Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 27 de outubro de 2020

O "Chalé da Horta da Nação" em Moçâmedes e o Dr, Lapa e Faro

 

Este edificio pintado a azul, conhecido em Moçâmedes pelo "Chalé" da Horta da Nação,  ficava na margem esquerda do Rio Bero, no sitio onde surgiu a 1ª feitoria de Moçâmedes, em 1840, de António Joaquim Guimarães Junior, segundo  Manuel Julio de Mendonça Torres em seu livro sobre "Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização" , e no sitio conhecdo por "Gato com Botas", e era em 1975, sabemos nós,  propriedade de José Prazeres Madeira. Actualmente parece pertencer à Policia Nacional.

 

No 2º volume do seu livro "Moçâmedes, no Ciclo Aureo da Cultura do Algodão",  Manuel Júlio de Mendonça Torres, fazendo referência a um ofício de Pinto Balsemão datado de 23.03.1868, descreve a vivenda romântica, em Arte Noveau, da Rua Calheiros, no meu tempo conhecida por "Casa da Desvia", e faz igualmente referência a este Chalé, ambos mandados construir pelo Dr. Lapa e Faro (1), o 1º médico de Moçâmedes, contemporâneo da fundação,  que ficava próximo da Aguada, nos arrabaldes da vila, construído posteriormente, e que nada tinha a ver com aquela outra situada em plena vila. 

Quando Manuel Júlio de Mendonça Torres, o autor do livro, nasceu, as casas já não pertenciam ao Dr Lapa e Faro, que havia falecido há muito...   A casa romântica, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que chegara a ser a melhor da vila, com dois jardins, cobertos de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, a casa da Desvia era propriedade de Rosa Gonçalves (Desvia), e o "Chalé da Horta da Nação"  que é também, sem dívida uma belíssima construção, segundo Victor Mendonça Torres fizera parte da propriedade que vinha das salinas até à Horta do Torres (Benfica incluso) e fora  mais tarde vendido, em lotes a seu tio Gaspar Madeira , tendo ainda mais tarde cabido em herança a seu irmão Prazeres, e a de Benfica passara para o Venâncio Guimarães. 




(1) Lapa e Faro, de nome completo Joãp Cabral Pereira Lapa Faro,

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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O "BAIRRO DA FACADA" E A ORIGEM DO NOME



O "BAIRRO DA FACADA"  E A ORIGEM DO NOME
 

Contavam as nossas avós que o termo "Facada", que deu origem ao nome do "Bairro da Facada" em Moçâmedes, advém de rixas de quando em quando ocorridas  naquele local, tendo como  protagonistas cabo-verdianos,  que no calor das suas lutas, chegavam, incluso, a puxar por navalhas e  a causar graves danos.  Estes episódios que estariam ligados a bebedeiras de fins de semana (1), deviam ter acontecido há muito temo atrás, porquanto na segunda metade do séc XX até 1975, não consta nem a presença de uma comunidade caboverdeana em Moçâmedes e muito menos rixas como acima são referidas.
 
No livro «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização, 1485-1859" , Júlio de Mendonça Torres, citando um Relatório do Governador Fernando da Costa Leal (o 5º Governador do Distrito), de 6 de Junho de 1857 , faz referência a navios baleeiros norte-americanos que operavam entre a Ilha de Santa Helena e a costa de Moçâmedes , zona abundante em cetáceos, sobretudo baleias, cachalotes e toninhas, na qual empregavam avultado número de navios com cerca de vinte a trinta marinheiros que os tripulavam, grande parte dos quais portugueses, naturais dos Açores e de Cabo Verde (açoreanos e caboverdianos), considerados pelos capitães norte-americanos como os mais destros arpoadores. Na perseguição das baleias, os navios navegavam, quase sempre, pouco afastados da costa, ora dirigindo-se para o Sul até ao Porto de Pinda e a Baía dos Tigres, ora encaminhando-se pelo norte até à baía de Moçâmedes, onde por vezes ancoravam para se abastecerem de refrescos. Seriam estes marinhos que veiculando a noticia da riqueza da fauna pesqueira naqueles mares, levaram os algarvios de Olhão em 1961 a partir para Moçàmedes tendo chamado a atenção para os mares da Baia dos Tigres onde se fixaram os pioneiros em 1865.   
 
