Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Quiosque de Moçâmedes (Quiosque do Faustino) em fase de construção e já pronto e enquadrado na Avenida. O Obelisco.

  
O "Quiosque do Faustino"  surge aqui muito bem enquadrado. Estava-se na 1ª metade dos anos 1950
Um troço da AVENIDA, vendo-se ao fundo o Quiosque do Faustino. À dt o Cine Teratro de Moçâmedes. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

A AVENIDA vendo-se a meio o Quiosque do Faustino. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

Faustino, o proprietário do Quiosque de Moçâmedes, e esposa


Este bonito Quiosque que se manteve durante décadas a côr rosa, nasceu com um belo enquadramento, no centro dos jardins da vasta Avenida da República, em finais dos anos 1940, em frente ao edifício da Alfândega, e em local onde  até então ficava muito próximo um obelisco erigido à memória de Marquês Sá da Bandeira, o General que havia mandado promulgar, a 10 de Dezembro de 1936, o decreto de abolição do tráfico de escravos.

 
 
No início da década de 1950 esta Avenida foi objecto de grandes melhoramentos, e transformou-se num local ainda mais atrente, rodeado de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver. Bancos de jardim surgiram em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer. A Avenida era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas passeavam para cá e para lá, em doce confraternização. O Rádio Clube de Moçâmedes, sob a direcção de Carlos Moutinho levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes,  programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes pendurados em árvores que entrevistavam pessoas, lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. Lá para os finais dos anos 1950 os bailes de finais de tarde,  aos domingos, então disputados entre os salões do Atlético e do Casino, passaram a ser mais frequentes, os encontros desportivos multiplicaram-se, surgiram outros divertimentos e estes usos e costumes são ultrapassados.





Batalha de "cocotes" de farinha, entre Bilibaus e Tragateiros, por ocasião do Carnaval de 1955, nos jardins da Avenida da República,  em frente ao "Quiosque do Faustino".


Este Quiosque transformou-se na década de 1950 no ponto de encontro de um grupo de «velhotes» da terra que para ali convergiam, religiosamente, ao fim do dia, onde  permaneciam até à hora do jantar, em agradável  «cavaqueira», enquanto jogavam uma partida de damas ou dominó, e  tomavam  o seu «café», ainda não se chamava "bica" , e talvez também um cognac ou uma qualquer bebida que lhes aquecesse a garganta. Eram eles o veterano Virgilio Gomes (do Armazém), ou Virgilio Russo, grande contador de estórias e de anedotas que inventava com grande imaginação e talento, e que era  «carinhosamente» conhecido por «Virgilio aldrabão», devido ao insólito das mesmas. Frequentava também o local, o industrial e comerciante da Torre do Tmbo e Praia Amélia, João Duarte, que para alí levado religiosamente, todos os dias, à mesma hora, ao entardecer,  pelo  seu «chauffeur» na sua «limousine», bem como o velho Piquito, proprietário da Farmácia da Praça Leal/Praça de Táxis, que acabou os seus dias com uma paragem cardíaca, enquanto sentado no interior da mesma Farmácia. E também o velho Pimentel Teixeira, que trabalhava na farmácia do Sindicato da Pesca, na Torre do Tombo,  um velho maçon, que faleceu de uma queda da bicicleta, o seu transporte habitual, depois de ter  descido a descida da Fortaleza, vindo do local  trabalho,  e de ter sofrido o embate contra uma carrinha que havoa efectuado uma paragem brusca, quando passava em frente à empresa de Gaspar Gonçalo Madeira, na Rua da Praia do Bonfim.  Outro habitué do famoso local era o velho Cabral (conhecido por «caído da Lua»), que andava sempre de fato branco e laçinho, e morava na Rua da Praia do Bonfim, num velho edificio recuado, de 1º andar, ao lado da casa onde morava o Salvador fotógrafo. E ainda o velho Ringue, solteirão de origem holandesa (boer), domiciliado no Hotel Moçâmedes, ex-produtor de tabaco na zona da Bibala, que havia sido vigarizado por uma tabaqueira e acabou por perder a sua propriedade, tendo acabado por viver os últimos anos da sua vida como tradutor de algumas empresas da cidade. Mas havia outros frequentadores do Quiósque do Faustino, nesses primeiros anos da sua construção, finais de 1940, início de 1950,  cujos nomes de momento não me ocorrem. 

