...Estes actos, que às pessoas mais sensiveis poderão parecer
cruéis e desumanos, impunham-se, todavia, como indispensáveis, como se
impunham as correrias para apreender gado e destruir as lavras,
complemento da acção armada que procurava assim dominar o espírito dos
povos, onde não havia populações inofensivas, uma vez que as próprias
mulheres não hesitavam em colaborar numa chacina, quando na luta se
chegava ao corpo a corpo.
Extinto o sobado, foi montado um posto próximo ao vau de Handjabero, num local com óptimas condições naturais:
- para a colonização
- para base de ocupação na região entre o Cunene e o Cubango
- e dominio no caminho usual das incursões Cuanhamas.
A coluna retirou para o Humbe onde a levava a realização dum outro dos seus objectivos: as correrias a fazer nos dois Cuamatos.
...Estes actos, que às pessoas mais sensiveis poderão parecer cruéis e
desumanos, impunham-se, todavia, como indispensáveis, como se impunham
as correrias para apreender gado e destruir as lavras, complemento da
acção armada que procurava assim dominar o espírito dos povos, onde não
havia populações inofensivas, uma vez que as próprias mulheres não
hesitavam em colaborar numa chacina, quando na luta se chegava ao corpo a
corpo.
Extinto o sobado, foi montado um posto próximo ao vau de Handjabero, num local com óptimas condições naturais:
- para a colonização
- para base de ocupação na região entre o Cunene e o Cubango
- e dominio no caminho usual das incursões Cuanhamas.
A coluna retirou para o Humbe onde a levava a realização dum outro dos seus objectivos: as correrias a fazer nos dois Cuamatos.
Uma vez no Humbe e concentrados os boers, que não eram então mais de 55,
acompanhados de uma centena de indígenas, e os restantes auxiliares
portugueses e indígenas - muximbas, mundimbas e muhumbes -, num total de
800 homens, resolveu Roçadas, de acordo com os chefes boers e
portugueses, realizar, de surpresa, uma série de correrias nos dois
Cuamatos, passando para esse fim os boers o Cunene, no vau de Pembe,
onde passara a coluna do Governador Aguiar, e os auxiliares portugueses
pelas bandas da Donguena, ao mesmo tempo que a coluna se deslocaria para
local apropriado, como demonstração de força, procurando atrair a
atenção do inimigo e favorecer a acção dos auxiliares.
Essas incursões efectuaram-se durante quatro dias, tendo os auxiliares
travado tiroteio com os Cuamatos , apreendido algum gado e feito alguns
prisioneiros, concluindo-se delas que aqueles povos estavam na incerteza
do que sucederia, e por isso se tinham concentrado na embala, não tendo
auxiliares estranhos.
Ao mesmo tempo que se realizava esta acção militar, ia-se negociando e
exercendo uma acção diplomática, para o que fôra o capitão Marques,
chefe do Estado Maior, do Mulondo ao Evale agradecer ao soba Cavanguelua
o auxilio em gente que prestara, levando-lhe um valioso presente e
procurando obter o seu consentimento para a construção de um pôsto
militar nos seus domínios.
O soba levantou dificuldades a tal desígnio, sem abertamente se opôr,
insistindo pelo estabelecimento, ali, de uma missão católica, e tomou
tal atitude que levou o capitão Marques a retirar-se sem dele se
despedir, o qual mandou logo a seguir ao Humbe uma embaixada, de onde
nada resultou de definitivo a tal respito.
Com o soba Caprenda da Donguena é que se acordou na construção de um pôsto, o que significava a ocupação pacífica.
Faltava realizar o último objectivo das operações que era resolver a questão do sobado dos Gambos...
...Uma vez que Cander, antigo cabo, pretendente ao sobado, não se
apresentara, para o que fôra convidado, era necessário desfazer os focos
de revolta e desobediência que este povo alimentava.
Com esse intuito, como o indigena aqui, aproveitando a topografia do
terreno, evitava o combate peito a peito e se organizava em guerrilhas,
que operavam por detrás das fragas inacessíveis ou dentro das brenhas
impenetráveis, destacaram-se duas colunas compostas de boers e
auxiliares indígenas, que foram apoiadas por um núcleo de tropas
regulares pronto a cooperar onde houvesse resistência séria.
As duas colunas seguiram, respectivamente, pela margem direita e
esquerda do Cacoluvar para bater os adeptos de Cander e aqueles que
tivessem responsabilidades a saldar com as autoridades. A resistência
dos indígenas foi quase nula, e como as chuvas se tornassem violentas,
alagando os terrenos e transformando-os em lamaçais intransitáveis,
deram-se por findas as operações, ainda que o Cander e seu irmão
Monguela não tivessem sido capturados, como se impunha.
No regresso das forças, a atitude dos indígenas nas regiões atravessadas
era já outra. Ele que, na passagem para o Sul, na Quihita, região
anterior à dos Gambos, respondera aus auxiliares, que lhe perguntavam
porque não atacavam as tropas: « na volta », ao passo que os Cuamatos
mandavam dizer aos do Humbe: « digam ao branco que é melhor vir deixar
as suas espingardas à nossa terra do que à do Mulondo», depois da tomada
desta embala, onde se concentrara para a sua defesa todo um povo, sendo
assaltada à baioneta decorridas duas horas de fogo, infligindo-lhes
numerosas baixas e fazendo-lhe grande número de prisioneiros, já
apregoava por toda a parte este feito dizendo que o branco era doido,
pois mesmo contra o fogo inimigo corria para a embala e arrancava à mão a
palissada.
Tendo o Governo Central resolvido, em Março de 1906, não enviar a
expedição que se estava organizando e para a qual se preparava a extensa
linha de etapas que ia de Moçâmedes pela Chibia ao Humbe, onde havia já
depósitos de víveres, forragens e material, o Governador Roçadas
delineou sem demora as bases do inicio da ocupação além Cunene,
aproveitando tudo o que estava já acumulado pela direcção de Serviço de
Etapas daquela expedição.
Procedia, assim, em concordância com a nova orientação do Governo
Metropolitano de ocupar gradual e sucessivamente o território do Ovampo e
firmar o prestigio perante os indígenas, ao mesmo tempo que se tentava
dar uma satisfação à opinião pública alarmada pelo desastre de 1904.
Como inicio dessa ocupação progressiva e metódica, uma operação acima de todas se impunha:
- Passar à margem esquerda do Cunene e nela constituir um pôsto
fortificado que servisse de sólida base de futuras operações a realizar e
garantisse a passagem do rio, servindo de ponto de apoio à coluna que
tivesse que transpôr esse rio e de ocupar a sua margem esquerda,
construindo-se prèviamente uma ligeira obra de defesa entre o Humbe e o
mesmo rio, na direcção do vau de Mucondo, obra que serviria, também, de
sentinela avançada a fim de impedir por ali as incursões dos Cuamatos
...
