IMPRESSIONANTE RELATO de António Joaquim Guimarães Junior, SOBRE O DIA DA CHEGADA DOS PRIMEIROS BRANCOS A MOÇÂMEDES.
Corria o ano 1839.
No dia 5 de Outubro de 1839, chegava a Moçâmedes na corveta Isabel
Maria, António Joaquim Guimarães Junior, após ter apresentado na Secretaria do Ultramar um requerimento em
que se oferecia para montar ali uma indústria de charqueação (carne
seca) e de cortumes, desde que o Estado lhe concedesse o necessário
subsídio.
Segundo Simão da Luz Soriano, in "Revelações da minha vida e
memórias de alguns factos e homens meus contemporâneos", as poucas e efêmeras
tentativas de conhecer e ocupar o território através de expedições e
feitorias, não haviam tido grandes resultados, já que o monopólio
comercial de Benguela dificultava o estabelecimento de feitorias no Sul
de Angola.
A quem
realmente pertence à iniciativa de um estabelecimento comercial em
Moçâmedes, ainda permanece obscuro, já que por algum motivo Soriano não
cita o empreendimento tentado por Antônio Joaquim Guimarães Júnior.
Este cidadão português descreve em sua memória, dirigida a uma
autoridade portuguesa, reclamando para si a primeira tentativa de
estabelecer uma feitoria na bacia de Moçâmedes em 1839, e oferece como
prova os contratos estabelecidos com a coroa.
António Joaquim Guimarães
Junior sentiu-se injustiçado pelo 2.° Tenente
d'Artilharia, João
Francisco Garcia, comandante do novo estabelecimento da bahia de
Mossamêdes, em cumprimento do ofício do governador, e resolveu deixar
para a posteridade um testemunho escrito pelo seu próprio punho
sobre a
sua odisseia, onde nos relatando o momento da sua
chegad
a à velha Angra do Negro
e os primeiros contactos que teve com os nativos da zona.
A leitura
do documento sugere que Guimarães teve muitos conflitos com as
autoridades portuguesas em Angola, que asseguravam o monopólio comercial
local. Guimarães havia conseguido estabelecer contato com os povos dos
sertões e tinha sido preso pelas autoridades locais por não fazer
cumprir os acordos do contrato estabelecido com a coroa portuguesa, no
que se justifica em suas memórias culpando pelo seu fracasso os ditos
conflitos com o qual se envolveu durante a tentativa de seu
empreendimento ( Consulte-se JUNIOR, António Joaquim Guimarães. Memória
sobre exploração da Costa ao Sul de Benguela, na África Occidental, e
Fundação do primeiro estabelecimento Comercial na Bacia de Mossamedes.
TYPOGRAFIA DE F.C.A. Rua do Caldeira N° 15. Lisboa, 1842)
Ao
que parece, a dificuldade enfrentada pelos primeiros aventureiros que
acreditaram no potencial portuário e comercial de Moçâmedes parece estar
relacionada principalmente ao monopólio comercial
estabelecido pela Coroa Lusitana em suas possessões e às questões de
poder local, pois as autoridades portuguesas estabelecidas nas
possessões africanas pareciam se beneficiar diretamente deste monopólio.
Ao que consta esses interditos continuaram dificultando o
desenvolvimento da futura colônia, mesmo após ser instalada com aval e
apoio do governo, registrando-se as disputas por direitos alfandegários e
portuários, dificultando a criação da alfândega, mesmo após a
autorização inicial de 1851 e às insistências de Bernardino Freire, que
havia redigido um pedido em 1853, a fim de melhorar a condição comercial
da colônia. Argumentava o colono que somente deste modo aumentaria o
número de navios para comerciar com a região, e com isso o capital de
giro que alavancaria a economia de Moçâmedes. Contudo, a
alfândega só foi posta a funcionar regularmente para o comércio
estrangeiro em 1857, e ainda assim vinculada à Benguela.
O que já é
possível afirmar é a existência de esforços por parte de oficiais do
governo português, assim como de iniciativas privadas que resultaram em
planos de ocupação e até mesmo de estabelecimentos comerciais anteriores
ao empreendimento colonial liderado por Bernardino Freire em 1849.
