Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 26 de março de 2026

"Colono Velho" e a MAÇONARIA em Moçâmedes: "Oficina "PÁTRIA LIVRE" e os nomes dos matriculados.

 
 
 
COLONO VELHO" : 
 
Manuel Augusto de Pimentel Teixeira, como ele mesmo se descreveu:
"Tendo frequentado o liceu de Santarém (1888 a 1895) e encalhado no latim e nas “cachopas”, enveredei para o curso de farmácia que vim a completar em 25 de Junho de 1898, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto com a classificação de 13 valores. Em 18 de Junho de 1898 fui para Vilar de Paraíso como Director Técnico da Farmácia Moura, mas como tinha um especial azar á “arte de farmácia” vim para Mossâmedes, (Angola) tendo embarcado no vapor ZAIRE, chegando aqui a 19 de Maio de 1902, trazendo no bolso a importante quantia de 3810 reis, 55 quilos de peso e ... esperançosos sonhos. Afinal, protegido por meu primo Serafim Simões de Figueiredo, UM GRANDE AMIGO, tive que montar a Pharmácia Moderna que abri aos 12 de Junho de 1903, a qual por questões políticas locais fui forçado a vender em 1913. Do que se seguiu e está seguindo falarão as ... histórias. Casei com ... minha mulher, D. Berta Pinto Coelho, senhora da minha grande consideração e amizade, que me presenteou com seis filhos, isto é, três filhas e três filhos, um dos quais (Manuel , 1º de nome) veio a falecer em 2 de Maio de 1912 com 14 meses incompletos. (auto-biografia escrita em 1923). " Fim de citação.
Do site de Aida Saiago
Foto de GeneallNet.
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Vivendo em Moçâmedes ouvíamos estórias daqueles tempos mais atrás, e de Manuel Augusto de Pimentel Teixeira, o que se dizia é que era maçon natural de Alvaiázere, Maçãs de D. Maria, que na cidade do deserto se radicou, onde exerceu funções de farmacêutico, e onde em 1913 foi proprietário do Jornal "A Pátria", Jornal literário e político, órgão do Partido Republicano Português, que defendia "que tínhamos (nós, os brancos) de arranjar em cada "gentio" um amigo se quiséssemos ter uma Angola para todos...».
Com o texto acima ficámos a saber que Manuel Augusto de Pimentel Teixeira por questões políticas fora forçado em 1913, nos primeiros anos da 1ª República. implantada em 1910, a vender a sua Farmácia Moderna, aquela mesmo ali em frente à Praça Leal ou Praça de Táxis, em Moçâmedes. Ora, assim sendo, incompatibilida-des políticas que vinham de longe. Aliás, sabe-se que a 1ª República gorou algumas das espectactivas de muitos colonos republicanos... Seria o caso!
 
Já após 1975, em Portugal conversei a propósito deste seu avô com a poetisa Vera Lúcia Carmona, que confirmou ser Manuel Augusto de Pimentel Teixeira um maçon inscrito, que ao sentir-se perseguido após a subida ao poder de Salazar, por questões políticas, a determinada altura viu-se forçado a enterrar fotos, documentos e paramentos lá para os lados do Alto do Governo, nas profundas areias do Deserto do Namibe. Aliás é sabido que em Moçâmedes, Sá da Bandeira, Benguela e Moçâmedes , em 1936, estava activa a loja maconica "Pátria Livre", lojas maçonicas que em Angola eram chamadas Kuribekas. E que nesse ano por todo o Portugal e colónias, maçons foram objecto de perseguições, devassas, deportações, prisões, e tudo quanto eram associacões opostas ao regime foram dissolvidas e encerradas.
Se em 1913 na vigência da 1ª República Portuguesa, Manuel já em Moçâmedes teve que vender sua Farmácia, devido problemas de ordem polítca, no contexto da nova ordem que se estabeleceu no Portugal metropolitano e nas colónias de Africa, após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e a subida de Salazar ao poder, Estado Novo, nova Constituição, nacionalista, antidemocrática, antiliberal, corporativista, colonialista e conservadora , etc ectc não admira que a situação se tenha agravado, Tanto mais quanto sabemos que foram tempos de perseguições aos partidos políticos e aos opositores, tempos de censura prévia a tudo quanto eram informações em desacordo com a ideologia oficial do governo.
Entretanto chegou ao meu conhecimento a lista dos filiados na OFICINA MAÇÓNICA "PÁTRIA LIVRE" DE MOÇÂMEDES N. 389, NR DA MATRÍCULA E RESPECTIVOS NOMES SIMBÓLICOS. Uma verdadeira preciosidade que me foi proporcionada pela Ana Maria , uma conterrânea, cujo avô era maçon, seu nome consta da preciosa lista, tal como o de Manuel Augusto de Pimentel Teixeira .
A lista não tem data, mas a ter em conta que o ano de 1935 foi o ano das devassas, perseguições, deportações, aprisionamentos, em Angola, bem como do encerramento das Associações secretas em todo Portugal, apontamos para aí. 
 
Ela aí vai... No final deste texto, exibindo nomes reais de gente conhecida e os respectivos nomes simbólicos. Manuel Augusto de Pimentel Teixeira escondia-se sob o nome simbólico de Fiat Lux.
NOMES PRÓPRIOS NOMES SIMBÓLICOS
Manuel da Silva Dias A. Comte
Alberto Carlos das Neves Cabral N. Alvares Pereira
Julio Rogado Leitão Elias Garcia
Manuel Augusto de Pimentel Teixeira Fiat Lux
Romulo Martins Torres Rafael
Manuel Sirgado Camões
José dos Santos Ribeiro dos Santos
António Menandro Guerra Giordano Bruno
Manuel Gonçalves Vaz Pereira R de Freitas ?
Lourenço Martins Morgado Albino
Raul da Silva Marques Mirabeau
José de Oliveira Leite Marcus Brutus
Francisco Carvalho Ervedosa Freire de Andrade
Joaquim Antunes da Silva Proença Napoleão Bonaparte
Fernando Pestana R Salgado
Álvaro César de Meireles Dantão
Manuel da Costa Santos F. Tomás
José António Rodrigues Vasco da Gama
Jaime Frazão Kiriam
João Ferr, Duarte Leitão Marquês de Pombal
José Pompeu da Gama Ochoa G. Verdi
João Carlos de Figueiredo Hugo
Pedro Severo ??
João Emilio da Costa e Coimbra? Camilo
Lorenço Cordeiro Dias Saldanha
José Vitorino Teixeira de Faria Castilho ?
Raul Augusto Simões de Figueiredo Rufi
Alfredo Magalhães Falcão
Jacinto Gomes de Almeida
Manuel de Oliveira Leitão
Antonio Augusto de Miranda
Jaime da Costa Maria Rocha
Raul d'Oliveira A?
Porquê "Fiat Lux"?
 
