Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Transporte de água em carros de bois em Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe: meados do século XIX




Postal precioso acompanhado de descrição, onde podemos ver uma carroça em madeira puxada por bois destinada a transportar em grandes barris, a água tão preciosa naquele areal encaixado entre o Deserto do Namibe e o mar. Se repararmos bem, encoberto pelas traseiras dos corpos dos bois, podemos ver aquilo que parece ser um chafariz em cimento. Presume-se haver alí uma cacimba que alimentava o chafariz.

Por esta altura ainda o edifício da Alfândega de Moçâmedes, um dos mais antigos da cidade, estava em construção. Também podemos ver a «água furtada» do edifício de  1º andar, também dos mais antigos,  que teve como primeiro proprietário a familia Zuzarte Mendonça. Sito na Rua dos Pescadores, hoje em dia no 1º andar deste belo edifício,  fica o Museu Etnográfico do Namibe, onde repousam alguns dos parcos restos do Império...




Nos Annais por Lapa Faro, encontrámos esta passagem:

"...Agua potável. — Esta agua, não sendo em Mossamedes de superior qualidade, é comtudo das melhores que se encontram na Província. Todos sabem que por estes litoraes não se offerecem outras aguas para empregar nos usos da vida senão as que provém de rios ou poços. Este logar, como não é exceptuado, tem por fonte o rio Bero. Achando-se este secco na maior parte do anno, obtem-se a agua fazendo covas na areia do seu leito; esta sahe um pouco turva, e a maior parte das vezes com um ligeiro sabor a limos ou raizes, o qual perde depois de filtrada, como se usa geralmente; ella não tem gosto que denuncie predominância de saes, cose bem os legumes e dissolve o sabão; alem d'islo deve-se notar que não produz nos habitantes a tumefacção do ventre, que é ordinária onde as aguas não são de boa qualidade. A agua dos poços, que existem nos quintaes, apesar de ser ligeiramente salobra, dissolve menos mal o sabão e serve para os usos culinários, bem como para lavagem de roupa. Muitas pessoas também a bebem sem que d'isso lhes resultem inconvenientes. Estes poços, não obstante estarem a duas milhas de distancia do rio, são alimenlados pelas suas aguas, as quaes chegam a esta distancia por infiltração que se faz nas areias.

PARTE NÃO OFFICIAL.
ÍNDICE DAS MATÉRIAS CONTIDAS NA SERIE I.
FEVEREIRO DE 1854 A DBRO DE 1858.




Vejamos o que sobre a vila de Moçâmedes ( Situação, clima, pluviosidade, água potável, cacimbas, transportes de carga, agricultura, etc) nos diz o Auhor: Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913 Publisher: Lisboa, Typographia do jornal As Colonias PortuguezasYear: 1892:


«...A villa de Mossâmedes, situada na zona do distrito que se prolonga de norte a sul, com a  costa marítima, baixa e arenosa, separada da zona planáltica chuvosa e ricamente arborizada pela cordilheira da Chela, onde apenas durante três meses no ano caiam algumas bátegas de água,  era naturalmente carente de chuvas, mas não totalmente carente de água; Apesar das vicissitudes do regimen pluvial, muitas das casas possuiam poços que forneciam água necessária para os usos ordinários, para além dos chafarizes que abasteciam em várias zonas.

Era água de má qualidade, pesada, salitrosa, que produzia perturbações digestivas  o seu curso entre a Chella e o litoral mais curto e directo, formado em grande extensão por um leito de pedras e principalmente por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de um a nascente que deriva para elle um grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau(Dyau), durante a primeira parte da estação chuvosa do planalto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as primeiras chuvas na zona baixa; em quanto que os rios de S. Nicolau e Koroka são alimentados pelas chuvas que cahem sobre as vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, de janeiro a abril. E' de notar-se que o regimen pluvial d'esta zona difere considerávelmente do da zona alta. N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro formando a primeira parte da estação chuvosa, chamada das pequenas chuvas. N'esta quadra, dominando os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto descarregam sobre elle não chegando á zona baixa. Apenas de janeiro a maio, que comprehcnde a quadra das chuvas torrenciaes e dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas attingem a zona baixa e chegam á facha arenosa do litoral produzindo innundações passageiras, que ainda assim são o único recurso para a fertilidade dos terrenos agricultados nas proximidades de Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau. 


Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que se conserva por espaço de um e dois mezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um rico adubo aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos rios. Estas fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes, hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 raachinas a vapor e possuem 32 engenhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente.


Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe. Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a estação chuvosa compreeende seis mezes no anno. Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen pluvial da zona baixa, cujas causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falam com saudade dos primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de


Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas finas areias não chegam a humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de :poços praticados a profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, que fornecem agua necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa, produzindo perturbações digestivas.


A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém constante apezar das vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nos leva a suppor que cila mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam e continuam com o subsolo da zona baixa. 


E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricollas do vale de Kapangombe investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros. 


A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos. 


Os annos de secca succedem-se uns apóz outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar a.s suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas a troco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos permanentes, que descem do plan alto e formam as origens dos rios da zona baixa. 


E de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos é importante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima da Chella e oferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortir o desejado eíTeito, fácil será por sucessivas investigações animadoras estabelecer um systema de poços artesianos, que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial inconstante, o que concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em productivas fontes de receita.


Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada que parte de Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra do Major, Providencia, Moninho e Kapangombe. 


Esta estrada é percorrida pelos vagons boers que fazem o transporte das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa; pelos viajantes, carregadores e manadas de gado para consumo e exportação.


Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que re-ulta morrer á sede e á fome grande numero de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportação e consumo.condusido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por falta d'agua durante os 10 ou 12 dias de viagem ftitigante por este deserto arenoso, atravez do qual os pesados veliiculos carregados com 100 a 150 arrobas de carga são penosamente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por entre densas nuvens de suffocante poeira. 


Está calculado que morrem annual mente n'este deserto 400 a 600 bois, o que representa um enorme prejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave damno elevam cada vez mais o preço do transporte. 


Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em ISOOO réis e actualmente com a persistência das seccas e mortalidade no gado elevou-se a 2S200 réis. 


Independente da perda material do boi, ha a accrescentar a perda da somma de trabalho que o boer dispende para amansal-o e sujeital-o ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores dos Gambos e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30. Calcule-se do desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros para o transporte das mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem orlando a estrada os cadáveres de um terço ou metade dos seus bois a servir de festim ás hienas e lobos que infestam estas paragens. 


Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de gado por via de Mossamedes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo o aproveitamento de uns tanques naturaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que cae sobre a enorme pedra que dá o nome a este sitio. 


Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos viajantes, um curral para abrigo do gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destacamento. Os tanques cavados na rocha são quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas torrenciaes, os tanques enchem-se d'agua, que se conserva por bastante tempo. E' d'esta agua que bebem os viajantes e o gado. Quando ella diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só permitte que se tire a porção indispensável
para uso dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gado e para cumprimento d'estas ordens e vigilância dos poços tem ali um destacamento militar. 



O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da Providencia, com a diíferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em cavidades das rochas e poças, quando chove; fora d'estas condições anormaes a monotonia do terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Monhino, em cujas fazendas se encontra agua em cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura. 


A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchla miníbilis, falso cedro, algumas euphorbiaceas, espinheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos. 


Xa faciía de terrenos arborisados, que correra parallelos aos contrafortes da Chella, a agua existe com abundandancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem não chega a irrigar a vasta área de terrenos cultivados. O districto de Mossamedes abrange uma arca de 176:250 kilometros quadrados, duas vezes a superficie de Portugal. 


Divide-se em sete concelhos, dois na zona baixa, que são: os de Mossamedes e Capangombe, e cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Huilla, Gambos o Humbe, dos quaes os três primeiros formam a área de colonisação europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas condições de clima nào se prestam á adaptação da raça branca, formam a área de exploração commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cuja creação consititue a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto."


