Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 27 de junho de 2020

O INÍCIO DA GRANDE GUERRA E A DEFESA DOS TERRITÓRIOS PORTUGUESES EM ÁFRICA






As últimas décadas do século XIX foram marcadas pela “corrida a África” por parte das principais potências europeias. As expedições científicas ao interior do sertão africano rapidamente deram lugar à reivindicação e disputa pela posse de vastos territórios africanos. Com a eclosão da Grande Guerra, as pressões sobre os territórios portugueses naquele continente aumentam e Portugal decide reforçar a sua presença militar em África. O primeiro confronto direto entre portugueses e alemães dá-se no norte de Moçambique, muito antes da declaração formal de guerra que só viria a ter lugar em março de 1916. Em 24 de agosto de 1914, cerca de três semanas após o início da guerra na Europa, o pequeno posto português de Maziúa, na fronteira norte, foi atacado e destruído na madrugada daquele dia por forças alemãs. O chefe do posto, o Sargento Enfermeiro de Marinha Eduardo Costa foi morto durante o ataque, sendo a primeira baixa militar portuguesa durante o período da Grande Guerra. Em Angola, na fronteira sul com a Damaralândia (território alemão na atual Namíbia), cresciam as tensões fronteiriças, com frequentes provocações e desafios à soberania portuguesa.

A 10 e 11 de setembro de 1914 partem duas expedições militares para África: o Coronel Massano de Amorim lidera o corpo expedicionário a Moçambique, cabendo ao Tenente-coronel Alves Roçadas o comando da expedição militar ao Sul de Angola. Estava em causa a defesa dos territórios e da soberania portuguesa em África.

A CONSTITUIÇÃO DO BATALHÃO DE MARINHA E A PARTIDA PARA O SUL DE ANGOLA
Em outubro de 1914, a Marinha é solicitada pelo Ministério das Colónias a cons-tituir um Batalhão Expedicionário, na tradição que vinha dos finais do século XIX em participar nas campanhas de pacificação nos territórios africanos. Pelo Decreto n.º 991 de 29 de outubro de 1914 é formalmente criado o Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola. O número de voluntários que responderam ao convite para integrar o Batalhão de Marinha foi bastante superior às vagas disponíveis, pelo que foi necessário proce-der-se a uma difícil seleção. Concluídos os preparativos para a partida para Angola, os possíveis em tão pouco tempo, no dia 5 de novembro o Batalhão de Marinha formou pela primeira vez no Quartel de Marinheiros, em Alcântara. Composto por 18 oficiais, 32 sargentos e 509 praças, estava organizado em três companhias a dois pelotões, duas secções de metralhadoras, serviço de saúde e serviço de quartéis, sendo comandado pelo Capitão-tenente Alberto Coriolano da Costa, veterano de campanhas em África e antigo Governador de Moçâmedes, profundo conhecedor da região em que iriam operar. Nesse mesmo dia 5 de novembro de 1914, o Batalhão de Marinha Expedicionário desfilou pelas ruas de Lisboa, acompanhado por uma multidão de populares que se foi despedir na hora do seu embarque, a bordo do paquete Beira com destino ao Sul de Angola, para aquela que seria uma das mais difíceis missões atribuídas à Marinha Portuguesa. O desembarque em Moçâmedes deu-se em 30 de novembro, vinte e cinco dias após a partida de Lisboa. Dali partiram a 11 de dezembro, em direção ao teatro de operações no extremo sul do território angolano. A chegada aos Gambos, onde se encontrava o comandante das Forças Expedicionárias, Tenente-coronel Alves Roçadas, deu-se em 3 de janeiro de 1915, após uma penosa e demorada marcha, marcada pela carência de água potável e de víveres. O Batalhão de Marinha foi enviado para um posto avançado, denominado de Forno da Cal, onde permaneceu durante largos meses, num período marcado pelo impasse nas operações, mas também pelo deteriorar do estado de saúde do efetivo do Batalhão de Marinha, assolado pelo paludismo, febre tifoide e pela escassez de água potável.


