O CINE TEATRO DE MOÇÂMEDES na fabulosa arquitectura "ARTE DÉCO"
Assim tudo começou, na década de 1940, naquele espaço ajardinado ao qual tinham dado o nome de "Jardim da Colónia",
Foi neste espaço ajardinado, o "Jardim da Colónia", nesta altura sem muros a contorná-lo, que foi erguido o Cine Teatro de Moçâmedes. Importa lembrar que para o local foi na época projectado um monumento aos «colonos» pioneiros, cuja primeira pedra chegou a ser lançada em acto solene, mas que nunca chegou a efectivar-se. (veja AQUI)
O Cine Moçâmedes nos anos 1950
O Cine Teatro de Moçâmedes nos anos 50, tendo aiinda ao lado um barracão onde ficava a casa da máquina.
Anos 1960... Já tendo ao lado um edifício de grande porte que à época chegou a ser questionado por alguns residentes, quando pouca ainda era a sensibilidade das pessoas da terra na matéria do enquadramento paisagístico...
Este
é o Cine Teatro de Moçâmedes (vulgo cinema do Eurico), dotado de uma traça arquitectónica
considerada revolucionária para a época, o ARTE DÉCO (1), essa maravilha que
foi trampolim decisivo para a arquitectura modernista, surgida nas
primeiras décadas do século XX, na Europa, e que se espalhou por todo o
mundo Ocidental, chegando às terras do Namibe, com enorme satisfação da sua população que clamava por um lugar onde pudesse
assistir às mais diversas manifestações culturais e artísticas, peças de
teatro locais e vindas de fora, actos de variedades, exibição de
filmes, etc, em condições de acomodamento e de modernidade, mau grado
tratar-se de um tempo de imediato pós-guerra 1839-45, tempo de retracção económica e
financeira, de racionamentos, senhas para aquisição de alimentos, etc
etc.
Eram proprietários do Cine Teatro de Moçâmedes, Eurico Martins, António Pedro Bauleth, Gaspar Gonçalo
Madeira e António do Nascimento Marques.
O Cine Teatro de Moçâmedes veio subdtituir o Teatro Garrett, a bela sala de espectáculos de Raúl de Sousa, situada na Rua Goernador Calheiros, demolida para dar lugar à construção do edifício-sede do Atlético Clube de Moçâmedes, na
Rua Calheiros, onde a população viu correr as primeiras peças de
teatro e de revista e os primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em
cinema mudo, porquanto nesse interim era no pequeno
palco do
Clube Recreativo, o popular Ferrovia, sito na Rua Serpa
Pinto, sem grandes condições de acomodamento, que sob a exploração do mesmo
Raúl de Sousa, decorriam as sessões cinematográficas e peças de
teatro, sem nunca atingir o grande público que tinha entranhada a ideia
que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço.O Cine Teatro de Moçâmedes abrange 2500m2 de área, 25x50m2. e um corpo em volumes geométricos bem definidos, horizontais,
verticais, arredondados, zigzagueantes, com materiais como a madeira, o vidro, o
ferro, estes últimos a sobressair na estética exterior, enquanto na sala
interior assume proporções generosas entre a plateia e o balcão,
fazendo-se o
acesso ao balcão por uma escadaria lateral com pormenores igualmente
DÉCO. (1)
Enquadramento paisagístico em postal editado por ocasião do Centenário, em 04 de Agosto de 1949. Por esta altura é que estavam correctos. A Avenida não deveria ficar "emparedada" entre construções em altura. Não mais que edifícios térreos, o máximo de 1º andar. E no lado da praia a mesma preocupação de não tirar vistas, nem erguer paredes... Do hall que dá acessoo ao balções e aos camarotes no 1º andar, podiam os moçamedenses islumbrar o mar em frente e toda a paisagem circundante.
Nas imedições: o Quiosque do Faustino, também erguido nesta década , no local onde se encontrava um OBELISCO, monumento aos Heróis da Liberdade, que havia chegado aqui. indo da primitiva Praça Sá da Bandeira que ficava no quarteirão onde no anos 1930 foi erguida a Esccola Portugal.