...Com tal objectivo, pois, organizou-se uma coluna de tropas,
que estava no fim de Agosto concentrada no Humbe, composta de 51
oficiais, 717 praças europeias, 490 praças indígenas, com 125 animais,
mais de 1000 auxiliares, 6 canhões, 3 metralhadoras e 20 carros boers,
coluna comandada pelo Governador Roçadas, que tinha como chefe do Estado
Maior o capitão João de Almeida, mais tarde General que, como
Governador do distrito, executou uma notável obra de fronteira,
balisando com postos militares os limites do Sul da Provincia.
Depois dos reconhecimentos para escolha do local mais apropriado à
passagem do Cunene, procurando desnortear o inimigo a este respeito, a
coluna transpô-lo a 29 de Agosto e foi bivacar no alto do Encombe, já em
terras do Cuamato, iniciando imediatamente ali a construção do forte,
que foi baptizado com o nome do valoroso comandante, e que nos
princípios de Outubro estava concluido, com todas as suas defesas e
instalações.
Asseguradas as comunicações com a margem direita por meio de uma ponte
sôbre cavaletes, que foi lançada, com 140 metros de comprimento, a
coluna retirou para o Humbe deixando no forte uma guarnição suficiente
para parar o ataque dos indígenas, que, reconhecendo a sua importância
militar e a ameaça que para ele representava, não o hesitou em atacar
por duas vezes, tão depressa as chuvas chegaram e o rio encheu.
A bravura reconhecida de Roçadas e o desejo de liquidar uma situação
penosa e desprestigiante para o brio português não deixariam de
impulsioná-lo a levar mais longe essas operações, investindo com o
Cuamato. As suas responsabilidades, porém, de chefe, que não arriscava
só o seu bom nome e a vida, o que para ele seria de pouca importância,
mas, também, as dos seus subordinados e o prestigio da Nação, tão
abalado pelo desastre anterior, levá-lo-iam a sufocar e a dominar esses
heróicos impulsos e a não tomar iniciativas que não podia medir até onde
o levariam e não estavam previstas.
Não deixou, contudo, de aproveitar as forças no regresso,ao passar nos
Gambos, para castigar o seculo do Pocolo, tomando-lhe e destruindo-lhe a
quimpaca, o qual estava rebelde e dava asilo ao antigo soba dos Gambos
batido no ano anterior, e, subsquentemente, invadido as terras da
Mucuma, Jau e Batabata, cujos povos andavam há muito insubmissos e davam
guarida a quadrilhas de verdadeiros bandidos.
Simultâneamente, a par com esta acção militar, continuava-se a conjugar a
acção política. As negociações entabuladas no ano anterior pelo capitão
Eduardo Marques com o soba Cavenguela do Evale prosseguiam, muito
embora este tão depressa afirmasse ser escravo do Muene Puto ( Rei de
Portugal ), pois tinha, como dizia, bandeira portuguesa na embala, e que
aceitava um posto nas suas terras, como recorresse a evasivas dizendo
que o seu povo não estava educado para receber este pôsto. Variavam
estas atitudes com a situação mais ou menos próxima, e por conseguinte
de maior ou menor ameaça para ele, das tropas de Roçadas.
Com o soba Nande do Cuanhama, que tinha enviado um dos seus lengas como
embaixador, igualmente se negociava com o fim de minar a chamada liga do
Ovampo - a união que em caso de perigo entre estes povos se estabelece
não obstante as divergências que normalmente os separa e afastam - em
obediência, como escreveu Roçadas, ao velho princípio de dividir o
inimigo para o atacar em separado.
As negociações com o Nande deram origem à ida ao Cuanhama da missão
composta pelos tenente coronel Luna de Carvalho, pelo capitão João de
Almeida e pelo tenente Albano de Melo, que lhe levou de presente um
cavalo aparelhado, uma caixa de cerveja e outra de conhaque e para um
irmão, seu conselheiro, uma carabina, missão que conseguiu levar o soba a
permitir nas suas terras a construção de um posto militar devidamente
guarnecido e a afirmar que não auxiliaria os Cuamatos e os Evales e que
até atacaria aqueles em ocasião oportuna.
Todas estas negociações levaram Roçadas, que não confiava muito nas
promessas feitas, a concluir que se poderia esperar a abstenção do Evale
na luta contra os Cuamatos, dado o afastamento das respectivas terras, a
sua relativamente diminuta população, o receio da investida dos
Cuanhamas, a espectativa em que este povo tinha estado perante a luta
travada há anos e, finalmente, pela boa política que se seguiu.
No que respeitava ao Cuanhama, afirmava poder contar-se com a sua
neutralidade oficial, se se procurasse manter as relacções que existiam.
Encarregado o capitão Roçadas, pelo então Governador Geral Eduardo da
Costa, de elaborar um projecto de operações militares além Cunene,
contando, porém, só com elementos da Provincia, em conformidade com as
instruções do Governo Central, procedeu Roçadas em poucos dias a esse
trabalho, em que encarou todos os aspectos que esclareciam e
justificavam as soluções propostas.
Mereceu ele a concordância do Governo Geral mas, como Roçadas julgasse
indispensável, para o bom êxito das operações, a organização de uma
coluna em que não entrassem só elementos de Angola, pois considerava
necessário o concurso de tropas do exército do reino, colaboração que ia
para além das instruções de Lisboa, foi resolvido vir o próprio Roçadas
aqui justificar e defender, perante o Ministro da Marinha e Ultramar, o
seu projecto.
Assim fêz. E numa conferência que teve com o Presidente do Conselho e os
Ministros da Fazenda e da Marinha, foi ele aprovado sem restrições.
À metrópole apenas se pediam uma companhia de guerra de infantaria,
outra de marinheiros e o pessoal competente para o manejo das armas de
tiro rápido do sistema Erhardt. E - pormenor que se deve pôr em relevo -
não obstante a rudeza da luta que se previa ir travar-se com um inimigo
numeroso, bem armado e de manifestas qualidades guerreiras, que tinha
infligido às armas Portuguesas a derrota de 1904, bem viva ainda na
memória de todos, foi com voluntários, oficiais e praças, que essas
medidas se constituiram e esse pessoal se completou, tendo o número de
voluntários excedido em muito o número necessário.
Ao passo que nas guerras europeias a estratégia impunha, como objectivo
principal, o exército inimigo, que era necessário aniquilar, de
preferência à conquista e ocupação da sua capital política, não obstante
este facto ser apenas de grande efeito moral mas não de consequências
decisivas, - e, em obediência a esse princípio, os alemães, em 1914,
deixando Paris no seu flanco direito, perseguiram até o Marne o exército
francês, que aí lhes resistiu e impôs a retirada - nas guerras
angolanas, em geral, como nesta campanha e como já se disse, o objectivo
principal será a tomada da libata do respectivo soba, que os seus
subditos tenazmente defenderão e a qual, quando realizada, provocará a
fuga daquele e com ela o seu subsequente desprestigio, que irá até à
perda dos direitos ao poder.
