Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 12 de agosto de 2007

Bernardino José Brochado, explorador português em Mossâmedes (Moçâmedes) Angola

No seu livro “O Distrito de Moçâmedes na Fase da sua Origem e Primeira Organização: 1485-1859”, Manuel Júlio de Mendonça Torres defende o ano de 1840, como o da fundação do Presídio, não como a fundação de Moçâmedes. Sim "...com o início do povoamento, pela montagem de feitorias (1), casas comerciais de movimento incerto, que não poderiam por isso manter-se, a despeito das confiantes diligências dos seus empreendedores." 

Para Mendonça Torres a fase das "feitorias" que antecipou a chegada dos colonos de Pernambuco não contribuiu para a valorização económica do Distrito. As actividades exercidas e as exportações efectuadas, representavam apenas escassas tentativas que redundaram em malogro. O 04 de Agosto de 1849, é considerada a data da fundação de Moçâmedes, a cujos componentes "cabe-lhes a indiscutível glória não só de terem erguido no Distrito a primeira povoação, como terem nele terem iniciado, com necessária eficácia, a exploração agrícola, a labutação piscatória, o movimento comercial e o exercício de várias outras secções de trabalho". 

De acordo com Manuel Júlio Mendonça Torres  in"O Distrito de Moçâmedes no Ciclo Aureo da Cutura do Algodão",  Bernardino José Brochado, sertanejo e sócio de Ana Francisca Ferreira Ubertaly, (1)  foi excepção, de entre os possuidores das primeiras feitorias estabelecidas no Estabelecimento de Moçâmedes, na medida em que foi o único cuja permanência no distrito não foi de curta duração, pois nele se conservou desde 1841 (antes, portanto, da chegada da primeira colónia vinda de Pernambuco, Brasil, em 1849), e ali viveu os derradeiros dias da sua existência, quando em 1885 faleceu. Aliás Brochado foi mesmo a enterrar em Moçâmedes, onde no Cemitério local possuía no um mausoléu de mármore, cercado por um gradeamento de ferro, e encimado por uma figura simbólica, apresentando, numa das faces, sob uma cruz em relevo, a seguinte inscrição: «Aqui jazem os restos mortais de Bernardino José Brochado , nascido em Cedofeita, cidade do Porto, em 17 de Maio de 1818 e falecido nesta vila a 10 de Maio de 1883, filho legítimo de António José Brochado e de D. Maria Rosa de Jesus. A colónia portuguesa jamais olvidará os serviços e sacrifícios que o seu civismo lhe prestou em prol das suas liberdades e regalias e para a desafrontar em dias de provação."
 
Mendonça Torres coloca  Bernardino José Brochado a par de figuras pioneiras da colonização do Distrito que teve o seu início, sim, com a chegada dos 1º colonos vindos de Pernambuco (Brasil) e chegados a Moçâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, o ano que assinala a formação do Governo  que nomeou o capitão de fragata António Sérgio de Sousa governador do Distrito e encarregou da direcção e governo na nova colónia que alí se estabeleceu.

No seu livro sobre Moçâmedes, 1º volume,  Mendonça Torres refere que no cemitério da cidade, se ergue um mausoléu de mármore, sobriamente decorado, mas de conjunto harmonioso, vercado por um gradeamento de ferro e encimado por uma urna simbólica, apresentando, numa das faces, sob uma cruz em relevo, a seguinte inscrição:

«Aqui jazem os restos mortais de Bernardino José Brochado , nascido em Cedofeita, cidade do Porto, em 17 de Maio de 1818 e falecido nesta vila a 10 de Maio de 1883, filho legítimo de António José Brochado e de D. Maria Rosa de Jesus. A colónia portuguesa jamais olvidará os serviços e sacrifícios que o seu civismo lhe prestou em prol das suas liberdades e regalias e para a desafrontar em dias de provação».


 Ainda sobre Bernardino José Brochado, encontrei na Net estas referências que a seguir transcrevo: 
 
Explorador português que percorreu os territórios marginais do rio Cunene (Humbe, Camba e Mulondo) e ainda as regiões de além Cunene (Cuanhama e Cuamato), sendo um dos primeiros portugueses que, em condições difíceis e arriscadas, ali deve ter penetrado.