O Cine-Teatro a partir o Quiosque do Faustino
O movimento era enorme aos domingos à tarde...
Bilhetes do Cine Teatro de Moçâmedes, um ano antes da independência
Esta bela foto tirada à entrada do
Cine Moçâmedes , em 1946, junto a um Cartaz publicitário do filme
"Romance Sensacional", interpretado por Ester Williams e Van Jonhson,
mostra-nos um grupo de jovens estudantes finalistas da Escola Prática
de Pesca e Comércio de Moçâmedes: Maria Emilia Ferreira Ramos, Francisco
José Magalhães Monteiro, Albano Pestana da Costa Santo (Carriço) ,
Humberto dos Santos Pinho Gomes e Maria Edith Lisboa Frota. Era o tipo
de filme que sempre agradava, um musical romântico. Moçâmedes sempre
gozou da fama de ter mulheres bonitas, fama que aqui se confirma
plenamente. Mas a verdade é que eles não ficavam atrás!
O corredor lateral do Cine Teatro de Moçâmedes
O interior do Cine Teatro de Moçâmedes: plateia e o cimo da escadaria de acesso ao 1º piso
O interior do Cine Teatro de Moçâmedes: plateia e o cimo da escadaria de acesso ao 1º piso
Filmes houve cujos musicais que os acompanharam marcaram uma época. Foi o caso do Filme ANNA em que Silvana Mangano canta e dança «El Negro Zumbón». Recordo-me como de imediato o popular conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» incluiu no seu reportório este género musical que todo o mundo começou a dançar com grande habilidade e graciosidade nos bailes e matinées dançantes nos salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Casino. A letra: «Ya viene el negro zumbon, Bailando alegre el baion Repica la zambomba. Y llama a la mujer Tengo gana de bailar el nuevo compass Dicen todos cuando me ven pasar "¿ Dhica , donde vas?" "Me voy a bailar, el baion!"... O ritmo uma mistura de rumba e baião. Silvana Mangano tem o crédito de cantora, tanto no filme quanto no disco, mas quem canta é Flo Sandon, cantora italiana. A partir desse filme, espalhou-se entre nós, raparigas de então, a moda das calças à Anna, isto, em meados da década de 1950. A música El Negro Zumbón, do compositor, pianista e director de orquestra Perez Prado. foi feita para este clássico filmado em 1951 e dirigido por Alberto Lattuada. Contracenaram com Silvana Mangano, Vittorio Gassmann e Ralf Vallone. Nessa altura a cultura musical brasileira já tinha uma indústria fonográfica poderosa e sos seus sucessos invadiam outras culturas, incluindo a nossa, neste cantinho de África. Foi o caso do êxito da canção «A namoradinha de um amigo meu», de Roberto Carlos, cantarolada entre os mucubais, povo do Deserto, secularmente impermeável à aculturação, quando desciam à cidade...
O Quiosque do Faustino, alí mesmo ao lado...
«O Monte dos Vendavais» transportava consigo ideais de liberdade e de independência que era necessário não deixar germinar na juventude de então.E no entanto, não era mais que a história de um casal que no decurso de uma viagem resolve adoptar uma criança que vai suscitar sentimentos antagónicos nos seus dois filhos naturais, ou seja, sentimentos de afastamento, humilhação, ódio e ciúme, por um lado, e de aproximação e amor platónico, por outro, redundando num enredo trágico tipo Romeu e Julieta, passado na época vitoriana. Em contrapartida, não havia mal algum que as inocentes criancinhas e os jovens de então assistissem a filmes onde o lobo mau comia avó, ou onde americanos matavam índios como bichos, e índios arrancavam os escalpes aos americanos... É claro reclamámos e recebemos de volta o dinheiro, mas foi de facto um exagero. Nesse tempo não eram exigidos à entrada os bilhetes de identidade, o que facultava aos jovens adolescentes e sobretudo às raparigas, que amadureciam mais cedo, a possibilidade de, através de uma toilette mais senhoril, enganarem o porteiro, que na dúvida, não se atrevia a não as deixar entrar.