10 anos mais tarde chegariam a Moçâmedes os colonos vindos de Pernambuco, Brasil, aqueles que todos consideram os fundadores da cidade...
António Joaquim Guimarães Junior foi o fundador da 1ª feitoria surgida no recém formado Estabelecimento Prisional de Moçâmedes, de sociedade com Jácome Filipe Torres, comerciante de Benguela.
Conforme ele próprio descreve...
Finalmente, depois de receber o
Tenente Garcia a bordo, nos retirámos para Benguella , e ahi chegámos em
13 de Dezembro de 1839, e aonde recebemos a desastrosa noticia de
ter-se retirado para a metropole o Governador Noronha, o que muito
senti, porque bem antevi as consequencias da sua falta".
O livro intitulado "Memória sobre a exploração da costa ao sul de
Benguella na Africa occidental- Fundação do Primeiro Estabelecimento
Comercial na Baía de Mossâmedes", escrito pelo próprio António Joaquim Guimarães
Junior, e dedicado a José da Silva Carvalho , Conselheiro de Estado
português, figura que ele mesmo considerou um defensor de causas
justas, é um relato da sua
partida e das primeiras impressões, à chegada a Moçâmedes.
António Joaquim Guimarães
Junior diz-nos que chegado ali entrou de imediato de boas relações pessoais de amizade e
comerciais com o soba Mossungo, que presenteou, e a quem solicitou
consentimento para a construção de uma casa onde pudesse guardar as
mercadorias que pretendia encaminhar para a sua feitoria, pedido ao qual o soba respondeu no dia seguinte, após ouvidos os seus principais
conselheiros (os secúlos), tendo avançado que não só consentia na construção da solicitada casa ,
em suas terras, como permitia que se levantasse nelas uma Fortaleza que os
protegesse das invasões dos povos de outras tribos do interior que viessem roubar-lhes o gado, E fez ainda questão de
referir que acreditava que a vinda dos portugueses iria aumentar a
importância das suas terras.
A aproximação entre Guimarães e a autoridade tribal da região talvez não tivesse agradado à autoridade portuguesa empenhada no avassalamento e na ocupação, e Guimarães. rapidamente caiu em desgraça, acusado de ter faltado a todas as
condições do contrato, mas segundo ele próprio, vitimado por intrigas e
perseguições. Acabou por se ver obrigado, pelo Tenente Garcia, a abandonar Moçâmedes na mesma
corveta que o trouxera ali, a fim de responder por seus actos perante
as autoridades de Luanda, sendo na sua ausência a feitoria que
fundara assaltada, roubada e destruída.
Transcrevemos a seguir algumas passagens do relato deixado por António Joaquim Guimarães
Junior sobre a forma como viveu os primeiros momentos passados em Moçâmedes, a sua chegada ali, a aproximação cautelosa e os primeiros contactos que teve com os negros da região, os cumprimentos e as recepções, o iniciar dos negócios, as trocas que fizera com quinquilharia, fazendas, missangas, panos,aguardente, por marfim , cera, gado, urzella, etc., bem como as ofertas que teve de leite, milho, um boi..., e também os agradecimento, e as promessas de gado para novas
trocas, etc etc.
"...Foi então que em menos de quarenta e oito horas avistámos a bahia de
Mossamedes, duvidando porém se seria ella, posto que todos os indícios,
que a distancia nos deixava perceber, combinassem com a ideia que eu
fazia d'este logar, e como erão já cinco horas da tarde, o Commandante
resolveo fazer-se ao largo, e vir no dia seguinte reconhecer a terra,
lembrança que me pareceo muito ajuizada e prudente, pois que estando tão
proximos d'uma costa para nós inteiramente desconhecida, muitos erão os
perigos a que podiamos estar sujeitos, e tanto mais , quanto se nos
aprezentava um baixo em que o mar rebentava com muita força, e o qual,
projectado como se achava, parecia fecharnos a entrada da bahia, que
duas mui notaveis pontas deixavão formada, e que mostrava nao ser
piquena e alem disso o fumo que distinctamene viamos, nos denunciava a
existencia d'habitantes n'aquelle ponto.