Posto isto, pergunta.se : "Será que vem daí o nome de "BAIRRO DA FACADA"? Será que teve origem esse nome em alguma rixa ocorrida naquela zona, num desses momentos em que os marinheiros cabo-verdeanos iam a terra abastecerem-se de víveres e de água ? Ou até divertirem.se, antes de retomar a  actividade pesqueira?  Sabe-se, por exemplo, que o nome "AGUADA" vem desse tempo, e desses abastecimentos dos baleeiros, que ficavam ancorados na baía, em lugar próximo dessa zona, enquanto os marinheiros iam a terra.
 
José Fragata, um moçamedense, conta-nos na sua página do facebook como era no tempo colonial, a vida num bairro muito próximo do Bairro da Facada. Que leiam com atenção aqueles que vêem a História a preto e branco, dividem os indivíduos em bons e maus, e vivem na busca eterna de "bodes expiatórios" para todos os males: A vida nunca foi, e continua a não ser fácil, mas a todos os que querem aprender ela vai ensinando...
 


MariaNJardim (ass)
 
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"...DO BAIRRO DA GLÓRIA PARA O MUNDO !
 
 
"Lá longe, no Bairro da Glória, onde nasceu muita Gente, a Amizade eternizou-se e ninguém a conseguiu “matar”; Lá longe, onde os tamarineiros cresceram e se tornaram gigantes, guardando e acumulando histórias dos “escondidos” visitantes; Lá longe, onde o areal era preenchido pelos campos de futebol improvisados; Lá longe, onde na escola os professores usavam a menina dos cinco/sete olhos das quarenta reguadas, para ensinarem a ser Homens e Mulheres os meninos e meninas mal (e até os bem) comportados; Lá longe, perto dos Cabindas, da Soful e da Facada … Do Bairro da Glória para o Mundo!!!
Lá longe … onde o sol castiga mais, nasceu também o Guto!
Ali éramos todos irmãos; Ali reinávamos; Ali brincávamos; Ali Vivemos…
Ali aprendemos a crescer e a encarar com o crescimento que há assuntos sérios que a vida nos coloca; que há momentos difíceis a ultrapassar, a chorar ou de sorriso nos lábios mas que nos podem fragilizar.
Há sempre qualquer coisa que nos “toca”!
A vida nunca foi, e continua a não ser fácil, mas a todos os que querem aprender vai ensinando.
Desapareceste quando já não estávamos na Glória, e durante anos estiveste pela Europa, como outros pela América, Ásia e Oceânia e eu continuando por lá. Vim, como muitos outros para este rectângulo plantado à beira mar que me acolheu, e como sabes, perguntei por ti. Curiosamente, anos depois, vens tu viver para o mesmo “quimbo” e inevitavelmente um dia voltamo-nos a cruzar e a abraçar.
Destino?! Que seja, mas até parecia que tínhamos regressado aos velhos tempos do Bairro Maria da Glória!
Os Amigos, não são só amigos, são incondicionalmente Amigos e estão no nosso passado, no presente e no porvir, eternamente connosco.
Temos que ser fortes mas sensíveis, como os bons Amigos; ter coração, compreensão, e por vezes até compaixão; dando um pouco de nós na distribuição da Vida, na ajuda e no “ouvir” que necessita a Amizade, com um simples Obrigado.
Como alguém um dia ainda adolescente me fez ver, hoje há palavras que pouco se ouvem, mas fazem maravilhas e são tão fáceis de pronunciar – Amo-te; Desculpa; Ajuda-me.
Aqui somos todos felizes, mas onde está aquele sorriso que diz tudo; aquele Oi dos outros tempos; aquele abraço forte que me agrada e anima e que agora te volto a dar por momentos, MEU AMIGO GUTO?!
Escrevo aqui para ti só porque entendi e sei que me vais entender, sabendo quem sou.
Decerto neste dia em que celebravas o teu aniversário, outros se lembrarão de ti agora, porque todos nós teus amigos que bem te conhecemos e contigo privamos somos iguais, com os problemas e preocupações com a saúde, trabalho, vida … existência.
Meu Amigo, já não estás cá mas estou contigo … e, para além de tudo o resto e bem mais importante, sei que tens Deus contigo!
Até um dia!
Só AQUELE ABRAÇÃO do Bairro da Glória"  Fim de citação,




