Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Gerações nascidas em Moçâmedes em finais do século XIX, início do século XX : familias Frota, Almeida, Ferreira, Bauleth...



ESTE
Esta foto, tirada em Moçâmedes, Angola, no final da década de 1920,  na Torre do Tombo/Moçâmedes, onde se encontram elementos de várias famílias interligadas por laços de consaguinidade, laços esses resultantes, por vezes, de  casamentos entre membros de uma família, facto normal em cidades pequenas e de pouca mobilidade, revela uma ambiência familiar muito próxima, que o rolar dos tempos iria diluir... 
 
Ou seja, em Moçâmedes por este tempo formavam-se redes de famílias coesas, era normal o casamento entre primos e primas, até de duas irmãs  de uma família com dois irmãos da outra familia, e vice-versa, o que tinha a ver com o escasso número da população e a falta de mobilidade das pessoas para outras terras; era uma situação muito comum em terras de Moçâmedes  até meados do século XX. Sá da Bandeira ficava a 200 quilómetros de Moçâmedes, o comboio só lá chegou em 1923. O isolamento era quase total. E mesmo após 1923 e  até meados do século, a mobilidade era muito pouca, uma vez que não existiam as pontes sobre o rio Bero, as estradas eram de má qualidade,  o comboio o "camacouve" ronceiro e moroso, a bitola estreita demais, as pessoas por vezes eram obrigadas a sair das carruagem , para a locomotiva ganhar fiorça na subida,   enfim, uma Chela  plena de ratoeiras, num tempo de raros automóveis, em que viajar era luxo de alguns, e  a caristia da vida não permitia aos residentes grandes vôos. Tudo isso obrigava a um certo recolhimento no terreno, a uma endogamia, a juntar ao facto de nos primeiros tempos do Estado Novo terem sido introduzidas as "Cartas de Chamada"  como uma obrigação, a quem da metrópole quisesse migrar para as colónias de África, facto que dificultava a vinda de novos moradores. Por esse vazio de gentes (em 1920 o distrito de Moçâmedes contava apenas com cerca de 2000 habitantes),  é que se dizia que em Moçâmedes até 1950 todos eram primos e primas...   
 
Com relação à foto , são por ordem, da esq, para a dt: 
  
1. Mário dos Santos Frota (de chapéu, à esquerda), nscido em Moçâmedes, era um dos 12 filhos da vasta prole de Manuel Fernandes Frota e de Carolina  dos Santos Frota, ou seja tinha como irmãos: o Manuel, o José, o Miguel, a Ilda, a Felicidade, a Silvéria, o Serafim,o Henrique, o José (Zeca), a Maria da Conceição (que faleceu muito jovem) e o Álvaro. 
 
2. A seguir vestido de branco , outro dos irmãos Frota? Para saber mais sobre esta família: ver in Memórias e Raizes 
 
3. Junto da porta, Maria Laura (filha de Júlia. a parteira da época).
 Do grupo da dt. fazem parte, da esq. para a dt:  
 
4. Idalinda Ferreira, natural de Lisboa  (de vestido branco no centro da foto). Era casada com Álvaro Ferreira,  este,  irmão das trigémeas Beatriz (minha avó materna, casada com meu avô João Nunes de Almeida), Mª Baptista (casada com Nunes)  e Lucinda (casada com Trindade),  e ainda de Agostinho (o primogénito solteirão) , Júlia (casada com Gomes do Armazém) , Maria do Carmo (casada com José Bauleth)*,  todos filhos e filhas dos meus bisavós Agostinho e de Catarina Ferreira . Para mais informações sobre esta familia: ver  Mossãmedes do Antigamente
 
5. Albano Bauleth  com Maria Etelvina Ferreira ao colo. Albano era  irmão de Alice Marta Bauleth  de Almeida,  de Maria do Carmo Bauleth de Almeida,  e de António Bauleth.  Era neto de Maria do Carmo Ferreira e de José Bauleth, bisneto maaterno de  de  Catharina Ferreira e Agostino Ferreira. 
 
6. Maria Etelvina Ferreira ao colo de Albano Bauleth. Etelvina é filha de Idalinda Ferreira e de Álvaro Ferreira , é neta paterna de Catharina Ferreira e Agostinho Ferreira. Nasceu em Moçâmedes em...? Casou com Arnaldo Nunes de Almeida, seu primo, filho de de Beatriz Ferreira de Almeida, uma irmã de seu pai,  e de João Nunes de Almeida. Era irmã da Maria Lizete, Era mãe da Maria Reginalda , so Rui e da Paula. Tinha um enteado, o Ângelo Nunes Almeida filho deseu marido, Arnaldo de um 1º casamento.
 
7. Alice Marta Bauleth Almeida (na foto vestida de escuro, à direita, com a filha Mª do Carmo à frente, era casada com Armindo  Bruno de Almeida  (que se vê um pouco atrás, vestido de branco, à direita), filha de Maria do Carmo Ferreira e de José Bauleth,    neta materna de Catharina Ferreira e Agostinho Ferreira (meus bisavos paternos) , era irmã de  Maria do Carmo (Carminha Bauleth, que casou  com Mário Almeida e não deixaram descendência),  de Soledade Bauleth ( que casou com José Duarte, pais da Fátima Duarte), e de  António Bauleth (que  casou com Celmira e foram pais do José Pedro, do Eloi e do Nono, avós da Riquita, Miss Portugal 1971).
 
8. Armindo Bruno Almeida, no canto dt., era casado com Alice Marta Bauleth de Almeida, era filho de Maria de Jesus  Frota Almeida (irmã da minha avó materna Maria da Conceição) e de António dos Santos Almeida (irmão do meu avô paterno, João Nunes Almeida). Nasceu em Moçâmedes no seio de uma familia alargada,  tinha vários irmãos:
1. Leontina Almeida, nascida em Olhão,  casou com Seixal, 
2, Isaura Almeida, nascida em Olhãao, casou com Andrade e foi viver para Benguela. 
3. José dos Reis Almeida, o 1º a nascer em terras de Porto Alexandre, no dia dos Reis, ainda a bordo do do palhabote em que viajavam seus pais e irmãs, por isso ficou a chamar-se José dos REIS AlmeidaCasou com Rosário Lopes.
4. Artur de Almeida nasceu em Moçâmedes (casou com Alice (Abreu?) ,  
5. Mário Almeida  Nasceu em Moçâmedes (casou com Maria do Carmo Bauleth),
6. Eduardo Almeida Nawsceu em Moçâmedes (faleceu solteiro?)
7. Fernando de Almeida Nasceu em Moçâmedes  (casou com Conceição/Sanita),
8. João de Almeida Nasceu em Moçamedes  (pai da Magnólia?). 
9. Maria do Carmo Nasceu em Moçâmedes (nunca casou) .
 Todos netos maternos de Ana da Piedade Frota e José Martins/Gaivota, (meus bisavós maternos),  e  netos paternos de  Fernando dos Santos Almeida e de Maria dos Prazeres, (meus bisavós paternos).
 