Viemos pois no dia
immediato, e com as precisas cautellas e a favor de não pouco trabalho
conseguimos entrar nesta bahia, fundeando pelas seis horas da tarde sem
maior novidade. Logo forào vistas de bordo duas bandeiras brancas, que
erão os signaes convencionados com o oficial que tinha ido por terra,
algumas fogueiras , gado pastando, algumas arvores, e bastante vegetação
& c., tudo isto bastou para confirmar-nos na ideia de ser este o
logar que procuravamos, porém como era quasi noute, e apenas forão dois
escaleres correr a bahia , os quaes voltarão com a noticia de terem
visto pela praia muitos negros, que pareciào chamai-os.
No outro
dia fui eu o primeiro a ir para terra com algumas bagatellas de fazendas
e missangas, nossas unicas armas, levando comigo sómente tres homens
negros e um branco,e havendo previamente combinado com o Commandante, o
fazer signal para bordo no caso de me verem perigo; logo que saltei em
terra, vi que de longe caminhavào para mim uma multidão de negros,
trazendo adiante uma bandeira branca, e depois que nos aproximámos mais,
reconheci que a gente que vinha na frente não era gentio, por trazerem
jaquetas brancas, quando estes costumào andar nus só com uma tanga.
(...)
Era na realidade um expectaculo para mim bem singular a minha
recepção naquella. bahia, pois que além de diversos cumprimentos e
ceremonias extravagantes do seu uso, mandou o Soba fazer pela sua
gente.uma especie de telheiro de ramos para me abrigar do sol, e debaixo
mandou estender uma esteira, onde me convidou a sentar, colocando-se
elle defronte de mim. Então lhe fiz vêr que nós só pertendiamos a sua
amizade, e. que não erào nossas intenções outras, senão trocar as muitas
fazendas e generos que possuíamos , por marfim , cera, gado, urzella ;
que o tratariamos sempre muito bem, e que só delle solicitava o
consentimento de fazer uma casa, onde se recolhessem as muitas cousas
que pertendiamos conduzir para ali. A estas proposições simplesmente
retribuio, que me responderia no dia seguinte, mui naturalmente para no
intervalo ouvir o conselho dos principaes de sua corte, a que chamão
Secúlos. Pedio-me por isso, que lhe mostrasse o que trazia , o que fiz,
começando por offerecer-lhe alguns objectos, taes como panno azul,
missanga branca, aguardente, do que se mostrou muito reconhecido, e
mandou trazer leite, milho verde, e um boi, que me deu .em signal de
agradecimento, promettendo-lhe que no dia seguinte traria gado para
trocar por alguns dos objectos que eu tinha; e assim me retirei para
bordo, vindo elle com os principaes dos seus acompanhar-me athe ao melo
do caminho para o embarque, e ali se despedido, e eu fui jantar para
bordo, e descançar.
No dia seguinte ainda as ceremonias forão as
mesmas, trouxe gado e um pouco de marfim, e offereceu-me leite que
acceitei, e de que mandei fazer sopas; porém quando vio o homem que eu
havia incumbido d'arranjar a comida, ir pôr o leite ao lume para ferver,
se espantou , e disse, que o aquecer o leite fazia mal ao gado, e assim
que permittisse que elle deitasse no leite um bocadinho de casca d'uma
arvore, que tinha a virtude de destruir o feitiço ou mal que pudesse
resultar. Terminado este incidente, fallamos sobre a questão da vespera
que tinha ficado pendente da sua decisao, e me disse, que não só
consentia, em que fizessemos casa nas suas terras, mas tambem que se
levantasse uma fortaleza, para que o gentio do interior os não viesse
guerrear para lhes roubar o gado, e que estava certo, que a vinda dos
brancos devia augmentar a importancia de suas terras. A final em todo o
resto do tempo que ali me demorei, me continuei a dar com elles muito
bem, e quando me retirei, os deixei do melhor acordo, fazendo-lhes
repetidas promessas de voltar em breve.
