Ano de 1955. Perspectiva feliz da baía de Moçâmedes, tal como era antes do desmantelamento das antigas pescarias e início das obras da construção do cais comercial e avenida marginal
Por esse tempo, em nome do progresso, a população da cidade de Moçâmedes em breve
iria assistir à demolição das antigas pescarias que circundavam a
baía, desde uma zona próxima da Ponta do Noronha, ou Pau do Sul, até
quase à base do morro da Ponta Negra, ou Ponta de S. Fernando, onde assenta a Fortaleza.
Eu vi, eu estava lá!
No ano de 1954, tendo em vista o arranque do processo da construção do cais acostável
e da futura avenida marginal, acontecimento que levou â demolição das antigas pescarias que circundavam a baía, a cidade de Moçâmedes recebeu a visita do Presidente da
República portuguesa, General Higino Craveiro Lopes, para presidir ao acto
solene do arranque dos trabalhos do citado cais.
Ver aqui a visita do PR:
Na foto abaixo podemos ver o momento em que o Presidente
Craveiro Lopes carrega no botão que fez explodir uma parte da
falésia, inugurando assim as obras do porto de cais.Em nome do progresso industrias de pesca e industriais.pescadores tiveram que fazer as malas e partir.... Mas para onde ? Interrogavam-se muitos.
Mais perto, bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento, no cimo da falésia, povo a assistir...
Havia um
projecto da iniciativa do Ministro do Ultramar e do Governador Geral
de então, em colaboração com o Grémio da Pesca e com o Banco de Angola, que visava a instalação no distrito de uma importante empresa destinada a cerca de meia dúzia de industriais de Pesca, quase todos eles pescadores, cujas instalações na Torre do
Tombo iriam ser demolidas em consequência das obras do Porto e Avenida Marginal. Achava-se então que era uma
oportunidade a não perder, que traria lucros apreciáveis que seriam
repartidos por todos os industriais e industriais-pescadores, mas que os obrigaria a adquirir à poteriori embarcações modernas.
Ora, na óptica da dúzia e meia dos
pequenos industriais, a maioria pescadores-proprietários, tal projecto não tinha em conta as suas reais necessidades. Para além de ter chegado fora do tempo, dada a falta de um financiamento imediato, desenrolou-se tarde e a
más horas, e para agravar a situação, através de um projecto considerado irrealista, facto que os levou a desistir.
Nas reuniões que se seguiram em prol da «União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo», no Saco do Giraul, problemas
de vária ordem foram colocados pelos eventuais «novos associados» de tão
importante empreendimento, e que, pormenorizando, se resumiam mais ou menos no seguinte:
1. Entendia essa dúzia e meia de pequenos industriais-pescadores deslocalizados das suas pescarias na Torre do Tombo, que instalação no Saco de uma fábrica de farinhas e óleos de peixe para onde deveriam remeter o pescado, ficava fora de mão, e que o produto da pesca não daria para suprir as despesas com deslocaçõe , sendo grande a perda de tempo nas mesmas.
2. Entendiam que a dita fábrica, apenas com uma traineira, não seria rentável e que chegados ali os barcos para descarregarem o pescado na ponte existente, teriam que ficar à espera uns dos outros enquanto o peixe se deteriorava.
3. Queixavam-se os pequenos industrias que era ilusória a situação que se apregoava de virem a ser sócios participantes de uma excelente unidade de indústria munida de fábrica de farinhas e óleos de peixe nestas condições.
1. Entendia essa dúzia e meia de pequenos industriais-pescadores deslocalizados das suas pescarias na Torre do Tombo, que instalação no Saco de uma fábrica de farinhas e óleos de peixe para onde deveriam remeter o pescado, ficava fora de mão, e que o produto da pesca não daria para suprir as despesas com deslocaçõe , sendo grande a perda de tempo nas mesmas.
2. Entendiam que a dita fábrica, apenas com uma traineira, não seria rentável e que chegados ali os barcos para descarregarem o pescado na ponte existente, teriam que ficar à espera uns dos outros enquanto o peixe se deteriorava.
3. Queixavam-se os pequenos industrias que era ilusória a situação que se apregoava de virem a ser sócios participantes de uma excelente unidade de indústria munida de fábrica de farinhas e óleos de peixe nestas condições.
