Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 15 de março de 2025

Maria da Cruz Rolão a regedora e horoína de Porto Alexandre (Tombwa)

 



Estátua erigida em Porto Alexandre (Tombwa)  em  homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, a heroica 
Regedora de Porto Alexandre (actual Tombwa).  Obra do escultor Fernando Marques.



MARIA DA CRUZ ROLÃO
Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher



Ao percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia, aquela que foi um dos mais importantes  centros piscatórios do espaço colonial português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade. Trata-se de Porto Alexandre, a baía de que Diogo Cão deu notícia pela primeira vez, em 1485, designando-a por "Angra das Aldeias", e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos navegantes portugueses em demanda de novas descobertas. 
 
Em flagrante contraste com a excelência da baía e quietude hospitaleira das suas águas, surgia aos olhos dos navegadores portugueses, uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água, onde qualquer ideia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo que decorreram 3 séculos até ao início da ocupação efectiva, das terras desertas do sul de Angola, porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades foram  sendo vencidas.
 
Foi em 1860, o ano em que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola, grupos de abnegados algarvios iniciaram a ocupação efectiva, uma gesta heróica, em que venceram a dureza e a desolação do terreno, souberam dominar a fome, a sede, o isolamento, e suportaram estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.

Por entre as dunas do deserto, que começaram a surgir as primeiras e rudimentares habitações, enquanto  os ventos e areias  iam sendo dominados através de uma obra notável da qual  se destaca uma extensa cortina verde, com cerca de 300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o futuro, cresceu em extensão e em formosura, modernizou-se, um verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade continuada por sucessivas gerações que ainda hoje se mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade inquebrantável. 
 
Efectuado este pequeno apanhado da história de Porto Alexandre, uma modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores, voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem receio de grande erro, situar no período 1865-1870. 

Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios, utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela, de  pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4 metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a família CRUZ ROLÃO, donde sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. Era possuidora duma energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão unânime, a elegerem sua primeira autoridade civil, nela depositando uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava, patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA CRUZ ROLÃO mais uma vez se evidenciou impondo a saída das nossas águas territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que estava em  águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande falta de cortesia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade  e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito. Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe uma estátua.
A estátua e o escultor Fernando Marques
A estátua

MARIA DA CRUZ ROLÃO nascida em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21.Setembro 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro.  Era filha de Domingos da Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (CMM Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883-1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó,  porquanto no óbito seu filho  José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes 1 de Dezembro de 1905 motivado por tuberculose  pulmonar, no estado de casado e com 53  anos de idade, nascido em Olhão em 1852 registou-se a filiação:  filho de Maria da CRuz Rolão e de Manuel Tomé do Ó  (Idem, Livro 5 de Registo Óbitos  1898-1911). Outro registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado, na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os sacramentos. Indica a sua profissão: marítimo, seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão, confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó e de Maria da Cruz Rolão, natural de Olhão, e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz) não fez testamento, deixou 6 filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes Registo de Óbitos, 1905,  Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão verificado em 06 de Julho de 1902,  com indicação da idade:  70 anos, e do estado civil: casado; apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (CMM livro 52? Registo de obitos 1898-1911)

Algum tempo após a inauguração da estátua de Maria da Cruz Rolão, visitou Porto Alexandre o Presidente do Municipio de Faro, a convite do Ministro do Ultramar, tendo então ficado prometido por este, dar a uma Rua de Porto Alexandre o nome  Rua de Olhão, e a uma Rua de Faro o nome Porto Alexandre.

Maria Nídia Jardim/


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Segue um texto de Alberto Iria:

« O descendente da regedora»

Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lourdino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara».



Reservados os Direitos de autor
 
 
Segue um texto de Alberto Iria:

« O descendente da regedora»


sexta-feira, 14 de março de 2025

Mossâmedes, Luz Soreano e Revelações da Minha Vida e Memórias...



