Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 27 de outubro de 2020

O "Chalé da Horta da Nação" em Moçâmedes e o Dr, Lapa e Faro

 

Este edificio pintado a azul, conhecido em Moçâmedes pelo "Chalé" da Horta da Nação,  ficava na margem esquerda do Rio Bero, no sitio onde surgiu a 1ª feitoria de Moçâmedes, em 1840, de António Joaquim Guimarães Junior, segundo  Manuel Julio de Mendonça Torres em seu livro sobre "Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização" , e no sitio conhecdo por "Gato com Botas", e era em 1975, sabemos nós,  propriedade de José Prazeres Madeira. Actualmente parece pertencer à Policia Nacional.

 

No 2º volume do seu livro "Moçâmedes, no Ciclo Aureo da Cultura do Algodão",  Manuel Júlio de Mendonça Torres, fazendo referência a um ofício de Pinto Balsemão datado de 23.03.1868, descreve a vivenda romântica, em Arte Noveau, da Rua Calheiros, no meu tempo conhecida por "Casa da Desvia", e faz igualmente referência a este Chalé, ambos mandados construir pelo Dr. Lapa e Faro (1), o 1º médico de Moçâmedes, contemporâneo da fundação,  que ficava próximo da Aguada, nos arrabaldes da vila, construído posteriormente, e que nada tinha a ver com aquela outra situada em plena vila. 

Quando Manuel Júlio de Mendonça Torres, o autor do livro, nasceu, as casas já não pertenciam ao Dr Lapa e Faro, que havia falecido há muito...   A casa romântica, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que chegara a ser a melhor da vila, com dois jardins, cobertos de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, a casa da Desvia era propriedade de Rosa Gonçalves (Desvia), e o "Chalé da Horta da Nação"  que é também, sem dívida uma belíssima construção, segundo Victor Mendonça Torres fizera parte da propriedade que vinha das salinas até à Horta do Torres (Benfica incluso) e fora  mais tarde vendido, em lotes a seu tio Gaspar Madeira , tendo ainda mais tarde cabido em herança a seu irmão Prazeres, e a de Benfica passara para o Venâncio Guimarães. 




(1) Lapa e Faro, de nome completo Joãp Cabral Pereira Lapa Faro,

Ajude a difundir este blog. Respeite o nosso trabalho. Se publicar algo retirado daqui, não se esqueça de dar os respectivos créditos a "Mossâmedes do Antigamente". Eletem direitos de autor, não esqueça também de citar outras fontes por sua vez aqui citadas. Incorre em PLÁGIO, devassa da propriedade intelectual, quem daqui o retirar e republicar sem a menção da autoria.

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O "BAIRRO DA FACADA" E A ORIGEM DO NOME



O "BAIRRO DA FACADA"  E A ORIGEM DO NOME
 

Contavam as nossas avós que o termo "Facada", que deu origem ao nome do "Bairro da Facada" em Moçâmedes, advém de rixas de quando em quando ocorridas  naquele local, tendo como  protagonistas cabo-verdianos,  que no calor das suas lutas, chegavam, incluso, a puxar por navalhas e  a causar graves danos.  Estes episódios que estariam ligados a bebedeiras de fins de semana (1), deviam ter acontecido há muito temo atrás, porquanto na segunda metade do séc XX até 1975, não consta nem a presença de uma comunidade caboverdeana em Moçâmedes e muito menos rixas como acima são referidas.
 
No livro «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização, 1485-1859" , Júlio de Mendonça Torres, citando um Relatório do Governador Fernando da Costa Leal (o 5º Governador do Distrito), de 6 de Junho de 1857 , faz referência a navios baleeiros norte-americanos que operavam entre a Ilha de Santa Helena e a costa de Moçâmedes , zona abundante em cetáceos, sobretudo baleias, cachalotes e toninhas, na qual empregavam avultado número de navios com cerca de vinte a trinta marinheiros que os tripulavam, grande parte dos quais portugueses, naturais dos Açores e de Cabo Verde (açoreanos e caboverdianos), considerados pelos capitães norte-americanos como os mais destros arpoadores. Na perseguição das baleias, os navios navegavam, quase sempre, pouco afastados da costa, ora dirigindo-se para o Sul até ao Porto de Pinda e a Baía dos Tigres, ora encaminhando-se pelo norte até à baía de Moçâmedes, onde por vezes ancoravam para se abastecerem de refrescos. Seriam estes marinhos que veiculando a noticia da riqueza da fauna pesqueira naqueles mares, levaram os algarvios de Olhão em 1961 a partir para Moçàmedes tendo chamado a atenção para os mares da Baia dos Tigres onde se fixaram os pioneiros em 1865.   
 
Posto isto, pergunta.se : "Será que vem daí o nome de "BAIRRO DA FACADA"? Será que teve origem esse nome em alguma rixa ocorrida naquela zona, num desses momentos em que os marinheiros cabo-verdeanos iam a terra abastecerem-se de víveres e de água ? Ou até divertirem.se, antes de retomar a  actividade pesqueira?  Sabe-se, por exemplo, que o nome "AGUADA" vem desse tempo, e desses abastecimentos dos baleeiros, que ficavam ancorados na baía, em lugar próximo dessa zona, enquanto os marinheiros iam a terra.
 
José Fragata, um moçamedense, conta-nos na sua página do facebook como era no tempo colonial, a vida num bairro muito próximo do Bairro da Facada. Que leiam com atenção aqueles que vêem a História a preto e branco, dividem os indivíduos em bons e maus, e vivem na busca eterna de "bodes expiatórios" para todos os males: A vida nunca foi, e continua a não ser fácil, mas a todos os que querem aprender ela vai ensinando...
 