(...)
o que nos dizem os relatos da época:
Finalmente a cerimónia de lançamento da primeira pedra do edifício
para a instalação de uma moderna fábrica de farinhas e óleos de peixe teve lugar, a
"União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo" no Saco do Giraúl, conf. Boletim Geral do Ultramar nº 383, de 1957, pg
202.:
«No Saco do Giraul, com a presença do Governador Vasco Nunes da Ponte realizou-se a cerimonia de lançamento da primeira pedra do edifício que a União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo ali vai construir para a instalação de uma moderna fábrica de farinhas e óleos de peixe.
Depois das cerimónias da benção, lançada pelo Reverendo Pe. Rebelo, e do lançamento da primeira pedra pelo Sr. Dr. Nunes da Ponte, usou da palavra o Sr. João Martins Pereira Junior, seguindo-lhe o Sr. governador do distrito que proferiu seguinte alocução:
"As cerimonias de colocação da primeira pedra de uma obra são por vezes ingratas porque as segundas e demais pedras levam meses ou anos a seguir-se àquela primeira. E até acontece nunca mais chegarem . Se as pedras falassem, creio que por esse mundo fora se ouviriam os gritos de muitas primeiras pedras solitárias, a reclamar as companheiras.
Podemos
estar certos contudo, que tal não acontecerá com esta primeira pedra.
Está assegurado o financiamento da obra que hoje se inicia. E
brevemente será decidido o concurso para aquisição das máquinas ao
fabrico da farinha e óleos de peixe.
A fábrica que neste terreno irá ser construída não representa apenas outra instalação de pesca no distrito. Tem um especial significado. Será mais uma demonstração do que pode a união de esforços. O Ministério do Ultramar, o Governo Geral , o Banco de Angola, o Grémio da Pesca e cerca de meia dúzia de industriais de Pesca, quase todos modestos, conjugaram as suas vontades e as suas possibilidades para resolver os problemas desses industriais cujas instalações na Torre do Tombo tiveram que ser demolidas em consequência das obras do Porto. E dai vai nascer uma importante empresa. Alguns pequenos industriais tornar-se-ão, assim, participantes, sócios de uma excelente unidade da sua indústria. Creio que, noutras condições, isso constituiria, para a maior parte deles não só uma impossibilidade absoluta como uma oportunidade com que nem se ousaria sonhar. Espera-se que esta empresa tenha um bom futuro traduzida em lucros apreciáveis. Se assim for, a própria sociedade poderá e deverá adquirir embarcações modernas, essas embarcações serão de todos e os rendimentos da sua actividade serão repartidos igualmente por todos.
Esta fábrica assume ainda relevo por apontar o caminho do futuro , o caminho que a industria de pesca de Moçâmedes terá de seguir o mais rapidamente que for possível: a mecanização completa da produção dos derivados de pesca.
São conhecidas as dificuldades que são levantadas à exportação de farinhas de Angola, pelo facto de parte do produto não ser fabricado segundo os processos mais eficientes.
Ora, a industria da pesca para a qual Moçâmedes contribui com metade , ou pouco menos do valor total, é actualmente como actividade económica que interessa a grande numero de pessoas e firmas a segunda de Angola. Os valores da sua exportação revelam um progresso constante, e entram na casa ds centenas de milhares de contos. Apresenta portanto a pesca um profundo interesse geral.
O Grémio da Pesca em representação dos industriais do Distrito está conduzindo negociações para assegurar a esterilização das farinha de peixe. A esterilização será um solução imediata, que razões de urgencia exigem, mas não deve fazer esquecer a ínica solução plenamente satisfatória, que consiste, repito, na integral mecanização do fabrico. Só assim a industria de pesca angolana poderá competir com outros paises nos mercados comsumidores, onde a concorrência é cad vez maior.
Sei que a direcção do Grémio da Pesca e, creio , a maior parte dos industriais, estão conscientes desta verdade e dispostos a conjugar as suas energias e as suas possibilidades com o esforço, que o Estado projecta realizar para o reapetrechamento da industria.
Não me pareceu porem, receosa referência ao assunto , porque mesmo a verdade, para ter a aceitação geral, tem que ser repetida muitas vezes.
Mas voltemos à presente cerimónia.
