Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 30 de maio de 2018

António Joaquim Guimarães Junior, o fundador da 1ª feitoria de Moçâmedes






IMPRESSIONANTE RELATO  de António Joaquim Guimarães Junior, SOBRE O DIA DA CHEGADA DOS PRIMEIROS  BRANCOS A MOÇÂMEDES. 


Corria o ano 1839. 

 
No dia 5 de Outubro  de 1839, chegava a Moçâmedes na corveta Isabel Maria,  António Joaquim Guimarães Junior, após ter apresentado na Secretaria do Ultramar um requerimento em que se oferecia para montar ali  uma indústria de charqueação (carne seca) e de cortumes, desde que o Estado lhe concedesse o necessário subsídio.

Segundo Simão da Luz Soriano, in "Revelações da minha vida e memórias de alguns factos e homens meus contemporâneos", as poucas e efêmeras tentativas de conhecer e ocupar o território através de expedições e feitorias, não haviam tido grandes resultados, já que o monopólio comercial de Benguela dificultava o estabelecimento de feitorias no Sul de Angola.


A quem realmente pertence à iniciativa de um estabelecimento comercial em Moçâmedes, ainda permanece obscuro, já que por algum motivo Soriano não cita o empreendimento tentado por Antônio Joaquim Guimarães Júnior. Este cidadão português descreve em sua memória, dirigida a uma autoridade portuguesa, reclamando para si a primeira tentativa de estabelecer uma feitoria na bacia de Moçâmedes em 1839, e oferece como prova os contratos estabelecidos com a coroa.

António Joaquim Guimarães Junior sentiu-se injustiçado pelo 2.° Tenente d'Artilharia, João Francisco Garcia, comandante do novo estabelecimento da bahia de Mossamêdes,  em cumprimento do ofício do  governador,  e resolveu deixar para a posteridade um testemunho escrito pelo seu próprio punho sobre a sua odisseia,  onde nos relatando o momento da sua chegad a à velha Angra do Negro e os primeiros contactos que teve com os nativos da zona.

A leitura do documento  sugere que Guimarães teve muitos conflitos com as autoridades portuguesas em Angola, que asseguravam o monopólio comercial local. Guimarães havia conseguido estabelecer contato com os povos dos sertões e tinha sido preso pelas autoridades locais por não fazer cumprir os acordos do contrato estabelecido com a coroa portuguesa, no que se justifica em suas memórias culpando pelo seu fracasso os ditos conflitos com o qual se envolveu durante a tentativa de seu empreendimento ( Consulte-se  JUNIOR, António Joaquim Guimarães. Memória sobre exploração da Costa ao Sul de Benguela, na África Occidental, e Fundação do primeiro estabelecimento Comercial na Bacia de Mossamedes. TYPOGRAFIA DE F.C.A. Rua do Caldeira N° 15. Lisboa, 1842)

Ao que parece, a dificuldade enfrentada pelos primeiros aventureiros que acreditaram no potencial portuário e comercial de Moçâmedes parece estar relacionada principalmente ao  monopólio comercial estabelecido pela Coroa Lusitana em suas possessões e às questões de poder local, pois as autoridades portuguesas estabelecidas nas possessões africanas pareciam se beneficiar diretamente deste monopólio.

 Ao que consta esses interditos continuaram dificultando o desenvolvimento da futura colônia, mesmo após ser instalada com aval e apoio do governo, registrando-se as disputas por direitos alfandegários e portuários, dificultando a criação da alfândega, mesmo após a autorização inicial de 1851 e às insistências de Bernardino Freire, que havia redigido um pedido em 1853, a fim de melhorar a condição comercial da colônia. Argumentava o  colono que somente deste modo aumentaria o número de navios para comerciar com a região, e com isso o capital de giro que alavancaria a economia de Moçâmedes. Contudo, a alfândega só foi posta a funcionar regularmente para o comércio estrangeiro em 1857, e ainda assim vinculada à Benguela.

O que já é possível afirmar é a existência de esforços por parte de oficiais do governo português, assim como de iniciativas privadas que resultaram em planos de ocupação e até mesmo de estabelecimentos comerciais anteriores ao empreendimento colonial liderado por Bernardino Freire em 1849.

10 anos  mais tarde chegariam a Moçâmedes os colonos vindos de Pernambuco, Brasil, aqueles que todos consideram os fundadores da cidade...

António Joaquim Guimarães Junior foi o fundador da 1ª feitoria surgida no recém formado Estabelecimento Prisional de Moçâmedes, de sociedade com Jácome Filipe Torres,  comerciante de Benguela.

Conforme ele próprio descreve...