É que ali, também, era completa a impossibilidade, por falta de
informações e de indícios de qualquer ordem acerca do inimigo, de saber
onde ele se encontra concentrado, e essa concentração era, ainda, pouca
duradoura dada a mobilidade que os indígenas usufruiam, dispersando e
reunindo com a máxima facilidade, sem impedimentos de qualquer ordem.
Estas tribos do Ovampo passavam por ser tribos guerreiras e sem dúvida
que o eram, dispondo de muitas armas aperfeiçoadas, as tais armas finas -
Martinis e Mausers - entradas por contrabando, desde que tinham posto
de parte a velha arma de pederneira em cujo canos as palavras: Lazaro -
Lazarino - legítimo de Braga, , afirmando a influência portuguesa, foram
lidas por stanley nos confins do Zaire, em pleno país de antropófagos,
que em altos gritos clamavam pela sua carne, antegozando o prazer de a
devorar...
...No entanto, ainda que a sua bravura - já por Artur de Paiva era
afirmado - não se iguale àquela dos povos zulus que tanto que fazer
deram aos ingleses, e de que são próximos parentes os vátuas, batidos
pelos portugueses na gloriosa campanha de 1895, em Moçambique, faziam a
pior guerra possivel.
Assim, se o vátua ou landim vatualizado, marchando no seu característico
passo saltado, desenvolvia as suas mangas ou impis à vista do pequeno
quadrado dos europeus, procurando envolvê-lo, e, depois de mais ou menos
curta preparação pelo fogo das suas armas aperfeiçoadas, se atirava ao
ataque à azagaia, procurando o corpo a corpo , que conseguido era para o
quadrado o destroço e a chacina inevitáveis, estes guerreiros
banacutubas , aproveitando as condições do terreno coberto,
embuscavam-se na floresta, abrigados pelos morros de salalé ou atrás das
árvores ou nelas empoleirados, de onde faziam fogo demorado e violento
sobre os invasores, muito certeiro quando estes eram mais visiveis nas
clareiras - nas chanas -, procurando envolvê-los por todos os lados. Só
quando percebiam que a intensidade do seu tiro diminuia por esgotamento
de munições é que iniciavam a retirada, as cuas, concentradas à
retaguarda dos atiradores, arremetiam contra aqueles, desordenando-os,
como aludes a que não era possível resistir, quaisquer que sejam os
heroísmos que se pratiquem para «morrer devagar» como em Alcacer-Quibir.
«Então, escreve Roçadas, os instintos ferozes do gentio selvagem
desencadeiam-se livremente, a sêde de rapina devora a todos, os chefes
já não têm acção sobre os seus guerreiros. Durante longas horas
desenrola-se a terrível hecatombe; o comboio é assaltado, as munições e
armas apreendidas, os feridos acabados de matar; os mortos despojados de
tudo; os solípedes, que vagueiam desorientados, são apanhados e, em
breve, a noite vem cobrir com o seu manto de estrêlas o local do
desastre, coalhado de cadáveres nus. O campo da luta pode bem chamar-se
«o campo do silêncio», interrompido apenas pelos batuques desenfreados
da primeira noite de orgia».
Assim foi, como se viu, em 1904.
As operações militares em África eram também antecedidas da concentração
das tropas, que em toda a parte exigia ser bem estudada e executada.
Mas ali mais imperiosa se tornava essa exigência, cheia como era de
dificuldades, preocupando o comando, tendo de se fazer o percurso a pé
pelas estradas ou caminhos através de regiões que coisa alguma
facilitavam e forneciam e até a própria água para matar a sêde
regateavam ou negavam.
Nestas condições, o combate era bem preferível a estas operações
preliminares de concentração e marcha de aproximação, pois perante ele
todos os desânimos melhoravam, não sentindo as febres que os minavam ou
os males que os acabrunhavam, e os desmoralizados reanimavam-se tão
depressa se trocavam os primeiros tiros...
...Neste caso, a concentração era cheia de grandes
dificuldades, não só na zona do interior, de Moçâmedes até à Chela, onde
durante 73 quilómetros as tropas puderiam aproveitar o combóio de via
reduzida, cuja construção se tinha apressado e não existiam recursos de
qualquer espécie, nem mesmo água, como o era, também, na chamada zona da
retaguarda, através do planalto até o Cunene, na extensão de 286
quilómetros.
Todas estas importantes operações foram estudadas em todos os seus
pormenores pelo Estado Maior da coluna chefiada pelo capitão Eduardo
Marques, prestimoso e inteligente oficial a quem Roçadas não negou
justos louvores e que, por sua vez, eficasmente foi auxiliado pelo
sub-chefe, tenente Jorge Mascarenhas.
Assim, os locais de bivaque ou dos grandes altos foram prèviamente
designados e neles estavam garantidos os abastecimentos de víveres a
consumir imediatamente ou a transportar, como estava garantida a água
para ali ser utilizada e para ser levada pelos próprios soldados, quando
ela não existia nas etapas imediatas a percorrer.
Na base, na testa e nos postos principais da linha de etapas não faltava
o necessário: enfermarias, fornos, padarias, depósitos de material e de
fardamentos, tudo se tinha cuidadosamente instalado.
Executou-se, assim, esta extensa marcha com a maior regularidade,
seguindo as unidades a pé, pois apenas foi transportada em carros boers
uma companhia de europeus, que entrara nas operações do ano anterior e
que viera para o Lubango restaurar as forças depauperadas pelo longo
serviço de guarnição no Forte Roçadas, onde tinha sofrido não só as
investidas dos indígenas, obrigando-a a um contínuo alerta, mas ainda as
rudes inclemências do clima.
Separada por uma grande ravina do Forte Roçadas, construído, como se
viu, pela coluna de operações de 1906, existia para jusante uma
elevação, que era designada por morro fronteiro, coroada por uma
esplanada, onde se fez na melhor ordem a concentração da coluna que ia
operar contra as poderosas tribos cuamatas e seus aliados.
Compunha-se a coluna de:
- Um pelotão de Sapadores
- Duas baterias de artilharia
- Dois esquadrões de cavalaria
- Cinco companhias de infantaria europeia, das quais:
- uma de marinha
- uma de infantaria nº 12
- outras duas organizadas em Angola
- Quatro companhias de infantaria indígena, sendo uma de landins
- Serviços e formações
Totalizavam um efectivo de :
- 87 oficiais
- 1306 praças europeias
- 906 praças indígenas
- 317 animais
- 10 canhões
- 4 metralhadoras
- auxiliares brancos e negros, carros e gado correspondente.
A ela foi passada revista pelo Governador Geral de Angola, capitão de
artilharia Henrique de Paiva Couceiro, que em marchas forçadas, em 8 ou 9
dias, percorrera a distância que ia de Moçâmedes ao Humbe, depois da
qual saudou as tropas afirmando-lhes a certeza em que estava de que mais
uma vez os soldados e marinheiros portugueses honrariam a nobre e
gloriosa herança do passado e obteriam, com a ajuda de Deus, um êxito
completo sobre as tribos rebeldes, coroando os louros e levantando bem
alto a bandeira da Pátria...
