COLONO VELHO" :
Manuel Augusto de Pimentel Teixeira, como ele mesmo se descreveu:
"Tendo frequentado o liceu de Santarém (1888 a 1895) e encalhado no latim e nas “cachopas”, enveredei para o curso de farmácia que vim a completar em 25 de Junho de 1898, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto com a classificação de 13 valores. Em 18 de Junho de 1898 fui para Vilar de Paraíso como Director Técnico da Farmácia Moura, mas como tinha um especial azar á “arte de farmácia” vim para Mossâmedes, (Angola) tendo embarcado no vapor ZAIRE, chegando aqui a 19 de Maio de 1902, trazendo no bolso a importante quantia de 3810 reis, 55 quilos de peso e ... esperançosos sonhos. Afinal, protegido por meu primo Serafim Simões de Figueiredo, UM GRANDE AMIGO, tive que montar a Pharmácia Moderna que abri aos 12 de Junho de 1903, a qual por questões políticas locais fui forçado a vender em 1913. Do que se seguiu e está seguindo falarão as ... histórias. Casei com ... minha mulher, D. Berta Pinto Coelho, senhora da minha grande consideração e amizade, que me presenteou com seis filhos, isto é, três filhas e três filhos, um dos quais (Manuel , 1º de nome) veio a falecer em 2 de Maio de 1912 com 14 meses incompletos. (auto-biografia escrita em 1923). " Fim de citação.
Do site de Aida Saiago
Foto de GeneallNet.
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Vivendo em Moçâmedes ouvíamos estórias daqueles tempos mais atrás, e de Manuel Augusto de Pimentel Teixeira, o que se dizia é que era maçon natural de Alvaiázere, Maçãs de D. Maria, que na cidade do deserto se radicou, onde exerceu funções de farmacêutico, e onde em 1913 foi proprietário do Jornal "A Pátria", Jornal literário e político, órgão do Partido Republicano Português, que defendia "que tínhamos (nós, os brancos) de arranjar em cada "gentio" um amigo se quiséssemos ter uma Angola para todos...».
Com o texto acima ficámos a saber que Manuel Augusto de Pimentel Teixeira por questões políticas fora forçado em 1913, nos primeiros anos da 1ª República. implantada em 1910, a vender a sua Farmácia Moderna, aquela mesmo ali em frente à Praça Leal ou Praça de Táxis, em Moçâmedes. Ora, assim sendo, incompatibilida-des políticas que vinham de longe. Aliás, sabe-se que a 1ª República gorou algumas das espectactivas de muitos colonos republicanos... Seria o caso!
Já após 1975, em Portugal conversei a propósito deste seu avô com a poetisa Vera Lúcia Carmona, que confirmou ser Manuel Augusto de Pimentel Teixeira um maçon inscrito, que ao sentir-se perseguido após a subida ao poder de Salazar, por questões políticas, a determinada altura viu-se forçado a enterrar fotos, documentos e paramentos lá para os lados do Alto do Governo, nas profundas areias do Deserto do Namibe. Aliás é sabido que em Moçâmedes, Sá da Bandeira, Benguela e Moçâmedes , em 1936, estava activa a loja maconica "Pátria Livre", lojas maçonicas que em Angola eram chamadas Kuribekas. E que nesse ano por todo o Portugal e colónias, maçons foram objecto de perseguições, devassas, deportações, prisões, e tudo quanto eram associacões opostas ao regime foram dissolvidas e encerradas.
Se em 1913 na vigência da 1ª República Portuguesa, Manuel já em Moçâmedes teve que vender sua Farmácia, devido problemas de ordem polítca, no contexto da nova ordem que se estabeleceu no Portugal metropolitano e nas colónias de Africa, após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e a subida de Salazar ao poder, Estado Novo, nova Constituição, nacionalista, antidemocrática, antiliberal, corporativista, colonialista e conservadora , etc ectc não admira que a situação se tenha agravado, Tanto mais quanto sabemos que foram tempos de perseguições aos partidos políticos e aos opositores, tempos de censura prévia a tudo quanto eram informações em desacordo com a ideologia oficial do governo.