MariaNJardim (ass)
 
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"...DO BAIRRO DA GLÓRIA PARA O MUNDO !
 
 
"Lá longe, no Bairro da Glória, onde nasceu muita Gente, a Amizade eternizou-se e ninguém a conseguiu “matar”; Lá longe, onde os tamarineiros cresceram e se tornaram gigantes, guardando e acumulando histórias dos “escondidos” visitantes; Lá longe, onde o areal era preenchido pelos campos de futebol improvisados; Lá longe, onde na escola os professores usavam a menina dos cinco/sete olhos das quarenta reguadas, para ensinarem a ser Homens e Mulheres os meninos e meninas mal (e até os bem) comportados; Lá longe, perto dos Cabindas, da Soful e da Facada … Do Bairro da Glória para o Mundo!!!
Lá longe … onde o sol castiga mais, nasceu também o Guto!
Ali éramos todos irmãos; Ali reinávamos; Ali brincávamos; Ali Vivemos…
Ali aprendemos a crescer e a encarar com o crescimento que há assuntos sérios que a vida nos coloca; que há momentos difíceis a ultrapassar, a chorar ou de sorriso nos lábios mas que nos podem fragilizar.
Há sempre qualquer coisa que nos “toca”!
A vida nunca foi, e continua a não ser fácil, mas a todos os que querem aprender vai ensinando.
Desapareceste quando já não estávamos na Glória, e durante anos estiveste pela Europa, como outros pela América, Ásia e Oceânia e eu continuando por lá. Vim, como muitos outros para este rectângulo plantado à beira mar que me acolheu, e como sabes, perguntei por ti. Curiosamente, anos depois, vens tu viver para o mesmo “quimbo” e inevitavelmente um dia voltamo-nos a cruzar e a abraçar.
Destino?! Que seja, mas até parecia que tínhamos regressado aos velhos tempos do Bairro Maria da Glória!
Os Amigos, não são só amigos, são incondicionalmente Amigos e estão no nosso passado, no presente e no porvir, eternamente connosco.
Temos que ser fortes mas sensíveis, como os bons Amigos; ter coração, compreensão, e por vezes até compaixão; dando um pouco de nós na distribuição da Vida, na ajuda e no “ouvir” que necessita a Amizade, com um simples Obrigado.
Como alguém um dia ainda adolescente me fez ver, hoje há palavras que pouco se ouvem, mas fazem maravilhas e são tão fáceis de pronunciar – Amo-te; Desculpa; Ajuda-me.
Aqui somos todos felizes, mas onde está aquele sorriso que diz tudo; aquele Oi dos outros tempos; aquele abraço forte que me agrada e anima e que agora te volto a dar por momentos, MEU AMIGO GUTO?!
Escrevo aqui para ti só porque entendi e sei que me vais entender, sabendo quem sou.
Decerto neste dia em que celebravas o teu aniversário, outros se lembrarão de ti agora, porque todos nós teus amigos que bem te conhecemos e contigo privamos somos iguais, com os problemas e preocupações com a saúde, trabalho, vida … existência.
Meu Amigo, já não estás cá mas estou contigo … e, para além de tudo o resto e bem mais importante, sei que tens Deus contigo!
Até um dia!
Só AQUELE ABRAÇÃO do Bairro da Glória"  Fim de citação,




sexta-feira, 9 de outubro de 2020

"BAÍA DAS PIPAS" E A ORIGEM DO NOME

A denominação «Baía das Pipas»,  a norte da cidade de Moçâmedes, e a sul de Banguela, zona pesqueira no tempo colonial desde a chegada do portugueses de Pernambuco, Brasil, 1849, ficou a dever-se a um incidente ocorrido no ano de 1842, que levou a Estação Naval Portuguesa que por esse tempo patrulhava a costa de Angola, a mandar queimar grande número de pipas que ali se encontravam armazenadas. 

Esta queima era à época perfeitamente justificável, de acordo com as disposições das leis do Decreto de 10 de Dezembro de 1836, de Sá da Bandeira (1), o grande politico do século XIX português, paladino da abolição do tráfico de escravos que durante 3 séculos correu na direcção do Brasil, a partir dos portos de Luanda e de Benguela. Aquela quantidade de pipas ou barris encontradas na baía então desértica não cumpria, por parte de um capitão de um qualquer navio, determinadas formalidades, ou seja, era maior do que a quantidade necessária para consumo da equipagem de um navio mercante, pelo que deveria considerar-se achado com indícios de tráfico clandestino de ecravos.   

O vazio de poder nas colónias, desde o inicio do sec xix era enorme neste século XIX português  atribulado , varrrido pelas invasões francesas (1908-11), que levaram à fuga do Rei e da Côrte para o Brasil,  à revolução de 1820,  â queda do absolutismo monárquico e  ao triunfo do liberalismo (1834), após 14 anos de guerra civil entre liberais e abolutistas, seguidos de lutas fraticidas entre faccões no seio do liberalismo triunfante, que se arrastaram até 1851, deixando o país arrasado, sem agricultura,  sem industria, afundado numa crise comercial , e sem paz para legislar.

Durante as décadas que  vieram a seguir ao decreto de 12 de Dezembro de 1836, até  à abolição definitiva em 1869,  o tráfico clandestino envolveu comerciantes e elementos da burguesia  angolana,  de Luanda e de Benguela, que puderam contar com colaboração ou a tolerância de alguns Governadores Gerais, A luta contra o tráfico foi iniciada no "reinado" do  Governador Geral de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha (1845 e 1848), e foi a partir de então que este estado de coisas começou  a mudar, ainda que na sua vigência os traficantes continuassem a subornar funcionários ou a encontrar pontos de embarque menos vigiados. 