O COMBATE DE TCHIPELONGO (29 DE MAIO DE 1915)
No início do mês de maio de 1915, já sob o comando do General Pereira d’Eça, são retomadas as operações militares no Sul de Angola com vista à reocupação da região do Humbe, ameaçada por alemães e grupos locais de revoltosos. Em 26 de maio, as forças do Batalhão de Marinha que haviam avançado para sul até Tchicusse, receberam um pedido de auxílio do Padre Bellet, responsável pela missão do Espírito Santo, no Tchipelongo, a qual estava a ser ameaçada por revoltosos locais. Naquela que seria a sua primeira missão de combate, em 29 de maio foi então enviada uma força constituída por elementos da 1ª Companhia do Batalhão de Marinha sob o comando do então Primeiro-tenente Afonso de Cerqueira que, no seu relatório, descreveu os acontecimentos da seguinte forma:“Foi este episódio bem movimentado pois que o gentio nos atacou com valentia e arrojo, procurando por várias vezes envolver a nossa pequena força, devido ao nosso pequeno efectivo, e a não termos artilharia nem metralhadoras e a estar bem armado e com muitas munições(...). Devido a ter-se desde o princípio mantido uma rigorosa disciplina de fogo e às praças obedecerem sem hesitações e com valentia e decisão à ordem de avançar por lances e com descargas, foi o inimigo completamente derrotado, posto em debandada e obrigado a retirar, com numerosas baixas(...) Teve a nossa força dois oficiais feridos [um deles o próprio Afonso de Cerqueira] e seis praças. Foi notável a marcha efectuada de 54 kiló-metros quási sem descanso.”

Relatório do Capitão-tenente Afonso de Cerqueira, Comandante do Batalhão de Marinha. Lisboa, 20 de outubro de 1915.


O COMBATE DA MONGUA (18, 19 E 20 DE AGOSTO DE 1915)
Em 9 de julho de 1915, as forças alemãs no sudoeste africano são finalmente der-rotadas pelo exército britânico da África do Sul, rendendo-se ao General Louis Botha. Contudo, para as forças portuguesas, havia ainda que derrotar os grupos indíge-nas revoltosos no Cuanhama e Cuamato, que, instigados e armados por agentes alemães, constituíam séria ameaça à pre-sença e soberania portuguesa no sul de Angola.Consolidada a reocupação do Humbe, no início de agosto de 1915 foi constituída uma coluna militar para marchar para sul, em direcção à região de Cuanhama, onde chegaram a 15 desse mês. A 18 de agosto, a coluna foi atacada na região da Mongua, onde adoptou posições defensivas, formando em quadrado. A face da frente (virada a leste) coube ao Batalhão de Marinha, agora sob o comando do Capi-tão-tenente Afonso de Cerqueira. Após dois dias de continuado assédio por parte do inimigo, na manhã de 20 de agosto o quadrado é fortemente atacado. Pelas 17 horas é ordenada uma ação decisiva com vista a romper o cerco. Caberia ao Batalhão de Marinha sair do quadrado e carregar sobre o inimigo, com o apoio de cavalaria, do Batalhão de Infantaria 17 e a 15ª Companhia de Indígenas. Avançando à frente dos seus homens, o Comandante Afonso de Cerqueira liderou a carga, con-seguindo romper o cerco e desbaratando o inimigo, que bateu em retirada. A vitória na Mongua foi decisiva para o restabelecimento da ordem e soberania portuguesa, sendo a última acção de com-bate nesta longa e difícil campanha militar ao Sul de Angola. No seu relatório sobre as operações rea-lizadas no Sul de Angola, o General Pereira d’Eça, comandante das forças portuguesas naquele território, refere-se ao Batalhão de Marinha nos seguintes termos: “Todas as unidades cumpriram o seu dever por forma a justificar o grande orgulho que sinto em tê-las comandado; porém, julgo merecedor de especial menção o Batalhão de Marinha. Esta unidade mostrou sempre a maior correcção, a nítida compreensão dos seus deveres cívicos e militares, tanto no período que antecedeu às operações como durante as operações.Foi sem o menor exagero uma unidade de elite, cuja têmpera fica definida dizendo que foi a mais resistente nas marchas, a mais esforçada nos combates, e durante os quatro dias que, na Mongua, estivemos reduzidos a um quarto de ração, as suas sentinelas chegaram a cair de fraqueza nos respectivos postos, sendo imediata-mente rendidas sem que disso o comando superior tivesse conhecimento, pois essa unidade sabia bem que esse comando nada podia fazer que modificasse de pronto a situação”.