Pela designação dos termos em Latim, o significado de Fiat Lux é “Faça-se luz” ou “Haja luz”. A expressão aparece no terceiro versículo do Livro de Gênesis da Bíblia, que marca o momento em que Deus estava criando o Universo, ou seja, estava criando a luz.
No terceiro versículo está escrito: “(...) E o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz: e houve luz. E Deus viu a luz, e foi bom, e Deus separou a luz das trevas”. Fiat Lux também remete a ideia de criar-se ou dar origem a algo novo, como uma ideia ou um pensamento. Além disso, a frase pode ser usada como metáfora, ao dissipar a ignorância (isto é, trazer clareza e verdade para as pessoas). Fiat Lux na Maçonaria é como que um símbolo – que acomete ao ponto máximo da iniciação de um novo candidato (maçon), momento em que ele está recebendo a luz da sabedoria maçônica, fazendo com que ele saia do mundo profano e de suas trevas para entrar no mundo místico. Quando se cria uma idéia, um pensamento, estamos simplesmente criando algo novo, ou seja, "Fiat Lux". A frase é usada também para outro significado da metáfora, o de dissipar a ignorância. Muito utilizado na Maçonaria, diz-se que é o ponto culminante da iniciação, ocasião em que o candidato recebe a luz da sabedoria maçónica, posto que estivesse nas trevas do mundo profano.
Acrescento ainda que Pimentel Teixeira trabalhou na Farmácia do Sindicato da Pesca na Torre do Tombo e foi numa das idas e vindas na sua bicicleta que teve um desastre e faleceu na década de 1950. Caiu da bicicleta depois de ter descido a rua da Fortaleza, indo se estatelar já junto da Avenida zona da Capitania,
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Este é um pedacinho de um "mundo" correspondente ao mundo dos nossos dos nossos avós, mesmo dos nossos bisavós, do avô Manuel da Vera Lúcia, do avó Manuel da Ana Maria, as moçamedense que tão gentilmente se dispnibilizaram a ceder-me estas informações, imagine-se, de gente que viveu em Moçâmedes, Angola, na fase final da monarquia constitucional (regime político que já vinha de 1143), como Pimentel Teixeira que ali chegou em 19 de Maio de 1902, quando os tempos eram outros... Gente que assistiu à ascensão e queda da 1ª República Portuguesa, que lhes trouxe esperança e também decepção. Que foi contemporânea do golpe militar do 28 de Maio de 1926, que abriu as portas do poder a Salazar e ao Estado Novo, poder ditatorial que acabou com o regime dos Altos Comissários, promessa de um tempo novo de maior autonomia financeira para as colónias. que ficou para trás...
Preciosa lista que mostra ao mundo como os "colonos" não se encontravam reduzidos a meros agentes de um colonialismo engendrado e comandado a partir do Terreiro do Paço, como por vezes se pretende fazer passar. 
 
Com o Estado Novo a situação complicou-se , mas 1958 se foi excepção também foi exemplo de que colonos não estavam completamente anestesiados... 
 
Em todo o Portugal , continental e Ultramarino, nesse ano houve eleições presidenciais, e eu mesma, então uma adolescente, pude assistir no Cine Teatro de Moçâmedes a algo inédito: uma sessão politica de esclarecimeno! Algo a que não estávamos habituados. Falar em público de poltica em Portugal!
Do alto do palco do Cine Moçâmedes , Mariano Pereira Craveiro, republicano, oposicionista do regime, lado a lado com Carlos Martins Cristão e outros mais, integrados na campanha do General Humberto Delgado contra Américo Thomás, dirigiam à população um discurso arrebatador ... A determinada altura Carlos Martins Cristão, nesse final de Maio de 1958, tendo Mariano Pereira Craveiro a seu lado, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente: 
 
"Eles é que têm as armas... Eles é que têm os canhões... Nós só temos os braços para trabalhar! "
Por parcos momentos, as eleições de 1958 haviam despoletado o interesse em meio a uma população politicamente, pelo menos aparentemente adormecida. E vozes até então caladas levantaram-se para aplaudir... 
 
O que veio a acontecer a seguir a Humberto Delgado, foi o que já se fazia esperar; o General sem medo acabou perdendo as eleições, apesar das retumbantes vitórias alcançadas, e a reacção ao General viria a culminar num bárbaro assassinado, no dia 13 de fevereiro de 1965, perto de Badajoz, quando, refugiado desde há algum tempo em Espanha, atravessara a fronteira, em Villanueva del Fresno para uma reunião em território português. De novo as vozes foram silenciadas. Hoje sei que as pessoas não eram tão conformadas como aparentavam ser...
 
A Mariano Pereira Craveiro nada aconteceu, mas a PIDE ficou de olhos nele e em todos os seus companheiros da oposição política. E no entanto Mariano Pereira Craveiro era uma referência em toda a Angola e não só. Moçâmedes e as inúmeras outras cidades de Angola, com especial referência para Serpa Pinto (Menongue), ficaram a dever a este cidadão moçamedense, o facto de serem em 1975 cidades progressivas em matéria de habitação para todos, preenchidas com lindas vivendas que faziam o encanto de residentes e visitantes, alcançadas graças a um sistema cooperativo de habitação a partir de pequenas e acessíveis quotizações mensais . Ele foi o pai da Sociedade Cooperativa de Habitação, "O Lar do Namibe", e quem hoje percorrer a cidade por lá encontrará, colado acima das janelas das casas, em azulejo colorido , o distintivo. Mariano Craveiro , o Presidente e fundador, seus colaboradores e associados conseguiram juntos esse milagre da "multiplicação das habitações" para a cidade e para as familias, num tempo em que eram inexistentes créditos bancários à habitação, e Moçâmedes estava reduzida ao seu centro histórico
 
 
MariaNJardim 
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Introdução da 1ª edição de História de Angola (1482 a 1607) de Ralph Delgado:

 


«... À passagem de Diogo Cão pelo Zaire, os Portugueses encontraram, em franca prosperidade, um país de negros, sem baptismo, dirigido pelo seu quinto chefe principal, sociedade nómada de Congueses amalgamados com ambundos, desde algumas décadas atrás, com todos os sinais de uma organização tribal: economia pastoril, chefias electivas, ausência de classes, propriedade colectiva sobre as terras, ritos feiticistas, cabanas de barro e palha, danças guerreiras e religiosas, formações militares de flecha e arco, escravatura em pequena escala, por não servir a agricultura intensiva, e esboços industriais circunscritos, especialmente ao fabrico de vinho de palma e de panos libongos.