Eram sempre concorridas e animadíssimas as matinées aos domingos à tarde. Como os bilhetes na 2ª plateia eram os mais baratos, a garotada corria para ali em busca do melhor lugar, o mais afastado possível do palco, plateia que era frequentada também por africanos jovens na sua maioria empregados domésticos (criados). Quando tocava para intervalo era ver os garotos sairem apressadamente na direcção do Bar bar do Cinema,ou do Quiosque do Faustino, ali perto, onde se vendiam gulodices. Mais tarde, a alternativa, era também o café Avenida que ficava ali mesmo ao lado.
E quando corriam os western's, era vê-los todos, sem excepção, baterem palmas de euforia quando aparecia a 7ª cavalaria a defender as caravanas que estavam sendo atacadas pelos índios, ou então a esconderem a cabeça, indignados, quando os índios tiravam o escalpe aos brancos e faziam destes trunfos de guerra.
Em Moçâmedes havia a prática das entradas à «boleia» nas sessões cinematográficas que um ou outro rapazinho atrevido conseguia, passando despercebido do porteiro. Outros chegavam mesmo a pular a janela lateral, sendo por vezes "agarrados" pelos vigilantes e postos fora. Que vergonha então sentiam, chegavam a confessar...
A respeito de «boleias» quero registar aqui o nome de uma benemérita senhora de Moçâmedes, a Dona Aninhas de Sousa, esposa Raúl de Sousa, o já aqui citado proprietário do antigo Cine Garrett, e mãe do Raúl de Sousa Junior (Lico de Sousa, que foi vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes, e cujo nome ficou ligado ao Parque de Campismo da cidade). Como acima referi, quando da demolição do Cine Garrett, Raúl de Sousa alugou o salão do Ferrovia onde fazia passar as suas sessões cinematográficas. Ora, a chegada ao Ferrovia de Dona Aninhas, sua esposa, era sempre ansiosamente esperada por algumas crianças que ficavam à porta daquela associação à sua espera, porque que assim que ela chegava, entravam (à borla) com ela.
Mas no Cine Teatro de Moçâmedes não se realizaram apenas sessões cinematográficas. Ao seu palco subiram peças de teatro, actos de variedades, teatro de comédia, espectáculos de bailado, espectáculos de revista à portuguesa, etc. etc. E não faltrm os shows das coristas vindas da Metrópole que na sua curta estadia partiam de amor sedentos corações masculinos.
Alicantaram Alberto Ribeiro, Tony de Matos, Horácio Reinaldo, Luís Piçarra, Marisol, Carlos do Carmo, Trio Odemira, Duo Ouro Negro, Nelson Ned, e tantos outros grandes cantores que o tempo não deixa recordar. Ali actuou o Orfeão Académico de Coimbra (que de visita a Moçâmedes cantou uma serenata nas escadarias do Palácio da Justiça -Tribunal), o Humberto Madeira, o Octávio de Matos, ali declamou o grande João Villaret, etc.
Cocktail no Clube Nautico oferecido ao conjunto musical
Duo Ouro Negro, após a sua actuação em Moçâmedes. Foto Salvador
Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes
Octávio de Matos, actor-ilusionista, também actuou em Moçâmedes
E lá mais para o
início dos anos 1960 é a vez de Helena Rocha, menininha ainda, mas já
com uma voz forte e bem timbrada que enchia o palco do
Cine Teatro de Moçâmedes, e que se revelou fora de portas com o «Calhambeque», canção na época lançada por Roberto Carlos com grande sucesso.