O REGRESSO DO BATALHÃO DE MARINHA
Após a vitória decisiva na Mongua, o Soba do Cuanhama, Mandume, retirou-se do seu território e deu por finda a rebelião. Estavam concluídas as operações militares no Sul de Angola e começava a retirada das forças portuguesas expedicio-nárias àquele território.No final das operações, restavam ao Batalhão 12 oficiais e 267 sargentos e praças, sensivelmente metade do efetivo que havia partido de Lisboa. Dirigiram-se para o Lubango, donde partiram para Moçâme-des, onde finalmente chegaram no dia 22 de setembro. A chegada a Lisboa deu-se no dia 15 de outubro de 1915. O Batalhão de Marinha desembarcou no cais do Arsenal da Marinha, no mesmo local onde, cerca de um ano antes, havia embarcado para tão distante quanto exigente missão. A espe-rá-lo já não estava a multidão que se fora despedir mas apenas algumas entidades oficiais e, os mais desejados, os seus familiares. Na Ordem do Dia Nº. 207, de 23 de Outubro de 1915 era dissolvido o Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola, sendo louvados os “comandantes, oficiais, praças do estado-menor e praças de mari-nhagem, pelos valiosos serviços presta-dos nas operações no sul de Angola, onde demonstraram a maior valentia, coragem e disciplina, mantendo assim pelo seu acendrado patriotismo o valor, as gloriosas tradições da Marinha de Guerra, cujo prestígio e renome realçaram.” Gonçalves Neves1 TEN ST-EHIS 



Bibliografia:Biblioteca Central de Marinha – Arquivo Histórico de Marinha, Documentação e Livros de Ordens do Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de An-gola, cxs. 4605, 4608, 4611 e 4614.Eça, Pereira de, Campanha do Sul de Angola 1914-1915, Lisboa, Tipografia Lusitânia, 1922.Gonçalves, Júlio, Sul d’Angola e o quadrado da Mongua na epopeia Nacional d’África, Lisboa, J. Rodrigues, 1926.Inso, Jaime Correia do, A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, Lisboa, Edições Culturais da Marinha, 2006.Pinto, Fernando de Oliveira, Batalhão de marinha expedicionário a Angola : ano de 1914-1915, Lis-boa, J. F. Pinheiro, 1918.Soares, António Maria de Freitas, As operações militares no sul de Angola em 1914-1915, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937. Telo, António José, História da Marinha Portugue-sa. Homens, Doutrinas e Organizações 1824-1974, Lisboa, Academia de Marinha, 1999
Bibliografia:Biblioteca Central de Marinha – Arquivo Histórico de Marinha, Documentação e Livros de Ordens do Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola, cxs. 4605, 4608, 4611 e 4614.Eça, Pereira de, Campanha do Sul de Angola 1914-1915, Lisboa, Tipografia Lusitânia, 1922.Gonçalves, Júlio, Sul d’Angola e o quadrado da Mongua na epopeia Nacional d’África, Lisboa, J. Rodrigues, 1926.Inso, Jaime Correia do, A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, Lisboa, Edições Culturais da Ma-rinha, 2006.Pinto, Fernando de Oliveira, Batalhão de marinha expedicionário a Angola : ano de 1914-1915, Lis-boa, J. F. Pinheiro, 1918.Soares, António Maria de Freitas, As operações militares no sul de Angola em 1914-1915, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937. Telo, António José, História da Marinha Portugue-sa. Homens, Doutrinas e Organizações 1824-1974, Lisboa, Academia de Marinha, 1999O BATALHÃO DE MARINHA EXPEDICIONÁRIO AO SUL DE ANGOLA (1914-1915)
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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Deportação de Mário Castelhano, em 1927, no Bairro Poveiro, Porto Alexandre - Angola