São os indigenas d'esta
bahia, como os Mocorocas , de nação Mucubal, e de vida pastoral, possuem
gado das duas especies já mencionadas em grande quantidade,
especialmente do vaccun, sendo porém dois terços ou mais desta povoação
de vida errante; porque como é immensa a quantidade de gado que possuem,
e sendo muito frequente na Africa a falta de chuvas, se vêm obrigados a
estabellecer a sua habitação aonde encontrão pastos , o que geralmente
acontece sempre proximo dos rios e valles, em que podem achar agua com
facilidade, trocando-a por outra, logo que naquelle logar começão a
escacear os pastos, A estas habitações chamão sambos ou curraes os quáes
são de forma circular , tendo em roda uma ordem de choupanas do feitio
de fornos , com uma entrada pequena como a d'estes,e que são formadas de
páos espetados muito juntos formando um circulo largo no chão , e
estreitando athe se unirem todos na parte superior, e depois de bem
cobertas de palha, as barrão e cobrem perfeitamente de barro amassado
com bosta , o que depois de seceo as torna impenetraveis á agua,
respira-se porém dentro de taes habitações um ar quente e abafadiço, que
para nós europeos é insupportavel; apezar disso elles não dormem jamais
sem fogo, para o que costumã assentar uma lage no centro das choupanas,
e na falta d'ella, uma camada de barro amassado, de que em todo o caso é
formado o assento da cabana. Pela parte de fora desta ordem de
choupanas, ha sempre um tapume feito de estacadas e ramos de
tamarindeiro bravo, e outros arbustos espinhosos, em que abundão
aquelles sertões por toda a parte; é pois no espaçoso terreiro do
centro, que o gado fica de noite, mas tendo elles o cuidado d''apartar
ali as crias, para depois tirarem o leite, seu sustento principal, e de
que tambem fazem boa manteiga para diversos usos, a que depois d'apurada
e prompta chamão engunde.
As mulheres são as que trabalhão na
cultura das terras, em quanto os homens só tratão do gado, e no caso de
guerra vão esconder aquellas e este, e pelejão então para defender-se
simplesmente, pois que não são guereiros; ha porém povoações no interior
que lhes movem guerras para lhes roubar o gado, sua unica riqueza, isto
é, por elles assim avaliada.
Finalmente, depois de receber o
Tenente Garcia a bordo, nos retirámos para Benguella , e ahi chegámos em
13 de Dezembro de 1839, e aonde recebemos a desastrosa noticia de
ter-se retirado para a metropole o Governador Noronha, o que muito
senti, porque bem antevi as consequencias da sua falta".
Mas não terminamos aqui pois importa acrescentar, que foi quando regressou a Benguela, que António Joaquim
Guimarães Junior resolveu rescindir do acordo de ajuda do Governo da
Colónia e associar-se a Jacomo Filippe Torres, abastado comerciante da
praça, tendo partido em seguida para Mossâmedes, a bordo da Escuna "Cospe-fogo",
onde chegou a 19 de Janeiro de 1840 às vinte e três horas. Conforme relata, no dia 20
tiveram lugar as festividades de boas vindas e a troca de presentes. E a
21 “levámos para terra duas vélas da Escuna para fazer uma barraca em
que provisoriamente nos recolhessemos, e para dar principio à construção
das habitações. Logo o Soba Moena Chipolla veio à praia, e mandou
chamar gente para nos conduzir e todos os petrechos ao logar que
escolhemos para nosso arraial, o que fizerão de muito boa vontade.”
(1)
Estas transcrições estão relacionadas com a 1ª parte do RELATO de António Joaquim Guimarães Junior, SOBRE O DIA DA CHEGADA DOS PRIMEIROS BRANCOS A MOÇÂMEDES. São partes do texto que pode ser lido nas pgs 09 a 13 da "Memoria
sobre a exploração da costa ao sul de Benguella na Africa occidental-
Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Mossâmedes" ,
de António Joaquim Guimarães Junior, dedicada a José da Silva Carvalho.