Fim de citação




Os transportes utilizados em Moçâmedes, pelos primeiros colonizadores



Conforme «Anais do Muncípio de Moçâmedes», de início quando da chegada dos primeiros colonos do Brasil a Moçâmedes, o transporte utilizado era o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó, as viaturas dos animais de tracção e sela. Contudo, deve também figurar neste período, o camelo oriundo das Canárias e introduzido por JOAQUIM DA PAIVA FERREIRA, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849.


O camelo, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Mossâmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de contrução, tais como malas de peixe, sacos de fuba, pedra, cal, adobe, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, etc., etc.


O «carro boer», destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam onde houvesse mercadorias ou onde estas fosssem produzidas que se fazia a sua distribuição pelos locais onde eram procuradas por consumidores impossibilitados de as adquirir.Era um veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes sob um toldo curvo de lona, e surgiu em 1881, com a chegada às terras altas da Huíla de familias emigrantes do Transvaal (boers) que se fixaram na região da Humpata.


O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado por um condutor.


Em tempos anteriores ao da chegada dos colonos do Brasil, para o transporte de passageiros, correio, bagagens e mercadorias, chegara-se a utilizar, em viagens de longo curso, os paquetes da «Companhia União Mercantil» que já não existiam por haver falido. Os habitantes de Moçãmedes serviam-se dos paquetes da «Empresa Lusitana», que costumavam escalar o porto da vila nas suas viagens para Lisboa. Em Janeiro de 1881 fundou-se a Empresa Nacional de Navegação, e em Março do mesmo ano tiveram início as carreiras para Angola com os paquetes «Portugal» e «Angola», iluminados a petróleo. Em 1889, paquetes que escalavam Moçâmedes, como o «Ambaca» e o «Cazengo» já eram iluminados a electricidade.


sábado, 12 de janeiro de 2008

Cerimónia de «baptismo» da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo (1946) . As modalidades de remo e natação em Moçâmedes. Outras fotos na Praia das Miragens



A modalidade de REMO

Segundo informações recebidas esta foto regista
a
cerimónia de «baptismo» e lançamento ao mar, no ano de 1946, da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, ocorrida sob o telheiro da ponte do Sindicato da Pesca de Moçâmedes, na Torre do Tombo. Sentados: o então Capitão do Porto de Moçâmedes, o Dr. Novais (médico) e o Padre Simões. De pé. : Álvaro Frota (ao centro, de óculos escuros), Luís da Piedade Martins (marceneiro), Paulino Bexiga (de camisola desportiva, marido de Maria do Carmo Bauleth de Almeida), José dos Santos Frota (de óculos escuros, à dt.), Mário dos Santos Frota (a discursar). As meninas à dt. são Maria Helena Ramos (Duarte) e Maria Celeste Custódio (Nascimento).



Aqui podemos ver a «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo a ser recolhida na praia das Miragens em Moçâmedes. Ao fundo, a ponte e a Fortaleza de S. Fernando. Entre os «remadores» e curiosos, podemos ver aqui, da esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Lopes Braz, José Ferreira (Penha), João Viegas Ilha, Velhinho, Mário Lisboa Frota (Mariuca), Virgilio Gonçalves de Matos e António Gonçalves de Matos (Sopapo). Como treinador, Joaquim Pereira Bajouca. Outros remadores, eram Edmundo Ramos, Mário António Guedes da Silva, João Carlos Guedes Duarte e Eugénio da Silva Estrela. Entre as senhoras encontram-se em fato de banho, Olimpoa Aquino, Marizete Veiga e mais próximo, sentada na areia da praia, Raquel Martins Nunes. Ao fundo à dt., a Fortaleza. Junto da ponte, sobressai por detrás dos ocupantes da «guiga» e junto ao guindaste da ponte, a vela de um «sharpie», modalidade que nessa altura fizera a sua aparição no quadro do desporto escolar levado a cabo pela Mocidade Portuguesa (masculina).
 