Teria sido esse o contexto em que foram encontradas as pipas armazenadas na "Baía das Pipas", 7 anos antes da chegada dos colonos fundadores a Moçâmedes , oriundos de Pernambuco, Brasil,  em 04 de Agosto de 1849, para dar inicio ao povoamento branco da  velha Angra do Negro. Não foi um acto conclusivo, contudo importa não deixar escapar que no ano de 1860, quando haviam decorrido 11 anos após  o início da colonização, teve lugar no Carumjamba, a norte de Moçâmedes, um acto de tráfico ilícito que gerou grande alvoroço entre a população da recem formada povoação , essenciamente entre os produtores da Urzela espalhados pelo distrito, e que redundou num "Manifesto dos colonos fundadores de Moçâmedes sobre tráfico ilegal de escravos".  

A  urzela, musgo com aplicação tintorial , era então muito procurada pelas industrias têxteis da Europa, pelo que  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas  que debandavam das plantações , mão de obra essa  que necessitavam para manter activa  a exploração.

Esta era uma fase de transição para um novo paradigma com a fixação de colonos e o desenvolimento e progresso de Angola, que  veio  deitar por terra o esclavagismo. Fase em os escravos eram libertados de navio apresados, e na condição de  semi-libertos, se obrigavam a trabalhar durante 10 anos para o avanço da economia de Angola, findos os quais ganhariam a sua alforria.

Neste contexto, em finais dos anos 50, toda e qualquer suspeita de tráfico ilícito constituía um factor desestabilizador . Sabia-se que o tráfico ilegal vigorava ainda na região do Congo (Angola). Havia notícia de que os embarques que antes eram legalmente efectuados a partir dos portos de Luanda e de Benguela, desde 1836 tinham passado a fazer-se através de praias e pequenas enseadas desérticas, entre o Ambriz e o rio Zaire, através de traficantes que operavam na clandestinidade. Contudo fazê-lo no sul de Angola, numa zona desértica, onde era escassa a população indígena, era uma verdadeira anomalia.  

Ora o que se passou então foi que moradores e donos das feitorias dos vários produtores de urzela (1) da região de Moçâmedes reclamavam, indignados,  num manifesto endereçado ao Governador de Benguela,  os prejuízos gerados pela tentativa de tráfico ilegal de escravos, levada a cabo por um tal Manuel José Correa, no sítio do Carumjaba, onde possuia a sua propriedade dedicada à exploração daquele musgo tintorial bastante procurado pelas industrias têxteis da Europa, e recebera um barco espanhol por ele convidado para embarcar  acima de duzentos escravos para Havana,  valendo-se da posição isolada e da ausência de patrulhas de cruzeiros anti-tráfico naquelas paragens, tendo como resultado que os serviçais das vizinhas feitorias que assistiram ao embarque, debandaram para as suas terras,  tendo  da propriedade do agricultor da urzela em S. Nicolau, Narciso Francisco de Sousa  fugido de uma só vez, mais de 30 escravos, e da de Ladislau  A. Magyar,  na Lucira, fugido 7 . Visto pelos escravos de outras feitorias que temiam pelo retorno do tráfico ilegal, o embarque ilegal perpretado por Correa teve sérias consequências, porque não apenas levou a várias fugas das feitorias, o que mais afligia os produtores da urzela: perder a mão de obra que garantia a colecta da urzela. Tinha-se uma preocupação maior com os efeitos indirectos a partir das embarques ilegais na região: as fugas dos escravos.

Os  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas de que necessitavam para manter activa  a exploração.Um  caso considerado insólito o da manifestação formal de produtores de Moçâmedes contra o tráfico ilegal, impensável dez ou vinte anos antes, quando o tráfico era legal. Aconteceu quando já há muito os navios patrulha ingleses e  portugueses vigiavam a costa em busca de eventuais prevaricadores.  Por esta altura a economia de Angola já transitara  do comércio lícito de escravos para o ilícito, e procurava enveredar para o trabalho livre, pelo que a presença de  um  navio negreiro espanhol, que fazia o tráfico ilegal para Cuba, nas águas próximas de Moçâmedes,   atemorizava tanto os serviçais como os proprietários.

Manuel José Correa não revelava nenhum tipo de organização estruturada, ele actuava sozinho e não em rede comoos traficantes que actuavam a partir do rio Zaire. Possuia uma  propriedade no distrito de Moçâmedes. O seu caso foi isolado mas ja em plena fase de tráfico ilegal. Não tinha barracões de escravos, nem agentes espalhados pelo sul de Angola. Talvez antes de retomar o tráfico ilegal  ele se dedicasse à colecta da urzela, era um dos produtores da região, tal como outros que se se indignaram diante do embarque de mais de 200 escravos, em Setembro de 1859.

(Ass) MariaNJardim 

 

 

(1) Foi  em 1836 que, aproveitando a subida do Partido Progressista ao poder, o General Sá da Bandeira decretou a abolição do tráfico de escravos, mas a falta de condições para pôr a lei da abolição a funcionar levou a que os embarques passassem a fazer-se, na clandestinidade, desviando-se  para praias desérticas a  norte e a sul dos portos tradicionais de Luanda e Benguela.  