Quanto à alcunha "Gato com Botas", atribuida a António Guimarães
Júnior, talvez ajude saber que ao nível da simbologia o GATO representa talvez aquele que passou por cima,. "independência na tomada de decisão", "ausência de
submissão", "astúcia", "inteligência", "capacidade de obter tudo aquilo
que se deseja". "Animal considerado menos domesticável e mais difícil
de submeter que o cão", de entre outras características. O facto de essa alcunha ter sido atribuida a António Guimarães pode muito bem ter acontecido pela irreverência com que lidou com o assunto, saltando por cima da autoridade nas decisões que tomou. Tenente Garcia tomara-o de ponta e não lhe perdoou.
A feitoria estava montada no "sítio da Aguada", à entrada das Hortas. Hoje sabemos que o local foi assim chamado porque era ali que os navios que demandavam o porto de Moçâmedes, iam abastecer-se de géneros agrícolas e de água (aguada), incluindo os baleeiros norte-americanos, operavam, entre a costa e a Ilha de Santa Helena.
António Guimarães viria a falecer em Lisboa , em 7 de Março de 1887 , acontecimento noticiado do seguinte modo no nº. 117 do jornal de Mossâmedes: «era um homem inteligente, mas infeliz nos seus empreendimentos.
Há noticia de que fundou vários jornais que gozavam bastante crédito, tais como "a Pátria" e o "Diário Comercial", e colaborou em outros escrevendo muitos artigos sobre Moçâmedes. Fundou outros periódicos, tais como, "Debates", "Verdade", etc.
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António Joaquim Guimarães Junior, o português fundador da 1ª feitoria de Moçâmedes, neste seu livro "Memoria sobre a exploração da costa ao sul de Benguella na Africa occidental- Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Mossâmedes" , não apenas ousou descrever aquela que considerava a sua perspectiva face às injustiças de que se sentiu alvo da parte da autoridade no curto período a seguir à sua fundação, como ousou apontar o dedo à ausência de um projecto colonizador à altura das necessidades do território.
"... E será isto o que se tem praticado? tem sido por falta d’empre É tem deixado de levar-se a efeito estabelecimentos de reconhecida utilidade publica? não por certo. Uma prova d’isso temol-a nós no resultado que eu tirei da exploração de Mossamedes, e de formar ali o primeiro estabelecimento commercial, oferecendo assim á corôa Portugueza um novo porto de commercio, donde se poderião tirar ja hoje grandes recursos para a fazenda publica, se as authoridades ali quizessem desinteressadamente cumprir seus deveres: e qual foi a recompensa? o ver destruida a minha feitoria, ser prezo e logo solto seu motivos justificados, e colocado em pouco agradavel posição, e tudo só feito (quem tal acreditaria?) para favorecer um monopolio escandalozo e retrogrado. Igualmente se attenda ao acolhimento que os negreiros encontrão nas primeiras authoridades, comparem-se as difficuldades de taes emprezas com os interesses dos contrabandistas protegidos, e facilmente se conhecerá por que não se multiplicão as especulações uteis, que jamais :podem competir com aquelles que com ouro compräo a impunidade , e tolhem os meios de estas prosperarem, para evitar assim a demonstração com factos da possibilidade de poderem aquellas colonias em algum tempo passar sem o vergonhoso commercio de negros. |E com o fim de mostrar essa possibilidade, que apezar das difficuldades com que tive a lutar, me resolvi a escrever esta memoria, que para mais facil intelligencia vai dividida em duas partes: tratando na priimeira, da origem da exploração, seu progresso, e descripção da viagem feita para este fim na Corveta D. Izabel Maria; e na segunda, do meu regresso a Mossamedes, fundação da primeira feitoria alí, meios empregados para estabelecer relações com o interior, primeiros resultados de estas, e finalmente d'algumas noticias, que por curiosas ou interessantes julguei a proposito fazer menção. Não presumo d'escriptor, e por isso e em attenção á falta de tempo
para poder limar estas mal alinhavadas regras, espero que facilmente
pelos leitores me serão relevadas algumas faltas em que
involuntariamente possa incorrer, desculpa que tanto mais "# poder
obter, por serem dedicadas á amizade e gratidão, e não á "VCIl Ulà.