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Os pioneiros das familias Frota, os Ferreira e os Almeida aqui representados na foto, foram famílias oriundas de Olhão (Algarve)  que se estabeleceram em Moçâmedes,  em Porto Alexandre, até Baía dos Tigres, a partir de finais do século XIX, portanto nos tempos da "corrida a Africa" das nações europeias industrializadas,  a seguir à  Conferência de Berlim (1884-5) e ao Ultimato Inglês (1890),  em que Portugal  havia apresentado às nações europeias o Mapa Cor de Rosa, a chamar para si o território entre Angola e Moçambique, facto que caiu como uma bomba entre os inglêses, chegando a uma verdadeira declaração de  guerra a Portugal que obrigou o país a recuar, sendo a humilhação sentida pelo recuo das pretenões territoriais portuguesas de tal sorte entre o povo luso, acirrado pela propaganda republicana que levantou-se em um movimento social e político de exaltação patriótica e de contestação da Monarquia que em 1910 levaria à sua queda, e à implantação da 1ª República.  
 
Portugal havia intensificado a realização de viagens exploratórias e operações militares, visando a conquista dos territórios entre Angola e Moçambique, com base no plano do Mapa Cor-de-Rosa”, por essa altura, a Alemanha e a França tinham se comprometido a não intervir naquela área, mas o Reino Unido opõe-se ao projeto, pois pretendia levar por cabo submarino uma ligação ferroviária entre a África do Sul e o Cairo. No auge da contestação no Parlamento em Lisboa exigia-se o corte de relações com a Inglaterra, atacava-se o Rei de subserviência aos interesses da Inglaterra, os ingleses tornaram-se alvo de perseguição, com a imprensa a incentivar o ódio , nas lojas de Lisboa não se vendia a ingleses, nos alfaiates não se costuravam figurinos ingleses; nas docas, não se descarregavam barcos ingleses, nos hotéis, não havia quartos para ingleses. E Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, em 1890 compõem A Portuguesa, um manifesto de nacionalismo e resistência aos britânicos :"Contra os bretões, marchar, marchar!", mais tarde adotado como Hino Nacional após a Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910.  
 A crise do Ultimato terminaria em 1891, com a ratificação pelo Parlamento de um tratado anglo-luso, mas marcaria o final do regime monárquico em Portugal e a emergência do movimento republicano.
 
O Portugal metropolitano depois de séculos e séculos de permanência em África,  sem colonizar, cujos interesses estavam voltados para o Brasil, de onde fluiam os proventos para a Corte perdulária, esquecida dos seus cidadão,  era em finais do sec xix, 70 anos após a independência do Brasil, um país pobre e atrasado com relação à Europa, onde tudo estava por fazer, que apesar dos esforços na área da escolarização,  limitada ao ler escrever e contar,   arcava ainda , em finais do sec xix, com uma taxa de analfabetismo de 85%. Após 3 séculos tendo à frente uma nobreza gozando dos privilégios de um país imperial , Portugal era um país rural, sem industria, com o comércio em crise, onde  quase tudo estava por fazer. Perante tais circunstâncias,só  as gentes mais  acomodadas não partiam para outras paragens em busca de uma vida melhor, fossem terras estrangeiras ou portuguesas, do aquém e além mar. Apesar dos projectos de criar um novo Império colonial em Africa, os passos que iam sendo dados eram ainda vacilantes e no Parlamento português  em finais do seculo xix, vozes se erguiam contra a persistência em colonizar ,chegando mesmo alguns a aconselhar a vendas das colónias para bem de Portugal metropolitano definhante, enquanto outros defendiam a colonização como salvação da independência de Portugal. 
 
Quanto ao cidadão comum , em finais do século XIX, era parco o conhecimento que na Metrópole tinham sobre a Àfrica e o mundo de então tinha. Não admira dado o panorâma atrás descrito.  Esse o contexto que levou muitos portugueses a migrar migrar para o sul de Angola, zona que se encontrava em perigo face às ambições da Alemanha que ocupava o Sudoeste Africano, e pretendia avançar para norte, ocupar o Distrito de Moçâmedes e toda a faixa no mapa a sul e a leste de Benguela ao Cunene, etc, e lançar, a partir da Baía dos Tigres o projeto de um Transafricano alemão que ligasse as costas do Atlântico e do Indico, enquanto por seu lado a Inglaterra, a potência europeia mais avançada da época e a mais industrializaada, pretendia um corredor que ligasse o Cairo ao Cabo.

A Moçâmedes o olhanenses começaram a chegar em palhabotes à vela a partir de 1861. Não consta que lhes tivesse sido concedida alguma ajuda pelo governo português. Os pioneiros destas famílias partiram de Olhão rumo a Moçâmedes, a Porto Alexandre, à Baía dos Tigres, já em finais do sec xix, Viajaram de conta própria, como seus antecessores, em palhabotes, caiques à vela, igualmente sem qualquer ajuda. e no entanto à  presença dos portugueses ali ficou muito a dever-se a integridade do território, porquantono contexto da Conferência de Berlim e partilha da Africa, em 1886  aprioridade na descoberta peerdera todo o valor em face da ocupação efectiva.  
                                                                                                                  .
Os nossos familiares deviam ter respondido aos apelos,  quando, na sequência da Conferência de Berlim (1884-5) e do Ultimato inglês (1890), feitos pela propaganda oficial  metropolitana, exortando-os a fixarem-se em terras de Africa , essencialmente no Sul de Angola , vazio de gentes lusas ,  de familias lusas, em perigo face às ambições da Alemanha que ocupava o Sudoeste Africano, e pretendia avançar para norte, ocupar o Distrito de Moçâmedes, e lançar, a partir da Baía dos Tigres o Projeto de um transafricano alemão que ligasse a Baía dos Tigres, no Sul de Angola, a Lourenço Marques, e, Mocambique,, as costas do Atlântico e do Indico, enquanto os ingleses pretendiam um outro transafricano que ligasse o Cabo ao Cairo. Por pouco a faixa do território angolano a sul de Benguela  alargada ao Cuando Cubando ia toda para os alemães do Sudoeste Africano, e Angola a sul terminaria no mapa ali.
 
 À presença destas familias  portuguesas nesta fase critica ali, se ficou a dever a integridade actual do território angolano . Hoje não se pensa nisso quando se usufrui de um enorme território de Cabinda ao Cunene.  Claro que os colonos estavam à margem de todas estas estratégias. A estratégia do envio de familias foi a utilizada como garante da fixação. Até à fundação de Moçâmedes por luso-brasileiros em meados do sec xix, a fixação  de portugueses nas colónias de Africa não era garantida. Eram na generalidade homens sós, incluindo degredados e aventureiros, em busca de fortuna fácil , que depressa abandonavam a colónia.
 