A fábrica que neste terreno irá ser construída não representa apenas outra instalação de pesca no distrito. Tem um especial significado. Será mais uma demonstração do que pode a união de esforços. O Ministério do Ultramar, o Governo Geral , o Banco de Angola, o Grémio da Pesca e cerca de meia dúzia de industriais de Pesca, quase todos modestos, conjugaram as suas vontades e as suas possibilidades para resolver os problemas desses industriais cujas instalações na Torre do Tombo tiveram que ser demolidas em consequência das obras do Porto. E dai vai nascer uma importante empresa. Alguns pequenos industriais tornar-se-ão, assim, participantes, sócios de uma excelente unidade da sua indústria. Creio que, noutras condições, isso constituiria, para a maior parte deles não só uma impossibilidade absoluta como uma oportunidade com que nem se ousaria sonhar. Espera-se que esta empresa tenha um bom futuro traduzida em lucros apreciáveis. Se assim for, a própria sociedade poderá e deverá adquirir embarcações modernas, essas embarcações serão de todos e os rendimentos da sua actividade serão repartidos igualmente por todos.
Esta fábrica assume ainda relevo por apontar o caminho do futuro , o caminho que a industria de pesca de Moçâmedes terá de seguir o mais rapidamente que for possível: a mecanização completa da produção dos derivados de pesca.
São conhecidas as dificuldades que são levantadas à exportação de farinhas de Angola, pelo facto de parte do produto não ser fabricado segundo os processos mais eficientes.
Ora, a industria da pesca para a qual Moçâmedes contribui com metade , ou pouco menos do valor total, é actualmente como actividade económica que interessa a grande numero de pessoas e firmas a segunda de Angola. Os valores da sua exportação revelam um progresso constante, e entram na casa ds centenas de milhares de contos. Apresenta portanto a pesca um profundo interesse geral.
O Grémio da Pesca em representação dos industriais do Distrito está conduzindo negociações para assegurar a esterilização das farinha de peixe. A esterilização será um solução imediata, que razões de urgencia exigem, mas não deve fazer esquecer a ínica solução plenamente satisfatória, que consiste, repito, na integral mecanização do fabrico. Só assim a industria de pesca angolana poderá competir com outros paises nos mercados comsumidores, onde a concorrência é cad vez maior.
Sei que a direcção do Grémio da Pesca e, creio , a maior parte dos industriais, estão conscientes desta verdade e dispostos a conjugar as suas energias e as suas possibilidades com o esforço, que o Estado projecta realizar para o reapetrechamento da industria.
Não me pareceu porem, receosa referência ao assunto , porque mesmo a verdade, para ter a aceitação geral, tem que ser repetida muitas vezes.
Mas voltemos à presente cerimónia.
A ela preside a esperança e a confiança
no futuro. Dentro de alguns meses, quem passar aqui verá, no lugar
deste areal, uma fábrica excelente. E dentro de poucos anos, quem aqui
passar, na povoação do Saco, visitará certamente fábricas novas,
depósitos de carburantes, instalações portuárias e hortas verdejantes.
Na verdade, meus senhores, o desenvolvimento do Saco está ligado ao
desenvolvimento de Moçâmedes. E creio que o futuro não será ávaro com
Moçâmedes.»
(De o «Comércio de Angola»)-
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CONCLUINDO...
Os pescadores-industriais expoliados das suas pequenas pescarias na Torre do Tombo, e entregues a si mesmos, tiveram que se
afastar... Uns quantos juntaram-se em sociedade, compraram as instalações
da antiga «Sociedade Industrial da Ponta Negra» que havia entrado em
regime de falência, com dívidas de impostos ao Estado. E assim surgiu a "Projeque. Esses foram os
únicos que tiveram algum sucesso, porque se tratava de uma zona do
Canjeque mais abrigada, porém já lotada.
Outros, muito poucos, que possuiam pequenas
economias, e não podiam estar à espera das indemnizações do Estado,
que nunca chegaram, resolveram deslocalizar-se para a zona entre o
Canjeque e a Praia Amélia, a 5km das suas habitações, onde, sem qualquer ajuda, construiram as suas novas pescarias, nesse único local diponivel, sob pena de
terem que partir para zonas longínquas em relação ao seu habibat. Ou ali, ou afastarem-se para
longe da morada da familia, construindo as suas pescarias em praias
dispersas e semi-desérticas do Distrito, a norte e a sul da cidade de
Moçâmedes, num tempo em que as estradas não eram asfaltadas, os
tranportes públicos eram inexistentes, os transportes particulares escassos e dispendiosos.