Frequentava na época a zona muito próxima deste Quiosque, uma figura típica, natural de Moçâmedes, um homem que possuia uma bem timbrada e forte voz, e que em tempos havia sido um brilhante administrativo, mas que por motivos que desconheço acabaria por perder o tino, e levava os seus dias sentado num banco do jardim, que funcionava como seu local de trabalho, espécie de "escritório" ,  conhecido por "Faria das Baleias". Faria apesar de indigente, nunca perdeu a sua educação e cumprimentava sempre, atenciosamente, toda a gente que que por ali passava. Abandonado pelos seus, como pela cidade corria,  recolhia-se ao fim do dia para pernoitar  no interior de um velho e histórico moinho de vento em ruinas, lá para os lados do Rdio Clube e daquele bairro que ficou baptizado pela "Sanzala dos Brancos", onde tinha por companheiros os seus muitos cães.

 
Mas recuemos no tempo... Como podemos ver pela foto, o edificio da Alfândega de Moçâmedes tinha à sua frente, antes da inauguração do Quiosque de Faustino, um pequeno Quiosque de ferro, e  no local do novo Quiosque um obelisco que havia sido levado para ali, nos anos 1930, proveniente da "Praça Sá da Bandeira", (1) uma praça que existiu ocupando o quarteirão onde foi construída a Escola Portugal, erguida nessa década. Este monumento de grande sobriedade, o OBELISCO, também conhecido por monumento  ao herói da Liberdade, o Visconde de Sá da Bandeira, que mandou abolir o tráfico de escravos em 1836, dois anos após a queda do absolutismo em Portugal e o triunfo do liberalismo, mas definitivamente apenas em 1869, n medida em que o sec xix portugès foi por toda a 1ª metade trespassado por guerras, conflitos, avanços, recuos, etc, que  deixaram o país abatido, e impediram uma nrmal governação. Importa contudo ainda saber que, segundo outras informações a que tivemos acesso, este OBELISCO teria mais tarde passado a ser conhecido como um monumento destinado a homenagear o “Esforço da Colonização”, dedicado à gesta colonizadora. 
 
 
 
 A praça junto do Bairro da Facada, para onde foi transferido o Obelisco a Sá da Bandeira, simbolo da liberdade relacionado com a abolição do tráfico de escravos para o Brsil e Américas, e onde se encontra presentemente
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf


O "Obelisco" foi transferido para o largo em frente à casa comercial de João Pereira Correia (foto imediatamente acima), próximo do «Bairro da Facada», onde ainda hoje se encontra, porém já sem a histórica dedicatória, o que é de lamentar. Por curiosidade acrescentarei que o transporte do referido obelisco foi efectuado em «vagonetas» rolando sobre carris, que foram na altura colocados apenas para o efeito, na estrada,  ao longo da Avenida e até ao novo local, sendo em seguida retirados.
 
 


Outra perspectiva da Avenida nos anos 1930, onde se pode ver o Obelisco e o  primitivo Quiosque de ferro, bastante mais pequeno e estreito que o actual e que era pintado de verde escuro, com o tecto beje, e com idênticas funções,  porém acabou por ser  também retirado, e nunca mais ninguém soube o que foi feito dele.  Era, como se pode ver pelas fotos, um quiosque de estilo romântico idêntico aos que hoje em dia ainda podemos ver numa ou noutra rua de Lisboa.
 
O primitivo quiosque de ferro podia ter sido aproveitado tal como foi o obelisco, e colocado em outro local (foto acima ), uma vez que fazia parte do património urbanístico da cidade,  mas acabou num qualquer amontoado de «ferro velho», numa das lixeiras da cidade.
 
