Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma perspectiva de Moçâmedes, in Navegação de Paz e de Glória, de Dutra Faria

Navegação de paz e de glória.: FARIA, Dutra, 1910-1978












"SUBINDO A SERRA DA CHELA"


..."Cidade de pescadores,em seu aspecto portuguesíssima e paupérrima,com sua população humilde formada por algarvios e outros homens do litoral metropolitano , laboriosos, tenazes,com o gosto, o amor, a paixão do mar,proprietários e tripulantes de trezentos barcos -- Moçâmedes há muito que ficou para trás entalada entre as ondas do Atlântico sulcadas de velas,as rochas da Torre do Tombo esburacadas de cavernas e as areias e pedregais do mais feio, mais árido e mais monótono deserto do mundo,através do qual as cabras de leque galopam,tímidas e airosas,numa fuga desabalada e pânica...

... De novo desembarcados, o nosso automóvel galga já os contrafortes da imensa e agressiva serra da Chela. Os olhos descobrem,na estrada, as primeiras curvas perigosas;alcançam da estrada os primeiros abismos tenebrosos. Lá em baixo,é o deserto que se alonga até aos confins do horizonte"....."Sucedem-se, essas ruínas, por assim dizer de quilómetro em  quilómetro, nuas, desamparadas, esquecidas, sem uma lápida, sem um placa que fale da sua história aos que passam, trágicas como túmulos abandonados. Páginas apagadas -- desfeitas -- de uma epopeia silenciosa e anónima. Marcos de um esforço e de uma vontade animados por uma esperança e por instinto de império. Passos de um lento calvário. Outras tantas experiências de colonização ao longo dos caminhos da serra, na marcha para os planaltos de Angola"...

...A terra parecia fértil, luxuriante, a vegetação dócil, o gentio. Detinha-se numa daquelas clareiras, uma família de colonos. Desengatavam-se os bois da "espana".Amassavam o barro.Punham os tijolos a secar ao sol. Derrubavam árvores. Desbastavam troncos. Levantavam as paredes da casa, cobriam-nas de capim bem seco. E mal o fogo crepitava na pedra da lareira, afugentando para longe as sombras e os pavores da noite africana, o colono voltava-se para a terra, ateando queimadas, arrancando raízes,abrindo canais de irrigação, revolvendo endurecidos torrões a golpes de enxada,deitando,enfim,nos primeiros sulcos do arado,os primeiros grãos de trigo ou de milho. Mas a terra negava-se. Não era,afinal o que parecia. Novamente o colono engatava os bois, novamente partia, comprido chicote em punho, deixando a casa,voltando-se as costas... Mais adiante !...mais adiante !..."

...Entrámos nós também no planalto. Entretanto anoiteceu, e por cima das nossas cabeças parecem mais perto de nós as estrelas. Acabou-se a estrada tormentosa, íngreme,ladeada de precipícios. Rectas agora sucedem-se às rectas. Depois, ao longe, avistam-se luzes como de uma grande cidade. Mas aquelas luzes movimentam-se, deslocam-se, avançam, correm -- vêm ao nosso encontro. São archotes, milhares de archotes empunhados por milhares de pretos. A uma luz vacilante e vermelha destacam-se da treva, por entre a fumarada, tatuagens medonhas, colares e pulseiras de luzidio cobre, facas e azagaias que reluzem, carapinhas emplumadas, bocas abertas, escancaradas num pasmo selagem. " (pgs.: 142-143-144-146) 

(Transcrições parciais da obra: "A NAVEGAÇÃO DE PAZ E DE GLÓRIA" , de DUTRA FARIA (1910-1978) em "ANTOLOGIA DA TERRA PORTUGUESA - O ULTRAMAR PORTUGUÊS - ANGOLA" - 1961  
Agência Geral das Colónias, 1945 - 165 páginas

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As colonias portuguezas no seculo XIX, by Manuel Pinheiro Chagas




Pinheiro Chagas um dos mais importantes e influentes políticos do seu tempo (1842-1895)