Finalmente, depois de receber o Tenente Garcia a bordo, nos retirámos para Benguella , e ahi chegámos em 13 de Dezembro de 1839, e aonde recebemos a desastrosa noticia de ter-se retirado para a metropole o Governador Noronha, o que muito senti, porque bem antevi as consequencias da sua falta".


O livro intitulado "Memória sobre a exploração da costa ao sul de Benguella na Africa occidental- Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Mossâmedes", escrito pelo próprio António Joaquim Guimarães Junior, e  dedicado a José da Silva Carvalho , Conselheiro de Estado português, figura que ele mesmo considerou um defensor de causas justas,  é um relato da sua  partida e das primeiras impressões, à chegada a Moçâmedes.

António Joaquim Guimarães Junior diz-nos que chegado ali entrou de imediato de boas relações  pessoais de amizade e comerciais com o soba Mossungo, que presenteou, e a quem solicitou consentimento para  a construção de uma casa onde pudesse guardar as mercadorias que pretendia encaminhar para a sua feitoria, pedido ao qual o soba respondeu no dia seguinte, após ouvidos os seus principais conselheiros (os secúlos), tendo avançado que não só consentia na construção da solicitada casa , em suas terras, como permitia que se levantasse nelas uma Fortaleza que os protegesse das invasões dos povos de outras tribos do interior  que viessem roubar-lhes o gado, E  fez  ainda questão de referir que acreditava que a vinda  dos portugueses iria aumentar a importância das suas terras.

A aproximação entre Guimarães e a autoridade tribal da região talvez não tivesse agradado à autoridade portuguesa empenhada no avassalamento e na ocupação, e Guimarães. rapidamente caiu em desgraça, acusado de  ter faltado a todas as condições do contrato, mas segundo ele próprio, vitimado por intrigas e perseguições. Acabou por se ver obrigado, pelo Tenente Garcia, a abandonar  Moçâmedes na mesma corveta que o trouxera ali, a fim de responder por seus actos perante as  autoridades de Luanda, sendo na sua ausência a feitoria que fundara assaltada, roubada e destruída.

Transcrevemos a seguir algumas passagens do relato deixado por António Joaquim Guimarães Junior sobre a forma como viveu os primeiros momentos passados em Moçâmedes, a sua chegada ali,  a aproximação cautelosa  e os primeiros  contactos que teve com os negros da região, os cumprimentos e as recepções, o iniciar dos negócios, as trocas que fizera com quinquilharia, fazendas, missangas, panos,aguardente, por marfim , cera, gado, urzella, etc., bem como as ofertas que teve de leite, milho, um boi...,  e  também os agradecimento, e as promessas de gado para  novas trocas, etc etc.


 "...Foi então que em menos de quarenta e oito horas avistámos a bahia de Mossamedes, duvidando porém se seria ella, posto que todos os indícios, que a distancia nos deixava perceber, combinassem com a ideia que eu fazia d'este logar, e como erão já cinco horas da tarde, o Commandante resolveo fazer-se ao largo, e vir no dia seguinte reconhecer a terra, lembrança que me pareceo muito ajuizada e prudente, pois que estando tão proximos d'uma costa para nós inteiramente desconhecida, muitos erão os perigos a que podiamos estar sujeitos, e tanto mais , quanto se nos aprezentava um baixo em que o mar rebentava com muita força, e o qual, projectado como se achava, parecia fecharnos a entrada da bahia, que duas mui notaveis pontas deixavão formada, e que mostrava nao ser piquena e alem disso o fumo que distinctamene viamos, nos denunciava a existencia d'habitantes n'aquelle ponto.

Viemos pois no dia immediato, e com as precisas cautellas e a favor de não pouco trabalho conseguimos entrar nesta bahia, fundeando pelas seis horas da tarde sem maior novidade. Logo forào vistas de bordo duas bandeiras brancas, que erão os signaes convencionados com o oficial que tinha ido por terra, algumas fogueiras , gado pastando, algumas arvores, e bastante vegetação & c., tudo isto bastou para confirmar-nos na ideia de ser este o logar que procuravamos, porém como era quasi noute, e apenas forão dois escaleres correr a bahia , os quaes voltarão com a noticia de terem visto pela praia muitos negros, que pareciào chamai-os.

No outro dia fui eu o primeiro a ir para terra com algumas bagatellas de fazendas e missangas, nossas unicas armas, levando comigo sómente tres homens negros e um branco,e havendo previamente combinado com o Commandante, o fazer signal para bordo no caso de me verem perigo; logo que saltei em terra, vi que de longe caminhavào para mim uma multidão de negros, trazendo adiante uma bandeira branca, e depois que nos aproximámos mais, reconheci que a gente que vinha na frente não era gentio, por trazerem jaquetas brancas, quando estes costumào andar nus só com uma tanga.