Ainda quanto ao pequeno Quiosque dizia-se por Moçâmedes que  era frequentado pelo  Padre Basílio que tinha fama de malandreco e atiradiço para as raparigas, quando regressadas a Escola do Palácio ousavam entrar na Igreja de Santo Adrião para se benzer com água benta, e que tinha também o hábito de na Igreja  fazer tiro ao alvo matando ratos com uma caçadeira.   R que o Padre aparecia aos finais de tarde com o seu inseparável chapéu preto para se pôr ao corrente das últimas novidades.
 
 
 
Ainda há a referir que era em seu redor daquele primitivo Quiosque de ferro, que no decurso da 2ª Grande Guerra Mundial (1939/1945) se reuniam os homens da terra para ouvir os noticiários difundidos pela BBC de Londres. Eram poucas as famílias que na cidade possuíam aparelhos de rádio, que na altura ainda eram alimentados a bateria.  No anúncio  colocado acima podemos ver dois modelos desses aparelhos de rádios . Como o mundo mudou!
 
 
 

MariaNJardim
Ver também AQUI

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Angola: 500 Anos de Evangelização





















Os 500 anos do início da evangelização de Angola, no antigo Reino do Congo (1491), são o motivo que levam Bento XVI a este país lusófono pela primeira vez. Uma ocasião para recordar que o Cristianismo chega a Angola através dos Portugueses.

A fim de satisfazer os pedidos do Rei do Congo, saiu de Lisboa, em 1490 a primeira missão de cooperação e evangelização, chegando a 29 de Março de 1491 ao Soyo, foz do Rio Zaire. A catequese começou pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíram a primeira igreja. O início da evangelização de Angola, ocorreu no antigo Reino do Congo (1491), pouco tempo após...

Nesta primeira fase destaca-se o rei Dom Afonso I, Mvémba–Nzínga (1506-1543), que foi naquele tempo o maior missionário do seu povo. O Reino do Congo procurou ter relações directas com a Santa Sé em Roma, enviando aí embaixadores.
A pedido de D. Afonso, D. Manuel I, de Portugal, enviou ao Congo dois grupos de missionários. O primeiro partiu de Lisboa em 1504 e o segundo, formado por padres toios, em 1508. Era chefiado por frei João de Santa Maria.
Em 1517, o Papa Leão X nomeou bispo o Príncipe D. Henrique, que foi o primeiro Bispo da África Negra. Em 1534, foi criada a diocese de São Tomé, desmembrada da do Funchal. O Congo passou a depender da diocese de São Tomé.
Mais tarde, pela bula “Super specula militantis Ecclesiae”, de 20 de Maio de 1596, o Papa Clemente VII desmembrava da Diocese de São Tomé a nova Diocese do Congo, com sede em Mbanza Congo, chamada São Salvador do Congo.
O Papa Urbano VIII, pede, por intermédio da Congregação da Propaganda fidei, o envio de missionários para o Congo e em 1640 cria-se prefeitura Apostólica do Congo e Frei Boaventura de Alessano é nomeado Prefeito Apostólico.
Em 1643 prepara-se nova expedição, sob a direcção do mesmo Frei Boaventura de Alessano. O embarque deu-se a 20 de Janeiro de 1645 e o desembarque na foz do rio Zaire foi em Junho do mesmo ano, após uma viagem acidentada.
Angola passou praticamente a constituir um domínio do Brasil, que em África encontrava o mercado de escravos de que precisava para a agricultura e, mais tarde, para o trabalho das minas. O século XVIII foi já de profunda decadência, principalmente com a expulsão dos jesuítas e com a decadência das Ordens Religiosas em quase toda a Europa.
Octávio Carmo (retirado DAQUI)