Pinheiro Chagas viveu uma época de grande tensão, em que Portugal era confrontado com crescentes problemas levantados pelas potências europeias, especialmente a Grã.Bretanha e a Alemanha, interessadas na "Partilha de África", para além das pressões anti-esclavagistas lideradas pela potência britânica, que punha em crise a velha partilha de esferas de influência naquele continente, e ameaçava a manutenção do controlo luso sobre boa parte dos territórios tradicionalmente reclamados como estando sob soberania ou protectorado português.
Estas e outras questões, levaram à convocação da Conferência de Berlim, que decorreu de Novembro de 1884  a Fevereiro do ano seguinte, num ambiente de grande exaltação patriótica em Portugal, em boa parte preparado. Foi neste contexto que Pinheiro Chagas se associou a um grupo de intelectuais e políticos para fundar, à imagem das sociedades de exploração britânicas, a Sociedade de Geografia de Lisboa. O objectivo era dar corpo a um conjunto de viagens de exploração em África que rivalizassem com as realizadas sob a égide britânica, francesa e belga. Foi assim que nasceu o mapa cor-de-rosa e se realizaram as grandes viagens de exploração entre 1884 e 1885. 

Pinheiro Chagas  manteve sempre uma muito activa presença parlamentar e na imprensa, para além de ser à época considerado como um dos mais conceituados escritores portugueses.  Faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1895. Foi um dos grandes vultos da história portuguesa, tendo sido vítima de uma odiosa agressão, mal esclarecida, da qual nunca se recuperou.

Eis como Pinheiro Chagas encararava o estado de abandono em que se encontravam as colónias africanas às vésperas da Conferência de Berlim (1884-5), onde, excepto a acção de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes, pouco mais se fazia !


"...As colónias africanas eram um vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do continente os mais torpes elementos das tropas nacionaes."

Em 1817, quando acabou a guerra peninsular e se tratou de mandar uma expedição para Montevideo, organizou-se com a flor dos nossos regimentos, pozeram-se à sua frente officiais como Lecou, Saldanha, Azevedo e Claudino.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expedição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre t

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu, esse animo generoso. Promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-no de utopista, accusavam-no de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou a fugir.
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836  porque os escravistas não a deixavam executar. D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique, via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que à escravatura deviam.

De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absorviam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Ber- nardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Lu- ctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se trans- formou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos ! E pouco mais se fazia ! 

Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras. 

Trinta e três annos depois é que o auctor destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia !"


As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890)

https://archive.org/details/ascoloniasportu00chaggoog

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Concha Pinhão, in Sabor Amargo Amargo Sabor





Moçâmedes, a minha terra e suas suas gentes, foram fonte inspiradora de poetas que por ali passaram, ou que ali nasceram, e nos legaram poemas tocados pelo sentimento e pelas emoções sentidas e vividas pela acutilância da mensagem que procuraram passar, dignos de serem dados a conhecer ao mundo.
 
Tinham passado 33 anos sobre a independência de Angola. Num dos encontros anuais na mata de Caldas da Rainha voltei a ver a poetisa Concha Pinhão, esposa do Dr. Pinhão de Freitas, que foi médico em Moçâmedes. Estava ali a oferecer aos moçamedenses interessados na sua poesia alguns exemplares do  seu livro de poemas «Sabor Amargo, Amargo Sabor». Tive o prazer de ser uma das contempladas com um exemplar desse livro onde a poetisa nos mostra  toda exuberância de artista, numa Angola que a fascinou, quer pela sua majestática beleza, quer pelas suas gentes, com quem partilhou os anos mais dourados  de sua vida.

A Concha Pinhão que me habituei a ver em Moçâmedes, era  uma mulher de altura mediana, magra, tez clara e cabelo negro penteado ao alto, que emanava uma certa exuberância que dava nas vistas.  Quem não conhecesse a sua faceta intelectual e de poetisa, era o penteado que a distinguia das demais mulheres da terra. Fazia lembrar uma típica sevilhana.