...O nome de Deus acodiu, assim, aos lábios do Governador Geral na sua
alocução, mas a Sua protecção teria sido já, certamente, implorada pelos
combatentes, instigados pelo sentimento religioso existente na alma
popular, que já levara os bravos marinheiros do 1º tenente Victor
Sepúlveda a aceitarem alvoraçadamente os escapulários que ele lhes tinha
distribuido, enviados para esse fim por uma nobre e ilustre dama - a
Rainha Senhora D. Amélia - crente sincera, piedosa e convicta de que
mais uma vez o patriotismo e a fé religiosa se enlaçariam inspirando os
grandes feitos, como sempre, pela história passada, tinham andado
enlaçados, quando se « buscavam almas para Cristo e terras novas para o
Reino »,
Depois de...
- Se ter restaurado a ponte do Cunene, que as grandes cheias tinham
danificado, passando a ser em parte flutuante e apoiada junto dos
junções por dois lances fixos de cavaletes
- De se ter aberto caminho na extensão de três quilómetros através da
mata de espinheiros, cerrada e densa, que orlava o rio na margem
esquerda
- De um esquadrão de cavalaria e a companhia de marinha, cada uma destas
unidades na sua margem, terem feito um reconhecimento em que o inimigo
logo foi descoberto, na madrugada de 26 de Agosto
...as forças iniciaram a marcha ofensiva em dupla coluna - dispositivo
já clássico das campanhas coloniais com tropas regulares e formação
flexivel de onde fàcilmente se passava para o quadrado a adoptar no
estacionamento e no combate - levando ao centro o trem de combate e o
combóio.
Eram seus objectivos:
- Tomar a embala do soba do Cuamato Pequeno
- Invadir, depois o Cuamato Grande
- Ocupar toda a região com postos militares.
Esta tribo, parece que, por dissidências antigas, às quais não era
alheia a sucessão do sobado, tinha-se dividido em duas fracções
distintas, designadas e mais numerosas, mas talvez menos aguerridas e
pior armadas, por Cuamato Grande, governada por um soba, e a outra com
menos gente, mas mais atrevida, por Cuamato Pequeno, igualmente com o
seu soba privativo.
Foi pois o Cuamato Pequeno que primeiro se invadiu, seguindo-se o
Cuamato Grande , e para isso se fez o avanço directo para a embala real,
em concordância com as prévias informações obtidas pelo chefe do Estado
Maior e seguindo a direcção indicada pelo guia Caripaluli, um principe
da familia do soba do Cuamato Grande, que dali tinha fugido,
apresentando-se ao então chefe do concelho do Humbe, tenente coronel
Luna de Carvalho, não sem que antes fôsse assaltado por um bando de
Cuamatas, que queriam impedir-lhe a fuga e o feriram gravemente...
...Foi Caripaluli, inteligente como era, um guia precioso, a quem
Roçadas ofereceu o sobado se bem cumprisse a missão de que se imcumbira.
A marcha do dia 26 decorreu sem incidentes de maior, não sendo
perturbada pelos indígenas, que se limitaram a ameaçar de noite, lá de
longe, lançando o seu clássico desafio e dizendo que « se fossem os
brancos embora pois que a terra era deles », quando não, « no dia
seguinte, os esperariam para lhes fazer o mesmo que em 1904.»
Na manhã seguinte retomou-se a marcha em direcção às cacimbas do
Aucongo, e, depois de se ter atravessado uma extensa chana e uma faixa
de mato espesso que a separava de outra chana a seguir - a chana de
Mufilo - quando já nesta se tinha feito alto, o inimigo, que fôra já
descoberto pelos exploradores, iniciou o combate atacando o combóio,
que, protegido denodadamente pela sua escolta, conseguiu entrar em boa
ordem no seu lugar dentro do quadrado, depois de aguentar durante uma
hora toda a sua fúria.
Bem depressa o fogo se generalizou em toda a orla do mato, envolvendo o
quadrado num anel que o pretendia estrangular, a que a infantaria de
todas as faces respondia disciplinadamente por descargas de pelotão,
como num exercício, assim como a artilharia, sob o comando do tenente
desta arma Justiniano Esteves e do tenente almoxarife Gonçalves,
colocada nos ângulos e ao meio das faces, repartindo os seus tiros pelos
objectivos que lhes era possivel precisar.
Uma libata, metida no mato, fronteira ao ângulo da face esquerda com a
da retaguarda, de onde era feito um mortífero e violento fogo de
escarpa, foi um desses objectivos.
O inimigo mantinha-se invisivel, mas o fogo continuava intenso e o
sibilar das balas das armas aperfeiçoadas e os zumbidos dos zagalotes
eram contínuos, e em todas as direcções os projecteis se cruzavam,
começando a ambulância a povoar-se.
O ajudante do Comandante, alferes Veloso de Castro, cai ferido com uma bala no pescoço.
O Comandante da 14ª Companhia Indígena, capitão Sousa Dias, tem o braço
atravessado por uma bala, mas conserva-se à frente da sua unidade.
Ao Comandante da 1ª Companhia Europeia, capitão Domingos Patacho, e ao
da 2ª Companhia, capitão Araújo Junior, foram-lhes os chapéus.
O cavalo do Chefe do Estado Maior, capitão Marques, cai morto com a cabeça atravessada por uma bala.
Roçadas reconheceu que era necessário dar ao quadrado e por isso manda a infantaria sair à carga até o mato.
Primeiro, a face direita comandada pelo capitão Patacho.
A seguir, a face da retaguarda do capitão Lucínio Ribeiro.
Ao mesmo tempo, ordenava a saída da cavalaria, que seguiu a trote
através da mata até dois quilómetros de distância, levando o inimigo à
sua frente.
Sucessivamente, a face esquerda com o capitão Schiapa de Azevedo,
comandante dos valentes disciplinares, e um canhão Canet avançavam
ousadamente, internando-se e varrendo por descargas toda a sua frente,
bem como a companhia de marinha do comando do 1º tenente Victor
Sepúlveda...
...Contava Roçadas: « É mandado, então, sair um pelotão de marinha. É o
3º, do comando do segundo tenente Marta; passo cadenciado, como em
parada, lá vão direitos ao seu destino. Um pelotão não basta; sai outro,
o 1º, e ainda outro, que em acelerado reforçam os anteriores ».
Estes pelotões foram comandados, respectivamente, pelos 2º tenente Teixeira Marinho e pelo 2º tenente Costa Rêgo.
Entretanto, Roçadas, reconhecendo que tinha que acampar ali, manda
construir trincheiras com os sacos préviamente distribuidos aos soldados
e que se encheram de terra. Operação feita por uma das fileiras
enquanto a outra e a artilharia mantinham o fogo contra o inimigo, que
após as cargas de cavalaria e da infantaria tinha regressado, de novo.