(...)

Era na realidade um expectaculo para mim bem singular a minha recepção naquella. bahia, pois que além de diversos cumprimentos e ceremonias extravagantes do seu uso, mandou o Soba fazer pela sua gente.uma especie de telheiro de ramos para me abrigar do sol, e debaixo mandou estender uma esteira, onde me convidou a sentar, colocando-se elle defronte de mim. Então lhe fiz vêr que nós só pertendiamos a sua amizade, e. que não erào nossas intenções outras, senão trocar as muitas fazendas e generos que possuíamos , por marfim , cera, gado, urzella ; que o tratariamos sempre muito bem, e que só delle solicitava o consentimento de fazer uma casa, onde se recolhessem as muitas cousas que pertendiamos conduzir para ali. A estas proposições simplesmente retribuio, que me responderia no dia seguinte, mui naturalmente para no intervalo ouvir o conselho dos principaes de sua corte, a que chamão Secúlos. Pedio-me por isso, que lhe mostrasse o que trazia , o que fiz, começando por offerecer-lhe alguns objectos, taes como panno azul, missanga branca, aguardente, do que se mostrou muito reconhecido, e mandou trazer leite, milho verde, e um boi, que me deu .em signal de agradecimento, promettendo-lhe que no dia seguinte traria gado para trocar por alguns dos objectos que eu tinha; e assim me retirei para bordo, vindo elle com os principaes dos seus acompanhar-me athe ao melo do caminho para o embarque, e ali se despedido, e eu fui jantar para bordo, e descançar.

No dia seguinte ainda as ceremonias forão as mesmas, trouxe gado e um pouco de marfim, e offereceu-me leite que acceitei, e de que mandei fazer sopas; porém quando vio o homem que eu havia incumbido d'arranjar a comida, ir pôr o leite ao lume para ferver, se espantou , e disse, que o aquecer o leite fazia mal ao gado, e assim que permittisse que elle deitasse no leite um bocadinho de casca d'uma arvore, que tinha a virtude de destruir o feitiço ou mal que pudesse resultar. Terminado este incidente, fallamos sobre a questão da vespera que tinha ficado pendente da sua decisao, e me disse, que não só consentia, em que fizessemos casa nas suas terras, mas tambem que se levantasse uma fortaleza, para que o gentio do interior os não viesse guerrear para lhes roubar o gado, e que estava certo, que a vinda dos brancos devia augmentar a importancia de suas terras. A final em todo o resto do tempo que ali me demorei, me continuei a dar com elles muito bem, e quando me retirei, os deixei do melhor acordo, fazendo-lhes repetidas promessas de voltar em breve.

São os indigenas d'esta bahia, como os Mocorocas , de nação Mucubal, e de vida pastoral, possuem gado das duas especies já mencionadas em grande quantidade, especialmente do vaccun, sendo porém dois terços ou mais desta povoação de vida errante; porque como é immensa a quantidade de gado que possuem, e sendo muito frequente na Africa a falta de chuvas, se vêm obrigados a estabellecer a sua habitação aonde encontrão pastos , o que geralmente acontece sempre proximo dos rios e valles, em que podem achar agua com facilidade, trocando-a por outra, logo que naquelle logar começão a escacear os pastos, A estas habitações chamão sambos ou curraes os quáes são de forma circular , tendo em roda uma ordem de choupanas do feitio de fornos , com uma entrada pequena como a d'estes,e que são formadas de páos espetados muito juntos formando um circulo largo no chão , e estreitando athe se unirem todos na parte superior, e depois de bem cobertas de palha, as barrão e cobrem perfeitamente de barro amassado com bosta , o que depois de seceo as torna impenetraveis á agua, respira-se porém dentro de taes habitações um ar quente e abafadiço, que para nós europeos é insupportavel; apezar disso elles não dormem jamais sem fogo, para o que costumã assentar uma lage no centro das choupanas, e na falta d'ella, uma camada de barro amassado, de que em todo o caso é formado o assento da cabana. Pela parte de fora desta ordem de choupanas, ha sempre um tapume feito de estacadas e ramos de tamarindeiro bravo, e outros arbustos espinhosos, em que abundão aquelles sertões por toda a parte; é pois no espaçoso terreiro do centro, que o gado fica de noite, mas tendo elles o cuidado d''apartar ali as crias, para depois tirarem o leite, seu sustento principal, e de que tambem fazem boa manteiga para diversos usos, a que depois d'apurada e prompta chamão engunde.

