Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Componente da 2ª colónia de Pernambuco (Brasil) : António Francisco Nogueira






 
António Francisco Nogueira, componente da Segunda Colónia,
                                                      autor do livro «A Raça Negra».

Créditos de imagem: Caderno comemorativo da fundação 
de Mossamedes, datado de 4 Agosto de 1991.

Sem uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e bancário), revelando-se durante a sua permanência no Sul de Angola como um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da Metrópole e, por último, um importante livro de ensaios com o título genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:


[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?


[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!


Como refere Leonel Cosme em Literatura e as guerras em Angola. No Princípio Era o Verbo:

...Este colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando, mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”. Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:

Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
 
António Francisco Nogueira, literariamente A. F. Nogueira, integrou a colónia formada em Pernambuco, em consequência da Revolta Praieira, que em 1849-50  chegou à região de Moçâmedes, na expectativa de substituir um Brasil em estado de revolta nativista por uma nova “Terra da Promissão”. 


Com a intentona que a independência do Brasil inspirou nas cidades de Benguela e Luanda, denominada Confederação Brasílica, em 1822-23, sob a égide de um dito “partido brasileiro”, constituído por brasileiros, portugueses e angolanos, saltava à vista que a narrativa da Portugalidade no futuro de Angola teria vários pronunciamentos.

António Francisco Nogueira, não tinha uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e bancário), revelou-se durante a sua permanência no Sul de Angola como um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da Metrópole e, por último, com um importante livro de ensaios com o título genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:
[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?
[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!
"...Este colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando, mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”. Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:
Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
Macedo sabia bem do que falava: em 1901 tinha vindo a lume, impresso em Portugal, um libelo escrito por destacadas personalidades angolanas, civis e religiosas, que sob anonimato verberavam as críticas racistas de um deputado português de visita a Angola. Intitulava-se esse livro Voz de Angola Clamando no Deserto, cujo primeiro depoimento – “Solemnia Verba” –, por muito apaziguador que fosse, não iludia o que subjaz à expressão latinista: Solene Advertência. "

Quanto à situação do negro, António Francisco Nogueira procura demolir preconceitos darwininstas, etc,  em relação à capacidade de evolução civilizacional da raça negra, e  levanta entre outras, a problemática do trabalho, ou seja, o modo como se persistia em encarar o negro como simples instrumento de trabalho

Este era o caldo que eferverescia na colónias às vésperas do golpe de Estado que deitou por terra a 1. República



Narciso Francisco de Sousa



Narciso Francisco de Sousa, foi um dos componentes da segunda colónia chegada a Moçãmedes no ano de 1850, vinda de Pernambuco (Brasil), por ocasião da onda de antilusitanismo gerada pela revolução praieira que tornara insuportável a vida dos portugueses naquela ex-colónia. Sabe-se que em Moçâmedes, Narciso Francisco de Sousa foi proprietário de um fazenda em S. Nicolau, a norte de Moçâmedes, onde, entre outras espécies agrícolas, se dedicava à cultura da urzela. Há notícias de que a propriedade de Narciso Francisco de Sousa se vira envolvida na onda que alguns autores chamaram de «revolta dos escravos», e que a sua propriedade abandonada pelos escravos que ali trabalhavam na apanha da urzela .m Por essa altura as autoridades de Angola procuravam implementar o decreto de Sá da Bandeira que em 1836 havia proibido o tráfico de escravos africanos para o Brasil e Américas, mas não tocara na mão de obra escrava considerada mais do que nunca imprescindível para o desenvolvimento económico do território que se procurava promover através da fixação de novos colonos.

As costas de Angola eram constantemente patrulhadas por navios da marinha portuguesa, e os traficantes de Luanda e Benguela ao verem-se perseguidos trataram de desviar os navios para as pequenas e discretas enseadas do Ambriz e norte de Moçâmedes. Apanhados nas malhas da lei, os navios eram apresados e os escravos passavam a mudar de estatuto tomando a categoria de «libertos» categoria intermédia entre o escravo e o completamente livre, e passaram a ser canalizados como mão de obra «liberta» mas escrava, uma vez que não se podiam negar, dada  necessidade de braços  imprescindíveis para o desenvolvimento de Angola nesses primeiros tempos da fixação.

Assim, enquanto se tentava aplicar a lei de 1836, paralelamente, os escravos que eram libertados dos navios apresados, passavam ser enviados para as plantações, pescarias, etc., que começavam a despontar,  carentes de mão de obra indígena, misturando-se com outros serviçais.  Estava-se em pleno ápice das revoltas escravas em Angola. O temor de um retrocesso na aplicação da lei que levasse de novo aos embarques ilegais atingiam todos os escravos.

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Créditos de imagem: Caderno comemorativo da fundação de Moçâmedes, datado de 4 Agosto de 1991.


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