Quando os Gambos foram visitados oficialmente, em 1850, pelo governador de Moçâmedes, capitão-tenente António Sérgio de Sousa, na companhia do colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, tinha Brochado a sua residência no Uiolo, perto da libata do soba, e, pelo seu prestígio entre o gentio, acabava de ser nomeado regente interino dos Gambos. 

Brochado foi também um dos exploradores que  mais se empenharam em percorrer e em descrever esta região.  As suas longas viagens deram-lhe ensejo de expôr, por escrito, em cuidadoso estudo, as impressões que colhera, sobre a epígrafe Descrição das terras do Humbe, Camba, Mulondo, Cuanhama e outras, contendo uma ideia da sua população, vestuário, etc., que deixou publicado nos Anais do Conselho Ultramarino e, mais tarde, nos números 15 a 17 do Jornal de Mossâmedes, de 8 de Março a 8 de Abril de 1882.

No seu livro sobre Moçâmedes, 1º volume, Mendonça Torres refere :

"...Mal sucedido de começo, em alguns dos seus negócios, internou-se pelo sertão que minuciosamente explorou, indo, algum tempo depois, fixar residência no Cuanhama, sobado de gentio vingativo e traiçoeiro onde permaneceu, usando de cautelas e sem mostras de temor,  durante mais de dois anos. Prudente e engenhoso, além de perfeito conhecedor dos dialectos gentílicos, conseguiu viver em boa paz com os indígenas, que o respeitavam e obsequiavam. Fundou, na vila, a primeira casa comercial, de sociedade com Manuel Almeida Soares. Contribuiu com a maior quantia de dinheiro para a fundação do primeiro teatro da colónia, no qual se prontificou a desempenhar, várias peças, alguns dos principais papéis. De espírito liberal, associou-se às modificações mais notáveis da colónia na reivindicação dos seus direitos, regalias e dignidades, bastantes vezes ofendidos. Serviu com zelo e ponderação os cargos de juiz e de vereador, e, neste último, durante cinco assinalados biénios, já como presidente da vereação, já como simples vogal.  Muitos dos colonos e algumas autoridades, atraídos pela lhanesa e afabilidade do seu trato, procuravam a sua casa para centro de reunião, onde, nas horas sequentes às canseiras diárias, tratavam, em aprazível palestra, ou em animada discussão, assuntos de interessa local. O distrito deve às suas úteis iniciativas distintos e apreciáveis benefícios. "

Vejamos a seguir o que a seu respeito nos diz a obra "Os Portuguezes em Africa, Asia, America e Oceania, ou Historia chronologica dos descobrimentos, navegações, viagens e conquistas dos Portuguezes nos paizes ultramarinos desde o principio da monarchia até ao seculo actual. A.M. Pereira,1850, Volumes 7-8 (Google eBook):

"...Bernardino José Brochado que desde 1847 andava visitando os povos do Humbe, Camba, Mulondo, Quanhama, Aymbire, Terra de Bale, Uanda, Cuffima, Dongo, Mucuancallas, Quamba, Ganjella, Quamattui, etc. A descripção das suas viagens, datada de Gambos de i85o, figura nos Annaes do Conselho Ultramarino.

 Bernardino José Brochado  teve uma operosa actividade em prol do distrito. Tendo fixado residència durante alguns anos no Cuanhama, estudando e escrevendo as impressões de viagens então empreendidas, conforme consta nos Anais do Conselho Ultramarino. Foi Brochado quem fundou na vila a primeira casa de comércio, exerceu durante muitos anos a função de juiz, vereador e presidente da vereação. Faleceu em Moçâmedes.

Existem escritos da época que contrapõem o termo "presidio/estabelecimento de Mossâmedes", visto como a povoação de brancos europeus, à povoação de pretos mondombes, sendo o primeiro formado pelo o Forte, a barraca do comandante, as feitorias comerciais, a casa dos pescadores,o Hospital e os barracões para os colonos, e formando os segundos, divididos em dois agrupamentos, as cubatas dos indígenas. o Forte de pedra solta, segundo Brito Aranha, havia sido construido na Ponta Negra (memórias, og 230) A barraca do comandante, presume-se do termo de 13 de Agosto, fora levantada perto ou dentro da área do Forte.