As mulheres são as que trabalhão na cultura das terras, em quanto os homens só tratão do gado, e no caso de guerra vão esconder aquellas e este, e pelejão então para defender-se simplesmente, pois que não são guereiros; ha porém povoações no interior que lhes movem guerras para lhes roubar o gado, sua unica riqueza, isto é, por elles assim avaliada.

Finalmente, depois de receber o Tenente Garcia a bordo, nos retirámos para Benguella , e ahi chegámos em 13 de Dezembro de 1839, e aonde recebemos a desastrosa noticia de ter-se retirado para a metropole o Governador Noronha, o que muito senti, porque bem antevi as consequencias da sua falta".

Mas não terminamos aqui pois importa acrescentar,  que foi quando regressou a Benguela, que António Joaquim Guimarães Junior resolveu rescindir do acordo de ajuda do Governo da Colónia e associar-se a Jacomo Filippe Torres, abastado comerciante da praça, tendo partido  em seguida para Mossâmedes, a bordo da Escuna "Cospe-fogo", onde chegou a 19 de Janeiro de 1840 às vinte e três horas. Conforme relata, no dia 20 tiveram lugar as festividades de boas vindas e a troca de presentes. E a 21 “levámos para terra duas vélas da Escuna para fazer uma barraca em que provisoriamente nos recolhessemos, e para dar principio à construção das habitações. Logo o Soba Moena Chipolla veio à praia, e mandou chamar gente para nos conduzir e todos os petrechos ao logar que escolhemos para nosso arraial, o que fizerão de muito boa vontade.”
  (1)

Estas transcrições estão relacionadas com a 1ª parte do RELATO  de António Joaquim Guimarães Junior, SOBRE O DIA DA CHEGADA DOS PRIMEIROS  BRANCOS A MOÇÂMEDES. São partes do texto que pode ser lido nas pgs 09 a 13 da "Memoria sobre a exploração da costa ao sul de Benguella na Africa occidental- Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Mossâmedes" , de António Joaquim Guimarães Junior, dedicada a José da Silva Carvalho.


Quanto à alcunha "Gato com Botas", atribuida  a António Guimarães Júnior, talvez ajude saber que ao nível da simbologia o GATO representa talvez aquele que passou por cima,. "independência na tomada de decisão", "ausência de submissão", "astúcia",  "inteligência", "capacidade de obter tudo aquilo que se deseja". "Animal considerado menos domesticável e mais difícil de submeter que o cão", de entre outras características.  O facto de essa alcunha ter sido atribuida a António Guimarães pode muito bem ter acontecido pela irreverência com que lidou com o assunto, saltando por cima da autoridade nas decisões que tomou. Tenente Garcia tomara-o de ponta e não lhe perdoou.

A feitoria estava montada no "sítio da Aguada", à entrada das Hortas. Hoje sabemos que o local foi assim chamado porque era ali que os navios que demandavam o porto de Moçâmedes, iam abastecer-se de géneros agrícolas e de água (aguada), incluindo os baleeiros norte-americanos, operavam, entre a costa e a Ilha de Santa Helena.

António Guimarães viria a falecer em Lisboa , em 7 de Março de 1887 , acontecimento  noticiado do seguinte modo no nº. 117 do jornal de Mossâmedes: «era um homem inteligente,  mas infeliz nos seus empreendimentos.

Há noticia de que fundou vários jornais que gozavam bastante crédito, tais como "a Pátria" e o "Diário Comercial", e colaborou em outros escrevendo muitos artigos sobre Moçâmedes. Fundou outros periódicos, tais como, "Debates", "Verdade", etc.

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António Joaquim Guimarães Junior,  o português fundador da 1ª feitoria de Moçâmedes, neste seu livro "Memoria sobre a exploração da costa ao sul de Benguella na Africa occidental- Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Mossâmedes" , não apenas ousou descrever aquela que considerava a sua perspectiva face às injustiças de que se sentiu alvo da parte da autoridade no curto período a seguir à sua fundação, como ousou apontar o dedo à ausência de um projecto colonizador à altura das necessidades do território.

