Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 29 de outubro de 2016

Maria da Purificação Vasa Marreiros, degredada para Moçâmedes, Angola, por assassinato


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A deportação  e o degredo foram nos séculos XIX e XX uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo, e foi evidente a sua utilização quer como meio de cumprir pena para criminosos de delitos graves, assassinos, etc., quer para emigração forçada, e para impedir a acção dos opositores político não gratos ao regime.  O próprio Batalhão de Caçadores 3, que 1º estacionou na Fortaleza de Moçâmedes (1), era, na sua quase totalidade, constituído por criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. A maioria dos degredados acabavam por se fixar, internando-se no território, porém  de muitos se perdeu o rasto. Outros chegaram a ser úteis à administração. 

Esta mulher, Maria da Purificação Vasa Marreiros, de 47 anos, está registada no livro de matriculas dos degredados em Moçâmedes, para onde foi cumprir pena por cumplicidade em homicídio, por 15 anos. porque matou o marido, José Joaquim Almeida Marreiros, de 69 anos, no último dia de junho de 1881 em Casal da Areia, na Freguesia de Salir de Matos, no território metropolitano.

 Os 15 anos de degredo, a seguir à pena perpétua, eram o máximo de tempo que um condenado teria de passar em África.

 A pena para Maria da Purificação Vasa de inicio foi de três anos de prisão celular ou seis de degredo, a mínima para um caso de cumplicidade em homicídio O problema viria mais tarde, fruto de terem resolvido recorrer da sentença.

"... Maria da Purificação, se fizesse como os seus primos, usaria os apelidos “de Vasa César de Faro e Vasconcelos", como o pai. Na sua certidão de nascimento, estão registados os avós paternos: José da Vasa César e Vasconcelos, e dona Maria Eulália da Rocha Castro e Meneses. São, contudo, nomes de uma família de fidalgos da casa real que não surgem no extenso trabalho do genealogista Manuel Arnao Metello, “Os Vasas em Portugal - Família do Oeste de origem talvez sueca”, publicado na revista “Raizes & Memórias.


"....A professora universitária brasileira Selma Pantoja encontrou a ficha de a viúva de Almeida Marreiros no livro de matriculas dos degredados, quando faziam investigações nos anos de 1990 final do século XX. “Entre as 358 degredadas para Angola, entre 1865 a 1898, só Maria da Purificação Vasa Marreiros está registada com o título de Dona, com nome do pai, 47 anos, condenada por cumplicidade em homicídio, degredada por 15 anos para Mossâmedes”, escreveu em “A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898)”.

 

MariaNJardim
 
 Para ler o texto completo: http://expresso.sapo.pt/…/2016-10-24-Mandou-estrangular-o-m…






(1) Dos vários episódios que marcaram o passado da Fortaleza de Moçâmedes, conta-se que em 1869 estava ali aquartelado um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas, e que na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação. Avisado o então chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça, do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados amotinados já pegavam em armas, e chegaram mesmo a alvejá-lo, com um tiro de pistola, ainda que sem consequências. O oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu recebê-los no dia seguinte na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas, o que de facto aconteceu. Após um diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado, porém os soldados voltaram a sublevar-se e, convencidos de que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força, armaram-se de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontos a fazer fogo, e mesmo a destruir a povoação e incendiar as casas de seguida, levando os moradores apavorados, receosos de toda a espécie de atrocidades, a abandonaram as suas habitações e a procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.


Foi então que o inesperado aconteceu. No meio de tão dramática situação, quando parecia estar tudo perdido, que a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, "saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram os rancorosos impulsos dos amotinados, que, tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e , confundidos pela severidade que lhes transmitira o nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formaram fileiras, e apresentaram-lhes armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora pôde desempenhar a nobre missão que se lhe impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-se dominada por irreprimível eloquência, fez-lhes sentir a hidiondez do crime que iam cometer, dirigimdo-se-lhes com uma inflexão de voz tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, comoveram-se, e assumiram em seguida inteira obediência. O Chefe do Concelho, que estivera sempre junto de sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada. .."(1)
(1) Passagens retiradas do livro Moçâmedes, de Mendonça Torres, obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991

