Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Transporte de água em carros de bois em Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe: meados do século XIX




Postal precioso acompanhado de descrição, onde podemos ver uma carroça em madeira puxada por bois destinada a transportar em grandes barris, a água tão preciosa naquele areal encaixado entre o Deserto do Namibe e o mar. Se repararmos bem, encoberto pelas traseiras dos corpos dos bois, podemos ver aquilo que parece ser um chafariz em cimento. Presume-se haver alí uma cacimba que alimentava o chafariz.

Por esta altura ainda o edifício da Alfândega de Moçâmedes, um dos mais antigos da cidade, estava em construção. Também podemos ver a «água furtada» do edifício de  1º andar, também dos mais antigos,  que teve como primeiro proprietário a familia Zuzarte Mendonça. Sito na Rua dos Pescadores, hoje em dia no 1º andar deste belo edifício,  fica o Museu Etnográfico do Namibe, onde repousam alguns dos parcos restos do Império...




Nos Annais por Lapa Faro, encontrámos esta passagem:

"...Agua potável. — Esta agua, não sendo em Mossamedes de superior qualidade, é comtudo das melhores que se encontram na Província. Todos sabem que por estes litoraes não se offerecem outras aguas para empregar nos usos da vida senão as que provém de rios ou poços. Este logar, como não é exceptuado, tem por fonte o rio Bero. Achando-se este secco na maior parte do anno, obtem-se a agua fazendo covas na areia do seu leito; esta sahe um pouco turva, e a maior parte das vezes com um ligeiro sabor a limos ou raizes, o qual perde depois de filtrada, como se usa geralmente; ella não tem gosto que denuncie predominância de saes, cose bem os legumes e dissolve o sabão; alem d'islo deve-se notar que não produz nos habitantes a tumefacção do ventre, que é ordinária onde as aguas não são de boa qualidade. A agua dos poços, que existem nos quintaes, apesar de ser ligeiramente salobra, dissolve menos mal o sabão e serve para os usos culinários, bem como para lavagem de roupa. Muitas pessoas também a bebem sem que d'isso lhes resultem inconvenientes. Estes poços, não obstante estarem a duas milhas de distancia do rio, são alimenlados pelas suas aguas, as quaes chegam a esta distancia por infiltração que se faz nas areias.

PARTE NÃO OFFICIAL.
ÍNDICE DAS MATÉRIAS CONTIDAS NA SERIE I.
FEVEREIRO DE 1854 A DBRO DE 1858.




Vejamos o que sobre a vila de Moçâmedes ( Situação, clima, pluviosidade, água potável, cacimbas, transportes de carga, agricultura, etc) nos diz o Auhor: Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913 Publisher: Lisboa, Typographia do jornal As Colonias PortuguezasYear: 1892:


«...A villa de Mossâmedes, situada na zona do distrito que se prolonga de norte a sul, com a  costa marítima, baixa e arenosa, separada da zona planáltica chuvosa e ricamente arborizada pela cordilheira da Chela, onde apenas durante três meses no ano caiam algumas bátegas de água,  era naturalmente carente de chuvas, mas não totalmente carente de água; Apesar das vicissitudes do regimen pluvial, muitas das casas possuiam poços que forneciam água necessária para os usos ordinários, para além dos chafarizes que abasteciam em várias zonas.

Era água de má qualidade, pesada, salitrosa, que produzia perturbações digestivas  o seu curso entre a Chella e o litoral mais curto e directo, formado em grande extensão por um leito de pedras e principalmente por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de um a nascente que deriva para elle um grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau(Dyau), durante a primeira parte da estação chuvosa do planalto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as primeiras chuvas na zona baixa; em quanto que os rios de S. Nicolau e Koroka são alimentados pelas chuvas que cahem sobre as vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, de janeiro a abril. E' de notar-se que o regimen pluvial d'esta zona difere considerávelmente do da zona alta. N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro formando a primeira parte da estação chuvosa, chamada das pequenas chuvas. N'esta quadra, dominando os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto descarregam sobre elle não chegando á zona baixa. Apenas de janeiro a maio, que comprehcnde a quadra das chuvas torrenciaes e dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas attingem a zona baixa e chegam á facha arenosa do litoral produzindo innundações passageiras, que ainda assim são o único recurso para a fertilidade dos terrenos agricultados nas proximidades de Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau. 


Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que se conserva por espaço de um e dois mezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um rico adubo aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos rios. Estas fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes, hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 raachinas a vapor e possuem 32 engenhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente.


Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe. Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a estação chuvosa compreeende seis mezes no anno. Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen pluvial da zona baixa, cujas causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falam com saudade dos primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de


Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas finas areias não chegam a humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de :poços praticados a profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, que fornecem agua necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa, produzindo perturbações digestivas.


A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém constante apezar das vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nos leva a suppor que cila mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam e continuam com o subsolo da zona baixa. 


E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricollas do vale de Kapangombe investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros. 


A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos. 


Os annos de secca succedem-se uns apóz outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar a.s suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas a troco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos permanentes, que descem do plan alto e formam as origens dos rios da zona baixa. 


E de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos é importante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima da Chella e oferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortir o desejado eíTeito, fácil será por sucessivas investigações animadoras estabelecer um systema de poços artesianos, que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial inconstante, o que concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em productivas fontes de receita.


Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada que parte de Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra do Major, Providencia, Moninho e Kapangombe. 


Esta estrada é percorrida pelos vagons boers que fazem o transporte das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa; pelos viajantes, carregadores e manadas de gado para consumo e exportação.


Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que re-ulta morrer á sede e á fome grande numero de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportação e consumo.condusido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por falta d'agua durante os 10 ou 12 dias de viagem ftitigante por este deserto arenoso, atravez do qual os pesados veliiculos carregados com 100 a 150 arrobas de carga são penosamente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por entre densas nuvens de suffocante poeira. 


Está calculado que morrem annual mente n'este deserto 400 a 600 bois, o que representa um enorme prejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave damno elevam cada vez mais o preço do transporte. 


Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em ISOOO réis e actualmente com a persistência das seccas e mortalidade no gado elevou-se a 2S200 réis. 


Independente da perda material do boi, ha a accrescentar a perda da somma de trabalho que o boer dispende para amansal-o e sujeital-o ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores dos Gambos e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30. Calcule-se do desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros para o transporte das mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem orlando a estrada os cadáveres de um terço ou metade dos seus bois a servir de festim ás hienas e lobos que infestam estas paragens. 


Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de gado por via de Mossamedes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo o aproveitamento de uns tanques naturaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que cae sobre a enorme pedra que dá o nome a este sitio. 


Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos viajantes, um curral para abrigo do gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destacamento. Os tanques cavados na rocha são quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas torrenciaes, os tanques enchem-se d'agua, que se conserva por bastante tempo. E' d'esta agua que bebem os viajantes e o gado. Quando ella diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só permitte que se tire a porção indispensável
para uso dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gado e para cumprimento d'estas ordens e vigilância dos poços tem ali um destacamento militar. 



O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da Providencia, com a diíferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em cavidades das rochas e poças, quando chove; fora d'estas condições anormaes a monotonia do terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Monhino, em cujas fazendas se encontra agua em cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura. 