 
MariaNJardim 
 
 


Ver AQUI

Para terminar: 
 
"Assim referiu in  Mazungue, um dos netos de Alice Marta Bauleth de Almeida:
 
 "...A minha Avó materna foi na barriga da mãe de Olhão para Moçâmedes num barco à vela e a vapor, com roda lateral e semanas depois de aportarem a Moçâmedes, ela nasce numa caverna das "Furnas", mais tarde mudando-se com a familia para o "Platô" da Torre do Tombo. Ano - 1907 Nome - Bauleth sim...sim é Tia-avó da Riquita. " Fim de citação.  Penso que esta história não está bem contada, porquanto quem nasceu  à chegada a Porto Alexandre onde primeiro a familia se fixou (não a Moçâmedes) foi José dos Reis Almeida, um dos filhos de Maria de Jesus e António dos Santos Almeida, que viajaram de Olhão para Moçâmedes acompanhados  das 2 filhas que tinham então, a Julia e a Leontina. Os restantes filhos nasceram já em Angola, como foi o caso de Armindo Bruno Almeida que casou com  Alice Marta Bauleth, os seus avós.

http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2007/08/colonos-algarvios-em-mossamedes.html
 
 
A este relato responderei que não habitaram as furnas do morro da Torre do Tombo,  nem o plateau onde ficavam as cubatas dos africanos, estabeleceram-se os seus bisavós paternos maria de Jesus Frota e António dos Santos Almeida, primeiro em Porto Alexandre, depois em Moçâmedes, no Bairro da Torre da Tombo (Bairro Feio). Sua avó  materna Alice Marta, filha de Maria do Carmo Almeida e de José Bauleth não veio para Angola na "barriga da mãe" e alguem veio no chamado Bairro Feio  Aquilo que sei é que estiveram de inicio em Porto Alexandre,
Nota:
Pessoalmente não tenho conhecimento de  Alice Marta Bauleth de Almeida, sua avó materna  (filha de Maria do Carmo Ferreira e de José Bauleth) tenha vindo para Moçâmedes "na barriga se sua mãe" como seu neto afirma. Até porque Maria do Carmo Ferreira Bauleth era filha da minha bisavó paterna Catharina Ferreira e do meu bisavô Agostinho, que quando se deslocaram do Bairro Alto em Lisboa, onde moravam para Moçâmedes, levaram consigo  seu filho mais velho,  Agostinho e as filhas Beatriz, Lucinda, Baptistas, as trigémeas ,  para além da Maria do Carmo, da Julia, sendo o Álvaro o único nascido em terras de Moçâmedes.
 Que eu saiba (salvo prova em contrário)  sua avó, Alice Marta Bauleth de Almeida  era filha da Maria do Carmo Ferreira Bauleth   e de José Bauleth, neta dos meus bisavós paternos Catharina e Agostinho Ferreira que moravam na Rua Santa Catarina , Bairro Alto, em Lisboa quando resolveram migrar para Moçâmedes, e penso que viajou solteira.
 e viajou juntamente com sua mãe e irmãs: Beatriz (minha avó paterna), Lucinda, Mª Baptista e Júlia. Iam ter com o marido e pai Agostinho Ferreira que tinha partido algum tempo antes na companhia do filho primogénito,  Agostinho Ferreira Jr. E sei que numa primeira fase fixaram-se em Porto Alexandre. Será que a Maria do Carmo viajou já casada com José Bauleth e grávida?  Existe de facto uma história do género ligada  à ida de familiares num palhabote, de Portimão para Moçâmedes e ela aí vai:
 
Tenho conhecimento sim da odisseia de uma outra familiar, , mas esta ligada à familia de seu  avô materno o marido de Alice Marta filha da Maria de Jesus Frota, uma irmã da minha avó materna que viajou para Moçâmedes, rumo a Porto Alexandre,  . num palhabore à vela , na companhia de seu marido , António dos santos Almeida e filhas Leontin e ... e de outros olhanenses, ia grávida e foi já com Porto Alexandre à vista, que começou com dores de parto , e que, encoberta pelas velas do palhabote, deu à luz seu filho  José,  ao qual deu o nome completo de José dos Reis Almeida, Reis por ter nascido em  6 de Janeiro, no dia dos Rei
 Mais tarde já em Moçâmedes nasceria o Armindo Bruno de Almeida como em terras de Porto Alexandre e de  Moçâmedes nasceu o resto da sua alargada prole, Tornou-se uma familia das mais extensas da cidade naquele tempo

à Leontina e à, foi já juntaram-se, já em Angola, que se junto â prole de filhos o José dos Reis e Almeida,
5 Alice Marta Bauleth (na foto vestida de escuro, mais à direita, com a filha Mª do Carmo (esta filha   num 1º casamento casou com Bexiga e num segundo com Barbosa). Alice Marta era filha de Maria do Carmo e de José Bauleth, neta materna de Catharina Ferreira e Agostinho Ferreira, os meus bisavós paternos, e irmã de  Maria o Carmo (que casou  com Mário Almeida),  de Soledade  ( que casou com José Duarte  Ver AQUI), e ainda de  António Bauleth (que  casou com Celmira). 

6. Armindo Bruno Almeida, marido de Alice Marta Bauleth de Almeida, era filho de Maria de Jesus (irmã da minha avó materna Maria da Conceição) e de António dos Santos Almeida (irmão do meu avô paterno, João Nunes Almeida)
 
Sua mãe, Maria de Jesus ia grávida quando viajou num palhabote à vela runo a Porto Alexantre, distrito de Moçâmedes, e foi com Porto Alexandre à vista que deu à luz mais um filho, o 3º ao qual foi dado o nome de  José dos Reis Almeida ( este mais tarde casou com Rosário Lopes). E outros filhos se seguiram todos naturais de Angola, nasceu o Artur de Almeida (casou com Alice (Abreu?), o Mário das Neves Almeida (casou com Mªdo Carmo Bauleth Almeida/Carminha), o Eduardo Almeida (faleceu solteiro?), o Fernando de Almeida (casou com Conceição/ Sanita),e  o João de Almeida (casou com? e foi pai da Magnólia?). Todos netos maternos de Ana da Piedade Frota e José Martins (Gaivota), meus bisavós maternos, e  netos paternos de  Fernando dos Santos Almeida e de Maria dos Prazeres, (meus bisavós paternos).
  casou com Armindo  Bruno de Almeida  (que se vê um pouco atrás, vestido de branco, à direita). 
 
(casou com Rosário Lopes), que nasceu no dia da chegada  a Porto Alexandre, dia dos Reis, ainda a bordo do opalhabote em que viajavam . Por isso ficou a chamar-se José dos REIS Almeida, Outros irmãos eram o Artur de Almeida (casou com Alice (Abreu?) ,  o Mário das Neves Almeida (casou com Maria do Carmo Bauleth), o Eduardo Almeida (faleceu solteiro?), o Fernando de Almeida (casou com Conceição Sanita),e  o João de Almeida (pai da Magnólia?). E ainda tinha 2 irmãs mais velhas que acompanharam os pais na viagem para Moçâmedes:  a Isaura (que em Moçâmedes casou com Andrade), a Leontina (que em Moçâmedes casou com Seixal) e a M. do Carmo. Já em Angola  nasceram os seus irmãos. Todos netos maternos de Ana da Piedade Frota e José Martins (Gaivota), meus bisavós maternos, e  netos paternos de  Fernando dos Santos Almeida e de Maria dos Prazeres, (meus bisavós paternos).
  casou com Armindo  Bruno de Almeida  (que se vê um pouco atrás, vestido de branco, à direita). 
 
 
filhos, de entre os quais Armindo Bruno Almeida que casou com  Alice Marta Bauleth de Almeida  que foram os pais da Maria do Carmo, do Roberto, do Rui, da Eduarda ( esta a sua mãe juntamente com Martins Pereira (John) .
 
 '
 
Esta é mais uma história de vida a acrescentar a tantas outras que se desenrolaram entre portugueses e seus descendentes que um dia resolveram procurar uma vida diferente em terras de África. Deixo aqui para que não se perca este precioso relato descrito por Mário Lopes, casado com uma neta de Rosário e de José, a quem se agradece, e que poderá eventualmente interessar aos familiares descendentes.