MariaNJardim



sábado, 15 de outubro de 2016

A ESCOLA DE PESCA E COMÉRCIO DE MOÇÂMEDES



Edificio onde a funcionou a Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, mais tarde, Escola Comercial de Moçâmedes, algum tempo depois, Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes, e finalmente, em edifício próprio, Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique
 Visita de estudo ao Padrão do Cabo Negro,  de antigos professores e alunos  finalistas, que frequentavam esta escola, no ano lectivo de 1944/5. Trata-se de uma réplica ali colocada em 1892, enquanto o original,  mutilado, foi retirado e encontra-se no átrio da Sociedade de Geografia de Lisboa. Actualmente já na casa dos 70 anos e mais , felizmente a maioria ainda vivos e cheios de vitalidade, talvez reflexo da boa alimentação que tiveram na infância em Moçâmedes /Angola), terra do bom peixe rico em omega3 etc etc. Reconheço à frente, da esq para a dt:  Maro Lisboa Frota (Mariúca), Amadeu Pereira, Carriço (Costa Santos), Velhinho, Guilherme Jardim, ?,?, ?, Ferreira,  ???, à dt professores da Escola, no decurso de umola na mão, Arménio. Na 2ª fila apenas reconheço Jesus, mais ou menos a meio, de capacete., e o Mário Guedes à sua frente. Quanto à raparigas, as irmãs Manuela e Leonor Bajouca.
 
 
Alunos e alunas da Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, em 1948. Este era o quintal interior para onde desembocavam as salas de aula da dita Escola, já em péssimas condições de conservação como se pode ver. Clicar sobre a foto para aumentar. É grande.Vêem-se alguns dos professores que na altura leccionavam nesta Escola, a única escola secundária do distrito. Reconheço, entre outros, de baixo para cima, e da esq. para a dt: 1. Albino Aquino (Bio), Carlos Pinho Gomes, ?, Manuel Dias Monteiro (Neca), ?, Amilcar de Sousa Almeida, José Patrício, Arnaldo Van der Keller (Nado)?, Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita, Nito Abreu, Bajouca, José Duarte (Zézinho), Manuel Rodrigues Araújo, António José de Carvalho Minas (Tó Zé) e Norberto Edgar Neves de Almeida (Nor). 2. Carlos Vieira Calão, ??????, Fernando Morais (7º de camisa escura), ???, Licas Freitas (de pé, ao centro), Dito Abano, Jaime Custódio, Zezo Freitas de Sousa, Carequeja,?, Elisio Soares, ???, Beto de Sousa, ??, Albertino Gomes, e?. 3. Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé), Mimi Carvalho (5ª) Maximina Teixeira (8º),???. 4. Fátima Abrantes, ?, Nélinha Costa Santos, Salete Leitão, Fátima Duarte, Melanie Sacramento, Carolina Mangericão,?, Lucia Brazão Reis, ???, Raquel Martins Nunes, Mª Orbela Gomes Guedes da Silva, ???, Fernanda Vieira,... 5. Francelina da Costa Gomes, ???, Augusto Martins (func. da Escola), Dr Trigo, ?, Padre Guilhermino Galhano, Dr Domingos Borges (Director da Escola), ??, Professor Carrilho (Dact/Caligraf/Estenograf.), Luzete Sousa,  e mais à dt, Bernardete Diogo, ?, e Fernandina Peyroteu.




Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, com o mestre Cecilio Moreira após uma aula prática de Construção Naval, junto dos estaleiros da cidade. Recnheço Sereeiro, à esq  de Cecilio Moreira, e à sua esq, Cecilia Victor,Maria Emilia Ramos, Edith Frota, Carriço e Humberto Pinho Gomes.