A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchla miníbilis, falso cedro, algumas euphorbiaceas, espinheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos. 


Xa faciía de terrenos arborisados, que correra parallelos aos contrafortes da Chella, a agua existe com abundandancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem não chega a irrigar a vasta área de terrenos cultivados. O districto de Mossamedes abrange uma arca de 176:250 kilometros quadrados, duas vezes a superficie de Portugal. 


Divide-se em sete concelhos, dois na zona baixa, que são: os de Mossamedes e Capangombe, e cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Huilla, Gambos o Humbe, dos quaes os três primeiros formam a área de colonisação europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas condições de clima nào se prestam á adaptação da raça branca, formam a área de exploração commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cuja creação consititue a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto."


Fim de citação




Os transportes utilizados em Moçâmedes, pelos primeiros colonizadores



Conforme «Anais do Muncípio de Moçâmedes», de início quando da chegada dos primeiros colonos do Brasil a Moçâmedes, o transporte utilizado era o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó, as viaturas dos animais de tracção e sela. Contudo, deve também figurar neste período, o camelo oriundo das Canárias e introduzido por JOAQUIM DA PAIVA FERREIRA, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849.


O camelo, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Mossâmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de contrução, tais como malas de peixe, sacos de fuba, pedra, cal, adobe, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, etc., etc.


O «carro boer», destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam onde houvesse mercadorias ou onde estas fosssem produzidas que se fazia a sua distribuição pelos locais onde eram procuradas por consumidores impossibilitados de as adquirir.Era um veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes sob um toldo curvo de lona, e surgiu em 1881, com a chegada às terras altas da Huíla de familias emigrantes do Transvaal (boers) que se fixaram na região da Humpata.


O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado por um condutor.


Em tempos anteriores ao da chegada dos colonos do Brasil, para o transporte de passageiros, correio, bagagens e mercadorias, chegara-se a utilizar, em viagens de longo curso, os paquetes da «Companhia União Mercantil» que já não existiam por haver falido. Os habitantes de Moçãmedes serviam-se dos paquetes da «Empresa Lusitana», que costumavam escalar o porto da vila nas suas viagens para Lisboa. Em Janeiro de 1881 fundou-se a Empresa Nacional de Navegação, e em Março do mesmo ano tiveram início as carreiras para Angola com os paquetes «Portugal» e «Angola», iluminados a petróleo. Em 1889, paquetes que escalavam Moçâmedes, como o «Ambaca» e o «Cazengo» já eram iluminados a electricidade.


sábado, 12 de janeiro de 2008

Cerimónia de «baptismo» da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo (1946) . As modalidades de remo e natação em Moçâmedes. Outras fotos na Praia das Miragens



A modalidade de REMO

Segundo informações recebidas esta foto regista
a
cerimónia de «baptismo» e lançamento ao mar, no ano de 1946, da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, ocorrida sob o telheiro da ponte do Sindicato da Pesca de Moçâmedes, na Torre do Tombo. Sentados: o então Capitão do Porto de Moçâmedes, o Dr. Novais (médico) e o Padre Simões. De pé. : Álvaro Frota (ao centro, de óculos escuros), Luís da Piedade Martins (marceneiro), Paulino Bexiga (de camisola desportiva, marido de Maria do Carmo Bauleth de Almeida), José dos Santos Frota (de óculos escuros, à dt.), Mário dos Santos Frota (a discursar). As meninas à dt. são Maria Helena Ramos (Duarte) e Maria Celeste Custódio (Nascimento).



Aqui podemos ver a «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo a ser recolhida na praia das Miragens em Moçâmedes. Ao fundo, a ponte e a Fortaleza de S. Fernando. Entre os «remadores» e curiosos, podemos ver aqui, da esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Lopes Braz, José Ferreira (Penha), João Viegas Ilha, Velhinho, Mário Lisboa Frota (Mariuca), Virgilio Gonçalves de Matos e António Gonçalves de Matos (Sopapo). Como treinador, Joaquim Pereira Bajouca. Outros remadores, eram Edmundo Ramos, Mário António Guedes da Silva, João Carlos Guedes Duarte e Eugénio da Silva Estrela. Entre as senhoras encontram-se em fato de banho, Olimpoa Aquino, Marizete Veiga e mais próximo, sentada na areia da praia, Raquel Martins Nunes. Ao fundo à dt., a Fortaleza. Junto da ponte, sobressai por detrás dos ocupantes da «guiga» e junto ao guindaste da ponte, a vela de um «sharpie», modalidade que nessa altura fizera a sua aparição no quadro do desporto escolar levado a cabo pela Mocidade Portuguesa (masculina).
 



A Guiga foi construída na pescaria de Óscar Duarte d´Ameida, por Gilberto Abano, João Custódio e Urbano Canelas, numa altura em que na presidência do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro na cidade (fundado em 1919), se encontrava o moçamedense Mário Frota.
 
 Relativamente à modalidade «REMO», o entusiasmo decrescia, já que existiam somente três barcos, um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, outro, a «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e um «Yolle» do Centro Náutico da Mocidade Portuguesa. Embora os respectivos remadores fossem musculosos, a insuficiência de treinamentos adequado impediu o pleno sucesso das equipas respectivas, contudo, a rivalidade entre eles foi sempre notória, sob manifestações populares de simpatia. Não havia condições, obviamente, de participar em grandes competições intra-muros, que eram então lideradas por tripulações do Lobito e de Luanda.
 
 

 
 
 A modalidade da VELA

 Quanto à prática do desporto, na vertente «VELA» em Moçâmedes, foi de fácil assimilação , obviamente, trazendo para o Distrito alguns títulos, tanto da classe de «sharpie 9m.» , numa primeira fase (década de quarenta), como da classe «Snipes», numa segunda fase (décadas de 50 e 60...).

Os respectivos velejadores desportivos pertenciam ao Centro Náutico da Mocidade Portuguesa, instituição nacional, patrótica, cujo regulamento foi aprovado em 4 de Novembro de 1936 por decreto Nª 27301. Eram estudantes vinculados à Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, estrelas de uma constelação imorredoura, tendo por instrutor, o líder dedicado, Emidio Cecilio Moreira.  As regatas eram normalmente realizadas na baía de Moçâmedes, com ventos moderados, nomeadamente aquando dos festejos tradicionais comemorativos da fundação da cidade, assistidas por numerosa população apaixonada, que se perfilava ao lingo da «Praia das Miragens».

No concernente ao «sharpies», destacaram-se velejadores como Rogério Gomes Ilha, António Artur Ferreira (Penha), Mário José Sequeira de Melo, Cassiodoro Sequeira de Melo, Adélio, Mário António Gomes Guedes da Silva, Armando Guedes Duarte, Armando Ferreira Gomes e outros. São referidos, a seguir, os velejadores de «snipes», primeiramente de madeira e depois de fibra,: Fausto Ferreira Gomes, Leonel Matos Mendes, Fernando Matias, Helder Guedes Duarte, Mário Alexandrino Guedes Duarte e outros.

