Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Povos antigos de Mossamedes (Moçâmedes - Namibe): lwimbali ou vimbali - kimbares festejam o Carnaval



Quimbares festejando o Carnaval com danças de rua, algures nos finais do século XIX, inícios do século XX, em Moçâmedes, Angola, na Rua dos Pescadores. Quanto à data, pensa-se que este postal, como outros mais que este blogue tem vindo a apresentar, fazem parte de um conjunto de postais publicados por ocasião da visita do Principe Luis Filipe, em 1907, no decurso da qual Moçâmedes foi elevada a  cidade.

Repare-se no pormenor curioso  das pessoas que  se encontram a janelas de suas casas apreciando o desfile, protegidas do sol com sombrinhas ou guarda-sois. Não admira, o Carnaval  naquela zona  do hemisfério sul representa o pico do Verão, e as sombrinhas ou guarda-sóis estavam na moda e ainda em meados da década de 1950, era comum ver-se senhoras assim apetrechadas quando saiam à rua.

 
Quimbares festejando um Carnaval em Moçâmedes no início do século XX
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Qual a origem do povo Quimbar? 

Quimbar (etim.adap.diacr. do kimb. Kimbadi / Kimbari, s.(i); aquele que, sendo aculturado pelo contacto com os colonos, volta ao seu povo de origem; O.OR. umb. Otximbali, vl.SW Tyimbali; Vimbali). 
 
Este grupo populacional  africano do distrito de Moçâmedes, era maioritariamente composto por ex-escravos,
do grupo etnolinguístico Herero, quibundos e ambundos, que haviam sido libertados de navios negreiros apresados na costa angolana, na sequência da abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, decretada em 1836, em seguida recrutados a partir de Luanda,  e enviados de inicio para ali nos primórdios da fundação, para prestarem serviços nas diversas actividades económicas em formação, nomeadamente na agricultura e pescas, passando a fazer parte da população negra permanente das zonas costeiras do distrito de Moçâmedes, curso inferior do rio Curoca, Porto Alexandre, etc.

Afastados da sua origem, os primitivos escravos , ex-escravos e livres, para Moçâmedes enviados, vieram posteriormente a sofrer cruzamentos com elementos de outras tribos, miscigenando-se, perderam a conotação étnica, foram criando sua própria  língua o owimbali. e no contacto com patrões brancos passaram a falar português e assimilaram grande número de elementos culturais dos seus antigos patrões, o que é comprovado pelo facto de, na língua cuanhama, os termos bali, lwimbali ou vimbali, significarem "aqueles que andam com os brancos".  Eram africanos aportuguesados que vestiam panos da cintura para baixo. Os homens vestiam calças e camisa e, por outro lado, as mulheres vestiam pequenas blusas cobrindo o busto. Andavam descalços e viviam quer em Moçâmedes (Namibe), quer espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas da província, entre Benguela e a Baía dos Tigres e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia.  Não andavam nus ou semi-nus, como os povos que deambulavam pelo deserto do Namibe levando uma vida nómada ou semi-nómada, dedicando-se à caça, ao gado e ao pastoreio, ou vivendo nas margens dos rios Bero, Giraúl e Coroca, e que, praticamente, salvo raras excepções, nunca se deixavam assimilar, não obstante os contactos e a proximidade que passaram a ter com os recém-chegados.  Quando os portugueses se estabeleceram em Moçâmedes não podiam com eles contar como «escravos» nem como trabalhadores livres para as suas fazendas.
 
Mas os "quimbares" de Moçâmedes nos primórdios da fundação não sofreram apenas a influência dos portugueses adquirida nas relações de trabalho, eles sofreram também a influência de serviçais africanos que acompanharam seus patrões vindos de Pernambuco, Brasil em 1849 e 1850, em face das hostilidades nativistas, e que possuíam já uma cultura própria, ainda africana, mas já cristianizada, tocada por usos e costumes luso-brasileiros.
 