Estudantes à entrada da Escola Prática de Pesca 
e Comércio de Moçâmedes. 1948


Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948 com corpo docente, vendo/se ao fundo, de entre outros Cecílio Moreira, Dr Trigo?, Dr Domingos da Ressurreição Borges(director), o Padre Guilhermino Galhano, ?,?, Dra Brigite?,  e a dt o prof Carrilho. Os alunos são ; Leonor Bajouca, Lucia Brazão, ?, Fátima Duarte, Salete Leitão. Mais à frente apenas reconheço Carlitos Oliveira
Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, com mestre Cecilio Moreira.  São Cecilia Vitor, Maria Emilia Ramos,  Edith Frota, Carriço, Humberto Gomes, etc

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948



Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, junto dos balneários da Praia das Miragens: Reconheço Carlitos Oliveira, Lúcia Brazão, Humberto Pinho Gomes e Sereeiro.

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948 no decurso de uma aula prática de Construcao Naval com o mestre Cecilio Moreira. São Humberto Pinho Gomes, Carriço, Edith Frota e Sereeiro e Maria Emilia Ramos.

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948. São Humberto Pinho Gomes, Cecilia Victor, Edth Frota, Maria Emilia Ramos e Sereeiro. Atrás Orlando Salvador e Carriço.



Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, junto a umbarco em construção nos estaleiros da cidade. São  Carriço, Humberto e Sereeiro. Atras Cecilia Victor, Edith Frota e Maria Emilia Ramos

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948. São Humberto Gomes e Salvador


Cerimónia de despedida do Director da Escola  Pratica de Pesca e Comércio de Moçâmedes, Domingos da Ressurreição Borges, e passagem do lugar ao Dr. Olimpio Nunes. De entre os presentes reconheço : Profs Carrrilho, Cecilio Moreira, Augusto Martins (Continuo) , Egidio Robalo e Prof Marques, de entre outros


 
A CAMINHO DO ENSINO SECUNDÁRIO EM MOÇÂMEDES...
 
 
Foi a 23 de Agosto de 1919, em plena 1ª República portuguesa  implantada em 1910, que foi criada na sequência da determinação de do visconde de Pedralva, Francisco Coelho do Amaral Reis, aos Governadores dos Distritos de Benguela, Moçâmedes e Huila,  foi autorizada a criação em cada um a das suas capitais de distrito, de uma Escola Primária Superior, competindo às Câmaras e comissões municipais o encargo do pagamento das respectivas despesas. 
 
Em Moçâmedes a medida foi aplicada, apenas em 30 de Março de 1925, sendo no dia 23 de Maio do mesmo ano, atribuído à Escola, como patrono, José de Almeida e Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria - vulgarmente conhecido por "Barão de Mossâmedes" que aliás dera o no à cidade. 
 
Nascia assim a "ESCOLA PRIMÁRIA SUPERIOR "BARÃO DE MOSSÂMEDES" 
 


Em Moçâmedes demorou bastante tempo para que a medida fosse aplicada, e só em 30 de Março de 1925 foi decidido que a pretendida Escola entrasse em funcionamento, e que o seu regulamento fosse aprovado e publicado, sendo no dia 23 de Maio do mesmo ano, atribuído à Escola, como patrono, o conhecido e prestigioso governador-geral de Angola, cujo nome a cidade já ostentava - José de Almeida e Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria - vulgarmente conhecido por "Barão de Mossâmedes". 

 
A Escola Primária Superior «Barão de Mossâmedes» embora ostentasse a designação depreciativa de "Escola Primária Superior", dada a carga literária do seu curriculo, era um pronúncio de um ensino secundário que a demarcava de um ensino quer profissional quer primário, e a colocava a par de um liceu, situação que caia no desânimo de uma parte da população e dos  respectivos professores que persistentemente insistiam que a referida escola assim deveria ser considerada. De início administrada pela Câmara Municipal por portaria de 17 de Junho de 1927, mais tarde  passou a ser directamente administrada pelo Estado, visto que a Câmara não reunia recursos monetários para a mantêr, e os seus professores estavam sem receber os vencimentos desde Novembro do ano anterior.  Em 10 de Julho de 1930, a "Escola Primária Superior Barão de Mossâmedes" passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, e as férias passaram a coincidir com as destes estabelecimentos de ensino, porém mantendo  inalterada a situação anterior.  Apesar da luta travada por pais e professores para que à  semelhança daquilo que se passou na cidade de Sá da Bandeira onde a Escola Primária Superior deu lugar ao Liceu Diogo Cão, em Moçâmedes a Escola Barão de Mossâmedes acabou extinta pelo decreto de 30 de Novembro de 1936, que tinha em vista organizar em moldes novos o orçamento dos territórios ultramarinos, de acordo com princípios já experimentados em Portugal. 
 