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Visita ao Lubango de Norton de Matos





















































































































Major José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos, governador-geral de Angola, com a sua esposa D. Ester Newton Pereira de Matos, a filha D. Rita Newton Norton de Matos, a esposa do administrador do Huambo e a professora particular de sua filha, vendo-se na parte de trás, de pé, o tenente Coelho, ajudante-de-campo do governador-geral, Goes Pinto, governador do distrito de Benguela, Castro Soromenho, administrador do Huambo, e Tomás Fernandes, chefe do gabinete do governador-geral, numa fotografia tirada no Huambo em Novembro de 1913.


Depois do derrube da Monarquia em Portugal, em 1910, a Primeira República criou o regime dos Altos Comissários para as colónias africanas, o qual vigorou até aos anos 30. A partir daí o regime salazarista retomou a figura dos Governadores. A diferença entre um e outro é que o regime dos Altos Comissários conferia muito mais autonomia e poder ao representante do Governo metropolitano. No entanto, com excepção de Norton de Matos, que foi Governador de Angola entre 1912 e 1914 e Alto Comissário no período 1921-24, e cuja obra foi sob vários pontos de vista notável (e a que não se prestou ainda a devida justiça: Vd. Adelino Torres, O Império Português entre o Real e o Imaginário, Lisboa, Escher, 1991, 359 p.), as políticas desses representantes foram, no essencial, incaracterísticas.


ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30)


Adelino Torres
(...)
«Na política colonial portuguesa da primeira metade do século XX, assinala-se todavia uma excepção: a acção de Norton de Matos, nomeado pela 1ª República como Governador de Angola em 1912-14, e, mais tarde, de novo como Alto Comissário no período 1921-24. Graças a este segundo mandato com poderes muito mais alargados do que no primeiro, Norton de Matos levou a cabo a única acção governativa realmente significativa para introduzir a modernidade em Angola, combater o trabalho escravo, impôr uma política de investimentos em grande escala e abrir a colónia directamente à economia mundial. Numa palavra: minar o poder de uma burguesia colonial obsoleta. Como seria de esperar, a obra de Norton de Matos encontrou a maior resistência, tanto em Portugal ("burguesia metropolitana") como em Angola ("burguesia colonial"). Em 1924 o governo da 1ª República, cedendo a pressões, pôs abruptamente fim ao seu mandato como Alto Comissário. Com efeito, os pequenos e médios agricultores descapitalizados de Angola, cuja acumulação dependia em grande parte de uma mão-de-obra praticamente gratuita, poderiam dificilmente sobreviver à transformação e modernização das estruturas económicas e sociais pretendidas por Norton de Matos. Não é, pois, de admirar que tivessem saudado com entusiasmo o desaparecimento político de Norton de Matos.

Em 1926 teve finalmente lugar em Portugal um golpe de Estado que pretendia dar uma orientação nova ao país. O auto-intitulado "Estado Novo", corporativo e de ideologia fascista põe fim ao regime da Primeira República e nomeia um outro Alto Comissário, Vicente Ferreira, professor da Universidade Técnica de Lisboa, homem sem ligações com os partidos políticos e que está destinado a ser uma figura de transição. Apesar disso, este ainda tenta realizar algumas reformas que imediatamente desagradam às forças económicas locais. Em 1928, Salazar despede-o por telegrama (cf. primeira página do jornal A Província de Angola, em anexo).

O Alto Comissário seguinte será Filomeno da Câmara, cuja principal qualidade terá sido a sua implicação directa no golpe de Estado fascista de 1926, em Lisboa. Militar de carreira, Filomeno da Câmara é pois um homem de confiança do novo regime. As suas competências não são ainda conhecidas, mas em breve se tornará evidente que a personagem era pouco recomendável para um cargo de tão grande responsabilidade. Page 10 10 Alguns dos decretos redigidos pela sua própria mão e publicados no Boletim Oficial de Angola, são mesmo curiosos (por exemplo, trata o Presidente da República por "grande homem casto" (sic)...) ou simplesmente persecutórios. Quando chegou a Angola, estava acompanhado por um certo tenente Morais Sarmento, seu companheiro da "revolução" de 1926, indivíduo segundo parece pouco amável, obsecado por ideias fixas como fusilar todos os "antipatriotas" com pretenções à independência de Angola, "liquidar os maçónicos" e dar cabo de todos os republicanos partidários da democracia "corrompida". É de crer que esses elevados ideiais constituíam todo o seu programa político... Essa faceta seria de somenos importância se ele não exercesse grande influência pessoal sobre o Alto Comissário, e, sobretudo, não tivesse sido nomeado Director-Geral da Administração Pública, cargo que começou imediatamente a desempenhar da maneira mais surpreendente e inesperada, a qual incluía, quando Sua Excelência julgava necessário, a agressão física de funcionários, inclusivamente de altos funcionários. Como não podia deixar de ser, foi crescendo o mal-estar e a indignação tanto na Administração como na própria opinião pública. Os acontecimentos precipitaram-se quando, em Março de 1929, o Alto Comissário Filomeno da Câmara se retirou com toda a sua família para o sul de Angola sem nenhuma razão oficial válida. Este facto foi tanto mais estranho que, em vez de deixar a responsabilidade do governo ao seu substituto legal, o chefe de Estado Maior das Forças Armadas, como a lei determinava, confiou esse cargo ao obscuro tenente Morais Sarmento. Mais ainda: deixou-lhe folhas em branco já assinadas para que este pudesse publicar todos os decretos que entendesse... As razões deste insólito procedimento nunca foram esclarecidas. Falou-se de incompetência e de outras coisas menos lisongeiras, mas tais explicações parecem insuficientes. Seja como for, a situação tornou-se rapidamente muito grave porque, como referem testemunhas da época, o jovem tenente terá começado a preparar um "golpe de Estado". Segundo alguns depoimentos, o seu projecto seria de prender o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o Coronel Genipro Almeida, figura que teria contactos nos meios republicados do regime deposto pelo golpe de 1926, e, em seguida, prender e deportar centenas de opositores ao novo regime fascista português, nomeadamente no sector da Page 11 11 maçonaria (que tinha velhas tradições republicanas, e à qual o antigo Alto Comissário Norton de Matos também pertencia). Infelizmente para o dito tenente, o chefe do Estado Maior foi mais célere e, durante a noite de 29 de Março de 1929, cercou a sua casa com tropas do contingente africano e deu-lhe ordem de prisão. Em resumo, após um breve tiroteio, o exaltado tenente Morais Sarmento acabou morto 19 . Este epílogo provocou manifestações populares de alegria em Luanda, como se pode ler no jornal A Província de Angola, que era então uma espécie de porta-voz da oposição ao regime de Salazar. Entretanto, na sua residência no sul de Angola, o Alto Comissário acusava de "traição" os revoltosos de Luanda e tentava, sem sucesso, mobilizar tropas para avançar sobre a capital da colónia. Por sua vez, o Coronel Genipro Almeida armava batalhões de soldados africanos comandados por oficiais portugueses. Ambos os lados iam trocando, entretanto, uma abundante correspondência telegráfica com o Ministro das Colónias em Lisboa (Salazar), cada um deles afirmando a sua lealdade a Portugal. Ao mesmo tempo, em Luanda, falava-se cada vez mais em autonomia e mesmo em independência de Angola 20 , sobretudo depois de Salazar ameaçar enviar um navio de guerra para a colónia.