Renascimento
O problema do clero indígena é dos mais graves e delicados nas actividades missionária. As dificuldades tanto vinham dos evangelizados como dos evangelizadores. Os sacerdotes que se encontravam em Angola eram pouco numerosos e geralmente faltava-lhes organização, zelo missionário e métodos apropriados ao apostolado missionário. O encerramento das casas religiosas em Portugal pelo Governo Liberal em 1834 tirou a esperança da recuperação durante muitos anos. Um bispo do século XIX pedia para Portugal que se acudisse à sua "moribunda diocese e a um outro, de meados deste século atribui-se esta frase de desalento: "Das Missões de Angola e Congo só resta a memória". Na realidade o número de sacerdotes chegou ao índice mais baixo em 1853: 5 angolanos, encontrando-se 4 em Luanda I em Benguela. As antigas paróquias e igrejas tinham desaparecido quase todas, missões propriamente ditas no interior não havia nenhuma.Desde 1885 até 1910 a vida religiosa foi-se desenvolvendo com certa intensidade: o pessoal missionário - padres, irmãos e irmãs - iam aumentando progressivamente e as populações iam-se abrindo à evangelização. Mas algumas guerras de ocupação do território tornaram certos povos impermeáveis por algum tempo, como os cuanhamas.
Era de esperança a acção religiosa em 1910, com a chegada anual de vários sacerdotes, irmãos e irmãs. Em 5 de Outubro daquele ano, a revolução que suprimiu a monarquia e instaurou o regime republicano em Portugal mostrou-se logo de início contra a Igreja Católica e suas instituições: supressão dos Institutos religiosos, dos seminários e do ensino religioso nas escolas, nacionalização dos bens eclesiásticos - seminários, residências episcopais e paroquiais e das comunidades religiosas - imposição do casamento civil, admissão do divórcio, etc. Ao mesmo tempo, na imprensa intensificou-se a propaganda, que já vinha detrás, contra a Igreja e a vida católica.
Em Angola, os reflexos destas leis e da campanha anti-religiosa encontravam numerosos adeptos, mesmo em algumas autoridades. Vários missionários, sobretudo estrangeiros, foram perseguidos, foram expulsas as religiosas que trabalhavam em Luanda e Moçâmedes, e suprimidos os subsídios que o Estado vinha concedendo a várias missões e outras instituições católicas. Mas a supressão dos Institutos Religiosos e dos seminários em Portugal tinha consequências mais desastrosas em Angola e nas outras colónias portuguesas. Quanto às Religiosas sucedia o mesmo: as Franciscanas Hospitaleiras retiraram-se para Portugal e não voltaram mais.
Em 1940 a Santa Sé e o Governo Português estabeleceram dois acordos: A Concordata e o Acordo Missionário, aos quais o Governo Português acrescentou o Estatuto Missionário. Estes documentos condicionaram o funcionamento das missões. Tais documentos consagraram o nacionalismo missionário, como afirmaram alguns responsáveis do tempo. O Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, referindo-se ao Acordo Missionário, declara a 10 de Dezembro de 1940: "Pelo Acordo Missionário continua no Ultramar a nossa vocação de dilatar a Fé e o Império". " A constituição da hierarquia nas nossas mais importantes Colónias é um acto simbólico da sua ocupação, para Cristo e para Portugal". A 25 de Maio do mesmo ano, Salazar acrescenta: "Não pode pôr-se, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade da evangelização; pelo contrário, uma faz parte da outra. O governo condiciona a evangelização à formação patriótica do clero". Monsenhor Alves da Cunha concluiu: "Com o Acordo Missionário a Santa Sé favorece os altos interesses nacionais de Portugal. A Organização Missionária Católica será essencialmente portuguesa".
Entre 1926 e 1940, a expansão da Igreja Católica foi visivelmente impulsionada com a fundação de 29 novas missões. De 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia.
Em 28 anos (1940-1968), o número de Padres angolanos passou de 8 a 71. Durante a 2." Guerra Mundial (1939-1945), não foi possível a entrada de pessoal missionário estrangeiro; mas, finda a Guerra, muitas Congregações acorreram ao apelo e dedicaram-se ao apostolado missionário em Angola.
Em 1954, Ano Santo Mariano, a revista “O Apostolado” deu início à campanha para a fundação de uma Emissora Católica de Angola (E.C.A.). No dia 8 de Dezembro de 1954 (encerramento das comemorações marianas) realizou-se a primeira emissão da Rádio Ecclesia, Emissora Católica de Angola.
Na cidade de Luanda, em 15 anos (1960-1975), as paróquias passaram de 5 a 14. A expansão missionária prosseguia com novas dioceses e novos seminários diocesanos, com frequência muito animadora. A evangelização foi feita com mais profundidade e, em muitos lugares, era uma autêntica pré-evangelização.