Em sua substituição foi criada a "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes", cujo regulamento foi aprovado em 3 de Abril de 1937.
   
 



MEMÓRIAS COM HISTÓRIA


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.
Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:
Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)








sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MEMÓRIAS COM HISTORIA: O Teatro Garrett em Moçâmedes



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 Avenida da República de Moçâmedes, no tempo do Teatro Garrett (década de 1930/40) era assim…



Conta-se que ainda no início dos anos 1940, em Moçâmedes, havia ao fundo na Rua Calheiros , no local onde mais tarde foi erguida a sede do Atlético Clube de Moçâmedes, uma primitiva casa de espectáculos, de início  designada por Teatro Garrett, mas que, com o nascimento do Cinema,  passou a designar-se "Cine Teatro Garrett", e que tinha como proprietário Raúl de Sousa, o pai do Lico de Sousa que foi Veredor do Turismo nos últimos tempos coloniais. Era o local onde os moçamedenses assistiram às primeiras peças de teatro e de revista, e viram correr os primeiros filmes, grande parte dos quais em Cinema mudo.

O Teatro Garrett na verdade criado ainda em finais do séc xix,   pela empresa exploradora de recreios moçamedenses, sociedade anónima de responsabilidade limitada, tendo por fim a exploração de espectáculos públicos na cidade, e foram sócios fundadores, os seguintes  residentes os seguintes ellementos, membros de uma élite citadina da época :
 
Serafim Simões Freire de Figueiredo, 
António Florentino Torres, 
Miguel Duarte Loureiro de Almeida, 
Manuel da Silva Dias e 
Honorato Júlio de Mendonça.   
 
Sabe-se que a escritura da constituição da sociedade, datada de 01 de Outubro de 1896 foi registada no Tribunal do Comércio, em 15 de Junho 1906, sendo a matrícula  datada  de 13 de Dezembro de 1924, porém tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, porque também foi provisório o seu título constituído, e nos anos 1940,  a sociedade surge já designado " Cine Teatro Garrett"  quando  o Teatro acabou demolido, para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes que todos conhecemos. 
 
Dizem aqueles que o frequentaram, que ficava num edifício de 1º andar, de fachada vulgar, com porta larga para a rua, encimada de inicio pelo nome em letras gordas "Teatro Garrett", e que do exterior não dava para imaginar o requinte do seu interior, todo forrado a madeira trabalhada (talha dourada), com suas frisas, camarotes, plateia e reposteiros de veludo vermelho, de um requinte tal que, ressalvando as devidas proporções, dizia-se que fazia lembrar o Politeama de Lisboa.

Mas antes do "Teatro Garrett" houve uma outra sala de espectáculos em Moçâmedes, que seria mesmo a primitiva, e esta ficava na Rua das Hortas, onde mais tarde o comerciante Álvaro Vieira Ascenso veio a construir os seus armazéns, porém para além da memória da sua localização, nem uma réstea do nome, nem um indício do seu dono chegou aos nossos dias.  Por isso o "Teatro Garrett" acabou por ficar na memória dos moçamedeses como a primeira sala de espetáculos da cidade, memória essa que se ficou a dever ao já citado  e impressionante requinte do seu interior. 
 
Conta-se também que por volta dos anos 1940 já a madeira do "Teatro Garrett", artisticamente trabalhada, se encontrava corroída pela bicharada e  incapaz para ser aproveitada. E foi assim que o "Teatro Garrett"  que ameaçava desintegrar-se, encerrou, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine "Teatro de Moçâmedes" na Rua da Praia do Benfim, e olhar para  Avenida, nessa mesma década, ocupando o antigo "Jardim da Colónia" para o qual chegou a estar  destinado um monumento aos pioneiros da civilização. Vidé : https://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2008/03/monumento-aos-pioneiros-da-civilizacao.html?m=1

