Chegada de colonos a Porto Alexandre, 1921.
Como tantos outros inconformados emigrantes, que por esse mundo fora atravessaram o mar em busca de uma vida melhor, também os POVEIROS partiram um dia, rumo a Moçâmedes, nas primeiras décadas do século XX, fixando-se em Porto-Alexandre (Tombwa), onde encontraram enraizada uma comunidade de algarvios e seus descendentes já alí nascidos, que alí haviam começado a chegar, desde 1861, por sua conta e risco, em caíques, palhabotes e lanchas à vela.
A ida dos pescadores da Póvoa de Varzim para Angola e Moçambique está intimamente ligada à emigração dos poveiros para o Brasil. Em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a pescar nas águas da ex-colónia, independente desde 1822, desde que se naturalizassem brasileiros, até 12 de Outubro do referido ano, e nacionalizassem também as suas embarcações, orgnizando «companhas» de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira. Os pescadores resolveram obedecer às duas últimas condições, arvoraram em seus barcos a bandeira do Brasil, e pediram através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros, mas como a quase totalidade se escusou à naturalização, tiveram de regressar à Póvoa de Varzim, em número de cerca de mil, tendo o primeiro contingente de 250 pescadores chegado a Lisboa em 30 de Outubro de 1920, seguindo-se outro grupo, em número de 302, que desembarcou em Leixões, a 5 de Novembro do mesmo ano.
Recebidos na Póvoa de Varzim com uma clamorosa e romântica recepção, fruto da onda patriótica que então se levantou, alimentada pela imprensa periódica, cedo se verificou, de um modo dramático, os problemas sociais e económicos derivados do retorno de tão grande massa de indivíduos, para cuja integração ninguém estava preparado. Uma crua miséria enlaçara muitos dos que haviam voltado, e ameaçava muitos mais. Haveria que tomar medidas que evitassem a tamanha e injusta desgraça. Foi então que surgiu o projecto de Norton de Matos de lançar no litoral do sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro, e a ideia da instalação de uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, onde, segundo o Alto Comissário, o clima era mais favorável e a fixação mais fácil aos europeus que no norte do território. Foi então que o deputado Santos Graça, pesaroso ante situação, defensor entusiástico deste projecto, se deslocou a Lisboa onde conferenciou com Norton de Matos, contribuindo para o atenuar das dificuldades, ao afiançar junto do Alto Comissário preocupado com a inexistencia de redes, barcos e aprestos necessários, que os poveiros tinham de tudo, levando ao acelerar o processo.
Por ordem telegráfica de Norton de Matos são construidos em Porto Alexandre um barracão para salga de peixe, redes, velas e aprestos destinados ao início da indústria pesqueira, e ainda três barracões-caserna para os pescadores poveiros e suas famílias dormirem e descansarem, provisoriamente, até que fosse construido o conjunto de habitações prometidas pelo General, um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, a fim de as atrair e fixar ao solo de Angola . O Estado forneceria passagens gratuitas e o transporte dos 3 barcos de pesca apetrechados, redes, linhas, camas, mobiliário indispensável, utensílios de cozinha, bagagem , etc. enquanto aos pescadores caberia pagar uma renda mensal, entre 3 e 15%, sobre o valor do pescado, para amortização do custo das barracas e casas que ficariam sua propriedade exclusiva. A cada família de pescadores, Norton de Matos fazia questão que fosse fornecida uma quantia no valor de 30 contos para que não desembarcassem como uns pedintes, e que esta quantia fosse apresentada à chegada. Os pescadores receberiam também, à chegada, lenha e sal para as primeiras impressões, e o Governo compraria todo o pescado preparado para exportação.
E assim ..." Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete África, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa. (1)
Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado , dizia em carta dos finais de 1921: “Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. (2)
À sua chegada a Porto Alexandre, a comunidade foi bem recebida, a pesca teve início, como teve inicio a construção das prometidas habitações, não faltando porém criticas à boa qualidade das mesmas. São estas habitações, simples mas bem construidas que recordam hoje uma página da História escrita há quase 90 anos.
Outras levas de pescadores poveitos se seguiriam...
Pesquisa e texto de MariaNJardim
1.
Grupo de dezenas de pescadores da Póvoa do Varzim após a chegada a Porto Alexandre, em Março de 1921. Publicação: Vilela, Afonso José, 1923. A Pesca e Indústrias Derivadas no Distrito de Massamedes: 1921-1922. Relatório de um Inquérito. Porto: Officinas de “O Comércio do Porto”, (p.43). Proveniência BPN, Colecção Fundo Geral Monografias.
Grupo de dezenas de pescadores da Póvoa do Varzim após a chegada a Porto Alexandre, em Março de 1921. Publicação: Vilela, Afonso José, 1923. A Pesca e Indústrias Derivadas no Distrito de Massamedes: 1921-1922. Relatório de um Inquérito. Porto: Officinas de “O Comércio do Porto”, (p.43). Proveniência BPN, Colecção Fundo Geral Monografias.



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