Entretanto chegou ao meu conhecimento a lista dos filiados na OFICINA MAÇÓNICA "PÁTRIA LIVRE" DE MOÇÂMEDES N. 389, NR DA MATRÍCULA E RESPECTIVOS NOMES SIMBÓLICOS. Uma verdadeira preciosidade que me foi proporcionada pela Ana Maria , uma conterrânea, cujo avô era maçon, seu nome consta da preciosa lista, tal como o de Manuel Augusto de Pimentel Teixeira .
A lista não tem data, mas a ter em conta que o ano de 1935 foi o ano das devassas, perseguições, deportações, aprisionamentos, em Angola, bem como do encerramento das Associações secretas em todo Portugal, apontamos para aí.
Ela aí vai... No final deste texto, exibindo nomes reais de gente conhecida e os respectivos nomes simbólicos. Manuel Augusto de Pimentel Teixeira escondia-se sob o nome simbólico de Fiat Lux.
NOMES PRÓPRIOS NOMES SIMBÓLICOS
Manuel da Silva Dias A. Comte
Alberto Carlos das Neves Cabral N. Alvares Pereira
Julio Rogado Leitão Elias Garcia
Manuel Augusto de Pimentel Teixeira Fiat Lux
Romulo Martins Torres Rafael
Manuel Sirgado Camões
José dos Santos Ribeiro dos Santos
António Menandro Guerra Giordano Bruno
Manuel Gonçalves Vaz Pereira R de Freitas ?
Lourenço Martins Morgado Albino
Raul da Silva Marques Mirabeau
José de Oliveira Leite Marcus Brutus
Francisco Carvalho Ervedosa Freire de Andrade
Joaquim Antunes da Silva Proença Napoleão Bonaparte
Fernando Pestana R Salgado
Álvaro César de Meireles Dantão
Manuel da Costa Santos F. Tomás
José António Rodrigues Vasco da Gama
Jaime Frazão Kiriam
João Ferr, Duarte Leitão Marquês de Pombal
José Pompeu da Gama Ochoa G. Verdi
João Carlos de Figueiredo Hugo
Pedro Severo ??
João Emilio da Costa e Coimbra? Camilo
Lorenço Cordeiro Dias Saldanha
José Vitorino Teixeira de Faria Castilho ?
Raul Augusto Simões de Figueiredo Rufi
Alfredo Magalhães Falcão
Jacinto Gomes de Almeida
Manuel de Oliveira Leitão
Antonio Augusto de Miranda
Jaime da Costa Maria Rocha
Raul d'Oliveira A?
Porquê "Fiat Lux"?
Pela designação dos termos em Latim, o significado de Fiat Lux é “Faça-se luz” ou “Haja luz”. A expressão aparece no terceiro versículo do Livro de Gênesis da Bíblia, que marca o momento em que Deus estava criando o Universo, ou seja, estava criando a luz.
No terceiro versículo está escrito: “(...) E o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz: e houve luz. E Deus viu a luz, e foi bom, e Deus separou a luz das trevas”. Fiat Lux também remete a ideia de criar-se ou dar origem a algo novo, como uma ideia ou um pensamento. Além disso, a frase pode ser usada como metáfora, ao dissipar a ignorância (isto é, trazer clareza e verdade para as pessoas). Fiat Lux na Maçonaria é como que um símbolo – que acomete ao ponto máximo da iniciação de um novo candidato (maçon), momento em que ele está recebendo a luz da sabedoria maçônica, fazendo com que ele saia do mundo profano e de suas trevas para entrar no mundo místico. Quando se cria uma idéia, um pensamento, estamos simplesmente criando algo novo, ou seja, "Fiat Lux". A frase é usada também para outro significado da metáfora, o de dissipar a ignorância. Muito utilizado na Maçonaria, diz-se que é o ponto culminante da iniciação, ocasião em que o candidato recebe a luz da sabedoria maçónica, posto que estivesse nas trevas do mundo profano.