 Mário Castelhano (1896.1940)




ALGUMAS NOTAS (Da mesma fonte, assinada por Helena Pato)

- A fotografia de Mário Castelhano foi guardada por Mário Duarte Castelhano, filho de Mário dos Santos Castelhano e de Lucinda Duarte (esta, professora primária e também militante libertária), e pela viúva daquele, Ana Maria Gameiro Duarte Castelhano. Cumprindo uma sua última vontade, entregue ao Arquivo Histórico-Social, criado pelo Centro de Estudos Libertários, reunido em Lisboa nos anos 1980-1987 e depositado na Biblioteca Nacional, o qual foi depois doado a esta instituição e posteriormente acrescentado de mais alguns espólios e doações.

- As fotografias deixadas por nós em comentários foram tiradas à família de Mário Castelhano (incluindo o filho) quando aquele se encontrava clandestinamente a viver num moinho, na Ramada (Odivelas, nos arredores de Lisboa), onde tinham instalado a tipografia clandestina da CGT.

http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/arquivo/?p=digitallibrary/digitalcontent&id=785



 


Residência de Mário Castelhano no Bairro Poveiro, Porto Alexandre(?) - Angola (fotografia)
Data:  1929. Fotógrafo não identificado, sobre residência de Porto Alexandre, em Angola, onde esteve deportado Mário Castelhano, juntamente com outros anarquistas e republicanos, na sequência da insurreição falhada de fevereiro de 1927. 

Residência de Mário Castelhano no Bairro Poveiro, Porto Alexandre(?) - Angola (fotografia)
Data:  1929. Fotógrafo não identificado, sobre residência de Porto Alexandre, em Angola, onde esteve deportado Mário Castelhano, juntamente com outros anarquistas e republicanos, na sequência da insurreição falhada de fevereiro de 1927. Mário Castelhano (1892-1940) foi empregado dos caminhos de ferro e militante anarco-sindicalista, chegando a secretário-geral da CGT e morrendo no campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde). Esta fotografia foi guardada por Mário Amadeu Duarte Castelhano, filho de Mário dos Santos Castelhano e de Lucinda Duarte (esta, professora primária e também militante libertária), e pela viúva daquele, Ana Maria Gameiro Duarte Castelhano, cumprindo uma sua última vontade, entregue ao Arquivo Histórico-Social, criado pelo Centro de Estudos Libertários, reunido em Lisboa nos anos 1980-1987 e depositado na Biblioteca Nacional, o qual foi depois doado a esta instituição e posteriormente acrescentado de mais alguns espólios e doações.
Arquivo Histórico-Social / Projecto MOSCA
Contributor:
João Freire
Direitos de Propriedade:
Uso livre para fins não comerciais e sujeito às normas definidas pela Biblioteca Nacional de Portugal e legislação em vigor aplicável.