Como refere este text:
 
Assim como os portugueses de Pernambuco, também os seus serviçais africanos abrasileirados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações negras, tal como veio a acontecer com paisagens e culturas.  Gilberto Freire detecta na sua estadia em Moçâmedes, em 1951, a convite do governo português,   a construção de "casas-grandes e de senzalas", o cultivo de algodão e de cana-de-açúcar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estandantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, que constituem marcas definidoras dessa presença. Nos antigos cemitérios indigenas de Moçâmedes, ainda se podia encontrar  no tempo colonial  no que toca à Arte Mbali,  a arte fúnebre do povo quimbar de Moçâmedes, a nítida diferença entre os túmulos dos brasileiros dos brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste,   em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano. Contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados.   

Consultar:  RIO DE JANEIRO, Imigrantes Angolanos.
 
Mossâmedes foi, em meados do século XIX, o núcleo experimental de uma nova política colonial de povoamento e desenvolvimento do território de Angola, foi ali que pela primeira vez  se estabeleceu o primeiro contingente de familias luso-brasileiras  vindas de Pernambuco, fugidas da revolução praeeira. Foi um início de colonização de certo modo inesperado, que ao nível do trabalho, proporcionou o contacto entre brancos e negros vindos de fora e para ali transferidos, uma vez que os povos da região sul, povos do deserto, agarrados aos seus modos tradicionais de vida, eram avessos à assimilação.  Um desses povos eram os Ba-cuvale e os Ba-semba. Sobre esses povos e a sua índole resistente à integração, António Francisco Nogueira, africano de origem (retornado), componente da segunda colónia vinda de Pernambuco, Brasil, em 1850,  e autor do livro «A Raça Negra», revela-nos o seguinte:

«...em Mossâmedes não há escravos»
«...no interior, os Ba Cuvale e os Ba Semba preferem às vezes a morte a deixarem-se conduzir como prisioneiros de guerra para fora de suas terras».

O autor refere-se à indole insubmissa dos Ba cuvale e dos Ba Semba que não se submeteriam às outras tribus na condição de prisioneiros de guerra, situação muito comum à época, entre os africanos. E do mesmo modo, quando os portugueses se estabeleceram em Moçâmedes não podiam com eles contar como «escravos» nem como trabalhadores livres para as suas fazendas. Sobre os Ba Nhaneca e os Ban Kumbi, povos que ocupavam no interior de Moçâmedes a região do alto da Chela até ao rio Cunene,  Nogueira refere-os como povos agricultores e pastores que patenteiam sedentários perfeitamente dóceis, hospitaleiros, amigos dos brancos, principalmente os Ba Kumbi, que possuiam riqueza considerável em gado, uma forma de governo tipo monarquia, ainda que inferior, mas já com a sua corte, a sua pequena arte que se revela primeiras formas de desenho, escultura, música, poesia, em certos conhecimentos de aritmética, mecânica, industria, tais como serralharia, cerâmica, etc. 
 
Em toda a sua  obra Nogueira procura demolir toda a série de preconceitos raciais, incluso os veiculados ma época a partir de teorias darwininstas, etc, que negavam a capacidade de evolução civilizacional da sua a «raça», e levanta ainda, entre outras, a problemática do trabalho, ou seja, o modo como se persistia em encarar o negro como simples instrumento de trabalho. Na defesa da boa índole do negro, refere que os que habitavam o interior de Moçâmedes, «amam extremamente os filhos conquanto seus herdeiros sejam os sobrinhos, filhos da irmã». E que « Missionários capuchinhos ensinam negros a ler e escrever e conseguem». Nogueira faz-nos ainda algumas revelações sobre o que lhe foi dado observar nos 12 anos de contactos que tivera  com os povos do interior de Moçâmedes, isto é, de 1850 a 1862, encontrou povos em vários estágios civilizacionais, que iam desde a prática de uma vida verdadeiramente selvagem, errante ou nómada, até à de uma vida sedentária e agrícola.

 
Vejamos o que a este respeito nos diz este texto encontrado na Net:

"....Durante os séculos XVII e XVIII, a política portuguesa em Angola era dirigida do Brasil e as relações poticas e económicas entre os dois países eram tão estreitas, com tantas personagens e factos históricos comuns  que o historiador Jaime Cortesão não hesitou em  considerá-la "uma província portuguesa do Brasil". Mais ou menos como Benin, Togo e Nigéria, Angola também recebeu africanos e descendentes retornados do Brasil. Fixados notadamente em Moçãmedes, actual Namibe, eram sobretudo Ambundos e chegaram portanto, uma cultura própria, cristianizada, eivada de hábitos brasileiros. Tanto, que na língua dos cuanhamas o termo que os define  e bali (também lwimbali ou vimbali), que significa, literalmente, "aqueles que andam com os brancos". 
 