Acrescento ainda que Pimentel Teixeira trabalhou na Farmácia do Sindicato da Pesca na Torre do Tombo e foi numa das idas e vindas na sua bicicleta que teve um desastre e faleceu na década de 1950. Caiu da bicicleta depois de ter descido a rua da Fortaleza, indo se estatelar já junto da Avenida zona da Capitania,
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Este é um pedacinho de um "mundo" correspondente ao mundo dos nossos dos nossos avós, mesmo dos nossos bisavós, do avô Manuel da Vera Lúcia, do avó Manuel da Ana Maria, as moçamedense que tão gentilmente se dispnibilizaram a ceder-me estas informações, imagine-se, de gente que viveu em Moçâmedes, Angola, na fase final da monarquia constitucional (regime político que já vinha de 1143), como Pimentel Teixeira que ali chegou em 19 de Maio de 1902, quando os tempos eram outros... Gente que assistiu à ascensão e queda da 1ª República Portuguesa, que lhes trouxe esperança e também decepção. Que foi contemporânea do golpe militar do 28 de Maio de 1926, que abriu as portas do poder a Salazar e ao Estado Novo, poder ditatorial que acabou com o regime dos Altos Comissários, promessa de um tempo novo de maior autonomia financeira para as colónias. que ficou para trás...
Preciosa lista que mostra ao mundo como os "colonos" não se encontravam reduzidos a meros agentes de um colonialismo engendrado e comandado a partir do Terreiro do Paço, como por vezes se pretende fazer passar.
Com o Estado Novo a situação complicou-se , mas 1958 se foi excepção também foi exemplo de que colonos não estavam completamente anestesiados...
Em todo o Portugal , continental e Ultramarino, nesse ano houve eleições presidenciais, e eu mesma, então uma adolescente, pude assistir no Cine Teatro de Moçâmedes a algo inédito: uma sessão politica de esclarecimeno! Algo a que não estávamos habituados. Falar em público de poltica em Portugal!
Do alto do palco do Cine Moçâmedes , Mariano Pereira Craveiro, republicano, oposicionista do regime, lado a lado com Carlos Martins Cristão e outros mais, integrados na campanha do General Humberto Delgado contra Américo Thomás, dirigiam à população um discurso arrebatador ... A determinada altura Carlos Martins Cristão, nesse final de Maio de 1958, tendo Mariano Pereira Craveiro a seu lado, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente:
"Eles é que têm as armas... Eles é que têm os canhões... Nós só temos os braços para trabalhar! "
Por parcos momentos, as eleições de 1958 haviam despoletado o interesse em meio a uma população politicamente, pelo menos aparentemente adormecida. E vozes até então caladas levantaram-se para aplaudir...
O que veio a acontecer a seguir a Humberto Delgado, foi o que já se fazia esperar; o General sem medo acabou perdendo as eleições, apesar das retumbantes vitórias alcançadas, e a reacção ao General viria a culminar num bárbaro assassinado, no dia 13 de fevereiro de 1965, perto de Badajoz, quando, refugiado desde há algum tempo em Espanha, atravessara a fronteira, em Villanueva del Fresno para uma reunião em território português. De novo as vozes foram silenciadas. Hoje sei que as pessoas não eram tão conformadas como aparentavam ser...
A Mariano Pereira Craveiro nada aconteceu, mas a PIDE ficou de olhos nele e em todos os seus companheiros da oposição política. E no entanto Mariano Pereira Craveiro era uma referência em toda a Angola e não só. Moçâmedes e as inúmeras outras cidades de Angola, com especial referência para Serpa Pinto (Menongue), ficaram a dever a este cidadão moçamedense, o facto de serem em 1975 cidades progressivas em matéria de habitação para todos, preenchidas com lindas vivendas que faziam o encanto de residentes e visitantes, alcançadas graças a um sistema cooperativo de habitação a partir de pequenas e acessíveis quotizações mensais . Ele foi o pai da Sociedade Cooperativa de Habitação, "O Lar do Namibe", e quem hoje percorrer a cidade por lá encontrará, colado acima das janelas das casas, em azulejo colorido , o distintivo. Mariano Craveiro , o Presidente e fundador, seus colaboradores e associados conseguiram juntos esse milagre da "multiplicação das habitações" para a cidade e para as familias, num tempo em que eram inexistentes créditos bancários à habitação, e Moçâmedes estava reduzida ao seu centro histórico
MariaNJardim