A atitude do Primeiro Ministro Oliveira Salazar consistiu numa série de manobras dilatórias, onde era contudo perceptível o seu apoio ao Alto Comissário Filomeno da Câmara e a sua desconfiança em relação às forças que se encontravam em Luanda, apesar da posição do primeiro ser, do ponto de vista legal, bastante mais questionável. Quais foram as consequências destes acontecimentos? 19 Num telegrama enviado pelo Alto Comissário ao Ministro das Colónias em Lisboa, é dito que a "rebelião" de Luanda teve "o apoio ou mesmo a intervenção de associações secretas nas quais estão afiliados quase todos os funcionários, militares e civis, da colónia, incluindo a magistratura, implicados na tentativa de fazer cair a ditadura (do regime salazarista de Lisboa) (...). Morais Sarmento, adversário das associações secretas, foi a primeira vítima destas", escreve Caldas Xavier. (Cf. Caldas Xavier, op. cit., p. 150) 20 "... Muitas pessoas ouviram vivas à independência" (cf. Caldas Xavier, op. cit., p. 141). O Director do jornal A Província de Angola escrevia: "... Angola terá o destino de todas as colónias.

As tendências dos grupos sociais não podem ser contrariadas, e em todos os tempos se sente o formidável desejo e a invencível aspiração dos povos à independência. A hora de Angola ainda não chegou, mas ela chegará" (citado por Caldas Xavier, p. 142). Page 12 12 O Alto Comissário, na impossibilidade de se fazer obedecer, não pôde organizar nenhuma acção armada contra os revoltosos na capital da colónia. Algum tempo depois acabou por ser "chamado à Metrópole", o que na prática significava que estava demitido das suas funções. O mesmo aconteceu ao Chefe da Estado Maior. A oposição, incapaz de se organizar, acabou por ser reduzida ao silêncio com a ajuda da censura. Assim foi esmagada no ovo o que alguns não hesitaram em considerar como tendo sido a última tentativa de rebelião contra a soberania portuguesa da primeira metade deste século. * Sobre os acontecimentos brevemente relatados, é possível fazer três observações. A primeira não passa de uma hipótese, mas uma hipótese de algum modo consistente: Salazar teria designado um Alto Comissário da sua confiança política para tentar "limpar" Angola de todas as forças ligadas à ideias republicanas (liberais, por assim dizer), alegadamente influenciadas pela franco-maçonaria 21 ... A manifesta inabilidade deste precipitou a situação de maneira imprevista, mas não invalida a hipótese. O poder do "Estado Novo" encontrava-se ainda longe de estar consolidado, e era portanto necessário avançar com prudência, o que explicaria a ambiguidade de Salazar durante este processo. Em todo o caso, é muito estranho que o Alto Comissário Filomeno da Câmara se tenha retirado com toda a sua família para uma distante e minúscula cidade do sul de Angola sem nenhuma razão válida e, mais ainda, tenha deixado o governo confiado - contra a lei e mesmo o simples bom senso - a um mero tenente, para mais conhecido pelas suas ideias extremistas. De qualquer modo, tudo leva a crer que o primeiro Alto Comissário da ditadura, sucessora do regime republicano, foi essencialmente um homem de mão da estratégia ultra- conservadora e mercantilista do novo governo de Lisboa. A segunda observação é que esta tentativa de rebelião parece ter tido a participação, ainda que num discreto segundo plano, de certos africanos "ocidentalizados", como então se 21 O antigo Alto Comissário, Norton de Matos, era Grão-Mestre da Maçonaria portuguesa e, a esse título, não é impossível que tenha deixado implantada em Luanda e em Benguela uma estrutura maçónica republicana de ideias liberais. Page 13 13 dizia, de Luanda e de Benguela. Porém, tudo indica que não terá havido qualquer ligação entre essas elites urbanas e as populações rurais, circunstância que, a verificar-se, teria dado aos acontecimentos um conteúdo completamente diferente e certamente bem mais perigoso para a potência colonisadora. Em terceiro lugar, em momento algum o governo de Lisboa se mostrou sensível às causas sociais e económicas mais profundas que estariam na origem do clima de mal-estar vivido na colónia. As preocupações de Salazar relacionam-se sobretudo com a ordem pública, a subordinação total da economia colonial aos interesses da metrópole (Pacto Colonial, proteccionismo alfandegário), o equilíbrio orçamental de cada colónia obtido com recursos próprios (o que era a mesma coisa que negar "ajuda" da metrópole ao desenvolvimento de territórios por definição carenciados) 22 . Aplicadas nos anos subsequentes, estas medidas irão estrangular o crescimento das economias de todas as colónias portuguesas em África até ao início dos anos 1960, altura em que a maior parte dos grandes investimentos em infraestruturas, como pontes, estradas e até cidades como Nova Lisboa (hoje Huambo), resultavam ainda do áureo "período Norton de Matos" (1921-24)! Se inicialmente a rebelão de 1929 teve uma origem palaciana revestida de aspectos grotestos, ela foi rapidamente transformada pela propaganda oficial salazarista num episódio político-militar desencadeado, segundo a tese perfilhada por Caldas Xavier, por "ambições pessoais" e por acções sediciosas da "maçonaria anti-clerical e anti-patriótica". Há boas razões para crer que essa dramatização forneceu o pretexto para amordaçar a opinião, eliminar o que se suspeitava serem veleidades autonomistas e afastar da Administração Pública os adversários políticos, estendendo e consolidando assim o poder do novo regime no espaço do "império colonial". Os acontecimentos relatados permitem ainda observar uma certa clivagem que se teria registado na época: as profissões liberais, os funcionários e os trabalhadores dos caminhos de ferro tomaram o partido da rebelião contra o Alto Comissário e, indirectamente, contra Lisboa. Pelo contrário, os empresários parecem ter ficado muito mais divididos. O presidente da Associação Comercial e industrial de Luanda (que incluía também os proprietários 22 A obsessão de Salazar pelo equilíbrio financeiro de cada uma das colónias, que mereceu críticas de vários dos seus contemporâneos, como Henrique Galvão ou Cunha Leal, teve consequências ruinosas no desenvolvimento posterior dos territórios africanos. Page 14 14 agrícolas) solidarizou-se com o Alto Comissário e denunciou a rebelião como uma "traição" em relação à metrópole, o que lhe valeu ser posto na cadeia pelo coronel Genipro Almeida. É difícil saber, com exactidão, até que ponto a posição assumida pelo presidente da Associação Comercial e Industrial era representativa da classe patronal.

Mas a história dos anos anteriores, sobretudo durante o governo de Norton de Matos, mostra que este grupo era pelo menos pouco sensível à perspectiva de um crescimento de tipo capitalista, se o entendermos como um processo de reformas em que os factores económicos e sociais de liberalização são interdependentes. Não será excessivo deduzir daqui, que proprietários agrícolas, comerciantes e industriais, queriam, antes de mais, continuar a beneficiar da "renda de situação" oferecida por uma mão-de-obra africana praticamente gratuita, manter-se ao abrigo da concorrência internacional graças ao sistema alfandegário vigente, e continuar ao abrigo das acusações que lhe eram feitas em certas instâncias internacionais, segundo as quais aplicavam ainda na colónia, em pleno século XX, um sistema de trabalho retrógrado bastante semelhante, em muitos dos seus aspectos, ao trabalho escravo 23 . Esse grupo constituía o núcleo duro do que chamámos a "burguesia colonial", e era em muitos casos herdeiro dos antigos patrões do tráfico de escravos e dos que tinham construído os seus haveres sobre os alicerces de uma economia mercantilista fortemente impregnada de "feodalidade", por assim dizer. Não foi certamente por acaso que, desde 1820, a fracção do poder económico dessa burguesia colonial em Angola e em Moçambique, sempre se bateu contra todas as reformas decretadas por corajosos ministros liberais do século XIX, como Sá da Bandeira e Andrade Corvo, da mesma maneira que procurou (e conseguiu) abater politicamente Norton de Matos e mesmo Vicente Ferreira, apesar das tentativas de reforma deste último serem bastante 23 A literatura sobre esse problema é abundante.