Carlos Moutinho e Cecília Victor
e na década de 50 ali decorreram animados «Programas da Simpatia» patrocinados pelo Rádio Clube de Moçâmedes e pelo grande radialista Carlos Moutinho, que incluiam concursos vários, de canto, de dança, testes de conhecimentos gerais, etc. etc.Alí se disputaram concursos de canto e de dança, e outros que incluiam testes de conhecimentos gerais, etc. Alí se revelaram com êxito tantas e tantas vozes, algumas das quais delirantemente aplaudidas pelos espectadores que passo a citar: Nélinha Costa Santos (soprano, com a sua Avé Maria de Schubert - ver foto acima), Fernanda Braz de Sousa (música clássica), Isabel Maria Sena Costa, Maria Lídia com a sua voz melodiosa e em dueto com José Manuel Frota, Maria José Camacho (com a bela canção «Moçâmedes nasceu à beira mar..., outra canção de grande sucesso na cidade)», Adriano Parreira (tenor e locutor do RCM , o Mário Lanza do Namibe), Jerónimo Ribeiro (tenor), José Patrício (tenor), Armando Duarte de Almeida (fados de Coimbra), Mário Cantor (com a canção «Amor dou-te o meu coração...», etc.etc. E tantas outras vozes cujos nomes dos intérpretes não recordo de momento. E a Lena Rocha, menina ainda, mas já com uma voz forte e bem timbrada a cantar «O Calhambeque», de Roberto Carlos, mais tarde, em 1965, editada em EP para DECCA.
Na foto: Nélinha Costa Santos cantando "Avé Maria de Schubert. num "Programa da Simpatia". Foto Salvador

Helena Rocha e o "Calhambeque". Imagem retirada DAQUI
E ainda, o «Grupo Boa Vontade» com Dina Chalupa, e o grupo de dança rítmica e ballet de Mme Sybleras, sem esquecer as festas e teatros dos estudantes finalistas, os desfiles de vestidos de chita e trajes de Carnaval. ...
O grupo de ballet sob a direcção de Lili Salvador
Ballet com garotas do Colégio...
Desfile de trajes de Carnaval
Teatro das alunas do Colégio das Doroteis
Festa dos Finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes
Os bombeiros de Moçâmedes a acudir ao incêndio que nessa noite se propagou...
Mas este Cine Teatro também teve os seus momentos tristes, e o pior aconteceu com a grande tragédia que abalou o nosso pequeno burgo, quando num fatídico dia, em 1960, quando decorria o filme «Amanhã será tarde», o quarto no rés do chão junto ao bar, onde ficavam guardadas as bobines dos filmes começou a arder após uma explosão, e uma lingua de fogo panhou algumas pessoas pela frente, projectando outras pelo ar, morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira (sobrinho do industrial e comerciante, Gaspar Gonçalo Madeira), jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. Jorge nem sequer tinha ido ao Cinemam tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém da bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fumo. Foi precisamente no momento em que acabara de entregar o lenço, quando se volta de costas, que uma grande explosão fez a casa das filmagem ir pelos ares, e arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão D. Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua participação em várias provas automobilistas, na década de 1950, em Moçâmedes, e nos rallies das 1ªs Festas do Mar, mãe dos dois conhecidos hoquistas, corria na cidade, que se atirou da janela do 1º andar e também não morreu por um triz.
Já nos primeiros tempos do Cine Teatro, quando ainda funcionava com um gerador de electricidade, um outro grave acidente havia acontecido, no qual um dos proprietários, Eurico Martins, perdeu um braço, apanhado pela correia do referido gerador. O casa que abrigava o gerador ficava ali mesmo ao lado do Cinema, e com a chegada da electricidade à cidade acabou por ser demolida e dar lugar ao novo e moderno edifício onde, nos finais da década de 50 , se instalou a Pastelaria Avenida.
Resta ainda referir que este Cinema foi palco de um animado comício político aquando da campanha eleitoral de Humberto Delgado. Estava-se em plena ditadura salazarista, numa época em que as anteriores candidaturas da oposição eram forçadas a desistir por força das pressões e perseguições decorrentes da próprio regime e da falta de condições para a liberdade da votação. Foi o caso do caso do general Norton de Matos, de Arlindo Vicente, etc., não foi o caso de Humberto Delgado. A candidatura do general Humberto Delgado despertou em todo o país um enorme entusiasmo, e tornara bem evidente o descontentamento que pairava em relação à política do Estado Novo. Mariano Pereira Craveiro, o empreendedor presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» (2) era um republicano de raiz maçónica, oposicionista do regime, e fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado ao lado de Pereira Craveiro, junto a uma mesa colocada no palco do Cine Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...» Escusado será dizer que os resultados oficiais das eleições deram a vitória ao candidato Américo Tomás, que se foi mantendo na Presidência da República até 1974. De facto a candidatura do General Humberto Delgado motivou uma forte mobilização da Oposição Portuguesa em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral. O general Humberto Delgado o “General Sem Medo” contestou as eleições e afirmou sempre a sua vitória. A sua derrota foi atribuída à viciação dos cadernos eleitorais e ao não controlo das urnas de voto pela oposição. A sua ousadia viria a custar-lhe a vida, anos mais tarde, quando, caindo numa cilada, foi assassinado pela Pide no dia 13 de Fevereiro de 1965, em Villanueva del Fresno, Espanha. (incluo no final link para hiperligação com o livro "Comunidades Imaginadas" por Luís Reis Torgal, Fernando Tavares Pimenta,Julião Soares Sousa, que nos fala sobre o assunto.)