Mas o título mais honroso para Moçâmedes foi o alcançado no ano de 1956, em Luanda, em «snipes», por Fausto Ferreira Gomes, um assíduo vencedor, coadjuvado por Leonel Matos Mendes, numa regata em que participaram excelentes velejadores dos principais Centros de Vela angolanos - Luanda. Lobito, Benguela e Moçâmedes.

Nas primeiras regatas, antes da utilização de sharpies e de snipes, defrontavam-se baleeiras de pesca não só de Moçâmedes como de Porto Alexandre. Alguns timoneiros destas evidenciaram saber e experiência, destacadamente Aníbal Nunes de Almeida, Virgilio Nunes de Almeida, João Lisboa, mas foi Virgilio o que mais títulos conquistou, na baleeira «Laura».
 
Na prática deste desporto foram sempre mantidas as vincadas décadas do passado, apesar das mutações qualitativas dos equipamentos. impostas em nome do progresso. A virtude sempre imperou!
 
 
 A modalidade da NATAÇÃO


Na foto, tirada em 1946, alguns dos nadadores moçamedenses. Em cima e da esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy) e Mário Lisboa Frota (Mariuca). Embaixo: Mário António Guedes, António Artur Ferreira (Penha) e António da Silva Braga (Braguinha).
 

Escreveu um dia, jornalista credível e isento, que Moçâmedes é senhora da melhor praia de Banhos de Angola, absolutamente isenta dos indesejáveis tubarões, praia bastante movimentada durante a época balnear, que se prolonda de Novembro a Abril temporada mais fértil em animadas diversões do que muitas praias de Portugal. Moçâmedes e Porto Alexandre têm mar calmo e condições de tanta segurança que têm servido para amaragem de hidroavião. (...)

Assegurava, portanto, as condições ideias para aprendizagem de natação, na vasta extensão de praias de areia prateada (...) Por isso não era surpresa para os visitantes turistas que crianças de sete anos de idade já soubessem nadar, mergulhando das várias pontes (...) e até da parte superior do guindaste existente no cais da alfândega usualmente utilizada do embarque e desembarque de cargas.

Ali se "fabricavam" promissores nadadores!
Mas os ténues recursos financeiros dos clubes da terra, aliados à realidade de então, da inferior rentabilidade resultante da utilização de eventual piscina, custa construção implicaria um custo elevado, compatível portanto, não incentivaram nunca, a realização desse desiderato. Além disso, a "Praia das Miragens" pela amplitude da sua natural plateia, melhor acolheria o público representado por milhares de espectadores, entusiásticos e emotivos. As prioridades recairam noutros investimentos, da parte da autarquia e das direcções dos Clubes...

E assim foi protelada, ano após ano, a construçãoo de uma piscina olímpica onde se pudesse praticar provas, visando melhorar os índices já conseguidos.

Independentemente disso, os Clubes locais não possuiam nas suas sessões de natação um técnico-preparador à altura, que pudesse ministrar ensinamentos apropriados, visando tirar o máximo de proveito desta modalidade, configurado no aumento da capacidade respiratória, na flexibilidade da coluna e no fortalecimento do sistema nervoso. Cada um nadava a seu belo prazer, sem disciplina nem método, apenas preocupado em atingir os percursos no menor tempo possível.

Em casa de ferreiro, espeto de pau!
 

O mar estava à porta de casa desses nadadores incansáveis e era indiscutível a sua habilidade e apetência.
Isso bastaria, presumia. Todavia, eram atingidas boas marcas, considerando que as provas eram realizadas em "mar aberto" sem a protecção e os cuidados adequados que uma piscina e um bom técnico poderiam proporcionar.

A NATAÇÃO como desporto olímpico, está em evidência desde o ano 1896, tendo evoluido bastante no número de modalidades e estilos. Até 1908, ano em que foram construidas as primeiras piscinas, as provas vinham sendo realizadas em mar aberto, ou mesmo em rios como aconteceu no "Sena", em 1900. Moçâmedes ainda enfermava desse mal, de não ter dado as mãos  à evolução desde 1908!

Em diversas gerações destacaram-se alguns nadadores, atletas de eleição, que a seguir são lembrados:

a) Classe feminina (100 metros livres)
Ruth Gomes, Semi Amaro, Hélia Paulo e outas.

b) Classe masculina:
- De fundo : Da praia do Cano à Praia das Miragens - 1000 metros-
António Braga, Manuel dos Santos (Cabouco), ambos do Ginásio Clube da Torre do Tombo
Renato Nunes da Silva e Sérgio Nunes da Silva, ambos do Sport Moçâmedes e Benfica
José Dolbeth e Costa (Chuva), do Atlético.
-De curtas distancias -100 metros-
António Martins Nunes (Cowboy), do Ginásio
Porfírio Ferreira, do Sporting
Rogério Gomes Ilha, do Sporting
Mário Andrade Vieira, do Atlético
Norberto do Vale Gouveia, do Atlético
Vicente Ferreira, do Benfica
Artur Paulo de Carvalho, do Sporting
Ermelindo da Costa Pacheco, do Independente
Angelino França, do Benfica
-Saltos acrobáticos:
Porfírio Parreira, do Sporting
Túlio Parreira, do Sporting
Romualdo Parreira, do Sporting

José Luis Pinto, do Sporting 
 
 
(assinado)  MariaNJardim
Ver também: MemóriasDesportivas
 
 
Nota: Informações cedidas por Mário António Guedes da Silva , no seu livro "Moçàmedes, Memórias Desportivas"
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O perfil moral dos colonos fundadores da cidade de Moçâmedes - Namibe) em 1849 e em 1850



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (14.12.1809 /14.11.1871)
Nogueira do Cravo - Recife - Mossamedes
Político, militar, exilado, professor, escritor, patriota, colono, juiz e agricultor; fundou a cidade de Mossâmedes em 04.08.1849.

O perfil moral dos antigos colonos

Na sua obra «Moçâmedes», 1º volume, Manuel Júlio de Mendonça Torres avança as qualidades de carácter que na sua óptica enformam o perfil moral dos antigos colonos que chegaram a Mossamedes, idos de Pernambuco (Brasil), em 1849 e 1850. São elas: honestidade, o amor da pátria, o sentimento religioso, a energia da vontade e a paixão exaltada.

O escritor procura fundamentar o seu critério, fazendo apelo aos seguintes testemunhos:

1. Declarações do Ministro Visconde de Castro efectuadas em sessão parlamentar de 12 de Junho de 1849, onde sublinha que nos actos da Comissão de Pernambuco «presidiu a maior circunspecção na escolha, que fez, das pessoas que deviam formar a colónia», e que ele próprio «proibiu que da colónia fizessem parte degredados».

2. Instruções de 16 de Abril do mesmo ano dirigidas a Sérgio de Sousa determinando que fossem vedadas licenças de embarque para as colónias a degredados por crimes graves e atentatórios das garantias sociais, bem como a condenados pelo crime de tráfico de escravatura, sendo ainda estabelecido que nenhum dos moradores da Província poderia estabelecer-se na Colónia sem provar não estar incurso naquelas excepções, por justificação em julgado (Instruções, artº 21º.).