Em 1971, Concha Pinhão foi contemplada com o 1º prémio dos Jogos Florais das «X Festas do Mar». Aliás, o diploma e a medalha que lhe foram entregues na altura pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ilustram a última página deste seu livro.


[Confrat.+Zete.jpg]
Concha Pinhão ( a meio da foto, de óculos escuros) participando num almoço de confraternização do pessoal da Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio e Industria de Moçâmedes,  juntamente com o marido, Dr Pinhão, Delegado de Saúde



Desconhecia o tom suavemente provocatório da sua poesia, de onde emana uma velada critica social com apelos tocantes e só por si reveladores da sua fina sensibilidade. Fiquei maravilhada com a erudição, simplicidade e  ritmo dos seus escritos, cuja grande parte dos quais nos remetem para os últimos anos da colonização, e  despertam em nós sensações de toda a nostalgia que Concha sentiu ao escrevê-los. Eis alguns dos seus poemas:




AQUELA ANGOLA



Aquela Angola Mulata!...
Aquela Angola Mestiça!...
Beleza que às vezes mata
E se não mata enfeitiça!...


"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão
Poesia Angolana



NAMIBE


Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.


Angola 1968
Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)



MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito,
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
(Concha Pinhão)

 

EMBONDEIRO  

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão procurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!


Na solidão... eu e tu.


Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.


Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.


Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abrigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.


Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão


Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...



Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro».  Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)




A LISONJA



É a lisonja nefasta
Quando a verdade se afasta
Da verdade que nós somos
Nosso ego cria sonhos
De bergantim* sobre o mar.

Com o falar lisonjeiro
Tem cautela marinheiro
não te deixes afundar.

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»). Estoril 2002

* O bergantim era o mais subtil e veloz dos navios de remo, tipo galé, utilizados pelos portugueses. 


Esse médico...que conheci



Corria na madrugada
Sempre que alguém gritava
Por um filho que nascia
Na mata verde parava
Cubata se iluminava
O milagre acontecia

Exausto mas deslumbrado
Sorvia cheiro a molhado
Do capim rasgando o chão

Só quem viu terra-parida
Conhece a força incontida
Nessa terra em convulsão

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)

  

BRUMA

Chora minha bandeira,
Chora
Que o teu corpo de quinas
Vai amanhã enrolar
Como trapo no mercado
Dos sem fé a governar.

Chora minha bandeira,
Chora
Pelo vermelho sangrento
Do gentio abandonado
De gente que deu suor
Foi escravo,
Foi senhor
E foi evangelizado.
Chora minha bandeira,
Chora
Por portugueses, corsários
Aventureiros,
Audazes
Negreiros
Homens rapaces
Homens que rasgaram mares
Descobriram continentes
Juntaram sangues diferentes
Inventaram essas gentes
Portugueses d'Além Mar

Os homens passam
Pequenos
tempo curto no viver
Ficarão no pó da estrada
Sem merecimento ter

Nossa bandeira irmanada
Há-de brilhar desfraldada
Nos mundos que viu nascer

Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»). Estoril, 1976
 
 
 
 
 
By MariaNJardim

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ILHA DE SANTA HELENA






 
A ILHA DE SANTA HELENA
(alguns subsídios para a sua História) 

