Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Mossâmedes, Moçâmedes , Namibe: Torre do Tombo e falésia no último quartel do século XIX




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Baía de Moçâmedes, mais conhecida entre os ingleses por "Little Fish Bay"  (Pequena Baía dos Peixes). figurava nas antigas cartas e roteiros sob a designação de "Angra do Negro", (1)
 
Foi aqui que, em pleno «morro», «grutas» que foram escavadas a punho na rocha branda por mareantes que em tempos remotos por ali passavam e ali faziam «aguada» (forneciam-se de água e descansavam). 
 
Foi aqui que foram encontradas impressas «inscrições» registadas em pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa de visita em 1785 à Angra do Negro (designação do lugar onde mais tarde seria erigida a cidade de Moçâmedes da época colonial portuguesa, hoje, cidade do Namibe, no sul da república angolana) e registou as inscrições gravadas por mareantes e corsários na rocha branda. Talvez tivesse sido este oficial português o primeiro que chamou ao morro das inscrições Torre do Tombo, pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome. Ao certo podemos afirmar  que nos secs XVll e XVlll a Angra foi muito visitada  por navios nacionais e estrangeiros, como mostravam as inscrições que Pinheiro Furtado encontrou no morro argiloso. já atrás citadas, e que estiveranm na origem  da designação "Torre do Tombo" ao local,  por constituir um verdadeiro arquivo histórico.  Estas inscrições  encontram-se referidas nas "Memórias Histórico-Estatísticas de Brito Aranha.  e a elas se refere  Pinheiro Furtado em oficio de 04 de Outubro de 1785. dirigiu ao Barão de Moçâmedes , ao tempo capitão-general de Angola.  

Transcreve.-se da obra de Mendonça Torres:
"São em número de 28, datadas de  1645 a 1770:

Ei-las:
 
" KEMY  - 1723
ll -- IS -- 1766
Luis de Barros passou por aqui em  1785 anos
André Chevalier G Y 1666
Jan Dier
Francisco de Barros
Bernardo Quado Aso do Febro passou por aqui em 1665
W
--FNR--PM
O
Thomas Decombro 1762 e em 1770
José da Rosa 1645
MR 1649
W TAYLOR 1768
18--1770
De Tonchon
Rio Cunene
Monde en...  65
S F 1770
Aqui escreve o patacho do Goya  1665
Manuel Rodrigues Coelho
Martim em 1770
Aqui esteve o piloto Mateus Pires Silva da
Pederneira  1665
 Thomas de Sousa

O capitão José da Rosa Alcobaça passou por aqui
indo para o Cunene no patacho Nossa Senhora da Nazareth
em 04 de Janeiro de 1765
O capitão Manuel de Lima
Aos 6 de Fevereiro saltou o sargento  Domingos de Morais, nesta baía que é formosa, 
em companhia do seu capitão José da Rosa em 1665
 
JAN: DIMMESEN 1669
VNSSENGAE  PEL 1669
ADRITEENDIRERSEN».
 
A mais antiga destas inscrções é como se vè a de  1645, mas o documento transladado no número 8 do  "Jornal de Moçâmedes". de 25 de Novembro de 1881, cita a seginte, de data anterior:

"1641 -- D. António Menezes da Cunha
ou D. António da Cunha Menezes"
 
Esta inscrição foi achada, em 1841, por Bernardino José Brochado. que parece. a fixou de memória, Como a areia acumulada pelo vento  cobrisse o morro até grande altura, lembram-se très moradores de Moçâmedes em 1858, de o desentulhar  e de reproduzir em fac-silmile as inscrições , das quais, diz aquele documento, existem cópias  no Arquivo sa Càmara Municipal. Nesta pesquisa não foi porém encontrada a referida inscrição de 1641.

Devemos, finalmene salientar o natural reparo de Gastão de Sousa Di (4 de Janeiro) em confronto  com a de 1665 (6 de Fevereiro). pois que, segundo as inscrições, na primeira "passou pela Angra", indo para o Cunene, e na segunda "saltou na Baía" . Diferindo aquela data (1765), precisamente  um século da primeira (1665), crê Sousa Dias houvesse erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665. Melhor será reproduzir a bem fundamentada opinião de Souza Dias:

" ... teremos sempre um capitão José da Rosa visitando a Angra do Negro (Moçâmedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía  e Moçâmedes um capitão José da Rosa a 04 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao Rio Cunene,  estando de regresso à mesma Baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais.

Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. No ll Volume  da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cordonega,  encontra-se a seguinte onformação: Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros ir um homem prático a descobrir esta costa , por nome José da Rosa,  por ver se encontrava alguma notícia  de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze) e, chegando costa a costa a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que busscava, etc. Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor) , pois o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666. (Gastão de Sousa Dias, Pioneiros de Angola). 

Sobre o deaparecimento das inscrições,  refere Mendonça Torres que teve a ver com a instalação das pescarias no bairro da Torre do Tombo. como desapareceram , ultimamente ase datas mais recentes. Afirma Brito Aranha nas suas Memórias Histórico-Estatísticas  (1883) que os governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859) e 1863-1866) e Joaquim Jos~e da Graça (1866-1870) deixaram igualmente lembrança de si naquele morro,

 
Refere ainda Mendonça Torres: "Não obstante a  Angra ter sido frequentemente  visitada desde 1485, data da colocação do Padrão do Cabo Negro, até 1785, ano em que se realizou a primeira exploração à costa meridional de Angola  não se cuidou no decurso destes  três séculos de se mandar proceder à ocupação militar nem sequer a estudos  preliminares para o indispensável conhecimentos dos vastos territórios para o Sul de Banguela, porque as atenções da Nação , irreesistivelmente atraídas a principio para a continuação das  Descobertas foram pouco depois absorvidas, até ao delírio,  pela explração económica, sobejamente compensadora das terras opulentas do Brasil.  E, assim desvairada, a Colónia inteira pela febre  intensíssima do tráfico. preocupação única e constante do Comércio, não foi possível, em tão longo periodo iniciar-se o vantajoso e patriótico empreendimento   da colonização do Distrito.
 
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In «Quarenta e cinco dias em Angola» podemos lêr esta passagem: «...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram áquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos ilustres, com datas de quasi dous séculos. »

Mais tarde, lá para meados do século XIX, foram essas grutas que abrigaram os primeiros colonos algarvios que, estimulados pelas promessas do Governo português, a quem interessava a fixação, partiram de Olhão para Moçâmedes em busca de melhores condições de vida, e que, em levas sucessivas, voluntariamente, sem apoios governamentais, continuaram pelo século XX a dentro a chegar... Os primeiros, em caíques e barcos à vela (pequenas cascas de noz, de vela latina triangular, utilizados na pesca e comércio de cabotagem na costa portuguesa, no norte de África e no Mediterrâneo).
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Nas fotos ainda que apagadas, vêem-se algumas das «grutas» que mais tarde foram aproveitadas como armazém de material das pescarias. Como se pode facilmente verificar, o «morro» ou falésia da Torre do Tombo corria nesta altura directo ao mar, não existindo uma estrada sequer que permitisse o acesso dos proprietários às suas pescarias, construidas mais a sul, no local designado «Pedras», onde em finais da década de 1950 passaram a ficar a ARAN e o cais-acostável



 
 
Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe... de início era não era mais que um areal desértico junto à foz onde Bero ou Rio das Mortes ia desaguar...«Angra do Negro», assim lhe chamaram os primeiros navegantes que em tempos remotos ali aportaram. Mas havia quem lhe chamasse outros nomes: "Tchitoto tchobatua" (buraco dos passarinhos) era o nome por que era conhecida pelos mucubais; "Ombala» (terra do litoral oceânico), assim lhe chamavam os Muhilas, Mossungo, nome do soba da região pelo qual era conhecida. Não se sabe ao certo se a designação «Angra do Negro» teria a ver com embarques de escravos, pensa-se que não, pois foi tardia a fixação dos portugueses por estas paragens agrestes e pouco convidativas, para além de se tratar de uma zona desértica e sem interesse, de baixa demografia. No entanto aguardemos que o rolar da História desvele outras realidades.  Benguela sim, e Luanda foram incontestavelmente portos marcados por esse tráfico que ficou para sempre a representar a maior nódoa da colonização portuguesa e europeia em terras de África. O interesse pela fixação em terras ao sul de Benguela veio a acontecer bastante depois da independência do Brasil em 1822, quando, perdidas aquela colónia e as riquezas que representava, Portugal se vira finalmente para África. Moçâmedes seria, quando muito, o símbolo dessa viragem. Para bem ou para mal de angolanos e portugueses, foi a partir daí que começou a colonização. Até aí Angola não passou de um interposto de tráfico de escravos para o Brasil e Américas. 
 