Foto: Traineira
«Luminosa» da «Sociedade Industrial da Ponta Negra, Lda.», a 1ª grande
pescaria que surgiu na zona do Canjeque, cujos proprietários eram
de inicio, António Bernardino, Virgilio Nunes Almeida e ? Matos. Foi esta emprea que foi vendida à PROJEQUE, sociedade formada por um grupo de
deslocalizados das primitivas pescarias situadas na baía de Moçâmedes
que aqui podemos ver na 8ª e última foto. Quanto ao promissor "PROJECTO" que lhes estava reservado, acabaram por ser outros que nada tinham a ver com a situação gerada, mas com
poder económico, a beneficiar de referito projecto.
..................................................................................Quanto
aos restantes lesados, uns poucos deixaram as
suas baleeiras ao largo, na baía, e já sem
as suas pescarias, passaram a dedicar-se com elas à pesca à linha de
espécies
destinadas à venda em fresco nas peixarias da cidade, enquanto outros faliram pura e simplesmente,, e cairam na miséria.
Todos juntos tiveram a
surpresa de ver inatalar-se, em seguida no local onde ficavam algumas das suas
pescarias, a ARAN, de capitais metropolitanos. E com igual surpresa viram chegar
os arrastões a devastar os mares de Moçâmedes, com uma outra forma de
captura de peixe em grande escala, como testemunha o site Mar de Viena . Moçâmedes
tornou-se o porto base onde se passaram a fazer os abastecimentos e
descargas do pescado para os frigoríficos da ARAN (Associação dos
Armadores de Pesca de Angola, SARL), cujo homem forte, ou seja, o maior
proprietário, constava-se na Moçâmedes de então, era o Almirante Henrique Tenreiro, homem que fez
parte do triunvirato Salazar/Cardeal Cerejeira/Almirante Tenreiro. (????)
Do Estado, os pescadores-proprietários deslocalizados das suas pescarias na Torre do Tombo não receberam qualquer indemnização pelo seu desmantelamento, terrenos, instalações etc., alegando estarem as mesmas abrangidas pela faixa marítima.
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Passaremos a descrever a seguir o que se passou na zona entre o
Canjeque e a Praia Amélia, a 5km das suas habitações, onde, sem qualquer ajuda, alguns dos pescadores-proprietários conseguiram com muito sacrifício construir novas pescarias. Era o único local diponivel e acessível em termos de deslocação casa/local de trabalho. Foi então que...
Corria o mês de Março de de 1955, um ano após o Presidente da
República portuguesa, General Higino Craveiro Lopes ter presidido ao acto
solene do arranque dos trabalhos do cais de Moçâmedes... grandes calemas fustigaram as recentemente inauguradas pescarias, naquela zona (Canjeque sul)

A pescaria do meu pai...

Março de 1955 . A pescaria do meu pai...
O
que os proprietários das ditas pescarias não esperavam, era que, logo a seguir ao erguer das suas novas pescarias este desastre acontecesse! (vidé fotos
acima: calema). O resultado foi que a zona foi tragada pelo mar
enfurecido, as «calemas» foram avassaladoras, e, durante dois
longos dias destruiram pontes, arrancaram telheiros, partiram tanques
de salga, não sendo fácil avaliar o montante dos prejuízos
causados. A alternativa
era a deslocalização das pescarias para praias distantes do distrito, a
centenas de quilómetros das moradias dos proprietários, que na sua
maioria eram pescadores sem condições financeiras nem transporte
próprio para se poderem deslocar.
A zona entre o
Canjeque e a Praia Amélia era afinal uma zona desabrigada face a eventuais
calemas. O armazém e casa do pessoal, livre e contratado, os giraus, etc, que ficavam no cimo da falésía, nada sofreram. O Estado, com seu séquito de engenheiros e técnicos de toda a ordem que andaram a estudar a baía, nada fizeram para evitar. o acontecido, desaconselhando o local. Na
escolha do local para a construção do cais-acostável, o Estado
acautelou, dando a preferência à zona das primitivas pescarias, por ser a
mais protegida das «calemas», não obstante menos espaçosa e arejada que a do Saco do Giraúl.
