Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 14 de março de 2025

Mossâmedes, Luz Soreano e Revelações da Minha Vida e Memórias...



  
 

 
Mossãmedes 
 
 

Simão José da Luz Soriano
File:Simão José da Luz Soriano - O Occidente (1Set1891).png - Wikimedia  Commons 
 
 

 
 Assim descrevia Luz Soreano... em "Revelações da Minha Vida e Memórias" 
 


Moçâmedes foi fundada por luso-brasileiros vindos de Pernambuco, Brasil,  em 1849, e 8 anos após Simão José da Luz Soriano deixou-nos em "Revelações da Minha Vida e Memórias" testemunhos escritos sobre o andamento da colonização, que ele mesmo promoveu, a partir de Lisboa, e que nos levam a recuar no tempo e no espaço com uma nitidez tal, que parece que estamos lá a ver como as coisas foram acontecendo.
 
Abordando as estatísticas sobre o avanço da povoação, em 1857, Luz Soriano  revela-nos que  em apenas 8 anos após o início da colonização pelos luso-brasileiros de Pernambuco, os fogos existentes na vila de Moçâmedes, no sitio da Aguada, na Boavista, nos Cavaleiros e na Macala eram os seguintes: 91 prédios na vila, sendo 34 de pedra, 40 de adobe, e 17 de pau a pique. As cubatas de palha eram 6. Em construção estavam 4 prédios de pedra, e 14 de adobe. Os prédios da Aguada eram 16 de todo o género, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavaleiros e Macala 3.
 
Quanto à população livre era de 275 indivíduos, sendo 132 brancos maiores e menores do sexo masculino, 81 ditos do sexo feminino, sendo o resto composto de pardos e pretos.  Os libertos eram 99,  a população escrava montava a 837 individuos, vindo assim o total de todas as classes e sexos a elevar-se a 1.211 pessoas, só na villa de Moçâmedes. 
 
Quanto ao tipo de vida, os povos próximos criavam muitos gados, que já se iam acostumando a vender, e os mais distantes os vendiam também até mesmo com preferência à cera e marfim, o que produzia abundância de oferta e barateava o custo das carnes que se exportavam para abastecimento da estação naval, e para consumo em Luanda, propondo-se agora alguns especuladores a secar a carne à maneira do Brasil, o que podia tornar-se um importante ramo de exportação. Um boi grande custava, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vendia a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde havia prodigiosa abundância de leite.

Dantes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns continuavam a recusar vender gados em maior quantidade, porque depende deles a importância e consideração do indivíduo de acordo com o numero de cabeças que possui. Em algumas partes só matam e comem a carne dos bois por ocasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres. Além dos gados comerciava-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
 
 

 
 A Quinta dos Cavaleiros...
 

Nos limites de Moçâmedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de diferentes produtos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das diferentes culturas, pois que ha trâs anos tem faltado as grandes inundações , que fertilizam as terras. Contudo há já algumas plantações da cana sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavaleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito inteligente na cultura da cana e fabrico do açucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do distrito: a dos Cavaleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veio do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as máquinas para o descaroçar.

Plantava-se mandioca ou pão comum, que por agora não tem chegado para o consumo; atendendo porém ao incremento que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este ano (1853 ), ou no próximo já possa chegar. Abunda em excelentes hortaliças e bananeiras, produzindo também muito boas uvas; e já vai havendo algum arvoredo, mas há muita falta de lenha.
 
Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3 navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
 
Há uma botica do governo, e um sofrivel hospital, que poderá conter 20 a 85 doentes; mas que de ordinário muito poucos contem, o. que bem prova a salubridade do sitio. Durante o ano de 1852 o maior numero de doentes que ali se reuniu foram 13 , entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias crónicas; e quando em julho de 1849 visitou aquele estabelecimento o governador d'Angola Adrião Accacio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre régio, regendo efectivamente a cadeira de instrução primária, com 12 discípulos, tendo uma pequena biblioteca fornecida pelo governo, e apropriada ao ensino da infância. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulas. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população, do que de ordinário se encontra nas colónias d'Africa. Uma parte dos colonos foram casados, e outros se tem casado depois. 

Em Outubro de 1851 Soreano refere a ida a Moçâmedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de Angola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esta nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e a igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.  
 
 
 
 
 
 
 
 

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