Fotos inéditas da Torre do Tombo em outras eras...

Nas fotos 1 e 3 vêem-se instalações ocupadas pelo Sindicato da Pesca de Mossãmedes, organismo detentor de vastos armazéns e casas para o pessoal contratado, pontes, etc. Criado em 1929, numa altura em que Moçâmedes atravessara uma grande crise , não porque não houvesse peixe mas porque este não escoava para o exterior , e, ou apodrecia nos armazéns ou era deitado ao mar.

Nesta foto, a zona mais ao fundo, de costas para o deserto, era conhecida por "Bairro Feio" . A zona mais próxima era cheia de depressões no terreno que duraram até 1975. sem terraplanagem.
 
Foi neste local, a 1km da vila, que aos poucos, e num movimento continuo mas intermitente desencadeado em 1861, que prosseguiu até finais do século, começaram a surgir aqui e ali, as primeiras casas  dos algarvios de Olhão, e a tomar forma esse bairro habitado por pescadores e constituído por um térreo casario, ao qual ironicamente fora dado o nome de «Torre do Tombo», em analogia com o Arquivo Arquivo Nacional Português, devido às inscrições impressas no morro. 

Os algarvios quer como pescadores, quer como industriais, instalaram as primeiras pescarias e reconstruiram as suas vidas, inaugurando uma nova era de progresso para um distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. No início eram casas construídas em pau-a-pique,  incluindo já um tipo de construção erguida com pedra e cimento, não tardou que o Hospital, ladeado de pavilhões infecto-contagiosos, chegasse às populações carecidas. 

A Torre do Tombo foi no tempo colonial, até pelo menos aos anos 1940, um bairro bastante dinâmico, porém foi sempre também um bairro descurado pela autoridade, sendo no entanto aquele que mais contribuiu para a economia da cidade de Moçâmedes e até do distrito. 
 
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(1) Quanto à proveniência da designação. in Arquivo Pitoresco .vol 4, pg 160, em artigo  firmado com a inicial P. . qie Brito Aranha diz ser de F.A. de Almeida Pereira e Sousa, podemos ler:  "Já no séc XVll a Angra era muito visitada de navios portugueses, e ainda mais de corsários    estrangeiros, uns e outros. porém, sómente a procuravam, ou para refrescar e fazer aguada, ou por ser ponto azado às especulações de escravatura». E num folheto sobre assinto local, saído a lume em 1913 intitulado de A Derroada assevera-se que "a Baía de Moçâmedes era conhecida por Angra do Negro, porque por ela, como por todas as baías,  angras e enseadas de Angola, se fazia larga exportação de escravos". O carácter da época, e informaçõev do primeiro explorador da Angra parecem conformar a asserção, refere Mendonça Torres in "O Distrito de Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização". 1º volume, pg 27.  
 
Quanto â veracidade de tráfico a partir da Angra  o que se sabe é que Pinheiro Furtado no seu relatõrio sobre a viagem que realizou  ao local refere que ele e os companheiros, logo que desembarcaram, notaram na praia " sinais evidentes de ter sido a Angra habitada em épocas longínquas. Conta-nos também que para o interior "encontraram povos vagabundos  que se entregavam à pastoricia".  E, por fim narra-nos o episõdio trágico passado no Rio das Mortes, dando-nos conhecimento de ter sido muito perto da foz do Bero (que desagua na Angra), o local onde foram assassinados pelos negros o Tenente José de Sousa Sepúlveda. o cirurgião Francisco Bernardes,e dois marinheiros da fragata Luanda, que à Angra os havia transportado. Segundo Mendonça Torres estava-se na época do maior desenvolvimento do tráfico de escravos , durante o qual  as proximidades da Angra eram habitadas, pelo que muito natural seria embora, não possamos afirmar que  ela houvesse recebido a designação pelos motivos expostos.

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