O nosso livro O Império Português entre o Real e o Imaginário, op. cit., procura fazer o ponto da situação. Mas, para além dos maus tratamentos infligidos aos homens, há outros elementos que explicam a má situação dos africanos. Entre eles um sistema fiscal particularmente duro que estava no origem da fuga para o Congo Belga (hoje Zaire) e para o Sudoeste Africano (hoje Namíbia) de centenas de milhar de angolanos. Cunha Leal escrevia, a esse propósito, que os africanos deviam trabalhar de três meses e meio a quatro meses e meio por ano só para pagar os seus impostos directos. Calculou também que para pagar esses mesmos impostos, os agricultores africanos (trabalhando por conta própria) deviam vender de 400 a 520 quilos de milho da sua produção. Vê-se assim, escreve Cunha Leal, quanto "é excessivo, verdadeiramente imsuportável, o sacrifício fiscal que se exige hoje ao negro". E acrescenta: "Os resultados da actual política fiscal são de tal maneira evidentes que só os cegos como o Dr. Oliveira Salazar não conseguem ver: o negro das regiões fronteiriças emigra em massa" (Cf. Cunha Leal, Oliveira Salazar, Filomeno da Câmara e o Império Colonial Português, Lisboa, 1930, p. 33. Page 15 15 tímidas. Não é, pois, motivo de admiração ver o Presidente da Associação Comercial e Industrial de Luanda aliar-se ao Alto Comissário Filomeno da Câmara e ao governo integrista português. *

A política colonial portuguesa foi, durante o século XIX, grandemente determinada pela luta entre liberais e mercantilistas. Estes últimos tiveram nas colónias, particularmente em Angola e em Moçambique, um aliado natural na burguesia colonial, mesmo se essa aliança comportava contradições e ressentimentos (por exemplo, os interesses comuns entre a burguesia colonial de Angola e a burguesia do Brasil, as duas associadas no tráfico de escravos do século XIX, manifestaram-se frequentemente em prejuízo da burguesia mercantil de Portugal). A partir de 1890 a batalha dos liberais estava definitivamente perdida em Portugal. Esse facto iria condicionar decisivamente todo o período subsequente, tanto em Portugal como nas suas colónias africanas. Cremos que é a luz desse facto que deve ser reavaliada uma estratégia que, fechando Portugal e cortando-o dos desafios e estímulos que resultariam da sua inserção no espaço europeu e mundial, determinou o seu atraso e condenou os actores, portugueses a africanos, à mediocridade do subdesenvolvimento. O mercantilismo vitorioso dominou as sociedades portuguesa e africana e perdurou muito para além da 2ª guerra mundial, praticamente até aos anos 1960. Só foi abalado em dois momentos: por Norton de Matos nos anos 20; e por outro governante, Jorge Eduardo da Costa Oliveira, "Secretário Provincial da Economia" de Angola entre 1964 e 1973, que retomou, em parte, a obra do primeiro. Sujeito também a condicionalismos, nomeadamente políticos, este beneficiou todavia de um contexto relativamente mais favorável. É após os anos 60 que se fazem mais sentir as repercussões políticas, nacionais e internacionais, da acção dos nacionalistas africanos em quase todos os territórios sob domínio português. As novas circunstâncias impuzeram finalmente a execução das reformas adiadas por Page 16 16 quase quarente anos de salazarismo. Mas foi a competência e a lucidez de J.E. da Costa Oliveira que as tornaram possíveis em Angola, ao recuperar em marchas forçadas, por assim dizer, até ao início de 1973, muito do atraso acumulado nas décadas precedentes. Foi só nesse período que a situação económica começou realmente a mudar. O turbilhão da revolução democrática em Portugal em 1974, e das independências em África em 1975, atirou para a poeira dos arquivos tradições e preconceitos ultrapassados, mas também fez desmoronar realizações alcançadas e sonhos que, porventura, teria valido a pena prosseguir. Mas a responsabilidade desse fracasso cabe exclusivamente à imprevisão e arrogância com que, no passado (com especial ênfase para o reinado salazarista), se ignoraram os protestos de africanos e de não poucos portugueses, e se geriram desastrosamente os destinos do espaço de língua oficial portuguesa. Matéria tão recente já não cabe neste artigo.

Recorde-se apenas que um melhor conhecimento das relações entre colonizadores e colonizados (hoje, felizmente, ex- colonizadores e ex-colonizados) continua a ser essencial, na medida em que muitas ideias e/ou preconceitos contemporâneos precisam ainda de ser esclarecidos ou re-equacionados sem a carga emotiva que lhes está inerente. Uma revisão da história colonial portuguesa, levada a cabo com rigor, ajudaria certamente a explicar o presente de maneira bem mais construtiva e útil do que certas retóricas em voga, na Europa ou em África..

Adelino Torres (texto completo AQUI)
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AS RAZÕES DE VICENTE FERREIRA

Nova Lisboa — Capital de Angola por: Leonel Cosme

Quem viveu muitos anos nas ex-colónias portuguesas não estranha que o contacto com as terras e os povos tenha produzido, mesmo em altos fun-cionários do Estado que cumpriam efémeras comissões de serviço (normal-mente de dois anos), uma consciência da realidade que, em muitos casos, conflituava com os estereótipos formados pela visão das colónias como feitorias, não exigindo grandes empenhamentos nem dispêndios: até houve quem propusesse a sua venda ao estrangeiro...

O exemplo mais construtivo das “correcções” à política colonial foi seguramente o de Norton de Matos, que conseguiu, no seu segundo mandato, em 1921-1923, já com o título de Alto Comissário, ampliar os poderes que eram atribuídos aos governadores-gerais, a cujas “ousadias” o Governo Cen-tral fazia orelhas moucas. É o caso das “pretensões” sobre o desenvolvimento do ensino público formuladas por “africanistas” como Custódio Borja, Alves Roçadas, Jaime de Morais, João de Almeida ou Massano de Amorim, na linha aliás preconizada anteriormente pelo ministro do Ultramar Rebelo da Silva. Neste contexto, o mais “rebelde”, Filomeno da Câmara, ousou mesmo criar, em 1919, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes, que seriam regulamentadas, três anos depois, por Norton de Matos. A última “ousadia” foi a do governador Venâncio Deslandes, ao criar, em 1962, os Estudos Gerais Universitários, que Salazar se viu “compelido” a ra-tificar no ano seguinte (já sopravam os “ventos da mudança”), mas em con-sequência do que foram demitidos o Governador-Geral de Angola e o Minis-tro do Ultramar, Adriano Moreira...

