Créditos: Postais de DelCampe
Em Janeiro de 1883, aportaram a Landana, as primeiras religiosas das
irmãs da Congregação das Irmãs de S. José de Cluny. Foi o princípio de
uma presença continuada de 125 anos de uma
Congregação, iniciada em França, mais propriamente em 11 de Novembro de
1789, na esteira da vitória dos republicanos e jacobinos na revolução
francesa.
A história da fundação desta Ordem, tem origem
precisamente num episódio, relacionado com uma pretensa perseguição a
membros do clero por parte dos republicanos franceses, o que leva a que a
bretã Ana Maria Javouey, tenha feito voto para se dedicar ao
missionarismo, tendo sido a sua primeira Madre Superiora.
Segundo o
professor Martins dos Santos no seu excelente trabalho “Cultura,
Educação e Ensino em Angola” diz a páginas tantas “No dia 15 de Maio de
1885, embarcaram em Lisboa, com destino a Angola, a bordo do vapor
África, três religiosas de S. José de Cluny, que nos aparecem no
documentos da época sob a designação de Irmãs Educadoras, por se
dedicarem especialmente à obra educativa e às actividades escolares.
Destinavam-se às colónias do planalto sul. O governador do distrito de
Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, empregou toda a sua influência para
as reter na cidade, demovendo-as de se transferirem para o interior.
Conseguiu os seus intentos e as religiosas estabeleceram-se ali, abrindo
pouco depois a sua primeira escola. Segundo certas indicações que
conseguimos obter, foi no dia 8 de Julho desse ano de 1885 que se
fixaram em Moçâmedes. Foi a primeira povoação angolana a aproveitar-se
da meritória acção das Irmãs Educadoras, se exceptuarmos a missão de
Lândana, onde se estabeleceram em 1883, portanto dois anos mais cedo.”
Ainda
se podia ler mais: “ No decorrer de 1897, chegaram a Angola algumas
religiosas de S. José de Cluny, que se destinavam a Moçâmedes. O
governador-geral António Duarte Ramada Curto, com o apoio de outros
elementos de influência na cidade, instou com elas para se fixarem em
Luanda. Desejava que abrissem uma escola, o que efectivamente fizeram;
começou a funcionar no dia 1 de Dezembro desse ano, na Rua da
Misericórdia.”
“Ainda a propósito dos referidos exames, o
governador-geral Ramada Curto louvou, por portaria de 16 de Maio de
1900, as Irmãs Educadoras, nos termos seguintes: "Tendo eu confiado, em
Dezembro de 1897, às Irmãs Educadoras, da Congregação de S. José de
Cluny, a regência da cadeira de ensino primário, do sexo feminino, da
cidade de Luanda, fechada por falta de alunas, e tendo presenciado o
aumento sempre crescente do número de crianças matriculadas, vistas as
informações prestadas com respeito à competência das professoras e
aproveitamento das alunas, hei por conveniente louvar as Irmãs
Educadoras, da referida congregação, que têm regido a escola, e em
especial a superiora, Ir. Antónia Maria George, pelo zelo, competência e
inteligência que têm demonstrado na regência da escola que lhes
confiei". As Irmãs Educadoras agrupavam os seus alunos em cinco classes,
conforme o seu adiantamento escolar. Por curiosidade, inserimos aqui o
esquema do estudo ministrado: —Leitura, escrita e rudimentos de doutrina
cristã; —Prática de ler, escrever e contar, e doutrina cristã; —Ler,
escrever e contar, doutrina cristã e trabalhos manuais; —Gramática
portuguesa, tabuada, aritmética, doutrina cristã e trabalhos manuais.”
Esta
foi de uma forma sintética a relação das “madres” com a educação em
Angola até à assinatura da Concordata de 10 de Julho de 1940, entre
Portugal e a Santa Sé, onde se anexava o Acordo Missionário, que deu à
Igreja Católica todas as facilidades e mordomias várias no ensino nas
colónias, em detrimento de muitas outras confissões religiosas que ao
tempo já trabalhavam na colónia, com algum empenho, tendo algumas sido
perseguidas e os seus pastores e missionários presos ou expulsos dos
territórios.
No fim dos anos 40, tendo em conta a exiguidade das
instalações na Misericórdia, e com grande empenhamento do Monsenhor
Alves da Cunha (aproveito para lembrar que parte das letras da peanha da
sua estátua caíram, pelo que não seria mau que fossem lá colocadas de
novo), foi-lhes dado um terreno na Rua do Kafako, que é nem mais nem
menos que o nome muito antigo da rua que desemboca na Rua da Missão.
Ali
se construiu um edifício de gosto revivalista-classizante, exemplar de
“Arquitectura do Estado Novo”, vulgarmente conhecida pelo gosto
“Português Suave”, que dada a sua volumetria, os seus portais, arcadas,
frontões, torreões e pináculos é um edifício marcadamente matizado na
paisagem urbana.
Desde 1953 até 1975, no colégio de S. José de Cluny
em Luanda leccionou-se a raparigas desde a instrução primária até ao 5º
ano do liceu, como era costume dizer-se ao tempo, em regime de
externato, havendo também algumas alunas internas.
Esse edifício,
que foi a seguir à Independência do País o Instituto Pré-Universitário
de Luanda, foi entregue à Igreja Católica, aquando dos acordos entre o
governo e o Papa Woityla, na sua passagem por Luanda no início dos anos
90.
Desse acordo, surgiu a possibilidade da instalação da
Universidade Católica no edifício que sofreu para o efeito inúmeras
obras de reparação e beneficiação.
No Huambo também foi criado no fim
dos anos 50 um colégio com as características do de Luanda, também
orientado pelas” irmãs de Cluny”, que para além destes colégios mais
emblemáticos, tinham outros espalhados pelo território de Angola, como
por exemplo em Cabinda, Namibe e Malange.
Muitas alunas passaram
pelos colégios e internatos da “Congregação das Irmãs de S. José de
Cluny”, o que não deixa de ser relevante em trabalhos futuros que se
façam sobre o ensino em Angola, pois a sua presença durante 125 anos,
perpetuou uma obra que merece cuidado respeito.
Fernando Pereira
7/05/07
Do site Recordações da Casa Amarela


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