«Desde muito tempo que se falava no rio Cunene, na fertilidade de suas margens,
e na sua riqueza mineral; porém estas notícias, apenas colhidas de indivíduos
que feiravam pelo sertão, nada diziam respeito à sua foz, havendo por isso
incerteza se era ou não navegável em toda a sua extensão. Resolvido pois a
prestar algum serviço ao meu país, tomei a deliberação de ir pessoalmente à foz
daquele rio, a fim de conhecer de que grau de importância se tornaria para o
comércio de África aquele rio, que desagua na costa ocidental, e não na
contra-costa, como erradamente vem marcado no mapa que faz parte dos ensaios de
Lopes Lima sobre a estatística das nossas possessões ultramarinas; digo que vem
marcado erradamente, porque tendo a sua origem no país chamado Nano, nome
gentílico, e que significa terras altas, divide Molembo, Rombe e Camba, que
ficam na margem direita do Canhamo, que fica na margem esquerda, descrevendo uma
curva até ao litoral do distrito de Mossâmedes, em latitude de 17° 15', o
que se conclui da descrição que os feirantes do mato fazem do seu curso, bem
como do que dizem os moimbas e mossimbas, povos que habitam na margem esquerda,
e que entretêm algumas relações com o povo de Craque, povoação ao sul de
Mossâmedes, a dia e meio de viagem. Finalmente em abono desta opinião vem a
planta junta n.º 1, copiada de um atlas geográfico em inglês (Bowles's new
one sheet map of Africa) no qual se vê a direcção que o rio leva da origem à
sua foz, e que pouco difere da que os feirantes ou fonantes descrevem.
«Na firme tenção de dar uma notícia exacta da sua foz, e ver até que ponto era
navegável, em 3 de Novembro, depois de lavrado, assinado e arquivado o
competente auto na secretaria do governo (copia n.º 1), embarquei na escuna
Conselho, bem como os srs. Bernardino F. F. Abreu e Castro, director dos
colonos, Antonio Acácio de Oliveira Carvalho, capitão do brigue Aurora,
José Duarte Franco, piloto do mesmo navio, e o colono Antonio Romano Franco, os
quais mostraram vivos desejos de me acompanhar nesta digressão, e a que
gostosamente não pude deixar de anuir. Pelas onze da noite saímos da baía de
Mossâmedes, seguindo o rumo do sul, e ao segundo dia de viagem levantou-se por
SO um vento rijo que nos obrigou a ir de capa seguida por algumas horas. No
terceiro dia abonançou mais o tempo e prosseguimos na nossa derrota; até que
finalmente no dia 8 chegámos à latitude da ponta do norte da grande baía dos
Peixes (planta n.º 2), onde entrámos nesse mesmo dia. Esta vasta baía, que tem
de largura 6 milhas e meia, e 18 de comprimento, é limitada a leste por grandes
dunas de areia, e ao oeste por uma península também de areia, cuja máxima altura
acima do nível do mar será de 8 a 9 palmos, e oferece um bom abrigo às
embarcações de qualquer lote. A baía é muito abundante de peixe, sobretudo de
baleias, como tivemos ocasião de observar. Se porventura ali se estabelecessem
feitorias de pesca, estou certo que os lucros seriam avultados para quem se
dedicasse a este ramo de indústria; e posto que o país que a circunda não
ofereça sinal de vegetação, a não ser algum pequeno arbusto da família dos
cactos, contudo tem muito próximo água doce; e na costa que segue ao sul da
baía, na extensão do 80 milhas, muitos troncos de árvores que logo supusemos,
como depois se verificou, serem oriundos das margens do rio Cunene, os quais,
sendo lançados ao mar na ocasião das cheias pela sua grande e forte corrente,
são depostos pelas marés no litoral ao norte da boca do rio. Pela ocasião de nos
aproximarmos do fundo da baía figurou-se-nos ver algum arvoredo e um grande
lago, o que tornava mais risonho o aspecto do país, mas esta ilusão durou poucos
momentos; era a refracção que nos convertia os pequenos arbustos em grandes
árvores, e o fenómeno da miragem que nos fazia tomar por lagos o que
apenas eram planícies de areia em que reflectiam as supostas árvores e outros
objectos elevados. Estivemos os dias 8, 9 e 10 fundeados na baía, na intenção de
continuarmos a viagem por mar e irmos deparar com a boca do rio; porém sendo
aquele ponto pouco conhecido, havendo o receio de ser difícil a sua entrada, e
não acharmos próximo um abrigo seguro para a escuna, decidiu-se fazermos por
terra o resto da viagem ao longo do litoral.