No seu primeiro mandato (1912-1915), depois de ter passado pela Índia, Norton “aprendeu” que Angola não podia continuar a ser encarada como “feitoria” ou “colónia penal” para onde a Metrópole escoava condenados e aventureiros, mas um espaço onde teriam lugar os portugueses ambiciosos e empreendedores que, não “cabendo” já no Brasil independente, seriam os agentes do projecto “avançado” (mercantilista) que ele tinha para o Ultramar. De imediato, reconhecendo que era imperioso dilatar as vistas da Angola histórica, litorânea, para o interior inexplorado, começou por fundar, logo em 1912, o burgo do Huambo, que a partir de 1928, no governo do Alto Co-missário Vicente Ferreira, se chamou Nova Lisboa. A Metrópole ouviu Norton de Matos, pelo menos durante o ano em que, saído de Angola, foi Ministro das Colónias, donde transitou para o Minis-tério da Guerra. Quando António Vicente Ferreira, em 1923, sucedeu a Nor-ton no Ministério das Colónias e em 1926-1928 no governo de Angola, já a semente deixada por Norton estava em plena germinação: ainda em 1928, Vicente Ferreira defende que a capital de Angola deveria ser transferida para Nova Lisboa, ideia que, no distante Terreiro do Paço, teria soado como uma fantasia de africanista enfeitiçado pela magia dos trópicos... Mas em 1933, já na vigência do Governo de Salazar, ainda reitera: (...)

Todas as considerações de ordem climatérica, sanitária, adminis-trativa, política e económica, que tornam imprópria a cidade de Luanda, para servir de capital da moderna Angola, colónia agrícola e de povoa-mento, recomendam a Nova Lisboa para esse efeito. E porque, em maté-ria de colonização moderna — talvez mais do que em outras obras huma-nas, as oportunidades mal surgem para logo desaparecerem, supomos que acertadamente andariam os homens de governo, se, aproveitando a razão favorável, lançassem com energia os fundamentos da grande obra de colonização de Angola: o povoamento —, com o seu corolário neces-sário: — a transferência da capital. E deste asserto diremos os porquês. E primeiro porque é asado o momento. Temos nós, como todo o mundo, actualmente, a nossa legião dos sem-trabalho, todos os dias acrescida pelo contingente dos que são repelidos, pela crise do Brasil e doutros países de imigração. Muitos cuidados e despesa custa a assistência que só a pequeno número se presta, na Metrópole, com trabalhos públicos e municipais adrêde inventados, e por isso nem sempre dos mais justificados pela utilidade pública. Suportam assalariados e patrões o peso do impôsto a esse fim destinado, e sendo este encargo já modesto para a maioria dos que o pagam, ele teria de ser muito maior, se a todos os sem-trabalho, como de justiça, se acudisse; e porque nem é possível agravar este impôsto, nem fácil multiplicar inde-finidamente o número de obras públicas e municipais, forçoso é lançar mão daqueles recursos extraordinários, que a necessidade sugere, a ra-zão aconselha, e a previdência dos homens de Estado sabe reconhecer e aplicar. (...)

É Angola o natural destino daquele excedente de população, que as difíceis condições do mundo, na época presente, acumulou no terri-tório da Metrópole, onde não encontra trabalho adequado nem meios de subsistência. E porque as características do mal, com as suas reper-cussões sociais, que se antevêem perigosas, e a perspectiva do seu agra-vamento futuro, exigem que o remédio não tarde; e porque outras cir-cunstâncias de ordem externa, parecem aconselhar diligências no que toca a Angola, diremos que o momento é asado. (...)

Como é sabido, Salazar não afinava pelo mesmo diapasão: aos portu-gueses que quisessem emigrar para as colónias de África era exigida uma “carta de chamada”; e para o estrangeiro, só a salto... E quanto a pensar que transferindo a sede do poder político-administrativo de Luanda para o Pla-nalto Central se criaria ali um grande pólo de desenvolvimento do interior, ninguém, que saibamos, se deixou impressionar pela “ousadia” de Juscelino Kubitschek de Oliveira, ao transferir, em 1960, a capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central do Brasil
. Leonel Cosme
 Ver também
 http://www.macua.org/livros/VISP.htm

http://www.macua.org/livros/VISP.htm

http://www.macua.org/livros/VISP.htmhttp://www.macua.org/livros/VISP.htm

Noruegueses e a caça à baleia na Praia Amélia em Moçâmedes, Angola, no início do século XX.



 
 

 
 
 Fábrica dedicada à caça da Baleia na Praia Amélia  (primeiras décadas do século XX). 
 
Fotos de um tempo que não volta mais, mostram-nos  como decorria em Moçâmedes, uma parte importantíssima da actividade pesqueira naquela região, a "caça à baleia". 

As instalações parecem ocupar duas zonas diferentes da Praia Amélia, ou seja, os locais onde mais tarde passaram a ficar as instalações pesqueiras de João Duarte, e a fábrica de Venâncio Guimarães, paisagens que se foram modificando com o correr do tempo...




Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir, dos seus antepassados, histórias sobre a estadia desses noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca à baleia, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a 5 quilómetros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época, a Knut Knut & Sons OAS, onde durante vários anos, desde 1918 até 1929, se industrializou a carne e a gordura dos cetáceos que a sua frota abatia. 

Os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguêdo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso burgo. Ali permaneceram durante o citado período, dali partiram em 1919, e não mais voltaram, ainda que as gentes pacíficas da terra não tivessem de todo perdido a vã esperança de um breve regresso. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. 


Também permaneceram as memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, fazendo recordar os velhos tempos daquela actividade dedicada à industrialização de óleos e guanos de cetáceos na Praia Amélia. Actividade que decorreu a tal ponto que ainda às vésperas da independência de Angola, apareciam  ossadas espalhadas ao fundo da Praia das Miragens e na «Praia das Conchas».  

A caça aos cetáceos no sul de Angola. Como tudo começou?

Lembrando um pouco a história, a caça à baleia teve a sua origem entre o século XIV e princípios do século XV, no golfo da Gasconha, zona atlântica rica em cetáceos para onde partiam pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição aos gigantescos mamíferos, perseguição de tal ordem que estes animais acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. A França era nessa época a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança da actividade passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, com o abatimento de mais de 10 mil, e a situação prosseguiu até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protectores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo,  a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização  da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.

Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construdas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas,  houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares.  Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuídos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.  

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção. 
  
Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 
 
Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola, seriam, segundo o relatório do Veterinário Dr. Carlos Carneiro, um grande amigo de Moçâmedes, “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou permacete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp). Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim.
 
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Encontrámos em "Pescas em Portugal: Ultramar - um apontamento histórico" Revista Ciencias, by  António Martins Mendes, Faculdade de Medicina Veterinária, da Universidade Técnica, Lisboa , sobre a pesca dos cetáceos, com algumas informações do Dr Carlos Carneiro na obra  “O Mar de Angola”, que passamos a transcrever:

"...Acaba esta parte do seu relatório, referindo a pesca dos cetáceos e escrevendo que a sul de Moçâmedes na “Praia Amélia” (e não “Porto Amélia” como já vimos escrito...) existia uma fábrica de preparação de óleos e guanos de baleia, paralisada havia já dois anos e pertencente a uma companhia norueguesa. Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola,  seriam: “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou permacete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp).Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas  costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam  as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. Voltaremos a este assunto, mas entretanto diremos que Vilela a ele também se referira rapidamente escrevendo que a intensidade da perseguição às baleias no mar de Angola obrigara-as a procurar outras paragens para só reaparecerem 20 anos depois."

Segue uma sequência de fotos que nos dão a ideia da azáfama que envolvia esta actividade pesqueira, desde a captura dos cetáceos, passando pelo transporte até à ponte das instalações fabris, onde era, objecto de corte e escalas, seguindo-se a fase da transformação  da carne e óleo para exportação.