3. Instruções Provinciais de 30 de Março de 1849, pelas quais o Major Ferreira da Horta teria de se regular no estabelecimento da Colónia de Pernambuco, através das quais o Governador Geral da Província Silveira Pinto recomendara que «os Portuguesas que vinham formar a colónia fossem tratados com o maior cuidado, atenção e carinho», atitude reveladora do alto conceito que este Governador possuia em relação aos componentes dessas duas colónias.

4. Documento com que no decurso das suas pesquisas se havia deparado na Secretaria da Câmara de Moçâmedes, referido a 23 de Março de 1859, onde se salienta «...nunca lhes haver cabido até àquela data a responsabilidade de uma única infracção das leis penais, asseverando aquele documento que para bem assegurar a índole de um povo, era costume recorrer-se à crónica judiciária.»

Mendonça Torres considera ter havido por parte dos governantes da época uma clara intenção de assegurar os melhores resultados para a colonização do sul de Angola evitando que os colonos viessem a ser contaminados em seus contactos por gente de outros caracteres que não os seus, ou seja, por degredados por crimes graves e atentatórios das garantias sociais, bem por condenados pelo crime de tráfico de escravatura. E avança ainda alguns aspectos que considera bastante reveladores das qualidades de carácter que atribui aos colonos de 1849 e 1850:

O Amor da Pátria, como qualidade de carácter dos primitivos colonos, encontrava-se, para Mendonça Torres patente na sua renuncia a renegar a Pátria, atitude também salientada pelas referências do antigo Governador de Moçâmedes, Alfredo Felner ao periódico «Mossamedes» de 04 de Agosto de 1926.

O Sentimento Religioso estava para Mendonça Torres sobremaneira representado na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859.

A Energia da Vontade encontrava-se para o mesmo autor patente quando a seguir aos momentos de profundo desalento que invadiram os ânimos dos colonos logo após a sua chegada a Moçâmedes (tantas haviam sido as desgraças sofridas e os revezes suportados), são dominados por uma febril e perserverante ânsia de actividade do que resultou o sucesso da colonização de Moçâmedes. 

A este respeito transcrevem-se as palavras de Alfredo Felner:

«...O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a 4 de Agosto de 1859, ao festejarem o seu 10º aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero que tiveram que conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraul, três; no Bumbo, duas: em S. Nicolau, três: no Carunjamba, uma; no Coroca, três: na Huila, sete; e, ainda, a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Malondo, percorrendo o Sul de Angola emtodas as direcções, com as suas caravanas. e levando a sua penetração, até além Cunene aonde iam buscar o marfim. Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado em 1858 e 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte e um mil couros; cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe, sete mil novecentos e cinco quilos de marfim, seiscentos e quarenta toneladas de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batata e dezasseis toneladas de carne seca.

Que mais queriam que fizessem ?
Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção dum sacerdote, ao abrir o Relicário, para mostrar a Hóstia Sagrada.
Faço-o perante o Altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus. »
(Do periodico Moçâmedes, de 4 de Agosto de 1926).

A Paixão Exaltada, é representada pelo protesto apresentado a 26 de Novembro de 1857 , em plena sessão, por uma Comissão do povo à Câmara Municipal, contra a ordem tida por injusta e violenta do assentamento de praça a dois colonos, ordenada pelo Governador, Fernando da Costa Leal. E também no requerimento dirigido à Câmara Municipal, em 27 de Fevereiro de 1866, por um grupo de colonos, onde são feitas acusações ao Governador Fernando da Costa Leal, cujo final versava assim:

« ...lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto, se nos não governar bem escolheremos outro melhor, não o queremos mais uma hora, nem mais um momento, governador deste distrito; que nos não obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para que estamos todos dispostos».

A este respeito, Mendonça Torres lembra ainda a campanha movida nos anos 1880 e 1881 contra o governador José Bento Ferreira de Almeida, que envolveu:

1. requerimentos aos governos Central e da Província pedindo uma sindicância aos actos do Governador;

2. autorização concedida pela Câmara ao seu presidente para passar procuração ao dr. Manuel de Arriaga, advogado em Lisboa, a fim de requerer em juízo, a expensas dos munícipes, procedimento criminal contra o Governador, por ter atribuido, falsamente, ao povo de Moçâmedes, a intenção de uma revolta para depor o governo legalmente constituido;

3. representação do Rei, a renovar o pedido de sindicância contra um funcionário (dizia a representação) « que abusou demasiadamente do poder que Sua Magestade lhe confiou», e, ainda, o opúsculo intitulado Sobras dum Governo, do tenente Rogado Leitão, em resposta à conferência proferida por Ferreira de Almeida, na Sociedade de Geografia, em 20 de Novembro de 1880, publicada depois em livro, no qual (escreve Rogado Leitão) «a falta de verdade e o ódio ressaltam de página em página, e o leitor chega à persuasão de que foi escrito num momemto de inconveniente irritabilidade; não persuade, não aduz, não edifica; decompõe, aumenta e vicia».


Bibliografia consultada: «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
«Quarenta e cinco Dias em Angola»



Algumas anotações sobre Bernardino e a fundação de Moçâmedes 

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro em oficio de 13 de Abril de 1857 dirigido ao Governador Geral José Rodrigues Coelho Amaral expôs a sua posição acerca das ideias repressivas ao tráfico de escravos.

O retrato de Bernardino foi inaugurado em 04 de Agosto de 1882, no 33º aniversário da fundação da colónia em homenagem à veneranda figura do chefe da 1ª colónia, na sala das Sessões da Casa da Câmara , na presença de todos os funcionários e grande número de cidadãos. No auto da inauguração invocou-se aquele dia da chegada ao areal ermo de terras incultas e inexploradas, para onde trouxeram a vontade de vencer, as suas máquinas e engenhos  onde rasgaram ruas, construiram casas, desenvolveram a agricultura e o comércio e dedicaram-se também, nas prais mais ao norte, Baia das Pipas, Baba, Lucira, ainda que em menor escala, a actividades ligadas as artes da pesca. O retrato foi colocado na sala após lido o auto pelo Vice Presidente José Luis Oliveira, tendo sido corrida a cortina que o cobria. Assinaram o auto: Nunes da Mata (governador),  Damião Rodolfo  Santa Brígida e Sousa (Pároco),  João Cabral Pereira Lapa e Faro (médico municipal).