Vale a pena lêr este livro que se encontra disponível na NET para os interessados na História de Angola, essencialmente na História de Moçâmedes, tendo sempre presente o contexto da época em que os acontecimentos relatados aconteceram, e não à luz dos nossos dias. Época de mudança de paradignas, de um paradigma colonial fundado no tráfico de escravos para o Brasil e Américas, rumo a outro paradigma que visava a ocupação efectiva e o desenvolvimento económico.
MariaNJardim
https://books.google.pt/books?pg=PA3&lpg=RA1-PA1&dq=Mem%C3%B3ria+sobre+a+explora%C3%A7%C3%A3o+da+costa+ao+sul+de+Benguella+na+Africa+occidental-+Funda%C3%A7%C3%A3o+do+Primeiro+Estabelecimento+Conercial+na+Ba%C3%ADa+de+Moss%C3%A2medes%22&id=y0lBAAAAcAAJ&hl=pt-PT#v=onepage&q=Mem%C3%B3ria%20sobre%20a%20explora%C3%A7%C3%A3o%20da%20costa%20ao%20sul%20de%20Benguella%20na%20Africa%20occidental-%20Funda%C3%A7%C3%A3o%20do%20Primeiro%20Estabelecimento%20Conercial%20na%20Ba%C3%ADa%20de%20Moss%C3%A2medes%22&f=false
Imagens: postais antigos
(1
https://books.google.pt/books?id=y0lBAAAAcAAJ&pg=RA2-PT4&lpg=RA1-PA2&focus=viewport&dq=mossamedes+noronha&hl=pt-PT&output=text#c_top
Importa lembrar que na velha "Angra do Negro",
no local mais tarde designado por Moçâmedes, ainda que em 1641 já lá
tenham estado portugueses, como é provado pelas inscrições encontradas
no morro da Torre do Tombo, onde se podia lêr a data e o nome de D.
António Menezes da Cunha, a ocupação só foi tentada em 1785, no governo
de José de Almeida e Vasconcelos, Barão de Moçâmedes, que organizou com
tal objectivo, duas expedições, uma, por mar, outra por terra, a
primeira comandada pelo coronel Pinheiro Furtado, a bordo da fragata
«Loanda», a segunda expedição dirigida pelo sertanejo Gregório José
Mendes, que por Quilengues foi encontrar-se com a primeira na mesma
Angra, que crismaram com o nome de "Mossâmedes", em honra do Barão,
então Governador de Angola. Foi então que aconteceu este primeiro
contacto com os nativos da zona, uma primeira tentativa de ocupação que
não se manteve, e que viria a custar a vida daqueles oficiais e
marinheiros.
Tiveram que decorrer ainda bastantes anos, para que no governo de D.
António Manuel de Noronha, em 1839, duas outras expedições fossem
organizadas com o mesmo objectivo, seguindo caminhos idênticos aos das
anteriores. A que foi pelo mar, na escuna « Isabel Maria», era comandada
pelo primeiro tenente da armada Pedro Alexandrino da Cunha, que mais
tarde viria a ser um eminente Governador Geral. A que marchou por terra,
debaixo do comando do tenente J. Garcia, percorrido o sertão desde
Benguella, dirigiu-se, também a Quilengues, inflectindo para o Quipungo e
para a Huila, de onde desceu ao litoral para se reunir, em Moçâmedes,
com Pedro Alexandrino.
Foi então que na baía sobre o morro da
Ponta Negra se levantou o Forte, e na mesma altura foi instalada uma
primeira feitoria, iniciando-se a colonização, uma vez reconhecido o
clima suave e temperado da velha Angra do Negro, pelas brisas derivadas
da corrente fria que sobe ao longo da costa, vinda do Cabo da Boa
Esperança, corrente que é também uma das causas da riqueza ictiológica
daquele mar do Sul do território.