"... E será isto o que se tem praticado? tem sido por falta d’empre É tem deixado de levar-se a efeito estabelecimentos de reconhecida utilidade publica? não por certo. Uma prova d’isso temol-a nós no resultado que eu tirei da exploração de Mossamedes, e de formar ali o primeiro estabelecimento commercial, oferecendo assim á corôa Portugueza um novo porto de commercio, donde se poderião tirar ja hoje grandes recursos para a fazenda publica, se as authoridades ali quizessem desinteressadamente cumprir seus deveres: e qual foi a recompensa? o ver destruida a minha feitoria, ser prezo e logo solto seu motivos justificados, e colocado em pouco agradavel posição, e tudo só feito (quem tal acreditaria?) para favorecer um monopolio escandalozo e retrogrado. Igualmente se attenda ao acolhimento que os negreiros encontrão nas primeiras authoridades, comparem-se as difficuldades de taes emprezas com os interesses dos contrabandistas protegidos, e facilmente se conhecerá por que não se multiplicão as especulações uteis, que jamais :podem competir com aquelles que com ouro compräo a impunidade , e tolhem os meios de estas prosperarem, para evitar assim a demonstração com factos da possibilidade de poderem aquellas colonias em algum tempo passar sem o vergonhoso commercio de negros. |E com o fim de mostrar essa possibilidade, que apezar das difficuldades com que tive a lutar, me resolvi a escrever esta memoria, que para mais facil intelligencia vai dividida em duas partes: tratando na priimeira, da origem da exploração, seu progresso, e descripção da viagem feita para este fim na Corveta D. Izabel Maria; e na segunda, do meu regresso a Mossamedes, fundação da primeira feitoria alí, meios empregados para estabelecer relações com o interior, primeiros resultados de estas, e finalmente d'algumas noticias, que por curiosas ou interessantes julguei a proposito fazer menção. Não presumo d'escriptor, e por isso e em attenção á falta de tempo para poder limar estas mal alinhavadas regras, espero que facilmente pelos leitores me serão relevadas algumas faltas em que involuntariamente possa incorrer, desculpa que tanto mais "# poder obter, por serem dedicadas á amizade e gratidão, e não á "VCIl Ulà.




Vale a pena lêr este livro que se encontra disponível na NET para os interessados na História de Angola, essencialmente na História de Moçâmedes, tendo sempre presente o contexto da época em que os acontecimentos relatados aconteceram, e não à luz dos nossos dias. Época de mudança de paradignas, de um paradigma colonial fundado no tráfico de escravos para o Brasil e Américas, rumo a outro paradigma  que visava a ocupação efectiva  e o desenvolvimento económico.


MariaNJardim

 https://books.google.pt/books?pg=PA3&lpg=RA1-PA1&dq=Mem%C3%B3ria+sobre+a+explora%C3%A7%C3%A3o+da+costa+ao+sul+de+Benguella+na+Africa+occidental-+Funda%C3%A7%C3%A3o+do+Primeiro+Estabelecimento+Conercial+na+Ba%C3%ADa+de+Moss%C3%A2medes%22&id=y0lBAAAAcAAJ&hl=pt-PT#v=onepage&q=Mem%C3%B3ria%20sobre%20a%20explora%C3%A7%C3%A3o%20da%20costa%20ao%20sul%20de%20Benguella%20na%20Africa%20occidental-%20Funda%C3%A7%C3%A3o%20do%20Primeiro%20Estabelecimento%20Conercial%20na%20Ba%C3%ADa%20de%20Moss%C3%A2medes%22&f=false


Imagens: postais antigos

(1
https://books.google.pt/books?id=y0lBAAAAcAAJ&pg=RA2-PT4&lpg=RA1-PA2&focus=viewport&dq=mossamedes+noronha&hl=pt-PT&output=text#c_top





Importa lembrar que na velha "Angra do Negro", no local mais tarde designado por Moçâmedes, ainda que em 1641 já lá tenham estado portugueses, como é provado pelas inscrições encontradas no morro da Torre do Tombo, onde se podia lêr a data e o nome de D. António Menezes da Cunha, a ocupação só foi tentada em 1785, no governo de José de Almeida e Vasconcelos, Barão de Moçâmedes, que organizou com tal objectivo, duas expedições, uma, por mar, outra por terra, a primeira comandada pelo coronel Pinheiro Furtado, a bordo da fragata «Loanda», a segunda expedição dirigida pelo sertanejo Gregório José Mendes, que por Quilengues foi encontrar-se com a primeira na mesma Angra, que crismaram com o nome de "Mossâmedes", em honra do Barão, então Governador de Angola. Foi então que aconteceu este primeiro contacto com os nativos da zona, uma primeira tentativa de ocupação que não se manteve, e que viria a custar a vida daqueles oficiais e marinheiros.