O País não tinha limites definidos: estendia-se para norte, leste e sul. até onde chegava a autoridade do chefe aguerrido,imposto por factores meramente biológicos; e todo ele dividido em parcelas chefiadas por senhores menos importantes tributários do chefe supremo, com quem, por vezes, guerreavam os muenes, plural de muene, que traduzimos por mani.

Portadores de uma civilização urbana e caídos, abruptamente nesta sociedade primitiva, os Portugueses, desejando transformá-la, conseguiram, anos depois, a sua entrada numa fase rural, com atributos sugestivos :- imposição da cultura escrita, com divulgação do idioma português; organização feudal, pelo aproveitamento da divisão, já efectuada, das terras, ou fosse com divisão de classes; organização da corte indígena em moldes iguais ao da corte portuguesa, com enquadramento dos colonos nos lugares de comando, sobretudo nos judiciais; substituição dos feitiçeiros pelo sacerdotes e imposição do monoteísmo cristão, incompreendido pelas suas exigências monogâmicas, contrárias à economia geral, acompanhada da construção de conventos e templos; empreendimento de tarefas agrícolas singelas, generalização de meios rudimentares de trabalho e adaptação de culturas europeias e sul americanas; instalação de um mercantilismo escravocrata e começo da pesquisa do subsolo, com consequência da evolução económica do próprio Império Português; baptismo e fixação dos limites do território, imprecisa e prodigamente dilatados até ao Gabão, ao norte do Nemimuezi, a leste, e o Cabo Negro, ao sul, com sujeição armada dos senhorios mais próximos da capital e com penetrações arriscadas pelos exploradores europeus.

Não puderam ser melhores os resultados iniciais da transformação operada. Alimentados de bons intuitos, colonos e sacerdotes, mas especialmente estes últimos, aproveitando o grau de adaptação do aborígene, lutando, embora contra a reacção inevitável dos graus distanciados das duas civilizações, obtivera testemunhos eloquentes dessa evolução repentina, sem par: reis com conhecimentos primários, ledores da História lusitana e eclesiástica, assinando bandos em idioma português; um bispo, padres e professores negros, educados na Metrópole postados em levantar o nível cultural indígena por meio de escolas; sujeição á Santa Sé, maior força internacional da época, com embaixadores encartados; defesa das classes privilegiadas e a garantia dos senhorios; exportação de braços para S. Tomé, Lisboa e Brasil, com salutar repercução futura, neste último país, na obra de colonização agrária ali efectuada, de assinalada tendência europeizante, segundo Gilberto Freire; utilização das Ordenações portuguesas como formulário judicial, mormente nos crimes praticados pelos europeus; procissões religiosas e intervenções militares, com assimilado providencialismo histórico; e substituição da farinha de sorgo pela farinha de milho e de mandioca.

O castelo erguido não resistiu muito tempo, porém, aos vendavais da desorganização, impiedosamente caídos sobre ele. E isto por estas razões fundamentais:

a) falta de autoridade portuguesa e consequente divisão dos colonos em grupos, favoráveis e desfavoráveis a S Tomé, arrastando e cindindo na luta as correntes de opinião indígena;
b) Defeitos do sistema colonizador de exploração, aliados ao auto-esfacelamento provocado pela escravatura;
c) Abandono pela Metrópole e mudança do eixo espiritual civilizador de Lisboa para Roma, de graves repercussões futuras;
d) Perversão da classe eclesiástica, conselheira da Corôa absorvida pelas misérias terrenas, transformando em útil apostolado em luta sangrenta de competições e em práticas escandalosas, com abuso da dependência real do seu ministério;
e) Reacção despertada, nos negros, contra os rigores da monogamia e contra a destruição de familias e lares, decretada pelo tráfico

Desvanecido o prestígio semeado pelos primeiros colonos, de conduta tutelar irrepreensível; desaparecido havia muito, o interesse da ligação com a Abissínia pelo território de Manicongo; colocada a nação ante os problemas complexos do seu afã ruinoso, espalhado por todo o Mundo; e circunscrita a a utilidade do Congo a mera fonte de braços para outros territórios mais felizes - a continuidade da aliança luso-conguesa foi condenada pelo pseudo deslumbramento da prata do Dongo e da Matamba, acompanhado pela donatária de Angola, ao som de brados pela dilatação da Fé e de gritos pela liberdade do tráfico, soltos pela ilha de S. Tomé, e elos figurantes, civis e eclesiásticos com peso em Lisboa.

Foi esta a primeira etapa, perfeitamente limitada pela mudança de processos civilizadores; cerca de cem anos de luta amarga e cruel, em que, com intenções de europeizar um país de negros, no fim da fase primária, com qualidades, portanto, para se adaptarem à implantação da organização rural, lhes esboçamos os sistemas de cultura, com grande felicidade, para nos afogarmos a seguir, porém, numa retinta exploração escravocrata arbitrária, com todas as as tristezas - vento de insânia que , amaldiçoando os homens e a própria terra, os amarrou, inevitavelmente, pela cobiça e pela cegueira, ao pelourinho da derrota, a despeito dos esplendores imortais da sua tenacidade, do seu poder de iniciativa, da sua autoconfiança, e do seu potencial de adaptação.

Compreendidos os erros e as lacunas da aliança nortenha, os portugueses entraram em angola dispostos a impor a vassalagem ela força.isto é, a governar o novo senhorio, estendido até ao cabo da Boa esperança, também dividido em tribos na fase nómada, e dirigidas por sobas, de que o aguerrido Ngola ocupava lugar proeminente.

Conteporizando com a monarquia negra, criadas após as primeiras ofertas de prata do sobado do Dongo, o novo sistema tentou evolucionar com a sua cooperação. Mas, com a rebeldia de Kiluanji, convencido de obra coloniadora igual à do Norte, o panorama mudou bruscamente, para se assinalar por lutas extenuantes e exaustivas, pela sujeição dos chefes, principalmente aos amos, e depois, ao governo, com pagamento de impostos ou dízimo, pela montagem de uma estrutura de ocupação militar com fulcros no sertão, pelo desenvolvimento do tráfico, pelo sistema de alianças militares indígenas, pela catequização das massas negras, e, sobretudo, pela demanda da apregoada riqueza do subsolo.