Só depois das 13U00 o fogo, que durava com intensidade há mais de três
horas, afrouxou. O inimigo, ainda em alguns pontos resistia, sendo por
isso mandado sair de novo um esquadrão de cavalaria, o de lanceiros,
comandado pelo valente Martins de Lima, que varreu numa carga brilhante
toda a mata da direita, onde os indígenas, furtando-se ao contacto, o
procurava envolver, o que levou os soldados a bradarem:
« Estamos cercados, comandante ! Estamos cercados ! »
Martins de Lima, sem hesitar, gritou-lhes heróicamente:
« Soldados ! O nosso esquadrão quando se vê cercado abre caminho à ponta da lança. Carregar ! »
Esta voz é repetida por todos com entusiasmo e energia sem igual e o
inimigo é repelido, voltando o esquadrão ao quadrado, depois de duas
horas de encarniçada peleja, em boa ordem com os clarins à frente
tocando a marcha de guerra, trazendo os seus feridos.
De todas as faces do quadrado explode uma manifestação de entusiasmo; as
palmas e os vivas expandem-se num delirio de apoteose, saindo os
soldados das trincheiras, agitando os chapéus, esquecidos do inimigo
que, estupefacto, certamente os observava de longe.
Dentro em pouco o fogo de parte a parte limita-se ao de atiradores
isolados, e a noite caíu envolvendo o quadrado em completa escuridão,
que o brilho intenso daquelas novas estrelas que os portugueses, também,
no céu tinham descoberto, como diz oépico, era insuficiente para
iluminar.
O quadrado conservou-se em armas, numa vigilia de incertezas e ameaças, e
o silêncio da noite só foi interrompido por um ou outro tiro disparado
da mata ou pelos gemidos dos feridos, que o Serviço de Saúde
diligentemente socorria, ou, ainda, pelos mugidos dos bois do combóio,
famintos e sequiosos...
...Tal foi o combate de Mufilo, no resumo das suas fases principais, o
combate mais duro desta campanha, no qual as forças de Roçadas tiveram
68 baixas, sendo 13 os mortos, incluindo o veterinário Pereira quando já
tinha carregado à frente do Esquadrão de Lanceiros, e 55 os feridos,
tendo sido batidos os Cuamatos, cheios da força moral pelas victórias
anteriores, e seus aliados Cuambis, Ganguelas, Barantos, Hingas e,
ainda, os Cuanhamas, pois se verificou que o soba Nande, não obstante os
seus anteriores compromissos, mandara alguns dos seus melhores lengas
com 3000 ou 4000 homens bem armados.
Empenharam-se assim na luta contra as diminutas forças portuguesas um
total que se estimou em 20000 homens, dispondo de 6000 espingardas, numa
proporgão de 1 contra 12, sendo tão grandes as suas perdas que os
Cuanhamas se retiraram pouco tempo depois convencidos da sua impotência.
...Tal foi o combate de Mufilo, no resumo das suas fases principais, o
combate mais duro desta campanha, no qual as forças de Roçadas tiveram
68 baixas, sendo 13 os mortos, incluindo o veterinário Pereira quando já
tinha carregado à frente do Esquadrão de Lanceiros, e 55 os feridos,
tendo sido batidos os Cuamatos, cheios da força moral pelas victórias
anteriores, e seus aliados Cuambis, Ganguelas, Barantos, Hingas e,
ainda, os Cuanhamas, pois se verificou que o soba Nande, não obstante os
seus anteriores compromissos, mandara alguns dos seus melhores lengas
com 3000 ou 4000 homens bem armados.
Empenharam-se assim na luta contra as diminutas forças portuguesas um
total que se estimou em 20000 homens, dispondo de 6000 espingardas, numa
proporgão de 1 contra 12, sendo tão grandes as suas perdas que os
Cuanhamas se retiraram pouco tempo depois convencidos da sua impotência.
No dia imediato ao combate, a 28, a coluna, mantendo a formação em
quadrado, avança para as cacimbas de Aucongo, que estavam a pouco mais
de uma hora de marcha e que não tinham, afinal, de princípio água
suficiente para matar a sêde que a todos afligia, sendo necessário
recorrer à água transportada nos carros tanques do combóio.
Aqui, permaneceu até 12 de Setembro, tempo durante o qual executou diversas e algumas perigosas operações.
Logo a 29, à tarde, um forte destacamento, comandado pelo Chefe do
Estado Maior, foi reconhecer uma lagoa próxima e destruir as libatas de
onde tinham feito fogo sobre a cavalaria quando esta ia dar água ao
gado.
Foi duramente atacado pelos indígenas e sofreu algumas baixas, o qual
procurou interpôr-se entre o destacamento e o estacionamento, a que
aquele obstou retirando em perfeita ordem, iluminado fantàsticamente
pelo incêndio que lavrava no mato, ardilosamente lançado.
Enquanto isto se passava, ia-se construindo, sob a direcção do
comandante de sapadores, alferes Jonet, um entrincheiramento com sacos
de terra, que tinha duas das suas faces encostadas à mata. Delas se
limpou o campo de tiro, evitando, assim, um belo alvo no meio da chana
para os indígenas emboscados em redor.
Sendo necessário reabastecer a coluna, consumida como estava a ração de
reserva, e matar a sêde ao gado sequioso, no dia 30 de madrugada
partiram para o Cunene todos os carros do combóio, conduzindo os doentes
e feridos, fortemente escoltados por um destacamento sob o comando do
capitão Francelino Pimentel, que simultâneamente levaria a boa nova da
victória de Mufilo.
Esta operação, arriscada como era, causou as maiores apreensões ao
comando, que justificadamente receava que o inimigo, atacando o combóio,
cortasse as linhas de comunicações. Felizmente tudo correu pelo melhor,
e na manhã de 1 de Setembro viu-se ao longe, na chana de Mufilo, a
poeira levantada pelo combóio de regresso, que, dentro em pouco, entrava
no acampamento, trazendo, também, as melhores noticias acerca do efeito
produzido pela victória alcançada, que provocara o retrocesso dos
Evales quando vinham juntar-se aos seus irmãos de raça...
...No dia 2 de Setembro, sofreu o acampamento uma enérgica investida dos
indígenas, que procuravam levar os seus aliados Cuambis, peritos no
manejo de azagaias, ao assalto, gritando repetidas vezes: « Ta-toé.
tá-toé, cuambi ! », o que quereria dizer: « avança, avança, cuambi ! »
Compreendendo Roçadas que se concentravam nas matas e arimos em volta do
acampamento, resolveu tomar desde logo a ofensiva, avançando com o
quadrado até Macuvi, deixando no pôsto em construção uma Companhia, ao
mesmo tempo que um segundo combóio, também fortemente escoltado e
comandado pelo capitão de cavalaria Montez, marchava a reabastecer-se no
Forte Roçadas, evacuando igualmente os feridos, procurando, assim, com
estes dois movimentos simultâneos, desviar do combóio as atenções do
adversário.
