Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Hospital de Mossamedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) até 1950 era assim...

      Palácio, Igreja e Hospital D. Amélia, sitos na então Avª Felner,  Moçâmedes-Angola
 
Hospital D. Amélia, na Avª Felner, Moçâmedes-Angola
 
O Hospital D. Amélia, encontra-se, nesta foto, ao fundo à dt. a seguir às pequenas vivendas de madeira que à época existia, destinadas a funcionários públicos, na Avª Felner, em Moçâmedes-Angola
 
 
Ainda chegámos a conhecer o Hospital D. Amélia, situado em local privilegiado e de alta salubridade, voltado para o mar, a meio da Avenida Felner,  a extensa Avenida que liga o "centro histórico" da cidade de Moçâmedes, à Torre do Tombo, e assim baptizado em homenagem à Rainha, esposa do rei D. Carlos l de Portugal. Dividido em corpos -- corpo central de 1º andar e arquitectura do classicismo, ladeado por 2 pavilhões em madeira, destinado aos internamentos--, era ali que ficava a Delegacia de Saúde e a morada do Delegado (no 1º andar do mesmo corpo central), bem como o sistema administrativo  (no piso térreo). Era também ali que decorriam as consultas, as vacinações, etc etc. Foi demolido por volta de finais dos anos 1950, para dar lugar a modernos edifícios públicos. 

Quanto ao primeiro Hospital que o antecedeu, aí vai um texto que encontrei na publicação ”Primeiras Letras em Angola”,  Edição da Câmara Municipal de Luanda - 1973, de Martins dos Santos, pag.s 74 e 75,  que nos remete para uma época mais recuada, quando Moçâmedes era em Angola considerada a vila com o clima mais salutar para a recuperação de doentes depauperados pelo doentio clima de África, e que até então, ou pereciam precocemente na colónia, ou . 
 
Como vem referido no  texto que segue, antecedeu este Hospital, um Hospício fundado em 1856,  e um Sanatório fundado em  1885,  ambos criados com o mesmo fim, o da recuperação da saúde daqueles que a longa permanência em Angola tinha depauperado,  uma vez que logo após a fundação de Moçâmedes pelos luso-brasileiros de Pernambuco, em 1849,  ficou confirmada a ideia de local salubre, que nada tinha a ver com a pantanosa e doentia Benguela, nem como escaldante e igualmente doentia Luanda, local ideal para  cura e de repouso, sobretudo para o  funcionalismo público que teria até então de se deslocar para a Metópole.  


"...Mossâmedes foi escolhida para local de cura e de repouso, sobretudo para o  funcionalismo público. A junta de saúde enviava para ali os doentes que  careciam de mudança de ares e estada em climas saudáveis. Fundou-se um  hospício em 1856; algumas dezenas de anos mais tarde, em 1885, era estabelecido o Sanitarium, de que se esperava frutos abundantes na recuperação da saúde daqueles que a longa permanência em Angola tinha depauperado. Extracto do Livro ”Primeiras Letras em Angola” - Edição da Câmara Municipal de  Luanda - 1973, de Martins dos Santos - Pag.s 74 e 75


Acreditamos que o Hospício que o texto refere, fundado em Moçâmedes, em 1856, seja o Hospital Militar D. Fernando, de início construído para habitação particular em local voltado para o mar que se pressupõe ter sido na mesma Avenida Felner onde mais tarde foi construído o Hospital D. Amélia. Eis na íntegra o que vem referido in Annais do Conselho Ultramarino- parte não Oficial, l Serie Fevº de 1854 a Dezembro de 1858:

«...Hospital.—Ha em Mossamedes um hospital militar, denominado de S. Fernando, situado ao sul, e a meia milha ou mais de distancia da villa, em local que offerece boas condições hygienicas. Elle não foi construído para este fim, mas para uma habitação particular. Consta de duas casas com um quintal intermédio; na anterior que tem a frente virada para o mar ha uma enfermaria que tem oito camas e mais quatro quartos, cada um com uma; a outra casa posterior é repartida em tres quartos desiguaes, o maior serve de enfermaria para negros, e accommoda oito ou dez doentes; o mais pequeno para arrecadação de roupas, louças, etc.; e o médio para a botica do mesmo hospital. A um dos lados do quintal se oferecem duas cozinhas, uma para usos ordinários, e a outra para os da botica. No mesmo quintal existe uma pequena casa bem arejada, própria para deposito de cadáveres e para dissecçõcs ou autopsias. Este hospital é pobre de roupas, de camas, e de outros objectos.O serviço é feito por dois enfermeiros, que são praças destacadas da companhia, por uma liberta empregada no trabalho culinário, por um negro também liberto que faz o serviço externo, e pelo facultativo. A botica não tem pharmaccutico, nem homem com alguma pratica, que possa dispensa-lo; por isso o mesmo facultativo tem também de fazer pillulas, decocções, misturas, xaropes, etc., e satisfazer ao mesmo tempo ás necessidades clinicas da villa e dos seus subúrbios. São admittidos neste hospital os doentes 

O serviço é feito por dois enfermeiros, que são praças destacadas da companhia, por uma liberta empregada no trabalho culinário, por um negro também liberto que faz o serviço externo, e pelo facultativo. A botica não tem pharmaccutico, nem homem com alguma pratica, que possa dispensa-lo; por isso o mesmo facultativo tem também de fazer pillulas, decocções, misturas, xaropes, etc., e satisfazer ao mesmo tempo ás necessidades clinicas da villa e dos seus subúrbios. São admittidos n'este hospital os doentes particulares, e pagam à Fazenda 1000 réis diários; pelos escravos aqui tratados, se contam 400 réis também diários; os pobres são curados de graça.