Sobre este aspecto introduzo um texto com certa graça, de Arménio Jardim, que ajuda a dar um pouco mais de nitidez à memória do " CineTeatro Garrett", o Cine que ele mesmo, na infância,  ainda frequentou:
 
Ai vai:

"....Feliz ou infelizmente, vivemos num mundo finito ao qual não conseguimos escapar. E nem o Cuprinol da Robbialac, produto supostamente contra o caruncho, conseguiu salvar o "Teatro Garrett" da derrocada total. É que, ao longo do tempo, o bicho-carpinteiro foi-se alimentando do madeirame de uma tal forma tão subreptícia e insidiosa que as estruturas do Garrett começaram inesperadamente a ranger por tudo quanto era sítio. E numa manhã de cacimbo, após uma noite de ruidoso e animado filme de piratas e corsários, o pessoal de limpeza deu de chofre com aquele triste espectáculo. Essa deve ter sido a última noite de grande farra para os carunchos e os escaravelhos, pois deixaram de tal modo esboroados os camarotes, as frisas e o balcão do "Galinheiro", que a partir de então o "Teatro Garrett" passou apenas a servir de local onde a miudagem do Bairro da Facada ia brincar às escondidas e aos polícias e ladrões. Só as duas goiabeiras do quintal do Garrett choravam lágrimas de seiva amarga, pois o Tó Lindas e o Monacaia não perdiam ocasião para dar caça às bengalinhas que nelas poisavam para os seus cantos divinais. Com desgraças ou sem elas, a vida não pára!... 
 
Tempos depois, sobre os escombros do Cine-Teatro Garrett, viria a ser construida a Sede do Atlético Clube de Moçâmedes, atirando para as brumas da memória aquele elegante e singular Cinema que tantas alegrias havia proporcionado aos nossos queridos “Cabeças de Pungo". Nesse intervalo, era no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, Clube Recreativo e Beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que decorriam sem grandes condições de acomodamento, e sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas, e as peças de teatro, sem nunca atingirem o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço. " (1)
Fim de transcrição.

Continuemos então...
 
Interessante era o modo como era feita a publicidade naquele tempo, através de um "cartaz ambulante" rectangular, com cerca de 1, 50 metro de largura e e 1, 20 metro de altura, apoiado em dois paus, que percorria as ruas cidade, levado por dois africanos. O cartaz incluia imagens de cenas do filme ou das peças de Teatro e de Revista que ali iam ter lugar, etc, etc.

O  Teatro Garrett, como todos os Teatros daquele tempo, passou por essa fase de passagem para os Cine-Teatros, fase essa em que o Cinema foi  buscar ao Teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, ao transformá-lo  num lugar apropriado para a exibição dos filmes. E para aproveitar o tempo na troca das bobinas que continham o filme, havia nesse tempo dois intervalos, sem tempo definido. No Teatro Garrett, o público aproveitava esses intervalos para passar para às galerias, onde  à sua espera estava o Bar onde encontravam bebidas, cigarros, gulodices de todas as espécies. 

No campo das realizações, na bela sala de espectáculos do  "Teatro Garrett" foram levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar pelas respectivas orquestras, mas ao palco do "Teatro Garrett" também subiram artistas da terra, crianças, jovens e adultos que muitos dos mais antigos de nós ainda recordam. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de Moçâmedes, integrando a Revista "Coração ao Largo", que incluía, entre outros, o  muito ovacionado "Bailado das Horas". Este bailado era desempenhado por 24 bailarinas distribuídas por 4 grupos, consoante as idades, que dançaram magistralmente,  representando as mais novinhas, as "madrugadas", as da idade seguinte, as "manhãs", as mais cresciditas, as "tardes", e as mais velhas, as "noites". O acompanhamento ao piano esteve a cargo de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros: 

1. "Mossâmedes à vista"  (naquele tempo escrevia-se com "SS ")
2. "No Quiosque do Faustino"
3. "Coisas e Loisas"
4. "Beija-me muito"
5. "Cenas de Rua"

"Coração ao Largo" era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas:  Zé Topa Tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins (António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Clube de Moçâmedes. Foi levada à cena vezes sucessivas e sempre com bilheteiras esgotadas. Os preços da entrada eram variados, conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral.