Vejamos, na íntegra, o que a
este respeito descreve o tenente Pedro Alexandrino da Cunha, em 20 de
Janeiro de 1840, in "Memória da Exploração da Costa Ocidental de
Africa, em 1839", nos Annaes Maritimos e Colonias, parte Oficial:
"... No dia 17 de Novembro chegou á bahia o Tenente Garcia, tendo
percorrido o sertão desde Benguella. Esta reunião foi puramente casual,
pois que procurando-nos um ao outro com empenho, nenhum de nós conhecia
ponto algum da costa a que nos referíssemos. A chegada do Tenente
Garcia, veio augmentar e fortalecer a boa intelligencia que já existia
entre mim e o gentio do Sobete Mussungo; assim como estabelecer relações
de permanente amisade com o outro Sobete Loquengo, que grato a tel-o o
Tenente salvado das garras do Soba do Jau, onde se achava preso por
suppostos crimes de feiticerias, nos obsequiou a seu modo, promettendo
fazer tudo que estivesse ao seu alcance a bem dos brancos, e por fim
pedindo com instancia o ser avassallado pelo Maneputo, (1) com o
verdadeiro fim de esperar protecção contra as violencias dos mais
potentados. Accedi aos seus desejos, e vindo a bordo da curveta, não sem
bastante repugnancia, ahi foi reconhecido e authorisado em parada geral
da guarnição, dando-lhe o novo nome de Giráhúlo, uma capa encarnada de
panno, que ofereceu o Tenente Garcia, uma cadeira, um casal de leitões, e
um galo e galinha, para creação, que nada tinham, Á sahida foi
festejado com uma salva, com o que, e o bom agasalho que lhe fiz a
bordo, ficou o homem summamente satisfeito, e prompto para receber a lei
de Sua Magestade. O Tenente Garcia muito concorreu, pela sua
experiencia do trato com o gentio, assiduidade no desempenho deste
importante serviço, e notavel generosidade, para o bom exito de toda
esta transacção. O passageiro Guimarães esteve sempre em terra, todo o
tempo que alli me demorei, e em perfeita liberdade para fazer todas as
observações, a que se referem as instrucções que recebi. Convem notar
antes que conclua, que o gentio chama em geral a toda esta costa Bitóto;
ao districto do porto Pinda, Bitóto Coroca, ao da bahia de Mossamedes,
Bitóto Mussungo e Bitóto Loquengo. Tendo concluido os trabalhos e
observações necessarias, embarcado o Tenente Garcia com a sua comitiva, e
recebido as demonstrações d'amizade, e segurança da sua continuação,
dos Sobetes Girahúlo e Mussungo, larguei da bahia em 6 de Dezembro,
dirigindo-me costa abaixo a Benguella, onde informei o Governador, do
occorrido, que tem muito a peito, assim como todos os moradores daquelle
presidio, o começo e progresso d'um novo estabelecimento naquelle
ponto, onde possam refugiar-se dos estragos da pestilente Benguella,
visto não haver dúvida que aquelle districto é mais sadio que este.
Desde Mossamedes até Benguella, não oferece a costa ancoradouro
abrigado, ou povoação consideravel que mereçam ser explorada." Fim de
trenscrição
A ocupação alargou-se com a chegada de contingentes
de famílias fugidas das lutas políticas em Pernambuco, Brasil, em 1849 e
1850, que não só ali se fixaram como atingiram o Bumbo (Capangombe),
junto à Chela, e subiram à Huila. O comércio, que não dera até àquelas
expedições sinal de si, não se encontrando rastos dos pombeiros ou dos
funantes pelos trilhos da savana clara ou da selva sombria, começou a
aparecer desde 1840, internando-se naqueles sertões enigmáticos, ainda
de exuberantes de ameaças.
MariaNJardim
(1) Mani-Puto é o nome que davam os autóctones desta região ao Rei de Portugal. No quadro das nações europeias a prioridade da descoberta não
concedia o direito de posse de imediato, seria necessário povoar com
gentes da Metrópole, desenvolver o comércio, mandar visitar o território
por navios de guerra, erguer fortalezas, habitações e feitorias.




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