A Guiga foi construída na pescaria de Óscar Duarte d´Ameida, por Gilberto Abano, João Custódio e Urbano Canelas, numa altura em que na presidência do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro na cidade (fundado em 1919), se encontrava o moçamedense Mário Frota.
 
 Relativamente à modalidade «REMO», o entusiasmo decrescia, já que existiam somente três barcos, um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, outro, a «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e um «Yolle» do Centro Náutico da Mocidade Portuguesa. Embora os respectivos remadores fossem musculosos, a insuficiência de treinamentos adequado impediu o pleno sucesso das equipas respectivas, contudo, a rivalidade entre eles foi sempre notória, sob manifestações populares de simpatia. Não havia condições, obviamente, de participar em grandes competições intra-muros, que eram então lideradas por tripulações do Lobito e de Luanda.
 
 

 
 
 A modalidade da VELA

 Quanto à prática do desporto, na vertente «VELA» em Moçâmedes, foi de fácil assimilação , obviamente, trazendo para o Distrito alguns títulos, tanto da classe de «sharpie 9m.» , numa primeira fase (década de quarenta), como da classe «Snipes», numa segunda fase (décadas de 50 e 60...).

Os respectivos velejadores desportivos pertenciam ao Centro Náutico da Mocidade Portuguesa, instituição nacional, patrótica, cujo regulamento foi aprovado em 4 de Novembro de 1936 por decreto Nª 27301. Eram estudantes vinculados à Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, estrelas de uma constelação imorredoura, tendo por instrutor, o líder dedicado, Emidio Cecilio Moreira.  As regatas eram normalmente realizadas na baía de Moçâmedes, com ventos moderados, nomeadamente aquando dos festejos tradicionais comemorativos da fundação da cidade, assistidas por numerosa população apaixonada, que se perfilava ao lingo da «Praia das Miragens».

No concernente ao «sharpies», destacaram-se velejadores como Rogério Gomes Ilha, António Artur Ferreira (Penha), Mário José Sequeira de Melo, Cassiodoro Sequeira de Melo, Adélio, Mário António Gomes Guedes da Silva, Armando Guedes Duarte, Armando Ferreira Gomes e outros. São referidos, a seguir, os velejadores de «snipes», primeiramente de madeira e depois de fibra,: Fausto Ferreira Gomes, Leonel Matos Mendes, Fernando Matias, Helder Guedes Duarte, Mário Alexandrino Guedes Duarte e outros.

Mas o título mais honroso para Moçâmedes foi o alcançado no ano de 1956, em Luanda, em «snipes», por Fausto Ferreira Gomes, um assíduo vencedor, coadjuvado por Leonel Matos Mendes, numa regata em que participaram excelentes velejadores dos principais Centros de Vela angolanos - Luanda. Lobito, Benguela e Moçâmedes.

Nas primeiras regatas, antes da utilização de sharpies e de snipes, defrontavam-se baleeiras de pesca não só de Moçâmedes como de Porto Alexandre. Alguns timoneiros destas evidenciaram saber e experiência, destacadamente Aníbal Nunes de Almeida, Virgilio Nunes de Almeida, João Lisboa, mas foi Virgilio o que mais títulos conquistou, na baleeira «Laura».
 
Na prática deste desporto foram sempre mantidas as vincadas décadas do passado, apesar das mutações qualitativas dos equipamentos. impostas em nome do progresso. A virtude sempre imperou!
 
 
 A modalidade da NATAÇÃO


Na foto, tirada em 1946, alguns dos nadadores moçamedenses. Em cima e da esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy) e Mário Lisboa Frota (Mariuca). Embaixo: Mário António Guedes, António Artur Ferreira (Penha) e António da Silva Braga (Braguinha).
 

Escreveu um dia, jornalista credível e isento, que Moçâmedes é senhora da melhor praia de Banhos de Angola, absolutamente isenta dos indesejáveis tubarões, praia bastante movimentada durante a época balnear, que se prolonda de Novembro a Abril temporada mais fértil em animadas diversões do que muitas praias de Portugal. Moçâmedes e Porto Alexandre têm mar calmo e condições de tanta segurança que têm servido para amaragem de hidroavião. (...)