Nota da autora: inclui fotos de missões estrangeiras em Angola

em Agência Eclésia

domingo, 2 de novembro de 2008

Moçâmedes, a Cooperativa de Habitação "O LAR DO NAMIBE" e o seu presidente. E foi a partir de então que a cidade começou a encher-se de bonitas vivendas...



 



O Banco de Angola era à época o único no território,  não fazia empréstimos para habitação própria,
foi quando a  Sociedade Cooperativa de Construção «O Lar do Namibe» fez-se, 
e Moçâmedes encheu-se de belas vivendas...
Estas foram as primeiras a surgir, na continuidade da Rua das Hortasm cidade alta,  em seguida vivendas doa mais variados modelos, todas lindas e cheias de flores, espalharam-se por toda a cidade ... Mas já nãao apenas por Moçâmedes, também por Porto Alexandre  e por toda a Angola...

Belas vivenda, cuja aquisição de outro modo não seria possível... A pessoas não eram ricas nem havia créditos habitaçáo própria.




 Ainda hoje é possível contar-se quantas foram pelos inúmeros azulejos que suas fachadas ostentam... Esta o nr 21, a que vem a seguir 2867...





Elementos da direcção da Cooperativa de construção «O Lar do Namibe»,
do livro «Recordar Angola» 2. vol. Mariano Pereira Craveiro, o seu Presidente, à esq, de camisa branca   De entre outros,  da esq. para a dt; Santos (polícia), Simáo, Mariano,  esposa de Craveiro?, José Carlos de Freitas,  Arménio Matos,  ?,?,Jose Alves e Tavares Rodrigues  Uma reunião jantante entre elementos da direcção da Cooperativa de construção «O Lar do Namibe»,
do livro «Recordar Angola» 2. vol. de Paulo Salvador


Este largo merecia ter sido denominado "Largo Mariano Pereira Craveiro", por ser aquele que maior número de casas da Cooperativa reune, com todo o respeito pelos "Heróis de Mucaba". Mas Mariano era um opositor ao regime, que nas eleiçóes de 1958 esteve ao lado do Gereral sem Medo, Humberto Delgado, cntra Américo Tomás, da União Nacional.
  Largo "Heróis de Mucaba" no tempo colonial. Nesta fase da vida da cidade a CMM pugnava imenso pelo aspeto dos seus jardins floridos....
 
 
 
Foi graças à Sociedade Cooperativa « O Lar do Namibe», nascida em 16 de Fevereiro de 1950, data da assinatura da escritura pública, tendo como Presidente Mariano Pereira Craveiro, que os moçâmedenses, gente que na sua maioria vivia do produto do seu trabalho, puderam finalmente aceder ao velho sonho de ter casa própria, através de reduzidas quotizações mensais que iam ali depositando, sendo a aquisição do direito de construção efectuada através de três sistemas, um por sorteio mensal entre os associados, outro por número de ordem de antiguidade (número de ordem também ele efectuado por sorteio na fase de arranque da referida Cooperativa), e outro por leilão. Foi assim que começaram a surgir bonitas vivendas e moradias que ofereceram à cidade um toque de modernidade, enquanto se ia alargando em várias direcções, vencendo com determinação as areias do deserto.

Mas a actividade da «Cooperativa o Lar Namibe» não se limitou apenas à cidade que a viu nascer, ela acabou por se estender, numa primeira fase, à cidades de Porto Alexandre (hoje Tombwa), em seguida a Serpa Pinto (hoje Menongue), acabando por se expandir por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metópole onde já havia associados.