 Pesquisa e texto de MariaNJardim

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

2009 : Bicentenário do nascimento de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes








Recebi esta mensagem da «comissão de instalação do busto» em homenagem a Bernardino Freire de Abreu e Castro, que passo a divulgar:

«Bernardino vai ser homenageado na sua terra natal, Nogueira do Cravo em 2009 (Bicentenário do seu nascimento). Queremos fazer-lhe um busto! No entanto os apoios estão dificeis por parte da autarquia.
Se quiserem saber mais ou colaborar com a comissão de instalação do busto fica aqui o endereço:

ruiarguina@hotmail.com »
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«Passados quase duzentos anos do seu nascimento, são muitos os que na sua terra natal desconhecem a história de tão nobre homem, no entanto já anteriormente muita gente quis honrar seu nome. Exemplo disso mesmo, é o “Jornal O Catre”, um jornal da década de 80, que era dirigido pelo Grupo de Jovens Unidos a Cristo, que já em Novembro de 1985 publicava a história de Bernardino pedindo que se fizesse justiça ao nome de tão grande figura. Em Fevereiro de 1987, o mesmo Jornal pedia que se atribuísse a uma Rua Nogueirense, o nome deste, e em Maio de 1988, lembrou a Autarquia que o seu pedido ainda não tinha merecido a melhor atenção, tendo vindo mesmo a ser feita a vontade dos Jovens e a devida homenagem a este grande homem.
Está também planeado, para a data em que se assinalam os 200 anos do nascimento de Bernardino, o erguer de um busto do mesmo na terra que o viu nascer. Iniciativa louvavél em que certamente será necessária a colaboração de todos para que se consiga alcançar esse objectivo. Que esta pequena e abreviada biografia sirva, para além de dar a conhecer a história de vida de tão grandiosa figura, para mover a população Nogueirense e não só, a colaborar e a divulgar tão nobre e justa causa. »

RF/CM
in:
http://olharnogueiradocravo.blogspot.com/2007_10_01_archive.html
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Do mesmo blog, passo a transcrever:

Bicentenário do Nascimento de Bernardino - Parte I

O "Olhar Nogueira do Cravo" dá hoje início à publicação de um trabalho acerca da vida e obra do nosso ilustre Bernardino Freire Figueiredo Abreu e Castro, elaborado com o objectivo de vir a ser distribuído pelos presentes no dia da sua Homenagem, a decorrer no próximo dia 3 de Outubro.
Uma vez que esta mesma distribuição poderá ser impossibilitada por limitações financeiras, faseadamente será colocada toda a informação neste blog, existindo ainda a possibilidade de o documento ser facultado na integra por meio digital a todos os interessados.


Homenagem da sua terra natal ao ilustre Nogueirense, fundador da cidade de Mossâmedes e com notável actividade em três continentes.

Por: António Serra


BIOGRAFIA


Nasceu em Nogueira do Cravo. O seu percurso de vida desde estudante a político, militar, jornalista, exilado, professor, escritor, patriota, colono, agricultor e juiz, deixa marcas indeléveis nos continentes Europeu, Sul -Americano e Africano, culminando neste último com a fundação da cidade Angolana de Mossâmedes em 4 de Agosto de 1849, hoje chamada de Namibe, após a independência daquela nossa antiga província ultramarina.

O seu baptizado foi em quatorze de Dezembro de mil oitocentos e nove na Igreja Paroquial de Nogueira do Cravo, conforme o atesta o respectivo registo.

Nascido na rua do Saco, era filho de Alexandre Nunes Vieira de Barros e Rita Gouveia Freire de Figueiredo, neto paterno de Manuel Nunes de Campos e de Joaquina Bernarda, que moraram na Casa da Torre, também conhecida por Casa dos Mouros ou Casa do Penedo. Os seus avós maternos eram Francisco Abranches Figueiredo e Josefa Maria de Abreu, naturais de Avô. A sua ascendência remonta a D. Pedro e Dª. Inês de Castro.

A sua matriz religiosa e política, herdou-as de seus familiares, profundamente religiosos e fervorosos adeptos da monarquia vigente, vindo a tomar partido directo quando atingiu a sua maioridade e se confrontavam então os absolutistas liderados pelo seu “adorado Monarca Senhor D. Miguel” e os Liberais que apoiavam as teses do seu irmão D. Pedro.

Nos seus primeiros anos, até atingir a maioridade, terá vivido em casa dos pais, mas aos vinte anos de idade vai para Coimbra, onde se matricula na Universidade de Coimbra em 1829, frequentando os primeiro e segundo anos de Leis. Porém, o ambiente aqui vivido não era o melhor face às suas convicções políticas e, assim, abandona os estudos e envereda pela via revolucionária, nas hostes de D. Miguel, atingindo o posto de Tenente de Caçadores. Porém, não teve a sorte de seu lado, pois que este monarca foi derrotado e obrigado a sair de Portugal. Não obstante uma convenção realizada em Gavinhos, tendente a pacificar a região entre liberais e absolutistas, Bernardino envolve-se novamente nas escaramuças e participa, bem como seu irmão Alexandre, numa revolta chefiada pelo seu parente Dr. Luiz Paulino, todos naturais de Nogueira do Cravo.

Num meio tão pequeno como o nosso, só lhe restou esgueirar-se e refugiar-se em Lisboa. Com outras armas, continua a conspirar tornando-se jornalista em órgãos do partido dos absolutistas, como no Alcance e no Portugal Velho, onde terá chegado a fazer parte da redacção deste jornal, até que foram extintos por força da nova Constituição.

Com um ambiente claramente hostil, difícil em se mover, desgostoso, prefere abandonar voluntariamente o território Nacional rumo ao Brasil, do que ter de se sujeitar aos novos senhores, isto é aos liberais.

Com trinta anos de idade parte assim para o Brasil, indo fixar-se no Recife em Pernambuco, não procurando a emigração como o alvo de enriquecimento fácil, mas sim como um intelectual que, longe da sua pátria, não se subordinando ao regime que vigorava em Portugal, enveredou por uma nova actividade durante os dez anos que pôde estar no Brasil.

Começa então a leccionar no Colégio Pernambucano, onde faz parte do corpo docente e, não satisfeito com isso, dedicou-se a estudar profundamente a História, donde resultam a publicação de alguns livros de índole didáctica como a História Geral em seis volumes, o Compêndio Elementar de Cronografia e o mais conhecido neste momento e que possuímos, que é o romance histórico, descritivo, moral e crítico, com base nos encontros entre Portugueses e Holandeses de 1648 a 1649, nos montes de Guararapes, na zona do Recife, onde vivia, presumo, já que tinha o seu escritório na Rua da Cadeia Velha, n.º 3. Digamos que é a fase do professor, do intelectual, erudito e escritor.

Só que os ventos da adversidade voltam a aparecer no horizonte. O Brasil tornara-se uma nação independente, cerca de vinte anos antes e os seus naturais não vêm com bons olhos o ascendente económico e político dos Portugueses.

Surgem então “Os praieiros”, movimento de uma facção liberal que propôs a expulsão de Portugueses solteiros e a nacionalização do comércio a retalho. Surgiram tumultos e as perseguições, apelidando depreciativamente os portugueses de “marinheiros”, tornando a vida muito difícil nos últimos dois anos, para não dizer impossível, a estes nossos compatriotas. É aqui que surge o carisma de um líder que não gosta do que vê - Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Faz circular pelos seus compatriotas a ideia de transmitir ao Governo Português o que se estava a passar, pedindo providências, entre as quais o transporte para um ponto das nossas possessões na Ásia ou em África onde, como colonos, se quisessem estabelecer. Não foi nada fácil, mesmo perante as atrocidades sofridas, convencer os seus compatriotas a partir. Foram quinze dias difíceis para os convencer, mas Bernardino, homem indomável, armando-se em porta-voz daquela gente, escreve ao Ministério da Marinha e Ultramar que envidasse todos os seus esforços para concretizar tal pretensão. Impôs condições que viu satisfeitas, como navios para os colonos abandonarem o território gratuitamente, com provisões para seis meses, ferramentas, utensílios agrícolas, auxílio financeiro para aquisição de maquinaria para a industrialização da cana sacarina, isenções de direitos sobre os bens, a publicação de uma lei para isentar de impostos alfandegários por dez anos, etc.
Com tudo o que é previsível salvaguardar e com as devidas garantias, lá partiram de Lamarão, do porto de Pernambuco, rumo ao sul de Angola, às quatro horas da tarde do dia vinte três de Maio de mil oitocentos e quarenta e nove em dois navios com 166 pessoas, sendo um de escolta.