(2)Urzela é um liquen que medra nas rochas à beira mar., do qual se obtém uma tinta azul arroxeada  de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação,  um musgo com aplicação tintorial muito procurado pelas industrias têxteis da Europa, pelo que  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas de que necessitavam para manter activa  a exploração. Seria o caso dos proprietários das feitorias destinadas exclusivamente à colheita da urzela em Moçâmedes.
                                                                     

Ver tb: http://mocamedesregistosefactos.blogspot.com/2011/07/mocamedes-registos-e-factos-manifesto.html


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CURIOSIDADES. PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DE MOÇÂMEDES. A AVENIDA DOM LUIZ DE MOÇÂMEDES



D. Luís e D. Maria Pia, 1862. 
 
  AVENIDA DOM LUIZ

AVENIDA DA REPÚBLICA
 


DOM LUÍZ  emprestou o seu nome a esta Avenida, no período da sua vigência no trono de Portugal, desde Novembro de 1861, ainda que não tenhamos conseguido saber o momento exacto.
 
Na 2ª foto, a mesma AVENIDA já então denominada AVENIDA DA REPÚBLICA, após a Revolução de 5 de Outubro de 1910. (1)
 
DOM LUÍZ era filho de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota;  herdou o trono quando tinha 23 anos, por morte do seu irmão mais velho, D. Pedro V, que não tinha descendentes, sendo aclamado REI a 22 de Dezembro do mesmo ano. 
 
A 27 de Setembro do ano seguinte DOM LUÍZ casou-se, por procuração, com D. Maria Pia de Sabóia, filha do rei Víctor Emmanuel II da Itália. 
 
Enquanto infante DOM LUÍZ serviu na Marinha, visitou a África Portuguesa e esteve em Angola. Exerceu o seu primeiro comando naval em 1858.  
 
Era um homem culto e de educação esmerada, calmo e conciliador, como todos os seus irmãos.  Era respeitador das liberdades individuais.  O seu reinado ficou marcado pela abolição da pena de morte, pela abolição da escravatura e pela publicação do primeiro Código Civil. 
 
De grande sensibilidade artística, pintava, compunha e tocava violoncelo e piano. Poliglota, falava correctamente algumas línguas europeias. Fez traduções de obras de William ShakespeareMas era principalmente um homem das Ciências, com paixão pela oceanografia, financiando projectos científicos e pesquisas oceanográficas em busca de espécimes dos “7 mares”.
 
Foi rei de Portugal até ao seu falecimento, em 19 de Outubro de 1889, no seu palácio de Verão, na Cidadela de Cascais. O povo deu-lhe o cognome de o Popular. Eça de Queiroz chamou-lhe o Bom.
 
 Pesquisa e texto de 
MariaNJardim
 
 
(1) Importa ainda referir  que com a subida do Estado Novo ao poder,na sequência do golpe militar que depôs a 1ª Republica , esta Avenida passou a ser conhecda por Avenida da Praia do Bonfim, tal como a rua paralema existente com o mesmo nome. Lembramos que em textos antigos de quando a Avenida   começou a ser delineada é conhecida como a Avenida da Praia. Igualmente passou por várias fases quanto a arborização. De inicio palmeiras, fase que perdurou até ao Estado Novo. Pensa-se que para dar um ar mais lusitano foi  fase em que a Avenida  se encheu de árvores diversas,  incluindo oliveiras, e a profusão de canteiros reenchidos com as mais diversas flores, cujas semente vinham da Europa, bem como  caramanchões , tanques com repuxos de água, etc, etc. Mais tarde,  coincidente com a 2ª fase do Estado Novo e com a aceitação por Salazar a tese do Lusotropicalismo, de Gilberto Freyre, finalmente, o retorno das palmeiras  à Avenida de Moçâmedes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O REI QUE EMPRESTOU SEU NOME À FORTALEZA DE MOÇÂMEDES

 


PINCON, Adolphe, 1847-1884
S. M. el Rey Dom Fernando / A. Pinçon. - [Paris? : s.n., entre 1867 e 1877?]. - 1 gravura : litografia, aguarelada ; 40x31 cm (imagem sem letra). BN
 
 
Dom Fernando II, de seu nome completo Ferdinand August Franz Anton Saxe Coburgo Saalfeld, era um príncipe alemão da Casa de Saxe-Coburgo-Gota-Kohary , nascido em Viena, no palácio da sua família materna, a 28 de outubro de 1816. Era filho do príncipe Fernando-Saxe-Coburgo-Gotha e da sua esposa, a princesa Maria Antónia de Koháry. Foi Rei de Portugal jure uxoris como o marido de D. Maria II , a partir do nascimento de seu filho em 1837. O seu reinado chegou ao fim com a morte de sua esposa em 1853, mas ele serviu como regente de seu filho e sucessor, D. Pedro V , até 1855. Ele e Maria fundaram a Casa de Bragança-Saxe-Coburgo e Gotha , que iria governar Portugal até 1910 . https://pt.blastingnews.com/cultura/2017/06/d-fernando-ii-o-rei-que-preferia-a-cultura-a-politica-001794945.html?fbclid=IwAR1LRtCLmoYkY6dM6-yMXEw1upCjc5V6VOvORom3_bSGMfhLwR5iKwYyemQ
 
