Estátua erigida em Porto Alexandre (Tombwa) em homenagem a MARIA DA
CRUZ ROLÃO, a heroica
Regedora de Porto Alexandre (actual Tombwa). Obra do escultor Fernando Marques.
MARIA DA CRUZ ROLÃO
Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher
Ao
percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma
excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de
águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia, aquela que foi um dos mais importantes centros piscatórios do espaço colonial português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade. Trata-se de Porto Alexandre, a baía de que Diogo
Cão deu notícia pela primeira vez, em 1485, designando-a por "Angra das Aldeias", e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos
navegantes portugueses em demanda de novas descobertas.
Em flagrante
contraste com a excelência da baía e quietude hospitaleira das suas
águas, surgia aos olhos dos navegadores portugueses, uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água,
onde qualquer ideia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo
que decorreram 3 séculos até ao início da ocupação efectiva, das terras desertas do sul
de Angola, porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades
foram sendo vencidas.
Foi em 1860, o ano em que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola,
grupos de abnegados algarvios iniciaram a ocupação
efectiva, uma gesta heróica, em que venceram a dureza e a desolação do terreno,
souberam dominar a fome, a sede, o isolamento, e suportaram
estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.
Por entre as dunas do deserto, que começaram a surgir as primeiras e rudimentares habitações, enquanto os ventos e areias iam sendo dominados através de uma obra notável da qual se destaca uma extensa
cortina verde, com cerca de
300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e
sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o
futuro, cresceu em extensão e em formosura, modernizou-se, um verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade continuada por sucessivas gerações que ainda hoje se
mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade
inquebrantável.
Efectuado este pequeno apanhado da história de Porto
Alexandre, uma modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores,
voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos
pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem
receio de grande erro, situar no período 1865-1870.
Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios,
utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela,
de pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4
metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano
Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por
velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses
caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a família CRUZ ROLÃO, donde
sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem
vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. Era possuidora duma
energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma
cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão
unânime, a elegerem sua primeira autoridade civil, nela depositando
uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em
que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que
fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava,
patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em
defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA
CRUZ ROLÃO mais uma vez se evidenciou impondo a saída das nossas águas
territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou
registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval
inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que
estava em águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e
inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de
tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam
cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na
faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis
atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande
falta de cortesia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das
crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no
sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ
ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que
tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio
inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante
inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas
águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA
CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa
de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e
suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez
assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já
em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade
e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e
continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito.
Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária
existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe
uma estátua.
MARIA DA CRUZ ROLÃO nascida em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes
em 21.Setembro 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do
cérebro. Era filha de Domingos da Cruz Rolão e de Maria do Rosário da
Cruz (CMM Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883-1898, fl 95). Era casada
com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito seu filho José António
Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes 1 de Dezembro de 1905 motivado
por tuberculose pulmonar, no estado de casado e com 53 anos de idade,
nascido em Olhão em 1852 registou-se a filiação: filho de Maria da CRuz
Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 de Registo Óbitos
1898-1911). Outro registo de óbito deste filho diz que tal facto se
verificou na residência do finado, na Rua dos Pescadores em Moçâmedes,
com os sacramentos. Indica a sua profissão: marítimo, seu estado civil:
casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão, confirma a sua filiação:
de Manuel Tomé do Ó e de Maria da Cruz Rolão, natural de Olhão, e
esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz) não fez testamento,
deixou 6 filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião de
Moçâmedes Registo de Óbitos, 1905, Deparamos também com o óbito de João
da Cruz Rolão verificado em 06 de Julho de 1902, com indicação da
idade: 70 anos, e do estado civil: casado; apenas com menção do nome da
mãe: Maria da Cruz (CMM livro 52? Registo de obitos 1898-1911)
A estátua e o escultor Fernando Marques
A estátua
Maria Nídia Jardim/
...........................................................................................................................................................................
Segue um texto de Alberto Iria:
« O descendente da regedora»
« O descendente da regedora»
Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lourdino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara».
Reservados os Direitos de autor
Segue um texto de Alberto Iria:
« O descendente da regedora»
« O descendente da regedora»