  A ARTE FUNERÁRIA MBALI, ARTE DO POVO QUIMBAR


Já se fez aqui referência ao contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do distrito de Moçâmedes, entre os europeus e a mão-de-obra negra. Desse contacto nasceu a arte funerária Mbali. Trata-se de uma arte que se caracteriza por cruzetas de pedra, especialmente talhadas em pedra ferro, madeira ou cimento armado, mais ou menos trabalhadas, colocadas nas sepulturas, um ano após a morte dos indivíduos e por ocasião da festa da cruzeta. A elas é atribuída tríplice função, a identificação do morto, a sua veneração e a propiciação do espírito do morto que consiste no sacrifício ou oferta a uma divindade para lhe aplacar a cólera ou para a agradar. Assim era hábito dos canteiros inserirem nas cruzetas os utensílios profissionais dos falecidos como barcos, anzóis, tesouras, animais, espingardas e plantas ou outros símbolos identificadores tais como a mão cortada para indicar os manetas, o cachimbo de cangonha para os fumadores, o leão para os caçadores, a bola para o futebolista, o chicote, a palmatória e o cajado para o capitão, a cobra para o foi mordido por um ofídio, e muitos outros símbolos.

O cemitério de São Nicolau, é um dos locais mais interessantes para o estudo da arte funerária Mbali.  S. Nicolau é por ironia o  local onde se situava no tempo colonial o Centro Prisional do Bentiaba, vulgo Cadeia de São Nicolau, numa área entre montanhas e o rio Bentiaba. tendo sido oficializada como tal em 1974, por decreto 68/74 de 29 de Agosto e publicado no Boletim Oficial nº 201, 1ª série, ocupando uma extensão territorial de 45.000 hectares. Nas imediações desse Centro de má memória, lugar de tortura para muitos angolanos, encontra-se o Cemitério de São Nicolau, com suas sepulturas em arte funerária mbali, a par de outras que podiam ser vistas no então denominado Cemitério Indígena de Moçâmedes. Ali se podiam ver as obras
de um dos mais afamados canteiros negros, Victor Jamba, que sendo escravo de Duarte de Almeida, foi mandado especializar em Lisboa em estelas funerárias. É a ele que se deve boa parte das esculturas fúnebres Mbali, nos cemitérios de São Nicolau e de Moçâmedes, hoje Namibe. Daí a característica dos seus trabalhos apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajos. Há pois que ter em linha conta que este tipo de arte funerária, rara em África, foi fruto de um convívio próximo entre descendentes de escravos africanos e patrões europeus e luso-brasileiros, que deixou marcas importantes, de inegável valor, quer espiritual quer histórico na arte funerária angolana, que deve ser respeitada e conservada.

Num artigo intitulado “Escultura tradicional angolana e seu ensino nas escolas formais de Arte”, da autoria de Francisco Van-Dúnem vem referido «que, de acordo com Redinha, a Arte Mbali dedicou-se principalmente a desenvolver uma arte funerária expressa em campas e outro tipo de arte acessória como monumentos fúnebres.» Refere também que não obstante este tipo de arte ter tomado uma particular autonomia artística, ela provém de um processo de aculturação (interpenetração de culturas), devido ao facto de que esta arte é de costume e de inspiração europeia, trazida à Angola por um indivíduo que aprendeu o ofício em Portugal e ao voltar a Angola, bantuizou-a. De acordo com Oliveira, a Arte Mbali surgiu apenas em meados do séc. XIX, tendo sido forjada entre elementos de várias etnias locais e por outras etnias vizinhas da província do Namibe, que assimilaram a cultura dos seus patrões de raça branca e aceitaram viver segundo um padrão moral em que os traços da cultura europeia se misturaram com certo êxito às contribuições da mentalidade dos autóctones. O mesmo autor acrescenta que a arte Mbali é essencialmente funerária representada por estelas de pedra, madeira ou cimento, sendo algumas estelas feitas em baixo relevo alusivos à pessoa morta e quase sempre encimadas por uma cruz de nítida inspiração europeia».


Ver também Povos Angola AQUI 


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