Não chegaram todos, pois oito pessoas pereceram na viagem com as bexigas, sendo três adultos e cinco crianças, não obstante Bernardino ter levado, como condição para a mesma e instalação final, um sacerdote, artífices de vários ofícios, dois farmacêuticos e uma bem sortida botica.

O primeiro barco, o Brigue Douro, chega no dia um de Agosto, mas só desembarcam com a chegada da barca Tentativa Feliz no dia quatro de Agosto, após setenta e quatro dias de viagem. Há grande recepção e festa, mas Bernardino não descansa. Em dezasseis de Agosto segue no mesmo barco brigue Douro, para Luanda, onde apresenta cumprimentos ao Governador-Geral e se demora dois meses tratando de formalidades para o funcionamento da sua colónia.

De regresso a Moçâmedes, é içada a bandeira portuguesa em 21/10/1849 às 7 horas da manhã, com salva de vinte um tiros, arraial e foguetes. O local passou a chamar-se o Sítio da Bandeira e foi aí que escolheu erguer a sua habitação. Os outros colonos fizeram o mesmo noutros locais que escolheram para as suas fazendas e plantações com os respectivos engenhos agrícolas e sementes, trazidos do Brasil.

Os primeiros anos foram muito difíceis, devido à novidade de uma nova terra, com outro clima e o desconhecimento das plantações na época certa. Grassa o descontentamento e Bernardino, agora agricultor, no meio do povo exclama “ Só será salvo o que perseverar até ao fim”. E, convicto que venceria, passados dez anos, exactamente em 4/8/1859, faz no notário, a célebre Escritura de Promessa e Voto (*).

Entretanto nasce o município de Moçâmedes quando já existem 36 casas de pedra, oito de adobe e a capela de Santo Adrião, das primeiras construções efectuadas.

Bernardino é um precursor da abolição da escravatura pela qual se bate e aplica na sua própria fazenda escrevendo em 1857 “os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros...não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. ”E a sua postura teve eco. Portugal abolia o estado de escravidão em 1869.

Bernardino aproxima-se do fim. Nos seus escritos não deixa de perceber-se uma certa nostalgia da Pátria, de Nogueira e de sua mãe.

A década de sessenta corre muito mal a Bernardino. A sua fazenda e equipamento foram destruídos por outros povos. O Governo-geral de Angola é impotente para lhe resolver a situação criada, com ajudas e redução de impostos, para se reorganizar e recuperar. Vem a Lisboa onde se demora ano e meio pedindo apoios directamente. Regressa a Mossâmedes sem nada e só passados seis anos lhe dão resposta com despacho miserável. Não recupera dos prejuízos e dívidas dos cinco anos que ainda viveu.

Em 14/11/1871, com 62 anos de idade, faleceu, pobre, quando regressava de Luanda, ao serviço da comunidade, vítima de uma pneumonia dupla. O povo de Moçâmedes nunca o esqueceu, ao contrário da sua terra. Nunca é tarde para, ao menos, perpetuarmos a sua memória e divulgarmos o seu honroso e épico percurso de vida. A oportunidade vai surgir em Novembro do ano 2009 por ocasião do bicentenário do seu nascimento. Tem a palavra o povo de Nogueira.
Poderão, os mais cépticos, questionar o que fez Bernardino em Nogueira do Cravo, sua terra natal. Os promotores desta justa homenagem não têm dúvidas do quanto ele fez por Nogueira do Cravo. Lendo as fonte impressas a que no final fazemos referência, os muitos textos que circulam na internet, o reconhecimento do mérito pela diáspora angolana, ou ainda o que dele escreveu o poeta Padre Gil Duarte “


Bicentenário do Nascimento de Bernardino - Parte II

Resumo do percurso de vida de um grande líder.

CONTERRÂNEO
14/12/1809- Baptizado/Nascimento em Nogueira do Cravo.

ESTUDANTE
1829- 1º Ano de leis na Universidade de Letras Coimbra
1830- 2º Ano de leis
1831- Não matriculado.

POLÍTICO
1831 - Não aparece matriculado no 3º ano da Universidade, dada a inflamada atmosfera política adversa aí vivida. Ele que, enquanto político, dizia no atestado do seu comportamento “Tem mostrado em todo o tempo grande adesão ao nosso adorado monarca o Senhor D. Miguel I não cessando de vociferar pela defesa dos seus inaudíveis direitos...).

MILITAR
1831/1834- Alistou-se no exército voluntário realista de D. Miguel, como Tenente de Caçadores, participando na guerra civil, defendendo os ideais absolutistas, contra o exército liberal de D. Pedro IV.
26/05/1834- Assina-se a convenção de Évora Monte. O monarca derrotado tem 15 dias para abandonar o país. Bernardino tem 25 anos.
01/ 06/1834- D. Miguel parte para o exílio depois de dissolvidos os seus regimentos. Acabara a guerra, mas não principiara a paz. Após a capitulação, Bernardino envolve-se num plano para devolver o trono a D. Miguel.
1835- Entretanto e para acabar com as guerrilhas, foram convocados pelo Governador Civil Henriques Seco para uma reunião em Gavinhos (Convenção de Gavinhos) os representantes de miguelistas e liberais, que teve como consequência estabelecer a paz política na região, o que não evitou a continuação de escaramuças nas quais se envolveu Bernardino.
1837- Revolta na Serra da Estrela. Juntamente com seu irmão Alexandre e Dr. Luiz Paulino de Figueiredo Fragoso de Abreu (seu parente, amigo, conterrâneo e chefe da rebelião) participa, para aclamar de novo, como rei, o senhor D. Miguel. Derrotado, deixa Nogueira do Cravo, foge com seu irmão para Porto da Balsa na Pampilhosa da Serra. Furta-se assim à captura e justiça do vencedor e esgueira-se das Beiras para Lisboa.

JORNALISTA
Bernardino passa a viver na clandestinidade em Lisboa. Faz-se jornalista, colabora no órgão Alcance e, mais tarde, trabalha assiduamente no jornal Portugal Velho, também clandestino e que defende os ideais absolutistas, enquanto outros companheiros continuam as guerrilhas contra o governo. Neste jornal fará parte do corpo de redacção.
04/08/1838- Estes jornais tiveram o seu fim com a Constituição Setembrista, dado serem órgãos do partido absolutista.

EXILADO
1839- Exila-se voluntariamente e emigra para o Brasil, fixando-se no Estado de Pernambuco. Renuncia a toda a actividade política. Assim, estando longe da metrópole, alheava-se mais das actividades do Governo Português.