Conhecido como o "Rei-Artista", D. Fernando II foi o segundo e último rei-consorte de Portugal. Era visto como um homem inteligente, egocêntrico, alegre, sedutor, que era dado a convívios, apreciava a cultura, e evitava envolver-se em questões políticas. No entanto, tinha uma caraterística menos favorável aos olhos de muitos... tinha uma voz profundamente anasalada. No nosso país deixou um legado sobretudo cultural, mas também nos garantiu a independência da Espanha. Revela-mosagora mais informações sobre o segundo marido da rainha D. Maria II.
Quanto à Fortaleza de S. Fernando em Moçâmedes, esta começou a ser erguida, após os estudos da costa e dos sertões da região, iniciados em 1839, quando o então Governador-geral da Província de Angola, Manuel Eleutério Malheiro determinou em Fevereiro de 1840, que se erguesse um forte na baía de Moçâmedes, época em que se iniciava a sua ocupação militar. Essa 1º fase da fortificação foi concluída em 1844, recebendo oficialmente a designação de Forte de S. Fernando pelo Ofício nº 249, de 12 de Junho de 1849, do Governador-geral ao Ministério do Ultramar em Lisboa. Era feita, dessa forma, uma homenagem a Fernando II de Portugal, esposo da rainha D. Maria II (1826-1828; 1834-1853). Foi seu primeiro comandante o Tenente de Artilharia João Francisco Garcia (1840-1845).
 
Os primeiros colonos civis de Moçâmedes foram os fundadores das primeiras feitorias que não vingaram e que acabaram por ter uma vida breve, no entanto decisivos o arranque da cidade foram dois grupos de portugueses que se retiraram da Província de Pernambuco, no Brasil, quando da Revolta Praieira (1848), e que em 1849 resolveram fixar-se em Moçâmedes, o 1º chefiado por Bernardino Abreu e Castro, o 2º chefiado por José Joaquim da Costa. 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

" OS VISCONDES DE GIRAÚL

 

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl
(Tarouca 1863 - Lisboa1926), título concedido por Decreto de 18 de Maio de 1899 de D. Carlos I como recompensa pelos serviços prestados à coluna de operações no Humbe. 
 
 
 
 

Circula na Net, um aprofundado trabalho de pesquisa sobre a biografia de Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, o Visconde de Giraul e de seus herdeiros titulares, a quem D. Carlos, rei de Portugal, concedeu o titulo , por proposta do Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar, que, por ser uma faceta pouco conhecida da colonização dos territórios africanos, a da concessão de uns poucos titulos nobiliárquicos a personalidades que sobressairam no tempo  da monarquia e a outras mesmo após a Implantação da República Portuguesa,
resolvemos abordar aqui,
 
 
 
e com o fim do sistema nobiliárquico, que mantiveram o título, como foi o caso do 2.º Visconde de Giraul, Manuel Alves Bastos Botelho da Costa, nascido em Moçâmedes, e mesmo de Guilherme Poças Falcão Bicudo Correia Botelho da Costa, 3.º Visconde de Giraul, e de Guilherme César Pestana Botelho da Costa, 4.º Visconde de Giraul.
 
Giraúl é o nome de uma das suas propriedades, nas margens do rio da mesma designação, próximo de Moçâmedes. E tornou-se um títumo, uma mercê 
 
 O título "Visconde do Giraul" foi uma mercê concedida pela 1ª vez ao facultativo de 1º classe do quadro de saúde de Angola, no ano de 1899, então já abastado proprietário na região do Giraul, distrito de Moçâmedes, como reconhecimento do apoio concedido na época a uma coluna militar dirigida à região sublevada do Humbe.
 
 Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, o 1ºv Visconde do Giraul foi médico, militar, empresário agrícola e escritor.  Foi Facultativo de 2.ª Classe, com a graduação de Tenente. Exerceu no Hospital de Luanda e em Cabinda, e foi Delegado de Saúde no Ambriz, Cazengo e em Moçâmedes.  Em 1892 foi a Facultativo de 1.ª Classe, e ao posto de Capitão, e em 1902 a 2.º Subchefe, como Major, e a 1.ºSubchefe do Serviço de Saúde, como Tenente-Coronel.  Em 1900 foi Chefe Interino do Serviço de Saúde de Angola e São Tomé e Príncipe, e em 1902 assumiu a Direção do Serviço de Saúde de São Tomé e Príncipe e do Hospital daquela Provincia. Em 1911 foi nomeado Chefe do referido Serviço, com o posto de Coronel, em que se reformou, entregando-se depois à administração das suas Propriedades em Angola e na Metrópole e à administração das Companhias que fundou. Foi o Fundador da Companhia de Cuanza Sul e da Companhia do Sul de Angola, na segunda das quais foram incorporadas as suas propriedades agrícolas e industriais do Distrito de Moçâmedes. Foi Oficial da Ordem de Avis, Cavaleiro da Ordem da Coroa da Prússia, e condecorado com a Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar e com a Medalha de Assiduidade no Ultramar.  De entre as obras que publicou salientamos A Profilaxia do Paludismo nas Nossas Colónias, 1902; A Cultura do Algodão e da Borracha na Província de Angola, 1910;  Egomegalia Literária, Estudo de Psicopatologia, 1911; O Trabalho Indígena no Concelho de Moçâmedes, Carta Aberta ao Senhor Governador-Geral de Angola, Major Manuel Maria Coelho, 1911; A Escravatura em Moçâmedes, Carta Aberta a S. Ex.ª o Presidente da República por um Grupo de Agricultores, Industriais e Comerciantes de Moçâmedes, 1912;
 

Em Moçâmedes, Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa , o 1º visconde de Giraúl casou, em cerimónia ocorrida na cidade de Moçâmedes, na Igreja de Santo Adrião, em 28 de Setembro de 1895, com Amélia do Carmo Torres Bstos,   natural de Moçâmedes, onde nasceu em  6 de Março de 1872, filha de  Manuel José Alves Bastos e de Amélia Torres Bastos, a célebre viuva Bastos, participantes  da segunda colónia ida do Brasil (Pernambuco), em 1850. E ra neta materna  de Manuel Joaquim Torres (09-04-1813) e de Maria José da Costa Torres (Açores, S. Miguel, 1827+24.07.1912). Amélia do Carmo Torres Bastos, em Moçâmedes foi  também baptizada e  ali faleceu a 12 de Abril de 1896, repousando  seus restos mortais  em mausoléu no Cemitério de Moçâmedes (Namibe). 