sexta-feira, 9 de outubro de 2020

"BAÍA DAS PIPAS" E A ORIGEM DO NOME

A denominação «Baía das Pipas»,  a norte da cidade de Moçâmedes, e a sul de Banguela, zona pesqueira no tempo colonial desde a chegada do portugueses de Pernambuco, Brasil, 1849, ficou a dever-se a um incidente ocorrido no ano de 1842, que levou a Estação Naval Portuguesa que por esse tempo patrulhava a costa de Angola, a mandar queimar grande número de pipas que ali se encontravam armazenadas. 

Esta queima era à época perfeitamente justificável, de acordo com as disposições das leis do Decreto de 10 de Dezembro de 1836, de Sá da Bandeira (1), o grande politico do século XIX português, paladino da abolição do tráfico de escravos que durante 3 séculos correu na direcção do Brasil, a partir dos portos de Luanda e de Benguela. Aquela quantidade de pipas ou barris encontradas na baía então desértica não cumpria, por parte de um capitão de um qualquer navio, determinadas formalidades, ou seja, era maior do que a quantidade necessária para consumo da equipagem de um navio mercante, pelo que deveria considerar-se achado com indícios de tráfico clandestino de ecravos.   

O vazio de poder nas colónias, desde o inicio do sec xix era enorme neste século XIX português  atribulado , varrrido pelas invasões francesas (1908-11), que levaram à fuga do Rei e da Côrte para o Brasil,  à revolução de 1820,  â queda do absolutismo monárquico e  ao triunfo do liberalismo (1834), após 14 anos de guerra civil entre liberais e abolutistas, seguidos de lutas fraticidas entre faccões no seio do liberalismo triunfante, que se arrastaram até 1851, deixando o país arrasado, sem agricultura,  sem industria, afundado numa crise comercial , e sem paz para legislar.

Durante as décadas que  vieram a seguir ao decreto de 12 de Dezembro de 1836, até  à abolição definitiva em 1869,  o tráfico clandestino envolveu comerciantes e elementos da burguesia  angolana,  de Luanda e de Benguela, que puderam contar com colaboração ou a tolerância de alguns Governadores Gerais, A luta contra o tráfico foi iniciada no "reinado" do  Governador Geral de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha (1845 e 1848), e foi a partir de então que este estado de coisas começou  a mudar, ainda que na sua vigência os traficantes continuassem a subornar funcionários ou a encontrar pontos de embarque menos vigiados. 

Teria sido esse o contexto em que foram encontradas as pipas armazenadas na "Baía das Pipas", 7 anos antes da chegada dos colonos fundadores a Moçâmedes , oriundos de Pernambuco, Brasil,  em 04 de Agosto de 1849, para dar inicio ao povoamento branco da  velha Angra do Negro. Não foi um acto conclusivo, contudo importa não deixar escapar que no ano de 1860, quando haviam decorrido 11 anos após  o início da colonização, teve lugar no Carumjamba, a norte de Moçâmedes, um acto de tráfico ilícito que gerou grande alvoroço entre a população da recem formada povoação , essenciamente entre os produtores da Urzela espalhados pelo distrito, e que redundou num "Manifesto dos colonos fundadores de Moçâmedes sobre tráfico ilegal de escravos".  

A  urzela, musgo com aplicação tintorial , era então muito procurada pelas industrias têxteis da Europa, pelo que  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas  que debandavam das plantações , mão de obra essa  que necessitavam para manter activa  a exploração.

Esta era uma fase de transição para um novo paradigma com a fixação de colonos e o desenvolimento e progresso de Angola, que  veio  deitar por terra o esclavagismo. Fase em os escravos eram libertados de navio apresados, e na condição de  semi-libertos, se obrigavam a trabalhar durante 10 anos para o avanço da economia de Angola, findos os quais ganhariam a sua alforria.