PROFESSOR
Dedica-se ao ensino no Colégio Pernambucano onde fez parte do corpo docente, regendo as cadeiras de História, Geografia e Latim. Terá fundado um jornal.

ESCRITOR
Como erudito professor e para desempenhar a sua profissão dedica-se a um estudo aprofundado da História. Publicou algumas obras de índole didáctica, sendo a mais importante a História Geral (1841), em seis volumes: 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o 2º. Sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. Sobre a História Antiga e Grega, o 4º. Sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. Sobre a História Moderna e o 6º. Sobre a História de Portugal e do Brasil. Em 1845 edita o Compêndio Elementar de Chronologia e em 1847 o romance histórico, descritivo, moral e crítico, Nossa Senhora dos Guararapes.
Destes livros possuímos este romance. Segundo M.J.Mendonça Torres que em 1949 contactou um parente, já falecido, este possuía a obra completa.
1844- Entretanto na Assembleia Provincial de Pernambuco é proposta a expulsão de portugueses solteiros, como é o caso de Bernardino. Há um movimento de hostilidade dos naturais, contra aqueles que, nascidos na Europa, faziam a sua vida no Brasil, como acontecia no restante continente americano.
8-9-10/12/1847- Violência no Brasil com arruaceiros, exigindo a expulsão dos portugueses solteiros.

PATRIOTA
13/07/1848- Do Recife, endereçou uma carta ao Ministério da Marinha e Ultramar, solicitando mapas e relatórios sobre Angola com informações detalhadas. Pede auxílio material que permita o transporte de pessoas e bens desde o Recife até ao local a definir em Angola. Entretanto organiza uma colónia agrícola de povoadores.
O Governo faz a proposta no parlamento para a afixação da colónia em Mossâmedes. Recebe (Bernardino) através de Luz Sariano do Ministério um relatório detalhado, com mapas, memórias e tudo-“Memórias sobre a Angra do Negro”. Através destas é dado todo o apoio de auxílio e meios de deslocação solicitados e envia-lhes os barcos “Douro e Vila Flor” para a sua segurança do Recife.
26/10/1848- O Governo resolve aceitar o oferecimento dos colonos portugueses atendendo à pretensão de Bernardino e faz expedir a portaria n.º 2063. “Mandar expedir as providências necessárias para a passagem dos mencionados portugueses, para o lugar das possessões em África, que por eles for escolhido.”
26/12/1848- Nesta data é criada no Recife uma comissão especial, presidida pelo Cônsul de Portugal, Bernardino e mais quatro portugueses. Mas, segundo Castro Alves, reuniram-se a primeira vez em 23/01/1849 os dois primeiros e só em 27/01/1849, foi alargada aos restantes.
31/01/1849- O Diário de Pernambuco desta data, publicou um edital datado de 29/1, em que o presidente comunicava que o Governo concedia as seguintes facilidades... (atrás referidas: passagens, sustento e facilidades...).
02/02/1849- Ataque das forças do Praieiro no Recife, em que nomeadamente os portugueses têm a ajuda dos dois brigues acima referidos.
27/03/1849- Começa a funcionar a comissão, que leva a que tudo esteja pronto para o embarque de modo a dirigirem oportunamente a viagem dos colonos para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d`Africa.
29/03/1849- O Governo-geral de Angola informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o local de Mossâmedes.
15/05/1849- Diário de Pernambuco Noticia “que o cidadão português Bernardino se retira para Moçâmedes, levando na sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça, pode ser apresentada no seu escritório da Rua da Cadeia Velha, n.º 3.... e aqueles que lhe devam contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo António, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se.”
23/05/1849- Às 4 horas da tarde, a colónia saiu do Porto de Pernambuco, rumo a Mossâmedes, na barca brasileira Tentativa Feliz c/166 pessoas (ou 180?), incluindo um cirurgião e um barbeiro, fundeando nessa noite no Lamarão. Estiveram lá todo o dia e saiu no dia 25, seguida do brigue de guerra Douro, encarregado de acompanhar a barca à vela. (há descrição da viagem por Bernardino)

COLONO
01/08/1849- Após dias de viagem entra na baía de Mossâmedes o Brigue Douro, avistando longo areal, servido pelo rio seco Bero.
04/08/1849- Com 74 dias de viagem, desembarcam após a chegada da barca Tentativa Feliz. Na viagem pereceram 8 pessoas. Têm recepção de boas vindas por parte de entidades distritais e indígenas. O Governador-geral que os esperava há dias teve de regressar a Luanda por necessidade de serviço.
16/08/1849- Bernardino segue no brigue Douro para Luanda, a fim de apresentar cumprimentos ao Governador-geral.
22/08/1849- Chega a Luanda onde se demora dois meses, após ter sido recebido pelo Governador-geral “com as mais decididas provas de contentamento”.
13(14)/10/1849- Bernardino é investido no Conselho Colonial de Mossâmedes, após o que faz viagens de estudo.

AGRICULTOR
21/10/1849- Içada a bandeira Portuguesa às 7 horas da manhã, no Vale dos Cavaleiros. Salva de 21 tiros (houve arraial…, foguetes.). O local passa a chamar-se o sítio da Bandeira. Aí Bernardino, líder incontestado de rija têmpera, ergue a sua habitação. Começa então a inspeccionar a região procedendo-se à distribuição de terras na foz do rio Bero no Vale dos Cavaleiros, entre outros lugares, instalam os engenhos agrícolas do açúcar trazidos de Pernambuco e principiam a construção da Capela de Santo Adrião, cuja primeira pedra tinha sido lançada a 27/07/1849, uma semana antes. É que a travessia atlântica foi extraordinariamente lenta e o Governador-geral, de nome Adrião, não pôde esperar. Hoje é a Igreja Paroquial de Santo Adrião.
1850- (Abril) -Bernardino envia, com entusiasmo, ao ministro da Marinha, a primeira amostra de aguardente fabricada na colónia.
13/10/1850- Sai do Brasil mais uma colónia de 145 (125?) emigrantes
26/11/1850- Chega a Mossâmedes esta 2ª colónia com mais 125 pessoas de Pernambuco.