Tiveram que decorrer ainda bastantes anos, para que no governo de D. António Manuel de Noronha, em 1839, duas outras expedições fossem organizadas com o mesmo objectivo, seguindo caminhos idênticos aos das anteriores. A que foi pelo mar, na escuna « Isabel Maria», era comandada pelo primeiro tenente da armada Pedro Alexandrino da Cunha, que mais tarde viria a ser um eminente Governador Geral. A que marchou por terra, debaixo do comando do tenente J. Garcia, percorrido o sertão desde Benguella, dirigiu-se, também a Quilengues, inflectindo para o Quipungo e para a Huila, de onde desceu ao litoral para se reunir, em Moçâmedes, com Pedro Alexandrino.
Foi então que na baía sobre o morro da Ponta Negra se levantou o Forte, e na mesma altura foi instalada uma primeira feitoria, iniciando-se a colonização, uma vez reconhecido o clima suave e temperado da velha Angra do Negro, pelas brisas derivadas da corrente fria que sobe ao longo da costa, vinda do Cabo da Boa Esperança, corrente que é também uma das causas da riqueza ictiológica daquele mar do Sul do território.

Vejamos, na íntegra, o que a este respeito descreve o tenente Pedro Alexandrino da Cunha, em 20 de Janeiro de 1840, in "Memória da Exploração da Costa Ocidental de Africa, em 1839", nos Annaes Maritimos e Colonias, parte Oficial:

"... No dia 17 de Novembro chegou á bahia o Tenente Garcia, tendo percorrido o sertão desde Benguella. Esta reunião foi puramente casual, pois que procurando-nos um ao outro com empenho, nenhum de nós conhecia ponto algum da costa a que nos referíssemos. A chegada do Tenente Garcia, veio augmentar e fortalecer a boa intelligencia que já existia entre mim e o gentio do Sobete Mussungo; assim como estabelecer relações de permanente amisade com o outro Sobete Loquengo, que grato a tel-o o Tenente salvado das garras do Soba do Jau, onde se achava preso por suppostos crimes de feiticerias, nos obsequiou a seu modo, promettendo fazer tudo que estivesse ao seu alcance a bem dos brancos, e por fim pedindo com instancia o ser avassallado pelo Maneputo, (1) com o verdadeiro fim de esperar protecção contra as violencias dos mais potentados. Accedi aos seus desejos, e vindo a bordo da curveta, não sem bastante repugnancia, ahi foi reconhecido e authorisado em parada geral da guarnição, dando-lhe o novo nome de Giráhúlo, uma capa encarnada de panno, que ofereceu o Tenente Garcia, uma cadeira, um casal de leitões, e um galo e galinha, para creação, que nada tinham, Á sahida foi festejado com uma salva, com o que, e o bom agasalho que lhe fiz a bordo, ficou o homem summamente satisfeito, e prompto para receber a lei de Sua Magestade. O Tenente Garcia muito concorreu, pela sua experiencia do trato com o gentio, assiduidade no desempenho deste importante serviço, e notavel generosidade, para o bom exito de toda esta transacção. O passageiro Guimarães esteve sempre em terra, todo o tempo que alli me demorei, e em perfeita liberdade para fazer todas as observações, a que se referem as instrucções que recebi. Convem notar antes que conclua, que o gentio chama em geral a toda esta costa Bitóto; ao districto do porto Pinda, Bitóto Coroca, ao da bahia de Mossamedes, Bitóto Mussungo e Bitóto Loquengo. Tendo concluido os trabalhos e observações necessarias, embarcado o Tenente Garcia com a sua comitiva, e recebido as demonstrações d'amizade, e segurança da sua continuação, dos Sobetes Girahúlo e Mussungo, larguei da bahia em 6 de Dezembro, dirigindo-me costa abaixo a Benguella, onde informei o Governador, do occorrido, que tem muito a peito, assim como todos os moradores daquelle presidio, o começo e progresso d'um novo estabelecimento naquelle ponto, onde possam refugiar-se dos estragos da pestilente Benguella, visto não haver dúvida que aquelle districto é mais sadio que este. Desde Mossamedes até Benguella, não oferece a costa ancoradouro abrigado, ou povoação consideravel que mereçam ser explorada." Fim de trenscrição

A ocupação alargou-se com a chegada de contingentes de famílias fugidas das lutas políticas em Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, que não só ali se fixaram como atingiram o Bumbo (Capangombe), junto à Chela, e subiram à Huila. O comércio, que não dera até àquelas expedições sinal de si, não se encontrando rastos dos pombeiros ou dos funantes pelos trilhos da savana clara ou da selva sombria, começou a aparecer desde 1840, internando-se naqueles sertões enigmáticos, ainda de exuberantes de ameaças.