A saber, a sul da Ponta do Noronha, corre a
Praia Amélia e o respectivo e perigoso baixio onde naufragou a escuna de
guerra Amélia, que lhe deu o nome. Sobre o baixo Amélia onde, com bom
tempo se vêem numerosas barcos em plena faina pesca, na época de calemas
erguem-se alterosas vagas de rebentação com capelo assustador.
"...Em altura de 14 graus. e tres quartos está a Angra do Negro, que tem da parte do Sul humas barreiras escalvadas, em que o rnar arrebenta muito ; e a derradeira ponta destas barreiras se parece com o Pontal de Cacilhas em Lisboa; e avante desta ponta está a dita Angra, que tem huma ribeira de agua, que vem ao mar. A terra nesta paragem he verde, e parece fresca com as arvores. De Angola vinhão a esta Angra fazer resgate com búzios da índia, e com os miúdos de Angola, que chamão Zimbo."In Roteiro das Viagens às costas da Guiné, Angola e Brasil"


Março de 1955 . A pecaria do meu pai...
Março de 1955 . A pescaria recentemente inaugurada do meu pai...

Março de 1955 . Foto: A nova pescaria recentemente inaugurada do meu pai... e outras pescarias recentemente inauguradas na zona mais fustigada.
.Mas será que não havia uma solução viável para todos? Se houve solução para alguns que vieram depois...
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Contextualizando...
O
desenvolvimento dos territórios ultramarinos estavam completamente dependentes das
directivas da Metrópole, no quadro de um sistema excessivamente
centralizado que não permitia a miínima autonomia. A agravar a situação, os créditos bancários não eram prática corrente. Existia uma flagrante falta de capitais, e não
havia onde os obter. Só havia um único banco, o Banco de Angola, o emissor da colónia, mas com sede em Lisboa, e este não proporcionava crédito a
longo prazo, o único que fomenta riqueza firme, e nem pagava juros
nem recebia deposito das pequenas poupanças. Angola apresentava na época uma deflação (vazio monetário) crónica. As pessoas para contornarem o flagrante vazio de moeda. e
conseguiam solver os seus compromissos, recorriam a letras e a sucessivas
reformas das mesmas. Ter-se uma letra protestada (que não foi paga dentro do
prazo) era uma enorme vergonha! Mesmo na indústria de Pesca que era a
base da economia citadina era comum o uso do vale onde o devedor punha a
assinatura e a data, para que o fornecedor/credor permitisse levantar
a compra da mercadoria e pagá-la mais tarde.
A concentração de todas as decisões em Lisboa foi total durante o tempo colonial e tornou-se uma obsessão. Angola nunca teve uma simples autonomia e ai do governador que ousasse ir um pouco mais longe auscultando os anseios das populações e agindo em conformidade. Em Lisboa sempre imperou uma mentalidade de poder absoluto e desconfiança total com relação às colónias. Os povos coloniais eram encarados como crianças que precisavam de ser tuteladas e não eram ouvidos nem achados para nada. Por outro lado, o conhecimento científico da colónia deixava muito a desejar. Todos os estudos eram efectuados em Lisboa, daí os falhanços em algumas iniciativas mesmo que efectuadas com a melhor das intenções, como seria o caso aqui abordado.
...................................................................................................................................................................
Fica aqui mais esta recordação de um tempo em que a vida em Moçâmedes não era fácil para ninguém, a despeito do mito da "África das mil oportunidades", obviamente, pela boca de quem ali não viveu, não assistiu, nem sabe o que diz!
Clicar para ver as primitivas pescarias, na Torre do Tombo.
Fotos inéditas, gentilmente cedidas por A.S.Almeida.
(1) CALEMA - Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando graves estragos.
(2) Em Angola, tudo era importado da Metrópole e do estrangeiro. Portugal não era um país indutrializado , durante a Guerra de 1939-45 as fabricas europeias haviam estado ao serviço da guerra, no país e colónias tudo estagnou, eram enormes as carências de que a industria de pesca se debatia. A partir de meados da década de 1950 assiste-se a uma recuperação económica. Por esse tempo, a arte da SACADA e industria do Peixe Seco a eram os ingredientes principais que faziam andar a economia Moçâmedes.



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