«Feitos os preparativos necessários, pelas oito horas e dez minutos do dia 11
desembarcámos e pusemo-nos em marcha a pé, no número de dez brancos e onze
negros, que nos serviam para conduzir os comestíveis. Depois de havermos
descansado duas vezes, tendo-se caminhado por areias movediças, marcha bastante
penosa debaixo de um sol ardente, fizemos alto pelas cinco horas da tarde na
praia das Esponjas, onde armámos barraca e passámos a noite, tendo sido o nosso
trajecto até ali de 14 milhas, rumo SSO. Pelas quatro horas da tarde do dia 12
prosseguimos a nossa jornada na direcção NS caminhando por grandes bancos de
granito, cortados no sentido longitudinal e transversal por veios de basalto,
ficando-nos
por leste grandes dunas de areia. A marcha
foi menos penosa em razão do piso ser mais suave, e de termos tido maior número
de descansos por causa dos carregadores que iam bastante fatigados. Às quatro e
meia da tarde, tendo percorrido 12 milhas, acampámos junto ao litoral, sem que
houvesse sequer um pequeno sinal que nos indicasse a proximidade de um rio.
Quando se deu ordem para a ração de água, o que assim se tornava necessário,
pois que apenas levávamos duas ancoretas dela para vinte e uma pessoas, ficámos
um pouco desanimados, sabendo que apenas contávamos com cinco a seis quartilhos
de água, sem esperança de a havermos em lugar próximo.
«No entretanto tomou-se a resolução de mandar duas pessoas um pouco mais para o
interior, encarregados de fazerem escavações em terrenos baixos em procura de
água, infrutuoso trabalho. Ainda não descoroçoados, e na firme tenção de obviar
todas as dificuldades à nossa marcha, partiu para o mesmo fim o sr. Abreu Viana
acompanhado de algumas pessoas. Mal sabíamos que apenas distávamos do rio 4 e
1/2 milhas. Pelas nove e meia da noite voltaram da sua expedição trazendo em
duas garrafas uma porção de água límpida e fresca tirada do rio que no dia
seguinte íamos ver.
«Passámos a noite alegremente, e ansiosos pelo romper da aurora para
chegarmos
ao nosso fim desejado. Não tardou muitas horas. Às quatro da manhã
levantou-se
barraca, e pelas cinco e meia chegou-se á margem direita do rio, légua e
meia
acima da sua boca. Daquele ponto se notaram logo coroas de areia, as
quais
aumentavam para a sua foz; e junto a esta existe uma ínsua com alguma
vegetação
(paisagem n.º 1). Porém não sendo possível conhecer daquele ponto se o
rio tinha
ou não entrada ampla e livre, fomos ao longo da margem direita até à
costa; ali
tivemos ocasião de ver que em frente do rio há um banco de areia, que
liga
completamente com a costa, que na ocasião das enchentes é roto ou
transposto
pelas águas do rio; e que, quando este leva pouca água, esta é
infiltrada na
areia. Deve-se aqui notar que Pimentel no seu roteiro diz que a corrente
deste
rio se faz sentir umas poucas de milhas ao mar; e indica o rumo que uma
lancha
ou escaler deve seguir na entrada do rio; porém estou intimamente
convencido que
quando este navegador ali passou foi na ocasião da cheia, que
considerando-a
como o seu curso regular, não apontou por isso esta circunstância. Ora,
se em
lugar de fazermos o resto da viagem por terra, fôssemos por mar, sendo o
banco
bastante alto, e confundindo-se com o resto da costa, não dávamos por
certo com
o rio, embora a sua latitude se ache bem demarcada. E quando mesmo se
pudesse
avistar o rio, a costa é tão batida que não permitiria a aproximação de
uma
lancha, sob pena de ficar destruída. Junto ao litoral, e na margem
direita do
rio, há bastante vegetação, e ali encontrámos grande quantidade de
corças, penélopes, e cabras, que apesar de levarmos as nossas
espingardas não foi
possível tê-las a alcance de tiro. A costa neste ponto corre a SSO, e
não
oferece abrigo de qualidade alguma. O rio junto ao banco é bastante
espraiado, e
apenas permitirá que ali navegue um barco de fundo de prato; as suas
margens são
pouco elevadas, formadas de areia e calhau rolado com alguma vegetação;
voltámos
desta digressão para o nosso acampamento, e logo depois, e pela primeira
vez
deparámos com um elefante passeando na margem esquerda. Houve grande
alvoroço no
nosso pequeno bivaque com a aparição deste pacifico habitante das
margens do rio Cunene, e imediatamente seis indivíduos da nossa comitiva
passaram o rio a vau
para lhe darem caça, não sem risco de vida na passagem do rio por causa
dos
jacarés, em que é abundante.