Verificada, porém, a inexistência das minas de prata de Cambambe, cuja lenda se criara por altura por alturas do cativeiro de Baltazar de Castro no Dongo, que a negara com desassombro, a exploração do território encaminhou-se, mais acentuadamente para um mercantilismo escravocrata, servidor do Brasil e das Antilhas, à sombra do qual foram possíveis estas relaidades, boas ou más: acção de soberania de carácter exigente provocando repressões que eram pretextos para a aquisição reactivada de peças, debilmente facultadas pelas feiras; amplitude da agricultura indígena, já favorecida pelo contacto com a evolução conguesa, e nascimento de uma agricultura europeia prometedora, embora prejudicada pela intranquilidade geral; ministério religioso ordenado e profícuo, isento de competições e de exemplos perniciosos, e divulgação d cultura escrita e do idioma português; destruição da monarqui Jinga, pela a sua incompatibilidade com as necessidades e directivas governamentais; funcionamento precário dos serviços públicos, com falta de escrúpulos por parte dos interventores, inclusive, de algumas autoridades principais; separação do reino de Benguela, pra seu imedito peoveitamento, expediente mal sucedido por falta de apoio metropolitano directo, e fundação das cidades de Luanda e Benguela e dos presídios marginais do Cuanza; manifestações de aproximação da costa oriental e da Abissínia e proposta para a criação do grande reino da Etiópia, constituido por todo o continente sul-africano, partir do Zaire; tentativa de liquidação, pelas armas, da supremacia real conguesa, de maus resultados imediatos e futuros; e substituição da lenda da prata do Norte pela lenda do cobre do Sul.

Numa expressõ sintética: em cerca de sessenta anos, esboçou-se uma organização político-económica de carácter embrionário e subalterno, cheia de defeitos, visando a ocupação e exploração territoriais, cujas necessidades e cuja directiva, mal apoiada pela Metrópole, na pior fase da sua existencia, levaram ao auto-empobrecimento pela compra e captura dos negros, a maior riqueza do País, com demonstração simultânea, porém, de virtudes individuais e colectivas dignas de apreço, expressas nas lutas, nas penetrações, na conversão, nos pensamentos e na realizações, pautadas por possibilidades de via reduzida.

A experiência desprezara a criação de uma nobreza copiada da Metrópole e o semifeudalismo susceptível de sua utilização; não admitira embaixadores à Santa Sé, em claro desafio à fraca assistência material metropolitana, como eram possíveis no Norte; tão pouco a cisão dos colonos em partidos, subordinados à lei da selecção natural, pela força, despeito de todos os prejuízos colectivos. E, ao mesmo tempo, estabelecer, pelo somtório dos esforços gerais, suportes invioláveis para a viabilidade de uma sinalização portuguesa, definida, embora lesada pela economia depauperante; a transformção de Luanda em centro urbano de cunho arrojado e esplendoroso, índice de capacidade realizadora e tradução de vida particular desafogada. embora trabalhosa; esboço de linhas gerais fazendárias, pelo lançamenro de impostos e seu arrecadamento, e pela criação da Junta da Real Fazenda Pública; cruzamento dos sertões, mormente no reino de Benguela, à procura de riquezas, divisando a Monomotapa, para satisfação de ansiedades insatisfeitas e para confirmaçõ de suspeitas mais tarde testemunhadas; criação de um hibridismo familiar, fonte de mestiçagem, destinada a representar um valioso papel na segunda fase militar, pela sua adaptação mesológica, como o desempenhou na resistência heróica de Massangano, e fundação de pequens fazendas agrícolas - duas tentações alicintes da fixação - e nascimento de uma consciência orgulhosa de nacionalidade susceptível de suportar todas as vicissitudes, posta a dura prova durante sete anos.

Neste estado de coisas se registou a intromissão flamenga, primeira encaixada num condomínio precário para Portugueses e depois abertamente unilateral, em que a resistência dos vencidos, embora prejudicada, por vezes por falta de uniformidade e de idoneidade de comando, se patenteou da mais significativa envergadura, legítimo orgulho de um punhado de valentes, servindo a Metrópole e o Brasil, em manifestação irrepreensível de ligação e adaptaçõ à terra, de patriotismo e de indomável tenacidade.

A heróica arrancadura de Salvador Correia, restaurando a terra perdida, rematou o período animoso e prometedor. Defendendo a sua causa, o Brasil auxiliou, por determinação metropolitana, a restituição de Angola e Portugal; mas, em compensação, lançou-a, abertamente, para uma nova época de dependência própria, definida por uma subalternidade esgotante de feitori de mão-de-obra, de sujeição absoluta às suas iniciativas económicas (terceiro período), ou fosse liquidação, com ónus violento, de uma atitude ordenada pela Mãe-Pátria e imposta pelos crescentes interesses sul-americanos.

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Pesando as virtudes e os defeitos, as faltas e as realizações, registados nos dois periodos, tendo em atenção o quadro geral das misérias da sujeição espanhola e o grau de civilização contemporâneo, vemos que o prato da balança se inclina favorável à massa colonizadora portuguesa que os viveu.

Produziu ela bastante, de facto, com as possibilidades registadas e com a autocondenação do sistema económico lançado no território; e, prestando-lhe elementar justiça, é-nos tão grato focar a sua actividade como, fazendo-o, a homenageamos e a arrancamos o esquecimento, numa hora em que a Nação defende, denodadamente, todos os valores da sua constituição pluricontinental.

Ralph Delgado
Benguela, 30 de Junho de 1946.

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sábado, 15 de março de 2025

Maria da Cruz Rolão a regedora e horoína de Porto Alexandre (Tombwa)

 



Estátua erigida em Porto Alexandre (Tombwa)  em  homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, a heroica 
Regedora de Porto Alexandre (actual Tombwa).  Obra do escultor Fernando Marques.



MARIA DA CRUZ ROLÃO
Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher



Ao percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia, aquela que foi um dos mais importantes  centros piscatórios do espaço colonial português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade. Trata-se de Porto Alexandre, a baía de que Diogo Cão deu notícia pela primeira vez, em 1485, designando-a por "Angra das Aldeias", e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos navegantes portugueses em demanda de novas descobertas. 
 
Em flagrante contraste com a excelência da baía e quietude hospitaleira das suas águas, surgia aos olhos dos navegadores portugueses, uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água, onde qualquer ideia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo que decorreram 3 séculos até ao início da ocupação efectiva, das terras desertas do sul de Angola, porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades foram  sendo vencidas.
 
Foi em 1860, o ano em que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola, grupos de abnegados algarvios iniciaram a ocupação efectiva, uma gesta heróica, em que venceram a dureza e a desolação do terreno, souberam dominar a fome, a sede, o isolamento, e suportaram estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.

Por entre as dunas do deserto, que começaram a surgir as primeiras e rudimentares habitações, enquanto  os ventos e areias  iam sendo dominados através de uma obra notável da qual  se destaca uma extensa cortina verde, com cerca de 300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o futuro, cresceu em extensão e em formosura, modernizou-se, um verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade continuada por sucessivas gerações que ainda hoje se mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade inquebrantável. 
 
Efectuado este pequeno apanhado da história de Porto Alexandre, uma modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores, voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem receio de grande erro, situar no período 1865-1870. 

Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios, utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela, de  pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4 metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a família CRUZ ROLÃO, donde sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. Era possuidora duma energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão unânime, a elegerem sua primeira autoridade civil, nela depositando uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava, patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA CRUZ ROLÃO mais uma vez se evidenciou impondo a saída das nossas águas territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que estava em  águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande falta de cortesia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade  e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito. Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe uma estátua.
A estátua e o escultor Fernando Marques
A estátua

MARIA DA CRUZ ROLÃO nascida em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21.Setembro 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro.  Era filha de Domingos da Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (CMM Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883-1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó,  porquanto no óbito seu filho  José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes 1 de Dezembro de 1905 motivado por tuberculose  pulmonar, no estado de casado e com 53  anos de idade, nascido em Olhão em 1852 registou-se a filiação:  filho de Maria da CRuz Rolão e de Manuel Tomé do Ó  (Idem, Livro 5 de Registo Óbitos  1898-1911). Outro registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado, na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os sacramentos. Indica a sua profissão: marítimo, seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão, confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó e de Maria da Cruz Rolão, natural de Olhão, e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz) não fez testamento, deixou 6 filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes Registo de Óbitos, 1905,  Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão verificado em 06 de Julho de 1902,  com indicação da idade:  70 anos, e do estado civil: casado; apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (CMM livro 52? Registo de obitos 1898-1911)

Algum tempo após a inauguração da estátua de Maria da Cruz Rolão, visitou Porto Alexandre o Presidente do Municipio de Faro, a convite do Ministro do Ultramar, tendo então ficado prometido por este, dar a uma Rua de Porto Alexandre o nome  Rua de Olhão, e a uma Rua de Faro o nome Porto Alexandre.

Maria Nídia Jardim/


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Segue um texto de Alberto Iria:

« O descendente da regedora»

Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lourdino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara».



Reservados os Direitos de autor
 
 
Segue um texto de Alberto Iria:

« O descendente da regedora»


sexta-feira, 14 de março de 2025

Mossâmedes, Luz Soreano e Revelações da Minha Vida e Memórias...



  
 

 
Mossãmedes 
 
 

Simão José da Luz Soriano
File:Simão José da Luz Soriano - O Occidente (1Set1891).png - Wikimedia  Commons 
 
 

 
 Assim descrevia Luz Soreano... em "Revelações da Minha Vida e Memórias" 
 


Moçâmedes foi fundada por luso-brasileiros vindos de Pernambuco, Brasil,  em 1849, e 8 anos após Simão José da Luz Soriano deixou-nos em "Revelações da Minha Vida e Memórias" testemunhos escritos sobre o andamento da colonização, que ele mesmo promoveu, a partir de Lisboa, e que nos levam a recuar no tempo e no espaço com uma nitidez tal, que parece que estamos lá a ver como as coisas foram acontecendo.
 
Abordando as estatísticas sobre o avanço da povoação, em 1857, Luz Soriano  revela-nos que  em apenas 8 anos após o início da colonização pelos luso-brasileiros de Pernambuco, os fogos existentes na vila de Moçâmedes, no sitio da Aguada, na Boavista, nos Cavaleiros e na Macala eram os seguintes: 91 prédios na vila, sendo 34 de pedra, 40 de adobe, e 17 de pau a pique. As cubatas de palha eram 6. Em construção estavam 4 prédios de pedra, e 14 de adobe. Os prédios da Aguada eram 16 de todo o género, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavaleiros e Macala 3.
 
Quanto à população livre era de 275 indivíduos, sendo 132 brancos maiores e menores do sexo masculino, 81 ditos do sexo feminino, sendo o resto composto de pardos e pretos.  Os libertos eram 99,  a população escrava montava a 837 individuos, vindo assim o total de todas as classes e sexos a elevar-se a 1.211 pessoas, só na villa de Moçâmedes. 
 
Quanto ao tipo de vida, os povos próximos criavam muitos gados, que já se iam acostumando a vender, e os mais distantes os vendiam também até mesmo com preferência à cera e marfim, o que produzia abundância de oferta e barateava o custo das carnes que se exportavam para abastecimento da estação naval, e para consumo em Luanda, propondo-se agora alguns especuladores a secar a carne à maneira do Brasil, o que podia tornar-se um importante ramo de exportação. Um boi grande custava, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vendia a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde havia prodigiosa abundância de leite.

Dantes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns continuavam a recusar vender gados em maior quantidade, porque depende deles a importância e consideração do indivíduo de acordo com o numero de cabeças que possui. Em algumas partes só matam e comem a carne dos bois por ocasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres. Além dos gados comerciava-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
 
 

 
 A Quinta dos Cavaleiros...
 

Nos limites de Moçâmedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de diferentes produtos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das diferentes culturas, pois que ha trâs anos tem faltado as grandes inundações , que fertilizam as terras. Contudo há já algumas plantações da cana sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavaleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito inteligente na cultura da cana e fabrico do açucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do distrito: a dos Cavaleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veio do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as máquinas para o descaroçar.

Plantava-se mandioca ou pão comum, que por agora não tem chegado para o consumo; atendendo porém ao incremento que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este ano (1853 ), ou no próximo já possa chegar. Abunda em excelentes hortaliças e bananeiras, produzindo também muito boas uvas; e já vai havendo algum arvoredo, mas há muita falta de lenha.
 
Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3 navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
 
Há uma botica do governo, e um sofrivel hospital, que poderá conter 20 a 85 doentes; mas que de ordinário muito poucos contem, o. que bem prova a salubridade do sitio. Durante o ano de 1852 o maior numero de doentes que ali se reuniu foram 13 , entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias crónicas; e quando em julho de 1849 visitou aquele estabelecimento o governador d'Angola Adrião Accacio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre régio, regendo efectivamente a cadeira de instrução primária, com 12 discípulos, tendo uma pequena biblioteca fornecida pelo governo, e apropriada ao ensino da infância. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulas. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população, do que de ordinário se encontra nas colónias d'Africa. Uma parte dos colonos foram casados, e outros se tem casado depois. 

Em Outubro de 1851 Soreano refere a ida a Moçâmedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de Angola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esta nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e a igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.  
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A MOCIDADE PORTGUESA EM MOÇÂMEDES

Foto tirada no decurso da visita em 1938 do General Carmona a Moçâmedes.  

Foto tirada no decurso da visita em 1938 do General Carmona a Moçâmedes. Um desfile enorme que incluia alunos e alunas de todas as escolas do Distrito de Moçâmedes e da Huila, ainda sem as fardas que viriam nos anos a seguir.

Eis como um texto da época descreve esta parada:
 
«...À tarde, no lindo jardim da linda Moçâmedes, terra encantadora e de encantos, coberto de flores do deserto, na expressão feliz de Vieira da Cruz, realizou-se a parada infantil de que participaram mais de mil crianças das escolas de Moçâmedes e da Huila. Apenas crianças das escolas, porque, necessário é dizê-lo, se todas formassem, as da Huila e de Moçâmedes, formariam uma legião de mais de quatro mil.
 