De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo", que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, constvam os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz). 

Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituído por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida pela "Voz de Ouro do Deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta. A interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: "Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." . 

Outra figura de Moçâmedes que cantou no Cine Garrett foi Augusto Gavino. E em tempos mais recuados, subiram à cena outras peças de entre as quais a intitulada "Gioconda", outro sucesso de bilheteira que as nossas avós não cansavam de lembrar.


Recorte de jornal da época (finais dos anos 1930)


Também era comum por ocasião do Natal levarem à cena  actos de variedades e peças de Teatro com pequenos artistas da terra que revelavam grande talento, tais como Norberto Gouveia (Patalim), nesse tempo com apenas 12 anos, e outros que ficaram  na memória colectiva:  a Lolita, o Renato Veli, o Nito Santos, à época crianças. Eram geralmente festas de caridade, destinadas a angariar ajudas para a "sopa económica" dos desprotegidos da  cidade. O artigo refere nomes de alguns colaboradores, de entre os quais Dina de Sousa (pianista e ensaiadora), Maria Eugénia de Almeida, Rosete Almeida, Vénus de Sousa e Beatriz Caleres. 

As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Ti-ro-liro", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:


"...Cá em cima está o tiro-liro 
Lá embaixo está o tiro-liro-ló 
Juntaram-se os dois à esquina 
A tocar a concertina 
E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre, 
gosto muito da sua afilhada, 
É bonita, apresenta-se bem 
e parece que tem, 
a face rosada...

etc..



 A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.

 
Programa da Revista "Coração ao Largo"
 
 
AINDA SOBRE O  CINE TEATRO GARRRET....




O Armazém Primavera de Mossâmedes


Conta-se que naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas, nem convenientemente iluminadas, (a iluminação era a óleo de baleia e sópor muitas horas), as pessoas  andavam a pé, e eram escassas as lojas de moda,  existiu no pequeno e pacato burgo o "Armazém Primavera", sito no rés-do-chão do edifício centenário da familia Zuzarte de Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Central, alugado à  familia Gouveia, onde as "elegantes" e os"elegantes" da cidade compravam as roupas com que se aperaltavam, quando iam ao Teatro Garrett. As senhoras envergando tailleurs bordados a lantejoulas, luvas, chapéus, sapatos de salto alto, e os cavallheiros, fatos de alpaca, coletes, lacinhos ou gravatas e chapéus. As encomendadas eram feitas em Moçâmedes Paris, nestes Armazéns que por sua vez importavan as mercadorias aos Armazéns "Printemps", e estas chegavam a Moçâmedes,  via Congo francês.  
 
Mas também se contava que no tempo do "Teatro Garrett"  não havia quaisquer restrições à entrada de crianças, e até as mães podiam levar os seus bebés ao colo, o que transformava por vezes as noites de cinema numa alegre festa em família.

Aproveitamos para transcrever um texto que se reporta à inauguração da Escola Primária Superior Barão de Mossâmedes, publicado no Jornal “O Mossamedense”, nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série de que era director Alberto Trindade, e editor Joaquim Augusto Monteiro, e que faz referência a uma récita de gala no Teatro Garrett, e a uma opereta da autoria do Dr. António Augusto de Miranda, intitulada - “Pérolas do Mar”, em 3 actos, à qual se seguiu um desafio de futebol entre o Royal e Ginásio da Torre do Tombo:
 

INAUGURAÇÃO SOLENE  DA ESCOLA PRIMÁRIA SUPERIOR DE MOSSÂMEDES


No acto usaram da palavra O Director da Escola, Dr. António Augusto de Miranda, que fez a oração de “Sapientia” - peça oratória de incontestável valor, um hino entusiasta aos obreiros da instrução. Usou a seguir da palavra o antigo colono Sr. Ribeiro da Cruz que, com profunda comoção e bem sentido entusiasmo, felicitou-se e à cidade de Mossâmedes pela realização de tão importante melhoramento, destinado a elevar o nível intelectual da Colónia de Mossâmedes caracteristicamente europeia. 