A capacidade do hospital de Mossâmedes satisfaz na actualidade ao movimento dos doentes, porém vindo o batalhão de caçadores 3, e crescendo por outro lado a população como é de esperar, elle será insuficiente. À vista d'isto sou de opinião que, quando se edificar o hospital para os convalescentes, como está determinado, se faça um edifício em duas secções separadas, oferecendo um quintal entre ambas, de modo que uma d'estas divisões seja accommodada ao tratamento dos convalescentes, e a outra ao das doenças ordinárias.

Emquanto ao local que acho mais próprio para esta obra, é o seguinte. Já disse que a igreja se acha situada n'um logar elevado, que domina a villa; ao norte e próximo d'esta, em alinhamento com a sua frente que olha para o mar, está em começo o palácio do governo, ficando entre estes dois edifícios uma pequena praça. Do lado opposto da mesma igreja, no dito alinhamento, deverá para o futuro, como o 111.mo Sr. Governador d'este districlo já tem em vista, construir-se em symetria com o palácio um quartel para tropa. Ora, o mesmo alinhamento, a uma distancia conveniente, e ao sul d'este quartel projectado, ficará muito bem collocado o novo hospital. Este ponto é alto, bem arejado, e d'aqui se contempla toda a bahia; é verdade que offerece um terreno árido, que se não presta á formação de um jardim, como se pretende para o hospital dos convalescentes, mas também nenhum outro logar se apresenta capaz para este fim a não ser nas hortas ou Boa-Esperança; porém estas localidades tem inconvenientes, por serem desfavorecidas de boas condições hygienicas; são baixas, húmidas e expostas allluvios prejudiciais. "

Outra literat
ura encontrada a respeito:
 
 
 Nesse mesmo ano de 1854, não havia edifício apropriado para o hospital, tendo o governador Fernando Leal mandado reparar o hospital existente, composto por duas casas, separadas por um quintal. Requisitou medicamentos, camas e roupa, porque, como refere Brito Aranha, “de tudo careciam os doentes. [...] não encontravam socorro, nem quem os socorresse”1. E, a 14 de Janeiro de 1857 chegou a Mossamedes o médico João Lapa e Faro, incumbido de dirigir o hospital4, que, dois anos depois, estaria minimamente apetrechado, a avaliar pela notícia inserta no Relatóriodo Governador António Joaquim de Castro. Esse relatório, datado de 01 de Janeiro de1860, mas que se reporta a 1859, embora reconhecendo a insuficiência do hospital,considera que Lapa e Faro ia dando conta do recado e que a farmácia estava razoavelmente provida de medicamentos5Também por iniciativa do Governador Fernando Leal, começou a ser construído, em1858, o palácio do Governo, o qual viria a ser devastado por um incêndio, ocorrido em1899.
 
1 ARANHA, Brito – Memórias histórico estatísticas de algumas vilas e povoações de Portugal. Lisboa: A.M. Pereira, 1871, p. 273.
2 João Lapa e Faro, no “relatório” Breve notícia sobre o clima de Mossamedes, o hospital é descrito em pormenor. Vide ANAIS do Conselho Ultramarino, série 1ª, p. 504.3 BOLETIM do Governo Geral da Província de Angola nº 758 (1860-04-14).
 

Para saber mais sobre o primeiro médico de Moçânedes: http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2011/06/pioneiros-da-fundacao-de-mossamedes.html
DOENCAS TROPICAIS , Clicar AQUI 
 
 
No ano de 1862, o Governador Geral de Angola,  Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes,  em resposta a uma exposição feita pelo Governador do Distrito de Moçâmedes, concede aos colonos pobres e aos degredados a possibilidade de serem tratados gratuitamente no referido Hospital Militar. Vidé a respeito o texto que segue:

N. 28 (pg. 143)

O governador geral da provincia de Angola e suas dependencias determina o seguinte:

Atendendo á exposição feita pelo governador do districto de Mossamedes em offieio n.° 523 de 17 de dezembro do anno preterito, ácerca da necessidade de serem admittidos no hospital militar d'aquella villa, quando enfermos, os colonos pobres e degradados que o governo para ali tem mandado com o fim de se empregarem na agricultura, e conformando-me com a opinião da junta da fazenda publica: hei por conveniente conceder que durante o corrente anno sejam tratados por conta da fazenda no hospital militar de Mossamedes aquelles dos colonos e degradados ali existentes, que por serem pobres não tiverem meios para se tratar á sua custa, ou pessoa que possa e deva soccorre-los nas suas enfermidades, sendo abonado ao mesmo hospital por cada um d'elles o vencimento correspondente a um soldado.

As auctoridades e mais pessoas a quem o conhecimento d'esta compelir assim o tenham entendido e cumpram. Palacio do governo em Loanda, 5 de fevereiro de 1862. — Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.


No Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349 PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.  



O primeiro médico que surgiu em Moçâmedes: o Dr. JOÃO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO  
 
Importa referir que o primeiro médico que surgiu em Moçâmedes foi o Dr. JOÃO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO,  referido na obra "Quarenta e Cinco Dias em Angola", de autor anónimo, publicada em 1862, como possuidor de uma propriedade no sitio dos Cavaleiros, médico hábil e prestativo, pessoa estimada no meio que "... para   mais comodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. ". "...Lapa e Faro preferindo viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz magnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de casado em Portugal, parece estar no firme propósito de trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde tenciona occupar-se da cultura do algodão."
 
 

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