A  Mocidade Portuguesa era uma organização de carácter milicial dirigida às camadas mais jovens da população, foi criada por decreto em 1936, tendo a sua secção feminina sido criada dois anos mais tarde. Em 1939 seria alargada às colónias. A criação e manutenção deste tipo de  organização não era exclusiva do Estado Novo português.  encontravam-se organizações do mesmo tipo quer na Itália de Mussolini , quer na Alemanha de Hitler . Tal não quer dizer que a organização criada sob a orientação de Salazar fosse uma cópia fiel daquelas, embora tivesse havido algumas relações entre a Mocidade Portuguesa e as organizações daqueles países e haja algumas semelhanças de facto.   A Mocidade Portuguesa destinava-se a crianças entre os 7 e os 14 anos de idade, escolarizadas ou não, e a frequência das suas atividades tinha carácter obrigatório. A MP e visava incutir
na juventude o sentimento da ordem, o gosto pela disciplina e o culto do dever militar, capaz de transmi- tiro o espírito de sacrifício, de hierarquia e de devoção patriótica.  O regime procurava enraizar uma nova mentalidade ao serviço do Estado Novo que defendesse a trilogia do regime fundada em «Deus, Pátria e Família». Para isso era necessário estimular o desenvolvimento integral da capacidade física da juventude, a formação do carácter, a devoção à Pátria, o sentimento da ordem, o gosto da disciplina, e o culto do dever cumprido.
 
Salazar teve uma estratégia clara desde o início da Guerra de 1939-1945: a neutralidade. Mas também se preparou para uma Europa alemã! Até para uma retomada do Sudoeste Africano, fronteira com Angola, caso a Alemanha viesse a ganhar a guerra, e a retomar a região. Desde final da Guerra de 1914-18, com a derrota alemã na guerra, o Sudoeste Africano ficou sob a tutela da União Sul-Africana (atual África do Sul), a mandato da Liga das Nações para administrar o território. Porém, no pós 2ª Guerra de 1939-45, perdida de novo pela Alemanha, a União Sul-Africana não o substituiu por um mandato da Organização das Nações Unidas (a organização internacional que sucedeu a Liga das Nações nesse ano), ficou a ocupar o território ilegitimamente como se fosse uma quinta província sul-africana.     


No início da década de 1940,  a Mocidade Portuguesa em Moçâmedes era assim... As fardas verde e caqui  não chegavam para todos... Trata-se de um treino de marcha numa manhã de domingo no antigo campo de futebol de terra batida, ao fundo da Avenida da Republica. Vêem-se jovens de então, como Orlando Salvador, Angelino Jardim, Arménio Jardim (são os da 2ª fila), Adriano Parreira, , Caparula, Carrisso, etc só para citar os mais conhecidos

O espírito da Mocidade Portuguesa masculina, ainda que sem farda  já se fazia sentir por terras de Moçâmedes.  
 

Foto histórica das comemorações do 28 de Maio, no inicio da década de 1940, no tempo em que a ditadura do Estado Novo atingia o seu apogeu. Estudantes do Colégio Paula Frassinetti em Sá da Bandeira desfilando pelas ruas da cidade em saudação olímpica (a saudação à época utilizada na Alemanha nazi e na Itália de Mussolini) . A Europa estava em guerra contra a Alemanha de Hitler (1939-45). Em 1838 General Carmona  havia feito  uma digressão pelas colónias a fim de mostrar ao mundo  que as gentes de alem mar em África  estavam com Portugal.





Visita de estudo de alunos da Mocidade Portuguesa da  Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes ao Padrão do Cabo Negro, no inicio dos anos 1940  . Este padrão foi em 1892 colocado ali para substituir o padrão original do Cabo Negro, que havia sido colocado no decurso da viagem de Diogo Cão, em 1485 e fora vandalizado. Foi em 1482 que Diogo Cão partiu de Lisboa com 2 caravelas, fazendo-se acompanhar do notável cosmógrafo Martim Beheim, que introduziu o uso do astrolábio na navegação e foi autor do afamado Globo de Nuremberg. Estava empenhado em levar a cabo a continuação das descobertas inauguradas sob os auspícios do Infante de Sagres, e o prosseguimento das conquistas empreendidas por D. Afonso V, a fim de alongar os domínios portugueses de além-mar.  Chegaram nesse ano à foz do Zaire, onde foi colocado um 1ºpadrão no extremo da margem esquerda daquele rio, para solenizar a descoberta e atestar aos vindouros a posse, em nome do Rei de Portugal, das terras contíguas. Esse primeiro padrão foi denominado de S. Jorge pela devoção do rei ao santo do mesmo nome, foi um primeiro marco de descoberta e senhorio dos territórios ultramarinos. Construído de pedra e comportando inscrições, era já um monumento duradouro e expressivo.   Em seguida Diogo Cão colocou um 2º padrão, o padrão de Santo Agostinho, no Cabo de Santa Maria, a 14º 27' 15", tendo regressado em seguida a Lisboa, após dezanove meses de viagem, sendo-lhe então conferido o título de cavaleiro e concedida a tença anual.  O Padrão de 1892 acabou igualmente vandalizado em 1975. Os antigos mareantes erguiam cruzes de madeira nos lugares que descobriram, e entalhavam nos troncos das árvores a divisa do Infante Talent de bien faire.
 

Foto histórica onde podemos ver o Padre Guilhermino Galhano , no decurso de uma missa campal , no velho campo de futebol de terra batida de Moçâmedes, para onde  tinha convergido a procissão que acompanhou a imagem de Nossa Senhora de Fátima desde o campo de aviação por ocasião da sua digressão por terras de África, no ano de  1949. Repare-se na guarda de honra,  feita pela Mocidade Portuguesa (em armas!). Nesta foto reconhecemos José Pestana (fato branco), Carlitos Alves de Oliveira (MP, à), à dt.

 

 
Terminada a Missa a procissão  dirige-se para a Igreja Paroquial de Santo Adrião. Aqui também a guarda de honra +e  feita pela Mocidade Portuguesa (em armas!)
Nenhuma descrição de foto disponível. 

Mocitários  com familiares, no decurso da romagem anual à Capela de Nossa Senhora do QUIPOLA, em Moçâmedes: 08 de Dezembro de 1951.  Ao fundo vê-se o velho e ronceiro "camocouve", o primitivo combóio que devido à pouca velocidade com que caminhava, demorava o dia inteiro para completar os 250 Km, que era o percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira. Nestas ocasiões os CFM colocavam o referido comboio gratuitamente à disposição para transporte dos peregrinos. Era a forma de colaborarem nas festividades, numa época em que a disponibilidade de automóveis era bastante restrita.
 