  
 

 
Mossãmedes 
 
 

Simão José da Luz Soriano
File:Simão José da Luz Soriano - O Occidente (1Set1891).png - Wikimedia  Commons 
 
 

 
 Assim descrevia Luz Soreano... em "Revelações da Minha Vida e Memórias" 
 


Moçâmedes foi fundada por luso-brasileiros vindos de Pernambuco, Brasil,  em 1849, e 8 anos após Simão José da Luz Soriano deixou-nos em "Revelações da Minha Vida e Memórias" testemunhos escritos sobre o andamento da colonização, que ele mesmo promoveu, a partir de Lisboa, e que nos levam a recuar no tempo e no espaço com uma nitidez tal, que parece que estamos lá a ver como as coisas foram acontecendo.
 
Abordando as estatísticas sobre o avanço da povoação, em 1857, Luz Soriano  revela-nos que  em apenas 8 anos após o início da colonização pelos luso-brasileiros de Pernambuco, os fogos existentes na vila de Moçâmedes, no sitio da Aguada, na Boavista, nos Cavaleiros e na Macala eram os seguintes: 91 prédios na vila, sendo 34 de pedra, 40 de adobe, e 17 de pau a pique. As cubatas de palha eram 6. Em construção estavam 4 prédios de pedra, e 14 de adobe. Os prédios da Aguada eram 16 de todo o género, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavaleiros e Macala 3.
 
Quanto à população livre era de 275 indivíduos, sendo 132 brancos maiores e menores do sexo masculino, 81 ditos do sexo feminino, sendo o resto composto de pardos e pretos.  Os libertos eram 99,  a população escrava montava a 837 individuos, vindo assim o total de todas as classes e sexos a elevar-se a 1.211 pessoas, só na villa de Moçâmedes. 
 
Quanto ao tipo de vida, os povos próximos criavam muitos gados, que já se iam acostumando a vender, e os mais distantes os vendiam também até mesmo com preferência à cera e marfim, o que produzia abundância de oferta e barateava o custo das carnes que se exportavam para abastecimento da estação naval, e para consumo em Luanda, propondo-se agora alguns especuladores a secar a carne à maneira do Brasil, o que podia tornar-se um importante ramo de exportação. Um boi grande custava, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vendia a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde havia prodigiosa abundância de leite.

Dantes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns continuavam a recusar vender gados em maior quantidade, porque depende deles a importância e consideração do indivíduo de acordo com o numero de cabeças que possui. Em algumas partes só matam e comem a carne dos bois por ocasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres. Além dos gados comerciava-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
 
 

 
 A Quinta dos Cavaleiros...
 

Nos limites de Moçâmedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de diferentes produtos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das diferentes culturas, pois que ha trâs anos tem faltado as grandes inundações , que fertilizam as terras. Contudo há já algumas plantações da cana sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavaleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito inteligente na cultura da cana e fabrico do açucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do distrito: a dos Cavaleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veio do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as máquinas para o descaroçar.

Plantava-se mandioca ou pão comum, que por agora não tem chegado para o consumo; atendendo porém ao incremento que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este ano (1853 ), ou no próximo já possa chegar. Abunda em excelentes hortaliças e bananeiras, produzindo também muito boas uvas; e já vai havendo algum arvoredo, mas há muita falta de lenha.
 
Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3 navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
 
Há uma botica do governo, e um sofrivel hospital, que poderá conter 20 a 85 doentes; mas que de ordinário muito poucos contem, o. que bem prova a salubridade do sitio. Durante o ano de 1852 o maior numero de doentes que ali se reuniu foram 13 , entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias crónicas; e quando em julho de 1849 visitou aquele estabelecimento o governador d'Angola Adrião Accacio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre régio, regendo efectivamente a cadeira de instrução primária, com 12 discípulos, tendo uma pequena biblioteca fornecida pelo governo, e apropriada ao ensino da infância. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulas. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população, do que de ordinário se encontra nas colónias d'Africa. Uma parte dos colonos foram casados, e outros se tem casado depois. 

Em Outubro de 1851 Soreano refere a ida a Moçâmedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de Angola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esta nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e a igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.