Esta Cooperativa foi um bem para a cidade, uma vez que não existiam à data financiamentos bancários à habitação própria, e muito poucos podiam dispor de capitais próprios para por si próprios as mandar erguer. Faço aqui uma referência especial à cidade de Serpa Pinto que estava a ser praticamente urbanizada pela «Cooperativa o Lar do Namibe» que a transformou de uma pequena  vila do interior numa cidadezinha bonita e moderna, à base de lindas vivendas, em cujas fachadas ainda hoje se podem ver os azulejos com o distintivo desta Cooperativa.

Mariano Pereira Craveiro, o Presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», era um Republicano de raiz maçónica oposicionista ao regime. Ele fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado, o General sem Medo,(*) nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado a seu lado no palco do Cine-Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...?


Aqui fica a minha humilde homenagem à memória do grande «Patrono» que foi MARIANO PEREIRA CRAVEIRO, figura que merece ser erguida das brumas do esquecimento e ser para sempre lembrada, mesmo ainda hoje na cidade do Namibe (ex-Moçâmedes), na Angola independente,. Aliás, Mariano Pereira Craveiro mereceria, desde logo e ainda hoje, ter o seu nome ligado ao grande largo existente na cidade de Moçâmedes que se encontra totalmente rodeado por casas construídas pela «Cooperativa o Lar do Namibe».

* - Video discurso de Salazar sobre Hu
 
 Ver aqui A EPOPEIA  DE MUCABA:
 