Nenhuma descrição de foto disponível.
Esta foto histórica e de grande significado ideológico, tirada na  década de 1950, está aqui porque na equipa de Hóquei em Patins dos Maristas de Sá da Bandeira num jogo contra  o Lobito.estão dois jovens de Porto Alexandre (hoje Tombwa), que alí se encontravam a estudar no Liceu Diogo Cão: O Mário Lopes e o Hernâni Silva. Mas também porque ela é um testemunho vivo de uma época do pós 2ª Grande Guerra Mundial (1939-45), em que os desportistas  ainda eram obrigados (?), no início dos jogos, à “saudação romana” ou "saudação olímpica" para uns, "saudação nazi" para outros. que aquui se vê. A Mocidade Portuguesa (organização juvenil de filiação obrigatória) já  havia começado a perder o seu ímpulso  inicial, enquanto organização para-militar,  na década de 50 praticamente voltada para o Desporto. 


Anos 1950 Os primos Robalo e Fonsecas em Moçâmedes. "De pequenino se torce o pepino" lá diz o ditado popular ...
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Nos anos 60 junto à Escola Portugal em Moçâmedes

 
 
Esta foto na  década de 1960 mostra um grupo de jovens estudantes de Moçâmedes  com a farda da MP. incorporadas na procissão do Corpo de Deus, a mais cerimonioda da época.


 
 Terminada a guerra de 1039-45. a MP, que cedo abandonou a política e descambou rapidamente para a prática do desporto.
 
 
 
 
 
 mas é sabido que a Mocidade Portuguesa quando surgiu (aqui ainda sem a farda que conhecemos) , não era inocente, e que a "fonte de inspiração" da MP criada em 1936, residiu na sua congéneres alemã. Uma relação embaraçosa , Segundo o livro "Mocidade Portuguesa - Homens Para um Estado Novo" (Esfera dos Livros), de Joaquim Vieira, o Estado Novo olhava para a organização juvenil hitleriana, "com simpatia" para uma formação de jovens afectos ao regime, numa altura em que estava prestes a eclodir a Guerra Civil de Espanha e os nazis procuravam aliados. Mas naturalmente com suspeição diremos nós, e estrategicamente ja que Hitler no poder representava uma ameaça para a Europa e para o mundo, como se veio a verificar com o estalar da 2ª Grande Guerra de 1939-45, em relação à qual Portugal se manteve neutral.
Nessa época não se vivia em Portugal em democracia, mas em regime de partido único, e havia a policia politica que não brincava em serviço. A MP enquanto organização para-militar juvenil, o surgiu no quadro ditatorial, anti-democrático e anti-parlamentar do Estado Novo, numa altura em que na Alemanha surgira a juventude hitleriana, e Hitler no poder representava uma ameaça para a Europa e para o mundo, como se veio a verificar com o estalar da 2ª Grande Guerra de 1939-45, em relação à qual Portugal se manteve neutral.
 
 A partir de 1940 assiste-se a um progressivo afastamento com relação à  JH quando Marcelo Caetano assume  funções de Comissário Nacional da MP e terá seguido as directivas de Salazar em prol de uma neutralidade. E também porque em face da Guerra temia a furia dos britânicos, embora no contexto do conflito ao nivel da cupula da MP  se verificasse a opção por uma proximação com jovens franquistas da Juventude da Falande e do Sindicato Espanhol Universitário. 



Salazar era um homem da direita conservadora católica, um anti-liberal, antidemocrático, antissocialista, preocupado com o comunismo, com a liberdade sindical, com os partidos políticos, com o parlamentarismo, próximo do integralismo lusitano, viveu as duas guerras mundiais, e também temia o avanço da Alemanha na Europa, caso Hitler vencesse a guerra, e a recuperação pela Alemanha do Sudoeste Africano Alemão sob o protectorado da União Sul Africana, com base no mandato que lhe foi conferido pela sociedade das Nações no final da 1ª guerra. Tratar "com pinças" a situação taria lenado a uma aproximação  

De início a organização da MP tinha por objectivo abranger toda a juventude escolar ou não, contudo acabou por recrutar quase exclusivamente os alunos dos ensinos primários e secundário, e com o pós Guerra (1939-1945) que veio logo a seguir, com a derrota da Alemanha, com o perigo dissipado, a MP foi perdendo o carácter para-militar pretendido, e tornou-se uma organização voltada para o lazer e para o Desporto, uma espécie de Escuteiros. 

Terminada a guerra, a MP tornou-se uma instituição diferente , ainda que intrinsecamente ligada aos interesses e objectivoos do programa do regime.

 

 
 



Em Portugal, a Mocidade Portuguesa procurava enraizar uma nova mentalidade ao serviço do Estado Novo que defendesse a trilogia do regime fundada em «Deus, Pátria e Família». Para isso era necessário estimular o desenvolvimento integral  capacidade física da juventude, a formação do carácter, a devoção à Pátria, o sentimento da ordem, o gosto da disciplina, e o culto do dever cumprido, sendo a  filiação imposta pelo regime, independentemente ou não da adesão das populações.      
 
Através da MP, os jovens ganhavam amigos, passavam momentos agradáveis, nos acampamentos, nos passeios, no desporto, ou seja, em actividades que as posses da maioria não permitiriam penetrar. Eles tinha acesso a muitas coisas gratuitas que os jovens de agora para as terem tem que as pagar a bom preço, e nesse aspecto a Mocidade Portuguesa era camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. O que contava para a juventude era a parte lúdica, e nada mais. 

E não creio que os objectivos de inculcação ideológica dos velhos tempos tivessem obtido algum sucesso entre os jovens de Moçâmedes. Em termos factuais, o que sei é que eles souberam aproveitar aquilo que era bom na MP, ou seja os já citados aspectos desportivos e lúdicos. Também sei que até houve alguns que nos anos 1960 se tornaram mesmo activistas contra o regime de Salazar e do Estado Novo quando tiveram que partir para a Metrópole para prosseguir os estudos para níveis superiores, uma vez que na altura Angola não possuía uma Universidade. Curiosamente, todos eles faziam parte de uma segunda geração de brancos nascidos em Angola, todos eles , portanto, rotulados à nascença como euro-africanos ou "brancos de 2ª". . Curiosamente também muitos deles estiveram ligados à Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. O trauma da independência do Brasil era latente no EN.. Não eram apenas olhados com suspeição os negros, sobretudo os civilizados. Até 1960 perduraram leis que cindiam brancos com relação, negros com relação a negros, e brancos e negros. O Indiginato até 1961 impôs a divisão dos negros em indígenas e assimilados. Os assimilados à cultura portuguesa tinham os mesmos direitos que os brancos. Entre brancos, como atrás citado, distinguiam-se os filhos de portugueses originários de Portugal (reinóis), dos brancos nascidos em Angola para lhes limitar os direitos civis, reflexo da desconfiança e suspeição em relação aos naturais das colónias. Estes não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia a nível superior na administração pública colonial, etc., etc. O próprio facto de não haver em Angola uma Universidade era significativo...
 
