de Napoleão. Por vestuário apenas dous bocados de
pelle, caiidos da cinta para baixo, um por diante, e outro por traz, e
por cima d'elles, cobrindo- Ihes as nádegas e o ventre, uma quantidade
enorme de missangas brancas, azues e encarnadas. N'isto consiste todo o
seu luxo: — aquella que tem o maior pezo de missanga é a mais feliz.
Nas pernas e nos braços trazem grande quantidade de manilhas de ferro,
que é o distinctivo das casadas; em volta do corpo uma correia lhes
aperta os peitos, os achata, e estende ás vezes do comprimento de palmo e
meio, o que dá a estas fêmeas o aspecto mais repugnante, — mas passa
entre ellas por uma das maiores bellezas. Não se lavam nunca, e
augmentam a immundicia em que vivem, untando o corpo e o cabello com
manteiga de vacca fabricada por ellas.
Ás casadas só é
permittido divertirem-se, ou por outra, dançarem, porque n'isso se
resumem todos os seus divertimentos. As suas danças podem comparar-se
aos passos desenfreados, que os antigos nos descrevem quando faliam das
famosas Saturnaes.







Assisti ás danças dos Mundombes
executadas por diversos grupos: — eram copia fiel umas das outras.
Reunem-se sete ou oito mulheres, e formam um circulo, entoando uma
cantiga de uma monotonia capaz de fazer morrer de spleen lodos os
collaboradores do «Charivari» acompanham este canto batendo as mãos, e
levantando ora um pé, ora o outro. Ao cabo de cinco minutos pouco mais
ou menos, e quando começam a electrisar-se, entra uma d'ellas para o
centro, e desata a saltar como endemoninhada, fazendo passos e gestos
incríveis, que vão crescendo conforme a approvaçao dos assistentes. As
mais velhas são as que mais se saracoteiam ; não é difíicil acreditar,
que são ellas também as que apresentam contracções de physionomia mais
horrendas no delirio a que se entregam.
O que deduzi de
tudo quanto presenciei, foi que o estudo principal d'aquellas mulheres é
tornarem-se feias e immundas, porque as raparigas são quasi todas
limpas, e bastante engraçadas. Estas usam em volta do corpo um panno
d'algodão, como as demais pretas da costa, com a diíferença que lhes não
passa abaixo dos joelhos; nas pernas trazem manilhas de vime, que é o
signal de virgindade. Fácil é de comprehender quanto anhelam trocar
estas manilhas pelas de ferro, que além d'outros gosos, lhes facilita o
da dança, que ellas tanto apetecem.
Na occasião das
danças as raparigas conservam-se em grupos a certa distancia, vendo-as
com inveja. Os rapazes chegam-se para os velhos, e sempre n'uma posição
académica, contemplam com seriedade todas aquellas desenvolturas.
As
creanças andam inteiramente nuas até aos oito ou dez annos, mas já
antes d'essa idade as raparigas trazem as manilhas de vime.
O
sustento de toda aquella gente compõe-se de milho pisado com uma pedra,
cozido em agua e leite : — é uma comida insipida que qualquer
desdenharia sem ser gastronomo, mas a que dão grande apreço.
Os
Mundombes pagam os tributos em géneros, como nos mais districtos da
Província : são eleitores, e não sei se elegiveis. Note-se que nenhum
sabe lêr, e que raros são os que falam ou entendem o portuguez.
As
mulheres não tendo nada mais em que se occupar do que em cozinhar a
cachupa, sobrava-lhes tempo se prezassem a limpeza para destruir a
immensa quantidade de bichos que trazem por entre as missangas; mas
preferem dormir, fumar, e dançar. Este viver, que parece mais próprio
d'animaes, do que de creaturas humanas, tem taes attractivos para quem
foi creado n'aquelles hábitos, que ainda não ha muito, que uma rapariga
que estava a servir uma familia da Praia, teve de a acompanhar á Europa,
onde se demorou bastante tempo, parecendo ter adoptado os nossos
costumes, e regressou a Mossamecles bem vestida e calçada, e de luva
branca. Não tardou porém muito tempo que a mucamba não trocasse esses
bellos atavios por manilhas de ferro, e por missangas !
Lá
a vi entregue ao frenesi da dança, trazendo escarranchada na anca uma
creança, a quem fazia soffrer de certo grande martyrio, por causa dos
solavancos occasionados pelas posturas desordenadas. Era curioso vêr
as caretas que o moleque fazia, agarrando-se á mãe com medo de cahir.
Esta maneira de trazer as creanças, a quem chamam crias, é usada pelas
negras em toda a Província, com a difíerença que as escravas e
libertas trazem-as envolvidas n'uma segunda saia, que arregaçam e
prendem em volta do corpo, de modo que só a cabeça da creança fica de
fora.
Como ouvisse fallar muito nas sanzallas, quiz vér
o que era: achei uma certa quantidade de cubatas em que vivem os
negros, compostas só de ramos; fiquei desapontado, e voltei para a
Praia.
Uma das cousas mais desagradáveis que encontrei
em Mossamedes, e que sempre me causou repugnância, foi o gosto do fumo
muito pronunciado em todas as comidas que vão ao lume; como não ha
carvão vegetal, cozinham com lenha verde, e rara é a comida que não
fique estragada.
"...Existem
aqui três tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que
habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a
Giraul, que vive no rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio
do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão
novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondombes os que
pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de
mais algumas tribus do interior.
Pouca
alteração tem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas
trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos.1
Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje
cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que,
não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje
mais mantimentos, e lêem mais gado do que d'antes; a rasão d'este
augmento é obvia em relação aos alimenlos; quanto aos gados, provém o
augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes
receiam os brancos aqui estabelecidos.
Um
terço dos ditos Mondombcs anda errante com os gados em busca de pastos.
As suas habitações são miseráveis, tem toda a similhança com um forno, e são por fora barradas cora excremento do gado. Como todos os
indígenas de África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso
costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo
pouco differe do de todos os negros; têem um soba, que é o chefe, mas
que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).
É costume dar-se o nome de pannos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.
Esta
gente tem idéa de um Ente Supremo, a que chama IIuco; mas pouca
adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que cada celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e
muito os poupa por não matar. Acredita n'uma outra vida depois da
morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.
Enfim
esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, c lhes presta alguns
serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.
(...)
Não
é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca,
porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde
colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da
vida á influencia do clima cm que nasceram. Apenas ha para notar que os
velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa
saúde. Entretanto vé-se que entre os negros indígenas se apresentam
alguns velhos centenários.
Estes indígenas
são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são
mais sujeitos a constipações, pela circumstancia de andarem quasi nus, e
de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.
Convém
aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua
robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um
grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um
grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida
de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão
frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham
desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos
excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os
indivíduos, que não tenham a robustez bastante para reagir contra os
agentes que lhes são damninhos.
Do livro "45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862