Mossãmedes
Simão José da Luz Soriano
Assim descrevia Luz Soreano... em "Revelações da Minha Vida e Memórias"
Moçâmedes foi fundada por luso-brasileiros vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849, e 8 anos após Simão José da Luz Soriano deixou-nos em "Revelações da Minha Vida e Memórias" testemunhos escritos sobre o andamento da colonização, que ele mesmo promoveu, a partir de Lisboa, e que nos levam a recuar no tempo e no espaço com uma nitidez tal, que parece que estamos lá a ver como as coisas foram acontecendo.
Abordando as estatísticas sobre o avanço da povoação, em 1857, Luz Soriano revela-nos que em apenas 8 anos após o início da colonização pelos luso-brasileiros de Pernambuco, os fogos existentes na vila de Moçâmedes, no sitio da Aguada, na Boavista, nos Cavaleiros e na Macala eram os seguintes: 91 prédios na vila, sendo 34 de pedra, 40 de adobe, e 17 de pau a pique. As cubatas de palha eram 6. Em construção estavam 4 prédios de pedra, e 14 de adobe. Os prédios da Aguada eram 16 de todo o género, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavaleiros e Macala 3.
Dantes
muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns continuavam a
recusar vender gados em maior quantidade, porque depende deles a importância
e consideração do indivíduo de acordo com o numero de cabeças que possui. Em
algumas partes só matam e comem a carne dos bois por ocasião dos
casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de
monumentos fúnebres. Além dos gados comerciava-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
A Quinta dos Cavaleiros...
Nos limites de Moçâmedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de diferentes produtos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das diferentes culturas, pois que ha trâs anos tem faltado as grandes inundações , que fertilizam as terras. Contudo há já algumas plantações da cana sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavaleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito inteligente na cultura da cana e fabrico do açucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do distrito: a dos Cavaleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veio do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as máquinas para o descaroçar.
Plantava-se mandioca ou pão comum, que por
agora não tem chegado para o consumo; atendendo porém ao incremento
que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este ano (1853 ), ou no
próximo já possa chegar. Abunda em excelentes hortaliças e bananeiras, produzindo também muito boas uvas; e já vai havendo algum arvoredo,
mas há muita falta de lenha.
Contam-se
já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas
d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são
cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de
ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes
moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os
habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos,
comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200
brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito
perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3
padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o
capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3
navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando
pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais
promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior
movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
Em Outubro de 1851 Soreano refere a ida a Moçâmedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de Angola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esta nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e a igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.


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