JUIZ
13/12/1852- Decretada a criação do lugar de juiz ordinário de Mossâmedes, cujas funções Bernardino veio a exercer durante vários anos, dando mostras de elevado sentido de justiça.
24/11/1854-Bernardino, em carta dirigida ao Ministro da Marinha, preconiza e consegue a cultura do algodão, menos exigente em água.
26/03/1855- Decretada a elevação de Mossâmedes a vila.
07/05/1855- Por carta régia desta data, Mossâmedes é elevada a Vila.
1856- Existem 36 casas de pedra e 8 de adobe e nasce o Município de Mossâmedes.
22/12/1856- Bernardino elabora o mapa da sua actividade económica, como era exigido pela edilidade, mostrando que o passivo aumentava. A causa foi o incêndio que em Junho desse ano devastou a sua propriedade, destruindo a maior unidade industrial do distrito.
1857- Entretanto a vida segue e bate-se pela abolição da escravatura. Aplica-a na sua fazenda.
1858- Portugal decreta que passados 20 anos, não haverá mais escravos, como se verá em 25/02/1869.
04/08/1859- Décimo aniversário da chegada da colónia. Escritura de Promessa e Voto como testemunho público do seu reconhecimento, conforme texto mais à frente e em que intervém Bernardino.
14/03/1860- O vale dos Cavaleiros, onde se situa a exploração agrícola de Bernardino é invadida e destruída, o que acontece pela segunda vez.
21/04/1860- Por despacho desta data se dá conhecimento que, a bordo do vapor português D. Stephania, viaja para Lisboa o passageiro do Estado, Bernardino. O objectivo da viagem é, uma vez que o Governador-geral de Angola foi impotente para ajudar os agricultores e face à destruição, ir junto do Governo da Nação procurar ajuda e diminuição nos impostos.
Regressa a Mossâmedes, passado ano e meio em Lisboa, sem conseguir o que pretendia.
24/04/1866- O despacho desta data do Conselho Ultramarino, passados seis anos, nada resolve. Nos cinco anos que se seguiram até à sua morte, não consegue refazer-se da totalidade dos prejuízos sofridos. Os seus compromissos jamais puderam ser amortizados. Não mais recupera.
25/02/1869- Data da publicação do decreto que “abole o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa.”
14/11/1871- Faleceu aos 62 anos de idade, pobremente, quando regressava de Luanda em serviço da comunidade. O povo de lá nunca o esqueceu. E a sua terra natal? Saberá o que dela disse o Patriarca de Nogueira do Cravo?
...


Ainda sobre Bernardino

A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em
Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns
trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião
Praieira. A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à
agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses
fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial
ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que
muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.
Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou
em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se
fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de
guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos
emigrantes naquele lugar.
O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo
qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial
(criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco
Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo
concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e
sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais;
"instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada
e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado
(19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de
Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida
em Moçâmedes.
Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife
pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de
nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se
ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e
cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto"
referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192,
que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito,
existentes naquele Arquivo.
O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de
27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para
permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22;
no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se
para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando
em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu
escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo
que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.
A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira. A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial(criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes.

Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.

O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-separa Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". 
Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Casas da Rua 4 de Agosto,

 
 
 
Estas são as casas da ex-Rua 4 de Agosto, rua perpendicular ao mar que tinha início na Avenida da Praia do Bonfim, passava pela Câmara Municipal, e que subia até à estrada da Circunvalação. Nesta rua moraram noutros tempos, entre outros, a família Carvalho, a família Tendinha, Constantino e Aurélia do Ó Faustino, e na 1ª casa, à dt. ficava a Igreja Evangélica. 
 
São casas térreas, de traça tipicamente portuguesa, cujo interior, regra geral, é dividido a meio por um corredor que separa duas alas onde ficam os quartos, e as salas, sala de jantar e sala de visitas, terminando com uma «marquize» a toda a largura da casa, e com um pequeno quintal/jardim, onde ficava a cozinha, a dispensa e a casa de banho.  
 
Com a construção destas casas, a cidade de Moçâmedes avançou um pouco mais deserto adentro, porém terminavam aqui as casas de traça tradicional portuguesa que ficaram a caracterizar a parte central da cidade. Em seguida, veio a época das vivendas, que começaram paulatinamente a invadir as areias do deserto, para o que contribuiu a criação em finais da década de quarenta da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» e a adesão crescente de associados interessados a virem um dia, por sorteio, número de ordem, ou por antecipação de capital, a concretizar o sonho de adquirirem direito à sua habitação. 
 
Em Angola não havia a concessão de créditos bancários destinados à construção e compra de habitação própria, e quando esta Cooperativa começou a expandir-se em termos de grandeza, foi grande a luta dirigida pelo seu presidente, Mariano Pereira Craveiro para obter legislação conducente à construção de habitação por facções, bem como os susbsequentes normativos para a regulamentação dos condóminos. Foi, pois, com a grande ajuda desta Cooperativa que Moçâmedes foi aos poucos deixando de ser apenas aquela cidadezinha onde dominava uma arquitectura de velha traça portuguesa, para se encher de lindas e floridas vivendas, ao mesmo tempo que novas ruas, e avenidas eram rasgadas, e bonitos jardins iam tendo lugar. Importa pois ter presente, que, não fosse o sistema Cooperativo, Moçâmedes teria, neste aspecto, um ritmo de desenvolvimento bastante mais lento, na medida em que, à época, era uma terra onde economicamente raros se destacavam, com excepção daqueles que tinham interesses na indústria piscatória, no Comércio e dos poucos dedicados à Agropecuária. 
 
Citando o exemplo de mim própria, direi que aos 7 anos de idade os meus pais inscreveram-se como sócia da Cooperativa «O Lar Namibe», tendo começado a partir daí a pagar uma determinada quotização mensal. 25 anos depois, em 1972, adquiri o direito à construção. Poderia ter sido contemplada por sorteio, como poderia ter sido contemplada por nº de ordem, antecipando desse modo a construção. Podia até, se dispusesse de dinheiro fazer uma oferta em leilão. Não foi isso que aconteceu, porque nunca encontrei na minha terra a tal «árvore das patacas» que muitos lá ao longe julgavam existir. Tive que esperar 1/4 de século, o tempo limite para aquisição do referido direito, porque ao fim desse tempo ainda não havia conseguido as economias necessárias para avançar por minha conta para a construção. Foi 1/4 de século de sacrifícios e privações para que esse sonho viesse a ser possível, porque os Bancos, na altura, não emprestavam dinheiro a juros para compra de habitação. A minha habitação, fruto de sacrifícios e privações, ficou pronta nas vésperas da independência. Limitei-me a fechar a porta, a dizer-lhe adeus, bem como a dizer adeus para sempre, à cidade que me viu nascer e que fora berço dos meus filhos e onde haviam nascido os meus pais. Sobre o recheio da minha habitação (que incluia toda a sorte de coisas ali deixadas por mim, bem como de familiares e amigos em pânico que ali as foram depositar quando da diáspora), soube mais tarde que fora levado para algures em Angola, num qualquer camião, por guerrilheiros da UNITA (*) em fuga, nos momentos a seguir à independência de Angola, aquando da recuperação pelo MPLA, da cidade de Moçâmedes. Com o recheio, foram as coisas mais caras para mim: os albuns das minhas recordações, os quadros a óleo que durante tantos anos pintei, o enxoval totalmente feito e bordado por mim. Quanto ao resto, custou, mas já me habituei, até porque posso considerar-me uma das felizes contempladas da sorte em terras de Portugal. Contemplados da sorte, porque cheguei a Portugal em 1975, de mãos vazias é certo, mas, felizmente com emprego, e como referi, em menos de um ano, graças à facilidade dos Bancos ao crédito para habitação, consegui aceder de maneira muito facilitada à habitação própria. Comparando com a situação anteriormente descrita, seria caso para dizer: afinal onde ficava essa famosa «árvore das patacas»? É que em Angola nunca a vi! 
 
 
MariaNJardim 
 
Foto gentilmente cedida por: Ruca/Cubal: ........................................................................... http://cubal-angola.blogspot.com/