Feitos alguns tiros de canhão contra as libatas em que os indígenas se
apoiavam, a marcha prosseguiu e os sapadores iam-nas incendiando,
protegidos por um pelotão de marinheiros, de atiradores escolhidos,
comandado pelo 2º tenente Marinho, que foi ferido.
Depois disto, iniciou-se a retirada por lanços para o acampamento,
recrudescendo, então, a violência do ataque do inimigo, que procurou,
também, meter-se de permeio entre o pôsto em construção e as fôrças,
ocupando a mata à retaguarda.
A retirada foi assim demorada, e, feita por escalões, foi com dificuldade que se manteve a ligação entre eles.
Neste dificil movimento evidenciaram-se o 1º tenente Sepúlveda com os
seus marinheiros e o capitão Francelino Pimentel com os seus infantes do
12, coadjuvados pelos respectivos subalternos, que, retirando por
lanços curtos, aguentaram com firmeza o violento fogo adverso, apoiados
eficazmente pelas metralhadoras do tenente Silva Pais.
A artilharia, que ia perdendo parte do seu gado, não deixou de
colaborar, batendo os grupos que se denunciavam na orla da mata e
acompanhando em seguida o movimento para a retaguarda.
Roçadas, sempre calmo e sereno, seguia a operação na face mais atacada e
preparava-se para abrir caminho à baioneta se o inimigo conseguisse
aquele seu indicado intento.
Apesar de curta, esta acção, que resultou brilhante e foi sobremaneira
renhida nas suas três horas de fogo, custando a vida a 6 homens e sendo
feridos 30, deu lugar ao abandono pelos indígenas das cercanias de
Aucongo.
No dia 7 voltou o combóio, que vinha estendendo desde o Cunene uma linha
telegráfica, tendo anunciado a sua partida por três foguetões de sinais
lançados no Forte Roçadas, correspondidos por outros três no Aucongo.
Foi este esperado, além da chana de Mufilo, por toda a coluna que para
ali saira a fim de evitar um possivel ataque dos indígenas. Nesse mesmo
dia novo combóio seguiu para o Cunene, comandado pelo capitão de
cavalaria Galvão, que estaria de volta no dia 10...
Completada a construção do pôsto do Aucongo, foi-lhe fixada uma forte
guarnição, que ficou sob o comando do capitão Lucínio Ribeiro, e no dia
11 iniciou-se a marcha para as cacimbas de Tchamuinde, onde a água era
abundante e boa. Os indígenas limitaram-se a alguns tiros isolados e ao
costumado alarido acompanhado do bater de cua
A 13 rompe-se de novo a marcha para ocupar Aluendo, terras de um tio do soba, e seguir depois para Damaquero e suas cacimbas
O avanço fez-se com toda a regularidade, mas debaixo de fogo violento do
adversário que envolvia a coluna sempre escondido na mata ou abrigado
nas libatas, que iam sendo incendiadas pelos sapadores e auxiliares,
fazendo-se altos apenas para responder de pé, disciplinadamente, por
descargas ou para carregar à baioneta, como teve de fazer - e
brilhantemente o fêz - a face direita pela mata dentro, face que era
composta pela Companhia do capitão Patacho e pela de Moçambique do
tenente Soares Severino, que se atiraram à carga impetuosamente,
entoando os landins os seus cantos de guerra, e avançando a coluna
novamente tão depressa lhe era indicado pelos toques da corneta.
Avistadas as de Damaquero, foram elas batidas pela Artilharia Erhardt do
tenente Esteves e dentro em pouco tomadas de assalto pela Marinha e
Infantaria 12, pondo o inimigo em debandada.
Batido o terreno em volta pela Cavalaria e destruídas, ainda, algumas
libatas, que constituiam um ponto de apoio importante, - operação
executada brilhantemente e ràpidamente, como diz Roçadas, pelo 2º
tenente da Armada Teodorico Nunes, heróico pioneiro que, ferido pelo
infortúnio, enterrou a sua mocidade numa lancha que navegou o Cunene e o
Cubango, - a coluna bivacou na forma usual, cobrindo-se com os
entrincheiramentos de sacos cheios de terra e melhorando as cacimbas
próximas.
Esta acção, em que os indígenas fizeram um fogo violento durante quatro
horas, demonstrando uma resistência e um desejo de triunfar que nas
operações subsequentes já se não revelariam, custou à coluna mais 24
baixas, das quais 8 mortos.
Montado um pôsto fortificado, dirigida a sua construção pelo activo
alferes Melo Vieira, foi-lhe dado uma guarnição e entregue ao comando do
capitão de Artilharia Carrilho. Fêz-se, também, novo reabastecimento,
mandando à base um combóio escoltado por um destacamento comandado pelo
1º tenente Sepúlveda, que no regresso trouxe um reforço de 400 indígenas
do Humbe, que, na mira dos despojos, vinham engrossar o contingente de
auxiliares, facto que provava a convicção da derrota dos Cuamatos.
Aqui, em Damaquero, tentou-se parlamentar por intermédio do guia
Caripaluli e do velho sertanejo José Lopes, que bem falava a lingua, que
aconselhavam em altos gritos os indígenas a apresentarem-se, o que
poria termo à guerra, pois o Muene-Puto era generoso e só queria o seu
bem, conselhos a que ele respondia com imprecações seguidas de vivo
tiroteio.
Também aqui, foi aprisionada, cheia de pavor, uma velha, cega e
paralitica, abandonada pelos seus numa libata, que se limitou, quando
interrogada, a isentar os Cuamatos das suas culpas, lançando-as à conta
dos Cuambis...
...Depois de terem, ainda, tentado um ataque ao bivaque, ouvindo-se na
mata gritar: « Ta-toé, ta-toé, cuambi ! », ao mesmo tempo que com os pés
batiam fortemente no chão, ataque que não passou, afinal, de mais uma
demonstração, iniciou-se no dia 20 de manhã a marcha para o Aluendo,
durante a qual a coluna não deixou de ser atacada, mas mais frouxamente.
Estabelecido novo bivaque, o fogo prolongou-se por longas horas,
aproveitando os indígenas, como de costume, para se abrigarem nos morros
de salalé e nas árvores, que eram ali de maior porte, ao qual a coluna
respondeu disciplinadamente, enquanto se construia o entrincheiramento,
mas deixando de o fazer logo que ele começou a dar abrigo, tendo sofrido
ainda 22 baixas, sendo 4 os mortos, dos queis um foi o tenente de
Cavalaria Prats.
No dia seguinte, avançaram para as cacimbas da Inhoca - as cacimbas do
soba Techieta-quela do Cuamato Pequeno -, rodeadas de frondoso arvoredo,
tendo o inimigo durante a marcha feito um fogo intermitente, numa
última e já desmoralizada resistência, e sendo elas tomadas à baioneta
pela Infantaria 12, depois de batidas pela Artilharia Erhardt.
As cacimbas, verdadeiros lagos ensombrados por árvores copadas,
abundantíssimas de água, satisfizeram com largueza às necessidades do
pessoal e do gado e, mais ainda, facilitaram aos soldados a distracção
da pesca à cana, para o que, por extraordinário que seja, iam prevenidos
com linha e anzol, e permitiram, assim, que fôssem saboreados
magníficos bagres , que se destinariam à libata do soba.