Grupo de deportados políticos(fotografia):1928.Fotógrafo não identificado, sobre grupo de deportados políticos (republicanos, anarquistas e outros opositores à ditadura) há pouco chegados a Vila Nova de Seles, Angola, na sequência da insurreição falhada de fevereiro de 1927, distinguindo-se um marinheiro condecorado e Mário Castelhano, à direita.
Esta fotografia foi guardada por Mário Amadeu Duarte Castelhano, filho de Mário dos Santos Castelhano e de Lucinda Duarte (esta, professora primária e também militante libertária), e pela viúva daquele, Ana Maria Gameiro Duarte Castelhano, cumprindo uma sua última vontade, entregue ao Arquivo Histórico-Social, criado pelo Centro de Estudos Libertários, reunido em Lisboa nos anos 1980-1987 e depositado na Biblioteca Nacional, o qual foi depois doado a esta instituição e posteriormente acrescentado de mais alguns espólios e doações. http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/arquivo/?p=digitallibrary/digitalcontent&id=771


MÁRIO CASTELHANO era um destacado dirigente anarco-sindicalista,  dos 20 aos 30 anos, nascido em Lisboa, em 1896, e falecido no Tarrafal, Cabo Verde, a 12 de Outubro de 1940. 

Participou em movimentos insurreccionais contra a ditadura, foi preso e deportado por diversas vezes, julgado em Tribunal Especial, e acabou por morrer no Tarrafal, com 44 anos. Oriundo de uma família modesta, começou a trabalhar aos 14 anos na Companhia Portuguesa dos Caminhos-de-Ferro, participado nas greves de 1911, 1918 e 1920, tendo sido despedido por ter participado na organização destas últimas greves. Passou a  ter  actividades de escrituração no Sindicato de Ferroviários de Lisboa, na Federação Ferroviária e na Confederação Geral do Trabalho, foi membro da comissão executiva da Federação Ferroviária, tendo ocupado o pelouro das relações internacionais e passou a redactor responsável do principal do jornal "A Federação Ferroviária", para além de outros que dirigiu, como  O Ferroviário e O Rápido. Fez parte da reorganização do Conselho Confederal da CGT, após a queda da 1 Republica em 1926, tendo sido eleito responsável do novo secretariado e redactor-principal de A Batalha. Com a tentativa insurreccional de Fevereiro de 1927 ,  a repressão policial acentuada e a ilegalização da CGT e assalto do jornal A Batalha foi preso em Outubro do mesmo ano e deportado para Angola, onde ficou 2 anos.  Em 1930 foi enviado para os Açores , em 1931 para a Madeira, onde participou numa insurreição contra o Governo. Com a derrota deste movimento, foge da ilha, clandestinamente no porão do navio Niassa. Volta a estar à frente do secretariado da CGT em 1933, mas é preso  e condenado pelo Tribunal Especial Militar a 16 anos de degredo na Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, e em Outubro de 1936, para o campo de concentração do Tarrafal, onde morreu.

Em 1975, o seu livro Quatro Anos de Deportação foi editado em Lisboa pela "Seara Nova", como Volume 19 da "Colecção Seara Nova". Foi condecorado, postumamente, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade, a 30 de Junho de 1980.
Nota; estas ultimas  infs foram colhidas da pg facebook Antifascistas da Resistencia




Outras imagens
 



UM POUCO DA HISTÓRIA DA REGIÃO DE MOÇÂMEDES: Colonos da Póvoa de Varzim (poveiros) em Porto Alexandre (Angola)

Chegada de colonos a Porto Alexandre, 1921.




Como tantos outros inconformados emigrantes, que por esse mundo fora atravessaram o mar em busca de uma vida melhor, também os POVEIROS partiram um dia, rumo a Moçâmedes, nas primeiras décadas do século XX, fixando-se em Porto-Alexandre (Tombwa), onde encontraram enraizada uma comunidade de algarvios e seus descendentes já alí nascidos, que alí haviam começado a chegar, desde 1861, por sua conta e risco, em caíques, palhabotes e lanchas à vela.