A Ilha de Santa Helena, a pequena e isolada ilha situada entre Angola e o Brasil, quase a meio do Oceano Atlântico, pertencente ao arquipélago com o mesmo nome, formado por três ilhas, distantes 5.000 quilômetros entre si: Ilha de Santa Helena, ilha Ascensão, e ilha Tristão da Cunha,  foi descoberta por acaso, em 1502, por João da Nova, navegador turco galego ao serviço de Portugal, que fez parte, no passado, da rota dos navegadores portugueses a caminho da Índia.  A descoberta da Ilha por portugueses foi mantida em segredo durante bastante tempo, para evitar que holandeses e ingleses se apossassem dela, e o arquipélago era ao tempo da sua descoberta desabitado. Santa Helena recebeu em 1515 o seu primeiro habitante permanente, o soldado português Fernão Lopes, que permaneceu isolado em na ilha até 1545,  excepto por ocasião de uma breve visita que fez à Europa, após 10 anos de isolamento na ilha. Mas na verdade Portugal nunca a colonizou Santa Helena, e a ilha acabou ocupada no século XVII, sucessivamente, por Holandeses, em seguida por Ingleses, passando em 1673, definitivamente à posse da Inglaterra.  Há notícias que no século XVI, a Ilha de Santa Helena foi usada como base para as aguadas e para o abastecimento das tripulações, ponto de passagem que se tornara  dos navios negreiros ingleses a caminho das Américas. Os cidadãos de Santa Helena são pois, brancos, filhos de ingleses, não falam a língua dos portugueses que a descobriram. Ao arquipélago nunca chegaram as invasões banto, nem nunca lá esteve algum banto. A escolha do nome para o arquipélago deve-se a Helena de Tróia, santa da promiscuidade.

Santa Helena foi também lugar de degredo, para onde a Inglaterra costumava enviar seus presidiários de altíssima periculosidade. Aliás, a Ilha de Santa Helena ficou famosa porque a determinada altura da ocupação inglesa recebeu um hóspede muito especial, Napoleão Bonaparte, depois de ser expulso da França, como "cidadão-non-grata e traidor da república". Foi em Santa Helena, seu segundo exílio, o local onde o envenenaram com os característicos copos de leite matinais com arsénico, matando-o. A aproximação  à  ilha de Santa Helena foi severamente bloqueada após o desembarque de Napoleão Bonaparte. Este bloqueio durou até 1821, ano da morte deste prisioneiro especial, em 05 de maio de 1821, no mesmo ano em que Dom João VI, que se refugiara no Brasil com a corte, fugindo às invasões francesas, regressou a Portugal, e desembarcou em Lisboa no dia 04 de Julho de 1821, após a queda do absolutismo em Portugal e triunfo dos liberais, em 1820.

A ilha de Santa Helena é uma das emergências de uma cadeia de montanhas submersas que existe entre a África e a América, possui uma população de aproximadamente 4 mil habitantes, sendo a maioria descendentes dos colonos britânicos, dos empregados da Companhia Britânica das Índias Ocidentais e dos trabalhadores trazidos do sul da Ásia, Índias Ocidentais, Madagáscar e China.  A Ilha  não possui riquezas, vive de ajuda da Inglaterra. Para se ter uma noção, a Ilha não possui nenhuma praia, sendo o seu litoral completamente rochoso, o que impede grandes projectos para desenvolvimento do turismo. A economia local baseia-se no turismo de pessoas endinheiradas que não se importam de viajar para o fim do mundo, apenas para ver a última cama de Napoleão, o último copo de Napoleão e vários outros apetrechos fim-napoleónicos mantidos intactos.  Para os naturais da ilha onde chegaram os portugueses em Maio de 1502, o turismo poderá mudar de maneira permanente o modo de vida local. A construção de hotéis - há inaugurações já para este ano -, estâncias balneares, a venda de propriedades, a própria pressão demográfica deixarão marcas na ilha que tem uma superfície de 122 km2 (a do Faial, nos Açores, tem 172 km2 e 15 mil residentes), paisagens deslumbrantes e uma temperatura média entre os 20-27 graus.  O arquipélago não possui aeroporto, e para acudir a qualquer acontecimento que ocorra na ilha, os habitantes servem-se de um barquinho pesqueiro denominado "RSS SOS". No entanto chega-nos presentemente a notícia do fim da era de isolamento em Santa Helena. Vôos regulares vão ter início em Maio de 2016, no local onde viveu o "Robinson Crusoé português". Santa Helena, um dos locais mais isolados e difíceis de visitar no planeta, quase a meio do Atlântico Sul, a 2200 quilómetros da costa angolana, passará a ter um aeroporto. Será o fim de séculos de reclusão.
 