Apesar de existir repressão política, proibição de partidos e da liberdade de expressão, o regime do Estado Novo e de Salazar não se pode comparar ao que havia sobretudo na Alemanha de Hitler.

 
O 28 de maio de 1926 representa o pronunciamento militar que pôs termo à Primeira República, e deu os primeiros passos para o Estado Novo, regime que durou até 1974. Em 1932, Salazar é nomeado presidente do Conselho de Ministros e em 1933 é referendada uma nova Constituição, documento fundador do Estado Novo. Com Salazar e o Estado Novo, pelo menos até aos anos 1950, era assim...Para uns, "saudação olimpica", para outros "saudação nazi"!
 
Como propõe Torgal, Mendes e Catroga (1998), a implementação do Estado Novo em Portugal deu novos rumos para a história vivida e contada do país. Sofreram transformações e todas as esferas da sociedade e promoveram uma História revisionista e focada em enaltecer a religião, os valores, o líder, a nação e seus heróis. Todos estes aspectos partiram da aposta em uma educação doutrinária, escolhida como o melhor plano para criar uma nova elite e uma nova sociedade que viria a legitimar o Estado Novo português e as suas práticas, bem como impulsionar o movimento de “Revolução Nacional” que foram pensados ainda quando Salazar ocupava as cadeiras da Universidade de Coimbra como bacharelando em Direito. Um pouco do perfil do líder pode ser observado nas publicações d’O Imparcial – jornal acadêmico – onde trabalhou em conjunto com amigos de peso, como o futuro Cardeal Cerejeira (MENESES, 2011). Para além destas estratégias discursivas, é fato que em 1933 houve a implementação do Estado Novo, de onde Salazar colocou em prática os planos revolucionários dos quais ajudou a elaborar e propagandear.... A este respeito ver: "Mocidade Portuguesa: fundação, organização e atuação desta juventude salazarista (1936-1945) Marcos Maurício Costa Freitas

    É evidente que a Mocidade Portuguesa não era inocente, a filiação era imposta pelo regime, tal como as leis que recaiam sobre as populações, não adivinha da vontade das pessoas. Vivia-se em regime de ditadura de partido único, e havia a policia politica.  A organização da Mocidade Portugiesa surgiu no quadro, anti-democrático e anti-parlamentar do Estado Novo, numa altura em que na Alemanha surgira a juventude hitleriana, e Hitler no poder representava uma ameaça para a Europa e para o mundo, como se veio a verificar com o estalar da 2ª Grande Guerra de 1939-45, no decurso da qual Portugal se manteve neutral.
     
    Salazar era um homem da direita conservadora católica, um anti-liberal, antidemocrático, antissocialista, preocupado com o comunismo, com a liberdade sindical, com os partidos políticos, com o parlamentarismo, próximo do integralismo lusitano, viveu as duas guerras mundiais, e também temia o avanço da Alemanha na Europa, caso Hitler vencesse a guerra, e a recuperação pela Alemanha do Sudoeste Africano Alemão sob o protectorado da União Sul Africana, com base no mandato que lhe foi conferido pela sociedade das Nações no final da 1ª guerra.Em face a eventuais perigos tinha que agir com cautela.
     
    De início a organização da MP tinha por objectivo abranger toda a juventude escolar ou não, contudo acabou por recrutar quase exclusivamente os alunos dos ensinos primários e secundário, e com o pós Guerra (1939-1945) que veio logo a seguir, com a derrota da Alemanha, com o perigo dissipado, a organização juvenil foi perdendo o carácter para-milit,  tornou-se uma organização voltada para o lazer e para o Desporto, uma espécie de Escuteiros.  Através da MP, os jovens ganhavam amigos, passavam momentos agradáveis, nos acampamentos, nos passeios, no desporto, ou seja, em actividades que as posses da maioria não permitiriam penetrar. Eles tinha acesso a muitas coisas gratuitas que os jovens de agora para as terem tem que as pagar a bom preço, e nesse aspecto a Mocidade Portuguesa era camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. O que contava para a juventude era a parte lúdica, e nada mais.  E não creio que os objectivos de inculcação ideológica dos velhos tempos tivessem obtido algum sucesso entre os jovens de Moçâmedes. Em termos factuais, o que sei é que eles souberam aproveitar aquilo que era bom na MP, ou seja os já citados aspectos desportivos e lúdicos. Também sei que até houve alguns mociitários que nos anos 1960 se tornaram mesmo activistas contra o regime de Salazar e do Estado Novo quando tiveram que partir para a Metrópole para prosseguir os estudos para níveis superiores, uma vez que na altura Angola não possuía uma Universidade.  Curiosamente, todos eles faziam parte de uma segunda geração de brancos nascidos em Angola, todos eles, portanto, rotulados à nascença como euro-africanos ou "brancos de 2ª". . Curiosamente também muitos deles estiveram ligados à Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. 
     
    O trauma da independência do Brasil afectara os nossos governantes,  pelo que as gerações de brancos nascidos nas colónias era olhadas com suspeição, como com suspeição olhavam para os negros e os mestiços civilizados. Até 1961 perduraram leis que cindiam brancos com relação, negros com relação a negros, como o Indiginato que impôs a divisão dos negros em indígenas e assimilados, estes com mesmos direitos de cidadania que os brancos. Entre brancos, como atrás citado, distinguiam-se os filhos de portugueses originários de Portugal (reinóis),  e os nascidos em Angola para lhes limitar os direitos civis, reflexo da desconfiança e suspeição em relação aos naturais das colónias. Estes não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia a nível superior na administração pública colonial, etc., etc. O próprio facto de não haver em Angola uma Universidade era significativo. Apesar de existir repressão política, proibição de partidos e da liberdade de expressão, o regime do Estado Novo e de Salazar não se pode comparar ao da Alemanha de Hitler. 
     
    No meu tempo (foto de 1957)  só os rapazes eram abrangidos pela MP. Porém sabe-se que houve um  em Moçâmedes um ressurgimento da MP  feminina , como a masculina igualmente voltada para o desporto e actividades recreativas, excursões, etc  que perdurou até 1975.
     
    Na foto que segue , eu e as minhas colegas dos cursos de Formação Comercial e Formação Feminina , na Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes. Só os rapazes ostentam a fatda da MP. Estava-se no ano de 1956, em Moçâmedes.