Assegurava, portanto, as condições ideias para aprendizagem de natação, na vasta extensão de praias de areia prateada (...) Por isso não era surpresa para os visitantes turistas que crianças de sete anos de idade já soubessem nadar, mergulhando das várias pontes (...) e até da parte superior do guindaste existente no cais da alfândega usualmente utilizada do embarque e desembarque de cargas.

Ali se "fabricavam" promissores nadadores!
Mas os ténues recursos financeiros dos clubes da terra, aliados à realidade de então, da inferior rentabilidade resultante da utilização de eventual piscina, custa construção implicaria um custo elevado, compatível portanto, não incentivaram nunca, a realização desse desiderato. Além disso, a "Praia das Miragens" pela amplitude da sua natural plateia, melhor acolheria o público representado por milhares de espectadores, entusiásticos e emotivos. As prioridades recairam noutros investimentos, da parte da autarquia e das direcções dos Clubes...

E assim foi protelada, ano após ano, a construçãoo de uma piscina olímpica onde se pudesse praticar provas, visando melhorar os índices já conseguidos.

Independentemente disso, os Clubes locais não possuiam nas suas sessões de natação um técnico-preparador à altura, que pudesse ministrar ensinamentos apropriados, visando tirar o máximo de proveito desta modalidade, configurado no aumento da capacidade respiratória, na flexibilidade da coluna e no fortalecimento do sistema nervoso. Cada um nadava a seu belo prazer, sem disciplina nem método, apenas preocupado em atingir os percursos no menor tempo possível.

Em casa de ferreiro, espeto de pau!
 

O mar estava à porta de casa desses nadadores incansáveis e era indiscutível a sua habilidade e apetência.
Isso bastaria, presumia. Todavia, eram atingidas boas marcas, considerando que as provas eram realizadas em "mar aberto" sem a protecção e os cuidados adequados que uma piscina e um bom técnico poderiam proporcionar.

A NATAÇÃO como desporto olímpico, está em evidência desde o ano 1896, tendo evoluido bastante no número de modalidades e estilos. Até 1908, ano em que foram construidas as primeiras piscinas, as provas vinham sendo realizadas em mar aberto, ou mesmo em rios como aconteceu no "Sena", em 1900. Moçâmedes ainda enfermava desse mal, de não ter dado as mãos  à evolução desde 1908!

Em diversas gerações destacaram-se alguns nadadores, atletas de eleição, que a seguir são lembrados:

a) Classe feminina (100 metros livres)
Ruth Gomes, Semi Amaro, Hélia Paulo e outas.

b) Classe masculina:
- De fundo : Da praia do Cano à Praia das Miragens - 1000 metros-
António Braga, Manuel dos Santos (Cabouco), ambos do Ginásio Clube da Torre do Tombo
Renato Nunes da Silva e Sérgio Nunes da Silva, ambos do Sport Moçâmedes e Benfica
José Dolbeth e Costa (Chuva), do Atlético.
-De curtas distancias -100 metros-
António Martins Nunes (Cowboy), do Ginásio
Porfírio Ferreira, do Sporting
Rogério Gomes Ilha, do Sporting
Mário Andrade Vieira, do Atlético
Norberto do Vale Gouveia, do Atlético
Vicente Ferreira, do Benfica
Artur Paulo de Carvalho, do Sporting
Ermelindo da Costa Pacheco, do Independente
Angelino França, do Benfica
-Saltos acrobáticos:
Porfírio Parreira, do Sporting
Túlio Parreira, do Sporting
Romualdo Parreira, do Sporting

José Luis Pinto, do Sporting 
 
 
(assinado)  MariaNJardim
Ver também: MemóriasDesportivas
 
 
Nota: Informações cedidas por Mário António Guedes da Silva , no seu livro "Moçàmedes, Memórias Desportivas"