Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 11 de agosto de 2007

O Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, facultativo (Médico) em Mossãmedes (Angola) em meados do século XIX

 
O major-médico Dr. JOÃO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO 
 

Na obra "Quarenta e Cinco Dias em Angola", de autor anónimo, publicada em 1862, podemos ler as seguintes referências ao Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro: 

...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda ha pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa; proporciona-nos a occasião de vermos a propriedade do mais excêntrico dos facultativos. 

O cirurgião-medico de Mossamedes, além de sèr habilissimo na sua arte, é um excellente homem, estimado de toda a gente qiie tem a felicidade de o conhecer. Lapa e Faro é o seu nome, estudou quatro annos na escola do Porto, frequentou o quinto em Lisboa, entrou para o serviço da armada, e acha-se, não sei como, estabelecido em Mossamedes, onde gosa dos melhores créditos. Dotado de um génio independente, obsequeia a todos, mas não se torna importuno com pedidos. Qual outro Robinson, poderia o acaso lançal-o em aguma ilha deserta, que pouco se affligiria com isso : habilidoso em todos os officios, é elle que se veste, se calça, e faz os seus chapéos — mas tudo parece mais obra de um hábil mestre, que de um simples curioso. Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. 

Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho. Preferindo Viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz magnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de casado em Portugal, parece estar no firme propósito de trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde tenciona occupar-se da cultura do algodão.


Através da obra de Manuel Júlio de Mendonça Torres, O Distrito de Moçâmedes nas Fases de Origem e da Primeira Organização 1485 – 1859, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1974, 1° Volume, ficámos a saber de outros nomes que não estando registados como fundadores do Distrito de Moçâmedes, são elevados a esse «Quadro de Honra». É o caso do popular facultativo da, alí colocado, onde exerceu clínica e passou quase toda a sua vida:

...Ainda que não pertencesse a nenhum dos grupos de 1849 ou de 1850, activa e dedicadamente prestara inovidáveis serviços ao Distrito e às suas gentes na fase da sua formação, pelo que a sua veneranda memória se tornara credora de singela, mas expressiva homenagem, que aqui deixamos reproduzida".

..Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho.
O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro,  que na  maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado  seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha  pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada. 

Ainda sobre o Dr Lapa e Faro, e no que concerne a caçadores que se distinguiram à época da formação do distrito de Moçâmedes,  num relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879 publicado no Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, pudemos colher a notícia de que o facultativo era possuidor de um veículo que havia mandado construir para transportar pelos areais de Moçâmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender.  Tratava-se de um carro leve e cómodo, puxado por um boi-cavalo, orientado por um indígena da região, que além de conduzir passageiros, servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.

O Dr. Lapa e Faro, que passou quase toda a sua vida em Moçâmedes, onde exerceu clínica, comunicava em 22 de Maio desse ano de 1865 ter concluído a primeira fase do embalsamamento de um leão, que se remetia para o reino. Em cota lavrada sobre o documento determinava-se que este facultativo fosse louvado pelo trabalho realizado e iniciativa que tivera. (ass) BERNARDINO JOSÉ BROCHADO E JOÃO DUARTE DE ALMEIDA, NESTOR DA COSTA, JOSÉ ANCHIETA
                                                                        

A bela moradia do Dr. Lapa e Faro (1)


Ainda sobre o Dr. Lapa e Faro, no Livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, 2º volume, do Ciclo Aureo da Cultura do Algodão, vem uma referência a um ofício de Pinto Balsemão, datado de 23.03.1868, onde este descreve, entusiasmado, a casa do Dr. Lapa e Faro, médico na povoação, que estava à época a ser construída, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que devia ser a melhor da vila. Possuía também dois jardins, um deles coberto de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, etc., outro a ser construído ainda:
 
 «Só quem vê aquele aquele areal estéril e pleno de monotonia em que está colocada a vila,  pode bem prever as dificuldades com que o Dr. Lapa e Faro tinha lutado para conseguir ter jardins no pé em que estão os que cercam a sua vivenda em Mossâmedes, dada a dificuldade de obtenção de tudo quanto é necessário, a terra para jardim vinda de grande distância,  as sementes e os arbustos de países remotos para aclimatar a Mossâmedes, grandes despesas».

"...Ficava situada na Rua das Hortas (?), época em que a moradora, sua proprietária, era Rosa Gonçalves Moreira, funcionando arrendado no jardim um campo de jogos de um grupo desportivo local.  Refere ainda Balsemão a existência de uma outra vivenda que também pertenceu ao Dr. Lapa e Faro,  próxima da Aguada, nos arrabaldes da vila, construida posteriormente, que nada tem a ver com esta situada em plena vila...
A casa romântica, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que chegara a ser a melhor da vila, com dois jardins, cobertos de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, a casa da Desvia era propriedade de Rosa Gonçalves, e 

Quando Manuel Júlio de Mendonça Torres nasceu, a vivenda romântica em Arte Noveau, da Rua Calheiros que por engano é descrita como estando na Rua das Hortas, como ele mesmo refere,  já não pertencia ao Dr Lapa e Faro, que havia falecido há muito. Era entáo  conhecida como a "Casa da Desvia".
 
 No 2º volume do seu livro "Moçâmedes, no Ciclo Áureo da Cultura do Algodão", Mendonça Torres faz  referência a um Chalé igualmente mandados construir pelo Dr. Lapa e Faro,  que ficava próximo da Aguada, nos arrabaldes da vila, construído posteriormente, e que nada tinha a ver com aquela outra situada em plena vila.
 

 O "Chalé" da Horta da Nação

"Chalé da Horta da Nação", na margem esquerda do Rio Béro, que é também, sem dívida, uma belíssima construção, segundo Victor Mendonça Torres fizera parte da propriedade que vinha das salinas até à Horta do Torres (Benfica incluso)l mais tarde vendida, em lotes,  a seu tio Gaspar Madeira , tendo ainda mais tarde cabido em herança a seu irmão Prazeres Madeira, e a de Benfica passara para o Venâncio Guimaráes. Actualmente parece pertencer à Policia Nacional



Pesquisa e composição de texto de MariaNJardim 


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