«Alguns dos caçadores mais atrevidos dispararam as suas armas bem perto do
animal, mas este, sem alterar a sua marcha, foi seguindo o seu caminho sem que
fizesse o menor caso dos seus perseguidores. No seu passo moroso, mas largo,
ganhou aos caçadores grande dianteira, apesar de estes se esforçarem pelo
alcançar, e encaminhou-se para o ponto da margem correspondente àquela onde
tínhamos a barraca. Não foi sem algum receio que vimos o animal atravessar o rio
na nossa direcção; pusemo-nos em defesa começando a fazer-lhe fogo, o que não
impediu que efectuasse a passagem com bastante sossego, e seguisse para o
interior pela margem direita sacudindo de vez em quando as suas enormes orelhas
como sinal demonstrativo de lhe ser estranha e pouco agradável a música das
balas.
«Passámos o resto do dia e noite perfeitamente sossegados, tendo-se previamente
decidido, visto termos ainda mantimentos e grande abundância de água,
explorarmos o rio até onde pudéssemos. No dia 14, pelas quatro horas da manhã
seguimos ao longo da margem direita, encontrando a cada passo de um e outro lado
do rio grandes medas de lenha, e troncos grossos semelhantes àqueles que vimos
na costa. As margens vão-se elevando a pouco e pouco, e o rio estreitando-se sem
que seu curso seja interrompido; mas a duas horas de viagem encontrámos grandes
cachoeiras (paisagem n.º 2). A margem esquerda é formada de elevadas dunas de
areia, e a margem direita de grandes rochas graníticas cortadas a prumo, o que
nos obrigou a afastar um pouco da margem, e a seguir pelo espaço de quatro horas
e meia primeiro que voltássemos ao rio. Foi este um dia de marcha mais penoso
que tivemos, e sobretudo para os carregadores, em razão do terreno ser cortado
por grandes ravinas, que ora eram transpostas, ora torneadas.
«Não sendo possível prosseguir mais naquele dia em razão do grande cansaço,
caminhámos para o rio a fim de na sua margem escolhermos um local onde
passássemos a noite; efectivamente chegámos a um sitio agradável e pitoresco,
mais rico de vegetação, sendo a maior parte dela composta de cedros de dimensões
muito menores que os da Europa; as margens são aqui um pouco espraiadas,
oferecem, sobretudo á direita, fácil trânsito, sem que contudo deixe de ser
orlada de grandes rochedos, continuando pela margem esquerda sem interrupção as
dunas de areia. Neste lugar encontrámos grande quantidade de bosta de elefante,
pegadas de zebras, corças, raposas, macacos, e de leão. A direcção do rio é de
NE quarta de L.