A ida dos pescadores da Póvoa de Varzim para Angola e Moçambique está intimamente ligada à emigração dos poveiros para o Brasil. Em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a pescar nas águas da ex-colónia, independente desde 1822, desde que se naturalizassem brasileiros, até 12 de Outubro do referido ano, e nacionalizassem também as suas embarcações, orgnizando «companhas» de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira. Os pescadores resolveram obedecer às duas últimas condições, arvoraram em seus barcos a bandeira do Brasil, e pediram através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros, mas como a quase totalidade se escusou à naturalização, tiveram de regressar à Póvoa de Varzim, em número de cerca de mil, tendo o primeiro contingente de 250 pescadores chegado a Lisboa em 30 de Outubro de 1920, seguindo-se outro grupo, em número de 302, que desembarcou em Leixões, a 5 de Novembro do mesmo ano. 

Recebidos na Póvoa de Varzim com uma clamorosa e romântica recepção, fruto da onda patriótica que então se levantou, alimentada pela imprensa periódica, cedo se verificou, de um modo dramático, os problemas sociais e económicos derivados do retorno de tão grande massa de indivíduos, para cuja integração ninguém estava preparado. Uma crua miséria enlaçara muitos dos que haviam voltado, e ameaçava muitos mais. Haveria que tomar medidas que evitassem a tamanha e injusta desgraça. Foi então que surgiu o projecto de Norton de Matos de lançar no litoral do sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro, e a ideia da instalação de uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, onde, segundo o Alto Comissário, o clima era mais favorável e a fixação mais fácil aos europeus que no norte do território. Foi então que  o deputado Santos Graça, pesaroso ante situação, defensor entusiástico deste projecto, se deslocou a Lisboa  onde conferenciou com Norton de Matos, contribuindo para o atenuar das dificuldades, ao afiançar junto do Alto Comissário preocupado com a inexistencia de redes, barcos e aprestos necessários, que os poveiros tinham de tudo, levando ao acelerar o processo.

Por ordem telegráfica de Norton de Matos são construidos em Porto Alexandre um barracão para salga de peixe, redes, velas e aprestos destinados ao início da indústria pesqueira, e ainda três barracões-caserna para os pescadores poveiros e suas famílias dormirem e descansarem, provisoriamente, até que fosse construido o conjunto de habitações prometidas pelo General, um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, a fim de as atrair e fixar ao solo de Angola . O Estado forneceria passagens gratuitas e o transporte dos 3 barcos de pesca apetrechados, redes, linhas, camas, mobiliário indispensável, utensílios de cozinha, bagagem , etc. enquanto aos pescadores caberia pagar uma renda mensal, entre 3 e 15%, sobre o valor do pescado, para amortização do custo das barracas e casas que ficariam sua propriedade exclusiva. A cada família de pescadores, Norton de Matos fazia questão que fosse fornecida uma quantia no valor de 30 contos para que não desembarcassem como uns pedintes, e que esta quantia fosse apresentada à chegada. Os pescadores receberiam também, à chegada, lenha e sal para as primeiras impressões, e o Governo compraria todo o pescado preparado para exportação. 

E assim ..." Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete África, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa. (1)

Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado , dizia em carta dos finais de 1921: “Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. (2)

À sua chegada a Porto Alexandre, a comunidade foi bem recebida, a pesca teve início, como teve inicio a construção das prometidas habitações, não faltando porém criticas à boa qualidade das mesmas. São estas habitações, simples mas bem construidas que recordam hoje uma página da História escrita há quase 90 anos. 

Outras levas de pescadores poveitos se seguiriam...


Pesquisa e texto de MariaNJardim
 
1.
Grupo de dezenas de pescadores da Póvoa do Varzim após a chegada a Porto Alexandre, em Março de 1921. Publicação: Vilela, Afonso José, 1923. A Pesca e Indústrias Derivadas no Distrito de Massamedes: 1921-1922. Relatório de um Inquérito. Porto: Officinas de “O Comércio do Porto”, (p.43). Proveniência BPN, Colecção Fundo Geral Monografias.