Pouco depois, viu-se levantar para as bandas do Sul um espesso e enorme
rolo de fumo, que provocou atenções gerais e vivos comentários,
apurando-se no dia seguinte que era a embala real a arder.
Fogo acidental pela fuga apavorada ou propositado, num rasgo de
desespero mas, em qualquer dos casos, evidenciando por todo esse extenso
sertão do Ovampo a derrota do soba e o seu definitivo desprestigio.
Na manhã do dia 22, a coluna, na ignorância ainda de que o incêndio fôra
na embala, avançou pela extensa chana que a antecedia com as precauções
usuais, até que, em posição conveniente, a Artilharia a bombardeou,
preparando o assalto a Infantaria à baioneta, que se fêz em seguida sem
qualquer resistência.
É que o soba andava já fugido, em busca de asilo seguro, acompanhado por um exíguo número de guerreiros fiéis.
Próximo a ela, bivacaram as forças que, caídas as primeiras e abundantes
chuvas da estação, se viram obrigadas a ocupar e onde foi içada,
solenemente, no dia 28 de Setembro, aniversário dos reis de Portugal, a
Bandeira Nacional, sendo nessa ocasião feita por Roçadas uma alocução às
tropas, em que enaltecia a serenidade, o ardor e a valentia com que,
durante um mês de sucessivos combates, tinham afrontado todas as
inclemências e arrostado com todos os perigos, firmando o domínio
português numa região de povo tão belicoso e vingando o desastre de
1904...
...No mesmo local da embala, começou-se a construção de um forte que se
viria a chamar " D. Luis de Bragança ", em homenagem ao malogrado
Principe Real que, nesse ano, visitara a Provincia de Angola, forte que
seria sede da Autoridade Militar encarregada de firmar a ocupação e que
era do maior efeito político ser ali construido, onde o soba exercera
toda a sua autoridade soberana e ferozmente tirana.
Demorando-se alguns dias aqui, antes de avançar para o Cuamato Grande,
era necessário abater a velha rebeldia deste povo já vencido mas talvez
ainda não convencido do poder do branco, e para tal executaram os
dragões e auxiliares a cavalo correrias em todos os sentidos, procurando
fazer prisioneiros e obter informações, incendiando as libatas, de que
não foi excluida a embala de Mugogo, residência preferida dos sobas, e
destruindo os arimos.
O Esquadrão de Dragões atingiu mesmo a fronteira que separava os dois
Cuamatos, que não ultrapassou e onde os indígenas, em grandes grupos, se
encontrava em atitude de mera defensiva, e com o qual não foi possivel
entrar em conversações.
Simultâneamente, a coluna reabastecia-se, abundantemente, de forma a
permitir a invasão do Cuamato Grande - o chamado Nalueque - onde se
projectava, também, a construção de um posto fortificado.
Sendo necessário comunicar oficialmente os acontecimentos decorridos,
encarregaram-se, voluntàriamente dessa missão, que não deixava de ser
arriscada, o capitão de Cavalaria Montez, o seu ajudante tenente
Lisignan de Azevedo e o alferes José da Costa, que, acompanhados de uma
ordenança e de um auxiliar indígena, todos montados, atravessaram o país
do Cuamato, que se acabara de percorrer numa extensão de 47
quilómetros.
Pelas 20H00 desse mesmo dia os foguetes de sinais, que tanto apavoravam
os indígenas, lançados sucessivamente do Cunene, do Aucongo e de
Damequero, anunciavam a execução do perigoso serviço sem qualquer
hostilidade.
Batido o Cuamato Pequeno, cujo povo era o mais aguerrido e o melhor
armado e por isso foi o principal núcleo de hostilidade desta notável
campanha, Roçadas previu que a resistência do Nalueque fosse mínima ou
talvez nula.
Os efeitos morais dos reveses sofridos no renhido e cruel combate de
Mufilo - uma verdadeira batalha - e nos combates subsequentes deviam ter
sido grandes e abalado o ânimo dos indígenas de forma a não puder
sustentar a luta tenaz até aí travada, quando tinha sido já abandonado
pelos seus aliados.
Nesta ordem de ideias, em 4 de Outubro, iniciou-se a marcha, em
quadrado, da coluna já reduzida, pelas baixas e pelas guarnições
deixadas nos postos à retaguarda, a 1284 homens de tropa.
Seguiu ela, as primeiras horas, através de terrenos de arimos sem ser
atacada, até que, ao atingir a linha divisória dos dois sobados, se
avistaram grupos de indígenas em atitude que parecia pacífica.
Mas, dentro em pouco, soava o primeiro tiro do inimigo abrindo as hostilidades e o fogo de parte a parte generalizou-se...
.
O adversário, que não era numeroso mas que fazia fogo certeiro e se
desenvolvia em semi-circunferência, utilizando hàbilmente o mato denso
que cobria o terreno para se aproximar ousadamente do quadrado a
distâncias eficazes, ia, no entanto, sendo impelido pela coluna, que só
se deteve para responder aos seus ataques.
Quando, pelas 10H00 da manhã, se atingiu um matagal espesso já próximo
da embala, onde se esperava que a luta se intensificasse, os indígenas
cessaram o fogo e desapareceram.
A coluna fez alto, retomando a marcha depois da Artilharia bombardear o recinto da embala, procurando fazer uma brecha.
Estacou de novo e preparou-se para o assalto, fazendo cerrar o combóio
sobre a frente que ficava escoltada pela face da retaguarda, enquanto as
duas faces laterais faziam, nos flancos da face da vanguarda, colchetes
ofensivos, que Roçadas dizia serem semelhantes a duas enormes antenas.
Neste dispositivo, avançou para a embala em passo normal, mas uma das
alas precipitou-se ao assalto e toda a linha a seguiu. A embala estava,
porém, abandonada e a Cavalaria e os auxiliares, pessoa alguma
encontraram no recinto que a envolvia.
A fuga tinha sido recente e fôra precipitada. Segundo informações
obtidas dos próprios indígenas, o soba Chaúla fôra levado à força para
se refugiar entre os Barantos, pois, achando-se embriagado, insistia em
não abandonar a embala.
Conquistou-se, assim, a embala do Nalueque após uma marcha de 11
quilómetros e de 2 horas de combates, não muito intensos mas certeiros,
em que, mais uma vez, se ouviram os estalidos das balas explosivas,
semelhantes aos do chicote manejado pelos condutores dos carros boer -
e, por isso, se lhes chamavam balas de chicote - disparadas pelas
carabinas Mausers, de que dispunham os chefes de guerra - os lengas -
tendo ainda a coluna mais 3 praças mortas e 11 feridas, a juntar às
baixas nas dez acções que exigiu a conquista do Cuamato Pequeno,
totalizando essas baixas em toda a campanha 205 homens, sendo:
- Mortos
- 5 Oficiais
- 53 praças brancas
- 8 praças indígenas
- Feridos
- 5 Oficiais
- 91 praças brancas
- 43 praças indígenas
Resolvendo Roçadas atingir o sobado do Cuamato Pequeno, faltava agora
resolver a questão do sobado do Cuamato Grande, prometido ao fidalgo
Caripaluli, que foi um guia leal e inteligente levando sempre a coluna
pelo caminho mais curto e provido de água, desfazendo com o seu
procedimento as suspeições que a respeito dele existiam da parte de
muitos.