Falou ainda o Sr. Jaime Rocha, aludindo ao acto solene que estava decorrendo e mostrando com proficiência as vantagens da educação física aliada ao desenvolvimento.
 
"...De longe vinha a ideia e aspiração de dotar Mossâmedes com um estabelecimento de ensino secundário. Esta ideia tomou vulto durante o governo de José Manuel da Costa que encetou as demarches para a sua criação.  Ardente apóstolo desta causa foi então o Sr. Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres. 
 
Coube finalmente ao actual governador Sr. Artur da Silva a glória de, com maior felicidade que os seus antecessores, ver coroados de êxito os seus esforços e presidir à inauguração da Escola Primária Superior. Seguiu-se um “match de foot-ball” entre as primeiras categorias dos clubs Royal e Ginásio Torre do Tombo, que terminou com um empate. À noite houve récita de gala no nosso Teatro. Foi posta em cena uma engraçada opereta da autoria do nosso amigo o Sr. Dr. António Augusto de Miranda, intitulada - “Pérolas do Mar”, em 3 actos. 
 


Conseguimos recentemente adquirir algumas páginas de uma revista lançada em Moçâmedes com publicidade relacionada com já aqui referida Opereta em 3 actos "Pérolas do Mar", da autoria do Dr. António Augusto Miranda (1886-1964), então Juiz em Moçâmedes, que  foi levada à cena no Teatro Garrett, nos dias 15 e 16 de Maio de 1925, em benefício do Asilo de S. João e de um fundo a estabelecer para a criação de um Jardim-Escola dirigido para educação da Classe Infantil. Esta preocupação pela Escola e pela Educação  o que ilustra bem  a preocupação pela Escola e pela Educação, após a instauração da 1ª República, em 1910, não obstante as crises económicas que se fizeram sentir, em consequência dos custos com a participação da 1ª Grande Guerra de 1914-18, olhos postos na preservação das colónias de África,  e a instabilidade política derivada da sucessão de governações. 

Tal como as anteriores peças levadas a cabo no Teatro Garrett, também esta Opereta contou com a colaboração de um elenco de moçamedenses, sempre pronto a colaborar para o avanço da sua cidade. Deixo aqui o meu agradecimento à neta do Dr. António Augusto Miranda,  Emilia Maria Santiago Miranda, e apeoveito para referir que seu avô pessoa dedicada à cultura, publicou os livros "Scenas da Aldeia" (1909),"Os Meus Ídolos" (1914), "Manual Teórico e Prático dos Juizes Municipais, Instrutores e Populares" (1928) e "Posse e tutela possessória: ensaio sobre a posse e os remédios possessórios" (1945).

Nesta Opereta participaram como persongens: Manuel G. Cunha, Jayme Rocha, Francisco Ervedosa, A Peyroteo, João Tulson, Celeste Nóbrega, Serafina Vaz Pereira, Maria Hortense Peyroteo, Mavilda Quartin, Anacleta Rodrigues, Alberto Torres, Joaquim Paulo Rodrigues, Mário Peyroteo e Serafim Costa. Nos Coros: Maria Laura Godinho, Maria Júlia Pestana Júnior, Julieta Costa Santos, Celeste Pessoa, Maria Salomé Mendonça, Maria Amélia Costa, Ilda dos Santos Costa, Maria Violante Gomes, Cacilda Pessoa, Marta Rodrigues, Florentina Nóbrega, Maria Aurora Vieira e Maria das Dores S, Sousa.

Ensaiador: Manuel da Silva Dias e por impedimento deste, ? Tulson. Ponto: Raúl de Figueiredo, Contra Regra: João P. M. Vicente. Cenário do 2º acto: António Gonçalves Guerra. Cenário do 3º acto: Francisco Ervedosa. Ao piano:  Emma Mendonça. Ao Violino: Mário Madeira.



 Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925

  Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925

  Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925


 Programa da Opereta "Pérolas do Mar" em 15 e 16 de Maio de 1925




 Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes no Teatro Garrett


Finalmente, acrescento o texto que segue e que remete para uma sessão de boxe e de esgrima, realizada no palco do Cine  Teatro Garrett, retirado do livro "Moçâmedes, Memórias Desportivas"  da autoria do moçamedense Mário António Guedes da Silva, no seu livro Moçâmedes, Memórias Desportivas:

"O BOX E A ESGRIMA

Ao contrário do que sucedeu com a esgrima, a longevidade do box em Moçâmedes foi mais consistente. Nas décadas de vinte e trinta, já o box era praticado na bela cidade de Moçâmedes, ainda que empiricamente, pondo em pulvorosa os muitos adeptos fervorosos. Esta modalidade esteve integrada nas sessões desportivas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Os boxeadores que mais entusiasmaram o público foram OCHOA e FAQUINHAS, na modalidade de pesos super pesados, correspondente a mais de 91 quilos. Era técnica com força...

As respectivas sessões eram realizadas no palco do vetusto mas lindo Teatro Garrett, que na altura já albergava mais de quinhentos espectadores, entre plateia, camarotes e frisas. Ochoa, experiente lutador, e Faquinhas, homem corpulento e impetuoso, eram adversários temíveis. Este último demonstrava a sua brutalidade colocando um barril com vinho (100 litros) sobre o balcão da tasca que habitualmente frequentava. O primeiro prélio estava anunciado, e poucos eram os que acreditavam numa derrota de Faquinhas. Era visível o receio de Ochoa, mas confiante e concentrado entrou no ringue, sob as cordas. O gongo tocou! Punhos fechados, olhos nos olhos, os primeiros toques eram de ensaio. O truculento Faquinhas quase derrubara o adversário na primeira tentativa a sério. Ochoa protegeu-se, fitando-o. o que se repetiu nas seguintes investidas de Faquinhas. O público aplaudia freneticamente. a casa estava lotada. Terminara o primeiro assalto, o segundo, e no terceiro Faquinhas já evidenciava sinais de cansado. Foi quando Ochoa desferiu o golpe de misericórdia. Faquinhas tombou! KO impressionante. Foi um delírio! A desforra foi aceite por Ochoa e no novo combate realizado algum tempo depois, antes que se repetisse a sua consideração de vítima. Faquinhas derrubou o antagonista de forma visivelmente irregular. Imperou a truculência! Terminou tacitamente a luta! " Fim de transcrição.

O "Teatro Garrett" (designação pioneira ostentada na fachada do edifício)  viveu essa época de transição, em que, com o surgimento do cinema, surgiram novos equipamentos culturais aptos para o cinema sem esquecerem o teatro: os Cine-teatros. Apresentado inicialmente como uma curiosidade para o público frequentador dos music-halls, dos cafés-concertos e dos pequenos teatros, aos poucos o Cinema foi criando salas próprias para um público próprio, numa trajetória evolutiva que passou pelo período efervescente da "Belle époque" até o período áureo dos Cine-Teatros,

Os filmes “Mulheres da Beira” e “Os Lobos”, feitos há quase 100 anos em Portugal pelo realizador italiano Rino Lupo
Todos como grandes sucessos da altura foram as comédias: O Pai Tirano (1941), O Pátio das Cantigas (1941) e A Vizinha do Lado (1945).

Passados que foram 40 anos sobre a independência de Angola, e o abandono em massa da cidade de Moçâmedes pelos seus moradores europeus, ficam estas recordações de momentos passados num outro tempo, num outro lugar, por gentes que na maioria a morte há muito ceifou, mas que merecem ser lembradas pelo brilho da sua participação em eventos sociais e lúdicos, pela vivacidade com que ajudaram a tornar mais leve a monotonia dos dias, num tempo em relação ao qual apenas restam vagas recordações. A recordar também, que o Teatro Garrett tendo nascido em 01 de Outubro de 1896 com a escritura da constituição de uma sociedade, por sua vez registada no Tribunal do Comércio, em 15 de Junho 1906, foi matriculada em 13 de Dezembro de 1924. Tanto a matricula como a inscrição foram provisórias, pelo motivo de também ter sido provisório o seu título constituído.



MariaNidiaJardim 
 
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https://www.academia.edu/37306327/A_Colec%C3%A7%C3%A3o_Colonial_da_Cinemateca_Campo_contracampo_fora_de_campo