MariaNJardim



(1) Mani-Puto é o nome que davam os autóctones desta região ao Rei de Portugal. No quadro das nações europeias a prioridade da descoberta não concedia o direito de posse de imediato, seria necessário povoar com gentes da Metrópole, desenvolver o comércio, mandar visitar o território por navios de guerra, erguer fortalezas, habitações e feitorias.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A BAÍA DOS TIGRES E A SUA COLONIZAÇÃO PISCATÓRIA PELO DR CARLOS B. CARNEIRO



Mossâmedes-1935.

Quási no extrêmo sul do litoral de Angola abre-se, enorme e profunda, uma baia a que um listrado regular e geométrico que se desenha ao longo de uma imponente muralha de dunas que se eleva no lado continental, dizem uns, dar o nome de Baia dos Tigres e que, segundo outros, tal designação tem origem num ruido ennervante como uivo de féra molestada que o redemoinhar da areia provoca no cóne superior das dunas.
E' desoladora a paisagem. E' areal, de uma côr terrosa e mortificante, tudo o que nos cerca. A meio da restinga, língua de areia saliente à superfície azul das águas atlânticas, ergue-se um pequeno aglomerado de edifícios, sem simetria e sem estética., onde se alberga uma sacrificada colónia de pescadores.
São pequenas casas feitas com bordão e areia calcinada, rebocadas a cal e de tectos em bordão unido, e coberto por uma ligeira camada ele cimento ou vedado a feltro. Perto do mar, as suas rudimentaríssimas instalações de pesca. Não há locais pavimentados, para escalar· peixe, nem tanques feitos cm cimento para o salgar. Nem é possível havê-los.
A areia, num movimento constante que o vento provoca, sotérra em minutos um edifício, ou descobre despojos de edifícios outrora soterrados. Entre o homem e a areia há uma luta constante, sem tréguas. Para dela se defender, resgüarda a sua cabana. com sébes mortas, ante-dunas contra as quais a, areia vem bater imobilizando-se.
Mas se o sudoeste é rijo, se a garrôa é violenta, a duna forma-se enorme, tremenda, e faz desaparecer dentro de si o que o homem, com tanto sacrifício e com tão árduo trabalho, edificou.
O mar, que também tem os seus caprichos, ora cede terreno, alargando a. estreita facha de areia onde poisa, tristonha, aquela pobre povoação de pesca.dores, ora avança em fúria, pela terra dentro e chama a si as míseras instalações de pesca, daquela, gente mártir.
O lado continental é dominado por grandes dunas caprichosamente feitas pelo vento do sudoeste que sopra sempre, descolando massas colossais de areia que tomam disposições geométricas regulares e majestosas.
A vida parece ter desaparecido daquêle pedaço assustador do Kalaári.
Desenham se, a medo, os leitos dos rios sempre secos, porque não há água que sacie a sêde destas areias calcinadas. A vegetação desapareceu totalmente debaixo de arenosas muralhas intransponíveis nem se atrevo a aparecer nos recantos mais sossegados e menos batidos pelo vento porque a areia, sempre em movimento, não permite tais desejos de vida.
Só está de pé, pescando sempre, sempre trabalhando, o homem que foi fadado para. mostrar aos fracos, aos pusilânimes da espécie, até onde chega uma vontade firme, do que é capaz um temperamento rijo de lutador que desafia, altivo, a intempérie e que não receia o mar, quando embravecido.
E' ouvir-lhe a sua história; não há no curso da sua vida uma recordação feliz, uma saüdade pungente por um amor distante, uma infância desassossegada, tranqüila, cujos incidentes sempre cheios de ingenuidade e de maravilha, a nossa memória retem com avareza.
Há só tristezas, desalentos, perigos. Foi a sua casinha que desapareceu outrora, vitima da fúria dos elementos: recorda, cheio de amargura, essa pequena cabana que foi o seu berço; a luta titânica para se salvar da derrocada, para não ser absorvido, como a casa querida, por aquela areia assassina.
Depois, já moço, nas lides do mar, vem o naufrágio. A garrôa imprevista apanhou-o sôbre as ondas, dentro de um pequeno barco que desmantelou, que desfez, e êle, já homem do mar, lutou com as vagas alterosas que o despejam, exausto, quasi morto, na praia salvadora.
E' o escorbuto que, de quando em vez, o atira, febricitante, para cima dum catre, dilacerando-lhe as gengivas anémicas, abafando-lhe os dentes, roídos pelo tártaro, convulsionando-lhe os intestinos.
E a água, com que matar a sêde que o domina, falta-lhe, como bàrbammente lhe falta o citro que lhe caustique as gengivas doridas e os vegetais que normalizem a sua função gástrica e intestinal.
E' uma vida cheia de heroísmos, prenhe de sacrifícios a do colono pescador a quem o destino lançou, sem piedade, para as areias mordentes da Baía dos Tigres.
Há quási meio século reuniam-se representantes de todos os países coloniais para se estabelecer o "modus faciendi" que haveria de fixar os limites do algumas colónias do Continetnte Africano.
Nos arquivos ministeriais e nas Chancelarias da Europa. falhavam os documentos que afirmassem onde terminava, ao sul, o território de Angola.
Até então nunca interessou a ninguém a ocupação e a posse da zona desértica que se estende, arenosa, sêca, improdutiva, desde o litoral ao lago Etocha, no Ovampo e que constitúe o deserto kalaariano.
Havia, no entanto, informações seguras que numa língua de areia que formava, a cem milhas a sul de Mossâmedes, a grande Bafa dos Tigres, existia um aglomerado
de gente branca que, através de todos os perigos e de tôdas as inclemências, ali vivia da pesca.
A nacionalidade dêsse povo garantiria a posse de território ao país a que pertencesse.
Eram portugueses, vindos de algarvias terras, aquêles que, heróis e mártires, se agarraram estoicamente às areias calcinadas da Bala dos Tigres e ao mar que a contorna e que tão rico é em peixe.
Mais tarde, fixava-se como limite sul do território de Angola, o rio Cunéne que desagúa no Atlântico a quarenta milhas a sul daquela baía.