Caripaluli, porém, impressionado pela lealdade dos portugueses,
dedicou-se-lhes em extremo, tendo por Roçadas o maior respeito e a maior
veneração. Se foi traidor foi aos seus e, certamente, nunca pensou em
sê-lo a quem tanto se consagrara...
...Dadas estas circunstâncias, Roçadas resolveu não incendiar as
libatas, não destruir os arimos , nem fazer correrias, pilhando os gados
e mantimentos, à semelhança do que tinha mandado fazer, como severo
castigo, no Cuamato Pequeno e, assim, entregar a Caripululi a embala e
as terras tais como estavam e com o que elas continham, à excepção dos
despojos do desastre de 1904, os quais, incluindo duas peças de
artilharia, foram relacionados e remetidos para a retaguarda.
É que estes processos de generosa clemência eram, desde velhos tempos,
seguidos pelos portugueses, que só por excepcionais circunstâncias
recorriam à violência, dando, desta forma, realização efectiva à velha
sentença de que em África nunca o primeiro tiro deve ser dado pelos
brancos.
Ao mesmo tempo, fazia lançar o bando de que a guerra estava terminada,
aconselhando o povo a apresentar-se sem receio, no prazo de três dias,
sob pena da região ser posta a saque, o que era anunciado por meio do
tambor - do batuque - que ao nascer do sol era batido à porta da embala,
ao passo que de noite era o próprio Caripaluli que de viva voz lhes
transmitia esse conselho.
Logo nos primeiros dias começaram as apresentações, que iam
sucessivamente aumentando em quantidade e em categoria, trazendo os
indígenas o gado mas ficando com as espingardas por "a gente armada,
segundo declarava, estar fugida no Cuanhama ".
Caripaluli conferenciava com os que se vinham apresentar e parecia que a sua côrte se ia constituindo.
A confiança ràpidamente se estabelecia, não encobrindo alguns os
combates em que tinham participado e declarando que, se soubessem que o
branco era tão bom, não lhe teriam feito guerra. Davam, também,
informações completas acerca das tribos vizinhas que lhes deram auxilio,
das baixas que sofreram e diziam: « quando o branco fazia fogo e se
ouvia a corneta, nós caíamos como as hastes da massambala, sêcas,
derrubadas no arimo ».
Entretanto, o forte junto à embala ia-se construindo e, numa homenagem
justa pelos seus altos serviços, a pedido dos oficiais, foi lhe dado o
nome do Chefe do Estado Maior, capitão Eduardo Marques, ao mesmo tempo
que tudo se preparava para a proclamação do novo soba, acto que se faria
com toda a solenidade, em que a Bandeira Portuguesa lhe seria entregue e
içada e, um acto lavrado com as condições impostas, que o comando do
novo posto faria cumprir.
Um acontecimento inesperado veio, porém, modificar a resolução tomada.
Caripaluli tentou suicidar-se, na própria manhã do dia fixado para a
cerimónia, disparando uma Martini debaixo do queixo, esfacelando o
maxilar inferior.
A consciência, segredou-lhe que tinha sido um traidor à sua terra, o que
naturalmente já lhe fôra sugerido por alguns dos seus futuros subditos.
Daí a resolução extrema que o seu orgulho lhe ditou de não ser soba
simplesmente por imposição do Muene-Puto, ainda que fôsse um velho
pretendente ao sobado e tivesse os seus partidários.
Roçadas, que se lembrou ainda de o substituir por um sobrinho, seu
inseparável companheiro, pôs de parte esta ideia e resolveu
imediatamente convidar os indígenas presentes a indicar quem deveria ser
o futuro soba, proposta que foi recebida com a maior alegria,
acompanhada das palavras « Quêto ! Quêto ! » que significava « Obrigado !
Obrigado ! ».
A este convite intervieram os velhos, que em longa conferência
resolveram indicar para novo soba um indígena de nome Cambongue, que
logo no dia seguinte compareceu e, com todo o cerimonial, foi aclamado
com o nome de Popiene...
...Caripaluli, carinhosamente tratado, curou-se e ficou sempre dedicado
aos portugueses, continuando a prestar-lhes valiosos serviços.
O ex-soba Chaúla, fugitivo, foi preso meses depois, bem como alguns dos
seus adeptos fiéis, por um pequeno destacamento, o que demonstra a boa
politica que foi seguida, pois tal prisão não se faria se não fosse
auxiliada pela população.
Roçadas não quis fechar esta brilhante página da sua heróica história
sem prestar uma derradeira homenagem àqueles dos seus camaradas que pela
Pátria tinham sacrificado a vida no desastre de 1904 e bem assim aos
seus companheiros de armas mortos nesta gloriosa campanha, das mais
rudes dos tempos contemporâneos. Os primeiros, conforme escreveu, como
heróis tinham caído vencidos, os segundos como heróis também cairam, mas
vingadores, em sucessivos e cruéis combates.
Piedosamente, mandou recolher as ossadas que se encontravam dispersas
desde as proximidades da pequena chana sombria, onde o destacamento de
1904 iniciou a trágica retirada, até o vau de Pembe e fê-las reunir no
Forte Roçadas, fazendo celebrar uma missa naquele local, a que
assistiram todas as forças de regresso ao Cunene, em sufrágio pelas
almas das vitimas daquele terrível revés e uma outra, no dia seguinte,
sobre o campo do glorioso combate de 27 de Agosto, na chana de Mufilo.
A velha chama da Fé que arde no coração dos portugueses, que fez dilatar
o Império, desbravando as terras, sugeriu, como fecho desta campanha
heróica, essa derradeira e piedosa homenagem aos que caíram com honra
nesse campo de luta pela grandeza de Portugal.
Assim, ao Sul de Angola, aquecido pelo sol dos trópicos de torturante
ardência e iluminado nas noites de vigilia inquieta e apreensiva pala
luz do Cruzeiro - essa constelação que indicou aos portugueses o rumo da
sua rota no « mar tenebroso » - Roçadas cobriu-se de perene glória e,
pelos seus altos e inesquecíveis serviços, o seu nome entrou na História
e a memória dos seus feitos passou à posteridade, como sendo os de um
insigne servidor do Império.
AGRADEÇO A VOSSA COMPANHIA E, ESPERO TER CORRESPONDIDO ÀS VOSSAS
ESPECTATIVAS COM MAIS ESTE RELATO DA HISTÓRIA DO SUL DE ANGOLA. O MEU
MUITO OBRIGADO