Neste contexto, em finais dos anos 50, toda e qualquer suspeita de tráfico ilícito constituía um factor desestabilizador . Sabia-se que o tráfico ilegal vigorava ainda na região do Congo (Angola). Havia notícia de que os embarques que antes eram legalmente efectuados a partir dos portos de Luanda e de Benguela, desde 1836 tinham passado a fazer-se através de praias e pequenas enseadas desérticas, entre o Ambriz e o rio Zaire, através de traficantes que operavam na clandestinidade. Contudo fazê-lo no sul de Angola, numa zona desértica, onde era escassa a população indígena, era uma verdadeira anomalia.  

Ora o que se passou então foi que moradores e donos das feitorias dos vários produtores de urzela (1) da região de Moçâmedes reclamavam, indignados,  num manifesto endereçado ao Governador de Benguela,  os prejuízos gerados pela tentativa de tráfico ilegal de escravos, levada a cabo por um tal Manuel José Correa, no sítio do Carumjaba, onde possuia a sua propriedade dedicada à exploração daquele musgo tintorial bastante procurado pelas industrias têxteis da Europa, e recebera um barco espanhol por ele convidado para embarcar  acima de duzentos escravos para Havana,  valendo-se da posição isolada e da ausência de patrulhas de cruzeiros anti-tráfico naquelas paragens, tendo como resultado que os serviçais das vizinhas feitorias que assistiram ao embarque, debandaram para as suas terras,  tendo  da propriedade do agricultor da urzela em S. Nicolau, Narciso Francisco de Sousa  fugido de uma só vez, mais de 30 escravos, e da de Ladislau  A. Magyar,  na Lucira, fugido 7 . Visto pelos escravos de outras feitorias que temiam pelo retorno do tráfico ilegal, o embarque ilegal perpretado por Correa teve sérias consequências, porque não apenas levou a várias fugas das feitorias, o que mais afligia os produtores da urzela: perder a mão de obra que garantia a colecta da urzela. Tinha-se uma preocupação maior com os efeitos indirectos a partir das embarques ilegais na região: as fugas dos escravos.

Os  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas de que necessitavam para manter activa  a exploração.Um  caso considerado insólito o da manifestação formal de produtores de Moçâmedes contra o tráfico ilegal, impensável dez ou vinte anos antes, quando o tráfico era legal. Aconteceu quando já há muito os navios patrulha ingleses e  portugueses vigiavam a costa em busca de eventuais prevaricadores.  Por esta altura a economia de Angola já transitara  do comércio lícito de escravos para o ilícito, e procurava enveredar para o trabalho livre, pelo que a presença de  um  navio negreiro espanhol, que fazia o tráfico ilegal para Cuba, nas águas próximas de Moçâmedes,   atemorizava tanto os serviçais como os proprietários.

Manuel José Correa não revelava nenhum tipo de organização estruturada, ele actuava sozinho e não em rede comoos traficantes que actuavam a partir do rio Zaire. Possuia uma  propriedade no distrito de Moçâmedes. O seu caso foi isolado mas ja em plena fase de tráfico ilegal. Não tinha barracões de escravos, nem agentes espalhados pelo sul de Angola. Talvez antes de retomar o tráfico ilegal  ele se dedicasse à colecta da urzela, era um dos produtores da região, tal como outros que se se indignaram diante do embarque de mais de 200 escravos, em Setembro de 1859.

(Ass) MariaNJardim 

 

 

(1) Foi  em 1836 que, aproveitando a subida do Partido Progressista ao poder, o General Sá da Bandeira decretou a abolição do tráfico de escravos, mas a falta de condições para pôr a lei da abolição a funcionar levou a que os embarques passassem a fazer-se, na clandestinidade, desviando-se  para praias desérticas a  norte e a sul dos portos tradicionais de Luanda e Benguela.  

(2)Urzela é um liquen que medra nas rochas à beira mar., do qual se obtém uma tinta azul arroxeada  de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação,  um musgo com aplicação tintorial muito procurado pelas industrias têxteis da Europa, pelo que  vários produtores de urzela do distrito de Moçâmedes mostravam a sua indignação ao sentirem-se grandemente prejudicados com a perda da mão de obra de serviçais indígenas de que necessitavam para manter activa  a exploração. Seria o caso dos proprietários das feitorias destinadas exclusivamente à colheita da urzela em Moçâmedes.
                                                                     

Ver tb: http://mocamedesregistosefactos.blogspot.com/2011/07/mocamedes-registos-e-factos-manifesto.html