MariaNJardim (ass) 
 
Este texto, tem direitos de autor. Está coberto pelas Leis de Copyright, pelo que pode ser partilhado desde que remeta para a sua autoria, sendo PLÁGIO tomá-lo e publicá-lo sem o fazendo-o passar por seu.
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Por curiosidade seguem alguns comentários relacionados com  A ILHA DE SANTA HELENA, publicados no site"Ango Noticias":

"As fronteiras dos países africanos são resultado da colonização.  De acordo com a Carta da União Africana, no seu artigo 4.º, alínea b), as fronteiras dos países africanos são as existentes desde o momento da acessão à independência, princípio que já havia sido invocado com a Carta da OUA. Antes nunca houve uma Angola. Muito menos uma Angola que integrasse essa distante ilha de Santa Helena. Aqueles que defender tal ideia absurda deviam pensar que Angola até vive o problema de Cabinda.  É nosso dever cívico esclarecer essa situação. Cabinda fazia parte da Angola colonial Aquando da descolonização, em momento algum ficou discutido que se devia rever a titularidade daquele território. Nem sequer era um assunto"

 "Santa Helena não é nossa!" :
De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países costeiros têm direito a declarar uma zona económica exclusiva ZEE) de espaço marítimo para além das suas águas territoriais, na qual têm prerrogativas na utilização dos recursos, tanto vivos como não-vivos, e responsabilidade na sua gestão. A ZEE é delimitada por uma linha imaginária situada a 200 milhas marítimas da costa. A ZEE separa as águas nacionais das águas internacionais ou comuns. Santa Helena está a 1.000 milhas da foz do Cunene, o ponto mais próximo da Costa. "
 
Comentário de "BB":

"Santa Helena é de quem lá está!!! E se não estiver ninguém, é de quem lá chegou primeiro. Senão, mudo de opinião e acabo por dar razão aos grupos independentistas cabindeses."


A propósito de uma notícia, datada de 03-07-2010, e publicada no site"Ango Noticias", relacionada com o líder do Partido Democrático Angolano(PDA), António Alberto Neto, que defende a ideia de que o governo angolano devia encetar negociações diplomáticas a fim de obter a soberania de várias ilhas na Antártida, actualmente sob tutela da Grã-Bretanha, ideia contida aliás, num livro que o político lançara com o título «A Outra Face de Angola», onde reivindica a soberania sobre certas ilhas no continente Antártico, com destaque para Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte Bonaparte esteve exilado e onde acabou os seus dias envenenado. Ou seja,
 
"... na sua ZEE, Zona Económica Exclusiva. Junta outras ilhas, casos de Bouvet, Mone Maud e Terra da Nova Suécia, que se situam entre o território Sanae, pertença da África do Sul, e a Novalazareskaia, sob tutela da Rússia ":

"...O continente antártico deve pertencer também aos países africanos, pois dele depende a sobrevivência da Humanidade, e o seu uso deve ser para fins pacíficos", fundamenta Alberto Neto, que em tese compara a situação ao caso das ilhas Malvinas, cuja soberania é reivindicada pela Argentina, que durante a década de oitenta chegou mesmo a envolver-se numa guerra com a Grã-Bretanha. Polémica ou não, a ideia está posta à mesa. Embora muitas das ideias que Alberto expende no seu livro sejam velhas de anos, ao editá-las agora significa somente que este velho político as mantém. Algumas são mesmo alvo de recensões e actualizações. Folheando os arquivos da história, consta que Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola independente, terá tido isso em mente, chegando em determinada ocasião a mandar farpas ao Ocidente. Para Alberto Neto, que foi um discípulo de Agostinho Neto, não se trata de uma ideia estéril, sem qualquer utilidade prática para o país. Ele acha que Angola poderia estabelecer na Antártida uma base de estudo – à semelhança da África do Sul, Argentina e Chile – que serviria fundamentalmente para fazer um acompanhamento das riquezas desse continente. Serviria ainda, segundo ele, para coisas como o monitoramento da «corrente fria de Benguela e do plâncton acumulado no fundo do mar e depositado na nossa costa. "

FIM DE TRANSCRIÇÃO