Em Moçâmedes, exibindo-se junto a uma baleia, tripulantes dos barcos da pesca à baleia, pertencentes à empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia»
 
Em Moçâmedes, exibindo-se junto a uma baleia, tripulantes dos barcos da pesca à baleia, pertencentes à empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia»



Curiosos junta a uma baleia que deu à costa na praia, em Moçâmedes

 
Baleeiro na Praia Amélia


Baleia a ser  erguida para a ponte da fábrica da Praia Amélia

 
Baleia a ser  erguida do mar para a ponte e Fábrica, na Praia Amélia, através de um estrado de madeira




Já nas intalações: corte e escala de  cetáceos

Corte e escala de  cetáceos
 

Corte e escala de  cetáceos



Corte e escala de  cetáceos

Corte e escala de  cetáceos


Corte e escala de  cetáceos
 
Corte e escala de  cetáceos 
 
 Corte e escala de  cetáceos
 

Partes do animal a serem levadas para o interior das instalações fabris



Os tambores de óleo para exportação

Ainda sobre cetáceos em Moçâmedes (baleias, cachalotes e toninhas... ),  o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres no seu livro «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização. 1485-1859»,  refere que no tempo do 5º Governador de Moçâmedes,   Fernando Leal, (1)  afirmara no seu relatório de 6 de Junho de 1857 , ser a costa de Moçâmedes abundante em cetáceos. sobretudo baleias, cachalotes e toninhas. A pesca, porém, da primeira dessas espécies era somente realizada nas águas distritais pelos norte-americanos, julgando Fernando Leal que os Estados Unidos desfrutavam, então, universalmente, a primazia em tão rendosa indústria, pois nela empregavam avultado número de navios, cuja relação havia lido no jornal americano Walemen´s Shipping List, pela qual concluiu deveriam sair, todos os anos, da Norte América, nada menos de oitocentos, «a percorrer os diferentes mates do globo».

Refere ainda, sobre navios baleeiros norte-americanos nas águas do Distrito, que na referida época.
(
1485-1859), "viam-se com muita frequência cruzar o Atlântico, entre a costa do Distrito e a ilha de Santa Helena, quarenta a cinquenta navios norte-americanos, apetrechados convenientemente e servidos por tripulantes hábeis e expeditos. A abundância de cetáceos nas águas distritais justificava a permanência nelas de navios destinados à sua pesca. Os navios baleeiros norte-americanos que percorriam a costa do distrito tinham apenas duzentas a trezentas toneladas de arqueação, e, circunstância digna de nota, dos vinte a trinta marinheiros que os tripulavam, grande parte eram portugueses, naturais dos Açores e de Cabo Verde, considerados pelos capitães norte-americanos como os mais destros arpoadores. Na perseguição das baleias, os navios da grande nação norte-americana, navegavam, quase sempre, pouco afastados da costa, ora dirigindo-se para o Sul até ao Porto de Pinda e a Baía dos Tigres, ora encaminhando-se pelo norte até à baía de Moçâmedes, onde por vezes ancoravam para se abastecerem de refrescos. Ao aparecimento de uma baleia, aproximavam-se dela, e, feita a pontaria, depois de calculada a distância, um marinheiro, quando não arremessava à mão o ferro frio, disparava a whaling-gun, carabina de grandes dimensões, da qual partia um projéctil alongado: a bomblance. Atingida e morta, a baleia era logo içada para o navio, em cujo costado se conservava suspensa, até ser ali cortada em pedaços, que iam sendo atirados para o convés. Uma máquina especial movida à manivela, dividia depois esses pedaços, com extraordinária rapidez, noutros mais pequenos. Estes últimos eram, em seguida, metidos em duas grandes caldeiras de ferro, assentes em fornalhas de tijolo, que se viam a dois terços do navio, para o lado da proa. Derretidos os pedaços contidos nas caldeiras, os baleeiros tiravam delas o azeite, tendo gasto na sua fabricação muito pouca lenha, porque aproveitavam sempre, como combustível, os ossos e os torresmos. Fernando Leal no seu lúcido relatório donde extraimos a notícia que aí fica, declara-nos que os baleeiros norte-americanos «não perdiam ensejo algum que se lhes oferecesse de perseguir a baleia, quando ancorados no porto de Mossâmedes». e  que «havia dias» (o relatório tem a data de 14 de Abril de 1857) «tinham aparecido na baía dois baleotes, e um dos navios que nelas estavam a refrescar deu-lhe caça com quatro escaleres, conseguindo arpoá-los e conduzi-los para bordo»."

(1) Fernando Leal, foi o 5º Governador de Moçâmedes: ver AQUI

Outros escritos referem que no início da colonização de Moçâmedes, muito ajudou em termos económicos o abastecimento em frescos a esses navios baleeiros norte-americanos que desde a Ilha de Santa Helena se aproximavam a costa  e a percorriam dirigindo-se para o Sul até ao Porto Alexandre e a Baía dos Tigres, e para norte até à Moçâmedes. E que foi gramas aos seus tripulantes que os pescadores de Porto Alexandre ficaram a saber da riqueza em pescado dos mares da Baía dos Tigres e se aventuraram em 1865 a começarem por se fixar ali.

Mais tarde, como foi aqui referido, após a saída dos noruegueses, a Praia Amélia passou a ser conhecida pela permanência ali de duas grandes instalações pesqueiras, que eram as de Venâncio Guimarães e as de João Duarte. Sobre este último, segue uma página de revista:



MariaNJardim


1) A Praia Amélia era assim chamada porque em l842 ali encalhou a escuna Amélia da Marinha de Guerra Portuguesa. A escuna "Amélia" era o aviso "Princesa D. Amélia", da esquadra miguelista, comprado em Inglaterra e apresado pelos liberais em 1833, em plena fase das lutas do liberalismo contra o absolutismo em Portugal, que terminaram em 1834 com o triunfo dos primeiros.  Apesar do seu pequeno porte o navio era valente, ligeiro e óptimo para qualquer golpe de mão. Em 1842 levantou ferro para Angola como correio marítimo, e em 13 de Dezembro desse ano, quando se achava próximo da Ponta Sul da baía de Moçâmedes, encalhou em pedra de 1.5 braças, saltando fora, e acabou por se afundar. ( Fonte: Arquivo da Marinha).
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Sobre o "banco" da Praia Amélia, origem de alguns naufrágios, transcreve-se parte de um texto retirado do Blog Tropicália:

"...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul.A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios. É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas. Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar.Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."


Sobre a pescaria de João Duarte,   consultar aqui:   http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2014/08/joao-duarte-e-pescaria-da-praia-amelia.html

Aos interessados na História de Angola e na História de Moçâmedes, hoje Namibe, deixo-vos a referência a este livro, intitulado "Demonstração geográfica e política do território português na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846 e publicado no Rio de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de Moçâmedes.  O seu autor, Joaquim António Menez, escreveu este livro no desejo de chamar a atenção dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruído as benéficas disposições que podiam tornar fluorecentes as Províncias de além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência. O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezasseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quase extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.

Seriam as determinações saídas da célebre Conferência de Berlim (1884-5) que iriam obrigar Portugal a lançar um outro olhar sobre as suas colónias africanas, essencialmente para a nova "joia da corôa", Angola, que durante séculos não fora além de mero entreposto de tráfico de escravos para o Brasil e Américas...



MariaNjardim


Ver também:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2014/03/mossamedes-mocamedes-e-caca-da-baleia.html