Nos
anos 60 surgiu uma segunda casa de espectáculos em Moçâmedes, o Cine
Esplanada Impala, propriedade de que eram sócios Norberto Gouveia, Artur
Pinho Gomes e ?..., e veio fazer concorrência ao Cine Teatro de
Moçâmedes, mas mais no Verão, pois as noites de Inverno em Moçâmedes,
sobretudo no mês de Junho, Julho e Agosto eram geladas, e o Impala, com a
sua arquitectura neo-modernista de espaços abertos e ao ar livre,
tornava-se um lugar desagradável levando a que muita gente preferisse o
«veterano» Cine Teatro Moçâmedes, o popular Cinema do Eurico...
Mais que uma forma de lazer ou de evasão ao fim de cada semana de trabalho, o Cine Teatro de Moçâmedes, tal como todos os Cines do mundo, deu o seu contributo para a grande mudança ao nível das mentalidades que se verificou no pós última Grande Guerra. Moçâmedes era uma cidade onde os modelos se mantinham perenes e onde nada de novo costumava acontecer, pelo menos até ao início da década de 1950 . A máquina dos sonhos contribuiu para uniformizar os corpos moldar espíritos, generalizar tipos de comportamentos, estilos de vida, posturas, modas, penteados, etc. E ao impor modelos, moldou até os próprios sonhos dos espectadores...
O Cinema foi ainda utilizado como arma de guerra durante a 2ª Guerra Mundial, como poderoso meio de difusão de modelos sócio-culturais e de padronização de comportamentos. Veículo de propaganda política e de impregnação ideológica dos regimes ditatoriais da Europa, o Cinema teve papel fundamental na política e na formação da opinião pública, ao manipular censura, propaganda, crítica reprovadora de alguns comportamentos sociais ou regimes políticos. Recordo como os documentários que abriam as sessões de Cinema veiculavam a propaganda do Estado Novo. Mas o Cinema também serviu de meio de instrução .Todos aprendíamos algo de novo em cada sessão, os mais cultos e os menos cultos, e neste caso contribuiu para reduzir a diferença de conhecimentos entre pessoas instruídas e pessoas não instruídas, proporcionando ainda ao grande público programas culturais que de outro modo lhe estariam interditos.
Quando se deu o 25 de Abril em 1974, e começaram as conversações para a independência de Angola, um novo Cinema já estava em fase adiantada de construção e não iria faltar muito tempo para ser inaugurado. Era uma sala de espectáculos de arquitectura neo-modernista, espacial e futurista mas, ao contrário do Cine Esplanada Impala, era bastante fechada, e ainda hoje se encontra por acabar, mais de 30 anos após a independência de Angola. Esta nova casa de espectáculos, que creio pertencia dos mesmos proprietários do Cine Teatro de Moçâmedes, está situada por detrás dos modernos edifícios públicos que naquele tempo se encontravam ocupados pela Associação Comercial, as Repartição de Finanças e o Governo do Distrito, na então Avenida Felner, a avenida sobranceira ao mar que faz a ligação entre a parte baixa da cidade e a Torre do Tombo.
Estas são recordações de um tempo que já lá vai e não volta mais, tempo da minha juventude, de gente saudável e irrequieta, cujas memórias venho procurando neste blogue registar. E só faz sentido fazê-lo, porque como tantas outras, na imensa Angola daquele tempo, fomos uma comunidade que num repente se esfumou, e que dela, hoje dispersa pelo mundo, só restam recordações ténues quando não apagadas, que imagens e textos como este vão ajudando a lembrar...