Manuel José Alves Bastos, um dos componentes da primeira colónia chegada a Moçâmedes em 1849, vinda de Pernambuco, Brasil, em consequência da perseguições aos portugueses que se negavam em abdicar da sua nacionalidade, e se estabeleceu na região, onde foi comerciante e proprietário e se dedicou ao comércio de marfim e do gado, às actividades agrícola com plantações e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos da região, na época. Repousa em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.


D. Amélia do Carmo Bastos, quando do seu casamentoco o 1. Visconde Giraul , era já viúva de Teodósio Coutnho de Lencastre, de quem tnha uma flha, D. Maria do Carmo Bastos Coutnho de Lencastre. E dcasamento com  Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa , o 1º visconde de Giraúl, e  Amélia Torres Bastos, foram pais de Manuel Alves Bastos Botelho da Costa,  o primogénito, nascido em Moçâmedes, em 1897, que foi militar, engenheiro, professor e ferroviário português, e usou o título de 2.º Visconde de Giraúl por autorização de D. Manuel II de Portugal no exílio em data desconhecida. Casou com Maria da Luz Poças Falcão Bicudo Correia.
 
 
O 1º visconde de Giraúl Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa morreu de cancro no pâncreas, às 00.30h de 23 de Junho de 1926, em Lisboa, e foi aqui sepultado bem como diversos membros da sua família, conforme mencionado no referido trabalho.
 
 

 
Ver aqui o link da proveniência do texto;

 
Manuel Alves Bastos Botelho da Costa, o 2º Visconde do Giraul, nascido em Moçâmedes, em 1897, era filho de Jaquim  Bernardo Botelho da Costa, o 1º Visconde do Giraúl,  .e de Amélia do Carmo Bastos , casou com Maria da Luz Poças Falcão Bicudo Correia.
 


Foi um militar, engenheiro, professor e ferroviário português.

Matriculou-se em 1914 no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa e, em 1917, com o Curso Geral do referido Instituto, assentou praça no Corpo de Alunos da Armada e foi promovido a Aspirante de Marinha em Outubro do mesmo ano e a Guarda-Marinha em 1921, ano em que seguiu, a bordo do cruzador Carvalho Araújo, para Macau, viagem que, por ordem do governo, foi interrompida em Porto Said, em razão do movimento revolucionário de 19 de Outubro.

Regressando a Lisboa, retirou-se do serviço da Armada, e em 1922 matriculou-se novamente no Instituto Superior Técnico, onde completou o curso de Engenharia Civil, em 1925.

Entrou como Engenheiro Praticante na Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses em 1926 e, ao mesmo tempo, foi Assistente Interino das Cadeiras de Caminhos de Ferro e de Estradas do IST, no impedimento do Efetivo, lugar de que pediu a demissão em 1928.

Foi nomeado Engenheiro-Ajudante em 1928, Engenheiro-Adjunto em 1930, Subchefe em 1937 e Engenheiro-Chefe da Divisão de Exploração em 1943.

Foi também Assistente do Instituto Comercial de Lisboa em 1930 e seu Professor Interino, e Professor do Instituto Industrial de Lisboa. Publicou vários trabalhos.

Usou o título de 2.º  Visconde de Giraúl por Autorização de D. Manuel II de Portugal no exílio de data desconhecida.

Casamento e descendência:

Casou em Lisboa a 30 de Janeiro de 1922 com Maria da Luz Poças Falcão Bicudo Correia (Ponta Delgada - ?), filha de Francisco Manuel Raposo Poças Falcão Bicudo Correia (filho de Francisco Manuel Raposo Bicudo Correia) e de sua mulher Ângela Maria Dias, da qual teve cinco filhos e filhas.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Alves_Bastos_Botelho_da_Costa













 
Foto actual com ponte sobre  rio Girául
Foto actual com estrada atravessando o Girául

 

sábado, 27 de junho de 2020

O INÍCIO DA GRANDE GUERRA E A DEFESA DOS TERRITÓRIOS PORTUGUESES EM ÁFRICA






As últimas décadas do século XIX foram marcadas pela “corrida a África” por parte das principais potências europeias. As expedições científicas ao interior do sertão africano rapidamente deram lugar à reivindicação e disputa pela posse de vastos territórios africanos. Com a eclosão da Grande Guerra, as pressões sobre os territórios portugueses naquele continente aumentam e Portugal decide reforçar a sua presença militar em África. O primeiro confronto direto entre portugueses e alemães dá-se no norte de Moçambique, muito antes da declaração formal de guerra que só viria a ter lugar em março de 1916. Em 24 de agosto de 1914, cerca de três semanas após o início da guerra na Europa, o pequeno posto português de Maziúa, na fronteira norte, foi atacado e destruído na madrugada daquele dia por forças alemãs. O chefe do posto, o Sargento Enfermeiro de Marinha Eduardo Costa foi morto durante o ataque, sendo a primeira baixa militar portuguesa durante o período da Grande Guerra. Em Angola, na fronteira sul com a Damaralândia (território alemão na atual Namíbia), cresciam as tensões fronteiriças, com frequentes provocações e desafios à soberania portuguesa.