 
OUTRAS NOTÍCIAS SOBRE O COOPERATIVISMO NAS COLÓNIAS
4.1. Cooperativismo em Moçâmedes
De Angola, o Boletim Cooperativista nº 104, de junho de 1962, publica o artigo «O LAR DO NAMIBE» -
UMA COOPERATIVA DE CONSTRUÇÃO EM FRANCO PROGRESSO, de autoria de Alberto Alves Carneiro.
São as mais animadoras e sem dúvida entusiásticas as informações que constantemente nos chegam sobre o modelar funcionamento e proveitosa actividade, da sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», com sede em Moçâmedes, Angola.Fundada em 16 de Fevereiro de 1950, data da assinatura da escritura pública, esta teve a outorgá-la elevado número de sócios fundadores, e desde então o seu desenvolvimento tem-se acentuado de maneira notável com realizações dignas de registo, facto que muito tem contribuído para a valorização da propriedade, em sistema colectivo, de várias localidades em África.Se bem que a sua sede seja em Moçâmedes, a acção construtiva da Cooperativa estende-se, com indiscutível projecção, a outras terras de todo aquele continente africano.Pontos de vista interessantíssimos e grandemente favoráveis no que se refere a benefícios e direitos dos respectivos associados tornam em moldes diferentes a organização de «O Lar de Namibe» de muitas outras sociedades congéneres existentes em terras da Metrópole.O número de sócios em 31 de Março último elevava-se a 9714, e as construções efectuadas desde a sua fundação em fins de Dezembro do ano findo eram representadas por 291 habitações, 28 apartamentos, 26 estabelecimentos, 2 sedes destinadas a colectividades, 1 capela e 1 hotel.
Perante os trágicos acontecimentos ocorridos no princípio do ano de 1961, em Angola, em que muitas foram as famílias que se retiraram da Província, foi de notar, por tal motivo, a falta de pretendentes às habitações construídas.A instituição, num alto sentido de objectividade dos princípios que representa e defende, não fez paralisar as construções que tinha a seu cargo e responsabilidade, garantindo dessa forma o trabalho ao pessoal da construção civil, como procurou ainda adquirir, num local muito central da cidade de Moçâmedes, um amplo terreno para início de novas construções onde pudesse aplicar as verbas disponíveis de capital, previstas nos Estatutos.Um imóvel de positivo valor - uma Estalagem, no sentido mais digno e nobre da palavra - aí teria a sua edificação, com o fim de testemunhar, aos vindouros, um exemplo dado pelos moçâmedenses levado a efeito numa hora séria e grave.As diligências para que tal imóvel apareça aos olhos da população de Moçâmedes, ou aos seus futuros visitantes e residentes, prosseguem, activa e inteligentemente, por parte da Direcção da Cooperativa, dado que certas dificuldades surgiram a tão simpático empreendimento, da entidade oficial que superintende e autoriza as respectivas construções citadinas.Como no início se afirma, a acção de «O Lar do Namibe», abrange toda a terra portuguesa, e a prová-lo está o facto de, a seguir a um sem número de consultas, ter construído a sua primeira Delegação, cabendo à cidade do Porto, essa honra.Desde Maio do corrente ano, que uma metódica e insistente propaganda está sendo feita por intermédio de comunicados oficiais, publicados e distribuídos directamente a uma parte da população e firmas comerciais da referida cidade, no sentido de tornar bem conhecidos os elevados objectivos que animam e orientam a Instituição, interessando aquelas entidades, pessoais ou colectivas, nas finalidades sociais que são a razão da existência da Sociedade «O Lar do Namibe». Desta forma, em contacto com a Delegação agora criada, os inscritos residentes no País, ficam com a faculdade de, com mais possibilidades, estabelecerem as suas relações sociais com a sua Cooperativa.O «Boletim Cooperativista», que é distribuído aos sócios do «Lar do Namibe», graças à simpática decisão dos amigos que compõem a Direcção da Cooperativa, ao adquirir certo número de exemplares, não podia deixar de se referir a mais uma iniciativa - a sua Delegação - que vem muito valorizar a acção dos dirigentes cooperativistas que, em terras de África, procuram com inteligência, dedicação e alta visão social, resolver um problema de interesse vital, a construção de uma casa para cada sócio.
Tal como em Moçambique, as cooperativas de habitação terão sido o ramo cooperativo mais pujante na outra ex-colónia portuguesa do sul de África.A menção à abertura de uma delegação na metrópole, no Porto, e a referência feita ao início da guerra independentista na colónia, pode significar que os membros se estariam a precaver para o caso de terem de abandonar o território. Mas apesar de uma outra notícia sobre a cooperativa surgida mais adiante no tempo, nada se conhece sobre o andamento do dito projeto do Porto, e depois de Abril não existe registo de que a delegação da cooperativa tenha funcionado.Ainda ligada à cooperativa «O Lar do Namibe», o Boletim Cooperativista, no seu nº 106, de agosto de 1962 epigrafa um artigo com COOPERATIVA EDITORIAL ANGOLANA.__________________________________________________________________________________________________________________________________Sob o patrocínio da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», com gente sua e para seguir a mesma rota de trabalho, foi constituída em Moçâmedes, por escritura pública de 15 de Janeiro p. p., a «Cooperativa Editorial Angolana».Como determinam os Estatutos, a Cooperativa é absolutamente alheia a qualquer espécie de manifestações de carácter político e religioso e podem ser sócios dela, todos os indivíduos, maiores, de ambos os sexos, e menores quando devidamente autorizados por seus pais ou tutores, e também as entidades comerciais, industriais, agrícolas, culturais, de recreio, ou quaisquer outras, quando devidamente legalizadas.São considerados sócios fundadores, todos aqueles que fizerem a sua inscrição até ao dia 30 de Setembro de 1962.Os sócios estão divididos por várias categorias, a saber:
Efectivos - Pagando o mínimo de 10 acções, no valor de 100$00 cada, mas podendo estas ser liquidadas mensalmente, no mínimo de vinte prestações de 50$00, acrescidas de 10%, para encargos de administração. Nesta qualidade de sócios efectivos, não ficam obrigados a outros encargos futuros, a não ser de 2$50 mensais, para a construção do Edifício Sede da «Cooperativa Editorial Angolana».Sócios Auxiliares - Sem encargos de Acção, pagam a quota mínima, mensal, de 5$00, que pode ser cobrada nas condições que o sócio indicar. Esta qualidade de sócio, não tem direitos de voto nem de discussão nas Assembleias, nem sobre os destinos da Cooperativa. Limitam-se a colaborar financeiramente nos objectivos sociais da Cooperativa.Sócios Beneméritos - São todos aqueles que contribuem com um mínimo de 5.000$00 (cinco mil escudos), pagáveis num máximo de 10 prestações.Sócios Honorários - São todos aqueles que prestem à Cooperativa, auxílios de qualquer natureza, de ordem moral ou financeira.A traços ligeiros foi dito, quais os propósitos da «Cooperativa Editorial Angolana» e a orgânica no que se refere à admissão de associados.O QUE OFERECEMOS?Quem entra para qualquer agregado social visa, regra geral, conhecer as benesses de ordem material que possa escolher. Essas são ínfimas na «Cooperativa Editorial Angolana» O fim dela não é o balcão, nem operações rendosas que ofereçam garantias ao pequeno capital a despender por quem venha a inscrever-se na Cooperativa.No entanto, o Artigo 8º dos Estatutos prevê um desconto de 10% nos livros editados e 5% em jornais ou revistas, para todas as categorias de sócios.Com o tempo, o sócio receberá a compensação, mas dos que vierem até nós é de esperar a compreensão de utilidade social que representamos e não rentabilidade da sua cooperação financeira, porque, como foi dito, à parte o encargo inicial, o sócio efectivo não mais terá quotas a pagar, a não ser o mínimo de 2$50 mensais para fins de construção da Sede. À juventude, à mocidade estudiosa e aos homens para quem os problemas angolanos fazem parte da sua razão espiritual de ser, oferece a «Cooperativa Editorial Angolana» campo vasto para em livros e folhetos poderem apresentar as suas ideias
Um Conselho Técnico formado em condições que o Regulamento Interno mencionará, fará a apreciação e decidirá quais as obras que de preferência deverão ser editadas.É evidente que será dada primazia às produções intelectuais dos associados, mas não obsta que se considere também o trabalho de indivíduos alheios à Cooperativa. Dirigimo-nos, pois, não apenas aos que têm sede e fome de justiça, mas, acima de tudo, àqueles que vêem no Homem um valor a elevar, a dignificar, a respeitar.__________________________________________________________________________________________________________________________________Como se fosse um anúncio, e na primeira página, este artigo mostra-nos uma cooperativa com incursões pelos ramos da cultura e da produção editorial. Porém, ao contrário da Coop de Moçambique, a atividade levou à criação de uma nova cooperativa e não ao alargamento de atividades da cooperativa ‘mãe’, a de habitação.No Boletim Cooperativista nº 118, de agosto de 1963, surge-nos uma derradeira referência à cooperativa de habitação criada em Moçâmedes:_________________________________________________________________________________________________________________________________
SOCIEDADE COOPERATIVA «O LAR DE NAMIBE»Tomámos conhecimento com prazer do Relatório da Gerência de 1962 desta cooperativa de habitação cuja sede é em Moçâmedes.Do mesmo relatório transcrevemos:«Nunca viemos, em qualquer ano da existência da nossa cooperativa, perante a massa associativa, declarar um recuo quanto ao aumento populacional e arrecadação de receitas.Assim acontece também este ano, que com íntima satisfação podemos dizer nesta Assembleia, que mais outro ano rodou sobre a vida da Cooperativa e com ele, mais um salto progressivo, embora Angola tivesse sofrido e continue sofrendo, a guerra e o terrorismo.Nem por isso estes factores impediram o progresso e engrandecimento da nossa organização podemos mesmo afirmar que todos os sectores se apresentam em franco progresso, que a verdade dos números se encarregará de demonstrar, com bastante eloquência».Durante o ano de 1962 foram admitidos 1059 sócios, havendo em 31 de Dezembro, no activo, 6500.Saudamos a Cooperativa «O Lar de Namibe» esperando que continue em franco progresso Cont....