'O MAR DE ANGOLA', de Carlos Carneiro (Luanda 1949)







Angola - As riquezas do mares da antiga colónia portuguesa


'O MAR DE ANGOLA'
De Carlos Carneiro
Edição Empresa Gráfica de Angola
Luanda 1949


Livro com 246 páginas e em muito bom estado de conservação.
De muito difícil localização.
Muito raro.

O autor revela as formas de uso dos mares e as suas riquezas nas costas de Angola, nos meados os século passado.

Uma raridade pelo tema em abordagem e pela escassa tiragem.


Do ÍNDICE:
- Prefácio - F. Morais Sarmento;
- PORQUE ME SEDUZIU O MAR DE ANGOLA;
- A INTELIGÊNCIA DOS PEIXES;
- OS PEIXES OUVEM;
- AS MIGRAÇÕES DOS PEIXES;
- BALEIAS E CACHALOTES;
- O BÓTO, CETÁCEO EQUATORIAL;
- TONINHAS E ROAZES;
- OS ESQUILOS;
- O ATUM DE ANGOLA;
- A PESCADA DO REINO;
- SERPENTES DO MAR;
- OS CEFALOPODOS - O POLVO;
- OS CRUSTÁCEOS;
- OS ESPONJIÁRIOS;
- HÁ ENGUIAS NOS RIOS DE ANGOLA;
- A EDUCAÇÃO TÉCNICA DO PESCADOR;
- A PESCA, SOB O PONTO DE VISTA SOCIAL;
- INDUSTRIA DA PESCA;
- A INDUSTRIA PISCATÓRIA ANGOLANA PÓS-GUERRA;
- A INDUSTRIA DA PESCA NO CONGO BELGA (A pesca no Lago Alberto);
- A PESCA EM KATANGA;
- AS OVAS DOS PEIXES;
- COMERCIALIZAÇÃO DO PEIXE SECO (Peixes novos e peixes velhos);
- O PEIXE SECO E OS SEUS MERCADOS;
- ATENÇÃO, CONSERVEIROS !;
- AASIM NASCEU, EM ANGOLA, A INDUSTRIA DE FARINHA DE PEIXE;
- O VALOR DA FARINHA DE PEIXE NA INDUSTRIA AÇUCAREIRA;
- A HIDROGENIZAÇÃO DOS ÓLEOS DE PEIXE;
- O ABASTECIMENTO DE PEIXE A LUANDA;
- PORQUE NÃO SE FABRICAM  NO SECTOR PISCATÓRIO DE LUANDA A FARINHA E O ÓLEO DE PEIXE?;
- A CHÁVEGA E O PALANGRE;
- OS ARRASTÕES;
- A PESCA AO CANDEIO;
- A PESCA NO LOBITO;
- MUITA CHUVA, POUCA PESCA...;
- O QUE ANGOLA DEVE À SUA NAVEGAÇÃO MOTORIZADA;
- JÁ ESTÃO PESCANDO, EM ANGOLA, DUAS TRAINEIRAS MOTORIZADAS;
- ANGOLA NECESSITA DE DOCAS E ESTALEIROS;
- A "AVITAMINOSE" NOS HOMENS DO MAR;
- HÁ PÉROLAS EM ANGOLA;
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