A 10 e 11 de setembro de 1914 partem duas expedições militares para África: o Coronel Massano de Amorim lidera o corpo expedicionário a Moçambique, cabendo ao Tenente-coronel Alves Roçadas o comando da expedição militar ao Sul de Angola. Estava em causa a defesa dos territórios e da soberania portuguesa em África.

A CONSTITUIÇÃO DO BATALHÃO DE MARINHA E A PARTIDA PARA O SUL DE ANGOLA
Em outubro de 1914, a Marinha é solicitada pelo Ministério das Colónias a cons-tituir um Batalhão Expedicionário, na tradição que vinha dos finais do século XIX em participar nas campanhas de pacificação nos territórios africanos. Pelo Decreto n.º 991 de 29 de outubro de 1914 é formalmente criado o Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola. O número de voluntários que responderam ao convite para integrar o Batalhão de Marinha foi bastante superior às vagas disponíveis, pelo que foi necessário proce-der-se a uma difícil seleção. Concluídos os preparativos para a partida para Angola, os possíveis em tão pouco tempo, no dia 5 de novembro o Batalhão de Marinha formou pela primeira vez no Quartel de Marinheiros, em Alcântara. Composto por 18 oficiais, 32 sargentos e 509 praças, estava organizado em três companhias a dois pelotões, duas secções de metralhadoras, serviço de saúde e serviço de quartéis, sendo comandado pelo Capitão-tenente Alberto Coriolano da Costa, veterano de campanhas em África e antigo Governador de Moçâmedes, profundo conhecedor da região em que iriam operar. Nesse mesmo dia 5 de novembro de 1914, o Batalhão de Marinha Expedicionário desfilou pelas ruas de Lisboa, acompanhado por uma multidão de populares que se foi despedir na hora do seu embarque, a bordo do paquete Beira com destino ao Sul de Angola, para aquela que seria uma das mais difíceis missões atribuídas à Marinha Portuguesa. O desembarque em Moçâmedes deu-se em 30 de novembro, vinte e cinco dias após a partida de Lisboa. Dali partiram a 11 de dezembro, em direção ao teatro de operações no extremo sul do território angolano. A chegada aos Gambos, onde se encontrava o comandante das Forças Expedicionárias, Tenente-coronel Alves Roçadas, deu-se em 3 de janeiro de 1915, após uma penosa e demorada marcha, marcada pela carência de água potável e de víveres. O Batalhão de Marinha foi enviado para um posto avançado, denominado de Forno da Cal, onde permaneceu durante largos meses, num período marcado pelo impasse nas operações, mas também pelo deteriorar do estado de saúde do efetivo do Batalhão de Marinha, assolado pelo paludismo, febre tifoide e pela escassez de água potável.


O COMBATE DE TCHIPELONGO (29 DE MAIO DE 1915)
No início do mês de maio de 1915, já sob o comando do General Pereira d’Eça, são retomadas as operações militares no Sul de Angola com vista à reocupação da região do Humbe, ameaçada por alemães e grupos locais de revoltosos. Em 26 de maio, as forças do Batalhão de Marinha que haviam avançado para sul até Tchicusse, receberam um pedido de auxílio do Padre Bellet, responsável pela missão do Espírito Santo, no Tchipelongo, a qual estava a ser ameaçada por revoltosos locais. Naquela que seria a sua primeira missão de combate, em 29 de maio foi então enviada uma força constituída por elementos da 1ª Companhia do Batalhão de Marinha sob o comando do então Primeiro-tenente Afonso de Cerqueira que, no seu relatório, descreveu os acontecimentos da seguinte forma:“Foi este episódio bem movimentado pois que o gentio nos atacou com valentia e arrojo, procurando por várias vezes envolver a nossa pequena força, devido ao nosso pequeno efectivo, e a não termos artilharia nem metralhadoras e a estar bem armado e com muitas munições(...). Devido a ter-se desde o princípio mantido uma rigorosa disciplina de fogo e às praças obedecerem sem hesitações e com valentia e decisão à ordem de avançar por lances e com descargas, foi o inimigo completamente derrotado, posto em debandada e obrigado a retirar, com numerosas baixas(...) Teve a nossa força dois oficiais feridos [um deles o próprio Afonso de Cerqueira] e seis praças. Foi notável a marcha efectuada de 54 kiló-metros quási sem descanso.”

Relatório do Capitão-tenente Afonso de Cerqueira, Comandante do Batalhão de Marinha. Lisboa, 20 de outubro de 1915.