MariaNJardim
(1)
(1)
Até ao surgimento do Cine Esplanada Impala, na década de 1960, era o Cine Teatro de Moçâmedes, a única sala de espectáculos da cidade onde decorriam sessões cinematográficas diariamente a partir das 21 horas, e aos fins de semana, matinées a partir das 17 horas da tarde , sendo que por fim aquele Cine pasara a exibir aos domingos à tarde duas sessões, a das 15 e a das 17hs, aquela geralmente frequentada pelos mais novos.
E
foi sempre assim muito concorrido até uns meses antes independência de
Angola, a 11 de Novembro de 1975, quando começou a ponte aérea para a
Metrópole e com ela, a debandada geral da população de origem europeia.
(1) O ARTE DÉCO,
de início marcada por algum rebuscamento, ao fazer a transição do ARTE
NOVEAU, OU ARTE NOVA para a Modernidade, foi-se tornando mais simples, e
com passar do tempo, e a
influência do cubismo, tornando-se a preferida no mundo do
espectáculo, com estruturas especiais que aglutinavam o Cinema e os
Teatros.
ATENÇÃO:
Este texto pode ser parcial ou totalmente reproduzido, desde que respeitada seja a sua AUTORIA. Caso seja daqui retirado algo e republicado sem o respeito da LEIS DE COPYRIGHT, incorre em PLÁGIO que é aprpriação da obra de outrem , que é punível por Lei




























Adorei ver estas im agens e ler estes textos sobre a minha terra e os anos da minha infância. Cinsidero este o melhor blogue sobre a Angola que todos nós recordamos, com a nostalgia que nos proporcinam sempre as memórias maravilhosas dos tempos que não voltam mas que estão sempre vivos nbos nossos corações. Os meus netos adoram também ver estas imagens, que eu vou comentando, de forma a que as minhas raízes sejam transplantadas para eles. Acho importante que elas perdurem nas novas gerações porque fazendo isto, eles continuarão a história da nossa Angola, que foi berço dos seus avós. Parabéns por este trabalho magnífico.
ResponderEliminarVera Lucia
Gostei muito de ler este artigo ainda por cima ilustrado com o meu bilhete da única vez que lá fui em Dezembro de 1974. O filme foi "Ele era Invencível" com Brad Harris e John Barracuda (tenho escrito no verso). Morava em Sá da Bandeira e num fim-de-semana de praia passado em Mocâmedes, fui a uma sessão à noite. Este cinema deve estar para vós, como o Odeon estava para os "chicoronhos" Abraço fraternal a todos os Mocâmedenses.
ResponderEliminarJorge Duarte
jomagudu@gmail.com
http://jomagudu.googlepages.com/
Gostei muito de ler este artigo sobre o vosso cine-teatro ainda mais, ilustrado com o bilhete da única vez que lá fui. Morávamos em Sá da Bandeira e fomos passar um fim-de-semana a Moçâmedes. À noite fui com o meu irmão ao cinema. O filme chamava-se "Ele era Invencível" com Brad Harris e John Barracuda (está escrito no verso e se virem ao lado do nº 7 coseguem ver "Barracuda" ao contrário). Lembro-me de ouvir contar a história do incêndio. Eu tnha 14 anos em Dezembro de 1974...
ResponderEliminarAbraço a todos
Jorge Duarte - jomagudu@gmail.com
http://jomagudu.googlepages.com/
Muito obrigada pelos comentários. Um agradecimento especial à Vera Lúcia, minha conterrânea, pelo elogio aqui deixado. Espero continuar a merecê-lo, e a sentir o prazer das vossas visitas.
ResponderEliminarUm abraço
MariaNJardim
wonderful blog about the history of cinemas in namibe. i´m very interested in the neo modern style curved concret-building which is on the big place near by the military station. who is able to give me more informations ... architect, function, year of construction etc. every help is more than welcome. all the best, alfred
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