«Em 15 continuámos a marcha com grande escassez de mantimentos, sem esperança de
obtermos caça de qualidade alguma. Pelas nove horas e meia apertando mais o
calor fizemos alto para descansar e almoçar o resto do nosso farnel, na firme
tenção de retrocedermos, e ganharmos a baía no mais curto espaço de tempo, para
não passarmos por crise de fome num país onde se não encontrava vestígio algum
de gente. Felizmente durante o descanso avistou-se um elefante com seu filho em
uma ilhota de capim, a menos de tiro de fuzil. Houve logo ideia de acometer a
mãe para lhe apanhar o filho, mas a que eu não anuí, pois que sobre mim pesava
grande responsabilidade, se por desgraça algum da comitiva fosse vítima do seu
atrevimento; estivemos por algum tempo vendo o animal andar de roda do filho,
como querendo abrigá-lo de alguma agressão, até que por fim o desamparou e
seguiu pelo rio acima. Logo que o perdemos de vista consenti que fossem dar caça
ao filho: em breves minutos um dos soldados que nos acompanhava, soldado preto e
desembaraçado, transpôs o espaço que mediava entre nós e o animal, e à
queima-roupa lhe disparou um tiro que o varou de espádua a espádua. Foi
imediatamente conduzido por seis pessoas para o lugar onde estávamos, aberto e
esfolado, esquartejado, e distribuído em rações. Pesava 7 arrobas, apesar de ser
recém-nascido, o que se verificou por não ter coisa alguma nos intestinos, e
somente uma porção de leite contido no estômago. Mandou-se logo cozer e assar
uma porção de carne, e posso asseverar que é excelente.
«Pouco depois prosseguimos mais satisfeitos a nossa viagem: o aspecto do país
que íamos percorrendo era sempre o mesmo, com a diferença porém da vegetação ser
mais desenvolvida (paisagem n.º 3), e as pegadas de diferentes animais serem em
maior número, com especialidade as de elefante, o que leva a crer que nas
margens do rio, mais para o interior do país é onde persistem grandes manadas de
elefantes, e que em certas épocas do ano descem às margens por que caminhámos.
«Desde a boca do rio até ao lugar a que pudemos chegar, que se calculou ser de
21 milhas, encontrámos oito elefantes dirigindo-se para o interior do país. Até
este ponto o rio não tem importância alguma, é bastante estreito, tortuoso e
cheio de cachoeiras, e por isso inavegável. Ainda mesmo que se destruíssem as
cachoeiras, o que não era impossível, o rio nunca poderia ter a sua foz
completamente desembaraçada; porquanto sendo a margem esquerda formada por
grandes morros de areia, com facilidade é levada pela força da corrente, e em
ocasião de cheias, até junto da sua foz, aonde sendo o rio mais espraiado, é ali
depositada, em consequência da velocidade da corrente ser menor. Se o rio é
navegável em alguns dos seus pontos não o sabemos, nem tão pouco a que distância
nos ficam os povos que habitam suas margens; o que divisámos foi uma cordilheira
de montanhas na direcção NS, e bastante elevadas, que supusemos distarem de nós
de 6 a 7 léguas. Não nos dispusemos a transpô-las em razão das poucas ou quase
nenhumas comodidades com que fizemos esta viagem; além de que a nossa missão era
outra, e estava cumprida; e por isso no dia 16 regressámos à grande baía dos
Peixes na direcção NO quarta N., onde chegámos no dia 17 pelas dez horas da
manhã; tendo sido nosso trajecto por terra e a pé trinta e tantas léguas.
Seguiu-se o embarque, e pela uma hora da tarde fez-se a escuna de vela, e às
quatro horas da tarde do dia 18 lançava ferro na bela baía de Mossâmedes. Logo
depois do desembarque lavrou-se um novo auto (cópia n." 2) das circunstâncias
que se deram na viagem, e dos motivos que nos levaram a alterar a denominação
daquele rio. Os resultados desta digressão vão-se sentindo; vários moradores de
Mossâmedes, e que costumam negociar para o mato, preparam-se para fazer por
terra uma excursão às margens do rio dos Elefantes, onde decerto vão achar mais
uma fonte de riqueza para o comércio do estabelecimento: se porventura tratarem
amigavelmente com o gentio daquelas paragens, o que decerto influirá para que
de futuro venha pessoalmente negociar a Mossâmedes, a exemplo dos povos dos
Gambos, Huila, Jau, Humpata, Quilengues, Humbe, Camba, Mulondo e outros.
«Mossâmedes, 20 de Novembro de 1854. Fernando da Costa Leal.»
Transcrito da Nota 9.ª de Exame das
viagens do Doutor Livingstone, por D. José de Lacerda, Lisboa, Imprensa
Nacional, 1867, pags. 515-520. Actualizou-se a ortografia, mas manteve-se a
pontuação.

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