O COMBATE DA MONGUA (18, 19 E 20 DE AGOSTO DE 1915)
Em 9 de julho de 1915, as forças alemãs no sudoeste africano são finalmente der-rotadas pelo exército britânico da África do Sul, rendendo-se ao General Louis Botha. Contudo, para as forças portuguesas, havia ainda que derrotar os grupos indíge-nas revoltosos no Cuanhama e Cuamato, que, instigados e armados por agentes alemães, constituíam séria ameaça à pre-sença e soberania portuguesa no sul de Angola.Consolidada a reocupação do Humbe, no início de agosto de 1915 foi constituída uma coluna militar para marchar para sul, em direcção à região de Cuanhama, onde chegaram a 15 desse mês. A 18 de agosto, a coluna foi atacada na região da Mongua, onde adoptou posições defensivas, formando em quadrado. A face da frente (virada a leste) coube ao Batalhão de Marinha, agora sob o comando do Capi-tão-tenente Afonso de Cerqueira. Após dois dias de continuado assédio por parte do inimigo, na manhã de 20 de agosto o quadrado é fortemente atacado. Pelas 17 horas é ordenada uma ação decisiva com vista a romper o cerco. Caberia ao Batalhão de Marinha sair do quadrado e carregar sobre o inimigo, com o apoio de cavalaria, do Batalhão de Infantaria 17 e a 15ª Companhia de Indígenas. Avançando à frente dos seus homens, o Comandante Afonso de Cerqueira liderou a carga, con-seguindo romper o cerco e desbaratando o inimigo, que bateu em retirada. A vitória na Mongua foi decisiva para o restabelecimento da ordem e soberania portuguesa, sendo a última acção de com-bate nesta longa e difícil campanha militar ao Sul de Angola. No seu relatório sobre as operações rea-lizadas no Sul de Angola, o General Pereira d’Eça, comandante das forças portuguesas naquele território, refere-se ao Batalhão de Marinha nos seguintes termos: “Todas as unidades cumpriram o seu dever por forma a justificar o grande orgulho que sinto em tê-las comandado; porém, julgo merecedor de especial menção o Batalhão de Marinha. Esta unidade mostrou sempre a maior correcção, a nítida compreensão dos seus deveres cívicos e militares, tanto no período que antecedeu às operações como durante as operações.Foi sem o menor exagero uma unidade de elite, cuja têmpera fica definida dizendo que foi a mais resistente nas marchas, a mais esforçada nos combates, e durante os quatro dias que, na Mongua, estivemos reduzidos a um quarto de ração, as suas sentinelas chegaram a cair de fraqueza nos respectivos postos, sendo imediata-mente rendidas sem que disso o comando superior tivesse conhecimento, pois essa unidade sabia bem que esse comando nada podia fazer que modificasse de pronto a situação”.


O REGRESSO DO BATALHÃO DE MARINHA
Após a vitória decisiva na Mongua, o Soba do Cuanhama, Mandume, retirou-se do seu território e deu por finda a rebelião. Estavam concluídas as operações militares no Sul de Angola e começava a retirada das forças portuguesas expedicio-nárias àquele território.No final das operações, restavam ao Batalhão 12 oficiais e 267 sargentos e praças, sensivelmente metade do efetivo que havia partido de Lisboa. Dirigiram-se para o Lubango, donde partiram para Moçâme-des, onde finalmente chegaram no dia 22 de setembro. A chegada a Lisboa deu-se no dia 15 de outubro de 1915. O Batalhão de Marinha desembarcou no cais do Arsenal da Marinha, no mesmo local onde, cerca de um ano antes, havia embarcado para tão distante quanto exigente missão. A espe-rá-lo já não estava a multidão que se fora despedir mas apenas algumas entidades oficiais e, os mais desejados, os seus familiares. Na Ordem do Dia Nº. 207, de 23 de Outubro de 1915 era dissolvido o Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola, sendo louvados os “comandantes, oficiais, praças do estado-menor e praças de mari-nhagem, pelos valiosos serviços presta-dos nas operações no sul de Angola, onde demonstraram a maior valentia, coragem e disciplina, mantendo assim pelo seu acendrado patriotismo o valor, as gloriosas tradições da Marinha de Guerra, cujo prestígio e renome realçaram.” Gonçalves Neves1 TEN ST-EHIS 



Bibliografia:Biblioteca Central de Marinha – Arquivo Histórico de Marinha, Documentação e Livros de Ordens do Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de An-gola, cxs. 4605, 4608, 4611 e 4614.Eça, Pereira de, Campanha do Sul de Angola 1914-1915, Lisboa, Tipografia Lusitânia, 1922.Gonçalves, Júlio, Sul d’Angola e o quadrado da Mongua na epopeia Nacional d’África, Lisboa, J. Rodrigues, 1926.Inso, Jaime Correia do, A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, Lisboa, Edições Culturais da Marinha, 2006.Pinto, Fernando de Oliveira, Batalhão de marinha expedicionário a Angola : ano de 1914-1915, Lis-boa, J. F. Pinheiro, 1918.Soares, António Maria de Freitas, As operações militares no sul de Angola em 1914-1915, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937. Telo, António José, História da Marinha Portugue-sa. Homens, Doutrinas e Organizações 1824-1974, Lisboa, Academia de Marinha, 1999
Bibliografia:Biblioteca Central de Marinha – Arquivo Histórico de Marinha, Documentação e Livros de Ordens do Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola, cxs. 4605, 4608, 4611 e 4614.Eça, Pereira de, Campanha do Sul de Angola 1914-1915, Lisboa, Tipografia Lusitânia, 1922.Gonçalves, Júlio, Sul d’Angola e o quadrado da Mongua na epopeia Nacional d’África, Lisboa, J. Rodrigues, 1926.Inso, Jaime Correia do, A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, Lisboa, Edições Culturais da Ma-rinha, 2006.Pinto, Fernando de Oliveira, Batalhão de marinha expedicionário a Angola : ano de 1914-1915, Lis-boa, J. F. Pinheiro, 1918.Soares, António Maria de Freitas, As operações militares no sul de Angola em 1914-1915, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937. Telo, António José, História da Marinha Portugue-sa. Homens, Doutrinas e Organizações 1824-1974, Lisboa, Academia de Marinha, 1999O BATALHÃO DE MARINHA EXPEDICIONÁRIO AO SUL DE ANGOLA (1914-1915)
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