Em Moçâmedes existia já no sitio das Hortas uma feitoria pertencente a Jacome Filippe Torres, em 1840 quando Pedro Alexandrino da Cunha veio com a corveta Isabel Maria estudar a costa, e o tenente Garcia veio fundar o presidio. Em seguida fundou outra feitoria um Clemente Eleuterio Freire, em 1841. e foi outra fundada por Bernardino José Brochado, em 1843,  ainda outra por Fernando José Cardoso Guimarães, e tempo depois outra por João Antonio de Magalhães. Estas feitorias e o presidio, uma força militar e degredados, eram o nucleo da futura vila.

Em 1839 António Joaquim Guimarães. Em 1841, Clemente Eleutério Freire, de sociedade com José Maria de Sousa e Almeida, e José Teixeira Cravela, negociante no norte do Zaire. Em 1843, Fernando José Cardoso Guimarães de sociedade com Luis Baptista Fins e D. Ana Joaquina dos Santos e Silva, de Luanda e João Pinto Gonçalves de Novo Redondo. Em 1844 Venâncio António da Silva, de Luanda. Em 1845 João António Magalhães de sociedade com Augusto Garrido, de Luanda, negociou o estabelecimento até ao ano 1851. Mendonça Torres não os considera, pois , colonos fundadores com excepção de  Bernardino José Brochado, porque nada mais foram que meros moradores acidentais, não construiram moradias para a conveniente formação do  aglomerado distrital, não acompanharam as indispensáveis circunstâncias para o genuino exercício da missão colonizadora, não foram uteis organizadores de lares com o intuito de imprimir às suas vidas feição de permanência, não foram zelosos economizadores de cabedais para avisada prevenção de futuro, não foram cautos transmissores de bens aos seus legítimos descendentes. Deixaram perder, (danificados, roubados ou abandonados) os módicos haveres que porfiadamente adquiriram e que viriam em pouco tempo a desaparecer sem que deles restasse uma sombra de vestígio.

O relatório das suas explorações, Descrição das Terras do Humbe, Camba, Mulondo, Cuanhama e outras, contendo uma ideia da sua população, seus costumes, vestuário, etc., datado dos Gambos a 1 de Setembro de 1850 e publicado nos Anais do Conselho Ultramarino (parte não oficial), série I, Novembro de 1855, é um precioso repositório de informações referentes ao carácter, religião e costumes dos povos dessas regiões. Esse trabalho contribuiu ainda eficazmente para a resolução de certos problemas geo­gráficos, tais como a determinação do curso e foz do rio Cunene, questão esta que de novo abordou mais directamente em carta datada de Moçâmedes, a 13 de Março de 1854, e em parte transcrita na publicação citada (Fevereiro de 1855, página 129), em artigo referente ao rio Cunene.
   
      
A primeira Escola Primária de Camacupa foi fundada em Fevereiro de 1922 no governo de Norton de Matos funcionando no edifício das 3 mangueiras e o início do funcionamento do novo edifício aconteceu em 1949 no governo de Silva Carvalho tendo recebido o nome de Escola Primária n.º 52 de Bernardino Brochado.


(1) Ana Francisca Ferreira Ubertaly, era uma dessas famosas "donas" que emergiram no seio das famílias criolas, tal como Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, frequentemente referidas nos textos de George Tams (1), juntamente com outros grandes negreiros, tais como Arsénio Pompílio Pompeu Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana. George Tams considera-os: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transacção criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros». Tams foi um médico alemão que visitou Angola em meados do século XIX, e descreveu pormenorizadamente a vida económica e social de cidades como Benguela, Luanda e Novo Redondo.. De acordo com as suas observações, as movimentações dos núcleos litorâneos animavam-se a cada dia com a chegada de caravanas vindas do interior, carregadas de marfim, de cera e de urzela, mas também de escravos que entravam à noite em surdina, em razão das interdições que já se faziam sentir. Ao longo dos trajectos pela costa, entre o sul de Benguela e Ambriz, para onde se deslocaram os embarques então na clandestinidade, deparava-se com situações características de um comércio considerado ilegal, marcado por uma dinâmica imposta pela presença do esquadrão britânico e pelas leis europeias antitráfico. Tams localiza agentes, feitorias de várias nacionalidades e barracões improvisados que se espalhavam por praias ermas e pequenos ancoradouros em zonas quase despovoadas, que só eram atravessadas quando os apanhadores de escravos as atingiam. Ana Francisca Ferreira Ubertaly com a abolição do tráfico de escravos, nãu da escravatura interna,  teria visto em Moçâmedes, povoação recentemente fundada ao abrigo de um novo paradigma colonial,  uma forma de recorversão para outros negócios. 



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